segunda-feira, 14 de março de 2022

Segredos da Ucrânia - Adaptando os Mistérios do país para Chamado de Cthulhu


Nas últimas semanas o Mundo Tentacular colocou no ar uma série de artigos cobrindo mistérios e segredos da Ucrânia, país que possui o seu quinhão nada pequeno de estranhezas e bizarrices. O material pode ser usado facilmente como background para cenários e aventuras nesse lugar ou nos territórios vizinhos do Leste Europeu.

Mas que tal dar uma boa olhada nos elementos oferecidos nesses artigos e trazer tudo para um contexto onde os horrores lovecraftianos existem? Pegar cada um dos elementos e passar através do prisma distorcido dos Mythos de Cthulhu e ver no que vai dar.

Sem mais delongas eis aqui algumas ideias para encaixar o Mythos em elementos dessa série especial.

O MONSTRO DO LAGO SOMIN


O Monstro do Lago Somin parece ser algum tipo de aberração única, uma criatura surgida em alguma época ancestral. Possivelmente ele adormeceu e despertou milênios depois para aterrorizar indivíduos que jamais poderiam imaginar que tal coisa existisse em um mundo coerente e racional.

Embora a tentação de relacionar esse monstro reptiliano com a raça dos Lloigor seja grande, prefiro não fazer essa conexão. Os Lloigor são criaturas incorpóreas que escolhem adotar a forma de répteis terríveis, semelhantes a uma mistura de Dragões mitológicos com os muito reais Dragões de Comodo. Mas ao contrário do Monstro do Lago Somin - que parece realmente um predador que age pelo instinto, os Lloigor são perversamente inteligentes e ardilosos.

Essa criatura poderia ser resultado de um experimento ancestral do Povo Serpente que manipulava a ciência genética e a feitiçaria com igual habilidade. Posso enxergar o Lago Somin tendo ocupado o espaço que pertencia a uma cidadela de basalto negro que hoje se encontra nas profundezas. Talvez essa cidadela tenha servido de estação para experimentos genéticos que visavam criar uma espécie de guardião ou protetor para o Povo Serpente. Talvez ainda, por considerar o resultado demasiadamente instável, eles resolveram prendê-lo em uma câmara de êxtase que o manteria preservado por eras. Infelizmente, em algum momento do início do século XX essa jaula apresentou "rachaduras" e através delas, o profano resultado dos experimentos escapou de seu cativeiro disposto a espalhar terror no Lago Somin.

Perfeitamente adaptado a esse novo ambiente, a criatura se torna um predador extremamente perigoso e dá início as lendas sobre o monstro. Talvez algo em sua fisiologia o force a hibernar de tempos em tempos explicando a razão pela qual os ataques são separados por tantos anos.

AS CRIATURAS DE CHEMER


É possível pensar essa criatura bizarra simplesmente como algum monstro nativo da região, um criptídeo ainda a ser descoberto pela zoologia. Nessa interpretação eles seriam tão somente uma espécie de animal selvagem que reclamou a área em questão como seu território de caça. 

Mas para relacionar com o Mythos, eu não consigo deixar de pensar nesses seres através da ótica dos Carniçais. Essa raça de escavadores vorazes, sempre habitam próximo de assentos humanos, de preferência cidades com grande população, onde eles possam se aproveitar dos mortos de quem se alimentam. Não por acaso, eles vivem nos subterrâneos, escavando túneis que lhes permitem acessar os cadáveres para suas ceias noturnas. Mas o que aconteceria se eles fossem forçados a viver da caça em regiões pouco populosas. E se um Carniçal não tiver nada para comer por muito tempo isso não o deixaria mais agressivo?

Nem Lovecraft e menos ainda o RPG Chamado de Cthulhu expõem que os Carniçais possuem subdivisões raciais, menos "civilizadas" que adotam um comportamento e forma ainda mais animalesca. Mas que tal pensar nesse sentido?

As Criaturas de Chemer podem ser uma subespécie perdida de Carniçais, forçada a se adaptar a uma falta de alimentos que os forçou a regredir ao ponto de se tornarem totalmente selvagens e quase irracionais. Ao passo que os Ghouls lovecraftianos são em sua maioria humanos que regrediram a condição bestial pelo consumo de carne humana, esses seres teriam ido além, teriam se tornado completamente animalescos. Não guardariam apenas uma aparência canídea, teriam se convertido numa matilha selvagem que vaga sem destino. Com efeito eles andariam de quatro, teriam um olfato apurado e seriam carniceiros implacáveis em busca de presas que saciassem sua fome.

Outra interpretação poderia ser que eles são grandes cães que passaram pela mesma transformação que os humanos sofrem à caminho de se tornar Carniçais. Eles começam a existência como animais normais e aos poucos, através do consumo de carne contaminada, acabam se tornando algo muito mais assustador. Talvez uma matilha de cães das estepes em algum momento do passado tenha consumido a carne de carniçais e isso tenha dado início a sua transformação. Há possibilidades, muitas...        

BAGRES MUTANTES DE CHERNOBYL


Os Bagres Mutantes são um conceito interessante para lidar com os horrores nucleares resultantes de Chernobyl. A ideia de monstros mutantes criados pela dispersão radioativa do reator não é exatamente nova, na verdade é bem batida e já gerou todo tipo de criatura e aberração, sobretudo nos anos 1950 - com o Terror Nuclear.

Eu gosto especialmente da noção de que o lago radioativo criado após o desastre de Chernobyl possa ser habitado por toda sorte de horror mutante. Nesse caso, os Bagres Mutantes seriam uma raça menor de peixes assustadores e possivelmente carnívoros. Posso imaginar um cenário em que um grupo de televisão ou de pesquisadores resolve explorar a região para validar a lenda sobre esses peixes, descobrindo algo muito pior do que poderiam imaginar.

Além disso, eu sempre imaginei o acidente de Chernobyl como um tipo de experimento soviético para invocar Azathoth usando para isso um Reator Nuclear como templo. Os Insetos de Shaggai pelo que se sabe, fazem algo semelhante, invocando Azathoth para alimentar com energia as suas "naves templos piramidais". Não poderiam os cientistas soviéticos estar tentando a mesma coisa? A busca por uma fonte de energia inesgotável poderia passar pela invocação de Azathoth em uma tentativa absurda de controlá-lo. Usar o Caos Nuclear que o constitui como uma forma de energia ou quem sabe, arma mais poderosa que qualquer Bomba Tsar. É claro, o plano não teria dado certo e o resultado teria sido acobertado como o desastre de Chernobyl.

Mas o que os Bagres Mutantes tem a ver com isso? Bem, que tal imaginar que as energias dispersas por Azathoth ajudaram a criar essa raça de peixes que não apenas tem um gosto por carne humana, mas que veneram o Caos Primordial que lhes deu inteligência como seu Deus. Estariam eles em busca de sacrifícios e de uma maneira de contatar sua divindade? E se eles tiverem sucesso o que poderia acontecer?

Hmmm.... material para um cenário à vista! 

ARANHAS GIGANTES RADIOATIVAS


As aranhas gigantes podem estar inseridas no mesmo caso acima: Horrores Mutantes modificados por Chernobyl. Se funciona para Bagres, por que não com Aranhas Gigantes? E nada mais legal do que jogar uma horda de aranhas gigantes contra os investigadores.

Mas também é possível pensar em outras opções.

Os Ucranianos tem uma longa tradição cultural no que diz respeito a Aranhas. Segundo o folclore local, dá um azar enorme romper teias de aranha, pois elas são vistas como um símbolo de prosperidade. Pensei em explicar essa devoção para com aranhas através da existência de cultos ancestrais da Deusa Aranha, Atlach-Nacha. Essa divindade aterrorizante habita um covil coberto de teias que quando concluído, segundo as lendas marcará a destruição do mundo.

Talvez as Aranhas Gigantes presentes nessa Lenda Urbana sejam Filhas de Atlach-Nacha, membros do Culto que sofreram uma metamorfose bizarra e se transformaram em aranhas gigantes com rosto humano. Um Culto num vilarejo ou região urbana, devotado a Deusa Aranha seria bem interessante. Talvez esses cultistas realizem incursões na Terra dos Sonhos onde a deusa aracnídea tem enorme influência. Lá eles mantém um templo onde comungam com sua divindade e recebem seus favores.

Outra possibilidade seria usar as Aranhas de Leng, um tipo de aracnídeo gigante que pode ser trazido fisicamente da Terra dos Sonhos por intermédio de portais. Quem sabe um desses portais se encontra no poço de elevador, numa casa abandonada ou num porão, mantido ali há gerações pelos cultistas. Algumas Aranhas de Leng possuem uma amarga rivalidade com Atlach-Nacha na dimensão onírica. Isso explicaria porque elas estariam invadindo o Mundo Desperto. Seu objetivo seria desarticular o Culto e ficar com o seu portal. Nesse caso, os investigadores se encontrariam no meio de uma disputa entre Seres do Mythos e seus oponentes, membros de um Culto. 

De que lado os investigadores irão ficar?   

LIVRO DE VELES


O Livro de Veles é uma bela incógnita e pode ser usado de várias maneiras em um cenário se passando na Ucrânia.

É óbvio assumir que ele seja um Tomo com conhecimento blasfemo do Mythos. Escrito com símbolos misteriosos e glifos estranhos, ele precisaria de testes sucessivos de Cthulhu Mythos para reconhecer e estabelecer sua origem. Os símbolos podem ser algum dos idiomas proibidos do Mythos, possivelmente as Runas Mi-Go, já que Shub-Nigurath no contexto dessa ambientação tem importância na região e os Fungos de Yuggoth a veneram. Outra opção é o Aklo, uma espécie de idioma comum de vários povos ancestrais aprendido por feiticeiros e sacerdotes que estabeleceram contato com os seres do Mythos.

Segundo as lendas, o Livro de Veles é um grande tratado à respeito do misticismo, superstição e lendas das tribos eslavas primitivas. Seria interessante manter isso, acrescentando que alguns rituais e cerimônias descritos no livro são dedicadas a divindades do Mythos sobretudo Shub-Niggurath. Rituais envolvendo o florescimento e fecundidade do solo seriam de grande importância no tratado que conteria magias para invocar a Deusa e seus mil filhos.

A outra opção para o conteúdo de Livro de Veles seria ele versar sobre o Mito dos deuses irmãos Chernobog e Belbog. Nesse contexto o livro traria informações pertinentes sobre rituais e feitiços dedicados a essa entidade (que logo adiante veremos encaro como um avatar de Nyarlathotep).

De toda forma, o Livro de Veles poderia ser a fonte de horríveis revelações, conhecimento místico perigoso e de uma busca pelo Leste Europeu. Talvez ele contenha informações que justifiquem uma expedição ao Leste Europeu ou determine a localização de um local ou artefato desaparecido.

Sabendo que os soviéticos tem interesse em reaver ou até destruir o livro, ele pode atrair a atenção de perigosos oponentes. Alternativamente, os jogadores, no papel inverso, como agentes da NKVD podem ter sido enviados para subtrair o Livro de Veles e levá-lo de volta para a Mãe Rússia. Uma vez obtendo o livro, eles descobrem que tem em suas mãos algo extremamente perigoso e um dilema moral à respeito de entregá-lo ou não. 

A CIVILIZAÇÃO CUCUTANI-TRYPILLIAN


Civilizações misteriosas e perdidas são uma marca registrada presente em vários cenários de Chamado de Cthulhu. Há algo de profundamente misterioso e atraente em tentar determinar o que aconteceu com um povo antigo, conhecer suas tradições ancestrais e uma cultura esquecida.

Nesse contexto a Civilização Cucuteni-Trypillian oferece uma série de opções que podem, até com certa facilidade serem adaptadas ao horror do Mythos de Cthulhu.

O grande enigma sobre essa Civilização envolve seu desaparecimento. Os estudiosos buscam determinar o que aconteceu com eles, para onde foram e quais os fatores determinaram a destruição de suas cidades e cultura. Uma vez que trabalhamos com o folclore local, adaptando as crenças eslavas para o Mythos, me parece perfeitamente razoável encaixar que esse povo se dedicava aos Deuses da Dualidade (Belbog e Chernobog), louvando o primeiro, na mesma medida que temiam o segundo.

É possível que uma revelação aterrorizante, talvez o surgimento de uma Profecia tenha motivado a autodestruição da Civilização. Mas que revelação poderia ser essas que mobilizariam a população a apagar suas maiores realizações e anular sua passagem pelo mundo? Para um cenário envolvendo terror, uma revelação mística sempre cabe como uma luva. Talvez a tal Profecia envolva o fim dos tempos, a vinda de entidades poderosas, o despertar dos antigos ou quem sabe, algo ainda mais chocante.

Gosto de imaginar essa civilização diante de uma revelação bombástica que despedaçou seu sistema de crenças. Talvez eles tenham descoberto algo sobre a verdadeira natureza de seus deuses, quem eles são na verdade e o que representam. Talvez ainda eles tenham encontrado uma maneira de se comunicar com novos deuses ou seres vindos do céu e isso desestruturou sua sociedade? Ou ainda, que agentes da Grande Raça de Yith, tenham descoberto que essa civilização simplesmente precisava desaparecer pois representava um perigo para seus planos de conquista temporal.

Há muitas opções; uma Civilização como a Cucuteni-Trypillian permite imaginar uma infinidade de cenários. De uma expedição arqueológica enviada ao Leste Europeu no início do século XX até um pequeno grupo de estudiosos, reunidos para estudar um artefato recém descoberto pertencente a esse povo. O grande mistério seria determinar o que levou esse povo a desaparecer e se tal coisa poderia acontecer novamente em outro lugar nos dias atuais.

O SEGREDO DOS CAMPOS DOURADOS


Conforme foi comentado em mais de um artigo nessa série, a Ucrânia é um dos maiores produtores de alimentos da Europa. Ela é responsável por boa parte do pão que sustenta a Europa com exportações anuais de trigo na casa das milhares de toneladas.

Mas de onde viria toda essa abundância?

Já que estamos conectando a região com os Mythos que tal uma explicação medonha, que no entanto se encaixa como uma luva. Sim, a Ucrânia possui vastos campos dourados à perder de vista e um solo propício para o plantio, mas que tal determinar que isso tem um custo?

Desde o início dos tempos, a população local teria estabelecido uma espécie de pacto para promover a fecundidade do solo, a bonança das colheitas e riqueza agrária quase inesgotável. E quando se fala de abundância, fecundidade e fertilidade, é claro, estamos falando de Shub-Niggurath. A entidade é sinônimo de todas essas coisas, já que essa Deusa Exterior representa o conceito cósmico do crescimento e proliferação. Talvez os primeiros camponeses tenham estabelecido esse pacto que vigora até hoje, no qual eles recebem como benefício colheitas abundantes. Contudo, é claro, existe um preço a pagar e este é a subserviência total à Cabra Negra.


Não estou dizendo que todos os camponeses ucranianos seriam seguidores fiéis de Shub-Niggurath, mas que uma boa parte deles no passado distante assim fizeram. E algumas dessas tradições pagãs de adoração sobreviveram. Por exemplo, um determinado povoado isolado poderia realizar uma curiosa cerimônia de consagração dos campos na qual leva uma jovem virgem para lançar as primeiras sementes no solo. No entanto, outro vilarejo poderia ir mais longe, realizando um sacrifício anual antes da semeadura que garantiria a produção. Entre os rituais pagãos devotados à Deusa haveria espaço para sacrifícios, invocações e festivais.

Eu consigo imaginar enclaves afastados da Ucrânia, onde camponeses ainda mantém acesa a velha chama de adoração à Deusa de outrora. Lugares em que vigora uma espécie de sincretismo cristão-pagão que aos olhos de forasteiros poderia ser aterrorizante. Nesses lugares cobertos de imensos campos de trigo, as crias de Shub-Niggurath encontrariam um verdadeiro paraíso terreno. Os filhos da deusa protegeriam os campos e o abençoariam com sua semente profana. Tudo, dos frutos aos animais, do leite ao pão seria de alguma forma tocado pela deusa que poderia até mesmo ser invocada de tempos em tempos para rituais realmente importantes. Consigo imaginar até mesmo estações científicas operadas pelos Mi-Go com o objetivo de manipular geneticamente os grãos produzidos. 

Fico imaginando um cenário envolvendo forasteiros em viagem pelo interior da Ucrânia tencionando realizar um estudo antropológico sobre antigas tradições pagãs. Ou quem sabe técnicos agronomos em busca de informações sobre o solo local ou ainda fiscais do partido tentando encontrar soluções para uma crise de abastecimento nos anos 1930. 

Há muitas opções para tratar desse tema.   

HOLODOMOR


A Grande Fome é uma fonte quase inesgotável para cenários na Ucrânia nos anos 1930. Tragédias humanitárias, crises nacionais e incidentes marcantes podem servir de pano de fundo para cenários em Chamado de Cthulhu e não raramente resultam em excelentes aventuras investigativas, conferindo um viés de veracidade às tramas fantásticas. Nada mais assustador, afinal de contas, do que conectar a ficção com a realidade.

Acredito que um dos elementos mais interessantes num cenário envolvendo o Holodomor seria explorar as dimensões da tragédia. A fome, as privações, as injustiças e o caráter desesperador são combustível para descer rumo a um pesadelo repleto de desesperança niilista. 

As causas para o Holodomor poderiam ser humanas, mas incluir elementos do Mythos parece perfeitamente plausível. Quem sabe a coletivização imposta pelos soviéticos possa ter desarticulado a forma como o plantio era feito desde o início. Talvez as autoridades estatais, preocupadas com superstições e crendices, tenham ainda proibido a realização dos rituais pagãos, enfurecendo a Deusa que repentinamente ficou sem os seus sacrifícios. Quem sabe ainda, essas mesmas autoridades tenham descoberto, chocadas, que seres não totalmente humanos vagam pelos campos. Eles então teriam realizado missões para capturar ou destruir as crias de Shub-Niggurath. Finalmente, a destruição de alguns vilarejos pode ter motivado camponeses a rezar à Deusa e pedir que ela intercedesse enviando guardiões para confrontar os invasores.

Alternativamente, o Horror do Holodomor poderia atrair uma infinidade de criaturas do Mythos. 

Os Lloigor, seres dimensionais que se alimentam da desesperança e que adoram predar sobre populações expostas à tragédias são uma ótima pedida nesse caso. Seria fácil imaginar um ou mais Lloigor se estabelecendo na região durante o auge da carestia para atacar os camponeses. O suplemento Colheita Fria (que inclusive foi editado aqui no Brasil pela New Order) oferece um cenário que lida com esse contexto.


Outras criaturas que poderiam ser atraídas pela miséria humana seriam os nefastos Insetos de Shaggai. Essas pequenas monstruosidades vindas do espaço são atraídas pelo sofrimento humano e se deleitam em impingir sofrimento em suas vítimas. Uma vez que eles podem controlar humanos entrando em suas mentes, áreas onde vigoram regimes totalitários oferecem um perfeito ambiente para estas cruéis criaturas. Assumindo o controle de comissários, fiscais ou militares soviéticos, os Insetos poderiam estabelecer uma influência assustadora sem serem impedidos por ninguém. Comandando figuras chave na estrutura de governo, eles estariam em uma posição confortável para fazer o que desejassem.

Finalmente, os carniçais sem dúvida seriam atraídos pelo Holodomor, quase como moscas para o mel. Guiados pela quantidade sem precedentes de cadáveres, eles naturalmente viriam para a superfície afim de  se banquetear com a desgraça reinante. Os ghouls lovecraftianos aliás, experimentariam uma época dourada graças ao Holodomor, não apenas pela fartura de comida à sua disposição, mas com a chance de aumentar as suas fileiras. O tabu do canibalismo supostamente caiu por terra em algumas áreas assoladas pelo espectro da fome e isso pode motivar o surgimento de uma população cada vez maior dessas criaturas. 

Um líder carismático entre os ghouls poderia se destacar e dar início a uma terrível ameaça criando um reinado de carniçais na região. Fortes, em grande número e bem alimentados, eles não temeriam mais os homens e viriam à superfície reclamar aquilo que acreditavam lhes pertencer. A série Love, Death + Robots da Netflix possui um episódio na sua primeira temporada chamado Guerra Secreta. Ele trata de uma premissa muito parecida: um verdadeiro exército de criaturas das profundezas se espalha por uma região da antiga URSS, fazendo vítimas. Apenas a intervenção de militares consegue conter a ameaça, mas com um grande custo. Quem assistiu o episódio deve ter tido imediatamente a sensação de que aquilo serve perfeitamente para um cenário de horror lovecraftiano envolvendo ghouls.  
   
CHERNOBOG, O DEUS NEGRO


O mito do famigerado Deus Negro que personifica a crueldade, infortúnio e azar entre os povos eslavos parece perfeito demais para não figurar entre os avatares de Nyarlathotep.

Chernobog é uma divindade aterrorizante, uma entidade mais temida do que reverenciada, mais aplacada do que adorada. As tribos eslavas primitivas o tratavam como um Deus central em seu panteão e ele estava sempre próximo, disposto a espalhar sua mácula entre os mortais. Num contexto dos Mythos, um culto devotado a ele poderia se formar com o intuito de servi-lo e pavimentar o caminho para a vinda desse aspecto do Caos Rastejante. Seus cultistas seriam indivíduos dementes, desesperados e em busca de poder, pessoas dispostas a matar e sacrificar em nome de seu Deus. Posso imaginá-los como assassinos maníacos, sacerdotes com sede de poder e feiticeiros devotados a necromancia.   

Em um território marcado pela presença maciça de Shub-Niggurath, seria inevitável que não houvesse algum tipo de choque entre os cultistas das duas facções. Os princípios defendidos pela Cabra Negra são, afinal, inteiramente opostos aos do Caos Rastejante, quando ele veste essa máscara. Enquanto um representa a abundância, o outro vive na miséria, um é a fecundidade encarnada o outro a esterilidade completa. Uma guerra entre os membros desses cultos poderia trazer enormes repercussões e representar uma ameaça a todos na região.

Além disso, há um segundo fator a se levar em consideração. Segundo a mitologia eslava, Chernobog possui um irmão chamado Belbog, seu rival, totalmente inverso a ele próprio. Onde Chernobog é trevas e morte, Belbog é luz e esperança. Ainda segundo o folclore local, as duas forças se encontram em uma luta perpétua e de seu embate não é possível haver um vencedor uma vez que o equilíbrio é necessário para o cosmos continuar existindo. O princípio do equilíbrio cósmico entre forças antagônicas está presente em várias culturas e povos, representada mais claramente pela face negra e branca do yin-yang. Mas digamos que toda essa noção místico-religiosa não passa de uma piada cósmica engendrada pelo próprio Caos Rastejante. Não são raros os avatares de Nyarlathotep que se moldam as religiões humanas como uma forma de desdenhar das nossas crenças mais profundas. 

Talvez Chernobog e Belbog nesse contexto não sejam duas entidades distintas envolvidas numa guerra eterna, mas a mesma entidade, o próprio Nyarlathotep divertindo-se com as noções pueris de bem e mal da humanidade.

A revelação de tal coisa poderia causar enorme comoção entre aqueles que depositam em Belbog as suas esperanças de um mundo melhor e que temem Chernobog como o causador de todos infortúnios. Imagino se essa não poderia ser a Profecia que causou a devastação da civilização de Cucuteni-Trypillian que um dia habitou essa região. Talvez tal revelação esteja nas páginas do Livro de Veles, outra razão para o livro ser tão importante e raro.

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Bom, com isso concluímos a série de artigos especiais dedicados a Ucrânia. 

O Mundo Tentacular espera que a grave crise seja resolvida o mais rápido possível, preferencialmente por intermédio da diplomacia e que não haja mais nenhuma escalada nesse conflito. O cessar das hostilidades e um cessar fogo são a única maneira de evitar ainda mais derramamento de sangue. 

sábado, 12 de março de 2022

A Pata de Elefante - O monstro nascido em Chernobyl


Um monstro nasceu após o desastre na Usina Nuclear de Chernobyl

Espreitando nas profundezas das ruínas do reator, esse monstro é uma das coisas mais perigosas no mundo. Nos momentos que se seguiram ao derretimento, ficar 5 minutos na sua presença, a uma distância de menos de 20 metros causava morte certa. Imagine seu corpo sendo atravessado por 10 mil roentgen por hora, sua carne sendo corrompida, seus ossos, tecidos e órgãos bombardeados com o equivalente a centenas de raios X por segundo. 

Em poucos instantes seu corpo iria se rebelar contra essa dose maciça de energia nociva, você iria gritar e gritar a medida que as suas células perdessem a coesão, se desfazendo. Sua pele iria derreter rapidamente, seus ossos se tornariam quebradiços como giz e seus órgãos entrariam todos em múltipla falência. Fluidos seriam expelidos para fora de seu corpo e você tarde demais perceberia que estava vomitando seus pulmões, fígado, rins, baço... a morte viria rápido, mas de uma forma dolorosa e inacreditável. Em segundos, seu corpo seria uma massa informe, como uma pasta borbulhante e gotejante.  

O poder desse monstro é tamanho que mesmo hoje, 33 anos depois do incidente, ele ainda emana calor e pode matar. Seu poder diminuiu, mas ele ainda pode ser letal.


O desastre de Chernobyl, foi o maior e mais grave acidente nuclear da história. Ele ocorreu à 1:23 da madrugada de 26 de abril de 1986, quando combustível nuclear extremamente aquecido foi mergulhado em água fria, gerando uma quantidade colossal de vapor que - por conta das falhas do equipamento, criou uma reação em cadeia inimaginável no reator número 4. O resultado foi uma imensa explosão que deslocou a placa de proteção do reator, que pesava mais de mil toneladas. Uma vez arrancada de sua posição, nada protegia o maquinário que ficou escancarado, liberando radiação pura na atmosfera e cortando o fluxo de água que deveria resfriar o reator. Poucos segundos depois, uma segunda explosão ainda maior que a primeira destruiu o que restava do prédio e lançou fragmentos de grafite e partes do equipamento em toda estrutura, responsáveis por iniciar incêndios isolados.

O pânico foi imediato! Os técnicos, operários e engenheiros que ironicamente estavam realizando um teste de segurança correram para verificar os danos causados. Temiam que o reator pudesse ter sido danificado, mal podiam imaginar que ele simplesmente não existia mais! No seu lugar, havia uma cratera fumegante de onde emanava radiação como jamais havia sido registrada na história. O equivalente a várias bombas de Hiroshima por minuto.           

Depois que os incêndios causados pelo material nuclear foram controlados por bombeiros, estes começaram a descobrir o perigo invisível do reator. Os fragmentos eram tão perigosos que a mera exposição se provaria mortal. Para piorar, muitos bombeiros manipularam os fragmentos radioativos sem saber que aquelas pedras escuras iriam matá-los nos dias seguintes. Alguns sofreram queimaduras que atravessavam seus trajes de proteção. As luvas de borracha simplesmente derretiam, assim como as máscaras com mangueiras de ar. Alguns passaram a vomitar jatos de sangue, os olhos ardiam, a pele coçava e os cabelos caíam.

Eles haviam tocado na morte e os que receberam a maior carga tiveram sorte pois morreriam em poucas horas. Os outros, sofreriam por dias ou mesmo semanas, um fim doloroso e agonizante em leitos de hospital. A dose recebida era tão alta que os trajes, descartados no porão do hospital de Prypiat, continuam irradiando energia até hoje - e continuarão assim por décadas.


Os técnicos ainda tentavam entender o que havia acontecido e conscientes da radiação a que haviam sido expostos se resignavam com o que lhes esperava. As emanações tóxicas de Chernobyl com certeza os condenaria a morte ou a doença. Alguns tentavam escapar do cenário caótico, outros buscavam uma solução, incrédulos diante da tragédia que haviam liberado no mundo.

O gênio do Horror Atômico havia saído da garrafa e dificilmente conseguiriam colocá-lo de volta.

Nas semanas que se seguiram, o mundo segurou sua respiração e atônito assistiu os esforços dos soviéticos de conter a tragédia que haviam deflagrado. Sacrifícios foram feitos e apenas um comprometimento completo com o bem maior conseguiu conter o envenenamento do leito do rio e a consequente disseminação do veneno radioativo pela Europa. O custo humano e ecológico, no entanto foi incalculável.  

Mas embora o pior tenha sido evitado, algo aterrorizante começou a se formar nas entranhas da Usina devastada. O concreto por baixo do reator começou a se desfazer graças ao calor colossal que dele ainda emanava. Os restos derretidos do reator, transformados em lava super-incandescente  começaram a escorrer através do piso de concreto e foram cair no porão da unidade 4. Lá ele se solidificou em uma espetacular forma cristalina que recebeu o nome de "chernobilita".

Esse foi o monstro gestado no coração do reator. Como um bebê recém nascido, ele escorreu para fora do ventre profano onde se formou indo se aninhar na escuridão.   


Com a ajuda de aparelhos de controle remoto, essa massa intensamente radioativa foi localizada meses depois. Dela emanava tanta radiação que a primeira câmera içada derreteu e parou de transmitir mostrando apenas uma silhueta da coisa blasfema medindo dois metros de comprimento e pesando algumas centenas de toneladas. Sua aparência enrugada e coloração acinzentada lhe valeram um apelido instantâneo: "Pata de Elefante".

A coisa se tornou uma massa solidificada de combustível nuclear misturado a concreto, areia, grafite e selante. Ela escorreu através do concreto, como se fosse óleo quente atravessando uma toalha de papel, fazendo nela buraco. Encontrou seu caminho gotejando, assumindo uma forma amorfa. Em 1986, o nível de radiação da Pata de Elefante era tão intenso que se aproximar dela ocasionava a descrição acima. 

A primeira fotografia tirada da Pata de Elefante foi feita apenas 10 anos depois do desastre e naquela ocasião a massa ainda emitia 1/10 da radiação original. Pouco mais de 8 minutos em sua presença poderia ser muito perigoso. As imagens da Pata de Elefante, como a que emoldura esse artigo, possuem uma qualidade inferior já que a exposição a essa quantidade de radiação causa uma granulação no filme e efeitos luminosos.

Em maio de 1986, um sarcófago começou a ser construído - uma gigantesca estrutura de concreto armado para selar as ruínas do prédio e isolar a Pata de Elefante para sempre. Assim o mundo poderia respirar aliviado, sabendo que a coisa mais mortal jamais criada pelo homem ficaria contida nesse "berço".


Entretanto o Sarcófago de Chernobyl não foi totalmente vedado e alguns acessos foram mantidos para que pesquisadores pudessem estudar a massa radioativa e compreender seu significado. Alguns chegaram a ficar lado a lado com ela, usando trajes protetores, mas mesmo assim apenas por poucos segundos. Arriscar-se mais que alguns minutos poderia ser uma experiência mortal.

O conteúdo do Sarcófago de Chernobyl ficará ativo por pelo menos 100,000 anos, um duradouro lembrete do terror nuclear cuja tragédia afetou a vida de mais de 7 milhões de pessoas e matou milhares. Até os dias de hoje, partes da Ucrânia, Biolorússia e Rússia sofrem com os efeitos da radiação disseminada e seus efeitos ainda serão sentidos por gerações.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Deus Negro - Chernobog, a divindade eslava da Escuridão e dos Infortúnios


A mitologia eslava é rica em histórias e lendas impressionantes, mas nenhuma divindade da região é mais fascinante e ao mesmo tempo aterrorizante do que Chernobog, o Deus Negro.

Chernobog ou Czernobog, também conhecido como Crnoglav, Chernabog e Tchernobog, foi uma divindade de grande importância e influência entre os povos primitivos da Rússia, Ucrânia, Polônia e das nações Bálticas. Ele era considerado como o lado escuro da casualidade, o azar e a fatalidade, o terror da noite e a tragédia que aflige aos homens e mulheres mortais. A mão negra de Chernobog tocava cada mortal ao menos uma vez e quando tal coisa acontecia a existência das pessoas era drasticamente afetada. Segundo algumas interpretações, Chernobog não seria apenas o patrono das fatalidades, mas o causador delas... o que faz dele, um Deus Maligno que se dedica a promover o infortúnio.

É curioso, pois não há informações suficientes para saber se o Deus Negro um dia teve um culto ou mesmo, se ele chegou a ser venerado. É provável, no entanto, que se tal coisa ocorria, se dava muito mais por medo e respeito do que por real devoção. Isso por que Chernobog não demonstrava qualquer interesse pela vida dos mortais e não se importava em exterminar e destruir tanto homens quanto animais, suas cidades e vilarejos, seu trabalho e suas realizações. De fato, Chernobog podia apenas ser aplacado, jamais banido ou afastado. Estudiosos acreditam que o Deus Negro recebia sacrifícios e oferendas para conter sua ira. Grãos, comida, animais e vidas humanas, seriam as ofertas mais comuns fornecidas regularmente.


Outro elemento curioso é que segundo o folclore eslavo, Chernobog mantinha um equilíbrio de forças com seu irmão, Belbog, sua contraparte iluminada. Como inverso direto, Belbog era uma espécie de Deus benevolente, que garantia a felicidade, alegria e a vida. Há indícios de que Belbog gozava da devoção das tribos eslavas que pediam sua proteção e vestiam seu símbolo como uma forma de obter seu favor. Para a religião eslava, o equilíbrio era extremamente necessário, pois a vida não podia ser aproveitada em sua plenitude sem o risco de fracasso. Quando Chernobog e seu irmão, Belbog se enfrentavam, ocorria uma disputa na qual nunca havia um vencedor, pois isso causaria uma desarmonia cósmica.

Acredita-se que o reinado de Chernobog estava relacionado a metade do ano, começando no Solstício de Inverno e durando até o Solstício de Verão, quando a graça de Belbog voltava a prevalecer. A noite que marcava o solstício invernal era tida como o mais importante do ano, quando os deuses se enfrentavam nos céus e os mortais respiravam fundo, esperando que o dia amanhecesse. Se por algum acaso, o sol não surgisse o mundo estaria condenado a destruição pois o equilíbrio teria sido rompido com a vitória de Chernobog.

Infelizmente, os povos eslavos, deixaram poucos registros sobre suas divindades e muito do que sabemos à respeito delas veio através de cronistas cristãos que tentavam catequisar as tribos locais. O manuscrito mais antigo que menciona Chernobog, o Chronica Slavorum data do século XII e foi escrito por um padre alemão chamado Helmold.

Ele escreveu:

"Os eslavos têm uma estranha ilusão divina. Em suas festas e reuniões, eles passam em torno de uma tigela sobre a qual pronunciam palavras, não devo dizer de consagração, mas de execração, em nome de [dois] deuses - do bom e do mau - professando que toda sorte propícia é arranjada pelo deus bom, enquanto tudo de ruim, decorre do deus mau. Por isso, também, em sua língua, eles chamam o deus mau Chernobob, isto é, o Deus Negro."


É preciso, no entanto, lembrar que os primeiros visitantes cristãos que estiveram no Leste europeu tinham uma visão enviesada dos costumes alheios e principalmente sobre os deuses desses povos. Não demorou muito para que Chernobog fosse visto como uma manifestação de Lúcifer e do mal em estado puro. Nesse ínterim ele passou a ser considerado como o causador das aflições, tentações e provações enfrentadas pelos mortais, causador direto da doença e fome, guerras e por fim, da morte.

No século XVI, o cronista pomerano Thomas Kantzow em sua Crônica da Pomerânia escreveu à respeito do Deus Negro e dos povos eslavos:

"Eu relatei todo tipo de infidelidade e idolatria, em que eles se envolveram antes do tempo do Império Alemão. Mais cedo ainda, dizem que seus caminhos eram ainda mais pagãos. Eles colocaram seus reis e senhores, que governavam acima dos deuses e honraram os ditos homens [como deuses] após sua morte. Além disso, adoravam o sol e a lua e, por último, dois deuses que veneravam acima de todos os outros deuses. Um eles chamaram de Bialbug, que é o deus branco; ele eles consideravam um deus bom. O outro [chamaram] Zernebug, que é o deus negro; ele o consideravam como um deus mal. Portanto, eles honraram Bialbug, porque ele promovia o bem. Zernebug, por outro lado, eles honraram para que ele não os prejudicasse. E eles apaziguaram o dito Zernebug sacrificando pessoas, pois acreditavam que não havia melhor maneira de aplacá-lo do que com sangue humano. Segundo suas crenças Zernebug não busca nada além do morte do corpo e da alma do homem."

Não há como corroborar essas palavras, mas sabe-se que no século XVI, a maior parte do Leste Europeu já estava sob o domínio da religião cristã. Mesmo nas regiões mais isoladas, as tradições pagãs haviam sido suprimidas até a extinção então talvez esse trecho se refira a costumes muito anteriores ou em franca decadência.


Há uma menção sobre Chernobog ainda em um texto de meados de 1580, o História dos Caminenses, afirmando que ele seria o Deus dos Vândalos, povo que invadiu e conquistou Roma. Seus seguidores eram adeptos de causar destruição, espalhar a miséria e pilhar o que estivesse em seu caminho. O texto menciona também que os seguidores do Deus Negro realizavam sacrifícios em seu nome, decepando ou mutilando as vitimas por eles escolhidas.

Chernog é um dos deuses ctônicos, ou seja, relacionado intimamente a morte e destruição e que habita os recessos de um submundo. Sua morada segundo lendas seria o interior de uma enorme montanha onde ele reside solitário em meio a ataques de cólera e raiva cega. Alguns supunham que essa montanha poderia ficar na região da Alta Lusácia (no Leste da Alemanha), onde estão as montanhas gêmeas de Czorneboh e Bieleboh nomes muito próximo às divindades. Quando a terra tremia as pessoas aflitas culpavam o Deus em seu frenesi violento e temiam tocar o chão pois imaginavam que ele podia localizar onde estavam de pé. Os domínios do Deus eram imersos em escuridão total, sem luz ou calor, apenas uma escuridão interminável na qual era impossível ver qualquer coisa: "Os homens ficavam cegos no interior de sua morada". Não por acaso, o local era evitado e ninguém ia até lá.

O Deus em eras primevas era representado como um homem envelhecido mas com cabelos e barba negros, compleição sombria e olhos igualmente profundos. Em algumas representações supostamente traria na cabeça uma coroa, mas é possível que tal imagem seja mais modernas, assim como um traje preto com arremates de osso. Em uma mão carregava um bastão que diziam servir para misturar os ossos dos mortos em seus caixões, seu toque também revivia os cadáveres e compelia os corvos a servi-lo. Aos seus pés havia toda sorte de ser vivo rastejando e se contorcendo de horror diante da sua presença.


As representações posteriores foram mais longe ao retratar Chernobog com feições condizentes com o demônio cristão. Assim, ele ganhou chifres, asas de morcego, dentes pontiagudos e garras afiadas que lembravam o diabo medieval com o qual passou a ser associado. Um cheiro de enxofre também o acompanhava anunciando sua presença nefasta.

Apesar da sua obscura origem, Chernobog passou a receber certo grau de atenção do final do século XIX em diante. Ele foi personagem central em diversas obras, como a ópera Mlada de Nikolai Rimsky-Korsakov e o trecho "A Night on the Bald Mountain" do desenho Fantasia de Walt Disney. Seu nome ou forma também deram inspiração para vários personagens de games e quadrinhos. Mais recentemente, Chernabog figurou como personagem na série American Gods de Neil Gaiman.

Ironicamente, o Deus Negro é hoje uma das divindades antigas mais conhecidas da Cultura Eslava.

segunda-feira, 7 de março de 2022

Holodomor - A grande fome que varreu a Ucrânia


"Oh, minha mãe, onde está a comida
Oh, meu pai, por que não há pão.
Oh, meu Deus, onde está meu irmãozinho.
A Fome, é grande e o sofrimento não tem fim"

Canção Ucraniana sobre o Holodomor

É difícil aceitar certos fatos históricos, o horror por vezes assume a forma de abuso, força e sujeição. Quando uma nação mais forte obriga outra a enfrentar privações já é algo terrível, mas o que dizer quando o terror é praticado pelos governantes contra seu próprio povo? Quando aqueles que deveriam promover o bem estar geral são os responsáveis pelas maiores atrocidades. 

A primeira grande fome registrada na Ucrânia ocorreu entre 1919 a 1922 e levou possivelmente entre 1,5 a 2 milhões de vidas. Ela foi causada por uma severa seca que atingiu as províncias do sul e devastou as colheitas, causando uma enorme onda de fome e privações na população. Os habitantes locais não tiveram ajuda do governo que ainda lidava com as reverberações da Revolução que destituiu o Czar e instalou os Bolcheviques no poder. Com os campos vazios, um número considerável de camponeses foi migrou para outras partes em busca de sustento, ocasionando perdas devastadoras na agricultura.

Era algo sem precedentes já que a Ucrânia sempre foi famosa por seus solos negros e férteis. Seu setor agrícola era conhecido como "O Celeiro da Europa" contando com uma produção de trigo na casa dos milhões de toneladas. Além disso, o país também era um dos maiores produtores mundiais de açúcar, óleo de girassol e carne, comodities extremamente rentáveis no mercado internacional. A simples menção da Ucrânia evocava visões de plantações à perder de vista, paisagem esta que estava até representada em sua bandeira nacional, onde o azul do céu se sobrepunha ao dourado, aludindo aos campos de trigo.

Como então, um país tão rico e cheio de recursos agrícolas pode ter enfrentado uma crise de abastecimento desesperadora? 


A explicação envolve o fator humano. Em novembro de 1929, o governo soviético através de Joseph Stalin tomou a decisão de coletivizar a agricultura no país. O objetivo era evitar uma nova catástrofe no abastecimento que pudesse comprometer os planos soviéticos de promover uma industrialização acelerada. Para custear o processo industrial era imprescindível atingir metas elevadas de produção agrícola e exportar tudo que fosse possível. Com os recursos assim obtidos o país esperava prosperar, mas é claro, alguns teriam de sofrer mais do que outros.

A coletivização previa uma apropriação brutal feita pelo Estado soviético das terras, colheitas, gado e alfaias pertencentes aos camponeses. Nada mais pertenceria ao indivíduo, mas sim ao Estado. Da mesma forma, o Estado controlaria o planejamento da colheita e estabeleceria metas para a produção agropecuária e sua distribuição. Isso permitiria abastecer as cidades e as forças armadas, bem como exportar para o estrangeiro o excedente. 

Para atingir seus planos, os soviéticos começaram eliminando a camada social mais próspera da Ucrânia, os kulaks, que eram os donos originais das terras que controlavam a produção. Aqueles que resistiram a coletivização forçada foram simplesmente expropriados e deportados para que não causassem problema. 

Mas a política de coletivização instituída em 1929 teve um efeito desastroso sobre a produtividade agrícola. Os kulaks conheciam melhor do que os técnicos do governo como plantar e obter resultados, sem eles as colheitas foram pífias. Em 1932, Stalin se comprometeu a exportar grande parte da produção de grãos da Ucrânia para o exterior. Isso significava que não haveria grãos suficientes para alimentar os camponeses, já que a lei soviética exigia que nenhum grão podia ser dado aos membros da fazenda até que a cota estabelecida fosse atingida. Os trabalhadores tinham de realizar jornadas de trabalho cada vez mais longas e árduas para conseguir cumprir as metas e ter direito a algum retorno. Do contrário, morreriam de fome. 


É importante entender que a Ucrânia sempre teve grãos suficientes para alimentar sua população, contando que esses alimentos fossem mantidos no país e não escoados para outros cantos. Durante o período da Coletivização, as autoridades soviéticas confiscaram a produção agrícola que serviria para alimentar várias vezes a população. Os grãos colhidos na Ucrânia eram estocados em silos vigiados pelo exército até poderem ser transportados para a Rússia. 

A decisão de Stalin e os métodos usados ​​para implementá-la condenaram milhões de camponeses à morrer de fome. Assim teve início o Holodomor (Extermínio pela Fome) que até hoje assombra a Ucrânia. Entre os anos de 1932 e 1933, estimativas sugerem que entre 3,5 e 7,5 milhões de pessoas teriam morrido de fome no país, ainda que certos historiadores sugiram que esse número pode ser muito maior, beirando os 10 milhões de mortos. Segundo o Tribunal de Recursos de Kiev, o Holodomor teria ceifado aproximadamente um quinto da população camponesa da Ucrânia. Outras áreas sofreram com as privações: o norte do Cáucaso e a região do baixo Volga também experimentaram três ondas sucessivas de fome impostas pela política de coletivização forçada de Stalin. Contudo, as perdas mais pesadas ocorreram na Ucrânia, que até então havia sido a área agrícola mais produtiva da União Soviética

Stalin estava determinado a esmagar todos os vestígios de nacionalismo ucraniano e a ferramenta escolhida para atingir esse objetivo foi a fome. Antes disso, expurgos devastadores da intelectualidade ucraniana e do próprio partido comunista ucraniano limparam o caminho para o Holodomor. A fome foi planejada por Moscou para devastar os camponeses ucranianos que ainda resistiam ao ideal revolucionário. Muitos vilarejos lutavam pela sua independência e se ressentiam da dominação russa de suas terras e produção. Os soviéticos estabeleceram que eles sofreriam não por serem camponeses, mas por serem ucranianos. O regime extremo quebrou a vontade dos camponeses de resistir e deixou a Ucrânia traumatizada política, social e psicologicamente, uma condição que se manteve na memória nacional por décadas. 


O auge do Holodomor ocorreu em 1932 que ficou conhecido como o Ano da Grande Carestia. À medida que o tempo passava, as forças soviéticas aumentavam a quantidade de grãos a ser produzida para benefício estatal até atingir um patamar impossível. Para intimidar os camponeses aldeias eram destruídas, populações remanejadas e líderes executados. Oficiais do partido, com a ajuda de tropas regulares e unidades da polícia secreta, travaram uma impiedosa guerra de desgaste contra os camponeses. Tudo era passível de confisco: Qualquer homem, mulher ou criança pego escondendo um punhado de grãos que fosse poderia ser, e muitas vezes era, executado ou deportado. Aqueles que não pareciam estar morrendo de fome eram frequentemente suspeitos de acumular grãos e espionados. Os camponeses foram impedidos de deixar suas aldeias pelo órgão mais impiedoso do estado, o NKVD que mais tarde daria origem a temida KGB.

Em janeiro de 1933, Stalin ordenou a um aliado próximo, Pavel Postyshev que fosse à Ucrânia verificar como estava a situação. Postyshev, um membro-chave do Partido Comunista Ucraniano recebeu ordens de aumentar ainda mais a meta, ordenando que ainda mais grãos fossem coletados, apesar de não restar, na prática, nenhum. Brigadas especiais do Partido foram enviadas para revistar as fazendas e casas em toda a Ucrânia e tomar qualquer comida e gado restantes dos camponeses, apesar do já preocupante número de pessoas morrendo de fome.

Após uma longa estadia na Ucrânia, Postyshev voltou a Moscou no outono de 1933, afirmando que os "ucranianos haviam finalmente sido quebrados". Segundo ele, os camponeses estavam à beira da total inanição, mas o restante do país seria alimentado e poderia honrar seus acordos comerciais. O relatório fornecido por Postyshev era bastante completo e não censurava detalhes perturbadores sobre a situação do campesinato ucraniano e pelo que ele estava passando. 

A repressão era total e qualquer suspeita de sabotagem punida com severidade. Havia um sistema através do qual informantes eram incentivados a denunciar seus amigos, colegas e vizinhos, apontando qualquer um que estivesse prejudicando o cumprimento das metas impostas. A recompensa podia ser algo tão simples quanto um punhado de comida para o delator e sua família. Com isso a rede de informantes e o temor se espalhavam com rapidez alucinante. A pena para quem era apontado variava: os que simplesmente eram deportados para um gulag tinham sorte - sabotadores eram geralmente fuzilados sem direito a julgamento. Bastava criticar ou reclamar das condições desumanas para sofrer uma retaliação. Em algumas aldeias foi instituído um método de repressão chamado "quadros negros" no qual as pessoas podiam escrever numa lousa denuncias na qual indicavam os "inimigos do povo". Quando um nome era escrito no quadro, os agentes investigavam e apuravam se essa pessoa estava minando os esforços da coletividade.


Ironicamente, os silos de estocagem, construídos próximos das estações de trens estavam sempre abarrotados de grãos à espera de serem transportados para o Leste. Soldados armados faziam a proteção destes e impediam que os camponeses famintos se aproximassem. Estes choravam e se desesperavam quando eram obrigados a carregar os alimentos para os vagões de carga, sem poder tirar sequer um grão para saciar a fome que os consumia. 

Outro fator desnorteante era a proibição de deslocamento para outras regiões. As autoridades se preocupavam com o número cada vez maior de fugas e definiram que ninguém teria permissão de deixar uma área sem o aval do Estado. Os camponeses ficaram proibidos de viajar e quando eram designados para uma fazenda comunal, lá deveriam ficar até receber autorização e um passaporte interno emitido pela NKVD. Quem fosse pego sem tais documentos podia sofrer penas severas ou simplesmente desaparecer. Segundo o relatório, havia casos de camponeses tão aterrorizados em não descumprir as ordens que ficavam nas fazendas comunais mesmo sabendo que não sobreviveriam ao inverno. Muitos simplesmente morriam no lugar que lhes era designado.

Mas nada disso se comparava ao sofrimento causado pela fome.

A face mais cruel do Holodomor se manifestava justamente na incapacidade das pessoas de obter sustento mínimo para subsistir. Os camponeses se viam impossibilitados de reagir diante da fome extrema à qual estavam submetidos. Para substituir os alimentos que lhes eram negados, as populações recorriam ao que estivesse ao seu alcance, apelando para fontes de proteína alternativas como cães, gatos e ratos, mas quando estes começaram a rarear, buscavam pássaros, vermes e até mesmo insetos. Na ausência destes, recorriam a madeira fervida, sopa com folhas, palha seca ou mesmo ossos e couro cru de animais.

No momento que o Holodomor se tornou insuportável algumas pessoas acabaram rompendo com um dos maiores tabus da civilização e abraçaram o canibalismo. As informações sobre atos de canibalismo vinham de várias partes da Ucrânia e à princípio foram tratadas como simples boatos e desconsiderados. Contudo, é sabido que os transtornos mentais causados pela fome podem alterar o sistema de valores morais e éticos, fazendo a pessoa tolerar ações que até pouco tempo acreditavam ser invioláveis. Com efeito, é justo acreditar que o canibalismo acontecia e que era até mesmo aceito em certas áreas rurais afastadas onde o tabu de alimentar-se da carne dos semelhantes caiu por terra.


Desaparecimentos eram notificados diariamente, mas sendo as mortes algo relativamente comum, as autoridades não se preocupavam de investigar os casos. Os desaparecimentos, sobretudo de crianças se tornaram uma epidemia no inverno de 1933, quando o canibalismo parece ter se tornado mais e mais frequente, ainda que poucos aceitassem falar abertamente sobre ele. 

Os poucos que mencionavam os incidentes salientavam a extrema necessidade pela qual os envolvidos passavam, como no relato de uma certa Anna Kravchenko:

“ A fome é mesmo algo inominável. As pessoas começaram a comer gente pois não havia mais nada o que comer. Então ordenaram à polícia que desse um basta no canibalismo. Aqueles que escolheram essa forma de sobreviver, cozinhavam carne humana à noite e todos sabiam quem eram. Ninguém dizia nada! A milícia chegou ao meu povoado ao entardecer, subiu um morro e olhou lá de cima em busca de qual chaminé saia fumaça à noite. O fedor de carne humana é terrível, mas mesmo assim dominava a rua, porque a fumaça saía pela chaminé.

A polícia chegou à aldeia na estrada de Belovodsk para Markivka. Lá acharam Semyon e um amigo. A porta da casa estava encostada de modo que ninguém barrou os policiais. Ao cruzar a soleira o cheiro se fazia sentir, havia sangue respingado no chão e nas paredes e um machado do lado para partir os restos em quartos. Três cadáveres estavam na despensa iluminada por uma vela. Uma mulher em trapos - a mãe de Symeon, se colocou diante dos policiais. Ela estava com a faca ensanguentada nas mãos e a usava para preparar a carne. Ela teria dito aos homens: "Que bom que vocês chegaram, me ajudem a tirar o fígado. Amanhã as pessoas se reunirão para jantar e pelo menos alguma coisa elas terão para comer." 

Afastaram a velha decrépita e revistaram o forno que estava aceso. Tiraram um grande ferro, e encontraram ali dentro uma criança inteira e uma perna e um braço de adulto. Semyon apareceu pouco depois e caiu de joelhos pedindo perdão: "Desculpe, desculpe, é a fome que me obrigou. Não ter o que comer me deixa louco.

Quando amanheceu a milícia levou Symeon e o amigo para serem julgados. Nunca chegaram lá, mataram-nos com uma bala na cabeça de cada um. A velha louca, deixaram para trás, não falava coisa com coisa e parecia fraca demais, dificilmente sobreviveria ao inverno. Perguntaram se havia mais canibais na região, os camponeses disseram que não havia mais nenhum. E claro, estavam mentindo. A milícia por sua vez, também sabia. Mas ninguém queria investigar aquilo".


Haviam outros casos, como o relatado na Vila de Shaparsky:

"No dia 20 de fevereiro deste ano, às 4 da tarde, uma cidadã da aldeia de Shaparske, distrito de Novopskovsky, Khrypun Domniziya Vasylivna, juntamente com sua filha Khrypun Ulyta, esfaqueou uma menina de 8 anos, filha de Domnizia, irmã mais nova de Ulyta, cujo coração e fígado foram cortados e fervidos em um caldeirão para consumo."

Do caso de investigação nº 137 da cidade de Berezovo:

"Durante o interrogatório de Hylinychiv Gvarinich foi estabelecido que em 27 de junho, aproximadamente às 19h00, Varina Gilinych, com o consentimento e na presença de seu marido Andriy, esfaqueou sua filha Anna, de um ano, que estava sentada em um banco, e cortou-a em pedaços. A carne foi cozida e comida. Naquela mesma noite, quando seu filho de 4 anos, Petro, foi para a cama e adormeceu, Andriy Gvarinich, estrangulou seu filho adormecido com as mãos e também a cortou em pedaços, que foram devorados".

Casos medonhos como estes se tornaram tão comuns à certa altura que a polícia instituiu que os camponeses envolvidos não seriam mais julgados, mas executados sumariamente com ajuda de soldados. Não se sabe o número exato de casos de canibalismo, mas acredita-se que tenham sido milhares.

O número de mortos no Holodomor na Ucrânia foi estimado na casa dos milhões. De acordo com um autor soviético, "Antes de morrer, as pessoas muitas vezes perdiam os sentidos e deixavam de ser seres humanos". No entanto, um dos tenentes de Stalin na Ucrânia afirmou em 1933 que a fome foi um grande sucesso. Mostrou aos camponeses "quem era o senhor. Custou milhões de vidas, mas o sistema de fazendas coletivas veio para ficar".

O governo americano supostamente obteve informações oportunas sobre a Grande Fome ainda na década de 30, mas não tomou qualquer medida para amenizar a situação ou divulgar na época o incidente. Pelo contrário, a administração dos EUA concedeu reconhecimento diplomático ao governo soviético em novembro de 1933, imediatamente após receber denúncias graves sobre o Holodomor. Depois de voltar de Moscou em 1933, o famoso dramaturgo e pensador britânico George Bernard Shaw declarou que "não havia fome [na Ucrânia]", porque lá participou de um dos melhores jantares de sua vida - um exemplo das exibições luxuosas com que o governo regalou os estrangeiros para isolá-los da vida real na Ucrânia.


Após a tragédia do Holodomor, as autoridades soviéticas mantiveram o sistema de coletividade em funcionamento, embora tenham suspendido gradualmente as metas elevadas de produção, permitindo que os camponeses voltassem a ter acesso aos alimentos. Isso se deu principalmente porque a URSS precisava manter o mínimo da mão de obra local, sobretudo depois de "colocá-la na linha". Os grãos da Ucrânia eram necessários e eles não queriam perder esse recurso valioso. 

Em 1983, alguns países quebraram parcialmente o silêncio sobre a Grande Fome ucraniano, oferecendo o testemunho de pessoas que viveram o ocorrido e estavam dispostas a falar à respeito. Vários historiadores já suspeitavam do Holodomor e ratificaram uma carta aberta pedindo esclarecimentos à respeito, embora a União Soviética negasse veementemente tudo relacionado ao caso. As Nações Unidas ofereceram dezenove conclusões de uma comissão formada para examinar o ocorrido. Os pontos condenam a inação e o silêncio deliberado do governo americano e reconhecem que a fome foi uma ação planejada por Moscou contra os ucranianos. Várias conferências internacionais reconheceram a Grande Fome de 1932-33 como um dos maiores crimes do século XX.

Apontando para o fato de que o grão foi requisitado à força, muitos historiadores sustentam que Stalin conscientemente provocou a fome para intimidar a população da República Ucraniana e quebrar a resistência dos camponeses diante do plano de coletivização. Com base na tese de que a fome na Ucrânia foi um "genocídio" deliberadamente planejado pelo governo soviético, nacionalistas ucranianos imputaram à Rússia que ela deveria assumir a responsabilidade por aquilo que promoveu. 

Por sua vez, a Rússia insiste que a fome não pode ser considerada um ato que teve como alvo os ucranianos, já que milhões de pessoas de diferentes grupos étnicos também perderam a vida em vastos territórios da União Soviética. O país tampouco aceita a acusação de ter usado a fome como ferramenta para "quebrar o espírito dos ucranianos". Não existem documentos reconhecendo os planos soviéticos de causar a fome, mas acredita-se que estes documentos, se é que um dia existiram, foram classificados como altamente secretos ou destruídos. Mesmo hoje existem aqueles que duvidam do Holodomor e o apontam como uma ficção criada pelas nações do ocidente para atingir a credibilidade da então União Soviética. Amparam-se numa ausência de provas documentais, dando o benefício da dúvida a um regime conhecido pela forma sigilosa e pouco transparente com que trata as questões internas. 


Em janeiro de 2010, um tribunal em Kiev considerou líderes bolcheviques, incluindo o ditador Joseph Stalin, culpados de genocídio contra ucranianos durante o Holodomor. Antes disso, em novembro de 2006, Verkhovna Rada deputada ucraniana aprovou um projeto de lei declarando o Holodomor (Grande Fome) de 1932-33 como um genocídio. O projeto de lei impôs multas por declarações públicas ou divulgação de materiais negando o Holodomor, algo semelhante a lei em vigor na Alemanha, imposta sobre aqueles que negam o Holocausto de Judeus. Mesmo assim, muitos russos e ucranianos com descendência russa, bem como simpatizantes ideológicos continuam negando que o Holodomor um dia aconteceu.

Provar a verdade sobre o Holodomor por um lado confirmaria que o ser humano é capaz de atrocidades inenarráveis, mas talvez seja a única maneira de impedir que algo semelhante um dia venha a acontecer novamente. A face horrível da Grande Fome precisa ser encarada e reconhecida.

É o mínimo que as vítimas do Holodomor merecem.

quinta-feira, 3 de março de 2022

Segredos da Ucrânia - Estranhos artefatos e antigos mistérios arqueológicos


Continuando nossa série sobre os Segredos da Ucrânia.

Os mistérios desse país do Leste Europeu vão muito além de criaturas, monstros e animais mutantes alterados pela radiação liberada por Chernobyl. A nação inteira está mergulhada em estranhos enigmas históricos que desafiam a compreensão dos estudiosos há séculos. Provavelmente, o mais antigo artefato encontrado na Ucrânia é o controverso Livro de Veles, um manuscrito supostamente redigido entre os séculos VI e VIII aC. O livro é uma obra tão desconcertante que os estudiosos que tentaram estudá-lo não conseguiram sequer determinar sua autenticidade. 

O tomo teria sido encontrado em um compartimento secreto num antigo castelo ucraniano saqueado em 1919 por um ambicioso tenente russo chamado Fedor Arturovich Izenbek. O militar czarista havia trabalhado em museus de São Petersburgo e sabia reconhecer objetos de valor histórico que poderiam se traduzir em lucro. O livro tinha um texto enigmático entalhado cuidadosamente em uma série de tábuas de madeira medindo 38 cm de largura, 22 cm de altura e cerca de 0,5 cm de espessura. As bordas irregulares eram unidas no topo por dois orifícios que o mantinham íntegro como um bloco de notas. As tábuas haviam sido preparadas antes de serem talhadas, foram pintadas com algum tipo de substância betuminosa que embora tenha se desvanecido ao longo dos séculos o protegeu da corrosão. Ainda que desgastado era possível ver letras bizarras e ininteligíveis e uma variedade de formas, como sóis, cabeças de touro e vários animais distribuídos em cada prancha.


Izenbeck acreditava estar diante de algo único e tentou negociar o livro com museus e colecionadores durante uma passagem por Belgrado, entretanto, não teve sucesso. Ninguém se interessou em adquiri-lo, em parte porque o dono se negava a revelar onde havia encontrado a peça. Izenbeck acabou guardando as tábuas em uma caixa de papelão no porão de sua casa em Bruxelas e lá elas ficaram por anos. Durante esse tempo, ele não pensou muito sobre as pranchas até conhecer um excêntrico cientista russo chamado Yuriy Mirolyubov. Este seria o primeiro a estudá-las formalmente transcrevendo, fotografando e tentando traduzir o manuscrito ao longo de mais de uma década. Izenbeck se recusava a permitir que o livro fosse levado para fora de sua casa ou que fosse analisado em laboratórios que poderiam atestar sua autenticidade. Mirolyubov se viu forçado a fazer todo seu trabalho no mesmo lugar.

O livro continha confusos caracteres cirílicos que o estudioso desconfiava ser um tipo de idioma pré-eslavo, talvez até uma das primeiras formas de escrita da região. Aos poucos ele conseguiu decifrar o material e entender sobre o que ele versava. O Livro de Veles era uma obra vasta e completa sobre folclore, costumes e tradições de tribos que haviam vindo de um lugar descrito como a "terra dos sete rios além do mar". Esta tribo até então desconhecida teria migrado através da Síria para os Cárpatos no século X aC. O tomo também fazia menção a esse povo sendo escravizado e travando guerras com povos selvagens, adorando deuses e se estabelecendo temporariamente em diferentes territórios. As tábuas continham a descrição de rituais dedicados a entidades ancestrais como Belbog, e sua contraparte, o maligno deus negro, Chernobog. Dentre os rituais haviam sangrentos sacrifícios, cerimônias de Solstício de Verão e modalidades de adoração que incluíam automutilação, tatuagens e escarificação.

Mirolyubov deu prosseguimento ao seu estudo do Livro de Veles até a invasão nazista de Bruxelas. Ele temia que o Livro de Veles caísse nas mãos dos nazistas, sobretudo depois da morte de Izenbeck em 1941. Os alemães estavam recolhendo artefatos históricos para suas coleções particulares e ele decidiu contratar um ladrão para subtrair o livro. No entanto, algo aconteceu e o artefato acabou se perdendo indo parar, possivelmente nas mãos de algum colecionador particular ou interceptado pelos próprios alemães. O único material restante foram as anotações e fotografias reunidas por Mirolyubov durante seus estudos. 


Após a guerra, ele as levou consigo quando imigrou para os Estados Unidos, tendo as repassado para um professor chamado Andrey Kurenkov em 1953. A partir daí o livro se tornou um tema controverso e muito debatido, com vários pesquisadores concordando ou discordando de sua autenticidade. Mais estranho ainda, autoridades soviéticas negaram que ele fosse verdadeiro e proibiram seu estudo no país. De fato, os Soviéticos chegaram a tentar comprar as anotações e fotos com o intuito de destruí-las.

Os céticos apontaram que análises linguísticas das anotações sobre o Livro de Veles revelaram o que seria uma mistura de várias línguas eslavas, sem uma gramática consistente, tendo porções que pareciam completamente inventadas e passíveis de inúmeros erros linguísticos. Esses indícios lançaram uma sombra sobre o trabalho de Milyubov, sugerindo que ele teria inventado boa parte da tradução. Lascas do artefato que haviam sido salvas em 1930 também foram analisadas e embora os resultados tenham sido inconclusivos, parecia certo que a madeira não era anterior ao século V da Era Cristã.

Infelizmente, com o livro em si foi perdido, era praticamente impossível dizer quando ele havia sido criado. Tudo que restava eram as evidências e testemunhos fornecidos por Mirolyubov, e só podemos rastrear com segurança a história do Livro de Veles até a década de 1950. Além disso, muitas versões modernas do livro possuem textos diferentes entre si, uma vez que ele foi alterado e deturpado largamente nos últimos anos. 


Muitos pesquisadores chegaram à conclusão de que o livro era uma farsa elaborada, possivelmente perpetuada pelo próprio Mirolyubov, e que ele teria sido fabricado em tempos mais recentes e não no passado distante. Apesar dessas conclusões desanimadoras, ainda há estudiosos que insistem que o Livro de Veles é genuíno, um tratado fantástico sobre as origens dos povos eslavos.

Após o fim da União Soviética, a abertura de documentos até então mantidos em segredo revelaram que os soviéticos viam o livro como um perigo em potencial, pois era uma obra que glorificava o orgulho eslavo ucraniano. Por essa razão, ele teria sido alvo de uma tentativa de censura. Outra curiosidade é que uma alegada versão do Livro de Veles chegou a ser publicado na Ucrânia em 2008 tornando-se um sucesso editorial. Pouco depois vieram à tona rumores sobre a descoberta do livro original em uma coleção particular na França e que seu dono estava disposto a vende-lo para o Museu de História de Kiev. O boato foi negado pelos diretores da instituição, a localização do Livro de Veles permanece desconhecida.  

Outro mistério histórico impressionante da Ucrânia diz respeito a enigmática cultura Cucuteni-Trypillian, que habitou uma vasta região da Europa Oriental, incluindo porções da moderna Moldávia, Romênia e Ucrânia entre 5400 e 2700 aC. O grande mistério à respeito desse povo é o que teria acontecido com ele, já que parece ter desaparecido da história sem deixar vestígios claros de sua passagem. 


A cultura recebeu o nome da vila em que seus restos mais importantes foram descobertos, um lugar chamado Cucuteni, na Romênia, rico em peças de cerâmica e estranhas figuras de terracota achadas em 1884 pelo arqueólogo Teodor T. Burada. As descobertas à princípio não chamaram muita atenção, já que se imaginava que seriam tão somente fragmentos de povos eslavos, contudo, um exame mais criterioso demonstrou que esses artefatos eram bem diferentes, evidenciando a existência de uma civilização até então ignorada. Alguns pesquisadores chegaram a dedicar a essas descobertas uma série de artigos, afirmando que elas poderiam constituir resquícios de uma civilização antediluviana dispersa após a destruição do Grande Dilúvio bíblico. 

Escavações eventualmente revelaram antigas ruínas da cultura, centrada no Oeste da Ucrânia, perto da vila de Trypillia, em 1893. À medida que os arqueólogos exploravam essas ruínas misteriosas, tornou-se evidente que essa cultura havia construído cidades extremamente desenvolvidas para sua época, de fato, algumas das maiores da história neolítica europeia, exibindo um incrível conhecimento arquitetônico e notável engenhosidade para sua época.

Isso já seria intrigante o suficiente, pois até essa descoberta se pensava que não haviam contribuições particularmente significativas feitas pela antiga Europa Oriental para o avanço da civilização na Europa. A descoberta arqueológica era portanto algo inovador e de suma importância. No entanto, os mistérios desta antiga civilização estavam apenas começando. 


Um dos grandes mistérios é que as evidências sugeriam que a cultura Cucuteni-Trypillian havia  deliberadamente incendiado seus próprios assentamentos. Constatou-se que muitos assentamentos foram construídos diretamente em cima de locais anteriores que haviam sido destruídos pelo fogo, com habitações destruídas ao longo de um ciclo que durou entre 60 a 80 anos. Não há sinais de que a devastação foi causada por invasões, pilhagem ou povos inimigos, não há sepulturas comunais, oq ue geralmente aponta para esse tipo de ação exterior. No caso dessa civilização, tudo aponta para um momento em que eles próprios decidiram destruir suas realizações e apagar intencionalmente sua passagem pelo mundo.

Ninguém sabe ao certo o que levaria um povo antigo, aparentemente capaz de construir e se estabelecer a arrasar suas próprias cidades, aldeias e plantações. Muito debate se seguiu sobre o assunto, com alguns historiadores supondo que uma epidemia ou quem sabe um movimento religioso central tenham sido a causa desse comportamento. Estudiosos supõem que em determinado momento, uma profecia pode ter motivado o povo Cucuteni-Trypillian a cometer uma espécie de suicídio cultural, algo bastante raro.

Outro mistério à respeito desse povo envolve os estranhos artefatos que eles deixaram para trás. Vários santuários sagrados foram encontrados entre as ruínas que abrigavam uma infinidade de estatuetas e relicários enterradas por alguma razão desconhecida. Consideradas de natureza religiosa, as estatuetas retratam homens e mulheres, com as mulheres sendo retratadas como inexpressivas, enquanto as dos homens mantêm características proeminentes ou exageradas. Alguns estão nus e alguns vestidos, e todos eles mostram uma clara progressão de diferentes penteados e estilos de roupas ao longo dos tempos. Suspeita-se que eles fossem totens mágicos de algum tipo, destinados a afastar o mal ou conceder algum tipo de benefício místico aos seus adoradores.


E finalmente permanece sem respostas o mais desconcertante de todos os mistérios sobre essa civilização. Para onde essas pessoas foram? Uma teoria é que eles encontraram um fim violento nas mãos da violenta Cultura Kurgan composta por guerreiros e saqueadores que varriam a região em busca de cidades que pudessem pilhar. Os Kurgan costumavam capturar escravos e os levavam para terras distantes onde eram negociados com outros povos.  

Outra ideia é que houve algum tipo de Idade das Trevas ou cataclismo natural, do qual o povo Cucuteni-Trypillian jamais consegui se recuperar. Os sobreviventes acabaram se espalhando e basicamente se dissolveram nas populações de outras áreas da Europa. Ainda outra teoria é que a cultura Cucuteni-Trypillian experimentou um impacto devastador em sua sociedade dependente da agricultura devido a profundas mudanças climáticas que estavam afetando a região na época. Nada disso, no entanto, explica as razões que os levaram a apagar seu modo de vida de maneira deliberada. Como afirmam arqueólogos, já é difícil compreender o passado de povos que desapareceram naturalmente, que dirá uma civilização que se empenhou em promover esse desaparecimento. 

Ninguém tem certeza do que aconteceu com eles, e tudo que restou foram ruínas sombrias e assentamentos misteriosamente incendiados. Provavelmente esse mistério continuará e o debate à respeito dessa civilização se manterá ainda por muito tempo. Ao menos até alguma pista crucial ser encontrada.