quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Monstros Imaginários - O poder da Histeria Coletiva em dois casos curiosos


O comportamento de massa pode ser algo muito curioso.

Um teste muito conhecido realizado algumas décadas atrás envolvia uma pessoa na rua olhar para o céu atentamente se negando a responder perguntas à respeito do motivo para estar fazendo isso. Dentro de instantes, uma ou duas pessoas começam a fazer o mesmo. Ao perceber estes olhando, mais alguns o fazem, e logo, muitas pessoas estarão paradas olhando para o céu sem razão alguma. Mais interessante ainda: se alguém criar a história de que há um objeto voador estranho e que essa é a razão para estar olhando para o alto; pode apostar: algumas pessoas vão dizer que viram algo inexplicável no céu. Alguns vão afirmar que acreditam ter visto algo, outros que com certeza viram algo e outros ainda, vão descrever o tal objeto em detalhes.

Não se trata de inventar ou mentir, ou mesmo de má fé, mas de um comportamento de massa que nos acompanha desde o início dos tempos.

Um caso clássico ocorreu em 1976 na Malásia, quando uma série de surtos e suposta histeria coletiva atingiu o país. Na ocasião as vítimas manifestavam uma série de efeitos bizarros, alguns de natureza física, atribuídos segundo as crenças locais a entidades sobrenaturais que os afligiam.


Entre os sintomas descritos pelas vítimas havia vertigem, náusea, dificuldade para respirar e até desmaios sem motivo aparente. Algumas pessoas teriam até mesmo manifestado um estado de torpor semelhante a um transe do qual não conseguiam despertar, nem mesmo quando sacudidos bruscamente. À medida que os dias passavam, mais e mais pessoas se queixavam dos estranhos efeitos. Haviam pessoas literalmente caindo nas ruas ou incapazes até de acordar de manhã.

Mais estranho ainda: algumas vítimas afirmavam ver figuras misteriosas rondando ou espreitando nas cercanias. Os descreviam como vultos furtivos, sombras escuras e fantasmas imateriais que apareciam de um momento para o outro. Estas formas também atravessavam paredes, flutuavam no ar e desapareciam sem deixar vestígio causando choque e terror entre as testemunhas.  

As vítimas tinham em comum o fato de serem todas jovens estudantes do sistema escolar local. Eram crianças e adolescentes entre 7 e 18 anos de idade, que diziam ver as criaturas poucos instantes antes de manifestar algum dos estranhos sintomas. Uma vez que algumas das vítimas afirmavam que rezar e implorar por proteção divina atenuava os efeitos, as pessoas passaram a acreditar que as crianças estavam sendo atacadas por espíritos. 

No entanto, uma investigação dos psicólogos Raymond Lee e S.E. Ackerman, que se dedicaram ao caso, contou uma história bem diferente.


Os psicólogos reconheceram nos estranhos ataques manifestações de comportamento de massa, mais especificamente histeria coletiva. Bastava uma criança manifestar os sintomas para que outras fizessem o mesmo. Em uma única sala de aula, doze crianças manifestavam os efeitos. Curiosamente, toda vez que um grupo de curandeiros malaios era chamado para ajudar, estes distribuíam talismãs ou realizavam rituais para apaziguar os espíritos, fazendo as coisas voltar ao normal, ao menos, até o próximo episódio eclodir.

Lee e Ackerman observaram em seu estudo que tanto eles quanto os curandeiros malaios encontraram maneiras de explicar o fenômeno. Os curandeiros, acreditavam que espíritos estavam agindo em retaliação a um grupo de crianças que supostamente teriam ridicularizado um sacerdote local. Para eles, era necessário apaziguar os espíritos usando magia e rituais. Quando estes eram realizados, os espíritos deixavam as crianças em paz. Os psicólogos tinham outra abordagem do caso. relacionaram os casos com profundas mudanças sociais no país. A Malásia passava por uma transição cultural na qual crenças antigas de pais e avós não eram mais tão importantes para os filhos. Isso produzia um stress que se manifesta de maneiras peculiares; neste caso, com a percepção de que fantasmas, estariam os punindo por não respeitarem tradições.

Esse caso de histeria coletiva relatado acima e ocorrido no final dos anos 70, não foi de forma alguma o único incidente em que um pânico peculiar se instalou repentinamente num lugar e se espalhou entre a população. 

Um dos incidentes mais bizarros envolvendo Histeria Coletiva foi documentado no início do ano 2000 quando centenas de pessoas viram um misterioso "Homem Macaco" na cidade de Nova Delhi, na Índia. O caso atraiu atenção de profissionais clínicos, das autoridades e da mídia.


Descrito na maioria dos relatos como uma criatura semelhante a um enorme primata, o "Homem-Macaco de Delhi" passou semanas aterrorizando residentes em diferentes áreas da capital indiana. O pânico era tamanho que alguns residentes organizavam caçadas pelas ruas e até mesmo nos telhados das casas. Outros acendiam enormes fogueiras para tentar afastar a criatura, queimavam incenso e pediam proteção aos deuses. 

As descrições sobre a aparência da besta variavam enormemente: alguns relatos diziam que a criatura era um tipo de símio de grande porte coberto de pelos escuros e compridos. Seria semelhante a um enorme gorila, com mais de 2 metros e meio de altura e a força proporcional de 10 homens. Além disso, seria muito inteligente, conseguindo arrombar portas e janelas para entrar nos domicílios afim de roubar objetos e comida. Algumas testemunhas diziam, no entanto, que ele era pequeno e esguio, com pelos castanhos e não maior que uma criança. Escalava com facilidade e podia escapar saltando nas copas e galhos das árvores. Os mais criativos misturavam as teorias, concluindo que se tratava de mais de uma criatura, ou então, que ela podia assumir a forma que bem entendesse adotando o físico que melhor lhe servisse à situação.

Os rumores se espalhavam com uma velocidade impressionante. Não demorou até que surgissem narrativas perturbadoras de que o "Homem-Macaco" havia matado com suas mãos e que, uma vez experimentando esse prazer, estaria disposto a matar novamente quem se metesse no seu caminho. O pavor era tamanho que os residentes andavam armados, crianças eram proibidas de sair de casa e algumas regiões decretaram toque de recolher. Como o monstro era visto mais à noite, as ruas ficaram subitamente vazias, lojas e restaurantes fechavam suas portas e o terror era palpável. Os avistamentos do "Homem-Macaco" se multiplicavam nas mais variadas áreas da cidade e adjacências. Em uma única noite, o monstro foi visto em seis distritos diferentes - ele parecia estar em todo canto! A polícia não conseguia dar conta da quantidade assombrosa de telefonemas e denúncias.

Apos quase tres semanas de histeria, a história finalmente começou a perder força, sobretudo porque houve uma grande campanha para conscientizar a população que a criatura simplesmente não existia. Um acordo inédito entre a prefeitura de Nova Delhi, as forças policiais e a imprensa trataram de demonstrar que as histórias sobre o Homem-Macaco não passavam de boatos infundados. Ainda assim, haviam pessoas que juravam ter visto o monstro, escapado dele ou até mesmo, lutado com a criatura.

Mesmo hoje, passados 20 anos, Nova Delhi ainda lida com rumores do "Homem-Macaco" sendo visto. Uma pesquisa realizada em 2016 apurou que mais da metade da população acreditava que o monstro era real e que ele simplesmente estava escondido aguardando o momento de ressurgir.


O surgimento de monstros imaginários não é, entretanto um fenômeno de países do oriente. Personagens míticas; do Pé-Grande, ao Sasquatch, passando pelo Spring-Jack Weeled que apavorou Londres no século XIX, as serpentes marinhas e mais recentemente, o Chupa-cabras na América do Sul, podem ser exemplos flagrantes de histeria coletiva. Muitos dos avistamentos de discos voadores também podem ter sido causados por um comportamento de massa. Não faltam narrativas de pessoas que acreditam ter experimentado algum tipo de contato direto com criaturas ou entidades mágicas.

Existe alguma relação direta entre o aparecimento de criaturas coincidindo com períodos reconhecidos de estresse e mudança social? A resposta parece afirmativa, contudo concordar inteiramente com essa observação nos levaria a supor que todos os casos de avistamentos de seres incomuns, poderiam ser explicados como histeria coletiva. É verdade que alguns psicólogos tentaram tal abordagem, mas supor que TODAS essas ocorrências ​​tem origem sociológica apresenta mais dúvidas (e problemas) do que certezas. Há casos e casos, e como diria a citação, parece "existir mais coisas entre o céu e a Terra do que sonha nossa vã filosofia".

Além disso, episódios de monstros gerados por histeria coletiva, por mais reais que pareçam, não deixam pegadas no solo, não produzem vítimas fatais ou aparecem em fotografias e filmes produzidos por testemunhas. É fato que a imaginação humana pode produzir fantasmas muito reais, mas até que ponto seriam eles a explicação para nossos medos e apreensões?

De toda forma, há monstros e mistérios fadados a permanecerem conosco, nos assombrando e aterrorizando, não importando que sejam eles reais ou fruto de nossa imaginação.  

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Nova Safra de Horrores - Filmes Lovecraftianos sem ser Lovecraftianos


Todo fã de filmes de terror e de H.P. Lovecraft espera ansiosamente por um filme de qualidade inspirado na obra do distinto Cavalheiro de Providence.

Infelizmente as produções inspiradas pela obra de Lovecraft no cinema renderam uma safra variada de filmes no que diz respeito a qualidade. Eu costumo dividir os filmes baseados em três tipos:

1) Aqueles bastante fiéis, sobretudo por serem feitos por fãs, como "The Call of Cthulhu" e "The Whisperer in Darkness" ambos produzidos pela HPLHS (HP Lovecraft Historical Society). Outro que possivelmente seria bem fiel, "Nas Montanhas da Loucura" por Guilhermo del Toro,m nunca saiu da pré-produção, mas quem sabe, ainda haja esperança.

2) Os que embora tenham o título e elementos de contos de Lovecraft, não passam de adaptações, por vezes bastante livres do tema original. Por exemplo, "Reanimator" se passa nos dias atuais, assim como "From Beyond" e "Dagon" que tem apenas o nome em comum com a sua fonte. Mais recente, tivemos a adaptação de "A Cor que Caiu do Espaço" com Nicholas Cage. Eles são inspirados pelos contos originais, mas guardam poucas similaridades além do título, das criaturas e de algumas circunstâncias. Esses filmes, algumas vezes longe de serem ruins, tomam enormes liberdades e deixariam Lovecraft chocado pelas cenas de nudez e violência extrema.

3) E tem aqueles que são simplesmente ruins demais. Filmes oportunistas que se apropriam do título, dos nomes e de personagens dos contos e que embora bebam da fonte do horror cósmico não tem nada a ver com a sua inspiração. São em geral produções rasteiras, lançadas diretamente no mercado de homevideo ou streaming.

Finalmente, há uma quarta vertente. São filmes inspirados no Universo de Horror Cósmico do Mythos, sem contudo assumir isso em momento algum. Exemplos clássicos podem ser "O Enigma do Outro Mundo", "O Culto", "The Void" e outros menos óbvios como "Alien". São filmes "Lovecraftianos sem ser Lovecraftianos".

Esses filmes tem se tornado cada vez mais frequentes, já que o tema tem atraído mais e mais diretores e roteiristas. Esses filmes tem elementos claros de Horror Cósmico: impotência, pessimismo, loucura, isolamento, forças esmagadoras não-naturais e uma ameaça à humanidade. Não há uma ligação direta com o Mythos de Cthulhu, mas para bom observador, ela está bem óbvia nas entrelinhas. 

A seguir, temos uma pequena lista de filmes tipicamente lovecraftianos, mas na qual você não ouvirá uma vez sequer os nomes Cthulhu, Dagon, Necronomicom etc... Nem todos são "bons", alguns são meio "estranhos", mas no geral são filmes com uma pitada de tentáculo, aqui e um horror indizível ali.

Confesso que tomei emprestado o mesmo texto que escrevi alguns anos atrás quando preparei um artigo exatamente sobre o mesmo tema. Incrível que de lá para cá, pouca coisa mudou e as referências continuam rigorosamente as mesmas. Continuo esperando "aquele filme" lovecraftiano que vai definir o gênero e fazer jus à literatura de Lovecraft. Enquanto isso, vamos nos agarrando ao que temos.

Sem mais delongas, a lista:

1) SACRIFÍCIO 
(Sacrifice, 2020)


Esse pequeno filme independente norueguês gerou algum burburinho ano passado entre os fãs de H.P. Lovecraft carentes de um bom filme com temática dos Mythos de Cthulhu. Embora em momento algum ele deixe claro que se trata especificamente de um filme inspirado por Lovecraft. 

A presença marcante de Barbara Crampton, atriz que desde "Re-Animator" tem uma ligação bastante estreita com filmes de horror Lovecraftiano também é um sinal claro da intenção do roteiro e do diretor. Apesar do orçamento obviamente curto, a produção consegue ser boa, com fotografia, aspectos psicodélicos e uma atmosfera assombrada adequada. Ele se passa em um ambiente que ressalta o sentimento de isolamento típico do gênero, uma pequena ilha na costa da Noruega. As atuações do elenco de coadjuvantes também são decentes e não atrapalham em nada o filme.

A história é simples; após o falecimento de sua mãe, Isaac e sua esposa grávida retornam para sua cidade natal em uma remota ilha norueguesa esperando receber uma herança e se reconciliar com o passado. Durante a visita, o casal acaba descobrindo um segredo de família e tem que confrontar uma revelação medonha à respeito de Isaac. A viagem que deveria ser agradável, se transforma em um pesadelo a medida que um Culto Profano ameaça a segurança deles e de seu filho não nascido.

Referências a Lovecraft podem ser encontradas aqui e ali. Os maníacos cultuam um deus marinho misterioso, referido como "O Adormecido" e é claro, há estátuas que remetem a Cthulhu e outros horrores reconhecíveis. Além de tentáculos em CGI e algumas sequências de pesadelos que fazem referência direta a monstros das profundezas. Mas apesar das imagens prenderem o interesse, a sucessão de sonhos bizarros começa a cansar à medida que se tornam repetitivas lá pelas tantas. Há uma reviravolta inesperada no final, mas mesmo ela acaba soando como cliché.

O Sacrifício é divertido, bem feito e claramente produzido por pessoas que conhecem os Mythos e quiseram prestar uma homenagem ao gênero. Infelizmente, nem sempre boas intenções são o suficiente... ainda assim, recomendo para quem se dispuser a assistir sem grandes expectativas. 


2) O MENSAGEIRO DO ÚLTIMO DIA 
(The Empty Men, 2020)


É uma pena que esse filme tenha passado batido pelos cinemas, sendo lançado direto nas plataformas de streaming sem nenhuma cerimônia. Eu assisti semana passada e achei bem interessante a premissa.

O filme começa na Ásia, com um grupo de amigos viajando pelas montanhas do Butão e descobrindo um horror ancestral oculto numa caverna. Dali, a ação se transfere para um ambiente mais familiar, numa típica cidadezinha dos Estados Unidos. Um grupo de adolescentes inconsequentes acaba invocando uma entidade sobrenatural conhecida como o Mensageiro do Último Dia, um tipo de divindade que vai se aproximando gradualmente de quem o convocou ao longo de três dias. Um ex-policial é chamado pela mãe de uma adolescente para descobrir o que se passa e acaba se envolvendo com uma série de incidentes perturbadores que deixam claro a presença de uma manifestação sobrenatural.

O Mensageiro do Último Dia, que recebeu um título muito ruim e poderia tranquilamente se chamar "O Homem Vazio", tem vários elementos de horror cósmico e claras referências lovecraftianas. A entidade, o tal Mensageiro, é indubitavelmente uma Divindade dos Mythos que manipula a percepção e devasta com a sanidade das pessoas. O filme também trata de Misticismo asiático, em especial as estranhas tradições esotéricas tibetanas com a expansão da percepção, alteração da realidade e da interessantíssima lenda do Tulpa - uma espécie de criatura conjurada pelo pensamento que ganha forma real. Além disso, o filme apresenta um Culto pra lá de bizarro, o Instituto Pontifex um tipo de seita moderna arrepiante que promove uma lavagem cerebral nos seus membros. As cenas em que o investigador tenta entender os rituais bizarros e começa a ver coisas que não consegue explicar são perfeitas e me lembraram algumas das melhores sequências de True Detective em que alucinações vão se misturando com o mundo real.

Infelizmente o roteiro não consegue manter o pique ao longo do filme inteiro que poderia ser um pouco mais enxuto. A investigação é interessante, o mergulho no sobrenatural, sobretudo com as cenas dos rituais do infame Instituto são excelentes, mas a reviravolta final fica um pouco forçada e deixa algumas lacunas em aberto. Poderia ser um pouco mais simples, mas ainda assim, é um filme acima da média. 

Fica a sensação que poderia ser melhor, mas vale conferir.


3) A CASA DA PRAIA 
(The Beach House, 2019)


As opiniões à respeito desse filme independente menor variam bastante. Dependendo de quem escreve a resenha ele é elogiado pela sua originalidade ou criticado sem dó nem piedade. No fim das contas fica no meio termo. Talvez ele fosse melhor aproveitado se tivesse o formato de um curta metragem, com, quem sabe, 45 minutos de duração, já que a história é bem simples e poderia ir direto ao assunto numa metragem menor.

Na trama, um jovem casal decide passar as férias em uma bela casa de praia. Eles acham estranho que o lugar esteja deserto e não haja vizinhos à vista. Sua tranquilidade é interrompida pela chegada de convidados inesperados e bastante estranhos. Se isso não fosse ruim o bastante, um misterioso nevoeiro que parece transportar uma doença, começa a se espalhar pelas redondezas causando reações inesperadas nas pessoas.

Se a sinopse parece meio vaga, é porque esse filme funciona melhor se você não souber muito a respeito dele. Quanto mais de surpresa o espectador for pego, melhor!

Para alguns o filme pode parecer lento, e de fato é, mas o ritmo da trama vai aumentando na porção final quando a coisa fica tensa. Esse é daqueles filmes de terror que permite ao público se acostumar com os personagens para que mais tarde você se importe com o destino deles. E o elenco de rostos desconhecidos é excelente.  

"A Casa da Praia" tem reviravoltas muito inteligentes, nada de sustos fáceis e quase nenhum efeito especial mirabolante, mas o horror corporal produz alguns bons arrepios e certo grau de gore. Vale a pena ficar atento aos acontecimentos e se deixar envolver pela construção da atmosfera que está lá para deixá-lo pouco à vontade. As sequências de pesadelos são especialmente bizarras.

O final é um tanto controverso e abrupto, imagino que nem todos irão gostar de como a coisa termina, mas pessoalmente, eu achei bem satisfatório. Assista por sua conta e risco!  


4) A PELE FRIA 
(Cold Skin, 2017)


Esse filme foi lançado dois anos antes do celebrado "O Farol", e vai num caminho bem diferente embora também trate de dois homens habitando o farol de uma ilha deserta e tendo de enfrentar uma ameaça desconhecida. Enquanto o Farol se concentra nos aspectos psicológicos, "A Pele Fria" trata do confronto direto contra um inimigo de carne e osso, mas não menos assustador.

No ano de 1914, pouco antes do início da Grande Guerra, um jovem observador climático chega à uma ilha isolada no Círculo Polar Ártico com o intuito de realizar estudos ali. Ele deve ficar no lugar por pelo menos 12 meses. O rapaz se vê obrigado a dividir um velho farol, a única construção na ilha, com um homem estranho e de temperamento violento que conhece terríveis segredos a respeito do lugar. Para sobreviver ao ambiente hostil e ao horror que habita as profundezas, os dois terão de unir forças em uma luta desesperada.

A Pele Fria é tratado por alguns como um simples filme de ação, e de fato há uma boa dose de tiros, explosões e lutas, mas em essência, ele trata da luta desesperada de dois homens com personalidades opostas contra um ambiente hostil e criaturas letais. Eu realmente gostei desse filme!

Esqueça as comparações idiotas que alguns estabeleceram entre este filme e o elogiado "A Forma da Água" de Guilhermo del Toro. A Pele Fria é um horror de primeira que escancara o sentimento de isolamento e investe na estranheza diante do desconhecido, elementos clássicos do Horror Lovecraftiano. E quem assistir esse filme vai encontrar vários acenos de que a trama deve muito aos contos de Lovecraft. De fato, o roteiro foi magnificamente adaptado do livro do espanhol Albert Sanchez Piñol

Visual, efeitos especiais, trilha sonora, maquiagem e um ótimo elenco, encabeçado por Ray Stevenson (o Titus Pulo da série Roma) tornam esse filme uma pequena joia a ser descoberta. Para fãs do gênero, A Pele Fria, é uma ótima pedida.  


5) SYNCHRONIC 
(Synchronic, 2020)


Outro filme dentro do gênero Horror Cósmico concebido pela dupla Justin Benson e Aaron Moorhead, responsáveis pelo roteiro e direção de "O Culto" e "Primavera", filmes que se debruçam sobre a mesma temática. Embora Synchronic esteja mais para sci-fi do que horror, a premissa dele é incrivelmente adequada a um filme Lovecraftiano.

Nele, dois enfermeiros que trabalham em atendimento de emergência na movimentada cidade de Nova Orleans, descobrem que um número alarmante de jovens estão sendo afetados por uma nova droga sintética que chegou às ruas. Os efeitos colaterais da substância misteriosa, fazem com que alguns de seus usuários morram em circunstâncias inexplicáveis. Eventualmente, eles acabam investigando o caso e se colocando em grave risco ao se expor aos efeitos bizarros do Synchronic.

De todos os filmes da dupla Benson/Moorhead, esse é o que eu mais gostei.

Anthony Mackie (o Falcão dos filmes da Marvel) e Jamie Dornan (da trilogia Tons de Cinza), que interpretam a dupla de socorristas, tem um excelente desempenho, fornecendo credibilidade à trama. Nas mãos de atores menos competentes, ela poderia não funcionar e comprometer o resultado final. Aqui a química é perfeita!  

O desenvolvimento da trama é lento, mas a medida que a história vai se desenrolando, os personagens e o público são contaminados pela mesma curiosidade à respeito da droga misteriosa que dá nome ao filme. As cenas em que as pessoas experimentam os estranhos efeitos colaterais causados pelo consumo do Synchronic são incríveis. Para quem conhece os Mythos, a premissa poderia ser: o que acontece quando se toma uma droga que promove um contato com Yog-Sothoth? Mas isso não é dito em momento algum do filme, deixando as coisas um tanto às cegas.

Uma excelente trilha sonora e ótimos efeitos especiais, colocam esse filme entre os mais interessantes a trabalhar os conceitos lovecraftianos, sem jamais mencioná-los. Um autêntico filme Lovecraftiano, sem ser lovecraftiano! Talvez o melhor exemplo possível disso.

Assistam, não vão se arrepender!


6) O RITUAL 
(The Ritual, 2017)


Eu penso que esse filme merecia uma resenha mais longa e detalhada, já que na minha opinião é um ótimo filme lovecraftiano. "O Ritual" é um dos melhores filmes de terror dos últimos anos, embora muita gente tenha torcido o nariz para ele. Estranhamente essa produção do Netflix não apareceu no catálogo aqui do Brasil, o que é bem estranho!

Pra começar, "O Ritual" se difere bastante dos filmes de terror que estamos habituados. Não temos que aguentar um bando de adolescentes insuportáveis festejando na floresta, não temos pessoas se comportando estupidamente a ponto de nos fazer pensar "sério?" e ele não envolve uma casa mal-assombrada, possessão diabólica ou assassinos em série... Nada disso! 

Aqui o filme tem um toque muito mais "realista". Os personagens são pessoas normais e se comportam como qualquer um de nós, se confrontados com uma situação limítrofe da qual não existe escapatória. Filmes em que você se flagra perguntando: "O que eu faria se isso acontecesse comigo" geralmente são indicativo de uma história atraente.

A trama é simples e aparentemente corriqueira. Um grupo de amigos se reúne depois de muito tempo para planejar uma caminhada por uma floresta na Suécia. Quando um deles acaba sofrendo um acidente, o grupo não têm escolha a não ser pegar um atalho e cruzar um trecho isolado da mata à procura de uma cabana abandonada. O problema é que algo inominável habita essa mata fechada.

Eu sei o que vocês estão pensando: a sinopse parece igual a centenas de outros filmes meia-boca. Mas aí que está o mérito de "O Ritual". Ele pega um cliché e transforma em algo muito bem feito. A atmosfera claustrofóbica vai se tornando cada vez mais opressiva, ainda que o "monstro" não seja mostrado, deixando o público descobrir junto com os personagens qual o verdadeiro horror oculto na floresta. A natureza selvagem e o brutal isolamento são responsáveis por boa parte do suspense e do clima. Acrescente a isso um monstro bizarro com um design que parece ter sido tirado dos contos mais sinistros de Lovecraft, e pronto!

Agradeço a um amigo que assistiu esse filme e recomendou que eu também o visse o quanto antes. "O Ritual" é prova de que uma premissa simples mas conduzida com eficiência, pode se tornar uma experiência aterradora.


Bom, aí está... uma lista de filmes que valem a pena assistir, essa safra foi boa. 

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Doce Abigail - Uma boneca maldita e um crime hediondo


Existem inúmeras histórias à respeito de bonecas malditas e assombradas. Pense bem, você já deve ter ouvido falar de algumas - Annabelle e Robert, para citar apenas dois casos famosos. Essas histórias chamam nossa atenção porque os alegados responsáveis pelas tragédias e horrores não são aquilo que se imagina. São algo inesperado e inconcebível aos olhos dos céticos. Afinal, essas coisas inanimadas não passam de brinquedos aparentemente inocentes: seus pequenos corpos de plástico e seus olhos arredondados foram feitos para encantar e fascinar crianças.

No entanto, relatos sobre bonecas malditas são mais comuns do que se imagina e alguns deles resultam em histórias violentas que parecem saídas de filmes de terror. Uma dessas histórias envolve uma boneca demoníaca que teria inspirado um crime hediondo.

Em 2011, Byron Robertson, de 45 anos e sua esposa Sarah, de 40, residentes de El Paso, Texas, foram condenados por um crime brutal. Os acusados foram submetido a vários testes psicológicos e foi determinado que Byron sofria de esquizofrenia paranoica. Mesmo assim, foi condenado à pena máxima; execução por injeção letal. Enviado para o Corredor da Morte, Byron recebeu medicação, tratamento e foi entrevistado repetidas vezes por psiquiatras do estado. 

Foi durante uma dessas entrevistas que o condenado resolveu revelar uma história bizarra que vinha guardando para si mesmo. Segundo ele, um tipo de força sobrenatural era a verdadeira responsável pelo crime do qual ele era acusado. O psiquiatra responsável pela entrevista, o Dr. Jack Randolph ouviu a narrativa avaliando se a pena poderia ser reformada por motivo de insanidade. Durante o procedimento, o sujeito descreveu em detalhes os incidentes aterrorizantes e circunstâncias inacreditáveis que antecederam o crime.  

Robertson começou a história contando a ocasião em que ele e a esposa saíram para comprar um presente para o aniversário de sete anos de Nancy. Na época, o casal passava por dificuldades financeiras, mas conseguiram juntar dinheiro para comprar um presente e fazer uma modesta festa de aniversário para a menina. Eles encontraram o presente ideal numa loja na cidade de Pecos, Texas, uma grande boneca de plástico que era um pouco estranha, mas bonita o suficiente para que eles considerassem um bom presente. O casal  estava certo de que Nancy adoraria e de fato, a menina ficou encantada pelo brinquedo. Nancy dormia com a boneca todas as noites, levava na escola para mostrar às amigas e até arrumava um lugar na mesa de jantar para a boneca. De fato, o aniversário tinha transcorrido esplendidamente, e Robertson o descreveu como um dos dias mais felizes de sua vida. No entanto, essa alegria não iria durar.

Com o tempo, o amor de Nancy pela boneca foi se transformado em uma obsessão. Ela passou a dedicar todo o seu tempo à boneca, vestindo-a e enfeitando-a enquanto ignorava os pais, os amiguinhos e colegas de classe. Passava horas em seu quarto conversando com entusiasmo com a boneca. Como acontece com muitas crianças, Nancy tinha uma amiga imaginária chamada Abigail. Não foi totalmente estranho quando os pais souberam que ela havia batizado a boneca com o mesmo nome e só se referisse a ela como "Doce Abigail", sua melhor amiga. 

Mas aquela "amizade" parecia mais e mais estranha. Nancy não brincava mais com os colegas, preferindo passar o recreio cochichando com a boneca. Ela também não atendia quando a professora a mandava deixar Abigail de lado para se dedicar às suas tarefas escolares. A situação ficou tão incômoda que a professora da menina chamou os pais e disse que se tratava de um apego exagerado. 

Robertson contou sobre isso:

"Em nossa casa, a vida de Nancy praticamente girava em torno daquela maldita boneca. Então ela começou a fazer coisas ainda mais esquisitas. Ela começou a vestir Abigail com suas próprias roupas e cortou o próprio cabelo como o de Abigail. Ela a levava para tomar banho, e usava seu próprio xampu e colônia na boneca. Mas o pior, é que todo dia e toda noite ela conversava com a boneca. Não apenas fingindo falar com ela, como fazem as crianças, mas tendo longas conversas, como se a coisa estivesse realmente respondendo a ela. Eu não gostava daquilo, não apenas por ser estranho, mas por Nancy fazer aquilo de forma tão natural, como se Abigail fosse uma criança realmente viva."

Os pais começaram a ficar incomodados com a situação e decidiram levar a boneca embora. Eles a esconderam num armário que foi trancado, Nancy não teria acesso a Abigail aquela noite. Isso deixou a menina realmente furiosa. Ela gritou, praguejou, xingou e quebrou coisas pela casa enquanto exigia saber onde estava sua amada boneca. Os pais jamais haviam visto a filha agir daquela maneira. Insistindo para que a devolvessem e até apanhando uma tesoura para ameaçá-los se não a entregassem. Nancy, normalmente uma criança tranquila e bem comportada, agia de forma descontrolada:

"No início, eu e Sarah nos mantivemos firmes em nossa decisão de afastá-la de Abigail. Mas a coisa continuou piorando! Não quero nem repetir as palavras que ela disse. Uma criança, não deveria falar daquela maneira, repetindo palavras que poucos adultos diriam. Sarah se manteve firme e mandou Nancy para o quarto sem jantar aquela noite. Ela xingou por algum tempo, mas então ficou quieta e achamos que havia pegado no sono. Quando minha esposa entrou no quarto mais tarde para ver como ela estava, levou um susto: Abigail estava na cama de Nancy!  

Sarah e eu ficamos apavorados com o que vimos porque tínhamos certeza absoluta de que trancamos aquela porcaria em nosso armário. Nancy estava dormindo profundamente, agarrada à boneca. Minha esposa e eu ficamos lá, imaginando como aquilo havia acontecido. Quando Sarah tentou apanhá-la, Nancy começou a gritar e se atirar no chão como se estivesse tendo um ataque epilético. Ficamos tão assustados que a deixamos com a boneca." 

De acordo com Robertson, os dois levaram a filha até um psicólogo infantil, mas este foi de pouca ajuda. Disse que a menina estava emocionalmente apegada à boneca, e que poderia ser prejudicial retirá-la abruptamente de seu convívio. Isso teria de ser feito gradualmente para evitar um trauma. Os dois concordaram, mas a medida que o tempo passava, Nancy continuava a se comportar de modo estranho. Nem mesmo outros brinquedos substituíam sua devoção para com Abigail. A menina ficava furiosa quando alguém simplesmente encostava em Abigail e chegou ao ponto de morder uma colega na escola, apenas por ela ter dito que a boneca era feia. A menina foi suspensa e uma consulta com um psiquiatra seria marcada para avaliar sua situação. Temia-se por um problema de natureza mental.  

Mas havia algo mais:

"A essa altura, nós sentíamos que o problema não era Nancy, mas a boneca... Havia algo nela, algo ruim. Não sei explicar, mas sei que se tratava de algo maligno! E estava levando nossa Nancy cada vez mais para longe de nós. Precisávamos fazer alguma coisa. Minha esposa e eu sabíamos que teríamos de nos livrar daquela boneca de uma vez por todas".

Contrariando a opinião do psicólogo, os pais chegaram à conclusão que precisavam destruir a maldita coisa. Para tanto formularam um plano: Decidiram dopar a menina com tranquilizante. Fizeram isso com o intuito de apanhar a boneca de seus braços enquanto ela dormia profundamente. Robertson estava furioso, odiava aquela boneca e a culpava pela situação de sua filhinha. A sua família estava se esfacelando por conta dela! Aquilo tinha que acabar! 

Ele contou ao psiquiatra:

"Não suportava mais ver aquela boneca. Sarah e eu nos livraríamos dela de uma vez por todas. Para ter certeza que seria definitivo, rasguei ferozmente o vestidinho dela e quebrei seus pequenos braços e pernas de plástico. Por medida de segurança, também arranquei sua cabeça usando uma faca que apanhei na cozinha. Ela foi jogada no lixo separada das outras partes. Ao todo foram quatro grandes sacos de plástico preto. Esperamos até amanhecer e assistimos o caminhão de lixo levar tudo embora. Quando o caminhão se afastou ficamos aliviados e Sarah até brincou dizendo, "Adeus Doce Abigail".

O casal estava ensaiando como dar a notícia para Nancy, mas estavam confiantes de que longe da presença da boneca, ela acabaria ficando livre de sua influência e aceitaria melhor a notícia. Algumas horas se passaram e então a campainha da porta da frente tocou. Byron abriu a porta e se deparou com um contingente de policiais obviamente tensos. Os policiais com uma expressão sombria deram ao casal voz de prisão. Quando quiseram saber do que se tratava, foram informados que o corpo de sua filha, Nancy, havia sido descoberto pelos lixeiros, horrivelmente mutilado e desmembrado.

A esposa sofreu um colapso nervoso naquele exato momento, sobretudo porque só então percebeu que as mãos do marido estavam vermelhas, bem como suas roupas, empapadas de sangue. O que realmente causou o mergulho de Robertson na loucura e o fez gritar em completo desespero, foi a descoberta daquilo que estava no quarto de sua filha. A cama onde ele esperava encontrar Nancy dormindo profundamente. Ali, ele achou apenas a boneca maldita, Abigail, vestindo o pijama de sua filha e sorrindo para ele.  

Os Robertson foram acusados do assassinato da própria filha. Byron negou veementemente durante todo julgamento a autoria daquele crime medonho, mas ninguém acreditou nele. As provas eram praticamente irrefutáveis: arma do crime, sangue em suas mãos e roupas, cena do crime, digitais positivas... parecia claro que ele, num acesso de fúria havia matado e mutilado a menina. Sarah em estado catatônico, foi enviada para um manicômio judiciário.

Byron disse que queria contar ao mundo inteiro que a boneca era a responsável pela tragédia e que os havia enganado através de algum transe diabólico, que o fez matar Nancy sem perceber. Contudo, ele mesmo sabia que soaria como um lunático se o fizesse. Os dois foram julgados em separado e nunca mais tiveram autorização para se ver. Pouco depois, Sarah sufocaria em sua cela após engolir a fronha de um travesseiro. Apenas quando soube da morte da mulher é que Byron de forma muito relutante aceitou falar com o psiquiatra e contar sua versão do que havia acontecido.

O Dr. Randolph, psiquiatra do estado, transcreveu o conteúdo da entrevista sigilosa e recomendou que Byron fosse considerado incapaz de receber a punição fatal pelo seu crime. Em sua opinião, ele não tinha capacidade de entender o teor de seu crime e por isso inventou uma história absurda a respeito de uma boneca diabólica e maligna. Esquizofrênicos paranoicos, por vezes, agem dessa maneira. Sua mente fraturada criou uma história que ele acreditava ser verdadeira.

No relatório assinado pelo Dr. Randolph, ele tomou o cuidado de anotar exatamente as palavras do condenado em sua derradeira entrevista:

"Vocês podem me matar e fazer de mim a terceira vítima daquela boneca. Mas, por favor, me escutem! Por favor, destrua a boneca. Vocês podem se livrar de mim, mas, por favor, pelo amor de Deus, livre-se daquela coisa também."

Byron Robertson continua no corredor da morte na Prisão de Fort Worth aguardando decisão quanto a sua sentença. O caso está sendo avaliado e existe a chance de sua pena ser alterada para prisão perpétua por conta de insanidade.

O corpo de Nancy Robertson foi enterrado no cemitério municipal de El Paso, a poucos metros da sepultura de sua mãe, Sarah.

O paradeiro de Doce Abigail é desconhecido.


terça-feira, 7 de setembro de 2021

Os Olhos na Igreja de St. Joseph - Uma assombração que perdura há um século


Igrejas são lugares de contemplação, de fé e é claro de devoção. Contudo, para muitas pessoas entrar em Igrejas, templos e lugares santificados pode ser uma experiência traumática. Tais lugares são bastante antigos e foram palco para muitos momentos marcantes nas vidas de um sem número de pessoas.. Uma igreja em especial, parece ser especialmente assustadora, já que os mistérios à respeito de aparições em seu interior permanecem sem uma explicação razoável há mais de um século.

A Igreja de St. Joseph, no estado de Nova Jersey possui um longo e estranho histórico de luzes misteriosas, sons desconcertantes e incidentes que podem ser categorizados como bizarros.

O primeiro incidente documentado ocorreu em julho de 1921 e foi testemunhado por cerca de 150 membros da congregação, reunidos para uma cerimônia religiosa. Segundo registros da época, os fiéis perceberam estranhas luzes de um branco pálido surgirem no interior da igreja e evoluírem no ar por longos minutos, realizando rasantes sobre as pessoas lá reunidas e causando enorme alvoroço. Alguns dias mais tarde, as mesmas luzes, descritas como globos ou meias-luas, foram vistas flutuando próximo da nave central e da cúpula do santuário. Dessa vez, elas emanavam uma coloração diferente, variando entre o prata, dourado e então se tornando vermelho sangue.

Muitas conexões foram feitas entre essa segunda aparição e a morte misteriosa de um padre que estava visitando a paróquia. O Padre Louis O'Malley, faleceu subitamente depois de ver o estranho fenômeno e se surpreender com o ocorrido. a morte foi causada por um aneurisma cerebral.

Semanas mais tarde, uma nova ocorrência atraiu uma verdadeira multidão a Igreja. Segundo relatos dos jornais, mais de 5000 pessoas visitaram a St. Joseph’s, tentando presenciar o fenômeno. Muitos saíram satisfeitos, pois as estranhas luzes foram vistas novamente.


Boatos jamais corroborados na época afirmam que algumas dessas testemunhas faleceram sob circunstâncias inesperadas, várias delas sofrendo de aneurismas cerebrais. As luzes vermelhas, segundo alguns, emitiam algum tipo de energia danosa que supostamente causava esse efeito.

Após esses estranhos incidentes, St. Joseph’s ficou fechada por quase 3 meses. Novamente, rumores se multiplicaram afirmando que a Diocese havia decidido pelo fechamento afim de avaliar o que fazer diante dos estranhos fenômenos. A essa altura, falava-se de ruídos misteriosos, um misto de lamentos, gargalhadas e gritos abafados vindo do interior, combinadas a explosões luminosas e um estranho fedor de putrefação que parecia empestear o ar. 

Rumores davam conta de que em mais de uma ocasião, as paredes e bancos da igreja amanheciam cobertos de uma estranha substância gosmenta, uma espécie de muco que se dissipada na luz do sol. Na mesma época, os curiosos passaram a comentar sobre as velhas lendas de que St. Joseph’s havia sido construída em terreno sagrado para tribos de nativos que residiam no lugar e que usavam aquele solo escuro como cemitério.

Em setembro, uma cerimônia de limpeza espiritual supostamente foi realizada à portas fechadas. Esta foi comandada por três sacerdotes especialmente incumbidos da tarefa. Nos registros da Diocese, consta que a Igreja ficou fechada para restauração e manutenção, mas muitos acreditam que o que se deu foi uma espécie de exorcismo. A teoria ganhou força pelo testemunho de moradores que residiam na vizinhança e que disseram ter ouvido gritos, ruídos bizarros e uma cacofonia pouco natural vindo do interior da igreja. Também aludiram à luzes bizarras vistas através dos vitrais, iluminando a noite e causando grande comoção.


Seja lá o que aconteceu no interior da St. Joseph’s, durou quase uma semana. Mas ao fim, a Diocese anunciou a reabertura do templo e retorno dos serviços religiosos.

As luzes pararam de se manifestar, bem como os estranhos fenômenos, e aos poucos a história se tornou uma espécie de tolice que ninguém levava à sério. Contudo, tudo se reiniciou repentinamente em meados de 1954, mais de 30 anos mais tarde. Os incidentes foram primeiro percebidas por crianças que estavam brincando no pátio da igreja: bolas luminosas e estranhas orbes apareciam e sumiam sem deixar rastro. Alguns dias depois, dois meninos foram socorridos após sofrerem com um estranho episódio de convulsões.

Os rumores envolviam também uma estranha aparição, um vulto escuro com o formato de uma pessoa que aparecia em lugares impossíveis, sobretudo nos corredores que levavam ao subterrâneo. Alguns diziam que a forma lembrava a de uma velha freira que costumava frequentar a igreja. A mulher teria morrido um ano antes, vítima de um câncer terminal.

Contudo, a tragédia atingiu com força a congregação, quando um bem quisto sacristão chamado Matthew Guarino disse que subiria ao campanário da igreja para investigar as estranhas luzes. Guarino já havia presenciado as luzes pessoalmente e estava tentando provar que não se tratava de nada sobrenatural. Seu corpo foi encontrado em um assento do coral na manhã seguinte. A causa da morte jamais foi determinada, mas alguns acreditam que ele sofreu de um aneurisma cerebral. Testemunhas que viram o corpo do pobre sacristão relataram que seus olhos estavam vermelhos, que sua face parecia arroxeada e que apresentava uma expressão transfigurada de horror inenarrável. Era como se os seus últimos momentos tivessem sido de grande terror perante algo que ele viu ou ouviu.

Na mesma época, fiéis que frequentavam St. Joseph’s começaram a relatar o avistamento das bolas e globos luminosos novamente. Os ruídos macabros, os fedores insuportáveis e até mesmo a gosma limosa que escorria e se concentrava nas paredes e bancos da nave central se tornaram algo comum. Certa noite, uma estátua sacra sofreu vandalismo, sendo quebrada e rachada em vários pontos. Um mural com uma pintura também foi depredado com as faces das figuras riscadas violentamente. 



Os globos luminosos apareciam mesmo durante as missas. Em um episódio especialmente assustador, um padre que presidia uma celebração tentou esconjurar a manifestação e está assumiu uma coloração avermelhada como se estivesse reagindo às suas palavras. Os fiéis presentes ficaram aterrorizados  deixaram a igreja aos trancos e barrancos. 

Assim como havia acontecido anos antes, a Diocese resolveu fechar preventivamente a St. Joseph’s alegando que um minucioso estudo seria realizado para determinar o que estava acontecendo. Especialistas chamados para apresentar um relatório sobre o caso concluíram que as luzes eram possivelmente causadas por concentração de gás de fósforo, iluminadas pela luz de faróis de automóveis passando pela rua em frente. Isso explicaria também os ruídos estranhos e cheiros nauseantes, causados pelo gás escapando nos subterrâneos da igreja. 

A explicação era perfeitamente plausível e conveniente, mas muitos ainda estavam convencidos de que se tratava de algum fenômeno sobrenatural.

A teoria ganhou força com a manifestação de grupos ligados aos direitos de nativos americanos sobretudo da Tribo Lenape que habitavam as terras onde a St  Joseph’s havia sido erguida. Havia a crença de que uma Tenda Medicinal, uma espécie de recinto místico usado para invocar espíritos havia ocupado aquele local, antes de ser destruída pelos colonos ingleses que ocuparam as terras séculos antes. Os nativos alegavam que a tenda era uma espécie de portal escancarado para o outro lado, através do qual, espíritos de todos os tipos e com diferentes inclinações podiam entrar e sair. Para os xamãs, o portal aberto constituía não apenas um problema, mas um perigo para toda e qualquer pessoa que tivesse o azar de ser encontrado por alguma dessas entidades. 

Nos mitos Lenape, não faltam seres e criaturas místicas que habitam o mundo espiritual. O conceito de bem e mal não é muito usado, os espíritos são definidos como "serenos" e "famintos", sendo que estes últimos segundo as crenças nativas podem interferir com os mortais e causar danos. São eles o que poderíamos compreender como fantasmas e assombrações.


Assim como teria ocorrido nos anos 1920, a Igreja de St. Joseph’s foi fechada por ordem da Diocese de Nova Jersey. O pároco recebeu um grupo de sacerdotes especializados em lidar com exorcismos para abençoar o local e mais uma vez purificá-lo de qualquer presença diabólica.

Segundo rumores, o Exorcismo se provou extremamente complicado, uma verdadeira batalha de vontades, na qual três exorcistas tentaram expulsar do interior da igreja as presenças nefastas que se mostravam resistentes. Na luta, que teria durado dias, bancos foram arrastados e vitrais feitos em pedaços. Um dos padres, o Monselhor Gregory Menin, relatou anos mais tarde em um livro escrito por ele, como a luta foi dramática e desgastante, envolvendo até mesmo a possessão de um dos ajudantes que inadvertidamente entrou na igreja.

Ao fim do longo ritual, a Igreja teria sido novamente purificada.

As coisas permaneceram em certo grau de normalidade até 1976, quando um incêndio misterioso consumiu parte da igreja. Nos trabalhos de limpeza e recuperação do terreno, foram encontrados no solo ao redor do prédio várias ossadas que permaneceram não identificadas, mas que supostamente pertenciam a nativos americanos. 


Depois dessa descoberta inusitada, os fenômenos retornaram e a igreja se viu uma vez mais atormentada por estranhos acontecimentos. Nas últimas décadas, os globos luminosos passaram a ser chamados de "Olhos de St. Joseph" e o nome se mostrou bastante popular. Em 2006, o prédio passou por uma nova reforma estrutural e durante os trabalhos, vários operários disseram ter presenciado acontecimentos inexplicáveis no interior da igreja. Hoje, St. Joseph é considerada uma das Igrejas mais assombradas dos Estados Unidos.

É impossível precisar quando as luzes misteriosas irão se manifestar novamente e o que elas desejam. Seriam elas fantasmas? Os espíritos famintos de nativos americanos? Ou haveria uma explicação racional para tudo?  Aqueles que visitam a St. Joseph ainda olham para o alto em busca dos misteriosos olhos que tem assustado gerações de frequentadores. E por vezes, se surpreendem com algo que lhes devolve o olhar.

sábado, 4 de setembro de 2021

O ídolo pagão - Descoberta fantástica num pântano da Irlanda


Arqueólogos irlandeses recuperaram essa semana das profundezas lamacentas de um pântano no norte do país um ídolo pagão de 1600 anos de idade.

O artefato de natureza religiosa foi desenterrado nos charcos de Gortnacrannagh, a cerca de seis quilômetros do sítio arqueológico de Rathcroghan, um dos assentamentos antigos mais importantes do país. O ídolo foi construído na Idade do Ferro, a partir do tronco dividido de um carvalho, tendo uma pequena cabeça em formato humano em uma extremidade e várias marcas horizontais entalhadas ao longo de seu "corpo". Ele mede aproximadamente 1,90 m e ao que tudo indica, representa algum tipo de divindade ou ser místico que favorecia a caça e/ou a sobrevivência. Em tempos antigos, tais entidades eram reverenciadas como forças primais ou espíritos que podiam auxiliar os mortais nas tarefas do dia a dia, tarefas estas que geralmente eram essenciais para a sobrevivência em condições extremamente adversas.

Menos de uma dúzia de ídolos semelhantes foram encontrados na Irlanda, embora estes objetos fossem de uso comum, já que cada clã ou célula familiar contava com ao menos um destes. Venerar tais objetos era algo corriqueiro no período e disseminado entre a população em geral. Infelizmente, a grande maioria desses ídolos primitivos, não sobreviveu à introdução da cristandade que substituiu as crenças pagãs pela sua doutrina. A maioria das peças conhecidas foram encontradas no mesmo pântano, sendo que o Ídolo de Gortnacrannagh é o maior achado até o momento.


A peça foi encontrada por uma equipe do Archaeological Management Solutions (AMS), trabalhando em parceria com o projeto de construção da rodovia N5 que vai unir Ballaghaderreen a Scramoge. O projeto tem sido supervisionado por pesquisadores e arqueólogos que auxiliam na identificação e remoção de objetos históricos no local. Desde o início das obras, já foram coletados 250 artefatos antigos, encontrados nos charcos que estão sendo lentamente drenados para o empreendimento. 

Dra. Eve Campbell, supervisor da AMS e chefe da escavação do sítio disse que o ídolo foi entalhado cerca de 100 anos antes de St. Patrick, o padroeiro da Irlanda chegar ao país. 

"Tudo indica que se trata de uma divindade pagã, para a qual se prestava homenagem", explicou o Dr. Campbell. "Nossos ancestrais viviam nas terras inundadas desse charco, que já existia em seu tempo. Eles habitavam esse lugar e o consideravam como algo místico que os conectava aos seus deuses e ao mundo espiritual. O pedaço de tronco possui evidências de ter sido atingido por uma forte descarga de eletricidade, o que possivelmente foi interpretado pelos homens como um sinal dos deuses. Quando uma árvore, pedra ou objeto era atingido por raios em meio a tempestades, os homens primitivos consideravam que os deuses o haviam tocado, o tornando de alguma forma mágico e especial". 

A Dra. Campbell acredita que os charcos escondem muitos outros objetos religiosos enterrados na lama que foram descartados ao longo dos séculos de presença humana em Gortnacrannagh. 


"A descoberta de ossos de animais próximos a uma adaga ritualística sugere que sacrifícios de animais tenham sido realizados no sítio e que o ídolo era usado nessas cerimônias de maneira preponderante. É possível que toda uma clareira fosse tratada como uma espécie de templo. O ídolo ficaria fincado no centro desta área, em um lugar de destaque. A congregação se reunia ao redor dele, enquanto que druidas, as figuras responsáveis pelos rituais, ficavam ao lado dele, interpretando os desígnios dos deuses".

Ídolos de madeira similares são conhecidos em toda porção norte da Europa, onde condições favoráveis permitiram a preservação da madeira antiga que os constitui. 

A parte posterior da figura sugere que ela era ainda maior e que era mantida fincada no solo como uma espécie de totem. Ao redor dele, os rituais, que envolviam dança, música e veneração aconteciam. O propósito do ídolo ainda está aberto a interpretação, mas com certeza ele era de suma importância, marcando a paisagem e representando os indivíduos que lhe rendiam homenagem. Tais ídolos tiveram enorme impacto no surgimento de tribos, que se reuniam para venerar um mesmo objeto, unindo assim diferentes clãs familiares que possuíam uma mesma crença. Eram estes deuses pagãos que oficializavam a união de diferentes clãs e abençoavam o nascimento de crianças. 


Este sistema de crenças remonta a épocas ainda mais antigas quando os ídolos recebiam tributo e até mesmo sacrifícios por parte de seus cultistas. "Não era totalmente estranho haver algum tipo de sacrifício, inclusive humano, diante dessas imagens. Para a cultura primitiva, o sacrifício era uma espécie de taxa ou imposto, pago para que a terra continuasse oferecendo recursos para a sobrevivência da coletividade. Não era algo imoral ou absurdo, mas uma necessidade a ser cumprida perante os deuses", explicou a Dra. Campbell.

Até o momento, não foram encontrados ossos humanos nessa parte do pântano, entretanto para os especialistas não será surpresa se removerem em algum momento restos humanos pertencentes a indivíduos que serviram de sacrifício.

O Ídolo de Gortnacrannagh foi transferido para a Universidade de Dublin (UCD), onde receberá um tratamento de limpeza e conservação para apenas depois ser estudado, catalogado e provavelmente disposto para apreciação pública no Museu Nacional. Uma réplica exata dele será temporariamente posto em exibição no Centro de Arqueologia e Cultura do Museu no mês de Outubro. 

A peça tem sido tratada como uma das representações mais importantes do passado da Irlanda: "Esse é um objeto único e extremamente significativo que nos ajuda a compreender o passado e como nossos ancestrais viviam".

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Não sei quanto a vocês, mas a descoberta desses ídolos ancestrais, sempre me parece algo saído de clássicas histórias de fantasia e terror.

Um ídolo bizarro que de alguma forma representa uma divindade obscura, assustadora, tenebrosa, interessada em devorar seus cultistas e transformá-los em escravos de seus caprichos. E agora que foi removida da terra, onde permaneceu inerte por milênios, é o momento dela renascer de alguma forma e lançar um manto de horror sobre a humanidade. Alguém precisa detê-lo antes que seja tarde demais!. 

Ok, devaneios de quem leu muitas histórias do gênero e projeta na realidade, parte da ficção.

Agora, é inegável que tais descobertas arqueológicas ajudam a criar um panorama de estranheza, curiosidade e fascínio. Imagine um pântano isolado, 1600 anos atrás, onde numa clareira ocorria o encontro de diferentes clãs que dançavam, evoluíam e prestavam veneração a um ídolo de madeira. Lá à luz de tochas, deitavam sacrifícios e imploravam pela intercessão de divindades tão poderosas quanto enigmáticas, prostrando-se diante delas em total subserviência.

E ainda que sejamos extremamente arrogantes e cínicos ao considerar essas crenças como meras superstições, é impossível não imaginar se algo do outro lado não estaria realmente... ouvindo.