sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Suicídio em Massa - Os bizarros rituais secretos de uma estranha família


O texto a seguir contém elementos perturbadores que podem ser incômodos para algumas pessoas. Recomenda-se discrição ao ler.

Nos anais dos grandes crimes e mortes surpreendentes, alguns casos se destacam por serem especialmente estranhos, sinistros ou simplesmente bizarros além do comum. Esses incidentes em geral estão envoltos por circunstâncias inesperadas, pistas e evidências que não fazem sentido ou ainda elementos tão inesperados que deixam aqueles que tomam conhecimento dos fatos imaginando o que de fato aconteceu. Também passam a assombrar a existência daqueles incumbidos de investigar os acontecimentos e que buscam a verdade. 

Um caso particularmente bizarro que se encaixa na descrição acima ocorreu recentemente na India. Trata-se de um crime envolvendo morte em massa, repleto de detalhes macabros, rituais bizarros e pistas que não levam a lugar nenhum, a não ser presumir a existência de algum elemento sobrenatural. 

O caso envolve diretamente a família Chundawat, da cidade de Burani, India. A Família consistia da matriarca Narayan Devi, de 77 anos, seus filhos Bhavnesh Bhatia (50) e Lalit Bhatia (45), suas respectivas esposas Savita (48) e Tina (42), uma filha Pratibha (57) e cinco netos e netas, Priyanka (33), Neetu (25), Monu (23), e Dhruv e Shivam (15). Para todos os efeitos, os Chundawat eram uma família absolutamente normal de classe média. Eles residiam no bairro de Burari Sant Nagar, uma vizinhança tranquila e agradável de Burani e tiravam seu sustento de um negócio de móveis e uma pequena venda. Embora eles tivessem experimentado a perda recente do patriarca da Família Bhopal Singh, não havia nada indicando uma nuvem negra pairando sobre o clã.


Em primeiro de julho de 2018, o comércio que administravam, localizado no primeiro andar da grande casa que servia como lar para a família não abriu as suas portas no horário normal, o que era muito estranho. Por anos, o negócio funcionou como um relógio, abrindo e fechando no horário estipulado, contudo, naquele dia a loja permanecia com as portas fechadas, o interior escuro e nenhum ruído vindo do interior. Vizinhos que conheciam a família estranharam e começaram a se perguntar o que poderia ter acontecido. Por volta das 10 horas da manhã, um vizinho chamado Gurcharan Singh decidiu entrar na loja e ver o que estava acontecendo. Ele descobriria que de fato algo muito, muito errado havia acontecido.

Subindo até a casa, Singh encontrou uma cena simplesmente aterradora. Os corpos de 10 membros da família Chundawat estavam pendurados em um aposento, balançando sem vida em cordas presas ao pescoço. A boca e os olhos de cada um deles haviam sido vendadas. A polícia foi chamada imediatamente e com a chegada dela o local foi isolado para que se buscasse pistas do que parecia ser uma chacina sem precedentes em Burani. Mas a medida que os policiais analisavam a tétrica cena de crime, detalhes perturbadores vinham à tona. O detetive responsável pelo caso, Rajeev Tomar, relatou o seguinte sobre o que encontrou na Casa dos Horrores:

"Em minha carreira de mais de 17 anos na polícia eu já me deparei com coisas estranhas, mas nunca nada sequer parecido com aquela cena de crime. E eu espero jamais ver algo parecido. Era chocante! Quando entrei na casa, tive uma sensação sufocante e precisei sair de lá 15 segundos depois para evitar desmaiar. Após me controlar, consegui voltar gradualmente e examinar o aposento onde os corpos estavam. Eram muitos... pendendo do teto como galhos de uma mesma árvore. As mãos amarradas nas costas, olhos e bocas amordaçadas. Foi assustador, não apenas pelas circunstâncias, mas por algo mais... era como se a casa estivesse impregnada por algo desagradável e maligno". 

Um total de 11 cadáveres foram encontrados na casa, todos pertencentes a membros da Família Chundawat. Cada um deles havia sido enforcado, com uma corda resistente amarrada em uma trave de madeira no teto do aposento. Eles foram distribuídos em uma espécie de formação circular, sendo que o corpo da matriarca Narayan Devi foi achado em outro quarto, morta por estrangulamento manual, não enforcada como os demais. Em uma gaveta trancada a polícia encontrou oito telefones celulares pertencentes a membros da família. As baterias dos aparelhos foram removidas e a tela de cada um deles quebrada. Em outra gaveta encontraram bolsas, carteiras e bens pessoais, como alianças, relógios e jóias. Havia o equivalente a 230 dólares em moeda local.


As vendas e mordaças que cobriam respectivamente olhos e bocas foram improvisadas com tiras de uma mesma roupa de cama, como se concluiu posteriormente. Além disso, tiras de outro lençol foram usadas para atar as mãos das vítimas nas costas. Curiosamente chumaços de algodão foram inseridos no nariz e no ouvido de cada indivíduo. Não encontraram sinal de luta na casa e exceto pelo estrangulamento nenhum corpo apresentava sinal de violência. As autópsias mostraram que a causa de cada morte foi enforcamento por ligadura condizente com corda. Os peritos não encontraram ferimentos defensivos, nenhum traço de drogas ou veneno na corrente sanguínea. Tudo apontava para um elaborado e bem planejado suicídio coletivo. 

Haviam outras estranhas pistas, como banquinhos virados no aposento onde as pessoas morreram, sugerindo que eles teriam sido usados para auxiliar no suicídio. Mas ao mesmo tempo alguns elementos sugeriam discrepâncias da presunção original. Primeiro: quem teria vendado e amordaçado os membros da família e como teria conseguido fazer o mesmo depois para também cometer o suicídio? Além disso, três dos 10 corpos que pendiam no teto tinham o pé arrastando no chão, o que evidenciava que teriam caído de uma altura insuficiente para partir o pescoço e que teriam de receber ajuda para se enforcar, possivelmente com alguém forçando os corpos para baixo. Finalmente, quem teria matado a matriarca por estrangulamento manual?

Sem nenhum membro sobrevivente na família para contar a história, não haviam testemunhas para os eventos. De fato, apenas o cão da família havia sobrevivido. O animal foi amarrado no terraço e preservado dos acontecimentos dramáticos envolvendo seus donos. Os Chundawat não tinham empregados ou funcionários que vivessem na casa e nenhum amigo próximo os visitou na véspera do suicídio. 

O caso permanecia como um mistério insondável, e a medida que a polícia tentava compreender a cronologia dos eventos, novas pistas ainda mais enigmáticas foram surgindo. Entrevistas conduzidas com vizinhos apuraram que nos dias que antecederam a tragédia, um dos membros da família Lalit Bhatia vinha apresentando um comportamento atípico. Descrito como um sujeito jovial e animado, ele parecia inquieto e irritado. Uma testemunha disse ter visto Lalit andando pela vizinhança aos prantos na noite anterior à sua morte, mas ele não quis revelar o que o afligia. 


Outra pessoa afirmou ter encontrado o homem em um templo, dois dias antes de sua morte. Na ocasião, Lalit parecia transtornado e revelou que estava experimentado sonhos recorrentes em que falava com o falecido pai. Ele teria comentado que outros membros do clã também estavam tendo sonhos semelhantes. No fim, deu a entender que temia que o pai estivesse querendo assumir o controle de seu corpo. Tudo aquilo era muito estranho, e as autoridades começaram a presumir que aquela narrativa poderia de alguma maneira ter causado a tragédia. No quarto usado por Lalit e sua esposa, os detetives encontraram uma prateleira oculta onde estavam guardados 22 livros de notas e diários cujo conteúdo se mostrava ainda mais perturbador.

Os cadernos eram um apanhado de anotações desconexas de um período de 11 anos, feitos numa caligrafia reconhecida como pertencente a Lalit. Boa parte das informações eram mundanas, mas outras chamavam a atenção pelo caráter perturbador. Muitas das anotações eram uma espécie de desabafo a respeito de coisas que aconteciam dentro da família e que passavam desapercebidas para quem os conhecia. Os membros do clã pareciam cobrar uns dos outros uma espécie de conduta moral estrita. Tinham de se sujeitar a trabalhar e dormir nos horários definidos, só podiam comer e beber alguns alimentos, deviam restringir determinados assuntos, tinham de rezar e jejuar frequentemente... além disso, Lalit descrevia alguns estranhos rituais que envolviam flagelação e auto-punição pelas menores transgressões. Em determinado momento ele descreve que apenas pensar em alguma conduta era passível de punição. 

Aqueles que se desviavam desse severo código eram punidos pelos demais membros da família que se reuniam para essa atividade. Cada um era chamado para o centro de um círculo onde tinha de confessar suas falhas naquela semana. Cabia aos demais então estabelecer as punições que podiam ser meras advertências, até a realização de tarefas humilhantes ou então severos castigos físicos. Lalit descreve que um chicote curto de equitação, feito de couro, era usado para essas punições. Quando uma criança confessava ter sentido vontade de brincar fora do horário ou um adulto reconhecia sua fraqueza por doces, podia receber entre uma e vinte chibatadas. Lalit descreve vários desses acontecimentos, dando a entender que a família aceitava essas medidas como algo natural do dia a dia. 


O patriarca, segundo Lalit, era quem tinha a decisão final e quem levava às punições à cargo. Foi ele quem ordenou que a boca de sua nora fosse colada com fita, que um filho recebesse vinte chibatadas por ter tirado dinheiro do caixa da venda e que um adolescente recebesse uma queimadura com soda cáustica na mão após ter confessado se masturbar. Bhopal Chundawat controlava a família com mão de ferro e era respeitado na mesma medida que temido. Ele chegou a mandar que um filho batesse no rosto da mãe até arrancar dela sangue, apenas pela mulher ter assistido televisão demais.

As anotações relatavam um clima de constante medo e crescente paranoia. Os membros da célula familiar começaram a denunciar condutas erradas uns dos outros como forma de receber elogios. O próprio Lalit reconhece ter apontado sua filha depois dela ter falhado em uma tarefa doméstica. A menina recebeu cinco chibatadas e ele as refeições que a menina teria direito. 

Nas perturbadoras anotações, Lalit revela outro detalhe bizarro. Ele afirma que o pai havia invocado quatro espíritos guardiões para habitar a casa da família. Estes tinham a função de observar como testemunhas invisíveis tudo que acontecia na morada e relatar os acontecimentos para o patriarca, de modo que nada escaparia à sua atenção. Os espíritos se manifestavam para Bhopal e em raras ocasiões para outros membros do clã, sempre dispostos a revelar alguma falha cometida. Aqueles que eram flagrados podiam diminuir sua punição confessando previamente o que haviam feito de errado. Lalit envergonhado escrevia no diário que não apenas temia esses espíritos, como havia visto um deles, um homem de barba cerrada e olhar severo o observando certa vez... ele acabou confessando uma falha por temer que o espírito contasse ao seu pai o que ele havia feito.  

Bhopal também se referia frequentemente a algo chamado Mokha como uma forma de ameaçar a família e cobrar deles melhorias. O Mokha, cuja tradução mais próxima seria "dia da punição" é uma espécie de ritual religioso raramente empregado por monges, que visa trazer a purificação do corpo e do espírito. Através de sua realização, a pessoa comete um suicídio ritualístico no qual seus pecados e faltas são sublimados no momento da morte. Segundo as anotações de Lalit, Bhopal dizia que se a família se comportasse de modo inadequado, eventualmente a única solução seria invocar o Mokha.


Eventualmente, quando o patriarca morreu de causas naturais, a família se viu perdida, sem saber como deveria se comportar dali em diante. Coube à Matriarca assumir as rédeas da estranha unidade familiar e dar prosseguimento aos seus estranhos costumes. Uma das primeiras medidas de Narayan Devi foi encomendar um ritual de agradecimento da família para Bhopal Singh e por tudo que ele havia feito, já que os negócios prosperavam. O ritual chamado badh tapasya, também era, de acordo com Lalit, uma forma de liberar os espíritos que habitavam a casa. 

Tudo muito sinistro e perturbador, mas é claro, havia espaço para se tornar ainda pior...

Após o ritual, Narayan afirmou que os espíritos haviam sido liberados, mas que o fantasma de seu falecido marido passaria a ficar entre eles, sempre alerta para ver o que os membros da família estavam fazendo e como estavam agindo. A mulher revelou que o espírito de tempos em tempos iria possuir seu corpo, ou o corpo de seus filhos, para falar e agir através deles quando fosse de sua vontade. Na ocasião, segundo Lalit, a mãe falou com a voz de Bhopal, causando uma reação emocional nos demais membros da família. 

Um grupo de policiais se revezava na tarefa de ler os diários e descobrir o que vinha acontecendo. A medida que mergulhavam naquela narrativa truncada, alguns pediram afastamento da função tamanho o incômodo que sentiam ao ler a respeito daquilo. Um deles teria pedido até demissão.

A medida que se aproximavam do derradeiro caderno de notas, Lalit mencionava outro ritual chamado havan que deveria ser realizado para firmar um comprometimento entre os membros da família. O havan envolvia a queima de oferendas em um fogo sagrado. Um psicólogo incumbido de ler o material detectou que Lalit sofria de uma profunda instabilidade mental que parecia se agravar, tornando-se uma animosidade a medida que ele narrava os acontecimentos. Em mais de uma ocasião ele se perguntava se não havia passado do momento de tomar as rédeas da situação e colocar um fim naquela loucura. 


Uma anotação pertinente escrita por Lalit afirma que ele havia planejado eliminar a família inteira. Usando para isso o Mokha, no qual cada membro seria morto por enforcamento. Ele chegava a descrever como deveriam ser feitos os nós, como os corpos seriam pendurados e dispostos.

Então, isso significava que Lalit estava por trás das mortes? É difícil dizer já que ele também foi encontrado pendendo como os demais. Ele não parece ter agido diretamente para provocar as mortes, mas seu papel pode ter sido o de incentivar a realização do Mokha, convencendo os demais de sua necessidade. Um video de uma loja mostra o irmão e a cunhada de Lalit comprando cordas que seriam usadas para o enforcamento, bem como incenso e outros objetos que seriam usados no ritual de havan. Na véspera do suicídio, a família fez vários pedidos de entrega de comida e se reuniu para o que pode ser interpretado como uma última refeição.

Uma das anotações finais no diário sugere que Lalit teria convencido os outros membros da família a realizar o Mokha, permitindo que Bhopal falasse através dele. O patriarca teria dito que a única solução para libertar toda a família, seria através da morte.

"Todos terão de ser amarrados para evitar arrependimento. Mãos nas costas. Olhos e bocas tampadas para impedir que voltem atrás" escreveu ele. Mais adiante afirma que alguns acreditavam que o ritual não chegaria ao fim e que Bhopal apareceria para liberá-los no último instante, mas que para isso acontecer, eles deveriam levar até as últimas consequências sua intensão.   

Extensivas investigações e entrevistas com parentes distantes, amigos e vizinhos pintaram um curioso perfil psicológico da família Chundawat. Em momento algum as pessoas suspeitavam de seus alegados costumes, mesmo os mais próximos sequer desconfiavam do que acontecia entre eles. Muitas pessoas se mostraram espantadas com o conteúdo do diário de Lalit, a ponto de supor que aquilo tudo poderia ser uma farsa. Afirmavam que a Família tinha planos para eventos futuros o que claramente contradizia qualquer noção de suicídio planejado. Priyanka estava noiva e deveria se casar dali a quatro semanas, e a família estava planejando o evento em detalhes. Eles haviam pego um empréstimo bancário e contratado uma firma para fazer melhorias nas lojas. Tudo isso parecia um comportamento estranho para uma família que realizava rituais secretos e contemplava se matar.


Em face de tudo isso, muitas pessoas acreditavam que o ritual poderia ter sido usado para acobertar um plano de assassinato levado à cargo por Lalit. Os psicólogos contratados para analisar o caso sustentam que a família parecia compartilhar de alguma modalidade aguda de desordem psicótica. Se não todos, Lalit com certeza sofria de paranoia. No entanto outros afirmavam que a família nada tinha de estranha e que a ideia deles participarem de rituais era absurda. De fato, muitos dos ferimentos descritos por Lalit em seu diário, não foram achados nos cadáveres e marcas de antigos macucados deveriam ter sido deixadas pelas "punições" ao longo de anos. 

Muitos sustentam o ceticismo diante dos acontecimentos e insistem que o que transcorreu na casa teria sido um assassinato, tendo como arquiteto ninguém menos que o próprio Lalit. Afirmam ainda que os diários seriam anotações alucinantes e delírios de alguém perturbado que imaginava aquelas situações em face do seu estado mental. Levado às raias da loucura por uma realidade - presente apenas em sua mente fraturada, ele teria sido o responsável por aquele horror. E depois, o perpetuador simplesmente teria tirado sua própria vida.

Os testemunhos, a palavra de vizinhos, as filmagens e especialmente os macabros diários deixados por um dos membros da família apontam para um sinistro ritual de suicídio, mas quem pode saber ao certo o que aconteceu naquela fatídica noite?

O caso permanece aberto e ainda levanta acalorados debates na India. Para alguns, a família teria mergulhado em uma histeria fatal, para outros, um de seus membros seria o responsável pela tragédia e outros ainda, creem em explicações mais esotéricas para o incidente. Teriam essas pessoas sucumbido a uma loucura coletiva que daria vazão ao que foi escrito ao longo de 11 anos em diários? Ou estes não seriam nada além da narrativa demente de uma mente perturbada? Quem teria organizado o ritual? Quem teria estrangulado a matriarca? Quem teria forçado a morte dos que ficaram pendurados? Quem, quem, quem?

A verdade só poderia ser contada por aqueles que estiveram naquela morada, naquela noite macabra, mas estes não são mais capazes de falar. Seja lá o que tenha acontecido, talvez seja até melhor nunca sabermos...

terça-feira, 12 de outubro de 2021

O Senhor do Castelo - A descoberta de misteriosos ossos e sua controversa origem


Em 1928, um grande projeto de escavação à cargo do Museu Nacional estava sendo conduzido no histórico Castelo de Praga, na Tchecoslováquia. O objetivo dos trabalhos era escavar a parte mais antiga do castelo que havia sido coberta no século XV. A equipe era liderada pelo Professor Ivan Borkovský, um ex-cidadão ucraniano que havia lutado contra os austro-húngaros na Grande Guerra e fugido para a recém-formada nação da Tchecoslováquia em 1920. Lá ele estava em busca de uma nova carreira como arqueólogo. A escavação poderia ser o caminho para ele obter fama e reconhecimento internacional. Enquanto a equipe desenterrava essa antiga área do castelo, algo estranho foi encontrado embaixo da terra, algo que provaria ser um mistério duradouro, que permanece até hoje. 

Esse é o início de uma história de descobertas arqueológicas misteriosas que envolve nazistas, soviéticos, um grande plano para espalhar propaganda e um cadáver que confunde os arqueólogos há anos.

Quando a área que correspondia a um velho pátio foi escavada, os arqueólogos encontraram o que parecia ser uma velha cripta lacrada com um estreito acesso. Acreditando que estavam diante de algo peculiar, eles investiram sua atenção naquele ponto. Algumas horas mais tarde, o grupo foi recompensado com uma descoberta surpreendente.

No interior da pequena câmara encontraram o cadáver esquelético de um homem que mais tarde foi identificado como alguém que viveu no século X. Seus trajes se desintegraram quase que por completo, mas o pouco que sobrou atestava que eram feitos de couro e pele de animais. A mão direita dele estava apoiada em uma espada imponente de excelente qualidade, posicionada ao longo da perna, como se tivesse sido colocada ali com enorme reverência. A outra mão encontrava-se estendida em direção a um par de facas também de boa qualidade. Aos pés do homem, calçados com o pouco que restou de botas de couro, foram encontrados os restos de um balde de madeira parcialmente desintegrado e a cabeça de um machado forjado em ferro, bem como uma miríade de ferramentas, incluindo uma pederneira e uma navalha. Essa quantidade de objetos, depositados junto com a figura misteriosa indicavam que ele não deveria ser uma pessoa comum, mas alguém de status e posição social elevados. Poderia ser um nobre, um governante respeitado ou quem sabe um chefe guerreiro. 


Certamente foi uma descoberta inesperada, sobretudo porque aquela parte do Castelo de Praga, não era destinada a servir como cemitério. Os rigorosos costumes funerários da época dificilmente contemplariam que uma pessoa, não importa quem fosse o indivíduo e sua importância, poderia ser sepultado naquele local comumente usado como um pátio. 

O melhor palpite na época era que o cadáver podia ter sido enterrado em outro local, exumado posteriormente e colocado naquela cripta tempos depois. Os arqueólogos analisaram os restos e estudaram os objetos situando-os entre o ano 800 e 1.000 d.C. Suspeitou-se que o homem poderia ter origem eslava pela altura e porte, mas ninguém sabia ao certo, e tudo era deveras intrigante. A origem do cadáver era um mistério completo e não foi encontrado nenhum outro corpo na área com o qual pudesse ser comparado. De alguma forma, o estranho acabou sendo depositado ali sozinho em uma cripta escavada na rocha e posteriormente lacrada sem nenhuma pista do porquê ou mesmo de quem ele era. Borkovský escreveu um estudo sobre a descoberta, mas optou por não publicá-lo, decisão da qual ele viveria para se arrepender posteriormente.

Em 1939, o exército nazista invadiu ruidosamente a Cidade de Praga, conquistando tudo em seu caminho com sua máquina de guerra implacável. Foi apenas uma questão de tempo até os alemães se interessarem pela descoberta feita uma década antes no Castelo. O misterioso cadáver estava sendo analisado no Museu Nacional e era um grande negócio para eles reclamar o corpo. 

Arqueólogos alemães, em especial os que serviam aos interesses da organização Ahnenerbe Forschungs-und Lehrgemeinschaft, há muito procuravam evidências para apoiar sua ideologia distorcida de que raças nórdicas, os antepassados da "raça germânica pura", haviam ocupado aquela parte da Europa desde os tempos antigos o que, portanto, lhes conferia um direito histórico sobre aqueles territórios. Os alemães cultivavam a crença de que o esqueleto misterioso pertencia a um alemão ou viking, portanto um representante da grande raça ariana.


Uma vez que Borkovský não havia publicado seus estudos, os pesquisadores da Ahnenerbe conseguiram inserir as suas próprias teorias e creditá-las como verdadeiras. Os nazistas recrutaram à força o aterrorizado Borkovský para que ele ratificasse os estudos a ele apresentados, ameaçando mandá-lo para um campo de concentração se ele expressasse desacordo. O trabalho do arqueólogo foi severamente editado para encaixar a Teoria Viking. Como forma de propaganda nazista, Borkovský foi obrigado ainda a proclamar que o cadáver provava que o Castelo de Praga era de origem germânica, construído por colonos do povo ariano, e que a terra onde ele estava, historicamente pertencia a eles. Os nazistas estavam essencialmente tentando distorcer e interpretar descobertas arqueológicas fazendo um cadáver de 1.000 anos objeto de suas maquinações.

Para piorar a situação, os alemães ordenaram o fim dos trabalhos de Borkovský que havia escrito uma monografia sobre a descoberta da mais antiga cerâmica eslava recuperada na Europa central. Essa descoberta não se alinhava com a ideia de que a terra era originalmente dos arianos, e por isso, tudo foi censurado. A cerâmica foi confiscada e provavelmente destruída pelos nazistas em uma flagrante tentativa de ocultar a história.

Com o fim da Guerra, os alemães foram afastados, mas os soviéticos mantiveram a Tchecoslováquia sob sua área de influência. Controlado por um novo regime opressor, Borkovský se viu novamente em apuros, já que ele era visto como um simpatizante do nazismo por corroborar as teorias alemãs em relação ao cadáver misterioso. A única coisa que impediu Borkovský de ser enviado para um Gulag foi ele aceitar favorecer uma nova narrativa, dessa vez imposta pelos comunistas. Ele recebeu ordens expressas de desfazer todas as conclusões que favoreciam os alemães e referendar teorias que colocavam os eslavos (russos) como colonizadores originais da Tchecoslováquia.


Apenas depois de fugir do país, em 1946, é que ele finalmente publicou seu estudo original, que apontava para o fato de o homem misterioso ser membro do que ele considerava uma dinastia pré-eslava, um povo local do qual os Tchecos originalmente descendiam.

Durante todo esse cabo de guerra político entre as nações se esforçando para reivindicar a origem do esqueleto misterioso, ninguém realmente sabia quem havia sido aquele estranho sem nome ou de onde ele vinha, e até os dias atuais ainda não sabemos ao certo.

Boa parte do mistério é que ele carrega uma variedade curiosa de itens, alguns sendo obviamente de origem Viking, outros da área local e outros de terras estrangeiras aleatórias, então a verdadeira nacionalidade do homem é difícil de definir através do que ele carrega. A espada é particularmente interessante, pois é de altíssima qualidade, provavelmente muito cara, e a única desse tipo encontrada na região. Apenas alguém de grande importante poderia ter um item desse tipo e este deveria ter sido trazido de longe.

Uma hipótese é que se tratava de um aventureiro ou de um explorador que viajou por terras distantes, colecionando ou conquistando tesouros, os mesmos com que foi sepultado. O respeito por ele deveria ser enorme, pois na maioria das vezes, objetos tão valiosos acabavam passando para outras pessoas. Alguns acreditam que o homem era provavelmente um líder guerreiro, até mesmo um aspirante a viking que vagou por aquelas terras almejando tomar o controle delas e se estabelecer como seu senhor. A única certeza é que, para ter sido enterrado no castelo, em um lugar de tamanho destaque, ele não poderia ser qualquer um. A coleção heterogênea de objetos valiosos demonstra que ele viajou por diferentes regiões da Europa em uma época em que viajar não era comum. 


Uma sugestão é que ele pode ter sido um mercenário à serviço da Dinastia Premyslid, que construiu o castelo e se que converteram nas gerações seguintes em Príncipes da Bohêmia. A Família Premyslid, que tem entre seus membros Bispos, Reis e até mesmo um Santo, foi fundamental para a formação do Reino da Boêmia, um dos mais importantes na Idade Média. Para se consolidar, no entanto, a Dinastia precisou enfrentar adversários poderosos e abrir espaço entre adversários na base da espada. O sujeito pode ter sido alguém que lutou ao lado do clã e que teve uma existência muito viajada, aventureira e beligerante, recompensada sendo colocado para descansar sob o que viria a se tornar o Castelo de Praga, o baluarte daquela família que ele ajudou a erguer.

Apesar de ninguém ser capaz de dizer sua origem, é justo supor que ele próprio jamais poderia imaginar que depois da sua morte, seu corpo se envolveria em esquemas políticos de uma sociedade futura, absurdamente incompreensível.

Ao lado de sua espada, pendendo em suas mãos descarnadas há mais de 1000 anos, esse guerreiro com certeza viu muita coisa, mas enfim, chegou a hora de descansar.

domingo, 10 de outubro de 2021

Plano de Vingança - O Esquadrão judeu que exterminava nazistas


Seres humanos, como espécie, têm um senso profundamente arraigado que dita: quando injustiçados, queremos retribuir na mesma moeda. Existe um desejo instintivo de buscar algum equilíbrio e justiça nas coisas, uma fé talvez equivocada na ideia de que, se eu te deixar em paz, você me deixa em paz, e se me prejudicar, você também será prejudicado. Parece ser uma parte indelével de nosso ser, e é por isso que a vingança se tornou algo tão debatido em nossa sociedade.
Vingança, doce vingança. Servida quente ou servida fria. Tanto faz!  

Embora seja natural querer revidar daqueles que nos fizeram mal, um grande dilema moral é estabelecer até que ponto isso é certo. Há um momento em que a vingança cruza um limite invisível entre o certo e o errado na direção da parte mais escura da alma humana? Um caso que certamente estimula essa discussão ocorreu na esteira de uma das maiores manchas da história da humanidade, quando um grupo de determinados indivíduos buscou revidar violência com igual violência, levando o ditado "olho por olho, dente por dente" a um novo patamar.

Além de todos os combates sangrentos, a Segunda Guerra Mundial promoveu talvez a maior atrocidade isolada na história da humanidade. O Holocausto decretado contra o povo judeu pela Alemanha Nazista foi uma orgia horrível de morte e injustiça, com cerca de 6 milhões de judeus mortos impiedosamente em campos de concentração e incontáveis ​​outros separados de seus entes queridos com suas vidas destruídas. Após o Holocausto, os sobreviventes se encontraram perdidos e em frangalhos, à deriva em uma névoa escarlate, incapazes de se ajustar à vida normal após o pesadelo que viveram. Foram deixados em tal estado de turbulência, com suas vidas tão esvaziadas e viradas do avesso que a morte era quase preferível. A única palavra que servia para aplacar sua dor era: "vingança".

As pessoas estavam com raiva, fervendo de ódio contra os nazistas e gritando por sangue, mas para a maioria essas eram apenas fantasias mórbidas que não poderiam realizar. Ao invés disso, trataram de reconstruir suas vidas e encontrar alguma normalidade, deixando aqueles sombrios impulsos guardados bem no fundo. No entanto, para um grupo de sobreviventes do Holocausto, vingança era mais do que apenas fantasia, e eles pretendiam fazer algo à respeito.

Eles teriam a vingança, custe o que custar. 

O Holocausto matou 6 milhões de judeus

Após o Holocausto, uma das coisas mais frustrantes para os judeus era quão pouco estava sendo feito para levar seus algozes à justiça. Apesar de todo o assassinato e destruição que haviam sido infligidos aos judeus, poucos nazistas estavam respondendo pelos seus crimes, e ainda menos estavam sendo presos e executados. Era um tapa na cara que aqueles crimes pudessem ser varridos para debaixo do tapete da história com apenas uma pequena fração dos vilões responsabilizados. De uma lista original com milhares de procurados, que incluía líderes nazistas, pessoal de campos de concentração e outros envolvidos no genocídio, apenas 300 enfrentaram acusações formais e tiveram alguma punição severa. À despeito do famoso Julgamento de Nuremberg que condenou os comandantes da máquina nazista, os oficiais de menor patente, soldados e burocratas que cometeram ou permitiram atrocidades haviam escapado impunemente.

Esta situação gerou indignação e resultou em tentativas de subverter o processo normal de justiça. Por exemplo, o Mossad - Serviço Secreto de Israel, realizou operações secretas para eliminar e capturar alvos considerados legítimos. Adolf Eichman, um dos idealizadores do processo de extermínio judeu, foi capturado na Argentina e levado para julgamento em Israel em 1960.  Mas antes disso, alguns vigilantes espalhados pelo mundo também quiseram agir, formando grupos com o objetivo de matar nazistas. Em 1945, um desses grupos, que se autodenominava "Nakam" (Vingadores) levou à cabo planos ambiciosos de vingança.

A operação foi ideia de um poeta, escritor, ativista e líder partidário judeu chamado Abba Kovner, que havia participado da revolta judaica no Gueto de Vilna e ficou obcecado por vingança após uma visita aos locais de vários campos de concentração. Ele também conversou com sobreviventes do Holocausto e ouviu os horrores que eles tinham a relatar. Kovner sentiu que as vias normais de justiça não eram suficientes, que a situação do povo judeu havia sido esquecida. Seu plano de vingança era simples. Ele iria matar nazistas, tantos quanto possível. Kovner recrutou um grupo heterogêneo de cerca de 50 sobreviventes do Holocausto, a maioria homens na casa dos 20 anos e com a mesma sede de vingança gravada em suas mentes. 

Eles acreditavam que a única maneira de prevenir os horrores de um novo Holocausto, era cobrar um número horrível de mortes sobre os alemães, como foi feito com eles. Para isso, 6 milhões de alemães deveriam morrer. Kovner chamou o plano de "uma nação por uma nação". Ele acreditava que apenas um ato de retribuição da mesma magnitude do Holocausto levaria o mundo a sanar o que ele chamava de "falência moral". Ele defendia que "o ato deve ser chocante. Os alemães devem saber que depois de Auschwitz não pode haver retorno à normalidade em suas vidas."

Abba Kovner discursando à respeito de seus planos

O Nakam começou de forma discreta. Eles identificavam ex-oficiais da SS e funcionários que trabalharam para os nazistas. Estes eram marcados para morrer e seriam executados pelos membros do Nakam em ações coordenadas. Os ataques deveriam envolver qualquer meio à disposição dos membros, desde  atropelamento, enforcamento, tiros, facadas, explosões, envenenamento e o que mais fosse possível. Muitas dessas mortes seriam encenadas para parecer suicídios. 

Os Vingadores usavam documentos falsos, identidades forjadas e disfarces de policiais ou pessoal médico para ajudá-los em suas infiltrações, e não hesitavam em viajar para outros países para cumprir suas sentenças de morte extrajudiciais. Eles estiveram na Espanha, América Latina e Canadá, onde encontraram nazistas procurados. Mas tudo isso era muito lento, desorganizado e não estava causando o impacto que Kovner esperava. Eles haviam matado talvez algumas dezenas de nazistas dessa maneira, o que não estava afetando seu alvo de 6 milhões de alemães mortos. Eles precisavam de uma perda de vidas horrível e decisiva de uma só vez. Foi assim que nasceu o "Plano A".

A ideia por trás do Plano da Nakam era em essência bastante simples, basicamente envolvia envenenar o abastecimento de água de uma grande cidade alemã para matar o maior número possível de pessoas. Eles selecionaram quatro alvos potenciais para seus planos sombrios: Hamburgo, Nuremberg, Frankfurt e Munique, eventualmente estabelecendo que o alvo prioritário seria Nuremberg. Com o local decidido, eles procuraram o veneno de que precisariam e se infiltraram no serviço de abastecimento de água municipal da cidade. 

Um homem chamado Joseph Harmatzwas, usando uma identidade falsa, se infiltrou numa posição que lhe permitiria agir e o próprio Kovner viajou para a Palestina, para obter o veneno. Embora Harmatzwas tenha conseguido usar subornos para se instalar na companhia municipal de água e conseguir acesso ao sistema de abastecimento, Kovner não conseguia o veneno na quantidade necessária. Quando finalmente obteve a substância, ele foi detido pelo Mossad para interrogatório. O veneno seria contrabandeado para a Alemanha em tubos de pasta de dente, no entanto, durante a viagem, ele foi descoberto por oficiais britânicos que suspeitavam de documentos falsos. Em pânico Kovner jogou todo o carregamento de veneno no mar. Ele foi forçado a retornar sem qualquer veneno, o que provavelmente foi melhor, pois dentro da própria organização, as pessoas estavam tendo dúvidas se o massacre de centenas de milhares de civis inocentes, incluindo mulheres e crianças, era a forma correta de obter vingança.

Brigada de Judeus que participou do levante dos guetos

A organização, no entanto, não via qualquer problema moral em matar aqueles que estiveram diretamente envolvidos com o Holocausto, o que deu origem ao Plano B.

O Plano B tinha um escopo um pouco mais modesto, e visava envenenar o pão de cerca de 50.000 oficiais da SS que estavam sendo mantidos em campos de prisioneiros de guerra em Nuremberg e Munique. O Nakan procurou arsênico localmente e depois se infiltraram nas padarias da região que abasteciam os campos de prisioneiros, envenenando cerca de 3 mil pães enviados para o campo de internamento de Langwasser. No entanto, enquanto cerca de 2 mil  prisioneiros de guerra alemães tenham ficado terrivelmente doentes, poucos ou nenhum deles, realmente morreu, o que é curioso porque mais tarde uma investigação estimaria que havia uma enorme quantidade de arsênico na padaria. É possível que o arsênico tenha sido muito pouco, enquanto outra hipótese é que os prisioneiros de alguma forma perceberam que havia algo errado no gosto do pão e por isso não comeram o suficiente. É um mistério, mas o fracasso foi fundamental para garantir que tramas semelhantes não ocorressem em outros campos de prisioneiros, o que decretou o fim do Plano B.

Ironicamente, os planos da Nakan, eram financiados com a compra de notas falsificadas de 5 libras feitas por prisioneiros judeus em campos de concentração e vendidas no mercado negro italiano. A maioria dos membros restantes da organização começaram a desistir de planos em larga escala, concentrando-se em alvos individuais. Assim eles teriam matado cerca de 2 mil "nazistas aposentados" entre os anos de 1945 e 1957. Em uma operação especialmente impressionante, um ex-oficial foi assassinado num hospital com uma injeção contendo querosene. Em outra, um médico que trabalhou em Auschwitz teve seu carro explodido. 

Os membros do Nakan aos poucos foram debandando, a maioria  decidiu se estabelecer em Israel, alguns deles ainda amargurados por seus atos de vingança não terem sido bem-sucedidos. Com o passar dos anos, eles envelheceram e morreram. Em 2019 havia apenas 4 membros remanescentes, comprometidos com o que haviam feito, impenitentes e insistindo que o que fizeram foi "um ato de grande importância".
Soldados israelenses ao lado do Comandante Kovner

Nenhum deles jamais foi acusado de qualquer crime e de fato, a Lei de Israel não prevê punição para cidadãos do país que eliminam indivíduos envolvidos diretamente no Holocausto. Quanto a Kovner, ele se tornou muito ativo no Governo de Israel após este declarar sua independência em 1947. Ele se tornou Capitão da Brigada Givati ​​e participou da Guerra Árabe-Israelense em 1948. Controverso até mesmo dentro de sua própria nação, ele era tido por muitos como um extremista que chamava os inimigos de "cães" e "víboras" o que gerou polêmica em sua nova pátria. Nos últimos anos de sua vida, ele continuou se manifestando, embora nunca tenha assumido um papel político. Ele morreu em 1987 de câncer, deixando para trás um grande legado.

A história do Nakam foi publicada inúmeras vezes em livros e foi foco de um documentário chamado Holocaust: The Revenge Plot. Suas ações nos deixam muito o que ponderar. Embora certamente muitas pessoas estejam dispostas a compreender a posição dos vingadores, outros acham que seus planos eram extremistas e perigosos. Até onde se está disposto a ir em nome da vingança? Tal coisa não acabaria descambando para um ciclo interminável de violência insana?

A validade da vingança é uma questão antiga que provavelmente continuará nos desafiando até o fim dos tempos. Se nos ferem, não temos o direito de ferir nossos algozes? A incrível narrativa do Nakan, os Vingadores do Holocausto, se mantém até hoje, preservada como uma excentricidade histórica que levanta muita discussão.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

O pior de todos nazistas - A maldade monstruosa de Oskar Dirlewanger


ATENÇÃO: Esse artigo possui descrições gráficas que podem ser perturbadoras. 

Muitos filósofos já se debruçaram sobre uma questão central  a respeito da humanidade: a origem do mal. Por que certos homens são capazes de promover ações medonhas sem se importar em absoluto com a repercussão de seus atos é outros se enojam com elas? De onde surge e o que motiva o mal? Como ele contamina as pessoas e como os transforma em monstros?

Alguns estudiosos acreditam que certas condições se mostram propícias para fazer o mal aflorar. Momentos decisivos da vivência durante o desenvolvimento humano podem lançar as bases para que certas pessoas se tornem malignas. O ressentimento, a dor, a humilhação, o desejo de revidar, tudo isso fomenta uma vontade de ferir nossos semelhantes. O ambiente transforma o indivíduo normal em um demônio, ou assim se pensa. Os estudos atuais demonstram que o mal pode surgir espontaneamente, brotando onde menos se espera, em qualquer lugar, em qualquer tempo. 

Quando se fala de maldade e perversidade, é difícil não levar a discussão até os dias negros da Ascenção do Terceiro Reich. Muitas coisas que aconteceram ao longo da Segunda Guerra continuam ressoando na sociedade atual e servem como exemplo do que de pior podemos produzir. 

Canais de documentários oferecem uma infinidade de programas a respeito de aviões de guerra, navios e tanques alemães, bem como as batalhas marcantes travadas durante o conflito que moldou o mundo atual. Menos explorados, no entanto, são os lados mais sombrios da máquina de guerra liderada pelos nazistas. É claro, sabemos a biografia dos grandes líderes: políticos, generais e burocratas, mas e quanto às massas de seguidores fanáticos que constituíam o bando sem face que dava sustentação aos nazistas?

Uma dessas biografias infames está finalmente vindo à tona e ela nos fornece um vislumbre da maldade que permeava entre os homens escolhidos pelos nazistas para fazer o mais sujo dos trabalhos.

Soldados alemães da 36a Infantaria

Em março de 1940, pouco antes da invasão alemã da França, Hitler decidiu formar uma unidade de combate diferente das demais. Ela seria composta de caçadores ilegais e soldados condenados, todos comandados por um militar durão. A ideia é que essas pessoas, em sua maioria caçadores que ganhavam a vida se embrenhando nas florestas e cuja pontaria era reconhecida, fariam diferença em combate. Eles seriam atiradores de elite calejados e acostumados a matar. Bastaria transferir sua habilidade em abater animais para abater seres humanos. O grupo seria enviado em missões especiais em lugares inacessíveis, seriam como caçadores de homens.

O comandante dessa tropa, escolhido à dedo para o serviço, seria um homem conhecido do líder SS Heinrich Himmler, um veterano da Grande Guerra chamado Oskar Dirlewanger.

Mas quem foi Oskar Dirlewanger e como ele veio a ocupar o topo da lista dos piores nazistas de todos os tempos?

Oskar Dirlewanger serviu no Exército Alemão durante a Primeira Guerra Mundial. Segundo todos os relatos oficiais, seu serviço foi honroso, recebendo a Cruz de Ferro (uma alta condecoração militar) duas vezes e sendo ferido em seis diferentes ocasiões. Ele ganhou certa fama após o fim da guerra, quando sua unidade formada por cerca de 600 homens ficou presa na Romênia e teve de fazer uma jornada considerada heroica de volta à Alemanha. Os soldados alemães eram hostilizados em todos os territórios pelos quais passavam e tiveram de cortar caminho através de bosques e montanhas na qual encontraram oposição ferrenha.  

Após a guerra, Dirlewanger se juntou aos Freikorps, milícias armadas que existiam na Alemanha do pós-guerra. Eram tropas de veteranos calejados que haviam sido forçados à dar baixa militar após o desarmamento da Alemanha e que não se conformavam com isso. Muitos dos Freikorps eram mercenários que ofereciam suas habilidades obtidas na Guerra para quem pagasse mais. Dirlewanger era o comandante de uma dessas tropas e eles se saíam muito bem oferecendo seus serviços em outros países, sobretudo para sufocar revoltas. Sem uma hierarquia militar para controlar os Freikorps, estes agiam por conta própria e faziam o que bem entendessem. Ninguém questionava suas ações e, portanto, excessos eram cometidos sem qualquer punição.    

Num momento raro de tranquilidade em 1940 

Quando não estava trabalhando, a vida particular de Dirlewanger era um desastre. Um alcoólatra inveterado com uma forte tendência à truculência, ele frequentemente tinha problemas com as autoridades. Na verdade, ele acabou em prisões militares mais de uma vez, por se envolver em brigas, badernas e bebedeira que comumente descambavam para violência. Além, de ter sido acusado de agressão e homicídio, ele também tinha predileção por sexo com meninas menores de idade. A família de Dirlewanger o evitava e o tratava como uma ovelha negra, que havia rompido relações com todos à sua volta. Os irmãos, primos, tios, parentes próximos e distantes o evitavam, por temer seu gênio irascível. 

Durante seu período na cadeia ele teve contato com alguns membros do Partido Nazista e se interessou pela sua filosofia. Esses contatos o levaram a uma posição nas tropas de choque que lutaram na Guerra Civil Espanhola (onde ele foi ferido três vezes). Muitos alemães do Freikorps lutaram na Espanha ao lado de Franco, engrossando as suas tropas e fornecendo um expertise obtido anos antes Não por acaso, essas tropas se destacavam como algumas das mais brutais, capazes de todo tipo de atrocidade, não apenas contra o inimigo, mas contra a população civil.

Quando a Alemanha começou a se armar novamente, os Friekorps se desfizeram e seus membros foram novamente integrados ao exército. Dirlewanger foi uma exceção, pouco antes do início do conflito ele estava preso, e embora fosse um oficial graduado, seu histórico era dos piores. Muitos o consideravam instável: "um candidato maior ao manicômio do que ao comando militar", conforme escrito em uma avaliação psiquiátrica.

O início da guerra fez com que ele fosse liberado da cadeia com a ficha devidamente limpa para que pudesse servir seu país. Dirlewanger foi integrado ao quadro de oficiais da Waffen SS, quando surgiu a ideia de criar a unidade de Caçadores Furtivos que ele deveria liderar. A fama conquistada na retirada da Romênia fez com que ele fosse considerado a opção ideal. Muitos diziam que ninguém mais seria capaz de fazer o mesmo, provavelmente estes estavam certos, mas por motivos errados. 

Durante o treinamento brutal, a unidade rapidamente assumiu o nome de seu comandante e passou a se chamar Sonderkommando Dirlewanger. Posteriormente, após várias expansões, alcançaria o título pelo qual ganharia notoriedade: Brigada Dirlewanger. Esse título estaria para sempre ligado a uma onda de horror e crimes de guerra que incluíam assassinato, tortura, estupro, pilhagem e, praticamente, todas as modalidades de crimes de guerra concebíveis. 

A Brigada tinha prazer em registrar suas atrocidades 

A Brigada Dirlewanger foi testada em campo pela primeira vez na Polônia ocupada, em agosto de 1940, pouco menos de um ano após a ocupação alemã daquele país. Seu trabalho era pacificar a insurgência que existia contra a presença nazista. Dirlewanger e seus homens, receberam carta branca do comando para lidar com a situação da maneira que julgassem necessária. desde que trouxesse resultados. 

Os homens que compunham a Brigada eram quase que inteiramente veteranos das Freikorps, muitos deles envolvidos em crimes, mas havia ainda muitos ex-condenados que foram liberados das prisões para que se juntassem ao exército. Havia indivíduos envolvidos em extorsão, roubo e corrupção; bem como assassinos e estupradores, soldados afastados por indisciplina e atitudes temerárias que não eram condizentes com a função de um soldado. Pode ser exagero categorizar todos eles como psicopatas, mas tal coisa não está longe da verdade.

A Brigada não se importava com a população civil, matava qualquer suspeito que estivesse em seu caminho, cometendo crimes sexuais em massa, torturando e agindo sob efeito de álcool ou drogas (em especial meta-anfetaminas). Um visitante de seu quartel general podia encontrar salas cheias de pilhagem, soldados bêbados em serviço e gritos de mulheres e crianças sendo estupradas nos porões.

Muitos deles acabavam presos preventivamente, mas os contatos de Dirlewanger conseguiam uma rápida liberação, mesmo quando a infração era grave e poderia resultar em corte marcial e até fuzilamento. Naqueles primeiros anos de guerra, a jurisprudência militar alemã era um tanto confusa e se resultados positivos surgiam, tudo podia ser relevado. Os nazistas estavam gradualmente descriminalizando muitos crimes militares. Em 1940 ainda existiam leis contra o assassinato de civis, embriaguez em serviço, roubo de propriedade privada e muitos outros crimes cometidos pelos homens, mas a lei não os tocava. O próprio Dirlewanger chegou a ser acusado de matar um de seus homens numa briga de faca, de ordenar o massacre de inúmeros civis e de manter uma judia cativa como escrava sexual, embora o sexo entre alemães e judeus fosse proibido.

As autoridades alemãs ficaram enojadas com o comportamento desses homens - até mesmo membros locais da SS e da Gestapo ficaram furiosos com os informes. Os demais soldados ficavam horrorizados com o que acontecia e temiam trabalhar com aqueles maníacos furiosos. A situação chegou a tal ponto que o governo provisório alemão na Polônia ameaçou prendê-los se não fossem transferidos imediatamente. O pedido de afastamento mencionava que o moral das tropas convencionais afundava quando forçados a agir com a Brigada proscrita. Mesmo alguns oficiais queriam o bando longe por considerá-los um perigo.  

Varsóvia devastada pela Guerra

Uma vez que o conflito se movia para o Leste, a Brigada foi enviada para a Bielo-Rússia, onde seus talentos poderiam vir à calhar contra os soviéticos.

Dirlewanger recebeu uma permissão especial assinada pelo próprio Heinrich Himmler, líder da SS, para agir como bem entendesse na sua nova função. Era um privilégio extraordinário para um oficial do exército alemão, que normalmente precisava obedecer a regulamentos como qualquer outra força de combate. Ele pediu por reforços e quando ganhou autorização, escolheu à dedo nas cadeias e prisões de toda Alemanha os seus novos recrutas. Ele procurou especificamente por soldados mandados para a prisão por excessos cometidos. Sua seleção passava por três critérios: os candidatos deveriam ser duros, ter treinamento e responder ao seu comandante com completa lealdade. Aqueles que não correspondessem eram disciplinados por Dirlewanger que podia inclusive fuzilar quem não obedecesse suas ordens à risca. 

O Comandante usava liberalmente seus poderes e novos membros da brigada recebiam ordens frequentes de executar civis para confirmar sua lealdade. A presença da Brigada Dirlewanger tinha um efeito dramático onde quer que atuasse. O índice de mortes aumentava consideravelmente onde eles eram designados.  

Dirlewanger era muito próximo de seus homens e tinha a tendência de usar uma linguagem informal e tratá-los pelo primeiro nome, o que era extremamente incomum para um oficial alemão. Ele bebia, socializava e permitia a realização de pilhagens, ações que a maioria dos militares não autorizava em suas fileiras. Além disso, ele também estuprava e matava, agindo como um deles. Finalmente, ele não se eximia de participar dos combates, fazendo questão de estar em ação muito mais do que a maioria dos oficiais de sua patente. Sua calma sob fogo e a conexão quase sobrenatural com as tropas lhe valeram o apelido absurdamente irônico de "Gandhi" entre seus homens.

A infame Brigada Dirlewanger atuou na Bielo-Rússia por três terríveis anos. Nesse período eles ficaram famosos pela perversidade que o comandante categorizava como "medieval". De fato, ele via a si mesmo e aos seus homens, como guerreiros e não soldados, mais adequados ao período medieval do que às guerras modernas. A tropa empregava táticas como forçar mulheres e crianças, com a ponta da baioneta, a marchar à frente dos soldados para detonar quaisquer minas terrestres que pudessem estar em seu caminho. Costumavam ainda trancar moradores de vilas suspeitas em celeiros e atear fogo. Como sempre, estupro, assassinato e destruição injustificada estavam na ordem do dia.

Uma vida de violência e vício cobrava seu preço, Dirlewanger tinha 45 anos nessa foto

Eles alcançaram o auge da infâmia durante a Revolta de Varsóvia de 1944. Os poloneses tomaram o controle da capital quando os soviéticos se aproximaram e Hitler ordenou que os rebeldes fossem esmagados. Uma das tropas responsáveis pelo contra-ataque seria a Brigada Dirlewanger chamada de volta à Polônia. Há inúmeras histórias sobre a atuação da tropa nas operações realizadas em Varsóvia. Um exemplo que ficou famoso foi testemunhado por um tenente do Exército alemão que havia sido imobilizado por uma unidade de poloneses num prédio de vários andares. O oficial relatou mais tarde que a Brigada Dirlewanger chegou, invadiu o prédio sob um barragem de balas e logo o tiroteio parou - substituído por gritos. O oficial encerrou seu relatório descrevendo a visão de rebeldes sendo jogados pelas janelas do prédio com cordas ao redor do pescoço.

Contudo, a Revolta de Varsóvia foi a última ação da Brigada. Não muito depois, o próprio Dirlewanger foi ferido - seu décimo segundo ferimento - e desta vez com gravidade para impedir seu retorno à liderança da tropa. No final da guerra, a brigada foi absorvida por outra tropa, totalizando um efetivo de 7.000 homens. Sem Dirlewanger para opinar, a tropa recebeu soldados sem grande experiência e que não tinham estômago para as atrocidades dos mais velhos. Na primavera de 1945, a tropa foi praticamente dizimada pelo Exército Vermelho na região do Halbe. Apenas algumas centenas sobreviveram.

Anos depois, no início dos anos 1960, um ex-membro da brigada se apresentou a promotores de justiça e se dizendo arrependido ofereceu-se para relatar seus crimes. Ele descreveu vários crimes de guerra, incluindo um incidente em que um membro da unidade, aparentemente bêbado, estuprou uma garota ao ar livre, na rua. Quando terminou, o estuprador puxou uma faca e rasgou-a da virilha até a garganta, deixando-a para morrer ali. Em outro incidente medonho, a Brigada capturou uma cidade e Dirlewanger ordenou que seus homens matassem todas crianças que estavam em um prédio que funcionava como orfanato e creche. Para economizar munição os homens foram instruídos a usar  baionetas e a coronha dos rifles. Esse horror é lembrado como o Massacre de Wola, e supõe-se que cerca de 500 crianças tenham sido assassinadas na ocasião.

Quanto ao próprio Dirlewanger, ele foi capturado vivo por soldados franceses tentando se misturar à população de refugiados e escapar dos aliados. Oficialmente, ele morreu de causas naturais enquanto estava sob custódia, mas há rumores que ele foi espancado até a morte por soldados poloneses que o reconheceram.

[Só um adendo pessoal aqui - Eu espero que eles tenham feito essa surra valer a pena e que esse filho da puta tenha sofrido.]

Massacres eram algo comum nas ações do Batalhão Dirlewanger

A morte de Dirlewanger sequer foi noticiada com destaque, embora tenha simbolizado o fim de uma das carreiras mais assassinas da história militar moderna. Quantas pessoas morreram por sua causa? Qual o tamanho do sofrimento que ele disseminou? É impossível calcular. 

Nem todos, no entanto, consideram a Brigada Dirlewanger como monstros sádicos. Por décadas, eles foram chamados de heróis, com romances e histórias sendo escritas a respeito de suas façanhas militares. Muitos inclusive serviram posteriormente na Legião Estrangeira da França, enviados para lutar no Norte da África e no Sudeste Asiático. O símbolo da unidade, duas granadas cruzadas, ainda é visto nas bandeiras de grupos extremistas e na pele de skinheads. É notável que nenhum membro da Brigada Dirlewanger tenha sido formalmente acusado ou sentenciado por crimes de guerra. Na Polônia e Bielo-Rússia, bem como entre os veteranos russos, a Brigada sempre foi tratada como um bando de homicidas. 

No início desse artigo eu fiz algumas perguntas filosóficas a respeito do mal, de sua origem e de como ele cresce. Depois de escrever esse artigo, eu tendo a concordar com alguns pensadores que dizem ser o mal a apatia diante da perda do senso de moral. Ele ocorre quando aquilo que é claramente errado, ruim e desprezível se transforma em corriqueiro pelas circunstâncias e passa a ser praticado sem culpa.

Na minha opinião pessoal, o mal é a falta total da empatia que nos define como humanos e nos difere como espécie consciente. Quando essa bússola moral se perde, é quando o mal aflora. E ele cresce enquanto uma direção não é apontada.

O horror da Brigada comandada por Oskar Dilewanger não pode ser esquecido ou relativizado, conhecê-lo talvez seja a única maneira de evitar que um dia ele ressurja.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Assombro na Escuridão - A Entidade de Sombras que habita o Trapezoedro Brilhante

 

Anteriormente falamos a respeito do misterioso Trapezoedro Brilhante e de suas características principais. Mas é impossível mencionar esse artefato sem falar do horror sombrio ao qual ele está ligado e que segundo alguns teóricos habita seu interior cristalino. Para alguns estudiosos, o Trapezoedro não é uma simples joia mística que garante visões alucinantes, tampouco é apenas uma janela para vislumbrar paisagens alienígenas, mas sim um portão escancarado. Ele permite que a sinistra entidade sombria, o Assombro na Escuridão, se manifeste em nosso mundo e surja para perpetuar o horror num bater de asas negras.

O Assombro na Escuridão, também conhecido como Habitante da Escuridão, é um poderoso Avatar de Nyarlathotep, uma de suas faces ou máscaras mais infames. A hipótese de que ele seria de alguma forma vinculado ao artefato, como um Guardião ou protetor é levantada por alguns autores, como por exemplo Von Junz que em seu Unausprachlichen Kulten menciona a entidade como um tipo de sentinela, invocado para lidar com os não iniciados que manipulam o Trapezohedro. Abdul al-Hazred, no entanto, tem opinião divergente, no Necronomicon ele escreve que o Assombro se manifesta principalmente para receber tributo e adoração daqueles que tocam o artefato. Mas se estes, forem infiéis, ele os pune com todo rigor, uma vez que mãos ímpias não devem tocar impunemente a Joia do Caos.

A origem do Assombro na Escuridão é incerta, mas alguns pesquisadores buscaram sondar sua gênese. Com certeza, os Fungos de Yuggoth estão entre os que primeiro veneraram esse Avatar do Caos Rastejante e por isso, seu conhecimento é importante para tentar conceituar a criatura. Os Mi-Go acreditam que o Assombro seja nativo de Yuggoth e que ele já habitava o planeta anão que chamamos Plutão, muito antes deste ser transformado em sua principal colônia no Sistema Solar.


Especula-se que os Mi-Go tenham encontrado o Assombro encerrado em cavernas profundas no coração do planeta e que ao romper certos lacres, firmaram com ele uma aliança duradoura. Se isso for verdade, não há qualquer menção sobre quem ou o que foi responsável por prender o Assombro em primeiro lugar e que lacres eram estes que limitavam sua liberdade. Seja como for, os Mi-Go passaram a reconhecer a criatura pelo que ela é, uma faceta de um Deus Exterior e portanto algo digno de ser venerado.

Quando os Mi-Go perderam o Trapezoedro, o culto dedicado ao Assombro também perdeu adeptos e foi gradualmente abandonado, sendo substituído pela adoração irrestrita à Deusa Shub-Niggurath. Os Mi-Go se recordam do Assombro e respeitam seu poder, mas não possuem mais nenhum templo dedicados a ele. Curiosamente, a Raça Ancestral, a espécie que reclamou o Trapezoedro, jamais rendeu tributo ao Assombro e não ousou usá-lo como arma em suas guerras, nem mesmo contra seus mais obstinados inimigos. Mesmo quando os Shoggoth se revoltaram, eles preferiram não invocar o Assombro por temer perder o controle sobre ele. A maior contribuição da Raça Ancestral, no que diz respeito ao artefato, se limitou a criar para ele uma caixa que o protegesse ao longo das eras, nada além disso.

A primeira raça inteligente aborígene da Terra que controlou o Trapezoedro Brilhante foi o Povo-Serpente da Valusia e sabe-se que eles fizeram uso extensivo do artefato quando sua civilização atingiu o ápice. Os Reis-Feiticeiros do Povo-Serpente empregavam o artefato como uma joia real que simbolizava poder e autoridade. Embora o Povo-Serpente fosse desde o início dos tempos servil a Yig, é possível que os Reis também homenageassem o Assombro, já que ele era convocado para atender aos rituais sagrados nas Torres de Basalto Negro. Quando uma guerra civil fragmentou a civilização dos homens ofídios, o Trapezoedro foi mandado para a Lemúria como forma de conciliar as diferenças. Possivelmente, isso atendia também uma demanda para que o Rei-Feiticeiro deixasse de prantear o Assombro e se dedicasse apenas a Yig.


Após passar brevemente pelas mãos de cultistas na Lemúria, coube ao Rei bárbaro Kull da Atlântida reclamar o artefato para si. Contudo ele mais o protegeu do que o empregou, uma vez que sabia da natureza do Trapezoedro e que ele poderia terminar por sobrepujá-lo. Perto de concluir seu reinado na mítica Era Thuriana, o Rei Kull atirou o artefato no mar, rogando aos seus Deuses particulares, Valka e Hotath, que mantivessem a joia nas profundezas insondáveis. Mas sabemos que infelizmente não foi isso que aconteceu.

O Trapezoedro foi encontrado milênios mais tarde, e fez seu caminho até as ávidas mãos do despótico Faraó Nephrem-Ka. E se os historiadores sabem de algo à respeito do reinado desse obscuro regente do Egito antigo, é que ele se tornou conhecido como Apóstata, ou seja, renunciou ao Panteão convencional para se dedicar aos temidos Deuses de outrora. Nephrem-Ka foi um feiticeiro e como tal venerava os Mythos, em especial Nyarlathotep. Se ele se tornou um seguidor do Caos Rastejante depois de obter o Trapezoedro ou se já o era antes, não se sabe. O fato é que até o fim de seu reinado, encurtado pela revolta promovida pelo Faraó Sneferu, Nephrem-Ka ofereceu sacrifícios e adoração a Nyarlathotep em várias de suas formas. Acredita-se que o Assombro nas Trevas foi invocado frequentemente pelo Faraó proscrito para aprovar rituais medonhos realizados aos pés da Esfinge.

Pouco antes de ser assassinado, Nephren-Ka cogitou enviar o Assombro para matar Sneferu, mas a essa altura ele já havia perdido parte de seu poder e estava em fuga. Ele não ousaria arriscaria despertar a ira do Assombro, pedindo a ele que eliminasse um inimigo mortal. Ao invés disso, decidiu esconder o Trapezoedro longe do alcance de seus oponentes que fechavam sobre ele o círculo. Gerações mais tarde foi a vez da cruel Rainha Nitocris fazer uso do artefato e do avatar. Diferente do dono anterior, a Rainha invocava o Assombro frequentemente e o lançou contra seus oponentes. Contudo sabemos que ela era seguidora do Faraó Negro (outro avatar do Caos Rastejante) e não do Assombro em particular.


Em tempos contemporâneos, após a descoberta do artefato pelo arqueólogo Enoch Bowen, tanto o Trapezoedro quanto seu habitante maldito se tornaram centrais para o culto fundado em Providence, o Sabedoria Estrelada. A seita realizava adoração aberta ao Assombro na notável igreja de pedra no topo de Federal Hill. Sabe-se que os serviços, realizados sempre nas noites mais escuras do ano, envolviam a invocação do horror que voava pela nave central da Igreja em rasantes sobre os devotos. Muitas vezes, ele recebia sacrifícios na forma de vítimas inocentes sequestradas pelos cultistas nas ruas de Providence. Acredita-se que o Assombro tenha voado livremente sobre Providence ao menos uma vez em noites especialmente negras. Felizmente o Culto terminou depois de ser antagonizado pelos moradores ultrajados com as estranhas cerimônias conduzidas. Na última vez que o Assombro se viu livre, em 1935, ele matou o autor Robert Blake que havia encontrado o Trapezoedro na Igreja abandonada. A insólita morte de Blake, supostamente causada por uma descarga elétrica, jamais foi explicada de maneira convincente.

Curiosamente, o Assombro na Escuridão é venerado em um local muito distante do último paradeiro conhecido do Trapezoedro. Tribos de aborígenes que habitam o sertão australiano o conhecem por vários nomes: Pai de todos os Morcegos, Devorador de faces, Asa Negra e Morcego da Areia. Essas tribos supostamente estabeleceram contato com o Assombro através de rituais que lhes permitiu abrir um portal para que o Avatar se materializasse. O Culto do Morcego da Areia de Perth, talvez seja o único culto existente devotado exclusivamente para o Assombro.

O Assombro na Escuridão se manifesta como uma enorme sombra, com a forma aproximada de um morcego. Suas imensas asas negras podem atingir 5 metros de envergadura, mas existem indícios de que esse tamanho pode variar de acordo com sua vontade. As asas impulsionam o Assombro pelo ar e permitem que ele alcance velocidades impressionantes tanto na atmosfera quanto no espaço. A capacidade aerodinâmica do Assombro é notável, permitindo a ele executar mergulhos e rasantes quando persegue presas, bem como pairar suspenso ao seu bel-prazer. Embora as asas permitam o voo, elas parecem ser compostas de uma substância imaterial, quase como uma sombra viva. É um fato que as asas não produzem qualquer som. O corpo do assombro, também possui certo grau dessa composição umbrosa, mas diferente das asas tem materialidade. Seu corpo é delgado e longilíneo, com uma musculatura lisa bem definida, por vezes apresentando características humanoides, mas em outras algo mais similar ao corpo de um quiróptero. Sua carne é escura como a noite mais escura, adaptando-se às sombras e em meio a elas ficando praticamente invisível. 


O Assombro possui o equivalente a uma cabeça na mediatriz entre as asas, ocupando o topo de seu tronco. Essa cabeça surge como um tentáculo ou como um borrão cavernoso no qual desponta o único marco facial da criatura: um olho dividido em três lobos. Este olho único de cor avermelhada brilhante parece funcionar como um sensor de calor, embora seja possível que ele tenha uma percepção sensorial que foge à nossa compreensão. Não há boca, ouvidos ou narinas perceptíveis na face inescrutável da entidade.

A criatura ataca voando sobre um alvo, o engolfando com suas asas de sombra e escuridão. Em seguida a vítima é fustigada por um calor sem chama que dissolve pele e ossos rapidamente. A natureza exata desse calor é desconhecida, mas supõe-se que possa ser radioativa. Tudo que resta ao fim dessa investida são restos carbonizados de ossos enegrecidos e cinzas dispersas ao vento. O Assombro, no entanto, reserva um outro tipo de execução àqueles que o desagradam ou desafiam. Para isso, ele se aproxima da vítima, geralmente quando esta está examinando o Trapezoedro ou sob o seu transe; em seguida perfura o topo do crânio, para ganhar acesso ao cérebro e devorá-lo. A morte é imediata, mas os cultistas acreditam que a consciência da vítima é extraída dessa maneira e se torna escrava da vontade da entidade para sempre.

Os cultistas creem que o Assombro estabelece um elo mental com todos aqueles que experimentam visões proporcionadas pelo Trapezoedro. Essa seria a fonte da "sensação incômoda de estar sendo observado", descrita por muitos que tiveram acesso ao artefato. O Assombro passa a ser capaz de rastrear um humano com quem estabeleceu o elo, não importa onde ele esteja. Esse vínculo permite que a criatura exerça certo grau de controle, compelindo a vítima a vir até ele. Em certos casos esse domínio é tamanho que o Assombro consegue manipular o indivíduo, como se este estivesse em um tipo de transe hipnótico ou sonambulismo. Um sinal claro de que a pessoa estabeleceu um elo com a criatura é o desenvolvimento de sensibilidade à luz e visão no escuro. Essa forma de controle é extremamente prejudicial, já que a mente humana não foi feita para suportar essa sobrecarga psíquica. Muitos indivíduos submetidos a esse controle acabam adquirindo sequelas ou morrendo. Uma autópsia revela um cérebro encolhido e calcinado por uma temperatura altíssima que o cozinhou de dentro para fora.

A única fraqueza do Assombro na Escuridão é a luminosidade. 

Mesmo pequenas fontes luminosas, como tochas e velas são o bastante para mantê-lo à distância, enquanto poderosas fontes de luz, como holofotes, podem conseguir bani-lo. A exceção para essa regra é a luz natural de estrelas e da lua, que não parecem afetá-lo. Mesmo uma simples vela basta para que a criatura se mantenha afastada e evite a aproximação direta. O Assombro, no entanto, é capaz de manipular seus alvos e fazer com que eles se aproximem de um de seus covis imersos em completa escuridão. Por razões óbvias, a invocação do Assombro só pode ser realizada em um ambiente protegido da luz, sendo que o sol é capaz de bani-lo em instantes, bastando incidir sobre ele. Nesse caso a criatura se dissolve até desaparecer por completo. Isso, contudo não significa que ela foi destruída, o Assombro pode se reformar dentro de alguns dias com suas capacidades renovadas mas sem o elo mental que havia estabelecido.

O Assombro é um terror impossível de ser controlado ou compreendido em sua integralidade. Os portadores do Trepezoedro raramente alegam ter poder sobre a entidade e se dedicam a servi-la fielmente e aplacar seus caprichos. 

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E aqui temos o vídeo do canal Explorando Mistérios e Segredos que reproduz o texto: