terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Música, Drogas e Demônios - O incidente bizarro de David Bowie com o Oculto


Ocupando um lugar de destaque na história da música, o cantor, compositor e ator britânico David Bowie, falecido em 2016, foi um dos ícones do rock mais amados de todos os tempos, bem como um dos artistas mais populares. Ele é considerado uma figura lendária no mundo da música que deixou um duradouro legado em sua carreira. Embora seja bastante conhecido por seus extravagantes espetáculos teatrais e por seu alter-ego surreal Ziggy Stardust, muitas pessoas podem não saber que Bowie era ainda mais estranho.

Por algum tempo, ele esteve muito interessado no paranormal, misticismo, bruxaria e no ocultismo de um modo geral. Entre as muitas histórias à respeito do interesse de David Bowie pelo mundo oculto, existem algumas que realmente se destacam como particularmente estranhas, e uma delas envolve o que ele acreditava ser uma piscina infestada por demônios que foi exorcizada com a ajuda de uma bruxa.

Na década de 1970, a obsessão de Bowie com o ocultismo estava no auge e ele transferiu isso muitas vezes para sua música, em canções como Quicksand de 1971, que menciona o infame ocultista inglês e mago cerimonial Aleister Crowley e a Ordem Hermética da Golden Dawn. Também a canção Station to Station de 1976, explora o conceito de portais interdimensionais e viagens a realidades paralelas.  Durante este período de sua vida, Bowie era conhecido por se cercar de pessoas misteriosas que agiam como mentores e o introduziram a várias vertentes do misticismo. Essas excentricidades foram muito bem documentadas quando ele estava morando com seu empresário Michael Lippman e sua esposa, um período em que Bowie ficou muito paranóico e temeroso de se tornar alvo de rituais diabólicos. Nessa época ele começou a se comportar de maneira "peculiar": desenhava símbolos ocultos nas paredes, repetia mantras que deveriam protegê-lo contra feitiços e guardava as unhas aparadas para evitar que elas caíssem nas mãos de bruxos. Bowie havia lido muito à respeito de feitiçaria e por alguma razão passou a acreditar que um cabal de feiticeiros e satanistas estavam atrás dele por motivos nefastos.

O Thin White Duke, um dos personagens mais estranhos de Bowie

Tudo começou com uma obsessão de Bowie por Aleister Crowley, um personagem que à princípio ele achava fascinante e que ele acreditava podia ajudá-lo a transcender sua música e se tornar um astro lembrado pela eternidade. Bowie estudou os livros e material de Crowley, supostamente participou de rituais - em especial magia sexual, e conheceu algumas pessoas que levavam tudo aquilo à sério. Sério demais! Em algum momento ele começou a ficar assustado e cortou relação com aqueles indivíduos metidos com missas negras e todo tipo de bruxaria. É claro, a paranoia de Bowie à respeito do mundo sobrenatural era amplificada por conta da quantidade absurda de cocaína que ele consumia na época. Glenn Hughes, o baixista da banda Deep Purple, diria de Bowie nesta fase de sua vida:

"Ele se sentia inclinado a querer saber tudo sobre Aleister Crowley, mas também queria estudar à respeito dos nazistas e seu interesse pelo oculto. Ele estava completamente ligado nessas coisas. Como um maníaco! Eu achava aquilo estranho e não conseguia acompanhá-lo. Ele estava no limite da paranoia o tempo todo, e também falando sobre coisas que eu não tinha a mínima ideia do que era. Mas de uma coisa eu sei: ele estava assustado! Dizia que havia se metido com pessoas perigosas que por sua vez faziam coisas que o deixaram aterrorizado".

O autor Marc Spitz escreveu o livro "Bowie: Uma Biografia" e também ilustra os devaneios do artista e seu temor quanto ao paranormal, pintando um quadro de Bowie cada vez mais afastado da realidade. Spitz escreveu:

"Bowie no início achava aquilo fascinante. Ele se sentava em casa com uma pilha de droga sobre o tampo de vidro da mesa, um bloco de anotações e vários livros sobre ocultismo. Passava noites acordado lendo sem parar. Estava curioso à respeito de tudo aquilo. Mas em algum momento, ele começou a ficar assustado, talvez achasse que aquilo poderia sobrepujá-lo. Ele passou a ler então "Auto Defesa Psiquica", de Dion Fortune, que se tornou o seu livro favorito. A autora descreve nesse livro como se proteger contra a malevolência paranormal e os malefícios que feiticeiros podem empregar. Bowie acreditava que estava correndo risco e talvez de fato estivesse. Ele havia mergulhado naquilo e passou a temer as consequências. Bowie começou a desenhar pentagramas e símbolos de proteção em todas as superfícies. Acreditava que aquilo poderia mantê-lo em segurança."

Bowie posando com os trajes de sacerdote egípcio como Crowley fez décadas antes

Foi uma época de grande perturbação para o atormentado artista. Alguns amigos se recordam que na época ele dizia estar sob o ataque de pessoas que faziam feitiços e mandavam entidades satânicas para buscá-lo. Durante um show em setembro de 1974, Bowie se convenceu de que seres satânicos ou alienígenas estavam no meio da multidão assistindo ao show com propósitos inescrutáveis. Jeremy Reed, um amigo de Bowie escreveu sobre o incidente em seu livro "Diamond Nebula", no qual conta:

"Ele [Bowie] acreditava que extraterrestres estavam na plateia durante seu show no Anfiteatro de Los Angeles [em setembro de 1974]. As pessoas não conseguiam vê-los, mas Bowie acreditava que os rituais que havia realizado permitiam que ele próprio os reconhecesse. Bowie via pessoas estranhas com  pentagramas prateados pintados na testa. Eles estavam lá na multidão e isso o deixou apavorado. Ele contou  mais de vinte dessas pessoas que ele acreditava serem seres alienígenas. Ele estava com medo durante todo show. Em certo momento ficou com receio de retornar ao palco e de morrer diante de todos."

Foi também nessa época estranha que Bowie teve a experiência mais bizarra envolvendo o sobrenatural. Ele havia se mudado para uma grande mansão em Beverly Hills com sua esposa na época, Angie Bowie. Em seu livro Backstage Passes: Life on the Wild Side, ela escreveu sobre como Bowie estava convencido de que sua piscina havia sido amaldiçoada, e que entidades demoníacas a estavam usando como um portal para nossa dimensão. Na verdade, ele alegaria ter visto um demônio emergir da piscina em pelo menos uma ocasião. Angie escreveu sobre o incidente na piscina e toda essa bizarrice:

"Havia um cubo branco em torno de toda parte interna da piscina. David adorava a piscina e passava muito tempo nela ou ao redor dela. Ele escrevia, lia e compunha ali e aquele se tornou rapidamente seu local favorito na nova casa. Certa noite, quando estava ali sozinho, David disse que viu com seus próprios olhos, uma figura bizarra surgindo no fundo da piscina e emergindo do nada. Algo que ele acreditava ser um demônio! Ele realmente ficou perturbado. Não conseguia nem chegar perto da piscina depois disso."

O espetáculo em setembro de 1974 em Los Angeles

Bowie estava tão temeroso com as supostas forças demoníacas gravitando ao seu redor que o incidente na piscina foi a gota d´água. Ele decidiu que algo precisava ser feito e que a piscina teria de ser exorcizada e limpa de qualquer manifestação sobrenatural que a habitava. Ele cogitou por algum tempo contatar um padre católico, mas um de seus amigos disse conhecer uma pessoa que poderia ajudar naquele problema. Um especialista em enfrentar as forças das trevas! 

A pessoa em questão era uma mulher chamada Walli Elmlark, uma jornalista conhecida por escrever para revistas inglesas de rock, mas também conhecida por suas conexões com o ocultismo e a prática da bruxaria. Muitos artistas a conheciam como a "Bruxa Branca" ou "Bruxa do Rock n' Roll" e já a haviam contratado para limpar alguma força negativa. Timothy Green Beckley, escreveu um artigo sobre Walli e sua conexão com Bowie em seu livro "OVNIs - Bruxaria - Cocaína - A Saga Oculta de Wall Elmlark, A Bruxa 'Rock n' Roll":

"Walli foi criada em uma família judia, mas achou os princípios do paganismo algo bem mais de seu agrado. Ela havia se tornado um membro da fé Wicca, uma forma de paganismo que remontava à Antiguidade e era anterior ao Cristianismo sabe-se lá quanto tempo. Ela foi uma das primeiras a levar aquilo à sério e falar abertamente para todos à respeito de suas crenças sobrenaturais. Walli era muito convincente e muitos artistas, em especial músicos, gostavam de tê-la por perto como uma pessoa interessante. Ela deixava claro que NÃO era uma satanista, nem queria fazer mal a ninguém. Dizia ser uma "bruxa branca" que lançava feitiços benéficos e usava rituais com velas e pedras preciosas para proteger e purificar lugares sob influência maligna. Era exatamente o que Bowie precisava".

Walli Elmlark foi apresentada a David Bowie e eles imediatamente se deram bem. Ele tinha estado no apartamento dela e ouviu várias histórias sobre bruxos e feiticeiros que se aproximavam de pessoas famosas ou importantes. Bowie se sentia ameaçado e temia ser vítima de uma seita de satanistas com quem havia andado algum tempo. Ele acreditava que estes adoradores das trevas queriam usá-lo para algum esquema demoníaco e ele se afastou deles, mas isso pareceu atrair a ira do bando. Eles agora queriam se vingar dele! Bowie acreditava que Walli poderia ajudá-lo e que sua própria vida dependia disso.

A Bruxa Branca Walli Elmlark

Walli concordou em ajudar no exorcismo da piscina de Bowie, e forneceu ao casal feitiços, encantamentos e todos os tipos de talismãs e itens ocultos para a cumprir essa missão. Walli visitou a casa e sentiu que havia realmente algo ruim ali, em especial na piscina. Era algo potencialmente perigoso e maligno - possivelmente enviado por alguém que desejava fazer mal a Bowie. Ela acreditava que a piscina funcionava como um tipo de portal e que através deste algo havia sido invocado.

Numa noite, Bowie, Walli e Angie se reuniram ao redor da piscina e começaram a trabalhar no ritual de purificação. Angie, neste ponto, ainda não acreditava realmente em nada daquilo, mas de acordo com ela, algo muito estranho aconteceu durante o ritual:

"Lá estávamos nós, seguindo as instruções de Walli e com algumas centenas de dólares em livros, talismãs e itens diversos comprados nos finos empórios ocultistas de Hollywood. Ele [Bowie] estava, preparado e pronto. Os livros e bugigangas adequados estavam dispostos em um grande púlpito antiquado que Walli mandou trazer. O encantamento começou e, embora eu não tivesse ideia do que estava sendo dito ou em que idioma estava sendo dito, não conseguia evitar uma sensação estranha de arrepio. Ela ficou repetindo monotonamente aquelas palavras por vários minutos. Não há uma maneira fácil ou elegante de dizer o que aconteceu, então vou ser direta. A certa altura do ritual, a piscina começou a borbulhar. Borbulhou vigorosamente de uma maneira inconsistente com qualquer explicação envolvendo filtros de ar ou bombas de filtragem.

Enquanto David observava isso acontecer em terror absoluto, eu tentava encontrar uma explicação para tudo aquilo, mas não havia. Foi muito, muito estranho... Eu estava tendo problemas para aceitar o que meus olhos viam. Nós dois saímos dali às pressas e deixamos Walli sozinha fazendo o exorcismo.  David me disse para espiar de vez em quando e dizer o que estava acontecendo lá fora. Fiquei de olho pelos próximos quarenta minutos e nada de incomum aconteceu, então, com o coração na boca, abri a porta de vidro e, ignorando os gritos de pânico de David, fui até a borda para ficar ao lado de Walli. Foi então que olhei dentro da piscina.

Eu vi o que vi! Nada pode mudar isso. No fundo da piscina havia uma grande sombra, uma forma, que não estava ali no início do ritual. Tinha a forma de uma coisa bizarra: me lembrou uma daquelas gárgulas retorcidas e atormentadas gritando silenciosamente nas torres das catedrais medievais. Era feio, chocante, malévolo; me assustou muito. Ainda não sei o que pensar daquela noite. Isso vai diretamente contra o meu pragmatismo e minha fé cotidiana na integridade do mundo "normal" e me confunde até hoje. Aquela coisa desapareceu depois do exorcismo, eu não sei explicar o que era e provavelmente é melhor ficar sem saber". 


Bowie e sua esposa se mudariam da residência depois disso. Walli disse que a força demoníaca na casa era poderosa e que seria difícil removê-la por completo. Talvez o melhor fosse realmente não confrontá-la e simplesmente deixar o lugar o quanto antes. Os proprietários subsequentes também aparentemente teriam problemas com a casa. Angie diria sobre isso:

"David, é claro, insistiu que nos mudássemos da casa o mais rápido possível, e nós fizemos isso, mas eu ouvi boatos... os inquilinos subsequentes não foram capazes de remover a presença que estava na piscina. Ela voltava e quem entrava na piscina sentia que havia algo estranho ali. Dizem que uma criança quase se afogou e que depois disso a piscina foi desmontada. Não sei o que pensar à respeito."

Tudo isso é interessante porque, como sua esposa também viu o fenômeno, é difícil atribuir isso ao estilo de vida movido a drogas de Bowie na época. O que diabos estaria acontecendo naquela mansão e naquela piscina? Existe alguma explicação ou foi apenas a imaginação super excitada de um astro da música? Todos sabem que Bowie tinha um grave problema com cocaína na época, mas seria esta a causa de suas ilusões diabólicas? É difícil dizer, e até o próprio Bowie contaria mais tarde que este foi um momento de sua vida no qual ele atingiu o fundo do poço:

"Eu era fascinado por coisas bizarras e perigosas. Paguei por esse fascínio com a pior depressão da minha vida. Minha psique explodiu e se partiu em pedaços. Eu estava alucinando vinte e quatro horas por dia. Eu me sentia como se tivesse caído nas entranhas da terra e por algum tempo imaginei que não haveria saída."

Certamente parece que David Bowie estava em um momento estranho de sua vida, atraído por crenças e obcecado por drogas e coisas que poderiam muito bem ter distorcido seu senso de realidade. No entanto, como explicar as outras testemunhas presentes? Seria apenas uma simples alucinação coletiva ou a piscina da Mansão realmente era um portal para o inferno? Seja qual for a explicação, esse é um capítulo interessante, bizarro e pouco conhecido na vida de um dos maiores ícones da música de todos os tempos.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Medo Clássico vol 2 - Resenha da Antologia de Lovecraft lançada pela DarkSide


Quando escrevi a resenha para o Primeiro Volume de Lovecraft: Medo Clássico alguns anos atrás eu comecei dizendo que "Houve um tempo que a obra de Lovecraft era quase desconhecida no Brasil e difícil de ser encontrada". Realmente, houve um tempo em que ninguém, a não ser um pequeno grupo de fãs do gênero horror, conhecia Lovecraft e suas histórias não eram mais do que um material obscuro difícil de ser encontrado.

Como isso mudou!

Atualmente uma nova geração de leitores brasileiros foi apresentada a bibliografia de Lovecraft através de diferentes fontes. Temos filmes, séries de televisão, desenhos animados, jogos de tabuleiro, quadrinhos e RPG que colocam as criações (e criaturas) do autor em destaque. Quem poderia imaginar tal coisa? Ninguém supunha que esse estranho autor norte-americano, nascido no final do século XIX e que faleceu na obscuridade em 1939, se tornaria um dia um dos maiores expoentes no gênero e um verdadeiro fenômeno pop. E tudo aconteceu após a sua morte prematura, aos 46 anos, num lamentável estado de penúria e desespero. Até então Howard Phillips Lovecraft havia escrito compulsivamente a respeito de uma mitologia particular, uma complexa colcha de retalhos formada por deuses monstruosos, seres alienígenas e horrores impronunciáveis. Seus contos foram publicados em revistas pulp, como a Weird Tales, publicações baratas tratadas como uma subliteratura pelos críticos. Lovecraft almejava ser reconhecido, desejava que suas histórias se tornassem tão admiradas quanto as de seu ídolo máximo, Edgar Alan Poe, e que isso lhe trouxesse algum reconhecimento. Mas não aconteceu.

Embora fosse elogiado por um pequeno grupo de fãs, Lovecraft jamais atingiu em vida as suas aspirações profissionais. Ele nunca viu uma antologia com o seu nome ser publicada, por exemplo. O ofício de escritor lhe permitia sobreviver à duras penas. De fato, é uma surpresa que após a sua morte ele não tenha caído no anonimato. Isso se deu porque ele semeou boas amizades. Coube a esses colegas mais próximos, um grupo de fiéis seguidores que o tinham como um mentor, a difícil tarefa de cultivar a sua memória. Eles sabiam que valia a pena lutar para salvaguardar os textos de Lovecraft, uma série de contos que daria origem a algo que ficou conhecido como Horror Cósmico.

Levou alguns anos, mas graças a esses amigos, em especial August Derleth, os trabalhos de Lovecraft foram resgatados do limbo em que se encontravam. Ele foi publicado uma, duas, várias vezes e um fenômeno tão curioso quanto inesperado começou a surgir. As histórias de Lovecraft começaram a conquistar seu espaço. Mais que isso, passaram a ser elogiadas, copiadas, respeitadas, estudadas... Aos poucos o tão desejado reconhecimento que ele buscou incessantemente, acabou vindo. Tarde demais para ele, é bem verdade, mas assim, tal qual Cthulhu (sua criação mais conhecida) o legado de Lovecraft não estava morto, apenas aguardava, sonhando.


Nas últimas décadas, Lovecraft deu um salto decisivo para se estabelecer como um dos nomes mais populares dentro da literatura do Horror. Sua importância para o gênero pode ser medida pelo fato de seu nome ter se tornado adjetivo: "lovecraftiano" - que se refere a algo estranho, bizarro e incomum, geralmente horrendo e perturbador além de qualquer descrição.

No Brasil, Lovecraft está mais popular do que nunca. Trinta anos atrás, você mencionava o nome dele e obtinha olhares inquisitivos, hoje, a maioria dos fãs sabem quem ele foi e quais as suas principais histórias. E elas não param de ser publicadas, o que apenas confirma o vigor de sua obra e o interesse que ela desperta num público ávido por explorá-la mais à fundo.

Isso nos leva ao mais recente lançamento da Editora Darkside, o aguardado segundo volume do selo Medo Clássico, dedicado inteiramente a H.P. Lovecraft. Seguindo a premissa do primeiro volume, lançado em 2018, Lovecraft Medo Clássico volume 2 oferece uma seleção de 12 contos essenciais escritos pelo mestre do Horror Cósmico. São histórias que compõem a quintessência do autor, alguns de seus grandes momentos criativos estão presentes aqui, bem como alguns pequenos contos menos citados, mas que valem a pena conhecer.

Vejamos o lista de contos que integra o volume dois:

Medo Clássico abre com "O Horror de Dunwich" um dos contos mais populares de Lovecraft, verdadeiro clássico de construção lenta mas arrepiante. A história é sobre um estranho clã vivendo num pacato lugarejo nos arrabaldes da Nova Inglaterra que planeja a derrocada da humanidade através de um horrível experimento sobrenatural. Para deter esse plano macabro, um grupo de acadêmicos recorre a livros, em especial o tenebroso Necronomicon, para combater a ameaça. Um dos Deuses mais interessantes, Yog-Sothoth, faz uma bela aparição aqui e permeia na trama do início ao fim.


"Celephais" é daqueles contos menores, uma história que integra o chamado Ciclo dos Sonhos e que versa sobre uma realidade onírica fantástica. A Celephais do título é uma cidade criada por um sonhador que usa a Terra dos Sonhos para espelhar seu lugar idílico.

Já em "A Música de Erich Zann" temos um estudante que fica intrigado pela curiosa música executada por um ancião que parece tocar suas melodias para uma plateia incomum. A música do título, nada mais é que uma canção de ninar para titãs e deuses de outra realidade.

Lovecraft atinge o ápice de sua inventividade misturando terror e ficção científica no conto a seguir, "A Cor que Caiu do Espaço" uma de suas obras mais celebradas e elogiadas. Não é para menos! A Cor está facilmente no top 10 de seus contos e é uma história engenhosa e impecável. Um meteorito despenca dos céus trazendo em seu interior uma forma de vida bizarra que altera a natureza e promove um horror inenarrável. A coisa é apenas uma cor, indescritível e bizarra que corrompe tudo aquilo em que toca. Para alguns esse é um dos contos definitivos no gênero Horror Cósmico.

"Os Gatos de Ulthar" é uma pequena joia da bibliografia lovecraftiana, também se passando na Terra dos Sonhos. Ela trata de uma das paixões do autor, os gatos e apresenta uma cidade incomum em que a Lei principal proíbe matar gatas. A história acompanha o que acontece quando alguém vai contra essa norma e ousa ferir um felino nos limites de Ulthar.

A seguir encontramos "Do Além", um conto curto dotado de grande intensidade e empolgação. A trama nos apresenta um cientista que constrói uma máquina - o Ressonador, engenho que lhe permite apreciar o que existe além de nossos sentidos e das limitadas percepções humanas. O único problema é que, aqueles que estão do outro lado também passam a nos perceber.


"O que Assombra as Trevas" foi um dos últimos contos escritos por Lovecraft, lamentavelmente justo quando ele parecia ter amadurecido sua narrativa e refinado seu estilo. A história é sobre a obsessão de um homem à respeito de uma estranha igreja proibida na sua cidade natal, um lugar escuro que abriga um horror ancestral. Atraído por sua curiosidade mórbida ele acaba explorando o lugar e libertando a coisa blasfema que habita nas trevas do campanário.

O conto "Nyarlathotep" lança um espectro sobre uma de suas criações mais celebres o Deus Exterior que dá título à história e um dos horrores favoritos entre os fãs. O conto curtinho contextualiza o caráter sardônico do Caos Rastejante e sua propensão a nos confundir e enganar. É uma espécie de poesia narrada em prosa, difícil de descrever e não por acaso resultado de um sonho febril de Lovecraft à respeito de uma realidade distópica.

Já em "O Modelo de Pickman", o autor volta ao mundo real para contar uma história com ecos de gótico sobre um pintor que recorre a uma musa apavorante para produzir os quadros mais horripilantes. A medida que sua arte vai sendo apresentada, a origem chocante das telas e a forma como elas foram produzidas deixam uma sensação indisfarçável de asco e choque. Pickman é outra obra menor de Lovecraft, mas que se tornou muito querida entre os fãs.

O Cavalheiro de Providence investe novamente no gótico com a história à seguir "O Proscrito". Nela, temos um misterioso morador de um castelo medieval que habita as profundezas de um porão que lhe serve de prisão. Ao buscar a liberdade, o estranho narrador faz uma chocante descoberta sobre si próprio. Fortemente influenciado por Poe e outros mestres góticos, o Proscrito é uma história sobre solidão e revelações perigosas.

Já em "A Danação que acometeu Sarnath", a narrativa tem tons surreais e fantásticos. Conhecemos aqui o trágico destino de uma bela cidadela e de seu povo, vítimas de uma vingança que demora séculos para se concretizar, mas que quando ocorre promove a danação do título. É uma história estranha e com nuances oníricas que obviamente se passa na Terra dos Sonhos.


Finalmente, a lista termina com "A Sombra sobre Innsmouth", outro dos grandes clássicos que compõem o rol de obras que "merecem ser lidas". Insmouth é uma daquelas histórias decididamente macabras em que o autor dá asas a sua imaginação mais profana. Nela temos uma pacata cidadezinha costeira, palco de incidentes muito estranhos e onde a população negocia com horrores que habitam as profundezas marinhas. Lovecraft explora como ninguém a estranheza diante do incomum e do imponderável, além de promover um vislumbre do que viria ser chamado de "Body Horror".

Além da excelente seleção de contos, o volume 2 nos brinda com o ensaio "O Horror Sobrenatural na Literatura" uma espécie de estudo acadêmico, redigido por Lovecraft à respeito do gênero e dos principais expoentes da literatura de terror que o inspiraram e influenciaram. Um trabalho erudito e primoroso.

Como sempre é necessário elogiar a qualidade gráfica e o sensacional trabalho dispensado pela Darkside. O livro é um deleite visual que vai fazer os colecionadores literalmente salivarem com a oportunidade de tê-lo em sua prateleira, ainda mais com a perspectiva futura de outros volumes que completarão essa coleção dedicada a Lovecraft. Diferente da primeira edição em que o verde fosforescente era a cor principal, aqui temos um tom de laranja doentio que casa perfeitamente com o tema das histórias. As ilustrações que abrilhantam algumas páginas são assinadas pelo consagrado artista Virgil Finlay que contribui demais para o clima mórbido e lúgubre. Medo Clássico volume 2 tem um acabamento fantástico e oferece duas opções de capa: a Edição Miskatonic e a Cósmica, ambas incríveis.

Mais um grande acerto da Darkside que oferece entre os mimos para quem adquire pela sua loja própria três cartões postais. Particularmente não gosto de usar a palavra "obrigatório", mas sem dúvida os verdadeiros fãs do terror deveriam conhecer esse gênio do Horror e saber porque ele é tido como um dos expoentes do gênero. E aqueles que já conhecem, vão adorar essa edição.

Para quem quiser ler a resenha do volume 1, aqui está o link:

http://mundotentacular.blogspot.com/2018/01/medo-classico-hp-lovecraft-em-uma.html

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Dagon & Hidra - O Patriarca e a Matriarca dos Abissais


A Raça ancestral dos Abissais habita os recessos oceânicos desde o início dos tempos.

Eles são consideravelmente mais antigos que a humanidade e quando esta ensaiava apenas os seus primeiros passos, a espécie submarino já havia construído majestosas cidades nas profundezas, erguidas com pedra, coral e madrepérola. Acredita-se que os abissais tenham sido escolhidos pelo Grande Cthulhu pouco depois dele e seu seguidores terem chegado à Terra e se fixado na Ilha de R'Lyeh. Segundo as escrituras sagradas dos Abissais, Cthulhu teria escolhido uma raça nativa que habitava os mares da Terra, concedendo a ela a faísca de inteligência que permitiu sua evolução. Esses abissais primitivos imediatamente passaram a adorar o Grande Cthulhu como seu Deus e servi-lo com total devoção.

Os abissais desenvolveram toda uma religião ao redor de Cthulhu, comungando com ele e recebendo suas graças na forma de profecias e magia. Construíram em sua homenagem grandes templos, ídolos e cidadelas de pedra esverdeada tanto na superfície quanto no fundo do mar. Foi um período de grande atividade e desenvolvimento, uma era dourada para os abissais, no entanto, ela estava fadada a terminar de forma abrupta. Uma Catástrofe de Proporções Cósmicas se abateu sobre os Grandes Antigos na forma de um alinhamento estelar que forçou esses titãs a hibernar. Com efeito, R'Lyeh foi tragada para o leito do Oceano Pacífico, levando para as profundezas a Cidadela do Grande Cthulhu. Lá ele aguarda, "não morto, mas dormindo" até que uma novo configuração estelar lhe seja propícia e permita Seu despertar.

Quando Cthulhu adormeceu, os abissais se ressentiram demasiadamente pela perda de sua divindade máxima. O desespero e desesperança varreu sua até então gloriosa civilização, pintando os mares de vermelho com a fúria da guerra e a loucura do genocídio. A ausência repentina de Cthulhu, para guiar e comandar a raça, fez com que os abissais se entregassem numa disputa interna pelo poder que por pouco não os levou à ruína. Essa Guerra Civil devastou suas belas e resplandecentes cidades submersas e quase causou sua completa extinção. Contudo, os abissais conseguiram superar esse momento dramático de sua existência apoiando-se em crenças comuns que uniram uma vez mais a espécie. 

Nesse contexto, a devoção aos dois semideuses Dagon e Hidra foi essencial.


Os teóricos do Mythos se dividem quanto a identidade de Dagon e Hidra e sua origem. Existe a teoria defendida pelo nefasto tomo, o Chaat Aquadingen, que afirma serem eles dois Abissais incrivelmente antigos, possivelmente os primeiros a receber a benção de Cthulhu milhões de anos atrás. Eles teriam sido incumbidos da tarefa de formar as primeiras gerações de abissais que serviriam ao Grande Antigo e edificar sua civilização. Os dois seriam, portanto, os Patriarcas da raça inteira, apontados pelo Deus Máximo como seus prelados. Através dessa hipótese, desde o início dos tempos, só teria havido um Dagon e apenas uma Hidra, e estes, como seres imortais que são, estão destinados a ocupar para todo sempre a função que lhes foi atribuída.

Há correntes de estudiosos do Mythos, no entanto, que consideram Dagon e Hidra, como um tipo de título honorífico entre os abissais, atribuído a diferentes indivíduos especialmente escolhidos para assumir o papel dos patriarcas quando necessário. De tempos em tempos, portanto, o surgimento de um abissal com as características desejáveis o tornariam apto a assumir o posto. Essa teoria explicaria porque Dagon e Hidra seriam descritos de maneiras tão distintas em diferentes momentos da história. É provável que a verdade repouse em um meio termo entre as duas hipóteses, mas não há como saber ao certo visto que apenas os alto-sacerdotes abissais conhecem esses mistérios e os conservam na forma de cânone religioso.    

Seja como for, segundo as tradições abissais, sempre houve Dagon e Hidra, ainda que eles tenham assumido papel de importância apenas quando Cthulhu desceu à sua Cripta Submarina. Embora não sejam considerados como divindades, eles passaram a ser venerados pelas tribos abissais e tratados como os Genearcas de toda linhagem. É por essa razão que algumas tribos se referem a eles como Pai Dagon e Mãe Hidra, respectivamente o patriarca e a matriarca de todos os Abissais. Uma outra possibilidade aventada em manuscritos é que os dois teriam sido os primeiros a ouvir as emanações psíquicas projetadas pelo Grande Cthulhu e que isso lhes deu o status de abençoados. Quando os dois se tornaram os líderes incontestáveis entre os abissais, as disputas e guerras entre os membros da raça foram encerradas imediatamente. Com dois líderes para guiá-los, e interpretar a vontade de Cthulhu, a raça voltou ao seu caminho. Desde então eles gozam de igual status com os mesmos privilégios e prerrogativas. Os abissais devem a eles completa devoção e suas ordens são inapeláveis.


Os ritos oferecidos a Dagon e Hidra se diferem daqueles criados para louvar Cthulhu. Uma vez que não são tratados como deidades, tampouco existem templos dedicados a eles, ainda que os tabernáculos submarinos da entidade maior possuam por vezes estátuas de Dagon e Hidra sempre dispostos à direita e à esquerda de Cthulhu, que ocupa o espaço central. Os Sacerdotes abissais respondem diretamente aos dois, como se eles fossem também líderes espirituais da raça. Há rituais específicos que apenas Pai Dagon ou Mãe Hidra podem oficializar e por isso eles são frequentemente invocados para dar seu vaticínio. 

Uma vez que a população de abissais está dispersa pelos oceanos do planeta, seria de se esperar que Dagon e Hidra não tivessem um lar permanente, contudo os dois parecem habitar com mais frequência uma determinada região do Pacífico Sul nas coordenadas 15° 0′ 0″ S, 115° 0′ 0″ W, ao noroeste de R'Lyeh. Essa entretanto não é a única das possíveis moradas de Dagon e Hidra, que também teriam covis nas proximidades da Ilha Polinésia de Rurutu, nas cercanias de Tonga e também na Micronésia, sempre em regiões marítimas abismais. Outra possível localização é nas profundezas do Estreito de Luzon que divide Taiwan e as Filipinas.

Existe uma teoria controversa de que Dagon e Hidra utilizam portais dimensionais criados na época da dominação de Cthulhu. Estes teriam afundado milhões de anos atrás junto com as ilhas construídas pelo Grande Antigo, mas ainda estariam em funcionamento. Utilizando esses portais, ativados por obeliscos de pedra branca, criados especialmente para esse fim, os dois seriam capazes de cruzar enormes distâncias marítimas em segundos. A localização exata desses obeliscos é desconhecida, mas acredita-se que leituras de misteriosos sons submarinos, possam ser causados por picos de energia desses artefatos ancestrais. Alguns teóricos cogitam ainda que estes obeliscos podem ser a causa dos numerosos naufrágios ocorridos no Triângulo das Bermudas e em Ma-No-Umi, o infame Triângulo do Diabo no Mar do Japão. 


É um fato que algumas das ilhas naufragadas que compunham os domínios de Cthulhu por vezes vem à superfície trazendo consigo não apenas estes misteriosos obeliscos, mas todo tipo de artefato místico. Os Abissais fazem um criterioso acompanhamento desses fenômenos e geralmente zelam pela proteção dos objetos, tidos como sagrados que emergem com as ilhas. Por vezes, entretanto, alguns destes objetos são acidentalmente recuperados por humanos.

Dagon e Hidra também são venerados por cultistas humanos e híbridos que devotam a eles grande importância. No passado, a Civilização Fenícia foi pioneira em sua devoção à Dagon que se tornou uma das deidades centrais entre os povos cananitas. Nem todos os cultos humanos compreendem exatamente qual a natureza dos dois, tratando-os muitas vezes como deuses verdadeiros. Há incontáveis interpretações equivocadas que colocam Dagon como um Avatar de Cthulhu ou que tratam dele como Herdeiro (ou mesmo filho) do Grande Antigo. Os cultos que contam com a assistência de abissais são consideravelmente mais bem esclarecidos a respeito dos Genearcas.

Apesar de sua flagrante importância para os Abissais, Dagon e Hidra passam a maior parte de seu tempo dormindo em fissuras no leito oceânico abaixo de densas camadas de algas e sujeira. Eles podem passar meses, ou mesmo anos dessa maneira se não forem perturbados. Quando invocados da forma correta pelos seus cultistas, respondem prontamente. Seu propósito inclui oficializar rituais importantes, abençoar seus servos e receber sacrifícios. Por vezes, eles podem ser invocados também para defender uma cidade sob ameaça ou para vingar a morte de abissais. Contudo, um sacerdote jamais será tolo de convocar qualquer um deles sem uma boa justificativa.


Os Genearcas Abissais tem uma aparência condizente com os demais membros de sua espécie. A principal diferença e a que chama mais atenção, sem dúvida, diz respeito ao tamanho. Enquanto os abissais possuem uma estatura mediana equivalente aos seres humanos, Dagon e Hidra são consideravelmente maiores. Enquanto o Patriarca mede algo em torno de 6 metros de altura, Hidra, assim como as demais fêmeas da espécie, é discretamente maior, com pouco menos de 7 metros. Ela também é mais pesada, atingindo pelo menos 5 toneladas de peso corporal. Os dois possuem uma forma humanoide, erguendo-se sobre duas pernas e caminhando de forma ereta quando necessário. Os braços são alongados, terminando em mãos com quatro dedos e um polegar oposto semelhante à mão humana. Elas são espalmadas com uma camada de pele entre os dedos que os ajuda a nadar. Essa mesma camada surge também nos pés que são largos e compridos como nadadeiras. Na ponta dos dedos se projetam garras ósseas rígidas e afiadas. A cabeça de ambos é chata e compacta, praticamente fundida ao tronco sem um pescoço. O crânio é rígido e extremamente resistente, com protuberâncias ósseas protetoras nas laterais e sobrancelhas. Os olhos são grandes e arredondados, globos cristalinos destituídos de pálpebras e com uma coloração amarelada. Não possuem nariz ou orelhas, mas sim fossas bem evidentes e fendas como guelras na junção da cabeça com os ombros. A bocarra é larga, rasgada e profunda com uma mandíbula musculosa de onde despontam fileiras de dentes afiados. Estes se projetam para fora quando a boca abre, permitindo uma mordida mais eficiente, como a de um tubarão.   

São anfíbios, podendo sobreviver na terra, embora claramente estejam mais adaptados à vida no meio aquático. Fora do seu habitat principal eles se movem mais devagar e de modo vacilante, mas na água são excelentes nadadores se deslocando velozmente podendo atingir até 50 quilômetros por hora. Como ocorre com os abissais, eles precisam de certo grau de humidade para regular seu organismo e ambientes demasiadamente secos ou quentes causam muito incomodo. Dagon e Hidra possuem uma pele rígida e úmida de cor azul-esverdeada, com placas de escamas distribuídas em determinados pontos de seu corpo. A densidade da epiderme combinada com as placas escamosas concedem uma proteção eficiente contra a maioria dos ferimentos que lhe possam ser dirigidos. Ela se mostra resistente a armas brancas, sendo extremamente difícil de ser perfurada ou lacerada por lâminas ou arpões. Mesmo projéteis disparados por armas de fogo tendem a resvalar na proteção natural, ainda que munições mais potentes e explosivos consigam atravessar a couraça que os reveste. 

Se necessário, eles podem lutar, usando a seu favor uma força física condizente com seu porte gigantesco. É mais comum ver Dagon envolvido em combate do que Hidra, mas ambos são extremamente perigosos. Quando forçados a enfrentar oposição em terra, seus movimentos envolvem agarrar os inimigos e em seguida desmembrá-los. Eles são fortes o bastante para arrancar um braço com um simples puxão ou partir uma coluna vertebral com pouco esforço. Na água, entretanto, é quando eles se tornam mais perigosos. Sua tática comum consiste de agarrar o alvo e em seguida puxá-lo para as profundezas com o intuito de afogar ou causar danos consideráveis em criaturas não adaptadas à pressão. Sendo extremamente rápidos, um mergulho da superfície para 50 metros de profundidade pode acontecer em poucos segundos. Outro método de ataque envolve nadar velozmente do fundo para a superfície com o objetivo de abalroar o alvo. Dessa maneira um ataque direto pode até afundar pequenas embarcações. Finalmente, usam uma mordida devastadora que pode secionar facilmente o corpo de um homem adulto. Essa pressão de mordedura supera consideravelmente a do Crocodilo do Nilo, que dentre os animais possui a mordida mais poderosa. Os dentes são fortes e afiados como facas e combinados com a prodigiosa musculatura da mandíbula, tornam a mordida uma arma letal. Ela é capaz de destroçar ossos, perfurar órgãos internos e rasgar facilmente porções inteiras de carne.


Os sentidos de Dagon e Hidra são bem mais desenvolvidos na água do que na superfície. Eles conseguem sentir alterações súbitas na temperatura e pressão, bem como captar mínimas vibrações e ruídos submarinos quase indetectáveis. A visão é perfeitamente adaptada para a escuridão dos abismos oceânicos. Fora da água são bem menos eficazes e os dois se confundem com sons altos e agudos. Forte luminosidade e uma quantidade considerável de fogo também causam incômodo e podem ser elementos capazes de forçá-los de volta ao mar.

Há representações dos Genearcas Abissais em estátuas talhadas por cultistas e nas páginas amareladas de tomos de magia onde os dois aparecem estranhamente diferentes. Por vezes, Dagon possui múltiplos braços, pares adicionais de olhos e um corpo que parece estranhamente maleável. Hidra por sua vez já foi descrita como uma serpente marinha e como uma forma amorfa encoberta por um nevoeiro cinzento. É possível que estas representações decorram de lendas e histórias marinhas, mas alguns acreditam que Dagon e Hidra são capazes de adotar formas distintas. Uma das profecias dos Abissais envolve a crença de que, quando o despertar de Cthulhu estiver próximo, Dagon e Hidra passarão por mudanças significativas para melhor servir seu mestre. Seis seguidores aguardam ansiosamente esses sinais.

sábado, 4 de dezembro de 2021

O Anjo Estranho - A inacreditável vida do cientista e ocultista Jack Parsons


As fronteiras da ciência e do progresso são ampliadas por visionários que aparecem de vez em quando. Indivíduos excepcionais imbuídos com uma centelha de brilhantismo que ilumina o caminho para o futuro. Ao longo da história humana, muitas dessas figuras se destacaram e, embora a maioria delas sejam celebradas por suas realizações culminantes e suas contribuições inestimáveis, há outras que serão lembradas por suas vidas estranhas e crenças bizarras. Uma dessas personalidade, capaz de reunir as facetas de genialidade e excentricidade ao mesmo tempo, foi nada menos que um dos pioneiros das viagens espaciais e da ciência de foguetes. Um cientista que ajudou a criar a NASA, alcançando o que antes era considerado impossível: conquistar o espaço. Mas além de ser um gênio científico, o americano Jack Parsons também ficou famoso pelas suas profundas crenças no ocultismo e na magia negra que lhe valeram o apelido de Anjo Estranho.

Nascido em Los Angeles, Califórnia, em 2 de outubro de 1914, Parsons foi criado em uma família rica e tradicional da Costa Oeste. Durante sua juventude ele ficou fascinado com histórias de ficção científica e imaginava se aquelas viagens pelos espaço poderiam um dia acontecer. Ainda muito jovem seus interesses pela astronáutica já estavam aparentes quando ele passava horas em seu quintal tentando remendar foguetes caseiros propelidos com pólvora e conduzindo experimentos estranhos com combustíveis, muitas vezes extremamente voláteis. Parsons foi expulso da escola certa vez por explodir um banheiro com um motor que havia criado.

Foi esse interesse que inevitavelmente o levou a seguir seu curso de vida. Embora nunca tenha se formado na faculdade, Parsons aprendeu tudo que precisava por conta própria e continuou a realizar experimentos com foguetes na companhia de amigos. Seu grupo se autodenominava "Esquadrão Suicida", já que suas pesquisas tinham uma natureza explosiva e perigosa. Era um grupo desorganizado de exploradores da ciência e visionários. Isso tudo aconteceu na década de 1930, quando os foguetes faziam parte das histórias de ficção científica. A ideia de foguetes levando as pessoas para o espaço era coisa de fantasia, algo que só acontecia em quadrinhos e nos filmes de Buck Rogers e Flash Gordon. Até então não havia nenhuma pesquisa formal sobre isso porque era pensado principalmente como algo improvável e demasiadamente perigoso. 


O Esquadrão Suicida realizou grandes progressos, com Parsons em particular sendo muito inovador e instrumental para a criação de combustíveis ​​que poderiam ser usados ​​em seus experimentos. O grupo foi capaz de convencer o governo a dar um financiamento de pesquisa no valor de US $ 1.000 o que lhes permitiu experimentos mais profissionais. E isso foi apenas o início de sua carreira como cientista à serviço do Corpo de Aviação dos Estados Unidos (O precursor da USAF).

Parsons iria projetar motores a jato, criar a base para combustíveis superpotentes tanto líquidos quanto sólidos, desenvolver foguetes e mísseis usados ​​pelos militares e pela NASA, além de outras inovações que são a base de muitas coisas que usamos hoje em dia. Ele foi um dos principais fundadores do Jet Propulsion Laboratory (JPL) e da Aerojet Engineering Corporation, duas entidades criadas para pesquisar e desenvolver tecnologia de aviação. Não por acaso, Parsons se tornaria conhecido como o pai dos foguetes modernos e tiraria as viagens espaciais das páginas da ficção científica, suas invenções ajudaram a colocar o homem na Lua, e nos permitem sonhar com jornadas mais longas. Nada mal para alguém sem diploma e conhecimento autodidata.  

No entanto, a vida de Jack Parsons não se resumiu apenas a estudos e pesquisas. Apesar de manter a fachada de cientista, sua vida pessoal era bem pouco, digamos, ortodoxa.

Parsons sempre foi fascinado pelo ocultismo e acreditava em noções peculiares. Em 1939, ele se envolveu em um movimento filosófico/religioso chamado Thelema, iniciado pelo infame ocultista e feiticeiro inglês Aleister Crowley. Após participar de reuniões e palestras, Parsons foi convidado a integrar o grupo que havia sido batizado como Ordo Templi Orientis (OTO). Eles praticavam uma forma de magia na qual a vontade, segundo suas crenças, poderia produzir efeitos sobre o mundo físico. Crowley dizia que teoricamente seria possível usar a força de vontade para alterar a natureza de qualquer coisa. Ao que tudo indica, as controversas teorias do ocultista causaram grande impacto no cientista. Parsons acreditava que a teoria da vontade podia ser explicadas cientificamente por meio da física quântica. Na sua opinião, não havia desacordo entre a Ciência e o Ocultismo, o mundo sobrenatural nada mais era do que uma ciência ainda desconhecida. O escritor e jornalista britânico George Pendle comentou sobre sobre essa dicotomia:

"Parsons tratava a magia e a ciência de foguetes como faces diferentes da mesma moeda: ambas haviam sido menosprezadas, ambas ridicularizadas como impossíveis. Na cabeça de Parsons ambas se apresentavam como desafios a serem vencidos. Os foguetes permitiam enxergar a humanidade  como criaturas capazes de explorar o universo, não mais seres acorrentados à terra. Da mesma forma, a magia sugeria que existiam mundos metafísicos invisíveis que poderiam ser explorados com o devido conhecimento. Os foguetes e a magia eram, cada um a sua maneira, rebeliões contra os próprios limites da existência humana".


Como parte dessa Ordem Ocultista, Parsons foi capaz de usar seu carisma natural e boa aparência para reunir um grupo eclético de amigos e seguidores ao seu redor. Ele participou de todos os tipos de rituais estranhos, inclusive um chamado de "Missa Gnóstica", uma espécie de perversão da Cerimônia Católica, formulada por Crowley, na qual os praticantes bebiam vinho e comiam o Bolo da Luz, uma iguaria feita com sangue menstrual. Parsons se tornou um grande fã de Crowley, que por sua vez, assumiu de bom grado o papel de mentor. O cientista leu extensivamente toda obra do ocultista, subindo na hierarquia da ordem até se tornar um membro proeminente e eventualmente ser designado pelo próprio Crowley como o Chefe do Templo na Costa Oeste. As coisas então só ficariam mais e mais estranhas.

Estabelecido na Califórnia, Parsons comprou uma enorme mansão, onde alguns dos membros do grupo viviam como uma espécie de comunidade aberta. O uso de drogas que alteravam a percepção era algo comum na casa, bem como experimentos com todo tipo de magia sexual. O comportamento de Parsons e de seus "colegas da ordem" começou a chamar a atenção pelo caráter escandaloso das reuniões e festas na propriedade. Haviam prostitutas contratadas para participar dos rituais de magia, bem como música alta até a madrugada, embriaguez e brigas. Apesar disso, Parsons continuava desempenhando um trabalho importante para o governo na pesquisa de foguetes e combustíveis. Ele era tratado como o principal pesquisador em vários projetos ultra secretos. Contudo, as pessoas mais próximas percebiam que ele apresentava uma falta de controle cada vez maior, algo que muitos viam como insanidade. 

No início da década de 40, a mansão se tornou o marco zero para todo tipos de rituais mágicos alimentados com drogas, sacrifícios de sangue e práticas arcanas. Parsons mergulhou de cabeça na noção de "magia sexual", com a Casa ganhando rapidamente a reputação de ser um antro de hedonismo selvagem, com orgias bizarras que deixavam a vizinhança chocada. Sexo era visto como um poderoso combustível para rituais mágicos e Parsons passou a se relacionar com a irmã de sua esposa, que não tinha nem 17 anos. A casa recebeu o nome de "Parsonage" e atraiu frequentadores estranhos, que incluíam escritores, poetas, cientistas, bruxas e outros indivíduos peculiares. A mansão abria as suas portas a qualquer visitantes que quisesse conhecer o estilo de vida decadente de seus moradores. Não haviam regras e de fato, a única norma era fazer o que bem quisessem, da forma que bem quisessem.

Um visitante que esteve em Parsonage descreveu o lugar da seguinte maneira:

"Visitar a mansão era como entrar em um filme de Fellini. Mulheres circulavam com togas diáfanas e maquiagens esquisitas, algumas fantasiadas de animais, como numa festa à fantasia. Haviam bandejas com comprimidos e drogas de todo tipo para quem quisesse usar - bastava apanhar. As pessoas se entregavam a um comportamento lascivo, com sexo acontecendo diante de espectadores desinteressados. Alguns fotografavam ou filmavam sem cerimônia. A decadência era completa, algo que não devia nada às reuniões do Marquês de Sade na Paris pré-Revolução. Jack gostava de todos os tipos de coisas."


Durante esse tempo, Parsons se tornaria cada vez mais excêntrico acumulando uma coleção impressionante de espadas e adagas, indo a toda parte com uma enorme cobra de estimação em volta do pescoço, brincando com barcos de brinquedo em sua banheira, convidando crianças para explorar o jardim da propriedade, e se envolvendo em rituais religiosos cada vez mais estranhos. Toda essa libertinagem cobrou um alto preço na sua vida profissional, à medida que ele estava se tornando mais interessado em presidir orgias sexuais e rituais mágicos do que em desenvolver foguetes. Quando um administrador ordenou que ele corrigisse sua vida, ele simplesmente pediu demissão e abandonou vários projetos. O governo tentou fazer com que ele voltasse atrás, mas ele disse que cuidaria de um trabalho mais importante dali em diante.

De um ponto de vista pessoal, a esposa de Parsons também não estava nada satisfeita com suas escapadas, e os dois se divorciariam pouco tempo depois. Após uma separação conturbada, a ex-esposa de Parsons buscou os jornais para expor o degradante estilo de vida que ele levava. Com a mídia fazendo frequentes ataques e o acusando de traficar drogas, a polícia começou a investigar o que acontecia atrás dos altos muros da "Mansão Parsonage". O foco das investigações policiais rapidamente seguiram em outro caminho quando uma batida policial revelou o que os jornais chamaram de "culto de magia negra". Embora nenhuma evidência de que o grupo estava infringindo alguma lei tenha sido apresentada, o estrago à imagem dos membros era enorme e eles começaram a se afastar das reuniões.

Parsons continuou usando a Mansão como centro para os Rituais da OTO e chegou a apresentar uma defesa legal na Corte de apelação da Califórnia na qual afirmava ser o seu direito, garantido pela constituição, venerar o que bem entendesse, Deus ou o Diabo. 

Nessa época, ele deu início a uma amizade incomum com um jovem autor de ficção científica chamado L. Ron Hubbard, que também se mudou para a Mansão e lá residiu por quase um ano. Os dois passavam horas discutindo ocultismo, magia e filosofia. De fato, Parsons contribuiria com muitas ideias para o movimento religioso que Hubbard estava fermentando em sua cabeça e que mais tarde fundaria com o nome de Cientologia. Em determinado momento, Parsons começou a se interessar por vertentes ainda mais estranhas do sobrenatural. Os rituais praticados, relatados por outros residentes da propriedade visavam atrair poltergeists, fantasmas, demônios e "banshees". O objetivo era capturar essas entidades e usá-las em experimentos. Alguns membros da Ordem ficaram tão assustados com o caráter desses estranhos rituais de magia negra que se desligaram do grupo.


Parsons e Hubbard, no entanto, continuaram realizando seus experimentos cada vez mais bizarros. Os dois se envolveram em um monumental projeto oculto que "deveria trazer enormes consequências para o futuro da humanidade", ou assim acreditavam. O Projeto envolvia invocar a antiga deusa Thelemita Babalon por meio de um ritual Enochiano ao longo de semanas chamado "O Trabalho de Babalon". A Invocação, tão intrincada e complexa que nem mesmo Crowley ousava contemplar realizá-la, teria sido criada pelo mago elizabetano John Dee na Corte da rainha Elizabeth. O resultado dessa invocação, do ponto de vista místico poderia ser desastroso, mas Parsons estava disposto a arriscar.

O Ritual envolvia entre outras coisas manejar espadas mágicas, sacrificar animais, usar sangue para ativar runas arcanas e se masturbar em tabletes mágicos, tudo isso enquanto um quarteto de cordas tocava sem parar as obras de Sergei Prokofiev. O Ritual foi planejado nos mínimos detalhes, com prostitutas contratadas para "desempenhar" por dias para gerar energia sexual para a invocação. Jamais ficou claro o que realmente aconteceu e se a invocação de Babalon teve sucesso. Os dois nunca revelaram qual foi o resultado de suas conjurações, mas para quem acredita em tais coisas, existe a teoria de que muitos que participaram do ritual acabaram amaldiçoados por chamar à Terra forças que não deveriam ser invocadas impunemente.

Após esse colossal ritual, com maldição ou não, as coisas começaram a dar erradas para a OTO. Parsons e Hubard discutiram à respeito de dinheiro usado pela Ordem e sobre o que deveriam fazer em seguida. No fim, Hubbard acabaria sendo menos do que confiável: ele esvaziou as contas bancárias do grupo e fugiu com a namorada de Parson, Sara, a irmã de sua ex-mulher. Parsons e alguns dos membros restantes ainda tentaram reaver o dinheiro, mas quando não conseguiram alegadamente realizaram um ritual de magia negra para assassinar Hubbard e Sara, utilizando para isso sua "força de vontade" combinada. Hubbard por sua vez se protegeu com rituais que fechavam seu corpo à energias negativas. A Guerra da Magia estava declarada e continuou por anos.

Depois de perder a mulher e seu melhor amigo, Parsons começou a trabalhar em mais um projeto que visava invocar literalmente uma nova esposa por intermédio da feitiçaria, esta teria o espírito de um elemental que assumiria a forma da mulher de seus sonhos. É claro, o processo envolvia mais rituais, mais sangue, mais sexo e drogas. Durante a realização desses ritos, ele acabou conhecendo sua próxima esposa, Marjorie Cameron. Para facilitar as coisas, Parsons convenceu a namorada a fazer um ritual no qual sacrificaria sua individualidade para receber o espírito elemental que ele convocou. Marjorie aceitou isso de bom grado e até o fim da vida afirmou ser um ser elemental habitando um corpo humano.

No decorrer da Guerra da Magia, certos rituais usados por Parsons começaram a assustar até mesmo seus próprios seguidores, que estavam começando a achar que ele estava perdendo o controle e o foco da visão original de Crowley. Na verdade, quando o próprio Crowley ouviu sobre o que estava acontecendo na Costa Oeste dos EUA, ficou bastante incomodado e não impressionado, chamando Parsons de "tolo fraco" por não lidar com a situação de maneira eficaz. Parsons não gostou dos comentários de seu mentor e por algum tempo rompeu com ele ligações. Nesse ínterim, sua esposa Cameron, aquela que supostamente era um elemental, o abandonou para ir morar em uma comunidade de artistas no México.


À essa altura, depois de tantas indas e vindas bizarras, poderia ser fácil esquecer que Parsons ainda era um cientista de foguete muito respeitado. Apenas isso explica como ele foi aceito novamente para trabalhar na área de desenvolvimento aeroespacial apesar de todas as suas excentricidades. Em 1947 ele foi aceito novamente em projetos ultra secretos do governo. Contudo, se mostrou bem pouco à vontade com os novos engenheiros e projetistas que o consideravam na melhor das hipóteses ultrapassado, na pior um esquisito de marca maior.

Parsons também havia perdido muita credibilidade devido às suas inclinações ocultistas. Ele passou a ser investigado sob a acusação de espionagem depois de remover documentos de uma base e isso, somado às investigações anteriores sobre seu culto bizarro, fizeram com que seu retorno à indústria aeronáutica fosse curto. Ele foi destituído de seu certificado de segurança e proibido de trabalhar em projetos secretos. Isso o forçou a buscar trabalhos em empregos mundanos antes de se tornar um consultor freelance para efeitos especiais em Hollywood

As crescentes críticas vindas de membros na Ordem, por fim o levaram a se afastar definitivamente da Ordo Templi Orientalis. Alguns de seus detratores afirmavam que ele estava sofrendo com influências sobrenaturais que não deixavam que ele dormisse e que drenavam suas energias. Culpavam ainda os demônios que Parsons teria invocado, a proximidade com os elementais, a realização de magias perigosas, o uso destemperado de drogas e, é claro, a Maldição de Babalon que teria se abatido sobre ele com toda força. 

Apesar de se desligar da OTO, Parsons manteve seu interesse pelo oculto e passou a formular um sistema de magia próprio chamado Gnose. Convencido de que poderia fazer tudo melhor do que o próprio Crowley, ele começou a escrever um diário místico no qual relatava seus experimentos e os rituais que criava. Suas anotações sobre ocultismo e política se espalhavam em incontáveis cadernos que ele rabiscava febrilmente. No fim, eles já não faziam o menor sentido.

Em 1952, Parsons tinha praticamente atingido o fundo do poço, vivia em um pequeno apartamento repleto de tralhas empilhadas do chão até o teto. Estocava combustível e explosivos de forma incorreta e estava fazendo coisas sem muito sentido. Ele também estava ficando atolado na paranoia de que vinha sendo seguido e espionado pelo FBI ou que alguém estava o amaldiçoando à distância. Quem o havia conhecido no auge se espantava ao encontrá-lo: o homem parecia um espantalho. Apesar de ter apenas 38 anos, ele estava envelhecido e cheio de problemas de saúde.  


Em junho de 1952, ele decidiu levar sua namorada para o México por alguns meses para descansar e se recuperar de uma estafa. Lá elaborou um plano de fugir para Israel, vender segredos do governo e se aposentar de uma vez por todas. Tencionava terminar o sistema de magia no Oriente e então morrer em paz.

Infelizmente, ele nunca teve a chance de realizar seus planos. Em 17 de junho de 1952, Parsons foi encontrado horrivelmente mutilado após uma enorme explosão ocorrida em um terreno baldio onde ele costumava testar o material pirotécnico usado em seus efeitos especiais. Seu rosto havia sido queimado, ele perdeu um olho, um braço e teve horríveis ferimentos decorrentes da explosão. As pessoas que o acharam disseram que ele ainda estava vivo apesar dos severos danos sofridos e que olhava para o céu balbuciando palavras sem nexo como se estivesse em completo êxtase. Estaria vendo Babalon nos céus, disseram alguns. Ele não resistiu e antes da ambulância que o transportava chegar ao hospital, já havia morrido.

A morte de Jack Parsons se tornou um mistério por si só, com muitas questões que permaneceram em aberto. Por exemplo: No que ele estava trabalhando e o que causou a explosão que o matou? Uma vez que ele não era contratado para providenciar efeitos especiais com explosivos fazia tempo, alguns imaginavam que ele havia cometido suicídio. Mas outros supunham que a paranoia dele poderia, afinal de contas ser justificável e que ele teria sido assassinado para evitar que vendesse segredos para uma nação estrangeira. Finalmente, alguns supunham que ele estava tentando realizar uma experiência de magia que deu irremediavelmente errada. 

No final, sua morte foi tão misteriosa quanto sua vida. É incrível imaginar como um verdadeiro pioneiro das ciências pode ter ficado tão envolvido e perdido em crenças místicas e ocultas. Ele era um gênio, um louco ou um pouco dos dois? Seja qual for o caso, o fato de este visionário homem da ciência se tornar um defensor ferrenho do misticismo apenas reforça o quanto sua vida foi incomum.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

O Feiticeiro de Marblehead - A vida real de um poderoso e peculiar mago


A cidade costeira de Marblehead, no condado de Essex, Massachusetts, hoje é um vilarejo charmoso e histórico à beira-mar com prédios rústicos e pequenas ruas pitorescas que remontam aos dias dos colonos que vieram no Mayflower. Estes pioneiros britânicos, fugindo da intolerância religiosa fundaram o pequeno povoado de pescadores no distante ano de 1626. Originalmente, a terra era habitada pela tribo Naumkeag da numerosa Confederação Pawtucket, nativos distribuídos ao longo de toda a costa da Nova Inglaterra. 

Os pioneiros demoraram para se estabelecer, enfrentaram um clima feroz, tempestades frequentes, doença e ataques de nativos inconformados pela perda de suas terras. A história original de Marblehead é marcada por chacinas, guerra e violência. Contudo, apesar dos desafios impostos, os colonos conseguiram prosperar, tornando o modesto assentamento numa importante cidade pesqueira e depois num entreposto comercial - porto de entrada para incontáveis estrangeiros que vinham tentar a sorte no Novo Mundo. Com uma longa tradição pesqueira e de construção naval, os ousados homens do mar nascidos em Marblehead são considerados os precursores da Marinha dos Estados Unidos. Foram eles os primeiros a subir e descer a costa leste, mapeando as baías e nomeando os rios e afluentes. Não é exagero nenhum dizer que foram os marinheiros dessa cidade os responsáveis por colonizar o país e permitiram que ele fosse conquistado.

No entanto, essa pequena cidade que hoje recebe turistas vindos de todos os cantos, atraídos pela sua atmosfera pacífica e edifícios pitorescos, guarda estranhas histórias. São lendas que envolvem misticismo e magia, feitiçaria e adoração demoníaca. No passado, Marblehead foi o lar de um feiticeiro muito poderoso que manteve sob seu controle os habitantes locais, obrigando-os a viver em meio ao pavor e o medo.

Tudo aconteceu no final do século XVIII, uma época em que Marblehead que até então havia experimentado grande progresso, começava a perder sua importância diante de outros centros portuários mais movimentados, sobretudo Boston, que se tornou o maior porto americano antes mesmo da Guerra de Independência. Os marinheiros de Marblehead se destacaram em várias batalhas navais contra os britânicos, mas muitos deles pereceram nesses sangrentos enfrentamentos. Foi mais ou menos nessa época, em face das mortes e tragédias familiares, que o espiritismo ganhou reputação na cidade. Muitos desejavam contatar seus mortos queridos e assim sessões espíritas, videntes e médiuns se tornaram algo relativamente comum na cidade. 

Um homem que vivia em Marblehead se destacava quando o assunto era espiritualismo. Seu nome era Edward Dimond e ele era um ex-capitão aposentado, respeitado pela sua longa e dedicada carreira em alto mar. Dimond vivia em uma modesta habitação construída com os restos de um navio encalhado no sopé de uma colina colada ao cemitério. Ele era, sem dúvida, um homem excêntrico, uma figura grande e imponente que usava uma capa negra ondulante, uma cartola de cano alto e botas de couro compridas até os joelhos. Fumava um cachimbo entalhado, cheio de estranhos símbolos náuticos de onde expelia uma fumaça cinzenta. As pessoas o olhavam com desconfiança, pois era um homem austero tanto nas atitudes, quanto no comportamento esterno. Quando andava pelas ruas tortuosas, as pessoas se desviavam ou atravessavam a rua, pois alguns o reputavam fama de bruxo. 


Haviam muitas lendas sobre o velho capitão: Diziam que ele havia sido o único sobrevivente de um trágico naufrágio no qual todos seus subalternos morreram quando seu navio se chocou com um rochedo. Em outras histórias, afirmavam que ele havia sobrevivido a um motim, alimentando-se da carne de seu imediato (e melhor amigo) após passar semanas à deriva e quase enlouquecer. Ninguém sabia se essas histórias eram reais ou não, mas tampouco alguém estava disposto a perguntar-lhe. 

O Capitão Edward Dimond era um habitante estranho de Marblehead, vagava por aí, meio delirante, falando sozinho com amigos invisíveis, rindo e pitando seu cachimbo. Para muitos, simplesmente havia enlouquecido na solidão em que se confinara na cabana insalubre na qual residia, mas outros o tinham como um sábio. Em algum momento, as pessoas passaram a procurá-lo pois atribuíam a Dimond alegadas habilidades psíquicas, que fascinavam e assustavam a todos que buscavam seu aconselhamento.

Um dos poderes mais comentados e que ele exibia diante de plateias impressionadas, envolvia encontrar itens perdidos ou roubados. Quando pedido para que ele fizesse uso de suas faculdades mediúnicas, o Capitão assumia um comportamento bizarro. Ele usava espelhos, garrafas e bacias com água, cuja superfície reflexiva observava por longos minutos em busca de um transe mediúnico. Ao fazê-lo falava com uma voz gutural e soturna, revelando aquilo que seus interlocutores desejavam saber. Dessa maneira ele havia localizado vários itens dados como desaparecidos. 

O Capitão era tão bom nisso, que dizem, ele era frequentemente abordado pela polícia para ajudá-los a encontrar objetos roubados. Em algumas ocasiões, ele ia além de apontar o ladrão, punindo os culpados de maneira severa. Conta-se que, em um inverno especialmente congelante, uma velha senhora foi até Dimond implorar para que ele encontrasse a lenha que havia sido roubada dela. Na época, ter lenha era importante porque com os invernos rigorosos, não ter como se aquecer poderia constituir uma sentença de morte. Sensibilizado pelo pedido, o capitão concordou em ajudar a anciã. No entanto, em vez de apenas encontrar a madeira, ele decidiu dar uma lição no ladrão. Lançou um feitiço que compelia o homem a percorrer a longa distância de sua casa até a cabana da velha senhora e de volta sem descanso. Em meio ao frio congelante com uma pesada tora nas costas, a tarefa exaustiva provou-se mortal e ele morreu ao tentar voltar para casa.

Encontrar objetos, entretanto, não era o único poder de Dimond, e nem de longe o mais notável. Ele era capaz de ver o futuro e o passado, falando a respeito de coisas que haviam acontecido ou ainda estariam por acontecer. descrevia em detalhes incríveis embarcações de um futuro distante e incidentes memoráveis ocorridos no passado, quando Marblehead estava se formando. Também era capaz de projetar sua voz ou mesmo sua imagem à distância, fazendo com que as pessoas ouvissem suas palavras ou tivessem um vislumbre de sua face em espelhos.


Um rumor que se tornou muito popular dava conta que durante tempestades violentas, o experiente Capitão Dimond escalava até o topo de um monte chamado Burial Hill que lhe garantia visão de toda extensão da baía. Lá do alto ele falava para o vento e assim transmitia mensagens que chegavam aos navios em alto-mar, dando-lhes instruções sobre como evitar de serem atirados nas pedras. As tripulações de várias embarcações relataram ouvir claramente a voz de Dimond em meio às tempestades, como se ele estivesse ali falando em seus ouvidos, ou às vezes realmente vendo uma aparição fantasmagórica cintilante dele de pé no convés indicando a rota mais segura. 

Outras histórias sensacionais afirmavam que ele podia prever o tempo com incrível exatidão ou realmente controlar o próprio clima, amenizando tempestades ou inversamente fazendo com que elas piorassem consideravelmente. Com seus poderes mágicos, diziam que seu sopro podia causar um vendaval de enormes proporções. Não era incomum que os marinheiros fossem até ele antes de iniciar uma viagem para perguntar sobre as condições do tempo ou para pedir uma jornada segura.

Foram essas supostas habilidades que fizeram com que Dimond se tornasse conhecido como "O Feiticeiro de Marblehead", título que também o fazia ser tão temido quanto respeitado. Todos os tipos de boatos circulavam na época, como por exemplo, que ele amaldiçoava aqueles que o desagradaram lançando pragas que por vezes se provavam letais. Ele também teria afundado um barco mercante cujo capitão afirmou ser ele um charlatão.  

Os habitantes de Marblehead sussurraram sobre ele ser um praticante de Necromancia e que para ativar seus encantamentos malignos costumava escavar corpos no cemitério de Burial Hill. Não se sabe até que ponto essas histórias são verdadeiras ou meros boatos, de fato não se sabe se Dimond algum dia teve algum poder sobrenatural, ou se ele era apenas um vigarista inteligente fortemente imbuído de folclore pelas pessoas supersticiosas do período. O que se sabe é que o medo fazia com que muitas pessoas temessem o sujeito e dispensassem a ele um tratamento diferenciado, quase como uma celebridade sinistra. Para ficar em bons termos com ele e não atrair sua ira, as pessoas costumavam enviar-lhe presentes ou oferecer agrados. Tal coisa, supostamente aconteceu até o fim de sua vida.

A autora e pesquisadora do folclore da Nova Inglaterra, Patricia Goodwin, fez muitas pesquisas sobre Dimond e escreveu duas novelas tendo ele como personagem principal, When Two Women Die e Dreamwater. Ela acredita que as lendas sobre as façanhas do Feiticeiro são verdadeiras, e opina à respeito:

"Como alguém que é um pouco vidente e que conheceu médiuns reais, o dom de Edward Dimond parece bastante plausível na minha opinião. Eu acredito que as lendas de Marblehead são absolutamente verdadeiras. Depois de escrever sobre ele, fiquei muito curiosa em estabelecer que tipo de habilidades ele possuía. Eu fiz várias pesquisas e acabei conversando com nativos americanos que me disseram que a habilidade de Dimond era muito rara, algo que os xamãs das tribos chamam de "visão de longe e fala de longe" e que nós conhecemos modernamente pelo nome de telepatia. Essa capacidade permitia a Dimond se comunicar psiquicamente através de centenas de milhas, é uma faculdade conhecida e estabelecida pela ciência da parapsicologia." 

No final das contas, não se sabe quem realmente foi o Mago de Marblehead ou qual a extensão dos seus poderes. Não se sabe sequer à respeito de como se deu a sua morte. As histórias continuaram circulando por muitos anos, mesmo após sua suposta morte. O que se sabe é que ele foi uma figura impressionante em seu tempo, alguém que marcou a existência de todos à sua volta. É virtualmente impossível separar o que é fato do que não passa de ficção quando se trata do Capitão Edward Dimond, mas temos uma única certeza: ele será lembrado para sempre como um poderoso feiticeiro.