Mesa Tentacular visita mais uma vez o Blog trazendo imagens e informações sobre uma mesa de RPG.
Dessa vez, a mesa em questão envolve um mash-up de Chamado de Cthulhu e Detetive, o clássico jogo de tabuleiro onde um grupo de pessoas muito suspeitas tenta descobrir quem entre eles é um assassino, que arma foi usada no crime e em que local de uma enorme mansão a morte ocorreu.
Eu já tinha feito planos para rolar essa aventura anteriormente, mas parece que sempre acontecia algum imprevisto e eu acabava cancelando. Mas finalmente a história acabou saindo e foi muito divertida, com direito a morte horrendas, situações bizarras e alguns dos personagens mais bacanas que investigaram os Mythos ancestrais em muito tempo.
O cenário original "Tatterdemalion" (algo que pode ser traduzido como "Esfarrapado") foi publicada no suplemento de aventuras Fatal Experiments ainda nos tempos da quinta edição de Chamado de Cthulhu. Obviamente a história não previa o uso dos personagens ou situações do boardgame Clue/detetive, mas não foi difícil inserir esses elementos na trama.
A história envolve o milionário Anthony Carmichael, uma figura recorrente nas colunas da alta sociedade de Nova York na década de 1920. Além de incrivelmente rico, Carmichael é um talentoso dramaturgo, cujas montagens teatrais são sempre cercadas de polêmica, em especial sua última peça, "Sodoma" que causou enorme controvérsia. Ela foi encenada apenas em duas ocasiões causando um escândalo que obrigou seu roteirista a se retirar da cena teatral e se exilar em Paris.
Mas Carmichael está de volta! E ele convida a nata da sociedade nova-iorquina para uma festa que será o evento da temporada. A festa não é apenas uma desculpa para juntar pessoas importantes: artistas, políticos e ricaços, mas uma desculpa para apresentar a um público selecionado a nova obra do autor - "A Rainha e o Estranho".
E é aí que as coisas bizarras começam a acontecer e onde o Horror surge com tudo.
Os investigadores - Professor Black, Sr. Marinho, Dona Violeta, Srta. Rosa, Coronel Mostarda e Miss Peachy, que estão entre aqueles que assistem a peça, terão de lidar com as repercussões de um incidente estarrecedor que os transporta fisicamente para outra realidade onde se veem trilhando as ruas da Cidade de Carcosa.
As Fichas:
Um dos elementos centrais dessa aventura são os personagens dos jogadores. Aqui eles assumem o papel de personagens clássicos do boardgame Detetive/Clue.
Eu criei as estatísticas dos personagens e imprimi nessa ficha especial para a ocasião.
Para quem estiver curioso à respeito das estatísticas, temos dois artigos em que apresentamos os personagens em detalhes:
Uma das coisas que eu tentei salientar na trama é que esses personagens não fossem investigadores convencionais no sentido de serem "heróis". Muito pelo contrário, cada um deles era responsável por um crime do qual haviam se safado. Ou seja, nenhum deles é exatamente inocente, muito pelo contrário, são pessoas capazes de coisas horríveis e que se veem confrontados por um terror ainda maior.
Esse detalhe deu um tempero extra à história e obrigou os jogadores não apenas a buscar entender o que estava acontecendo, mas a proteger seus segredos dos demais. E em meio a uma série de mortes inexplicáveis, e extremamente perturbadoras, a sanidade foi descendo a ladeira rapidamente.
No final da história os investigadores sobreviventes tinham perdido algo entre 20 e 30 pontos de sanidade, o que não é pouco numa one-shot.
Props e Handouts:
Caprichei nos recursos do Guardião para essa história. Eu sempre quis fazer a mistura de um jogo de Tabuleiro que eu amo desde criança com o RPG que mais gosto.
Como havia uma quantidade grande de personagens coadjuvantes, para não fazer muita confusão entre eles, imprimi o rosto de cada personagem e colocava a imagem na mesa quando um deles estava participando da interação com os jogadores.
Também havia uma boa quantidade de handouts mais convencionais que forneciam pistas ou informações adicionais que os personagens possuíam e que cabia a eles a decisão de compartilhar ou não.
Dos Handouts que produzi, o Convite para a Festa de Anthony Peabody Carmichael (conhecido como "Body") foi o meu preferido. Fiz o convite seguindo o estilo art-decó tão em voga nos anos 1920 e ficou algo bem "Grande Gatsby".
No decorrer da história, com uma série de assassinatos hediondos acontecendo e com uma pilha de cadáveres sendo descoberta nos cômodos da mansão, o grupo foi recebendo trechos extraídos de uma poesia contida no terrível livro, "O Rei de Amarelo".
O avatar conhecido como Rei de Amarelo aliás foi um dos elementos centrais na trama. Achei especialmente adequado que um Deus tão identificado com uma cor, estivesse presente na história onde os personagens tem nome de cores.
O Símbolo Amarelo por sua vez foi visto algumas vezes, sempre como vetor de loucura, entropia e caos.
As regalias do Rei de Amarelo também figuraram na trama.
Uma página de manuscrito antigo mostrando o Rei de Aamarelo com toda pompa e circunstância.
E um amuleto dourado com seu brasão real.
Itens arcanos de grande poder essenciais quando o grupo de investigadores desembarca em Carcosa e precisa encontrar uma maneira de voltar à Terra.
Consegui iniciar e terminar "Tatterdemalion" em uma tarde, numa sessão de aproximadamente seis horas. Ajudou ter feito um quadro com a relação dos personagens e o role de cada um na trama. Quem eles conheciam, com quem se relacionavam e quais os seus opositores.
Deu um pouco de trabalho, mas a aventura foi muito divertida, basta olhar o clima da mesa...
Foram necessários 30 anos para que uma adaptação de The Sandman (Netflix), a célebre série de quadrinhos de Neil Gaiman, chegasse às telas. Pouco para os Perpétuos que não estão sujeitos à passagem do tempo, mas uma existência para os fãs ansiosos por assistir a versão live action dessa saga tão querida.
Eu me recordo com carinho de quando comecei a ler Sandman, lá pelos idos da década de 1990. Eu vinha dos quadrinhos de super-heróis e estava querendo algo diferente. Esse algo mais veio através do Selo Vertigo, que trazia histórias mais adultas produzidas pela DC Comics. Eu já conhecia e amava o Monstro do Pântano que era o meu personagem favorito, adorava o bom e velho Hellblazer, mas quando li Sandman foi como experimentar pela primeira vez uma iguaria fina. Um verdadeiro prato exótico, diferente de tudo que eu já havia provado até então, algo tão estranho quanto fascinante.
As histórias eram grandiosas, ousadas, cheias de nuances e estranheza, com um toque de proibido e misterioso como bem convinha ao obscuro personagem título. Em que outra história em quadrinhos o protagonista fala através de balões negros e divaga sobre filosofia arcana, história, lendas e fantasia? Sandman é uma criação genial saída da mente de Neil Gaiman, gerado, eu suspeito em algum sonho - afinal, o que seria mais adequado?
A Saga de Sandman era povoada por Deuses e Demônios, seres mágicos e criaturas vis, pessoas normais e extraordinárias, reunidas para contar fábulas que podiam ser belas e líricas, medonhas e perturbadoras, fazendo o leitor pensar, ponderar e se emocionar. A HQ de Sandman trazia mensalmente algum delírio criativo destilado por Gaiman e transformado em imagem por intermédio de um dos talentosos artistas que trabalhavam com ele. O resultado era singular, algo que acontece uma vez a cada geração.
Criador e Criatura, Neil Gaiman e Sandman
Eu sempre me perguntei se Sandman um dia poderia se tornar um filme, mas supunha ser algo impossível de acontecer. Eu me conformava com a noção de que filmar algo desse tamanho, dessa importância, dessa complexidade, beirava o inviável... "melhor nem tentar, se for para fazer porcaria", lembro de ter dito repetidas vezes. Mesmo assim, eu sonhava (claro que sonhava!) com uma adaptação, e imaginava se seria possível transmutar arte em papel para arte em celuloide.
Nunca aconteceu.
O tempo passou e Sandman terminou sua longa jornada nos quadrinhos, Gaiman se dedicou a outros projetos e a ideia de que um dia seria possível ver Lorde Morpheus em carne e osso, ficou no esquecimento. Claro, eu continuava folheando habitualmente as páginas das edições originais e os "encadernados definitivos" que foram lançados ao longo dos anos. Acho justo dizer que nunca parei de ler Sandman.
Então, ano passado, entra na jogada a Netflix com a bombástica notícia de que a maior empresa de streaming do mundo estaria interessada em adaptar a obra de Gaiman no formato de uma série.
Tom Sturridge vive o Perpétuo Lorde Morpheus
Ok, tempo para processar a notícia e pesar os prós e contras dessa iniciativa. Se por um lado o formato de série, com temporadas, era uma boa ideia (muito melhor do que a de um filme) e a Netflix tinha dinheiro para fazer algo grandioso, por outro, sabemos que nem sempre as adaptações deles são fiéis e que não são poucas as vezes em que o resultado foi de lascar.
Após o anúncio confirmando que a série seria realmente produzida, transcorreram longos meses entre escolha de elenco, locações e filmagens, nos quais fãs novos e antigos usaram as redes sociais como campo de batalha para testar suas teorias. De um lado os que apostavam que seria uma série sensacional e do outro os que diziam que seria nada menos do que o Fim dos Tempos. Tudo sobre Sandman foi debatido, esmiuçado, analisado, criticado, defendido e atacado por uma verdadeira horda de nerds desvairados que, convenhamos, tinham mais tempo do que argumentos. Um dos pontos mais delicados foi a escolha do elenco, pomo da discórdia que descambou para as mais venais discussões sobre fidelidade a obra original no que tange à aparência, raça, gênero e conceito dos personagens.
Alinhado com os produtores, Gaiman saiu em defesa da obra e assumiu o papel de relações públicas da série, garantindo que os fãs não precisavam se preocupar, ele não deixaria seu Sandman ser maculado. Garantia um tanto quanto questionável se considerarmos que ele também estava envolvido com American Gods, e deu no que deu.
Para encurtar essa introdução e ir direto ao que importa; enfim, semana passada a série estreou com pompa e circunstância na grade de programação da Netflix e convém discutir qual o resultado. Sandman é tudo aquilo com o que sonhávamos ou é um pesadelo do qual não conseguimos despertar? (eu sei, infame, mas não dá para resistir aos trocadilhos oníricos).
A personificação dos Sonhos em carne e osso.
Sem querer fugir da questão, acho que o mais honesto é começar dizendo que é uma série interessante, muito bem produzida e agradável de assistir. Ela vai fazer os fãs sentirem uma ponta de nostalgia ao ver os personagens que amam e ouvir trechos que estão em perfeita sintonia com as histórias. Por outro lado, mesmo os fãs mais entusiasmados serão capazes de apontar elementos que ficaram aquém da expectativa.
Enfim, Sandman é uma boa série, mas está longe de ser perfeita.
É preciso dar um desconto, afinal, juntar em dez episódios uma trama tão rica e profunda não é nada fácil, mesmo quando se divide a temporada em dois arcos - à saber, Prelúdios e Noturnos e A Casa de Bonecas, exatamente as duas sagas iniciais dos quadrinhos.
Com um orçamento considerável, elenco afinado, bons efeitos e ótima fotografia, Sandman pode se sentir orgulhoso de fazer o que parecia impossível: Dar credibilidade a um universo que muitos consideravam impossível filmar.
Para quem não conhece o quadrinho e não sabe nada à respeito do personagem, é bom fazer algumas apresentações básicas. Na trama, Sandman, mais conhecido como Sonho ou Morpheus, é uma entidade que integra os Perpétuos, uma família formada por seres de poder quase ilimitado que governam reinos ligados a diferentes aspectos da psique humana. Os Perpétuos são responsáveis por coordenar facetas bem particulares de nossa existência mortal - o Destino, a Morte, Desejo, Delírio etc. Sandman, no caso, é o Perpétuo incumbido de zelar pelos Sonhos. É para seu reino que nós vamos quando estamos dormindo e é lá onde nascem as aspirações, projetos e ambições, bem como é lá que surgem nossos medos e inseguranças. Morpheus é quem rege tudo isso e faz com que a humanidade encontre seu caminho entre acertos e erros moldados em seus domínios.
Muitas cenas parecem ter sido sacadas direto das páginas dos quadrinhos
A história começa em 1916, quando Sandman (Tom Sturridge) acaba sendo capturado por um cabal de feiticeiros liderados por um sinistro mago chamado Roderick Burgess (Charles Dance). O bando estava mirando em outro Perpétuo, a Morte e tencionavam capturá-la para seus fins mesquinhos. Ao invés disso, acabam prendendo o irmão desta, nosso protagonista, o Rei dos Sonhos. Uma vez capturado, Morpheus é destituído de suas ferramentas reais - um elmo, uma algibeira e um rubi, que são seus símbolos de poder. Em seguida, enfraquecido e nu, ele é trancafiado numa gaiola de vidro. Lá é coagido pelos seus captores a cooperar, mas se nega a fazê-lo, assistindo pacientemente a passagem das décadas, pois Morpheus ao contrário dos mortais, tem todo tempo do mundo. A prisão do Perpétuo responsável pelos Sonhos se mostra, contudo, devastadora para o mundo desperto, mergulhado em um século de guerra, horror e incerteza.
Não é nenhum Spoiler revelar que Morpheus eventualmente consegue escapar e que ao fazê-lo retorna ao seu reino, o Sonhar, descobrindo que ele mudou muito. Sua fiel bibliotecária Lucienne (Vivienne Acheopong) cuidou do lugar, mas o Reino quase foi devastado no hiato criado por sua ausência. Ele precisa então reafirmar seu título como Senhor dos Sonhos e reaver seus poderes.
O primeiro Arco da trama, chamado nas HQ de Prelúdios e Noturnos (correspondendo aos episódios 1 a 5) se concentra na busca de Morpheus pelos seus artefatos que nos anos de aprisionamento mudaram de mãos e se perderam na Londres contemporânea, nas profundezas do Inferno e nas garras de um demente muito perigoso. A jornada para reunir suas ferramentas perdidas se mostra uma tarefa bem mais complicada do que ele poderia imaginar e dá o pontapé inicial na saga de uma forma muito promissora.
O aprisionado Senhor dos Sonhos aguarda o momento de ser livre
A seguir, temos o segundo arco (os episódios 6 a 10) chamado de "A Casa de Bonecas" que lida com problemas surgidos enquanto Morpheus esteve incapacitado de cumprir suas obrigações. Três dos seus súditos: dois pesadelos e um sonho, desapareceram e se perderam no mundo desperto. Eles tem agido de forma renegada desde o sumiço de seu Mestre e é preciso trazê-los de volta. O mais perigoso desses rebeldes é o pesadelo que atende pela alcunha de Coríntio (Boyd Holbrook), um maníaco que inspira serial killers e que se torna um oponente de peso para Morpheus. A importância do Coríntio é ampliada na série, tornando-o o principal antagonista. Além disso, o Rei dos Sonhos tem que enfrentar a ameaça de um Vórtice de Sonhos, um mortal nascido com a singular capacidade de destruir o Sonhar.
Casa de Bonecas é uma história difícil, com uma longa lista de coadjuvantes (longa demais, eu diria!) e situações bizarras, como uma Convenção de Assassinos em série e uma viagem vertiginosa pelos Reinos Oníricos. Em termos de roteiro o primeiro arco é muito superior ao segundo, que sofre de um excesso de informações que nem sempre são explicadas satisfatoriamente. A maior parte do arco trata de Sonho discutindo com Rose Walker (Vanesu Samunyai, o Vórtice) tentando decidir o que fazer à respeito dela. A outra parte envolve a busca de Rose pelo seu irmão extraviado. A impressão é que essa trama se estende demasiadamente e começa em certa altura, a se arrastar demais. Bem quando já se tornava repetitiva, a série termina com um gancho para a próxima temporada. Ela cria suspense sobre o que vai acontecer à seguir, algo bem dentro da cartilha das séries da Netflix.
É curioso que o melhor episódio dessa primeira temporada (pergunte a qualquer um) seja aquele que divide os dois arcos e que apresenta a faceta mais humana de Sandman na forma de sua irmã, a Morte. Esse sexto episódio é nada menos do que sensacional ao condensar em pouco mais de 50 minutos duas das melhores histórias da Saga de Sandman, as icônicas "O Som das Asas Dela" e "Homem de Boa Fortuna". Mesmo que depois de ler essa resenha você conclua que essa série não é para você, eu indico assistir ao menos esse episódio, pois ele é uma aula de como contar uma boa história de fantasia.
Sandman encontra Lúcifer no Inferno
O grande elenco é em sua maior parte adequado, com uma capacidade notável de declamar trechos que poderiam soar excessivamente literários, complicados, ou as duas coisas, de forma não artificial. Tom Sturridge, oferece um Morpheus mais humano do que eu contemplava, mas mesmo assim se sai bem ao interpretar uma deidade cheia de nuances, nem bom e nem ruim, simplesmente inumano. Fisicamente sua aparência é bem condizente aos quadrinhos e ele soa como Morpheus, sobretudo quando está zangado. Eu gostei especialmente de Charles Dance e de David Thewlis (que faz o papel do instável John Dee). Os dois roubam o espetáculo sempre que estão em cena. Joely Richardson (Ethel Cripps) também tem uma interpretação sólida como a mãe de Dee. Infelizmente Gwendoline Christie (a regente do Inferno, Lúcifer Morningstar) e Stephen Fry (Gilbert) tem pouco tempo de cena para mostrar serviço. Um dos personagens mais debatidos pelos fãs, a Morte, interpretada por Kirby Howell-Baptiste entrega um excelente desempenho que justifica os produtores terem bancado sua escolha. A Morte é a mais humana das personagens e embora sua aparência inegavelmente difira do conceito original, e tenha causado um debate acalorado, se sai muito bem.
O ponto fora da curva é a versão feminina de John Constantine, no caso Johana, que assume o papel uma vez que a Warner Bros, detentora dos direitos sobre o personagem, não o liberou para a série. A solução foi usar uma personagem que de fato existe na saga, uma antepassada de Constantine, mas lançá-la na trama nos dias atuais, solução meio preguiçosa se me perguntarem. O problema, entretanto, não é a atriz Jenna Coleman, mas como sua Constantine é retratada. Assim como Keanu Reeves no filme de 2005, a personagem é mais uma exorcista do que uma maga, mais uma mercenária em busca de recompensa do que uma ocultista e mais uma pessoa problemática do que uma pilantra incorrigível. Fala-se de um spin-off a ser estrelado por ela, mas francamente eu preferia assistir uma série com um John Constantine que faça jus ao fumante calhorda dos quadrinhos.
Visualmente Sandman tem uma produção de qualidade com direito a paisagens oníricas deslumbrantes e panoramas infernais enfumaçados, além de saltos no tempo a diferentes períodos históricos. Eu penso que o Inferno e seus habitantes poderiam ter recebido um pouco mais de atenção, alguns deles ficaram demasiadamente humanos e com um visual um tanto ridículo (o demônio Corazon, por exemplo mais parece um funkeiro carioca). Toda parte técnica, entretanto, é realizada com cuidado e competência, o que inclui trilha sonora, fotografia e efeitos de CGI de primeira.
Os Irmãos Perpétuos, Morte e Sonho divagam sobre seu papel
Uma crítica que tenho diz respeito a certa diluição do terror e do clima dark que permeava boa parte do quadrinho. Trechos como o castigo de Alex Burgess com o Eterno Despertar, a presença de pesadelos se alimentando dos vivos na busca pela algibeira e alguns aspectos mais detestáveis dos demônios parecem ter sido diminuídos. Mesmo o polêmico episódio 5, o infame "Massacre no Dinner", batizado 24-7, perde um pouco o choque original, ainda que seja inquietante.
Eu tenho algumas dúvidas sobre o que aqueles que estão conhecendo esse universo agora vão achar de Sandman e de sua trama. Um pouco estranha? Provavelmente. Um tanto confusa? Com certeza. Um bocado corrida com muita coisa acontecendo simultaneamente? Sem sombra de dúvida.
Apesar de não ser perfeito, Sandman é uma série acima da média e deverá ser renovada para novas temporadas já que vem fazendo sucesso mundo à fora. Suponho que a medida que for avançando, o roteiro encontrará a chance de aprofundar os personagens e encontrar o ritmo ideal para a narrativa. De toda forma, Sandman finalmente chegou onde todos queriam, e isso não é pouca coisa.
Muriel "Kit" Richardson, era parte da alta sociedade britânica, seu marido Ralph Richardon era uma espécie de celebridade. Sua carreira como ator de teatro e cinema estava no auge e o casal aparecia frequentemente nas colunas sociais londrinas. Certo dia, em meados de 1925, Kit disse ao marido que não estava se sentindo bem: tinha dores de cabeça muito fortes e se queixava de um resfriado persistente. Achou melhor ficar em casa e não acompanhar o marido em uma estréia teatral. Assegurou a ele que não deveria ser nada de mais.
Na manhã seguinte, Ralph encontrou a esposa em estado ainda pior. Teve dificuldades em acordá-la, pois tudo o que Kit queria era continuar dormindo. Ele chamou um médico que receitou algumas vitaminas e prescreveu que ela descansasse por alguns dias. No curso de três dias, ela dormiu, despertando apenas momentaneamente para comer
alguma coisa ou ir ao banheiro.
No quarto dia, quando o marido não conseguia acordá-la por nada decidiu carregá-la para um hospital. Kit parecia acordar em alguns momentos, abria os olhos, mas não estava totalmente consciente ou desperta. Ela parecia acometida de uma espécie de transe do qual não conseguia acordar, não estava dormindo, mas também não estava inteiramente acordada.
E ela nunca despertou desse estado.
Muriel "Kit" Richardson ficou em estado vegetativo e não despertou mais. Enfermeiras e ajudantes, se revezavam para alimentá-la, limpá-la e tratála pelas duas décadas seguintes. E nesse período todo, ela dormiu profundamente.
Infelizmente, ela não foi a única.
Entre os anos de 1915 e 1926 havia uma estranha doença se espalhando pelo mundo e as pessoas temiam dormir e jamais acordar. Essa foi a era da infame "Doença do Sono", uma epidemia que transformava suas vítimas em estátuas vivas. Elas eram prisioneiras de seus próprios corpos em um perpétuo estado de coma em que pareciam sonhar sem a esperança de um dia acordar.
Logo depois da Grande Guerra, essa doença bizarra que recebeu o nome de Encefalite Letárgica (mas se popularizou com o nome "Doença do Sono"), afetou milhões de pessoas em todo mundo e deixou médicos e profissionais de saúde intrigados. De acordo com algumas fontes, cerca de um milhão de pessoas foram afetadas por essa estranha condição e morreram, enquanto muitas outras simplesmente dormiram por anos e jamais despertaram.
Muitos destes, assim como Muriel Richardson, passaram o resto de suas vidas, em suas camas. Para preservá-los, instituições médicas foram criadas para recebê-los, asilos e alas hospitalares construídas às pressas para hospedar pacientes que simplesmente dormiam.
Nos últimos 100 anos, algumas das mais brilhantes mentes tentaram em vão encontrar uma explicação para o que realmente aconteceu com aquelas pessoas. Que estranha condição era aquela? Como poderia ser tratada? Como amenizar seus sintomas? E como trazer aquelas pessoas de volta?
Talvez o mais aterrorizante, é que pesquisadores hoje, sabem apenas um pouco mais do que os médicos que tiveram contato com esses pacientes. O "vírus do sono" permanece como um dos maiores mistérios da História da Medicina e um enigma difícil de ser decifrado.
A doença surgiu no mesmo período em que a devastadora pandemia da Gripe Espanhola matava de maneira desenfreada mais de 50 milhões de pessoas pelo globo. Talvez por isso, relativamente poucas pessoas conhecem essa história, a despeito dela ter afetado tantas vidas. A Gripe Espanhola ganhou tanto destaque que encobriu outras moléstias, deixando-as em segundo plano.
Embora a maioria dos casos tenham ocorrido nos meses que se seguiram a Grande Guerra, acredita-se que os primeiros casos tenham sido registrados entre 1915 e 1916 quando soldados no fronte ocidental começaram a a apresentar um quadro de confusão mental e letargia. Os homens não conseguiam se concentrar: reclamavam de dores de cabeça persistentes, náusea e mau estar. Médicos em Paris foram os primeiros a encontrar a condição, mas demorou pelo menos mais um ano para que eles compreendessem que se tratava de uma doença até então desconhecida.
A princípio assumiram que ela seria um efeito colateral da exposição direta aos gases tóxicos utilizados por ambos os lados do conflito nas trincheiras, em especial o temido Gás Mostarda. Contudo, a suspeita se mostrou errônea, uma vez que pessoas em áreas afastadas dos campos de batalha também demonstravam os sintomas da estranha moléstia.
Um neurologista de Viena chamado Constantin Von Economo foi o primeiro a pesquisar a doença. Ele escreveu um ensaio chamado "Die Encephalitis Lethargica," no qual fazia uma extensiva descrição da doença que afetava tanto combatentes quanto civis. Não demorou muito até que o nome do médico fosse associado com a nova doença, e a encefalite letárgia logo ficou conhecida como a Síndrome de Von Economo.
O médico descreveu a doença da seguinte forma:
"Nós estamos lidando com uma doença até então desconhecida. Cogito que ela jamais foi contemplada pela ciência médica pois não consta em nenhum livro. Os pacientes afetados sofrem de uma letargia profunda, dormindo profundamente por longos períodos, por vezes não despertando. Os primeiros sintomas são dores agudas de cabeça e mau estar. Segue-se então um estado de sonolência crescente, por vezes associado a delírios e alucinações. O indivíduo sente uma notável dificuldade em ficar desperto e seu quadro geral apresenta um esgotamento físico e mental. A vítima é incapaz de dar respostas claras, compreender sua situação ou desenvolver uma linha de pensamento racional. Esse grau de sonolência pode levar a surtos de sonambulismo que são um risco para sua segurança. Isso pode levar à mortes acidentais.
Indivíduos que não são atendidos, podem morrer em semanas já que são incapazes de suprir suas próprias necessidades. Os afligidos não parecem sentir fome ou sede e literalmente definham se não receberem ajuda para se alimentar. A situação pode persistir por meses ou períodos mais longos, com uma variação entre o estado de sonolência e profundo estupor ou coma"
A descrição de von Economo publicada em 1917 emum jornal de medicina é bastante detalhada e acurada: As pessoas literalmente dormiam até a morte.
Outro estudioso da doença foi o patologista francês Jean René-Cruchet que estudou a condição e escreveu um importante tratado a respeito dela.
Ele descreveu a doença nos seguintes termos: "As vítimas podem ser consideradas conscientes e despertas - ainda que não estejam inteiramente acordadas; elas podem sentar em cadeiras permanecendo imóveis e ficar em silêncio por todo dia. Não possuem ímpeto, energia, iniciativa, motivação, apetite, sede ou desejo; são capazes de registrar o que ocorre ao seu redor mas sem atenção, e com profunda indiferença. Eles não transmitem e não se comportam como pessoas vivas, eles são tão insubstanciais quanto fantasmas, passivos como zumbis".
Pouco depois dos médicos publicarem seus trabalhos, a horrenda epidemia já havia migrado dos campos de batalha para as cidades, fazendo vítimas de casa em casa, consumindo vidas. Ninguém entendia o que estava acontecendo e na ausência de uma cura, tudo o que se podia fazer era preservar o doente deixando-o dormir.
Em Montreal, Canadá, Melvyn Berridge um respeitado empresário também manifestou os efeitos da doença do sono. Em 1921, ele começou a se queixar de dores agudas na cabeça e de falta de concentração, semanas mais tarde ele já não conseguia ficar inteiramente acordado. Berridge morreu em um trágico acidente, atropelado perto de sua casa. Certo dia, ele começou a andar dormindo e foi atingido por uma composição enquanto atravessava a rua.
Em Frankfurt, Alvin Brandt, um veterano das trincheiras em Ypres também passava a maior parte de seu tempo, desde que havia retornado da guerra, dormindo. Ele acordava apenas ocasionalmente, e sempre se impressionava ao descobrir que voltara para a casa de seus pais. Em seu devaneio ele acreditava ainda estar no fronte da guerra, apesar desta já ter terminado há anos. Em um instante de lucidez, Brandt se enforcou colocando um fim a sua triste existência.
Muitos outros casos aconteciam ao redor do mundo.
A Encefalite Letárgica se manifesta como uma "inflamação no cérebro, ocasionando um profundo estupor". Ela não possui tratamento ou cura. Segundo avaliações, apenas aproximadamente 20% das pessoas afligidas pela doença sobreviviam por um período superior a 5 anos, dependendo da supervisão e ajuda profissional. Aqueles que passavam desse estágio e contavam com cuidados podiam viver indefinidamente, por muitas décadas.
A doença afetava todas as faixas etárias, mas era mais ativa em pessoas jovens entre 15 e 35 anos. Pelas descrições da época, a doença se iniciava como uma infecção normal: febre, enxaqueca, dores de cabeça e nariz escorrendo. As pessoas contaminadas não tinham como saber que seus corpos estavam travando uma luta desesperada com uma doença fatal, um mal invisível que ameaçava deteriorar seus cérebros. Autópsias realizadas por pesquisadores como o próprio von Economo determinaram que uma das causas da letargia era um inchaço desproporcional no hipotálamo. O hipotálamo é uma pequena mas importante porção do cérebro responsável por controlar diversas funções, entre as quais o sono. Essa infecção levava a um dano maciço do qual não havia recuperação e que condenava o indivíduo ao estupor.
Cerca de 10 anos depois que von Economo publicou sua descrição da doença, a epidemia de Encefalite Letárgica começou a perder força, desaparecendo tão repentinamente quanto havia surgido. Foi sem dúvida um alívio, mas àquela altura a "Doença do Sono" já havia feito muitas vítimas.
Cientistas estão convencidos de que a doença tenha sido ocasionada por uma mutação viral e bacteriológica extremamente rara, possivelmente relacionada com o Vírus da Influenza que causava a Gripe Espanhola. Na ausência de uma nova epidemia em larga escala, dificilmente ela poderia ressurgir, entretanto, alguns pesquisadores sugerem que ela não está confinada aos livros de história e temem que ela possa um dia reaparecer. O renomado virologista John Oxford acredita que o mundo não está livre da ameaça da Encefalite Letárgica:
"Eu certamente penso que, seja lá o que tenha causado o surgimento dessa doença, as condições podem um dia vir a se repetir. Até que saibamos o que ocasionou o seu surgimento, não seremos capazes de prevenir uma reaparição, o que seria desastroso", ele preveniu.
Em 1993, uma menina de 11 anos chamada Becky Howells se tornou a primeira pessoa desde a década de 30 a manifestar sintomas da doença misteriosa e quase desconhecida. Felizmente uma mistura de antibióticos ministrados às pressas conseguiu debelar o quadro e ela se recuperou depois de quase três meses em estado de coma vegetativo. Desde então, Agências de Saúde Internacionais e Epidemiologistas rastreiam qualquer caso suspeito, tentando determinar a tempo o ressurgimento da "doença do sono". Em 2002, seis casos foram descobertos em Moçambique e colocaram agências de monitoramento em estado de alerta, mas a doença não se desenvolveu além desse ponto. Em 2007 um caso foi detectado na Bolívia, mas novamente o tratamento se mostrou eficaz e a vítima foi salva.
O que provocou a doença? Em que circunstâncias ela surgiu? E como ela pode ser combatida se por acaso ocorrer uma pandemia novamente? Talvez seja melhor torcermos para que essas perguntas jamais precisem ser respondidas.
O médico girou com força no acelerador de sua motocicleta enquanto corria para o local da emergência médica: a infame prisão de Dartmoor, escondida nas charnecas enevoadas do condado de Devon, na Inglaterra. Ele se inclinou o melhor que pôde, pois sua moto tinha um sidecar ocupado pela sua assistente. As charnecas pantanosas representavam um desafio até para um piloto experiente como ele. Embora o médico estivesse no auge de suas habilidades, de repente ele encontrou um desafio ainda maior: ele não era o único no controle da motocicleta!
Era algo impossível! Havia a pressão de um par de mãos invisíveis apertando as suas e forçando ativamente o guidão, obrigando-o a lutar para manter a motocicleta na pista. "Algo está errado", ele gritou para sua assistente e a seguir ordenou, "Pule!" e ela saltou, aterrissando no trevo macio ao lado da estrada. Mas o médico, lutando contra a força malévola, não teve tanta sorte. Ele gritou quando sua moto saiu da estrada, chocando-se violentamente contra as rochas. O pobre homem morreu na hora – e as Mãos Invisíveis de Dartmoor haviam reivindicado sua primeira vítima.
A primeira, mas outras a seguiriam.
Essa é uma história um tanto assustadora. Mas somos tentados a pensar: já que o médico foi morto e não pôde contar essa história macabra a ninguém, como sabemos o detalhe das mãos invisíveis tentando tomar o controle da moto que ele conduzia? Não está sequer registrado que ele tenha gritado algo sobre a força fantasmagórica para sua assistente. A razão para assumir que as coisas aconteceram dessa maneira permanecem vagas, mas sabemos como esse elemento se tornou parte da história.
O caso foi relatado pela primeira vez na edição de 14 de outubro de 1921 do jornal Daily Mail. Mesmo então, há um século, o Daily Mail tinha uma reputação de jornalismo de tablóide – sensacionalista e dramatizado demais – tanto quanto hoje. O artigo, intitulado "As Mãos Invisíveis da Morte", descreveu o acidente com a motocicleta e, em seguida, um segundo incidente que ocorreu no mesmo local da estrada:
"Algumas semanas se passaram, até que um dia um ônibus subia a encosta quando, de repente e sem razão aparente, desviou, adentrou a encosta gramada à direita da estrada e, embora não tenha virado, caiu em tal ângulo que vários passageiros foram jogados para fora. Um deles, uma mulher, ficou gravemente ferida."
Como o primeiro incidente, este relatório não fez menção a nenhuma monstruosa mão invisível, exceto, é claro, pela manchete. Mas também incluiu um terceiro conto, no qual um capitão Marlowe apareceu na casa de um amigo ensanguentado, tendo acabado de sofrer um acidente de moto – mais uma vez, exatamente no mesmo ponto da estrada que os outros dois ocorreram. Ele contou a seguinte história:
"Não foi minha culpa", disse esbaforido. "Acredite ou não, algo me tirou da estrada. Um par de mãos cobriu as minhas e puxou violentamente a guidão da moto. Eu as senti tão claramente quanto já senti qualquer coisa na minha vida - mãos grandes, musculosas e peludas. Eu lutei contra elas com toda minha força, mas elas eram fortes demais para mim. Eles forçaram a máquina na grama na beira da estrada e eu não consegui controlar. Acordei minutos depois, deitado a uns três metros de distância com a moto acidentada adiante."
Em 17 de outubro, três dias depois, o Daily Mail publicou um artigo de acompanhamento dando alguns detalhes extras sobre o primeiro acidente, incluindo o nome do médico que morreu no acidente com a motocicleta. Era ele, o Dr. E. H. Helby e de acordo com seu obituário publicado no The Scotsman, era de fato o oficial médico da prisão. Sua morte foi causada por um traumatismo craniano, provocado pelo choque contra uma rocha.
O jornal relatava:
"O Dr. Ernest Hasler Helby, Oficial Médico da Prisão de Dartmoor, de 51 anos, sofreu uma fratura extensa do crânio devido à quebra de uma parte de uma motocicleta enquanto dirigia de Princetown a Tavistock."
Um outro artigo, na edição de agosto de 1921 do Western Morning News, mencionava o segundo acidente – aquele envolvendo o ônibus. Era um veículo de grande porte, com capota aberta, chamado charabanc, com seis fileiras de assentos e nenhum cinto de segurança. Neste caso, o artigo dá como causa do acidente uma mola quebrada, o que tornou a direção incontrolável.
O terceiro incidente é o único em que um motorista culpou mãos invisíveis pelo ocorrido. O Capitão Marlowe aparece apenas nesse artigo original de 14 de outubro. No entanto, a manchete foi suficiente para criar uma Lenda Urbana que se mantém até os dias de hoje, a de que Mãos Invisíveis agem e provocam acidentes fatais nessa estrada. A menção a esse estranho incidente pode ser encontrada em vários livros de histórias de fantasmas e contos da região de Dartmoor e Devon County. De fato, essa região é conhecida como uma das mais fantasmagóricas da Inglaterra, um lugar tratado como fonte de inúmeras histórias de assombração.
O tal Capitão Marlowe seria Richard Franklin Marlowe, um ex-oficial britânico que serviu com distinção na Grande Guerra e que vivia nos arredores do condado de Devon. Supostamente ele jamais quis falar à respeito do incidente, mas teria dito que não passaria mais por aquela estrada se assim pudesse evitar - e "desencorajava qualquer um a fazê-lo".
O incidente das mãos fantasmagóricas que forçavam veículos para fora da estrada que cortava as Charnecas de Dartmoor recebeu grande destaque da imprensa na época. O Daily Mail enviou um de seus repórteres mais conhecidos, T. Gillford para cobrir a história e ele conversou com testemunhas que viviam na região. Segundo informações de moradores locais, a área sofria a interferência de um espírito vingativo pertencente a um homem que supostamente teria morrido naquela mesma estrada isolada. A pessoa em questão atendia pelo nome de Jim Ranson, e era uma espécie de vagabundo que fazia trabalhos nas fazendas que pontilhavam a área.
Ninguém via Jim Ranson fazia algum tempo, o homem simplesmente desapareceu sem deixar vestígios. Muitos supunham que Ranson havia morrido, vítima de um criminoso ou mais possivelmente atropelado por um veículo (motocicleta ou automóvel que cruzava a estrada). Alguns se recordaram de ter ouvido Jim Ranson reclamar repetidas vezes da maneira como as pessoas dirigiam por aquela estrada enlameada e que em pelo menos duas ocasiões ele quase fora atropelado por um veículo descendo em grande velocidade pela via. A teoria era de que o vagabundo teria sido atropelado e morto. Seu assassino teria então removido seu corpo e enterrado em lugar desconhecido. Isso teria feito com que o fantasma sem descanso de Ranson se erguesse em busca de vingança contra aqueles que trafegavam pela estrada.
O jornal chegou a enviar um famoso médium londrino chamado Noah Pembrick, para o local onde os acidentes haviam acontecido e segundo a edição de 27 de outubro, o sensitivo examinou o trecho captando uma concentração de energias negativas permeando a área. O jornalista descreveu nos seguintes termos:
"O Sr. Pembrick afirmou que o trecho da estrada que segue para Dartmoor, aproximadamente a sete quilômetros da Ponte Meadow, possui uma forte carga negativa, como se ele estivesse tomado por uma presença ruim que ele podia sentir fisicamente."
O repórter conta mais adiante que Pembrick disse ter sentido uma presença nefasta enquanto vagava pelo local em busca de emanações psíquicas. De repente, em determinado momento, o médium foi assaltado por essa presença invisível e acossado por uma força assassina. Ele sentiu mãos invisíveis se fechando em torno de seu pescoço e estas apertaram até quase ele perder os sentidos. Não fosse a intromissão do repórter ele teria perdido os sentidos.
O incidente ganhou as manchetes do Daily Mail e serviu para consolidar as "Mãos Fantasmagóricas" de Dartmoor no centro de um acalorado debate sobre assombrações. É preciso lembrar do contexto histórico dessa época em especial. O espiritismo estava muito em voga no período. Quando a Primeira Guerra Mundial chegou ao fim, o apelo de se comunicar com os mortos – sem incluir muitos que morreram durante a guerra – se espalhou por todo o mundo ocidental.
Um artigo de 1919 no The Globe descreveu assim o espiritismo:
"A credibilidade nos fenômenos do Espiritismo é muito grande e atestada por especialistas. Na verdade, se faz tão popular pelo fato de ser perceptível para muitos que possuem o dom. A crença é comum, sendo algo generalizado. Existe entre todos os tipos de pessoas, da classe mais alta à mais baixa. Você o encontra em Mayfair e nas aldeias mais remotas da Inglaterra."
Quando Gifford escreveu seu artigo para o Daily Mail, a Inglaterra ficou extasiada com o que mais tarde ficou conhecido como o período do Reavivamento do Espiritismo. Seu artigo impactante caiu em ouvidos acolhedores. Em poucos dias, um jornal espiritualista chamado Truth publicou um artigo concordando com a identificação de Gifford de um "espírito" como a causa provável desses acidentes rodoviários.
Outro elemento interessante dizia respeito a atitude do público em relação aos veículos motorizados na Inglaterra em 1921. A maioria da população não via com bons olhos o uso cada vez maior de automóveis e motocicletas no país, apontado como algo extremamente perigoso. Aquela era uma época em que as inovações surgiam à todo momento na Inglaterra. No verão de 1921, houve uma onda de acidentes automobilísticos que levaram a uma grande cobertura jornalística e algo semelhante a um pânico em torno dos perigos de dirigir. Inovações como cintos de segurança e freios hidráulicos de 4 rodas acabariam por chegar, mas alguns veículos bastante perigosos em estradas menos que perfeitas tiveram consequências letais.
O sentimento anti-automóveis fez com que dezenas de leitores condenassem através de cartas os automóveis e os culpassem como os causadores daquelas tragédias. Alguns chegavam até a suspeitar que o fantasma estava se manifestando para denunciar o uso de tais veículos. O movimento contra os veículos chegou ao ponto de que uma comissão de moradores locais determinou que nenhum veículopassasse pela estrada, mas a regra não foi aceita pelas autoridades.
Em fevereiro de 1923, um novo acidente ocorreu na estrada, dessa vez a cerca de 3 quilômetros do fatídico trecho. Embora o motorista não tenha feito qualquer menção a mãos fanatsmagóricas tomando sua direção, muitos acreditavam que essa era a causa do acidente que vitimou uma moça de 17 anos que faleceu no local.
Em março daquele mesmo ano, um grupo de moradores decidiu vasculhar a beira das estradas em busca de alguma pista que pudesse elucidar o caso. Extra-oficialmente o que o grupo buscava, era o cadáver de Jim Ranson que teria sido enterrado em algum trecho da estrada. Segundo alguns acreditavam, se o corpo fosse encontrado e sepultado em um lugar adequado aqueles acidentes cessariam. Para desânimo de todos, principalmente do repórter do Daily Mail, o grupo não encontrou nada.
Isso não impediu em absoluto que o trecho da Estrada de Dartmoor se tornasse famoso e fosse considerado como um lugar assombrado pelo fantasma do vagabundo que tentava estrangular aqueles que cruzavam a estrada.
As lendas urbanas muitas vezes refletem as tendências culturais da época em que foram concebidas. É possível que as histórias nada mais fossem do que uma mera especulação ou então a tentativa de um jornalista de inventar uma história suculenta para vender jornais. Seja como for, os rumores sobre a estrada que cruzava o pântano continuaram por anos, mesmo depois da estrada receber melhorias com o acréscimo de asfalto e iluminação, além da eliminação de uma curva especialmente perigosa. As mãos fantasmagóricas da estrada de Dartmoor ganharam fama e foram mencionadas por muitos estudiosos de parapsicologia.
Finalmente, em 1988 as autoridades locais anunciaram a descoberta de antigos ossos humanos encontrados repousando numa cova rasa a cerca de um quilômetro e meio de onde ocorreram os acidentes. Não foi possível determinar a quem pertenciam os ossos em questão, mas muitos acreditam que ele seriam os restos de Jim Ranson e provariam que ele havia morrido na estrada. Para os crentes, estava claro que, o fantasma dele havia amaldiçoado o local, causando acidentes ao longo das décadas.
Verdade ou mentira, muitos apontam para o fato de que depois dos ossos terem sido transportados para um cemitério, o número de acidentes na estrada diminuiu consideravelmente.
por Jeff Belanger traduzido e comentado por L.P. Giehl
"Avez-vous vu un fantôme?" eu perguntei ao homem na entrada no meu melhor francês, se ele já havia visto um fantasma. "Je ne sais pas," ele respondeu. O sujeito sorriu e deu de ombros. Na semana passada, passei três dias em Paris, e tive a chance de visitar as singulares Catacumbas de Paris. Eu sabia que existiam ossos guardados em túneis abaixo da cidade, esse é um fato famoso, mas eu não estava preparado para descobrir a quantidade. Eu estava pronto para ouvir relatos a respeito de sombras se movendo e vozes fantasmagóricas se erguendo das entranhas de Paris, mas eu não estava preparado para a forma como a experiência fez com que eu me sentisse.
As Catacumbas de Paris são uma rede de túneis e cavernas que se estendem por mais de 300 quilômetros bem abaixo da cidade. Para construir uma cidade, você precisa de material. Os romanos foram os primeiros a retirar pedras do subsolo em meados de 60 a.C. A medida que a cidade crescia e cobria a paisagem de casas e ruas, mais e mais matéria prima se fazia necessária. As pedras eram levadas para a superfície e um subterrâneo sombrio se formava, conectado por infindáveis túneis e inúmeras vias. Em 1180, Philippe-Auguste se tornou o Rei de França. Ele foi um dos maiores defensores da exploração de pedreiras na área subterrânea de Paris. Foi em seu reinado que o complexo realmente despontou.
Nota 1 - O Monarca desejava construir muros cercando a cidade para protegê-la de invasores. Esses muros construídos com o material retirado dos subterrâneos ainda existe no entorno da parte histórica de Paris e praticamente todo o material foi retirado do subsolo.
As pedreiras subterrâneas cresceram em tamanho e complexidade fornecendo material usado nas construções ao longo dos séculos vindouros. A retirada de material, um trabalho perigoso e que não raramente resultava em tragédias, prosseguiu sem maiores cuidados até que os primeiros problemas começaram a surgir. No século XVIII, Paris continuava crescendo e o peso das construções passou a constituir um grave perigo uma vez que elas estavam edificadas sobre cavernas ocas.
Alguns prédios começaram a ruir e desabar nas cavernas que existiam abaixo deles. Em 4 de Abril de 1777, a Inspection Générale des Carrières foi formada para lidar com o problema, preencher ou lacrar os trechos onde havia maior risco de desabamento. Temia-se que Paris pudesse desabar por inteiro.
Foi mais ou menos nessa época que um segundo problema começou a atormentar os parisienses - os cemitérios da cidade estavam super lotados. O Cimetière des Innocents (Cemitérios dos Inocentes) sozinho comportava trinta gerações de restos humanos. Taara, é a responsável pelo Web Site a respeito das Catacumbas. Ela contou que, "Familias costumavam pagar aos párocos para enterrar seus mortos no terreno das igrejas. Os padres aceitavam o dinheiro, mas logo não havia mais espaço para colocar os corpos. Então os religiosos decidiram criar um a espécie de depósito para os mortos que ficaram conhecidos como "charnier". Os cadáveres eram ali colocados, todos juntos num único e grande buraco cavado.
"Uma cova comum que não excluía ninguém", ou assim se dizia na época.
Nota 2 - Poucos corpos eram depositados em caixões, pois poucos podiam arcar com esse luxo. A maioria dos cadáveres eram envolvidos em um saco de tecido cru que era então costurado. Sob os corpos era aplicada uma camada de cal virgem para ajudar na desintegração da carne fazendo com que restassem apenas os ossos. No geral, três semanas depois do enterro os corpos já se encontravam, suficientemente decompostos.
"A medida que a cidade emergente cercava os cemitérios, não havia mais lugar para enterrar os mortos senão uns por cima dos outros. Em Cemitérios como o dos Inocentes, que continuavam recebendo cadáveres, o chão se elevava a até três metros de altura com a quantidade absurda de corpos ali depositados. O fedor era um tormento para aqueles que viviam nas proximidades. Em tempos de chuvas, as coisas eram ainda piores: as enchentes arrastavam corpos apodrecidos para as ruas. Doença e pestilência proliferavam entre os residentes dessas regiões".
Nota 3 - Paris é abastecida por rios subterrâneos e fontes de água naturais. O material depositado nos cemitérios contaminava o suprimento de água e era responsável por inúmeras doenças além da proliferação de ratos. No século XVIII Paris não era chamada de Cidade Luz, mas de "Cidade dos Ratos" pois havia segundo estimativas, vinte roedores para cada habitante.
A decisão de esvaziar os cemitérios não foi muito popular, mas foi a medida necessária para salvar Paris de seus mortos. O local escolhido para depositar os restos foi o sistema de túneis que também constituía uma ameaça para a cidade. Acreditava-se que a medida resolveria ambos os problemas. Em 1785, os ossos começaram a ser movidos para os subterrâneos em massa, as velhas pedreiras se tornariam seu local de descanso.
Nota 4 - Encontrei uma descrição bastante mórbida sobre como os ossos eram transportados do cemitério para as catacumbas. Eles eram levados em grandes carroças cobertas com uma lona preta, sempre à noite, pois ninguém queria topar com essas carroças e seu conteúdo assustador. Os Parisienses acreditavam que se uma dessas carroças parasse ou quebrasse em frente a uma casa, era sinal de que alguém ali morreria em breve. Ninguém queria fazer esse trabalho, então soldados foram enviados para o serviço, muitos deles reticentes em cumprir tais ordens.
A primeira pedreira que recebeu os ossos ganhou o nome de "Carrière de la Tombe Issoire" e os ossos foram lá depositados com enorme cuidado. Perturbar os mortos é um tabu universal, muitas culturas acreditam que os mortos devem ser deixados em paz, e muitas religiões prestam rituais e cerimônias visando garantir um lugar de descanso para seus entes queridos. Isso explica a forma como os ossos foram colocados, quase com reverência pelos operários, contudo uma vez que havia pressa essas medidas foram se tornando cada vez mais simples. Logo os ossos eram simplesmente lançados nas catacumbas que eram lacradas e esquecidas.
Nota 5 - Antes dos restos começarem a ser transportados, seis padres responsáveis por paróquias próximas foram convocados para rezar uma missa coletiva no local onde os ossos seriam depositados. As passagens das cavernas foram abençoadas e até mesmo uma carta do Bispo de Paris foi escrita para tranquilizar as pessoas de que o trânsito dos ossos não importava em heresia. Os mais supersticiosos temiam que o Paris fosse amaldiçoada pelos mortos e muitos habitantes se mudaram da cidade.
Realmente haviam muitos relatos de que os mortos não estavam satisfeitos com aquilo. tetsemunhas falavam de fantasmas acompanhando as carroças abarrotadas de ossos e de almas penadas chorando diante da dessacralização de seus restos. Histórias sobre Ghoules se tornaram populares nas tavernas de Paris, os devoradores de mortos se fartavam roendo os ossos amarelados até o tutano.
Em um ensolarado dia de outono, eu visitei o museu da Catacumba localizado em Denfert-Rochereau na seção Montparnasse de Paris. Por cinco Euros, pude descer e explorar as catacumbas. Desci os 130 degraus e uma rampa em espiral que me conduziu à 20 metros abaixo da superfície. Primeiro encontrei duas salas cheias de fotografias com imagens de antigos rabiscos deixados nas paredes desde a criação dos túneis.
Nota 6 - Esses rabiscos e pichações são bastante curiosas e algumas fazem parte da exposição do museu. Ao longo de sua existência esses túneis foram usados como esconderijo de bandidos e como morada de vagabundos. No romance de Victor Hugo, "Les Misérables" o complexo é citado, o escritor teria visitado os túneis várias vezes.
Após passar pelas duas pequenas salas, eu realmente adentrei as Catacumbas. O teto nos túneis é rebaixado variando entre 1,80 e 3,20 de altura. A iluminação é bem tênue, mas meus olhos se ajustaram rapidamente. Poucas pessoas visitavam o lugar na ocasião. Eu passei por um jovem casal que carregava uma lanterna elétrica e lançava a luz para apreciar os cantos. Observei a textura e contornos das paredes e ouvi o som do cascalho sob a sola de meus sapatos. O único som ocasional era o pingar vindo de algum lugar ao meu redor - parte do teto coleta água, e quando o acúmulo se torna pesado acaba pingando no chão.
Vi alguns entalhes e graffiti cobrindo as paredes mas não consegui ler, mesmo assim segui em frente. O túnel faz uma curva de 90-graus para a direita, e resolvi andar mais rápido. Parecia que eu estava em um túnel normal, nada mais. Comecei a imaginar se estava no lugar certo. Depois de mais alguns túneis, para a direita e esquerda, eu me aproximei de um pilar pintado emoldurando uma estreita abertura. Ali havia uma placa onde se lia:
"Arrete! C'est ici L'Empire de la Mort"
"Pare! Este é o Império dos Mortos."
Nota 7 - Essa placa foi colocada pelas autoridades de Paris para afastar os curiosos antes do complexo ser aberto para a visitação pública. O local se tornou uma "atração turística" a partir de 1867, mas mesmo antes disso ele era procurado por curiosos. A morte e as vicissitudes da condição humana sempre atraíram público. Tamanha era a devoção à atração que no século XIX, as Catacumbas de Paris eram uma das principais atrações da cidade. A popularidade era tamanha que os visitantes queriam levar consigo um pedaço do lugar e guardas tinham de advertir turistas de que os ossos não podiam ser removidos de seu lugar. Mesmo assim, ossos sumiam e continuam sumindo de tempos em tempos. A morbidez do ser humano não tem limite!
O complexo fechou temporariamente em 2009, após um incidente de vandalismo, mas foi reaberto no mesmo ano por clamor da população.
Em virtude da diferença entre a luminosidade do túnel onde eu estava e da câmara adiante eu não conseguia enxergar direito o lugar. Fiz uma pausa e lentamente entrei no Ossuary of Denfert-Rochereaux, uma das câmaras principais do complexo.
Nota 8 - O nome original da entrada para as Catacumbas era "Porte d'Enfer" (Ou Portão do Inferno), ele foi mudado no século XVIII. O nome é curiosamente anterior a utilização dos túneis como ossuário. O Portão do Inferno tinha esse nome pois muitos parisienses na idade média acreditavam que as escavações supostamente haviam aberto túneis que conduziam até o mítico Hades.
Uma lenda atesta que em 1737 habitantes de Paris pediram providências oficiais para que essas portas fossem lacradas já que alegadamente ouvia-se o som do suplício das almas nas profundezas, torturadas pelos demônios. Quando um boato de que se sentia o cheiro de enxofre chegou à população houve o princípio de uma revolta que só foi contornada pela intervenção da guarda real.
A passagem do corredor tem algo entre 1,80m e 2,30m de largura e as paredes possuem pilhas e mais pilhas de ossos e crânios cuidadosamente edificados. Na entrada esses montes de ossos chegam a 1,20 de altura. As órbitas vazias dos crânios saúdam quem entra e seus dentes parecem sorrir com desdém. Já dentro da sala eu parei para olhar ao meu redor. Ossos recobriam toda a superfície da câmara, nada a não ser ossos e crânios até onde a escuridão do túnel, permitia a vista alcançar. Dentro da Catacumba inteira, estima-se existir mais de seis milhões de cadáveres - apenas os ossos. Não sei dizer ao certo quantas milhares de pessoas estão depositadas no trecho de 1,7 quilômetros abertos a visitação pública. Em diferentes seções, o ossuário forma padrões de cruzes feitas de crânios, corações, arcadas, e outras formas geométricas.
Nota 9 - Além dos restos mortais, os primeiros arquitetos da cripta usaram as lápides dos cemitérios para guarnecer as paredes e o piso, mas estas foram retiradas na época da Revolução Francesa (1789) para serem reutilizadas. Os ossos também eram surrupiados por estudantes de medicina e dizem, por seitas de satanistas que os usavam em seus rituais de magia negra.
As pilhas de ossos são intrincadas, simétricas e extremamente macabras. Eu tentei imaginar como as pessoas que empilharam aqueles ossos devem ter se sentido. Despejar milhões de restos humanos em um túnel 20 metros abaixo do chão não me parece algo muito respeitoso. Talvez o trabalho meticuloso em arranjar os restos em um padrão quase artístico tenha sido a maneira com a qual os operários concederam alguma dignidade e beleza aos mortos.
Nota 10 - Muitos dos operários que trabalharam nas Catacumbas, tiveram garantido o direito de serem enterrados em cemitérios normais. Alguns poucos, no entanto, pediram que seus restos fossem colocados nas catacumbas. Os últimos cadáveres transferidos para o subterrâneo de Paris foram os indivíduos mortos nos distúrbios da Place de Grève em 1788.
O lugar que eu visitei em seguida é o Museu Oficial da Catacumba - os túneis mais adiante estão fora da rota de visitas, pois os turistas podem se perder ali dentro. Os 1.7 quilômetros que se estendem a partir do museu oferecem uma visão de apenas uma ínfima fração do que é o sistema de túneis. Há ossos depositados em outras seções também.
Segundo os historiadores nas catacumbas fechadas, os ossos não se encontram depositados como nos túneis abertos à visitação. Eles não são tão organizados. Os ossos são simplesmente acumulados ao longo das galerias. Então você tem que rastejar e andar sobre eles. É uma sensação muito estranha, mas depois que você se acostuma, não é muito diferente de andar sobre pedras." disse Taara. Quando era mais jovem ela explorou esses túneis várias vezes. Mesmo com seu trabalho e família, ela ainda visita as catacumbas pelo menos uma vez por mês.
Nota 11 - Os túneis fora do circuito do tour são proibidos para o público, contudo isso não impede que curiosos desçam com o objetivo de explorar o lugar. A polícia parisiense prende e multa em média 100 pessoas anualmente invadindo esses corredores.
Em diferentes trechos dos túneis, existem placas que sinalizam de qual cemitério vieram aqueles restos, junto com a data em que eles ali foram colocados. O processo teve início em 1785, e a seção mais recente que encontrei é de 1859. O processo de transporte dos corpos para as catacumbas foi incessante, e durou pelo menos 70 anos para ser concluído.
Nota 12 - Um dos planos era usar os túneis para receber um fluxo constante de restos mortais, mas a expansão acelerada da cidade permitiu a criação de novos Cemitérios mais afastados do centro que sanaram o problema.
Taara comentou: "Você pode encontrar ossos em praticamente todo o complexo de túneis. A coisa mais interessante a respeito das pedreiras é que elas são testemunhas de grande parte da história de Paris. Por exemplo, você ainda pode ver vestígios da Revolução ou de períodos importantes como a Segunda Guerra Mundial. Você pode encontrar vários lugares com arquitetura fabulosa, o tipo de coisa que marcou cada época e que não se encontra mais. Portanto é realmente um lugar especial, e ficamos orgulhosos de saber que ele está logo abaixo de nossos pés. Muitas pessoas, franceses inclusive, não desconfiam que existe outra Paris sob Paris".
Nota 13 - Durante a Revolução o complexo subterrâneo serviu de esconderijo e rota de fuga para nobres que tentavam escapar da perseguição. Mendigos que viviam no local ficaram ricos escoltando nobres através dos túneis e para longe da plebe sanguinária. Na Segunda Guerra, membros da Resistência que enfrentava a ocupação nazista também usavam os túneis como ponto de encontro. Os alemães por sua vez construíram um bunker subterrâneo abaixo do Lycee Montaigne que era usado como depósito de armas e munições.
Eu encontrei outros americanos visitando o museu e perguntei a eles o que acharam: "É impressionante, todos esses ossos nas paredes" disse Julie Hardman de Tempe, Arizona. Hardman estava lá com sua filha, Megan. Um guarda de segurança que pediu para não ser identificado comentou, "Algumas pessoas vem aqui em baixo e ficam muito assustadas depois de ver os ossos. Alguns dizem que ouvem coisas. Vozes".
Nota 14 - Até a década de 70, a visita das Catacumbas era vedada a menores de 14 anos pois considerava-se que o conteúdo poderia ser chocante para crianças. A visitação hoje é aberta, desde que menores estejam acompanhados ou sob a supervisão de um adulto.
Próximo do fim da visita, parei novamente para lembrar a mim mesmo que todas aquelas pessoas um dia tiveram nome. Cada um deles era uma pessoa, um indivíduo. Eu não conseguia pensar em nada que pudesse fazer para reconhecê-los dessa forma. Não havia nada que eu pudesse dar em sinal de respeito. Eu rezei em silêncio e retornei para a rampa em espiral em direção à saída. Enquanto examinava minhas anotações, gravações e fotografias, percebi que tudo o que eu podia fazer era contar essa história.
Aqueles seis milhões de indivíduos sacrificaram seu descanso eterno para que Paris pudesse prosperar. Os ossos de nobres estão misturados aos de camponeses, famílias inteiras se reencontraram com os ossos de seus ancestrais, e eu andei em meio a eles. Trinta gerações falando para cada visitantes em uma única e coletiva voz.
O Império dos Mortos se despediu e eu parti, em silêncio reverente.