sexta-feira, 16 de setembro de 2022

A Cabana Negra - O Horror da mais sangrenta das casas continua


Após os trágicos acontecimentos ocorridos na Cabana Negra, não é de se estranhar que o lugar tenha ficado deserto por algum tempo.

O fato de ser isolado e afastado de qualquer rota também fez com que ele caísse rapidamente em um estado de progressivo abandono. Havia rumores de que nativos americanos usavam o local, mas junto com esses rumores circulavam histórias de que as tribos locais consideravam as terras onde a cabana foi construída como amaldiçoadas. Mencionava-se que ali era um "território de caça" de espíritos, os Manitu, entidades que segundo os mitos nativos se apossavam de pessoas e as obrigavam a atos de violência para saciar seus desejos. Para alguns, isso explicava, ao menos em parte o que poderia ter motivado o massacre ocorrido na Cabana Negra.

Após a morte de Brunckow, a cabana seria adquirida por um homem chamado Milton B. Duffield. Este entraria para a história do Arizona por ser o primeiro Delegado nomeado para aquele território. Reformado da carreira militar, Duffield  arrendou a região em 1873 tencionando montar ali sua própria operação de mineração de prata. 

Havia a crença de que as montanhas próximas eram ricas em metais preciosos e que seria questão de tempo até alguém encontrar um veio que justificasse o investimento. Milton Duffield tinha esperança de ser esse alguém e tratou de negociar concessões para explorar a área em larga escala. Seu plano era usar o Assentamento Brunckow como sede para estabelecer sua operação, pois ali estaria próximo das montanhas e a meio caminho dos povoados. 

Mas as coisas não saíram como esperado. Infelizmente para Duffield, outro homem chamado James T. Holmes também afirmava ter comprado aquela propriedade e alegava ser dono do Assentamento Brunckow. Em ao menos três ocasiões, os ânimos tiveram de ser acalmados já que os dois lados diziam ser os legítimos donos daquelas terras e estava claro que nenhum deles cederia um centímetro daquilo que afirmavam ser seu por direito. 

Em 5 de junho de 1874, Duffield obteve documentos oficiais que apontavam seu direito sobre o Assentamento, embora Holmes tivesse se estabelecido lá algumas semanas antes. Acompanhado de alguns empregados e amigos, o delegado foi até lá reivindicar as terras. Todos sabiam que isso era uma temeridade já que Holmes tinha fama de ser briguento e de andar armado até os dentes. Chegando na cabana, o grupo foi avisado por um empregado que Holmes não estava na casa. Na verdade, ele estava escondido dentro da cabana ouvindo tudo o que era dito.

Depois de avisar que Holmes deveria sair, o grupo se preparava para retornar quando o homem saiu pelos fundos, contornou a cabana e os pegou de surpresa. Armado com uma espingarda 12 Holmes os emboscou disparando repetidas vezes enquanto gritava como um louco. Duffield foi o primeiro a cair morto alvejado na garganta, mais três pessoas de seu grupo foram feridas. Os demais montaram nos cavalos e fugiram às pressas. Uma vez tendo derrubado quatro homens, Holmes apanhou uma faca e degolou um por um em novo banho de sangue. Quando as autoridades chegaram, Holmes se entregou sem reagir e foi levado para a cadeia.

Mais tarde, em testemunho oficial ele disse não se recordar do que havia acontecido. Contou que não se recordava da visita de Duffield e do que havia acontecido. Disse no entanto que havia sido dominado por uma fúria que o cegou por completo. Tomado por esse ódio, ele investiu contra o desafeto e assassinou com frieza aqueles que estavam feridos. Na época circularam vários boatos, sendo que o mais fantástico mencionava que Holmes havia sido possuído por um espírito sanguinário que o compeliu a matar os invasores. O fato dele afirmar não se recordar do ocorrido e de dizer ter sido tomado por "um ódio incontrolável" parecem ter convencido muitas pessoas de que o crime foi incentivado de alguma forma por entidades sobrenaturais.

Holmes chegou a ser julgado e condenado por assassinato, mas nunca foi preso. Ele conseguiu escapar e se perdeu no mundo, supostamente migrando para o leste onde se estabeleceu sob nome falso.  Duffield foi enterrado diante da cabana e dizem que seu fantasma podia ser visto de tempos em tempos no mesmo lugar onde caiu alvejado por Holmes. Também se falava que sangue brotava do solo onde seus restos mortais foram sepultados.  

Mas a história da Cabana Negra não terminaria nessa tragédia.

Pelos idos de 1875, um tal Sidney DeLong reivindicou a propriedade na companhia de seus parceiros comerciais Tom Jeffords e Nick Rogers. O objetivo deles novamente era estabelecer uma operação de mineração no local. É claro, eles sabiam do passado da Cabana, mas não se importaram muito com os rumores sobre coisas horríveis acontecendo ali. O grupo não ficou muito tempo na propriedade, poucos meses depois de se estabelecer eles se viram cercados por guerreiros Apaches. Os nativos exigiam que eles deixassem a região que era nas palavras deles "um lugar maldito".

DeLong foi o único a deixar a cabana com vida. Seus dois colegas morreram no cerco indígena que durou quatro dias. Jeffords recebeu uma flechada que infeccionou e Rogers foi capturado pelos apache quando estes investiram contra a cabana na calada da noite. DeLong fugiu quase por milagre escapando dos apaches que o perseguiram pelo deserto. Dias depois, ele retornou à cabana na companhia de soldados, encontrando o lugar incendiado e os escalpos sangrentos de seus dois colegas pendurados numa cerca. Depois disso, DeLong desistiu de exercer a posse sobre a propriedade e migrou para a Califórnia.

Em 1877 foi a vez de Ed Schieffelin, um garimpeiro conhecido como o "Pai de Tombstone" se mudar para a propriedade junto com seu irmão, Al, e um colega garimpeiro chamado Richard Gird. Eles também partiram logo depois que perceberam que os Apache não os queriam lá. O grupo chegou a reconstruir a cabana e receber por algum tempo um Cowboy fora da lei chamado Frank Stillwell que estava em fuga depois de cometer roubos em Montana. Stillwell usou o lugar como esconderijo por algum tempo, mas quando descobriu estar sendo procurado pelo famoso Wyatt Earp fugiu para Tucson, no Colorado. Ele acabou morrendo em um tiroteio numa estação de trens.


Haveria inúmeras outras disputas e massacres nas proximidades da Cabana, incluindo um tiroteio em massa. Isso aconteceu em 1897, quando o local abandonado foi usado como esconderijo por uma quadrilha de ladrões de ouro liderados por um criminoso notório chamado Sam "Flip" Tewford. O  bando usou a cabana abandonada como seu covil por pelo menos meio ano. A quadrilha acabou discutindo entre si quanto a divisão de um roubo e o bate boca descambou para violência. Quando armas foram sacadas e tiros trocados, haviam sete mortos no local. Eles acabaram sendo enterrados nos fundos da Cabana Negra. Anos mais tarde, Tewford, um dos sobreviventes do tiroteio contou uma história assustadora sobre a Cabana. Disse que os homens que lá dormiam sonhavam com massacre, assassinatos e vingança. Em certa ocasião um homem despertou de um pesadelo tão transtornado que esfaqueou outro repetidas vezes.

Na virada do século XX, a Cabana Negra já havia conquistado grande fama como lugar assombrado.

Segundo alguns, dentro dela ou próximo a ela haviam ocorrido pelo menos 22 assassinatos, conforme comprovavam algumas sepulturas espalhadas nos arredores. Até mesmo as lápides de algumas pessoas desconhecidas, que ninguém sabe ao certo quem eram ou como morreram, também jaziam cravadas na terra seca e esquecida. Os garimpeiros e mineradores das redondezas passaram a evitar a cabana maldita, tal qual evitariam a peste, mas muitos afirmavam que vultos ainda podiam ser avistados ali. 

De fato, a Cabana Negra viria a ser conhecida como um lugar intensamente assombrado, cheio de espíritos inquietos. Falava-se de figuras sombrias, aparições e o som de pás e picaretas cavando constantemente. Alguns sentiam uma sensação indescritível de pesar e depressão ao visitar a Cabana, mas outros falavam de uma raiva que era realçada pelo ambiente insalubre. Havia rumores de que a cabana abandonada e cada vez mais deteriorada seria realmente maldita. Em algum momento da década de 1930 a cabana foi incendiada, não se sabe, se por acidente ou de forma proposital. O teto desabou e o celeiro de madeira pegou fogo, as paredes de adobe no entanto, lambidas pelas chamas, aguentaram. 


Ainda hoje ela está lá, desafiadora na paisagem árida do deserto. Resta pouco para se ver, exceto algumas fundações e paredes de pedra em ruínas, mas ela ainda mantém sua reputação assustadora. Há uma sensação inquietante e um desconforto inexplicável no ar, a sensação de estar sendo observado e de ameaça flagrante. Alguns sensitivos que visitaram as ruínas disseram sentir uma aura negativa tão densa que alguns desmaiaram ou tiveram graves reações emocionais. Medo, dor e horror parecem flutuar no ar como uma miasma invisível que sufoca tudo e todos.  

O Assentamento Brunckow atualmente faz parte da área da Reserva de San Pedro e é protegido pelo Gabinete de Proteção Territorial. Ele é certamente um lugar estranho com uma história violenta impregnada de raiva e derramamento de sangue. Por que há tantas mortes associadas a este lugar? Será que os fantasmas vagam à sombra do que restou da Cabana? E finalmente, que forças sobrenaturais seriam essas que incidem sobre os homens e os obrigam a cometer homicídios? 

Seja lá qual for a verdade por traz da Cabana Negra sua lenda está fadada a continuar por um bom tempo antes de desaparecer para sempre.

terça-feira, 13 de setembro de 2022

A Cabana Negra - A estranha história de um lugar marcado por sangue e morte


Perdida em um descampado poeirento no sudoeste do Condado de Cochise, Arizona, encontram-se os restos esquecidos de uma antiga cabana. Resta pouco para se ver, apenas fundações e paredes, mato sufocado por ervas daninhas e lembranças amargas. Essas ruínas decrépitas à primeira vista não parecem nada além de alguns resquícios de um passado esquecido, abandonado no deserto, algo pelo qual se poderia passar direto sem nem mesmo perceber a presença. No entanto, esta cabana tem um lugar na história do Arizona, um passado sombrio e assustador. É um lugar assombrado e maldito, muitas vezes referido como "a cabana mais sangrenta do Oeste", ou ainda "A Cabana Negra".

A história desse lugar começa com o imigrante alemão Frederick Brunckow, que veio para os Estados Unidos em 1850 para se juntar à Sonora Exploring and Mining Company. Ele planejava ir para o oeste e trabalhar em extração de minérios. Eventualmente, em 1858, deu início a uma operação de mineração chamada San Pedro Silver Mine no Arizona. Para auxiliar nos trabalhos, ele coordenou a construção de um pequeno acampamento e assentamento, junto com alguns trabalhadores mexicanos contratados, um químico chamado John Moss, seus primos James e William Davis, além de um cozinheiro alemão chamado David Bontrager. O lugar era rústico, mas servia como abrigo fornecendo proteção contra o clima, animais selvagens e tribos hostis. Fazia parte do assentamento uma modesta cabana de adobe, com um simples telhado de zinco e uma lareira que serviria como depósito de suprimentos. 

A princípio, tudo estava bem para eles, mas logo as coisas dariam uma guinada acentuada na direção do horror e da escuridão. E haveria muito sangue...


Em 23 de julho de 1860, William Davis partiu para a cidade com o objetivo de buscar farinha e outros suprimentos. Era uma viagem de três dias por um terreno selvagem, por isso ele levou um rifle para se proteger. Davis chegou em segurança na cidade, negociou os suprimentos com seu fornecedor e começou a retornar pela trilha. No dia 26 ele avistou o assentamento perto do entardecer. Ele sentiu que alguma coisa estava errada quando percebeu que a lareira da cabana estava apagada e a chaminé não cuspia fumaça. O lugar estava muito quieto. Quieto demais!

William amarrou as mulas, apanhou seu rifle e entrou no assentamento cautelosamente. Perto da cabana a visão que teve o deixou petrificado. O corpo de seu irmão, James estava caído no chão em uma poça de sangue. Sua cabeça havia sido estourada com um tiro de espingarda à queima roupa que espalhou seus miolos pelas paredes e teto. O lugar havia sido saqueado, portas e gavetas estavam abertas, objetos jogados no chão e tudo em completa desordem. 

Ele chamou pelos demais, mas ninguém respondeu. Davis sentiu um arrepio. O correto seria verificar os outros cômodos em busca de feridos, mas algo o impediu de adentrar na cabana em busca de sobreviventes. Mais tarde ele diria que sentiu algo desagradável, não como se o assassino estivesse no local, mas algo pior... uma presença que o fez sentir arrepios e que o obrigou a sair de lá o mais rápido possível. William Davis correu até a guarnição de soldados estacionados à cerca de 25 quilômetros dali. Os homens da cavalaria o acompanharam até o assentamento e quando estavam à caminho encontraram o corpo do químico, John Moss no deserto. Sua garganta havia sido cortada e ele andou por cerca de 200 metros antes de perder os sentidos e morrer.


Chegando no assentamento, os soldados se espalharam e começaram a buscar pelos arredores algum sinal do que havia acontecido. Não demorou a encontrarem, perto da entrada da cabana outro corpo, dessa vez pertencente a Brunckow. Ele estava enfiado em um poço de mineração, aparentemente assassinado com golpes de picareta. O cadáver estava tão mutilado que foi difícil conseguir uma identificação e esta só foi possível através de um sinal que ele tinha no braço. O corpo havia sido mergulhado de cabeça no buraco e as pernas pendiam de forma macabra para o lado de fora. 

Dos trabalhadores mexicanos não havia sinal. Também haviam sumido cerca de três mil dólares em mercadorias que foram levadas. Ninguém tinha ideia do que havia acontecido ao certo, mas a suspeita era de que os trabalhadores haviam roubado e matado seus patrões. Enquanto investigavam o local, o cozinheiro Bontrager surgiu. Ele contou que estava vagando pelo deserto e alegou ter escapado do massacre quando os trabalhadores mexicanos atacaram. Contou ainda que conseguiu fugir em disparada quando ouviu gritos de alerta. O cozinheiro ficou nos arredores, mas não viu o alegados assassinos, cinco empregados da fazenda e mais o capataz, um sujeito chamado Jaime, deixando o lugar do massacre.  

Os soldados decidiram enterrar os cadáveres ali mesmo e partir atrás dos assassinos quando raiasse o dia. A suspeita é que eles tentariam atravessar a fronteira e chegar ao México onde poderiam desaparecer facilmente. Conforme planejado o grupo de soldados, composto de sete homens e mais um oficial, além de Davis partiu da cabana nos primeiros raios de sol. Eles deixaram Bontrager e um dos soldados, um homem chamado Sam Knowles, para trás.


A cavalaria seguiu a trilha deixada pelos assassinos por cerca de um dia, mas antes de chegar na fronteira se depararam com um novo mistério sangrento. Encontraram um acampamento desfeito e marcas de luta com sinais inequívocos de violência. Buscando nos arredores descobriram três cadáveres brutalmente assassinados com golpes de porrete, faca e machadinhas. Davis reconheceu os três corpos como mexicanos que trabalhavam no assentamento, de Jaime e dos outros nem sinal.

A suspeita é que o bando tivesse se desentendido e que brigaram entre si. Esse tipo de coisa acontecia, e não era exatamente incomum, mas algumas coisas não se encaixavam no cenário geral. O produto do roubo havia sido deixado no acampamento. As mercadorias roubadas estavam em sacos e caixas espalhadas pela clareira e William reconheceu que não faltava nada. Talvez os homens tenham se desentendido sobre a chacina e os que prevaleceram partiram sem levar nada. Isso não explicava entretanto porque cantis, suprimentos e comida necessários para chegar à fronteira foram deixados. Mais estranho, os soldados buscaram por rastros que pudessem indicar para onde eles haviam seguido, mas não acharam nada. Era como se o restante do grupo tivesse desaparecido no ar.

Sem ter uma trilha a ser seguida, os soldados decidiram voltar para a cabana e lá traçar seus próximos planos. Mas o inesperado agiu novamente! Ao chegar na Cabana se depararam com mais um mistério que os deixou sem palavras. Bontrager e o soldado Knowles não estavam mais lá. Era como se tivessem evaporado no ar pois o cavalo continuava amarrado no mesmo lugar, a lareira estava acesa e uma caneca com café foi deixada sobre a mesa, dos homens, nenhum sinal. 


Por mais misterioso e violento que fosse tudo isso, as autoridades não podiam fazer muita coisa. Uma ordem de busca foi expedida contra o capataz e os mexicanos que haviam sumido, supostamente responsáveis pelo ocorrido. Também foi mandado um retrato do cozinheiro. O soldado foi tratado como desertor e seu nome enviado para todo território. Nenhum deles jamais foi encontrado e o paradeiro deles permanece como um inexplicável mistério. Contudo, esse não seria o fim das coisas inexplicáveis ocorrendo naquele lugar maldito.

Ao longo dos anos, outras histórias macabras ocorreriam na Cabana Negra como veremos na continuação desse artigo. 

sábado, 10 de setembro de 2022

O Ataque dos Habitantes da Atmosfera - Criaturas inacreditáveis vivendo nas Nuvens


Monstros atmosféricos são criaturas bizarras e aparentemente impossíveis. Essas estranhas bestas voam silenciosamente acima da raça humana, desafiando as leis convencionais da física, e suas origens e intenções continuam sendo um dos mistérios mais intrigantes e fascinantes nos reinos da ufologia e da criptozoologia.

A maioria dos indivíduos inteligentes admitiria prontamente que os oceanos da Terra ainda não revelaram todas as formas de vida que habitam suas vastas profundezas. Alguns cientistas sugeriram que há quase um milhão de espécies desconhecidas à espreita, aguardando nas profundezas salgadas, enquanto outros insistem que o número seria muito maior. Mas, embora os cientistas não tenham problemas em aceitar que os mares estão repletos de formas de vida não identificadas, eles rejeitam a ideia de que o oceano de ar acima de nossas cabeças possa ser igualmente povoado por espécies únicas, e até hoje, não classificadas.

O consenso dos cientistas determina que nossa atmosfera se estende a aproximadamente 998 quilômetros acima da superfície do planeta. Isso é muito espaço, muito mesmo.

Quando pegamos todo esse espaço e comparamos com os quilômetros quadrados de água, a diferença é esmagadora em favor do espaço atmosférico. Então, se admitirmos que o oceano abriga um monte de formas de vida desconhecidas, será possível ignorar o mesmo potencial dos céus, muito mais expansivos, acima de nós?

Estudiosos da Criptozoologia, aquele ramo obscuro da ciência que tenta classificar seres misteriosos e estranhos, acreditam que esse vasto ambiente pode ser o habitat de criaturas sobre as quais sabemos muito pouco. Mas haveria algo habitando a atmosfera? Seria possível que criaturas misteriosas vivam nos céus? E como nós não percebemos sua presença? 

Os chamados Habitantes da Atmosfera, ou Monstros Atmosféricos, supostamente estão com a humanidade há séculos. As descrições variam de entidades vaporosas, semelhantes a nuvens, a "baleias do ar" e "krakens do espaço" até águas-vivas flutuantes e translúcidas que mergulham entre as nuvens sem meios visíveis de propulsão aerodinâmica. Há também os lendários "peixes do céu", animais mitológicos que supostamente nadam em pleno ar, como se estivessem no fundo do mar agitando suas nadadeiras para se mover graciosamente. 


Geralmente esses seres são retratados como bestas gigantescas com vários metros de comprimento. Seus corpos sinuosos flutuam pelo ar delicadamente, como balões vivos. Segundo os criptozoólogos, no passado, eles foram avistados por testemunhas que os identificavam erroneamente como nuvens estranhas. Em tempos mais recentes, eles são incorretamente identificados como aviões, balões meteorológicos, dirigíveis e até discos voadores 

Os defensores da existência de tais seres sugerem que – assim como muitos outros animais, eles também são capazes de criar uma camuflagem que os deixa virtualmente invisíveis a olho nu. Eles poderiam se misturar a paisagem de tal maneira que seria quase impossível perceber seus contornos, mais ainda por conta da altitude que sustentam na maior parte do tempo. Apenas ao se moverem, através de nuvens é que sua presença poderia ser traçada, e ainda assim de forma bastante discreta.  

Alguns defendem que a substância conhecida como "gelatina das estrelas", frequentemente associada a chuvas de meteoros pode muito bem vir a ser os restos em decomposição dessas bestas ostensivamente invertebradas forçadas para a terra. Talvez estrelas cadentes e outros detritos terrestres atinjam essas criaturas no meio do voo, rasgando-as com a força de seu impacto e enviando-as ao chão em pedaços ainda não identificáveis.

A origem dos Habitantes da Atmosfera também permanece como um ponto de discórdia entre os defensores da existência desses seres. Há diferentes vertentes sobre o que são essas criaturas: se elas seriam entidades alienígenas ou criaturas nativas da Terra. A maioria dos adeptos acredita que, de onde quer que esses animais venham, eles são animais não inteligentes que vivem suas vidas no céu confiando no instinto e não no intelecto. Mas, é claro, eles podem estar errados.


O famoso autor e investigador paranormal, Ivan T. Sanderson, formulou a teoria de que essas bestas do céu seriam uma forma de vida ainda a ser compreendida. Ele especulou que vários relatos de OVNIs poderiam se referir ao avistamento de "animais de densidade extremamente baixa nativos das nuvens".

Sanderson não está sozinho em sua crença à respeito de animais atmosféricos. Até mesmo o célebre cosmólogo Carl Sagan propôs que o conceito de tais bestas com forma similar a de um balão, poderia ser perfeitamente viável do ponto de vista biológico. Sagan chegou a formular que tais seres poderiam se desenvolver nos céus de gigantes gasosos como Júpiter. Ele chegou a especular que tais seres poderiam ter se formado na Terra.

Em 1975, o renomado ufólogo Trevor James Constable, propôs em seu livro "The Cosmic Pulse of Life" que o fenômeno dos discos voadores provavelmente não seria um exemplo de tecnologia extraterrestre, mas de colossais criaturas semelhantes a amebas que habitam a atmosfera da Terra. Ele coloquialmente apelidou esses animais teóricos de "criaturas do ar".

Constable propôs ainda que esses monstros atmosféricos passavam a maior parte do tempo em um estado de baixa densidade virtualmente invisível, mas quando aumentaram sua densidade (possivelmente enquanto procuravam sustento), essas estranhas formas de vida se tornavam parcialmente visíveis. Ele também defendia que o uso de dispositivos de radar e a perturbação causada por veículos aéreos de alguma forma perturbou essas bestas, forçando-as de seu estado geralmente oculto para um mais perceptível. Isso justificaria o relato de "coisas estranhas vistas nos céus".


Como se isso não bastasse, Constable sugeriu a premissa literalmente horripilante de que essas "criaturas" não eram apenas carnívoras, mas que provavelmente seriam responsáveis ​por uma infinidade de mutilações de animais, bem como de milhares de mortes e desaparecimentos de seres humanos todos os anos. Nem é necessário dizer que a noção da existência de predadores imensos, vorazes e praticamente indetectáveis é bem pouco reconfortante. Curiosamente, vários povos do passado mencionam em suas lendas e mitos entidades estranhas que vivem nos céus, entre as nuvens e que descem de tempos em tempos para interagir com humanos, geralmente tornando-os vítimas de um ataque inesperado.

Dentre os encontros mais famosos envolvendo supostos monstros atmosféricos, encontramos um incidente supostamente ocorrido em Crawfordsville, Indiana. Segundo o relato, publicado na edição do Indianapolis Journal, por volta das 2 horas da manhã do dia 4 de setembro de 1891, dois homens estavam consertando uma carroça quando olharam para o céu e ficaram chocados ao ver o que descreveram como uma "aparição horrível" pairando sobre eles.

Os homens afirmaram que a criatura sem cabeça, retangular e com várias barbatanas "nadava em pleno ar" a não menos de 30 metros acima deles. Eles calcularam seu tamanho em aproximadamente dois metros de largura e seis metros de comprimento. Os homens mais tarde confirmariam aos repórteres que a fera parecia definitivamente viva. Eles assistiram que enquanto a criatura se movia com suas numerosas barbatanas, circulava exatamente acima de uma casa próxima. O monstro eventualmente desistiu de seu assédio e desapareceu subindo abruptamente rumo ao firmamento. 

É curioso, que na mesma noite outras pessoas testemunharam a mesma aparição misteriosa nos céus. Um fazendeiro e sua família avistaram a mesma criatura cerca de meia hora depois flutuando acima de uma plantação. Os membros da família, seis pessoas ao todo, descreveram o ser como uma forma amorfa translúcida que subia e descia, como um enorme balão. A criatura também foi vista no município vizinho por diferentes testemunhas idôneas que garantiram ser o monstro algo vivo.  

Tais narrativas totalmente bizarras poderiam ser descartadas como uma alucinação infundada ou uma farsa total, não fosse a corroboração de indivíduos com reputação impecável. Outra testemunha ocular foi o Reverendo G. W. Switzer, um pastor metodista local que, junto com sua esposa, também afirmou ter visto a estranha besta aérea.


Como se isso não bastasse, nas noites seguintes a coisa reapareceu, mas desta vez não se mostrou apenas para um punhado de observadores isolados. De acordo com o relatório publicado pelo Indianapolis Journal, centenas de testemunhas contaram ter visto a entidade anômala no céu noturno.

Observadores descreveram a fera de maneira similar, mas alguns desta vez notaram um "olho" vermelho ciclópico e flamejante. Eles também discerniram que a fera que se contorcia emitia um "ruído queixoso e sibilante" e por vezes "se contorcia" no que parecia ser um movimento agonizante. 

A criatura de Crawfordsville ondulou acima de uma multidão de espectadores a uma altura de cerca de 90 metros, até que abruptamente despencou em direção à terra, caindo perto de um grupo de aterrorizados espectadores. Os que viram os restos da criatura juraram que podiam sentir seu "hálito quente" enquanto ela desmanchava diante de seus olhos incrédulos. O monstro parecia uma coisa gelatinosa, amorfa, translúcida e de consistência similar a uma água viva. 

O famoso pioneiro da pesquisa paranormal, Charles Fort, estudou o fenômeno e visitou Crawfordsville anos depois para ouvir o relato de pessoas que testemunharam o incidente. Ele concluiu que as histórias eram consistentes e os relatos por serem tão semelhantes indicavam um grau elevado de verossimilhança. Fort entrevistou dezenas de testemunhas oculares envolvidas com esse avistamento em massa, e escreveu que: “Todos os relatos se referiam ao misterioso objeto como um ser vivo". Fort ficou tão impressionado com o que ouviu que deu início a uma campanha para que leitores enviassem relatos de histórias parecidas. Nada menos do que 470 relatos detalhados mencionando "criaturas do ar" chegaram ao seu conhecimento - muitos simples tolices, mas outros tantos corroborados por testemunhas ilibadas.

Fort estava tão convencido de que tais seres existiam que ofereceu uma recompensa para quem conseguisse fotografar tais seres ou demonstrar sua existência em fatos.


Outro incidente notável envolvendo Habitantes da Atmosfera vem das pequenas ilhas do arquipélago de Shetland, na Escócia. As Ilhas Shetland são um local remoto e envolto em névoas a cerca de 80 quilômetros a nordeste de Orkney. É um lugar ermo conhecido por abrigar um monstro que os ilhéus conhecem apenas como "aquilo". 

Os moradores locais descrevem o ser como uma espécie de verme vaporoso que habita os céus, escondendo-se em meio às nuvens. Por razões desconhecidas, ocasionalmente ele faz descidas para a terra firme, supostamente para se alimentar. Aqueles que entraram em contato com a entidade não sofreram qualquer ferimento, relatando uma sensação física semelhante a de ser lambido por uma enorme "língua macia". Embora esse efeito não seja danoso, ele foi descrito como muito desagradável.

Um incidente relatado em 1914 detalha um contato com a criatura. O incidente teve lugar quando um policial estava andando de bicicleta em sua rota de patrulha. O homem alegou que "aquilo" o envolveu criando a sensação de estar enrolado em um "cobertor extremamente macio" que cheirava a "mofo". O ser, que o oficial insistiu estava vivo, o manteve aprisionado por alguns instantes até soltá-lo e se afastar para o céu acendendo como um balão. O oficial abalado afirmou que tinha sido uma das experiências mais aterrorizantes de toda a sua vida.

Desde a introdução da fotografia dezenas de fotos de supostos objetos voadores foram apresentadas como evidência de "coisas estranhas flutuando nos céus". Esses objetos anômalos tem as mais variadas formas, muitos se assemelhando a veículos, mas outras tendo uma clara natureza orgânica. Estes se movem de maneiras que parecem inusitadas para uma nave voadora de base tecnológica.

Uma das mais intrigantes fotografias representando tais seres atmosféricos foi tirada pelo jornalista Bruno Ghibaudi na tarde de 27 de abril de 1961. No dia em questão ele estava dirigindo pela estrada adjacente à praia de Montesilvano, na Itália, quando estourou um pneu. Enquanto trabalhava para deixar o carro em ordem, Ghibaudi notou um "objeto bizarro", com várias asas ou possivelmente barbatanas, pairando sobre o oceano a baixa altitude. A coisa estava indo em sua direção a uma velocidade considerável. O jornalista não entrou em pânico, ao invés disso pegou sua câmera para registrar o que estava vendo. Ghibaudi conseguiu tirar uma única foto da criatura antes que ela desaparecesse de vista. Enquanto alguns afirmam que a imagem mostra um veículo interestelar, há outros que acreditam que na verdade é uma criatura viva.



Uma imagem registrada na França por um turista foi obtida em julho de 1999 e mostra uma coisa singular semelhante a um ser vivo flutuando no ar. Supostamente, o objeto parecia uma espécie de lula ou água viva, com pele translúcida levemente amarela-esverdeada. Ela era muito grande, talvez com mais de 10 metros e ficou estática por longos minutos antes de começar a subir e desaparecer à certa altura. 

Outro caso conhecido envolve um fotógrafo da Nova Zelândia chamado Michael White, que em abril de 2008 estava tirando fotos do céu quando notou o que descreveu como uma "nuvem escura de aparência estranha que parecia se mover conscientemente". A estranha nuvem, segundo ele, permanecia imóvel por longos períodos de tempo e então se movia sozinha, mesmo que as demais próximas a ela permanecessem estacionadas. Após registrar em câmera a nuvem se comportando dessa forma inusitada, ele percebeu que ela simplesmente ascendeu cada vez mais alto até sumir.

White conseguiu tirar várias fotos da nuvem, mas só depois de revelar as imagens é que percebeu o caráter único do que havia registrado. Na foto, ele descobriu um objeto misterioso que se assemelhava a uma espécie de criatura orgânica, semelhante a uma arraia manta de tamanho absurdo. A parte mais intrigante da história de White é que ele alegou que não percebeu o "objeto" no interior da nuvem quando tirou as fotos. White insistiu que tudo o que viu foi uma "nuvem" que ele descreveu como "fibrosa" e "de aparência peculiar", movendo-se de maneira incomum.

Poderia a criatura estar usando a nuvem como um tipo de camuflagem para se manter disfarçada? Se este for o caso, então isso dá origem à suposição de que entidades estranhas e ondulantes podem estar constantemente cruzando as nossas cabeças e tudo o que nossos olhos humanos percebem são nuvens comuns. Se isso for verdade, então nosso mundo é realmente um lugar bem mais estranho do que podemos imaginar. 


Para finalizar, eis aqui um relato supostamente ocorrido na tarde de 3 de novembro de 1973 envolvendo um banqueiro mexicano e sua família. Eles avistaram um objeto estranho voando na direção oeste sobre Cocoyoc, México. A esposa do banqueiro alegou que o objeto era arredondado e não se assemelhava a nenhuma aeronave tradicional que ela conhecesse. O banqueiro parou o carro para ver melhor o objeto incomum. Ele e sua esposa rapidamente saíram do veículo e observaram o objeto se mover "como se estivessem nadando no ar", não simplesmente voando, mas literalmente deslizando como um gigantesco peixe faria na água.

Felizmente, o banqueiro teve a presença de espírito de pegar sua câmera e conseguiu tirar uma foto da coisa antes que ela sumisse de vista. A coisa lembrava uma espécie de anêmona gigantesca voando no céu.

Os casos acima representam apenas um punhado de relatos e fotografias do que podem ser monstros atmosféricos, uma forma de vida desconhecida. Apesar das imagens, o consenso geral permanece de que esses animais podem não modificar seu tamanho e densidade, bem como empregar uma forma única e extremamente eficaz de camuflagem para se esconder. Isso significa que, se essas criaturas realmente existem, podem haver em grande número, flutuando acima de cada um de nós neste exato momento sem que percebamos. 

Talvez essas especulações não sejam nada mais do que mera fantasia, contudo se provadas verdadeiras, mudariam tudo o que sabemos, ou acreditamos saber à respeito de nosso mundo.

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

O Pescador - Resenha do Romance de John Langan


"Já estive à beira de um oceano cujas ondas eram tão negras quanto a tinta que escorre da ponta desta caneta. Eu vi uma mulher com a pele pálida como o luar abrir a boca, e abri-la, e abri-la, em uma caverna com fileiras de dentes serrilhados que estariam em casa na mandíbula de um tubarão."

John Langan - O Pescador

*     *     *

Para os fãs de horror em geral, o nome de John Langan não é estranho, ou ao menos, não deveria ser. Aclamado pela crítica como um escritor com talento excepcional, ele foi publicado em várias coleções, incluindo aquelas que trazem os "melhores contos do ano" como o Ellen Datlow's Fearful Symmetres. Langan se destaca em meio a outros promissores autores de horror e mesmo entre nomes já consagrados. Além disso, suas duas antologias exclusivas - Mr. Gaunt & Other Uneasy Encounters e o aclamado The Wide Carnivorous Sky contém material notável.

E a razão para um repertório tão impressionante de trabalhos publicados é bastante simples: o homem é uma máquina de produzir excelente material. Seu romance mais conhecido, "O Pescador", é apenas uma prova de seu enorme talento, imaginação e capacidade de oferecer uma história atraente que prende o leitor do início ao fim.

Os termos "excelente", "excepcional" e "transcendente" têm sido usados pelos críticos com tanta frequência que se tornam clichês, mas parecem adequadas para descrever esse, que é o segundo romance de John Langan. "O Pescador" é daqueles livros que você começa a ler e que não consegue parar, pois a história é tão bem escrita e narrada de maneira tão interessante que lembra uma conversa entre amigos, no qual um chega na casa do outro e diz "eu tenho uma história para contar" e sem cerimônia dá início a uma narrativa envolvente.

Não que "O Pescador" seja fácil, mas é a maneira como a história é oferecida que chama mais a atenção. Ele é uma história dentro de uma história, mas estou me adiantando demasiadamente.


A história começa prestando uma homenagem a Moby Dick, e de fato, como convém a um livro com esse título, ele é à respeito de água, um rio e tudo que vive abaixo da superfície. Envolve também coisas misteriosas e terríveis que habitam as profundezas e que não deveriam jamais existir em um mundo de razão e coerência - coisas estas que parecem extraídas diretamente de um conto de H.P. Lovecraft

Embora a narrativa tenha um tom descontraído, a história em si é tudo menos alegre. Desde o início, sentimos que algo horrível está para acontecer a uma página de distância, que nosso protagonista está se movendo em direção a um pesadelo medonho enquanto começa a ter experiências estranhas e sonhos aterrorizantes que vão se intensificando à medida que avançamos. Como dito, a história avança como uma prosa entre amigos, o que é esquisito em um livro sobre ficção bizarra, suspense sombrio e Horror Cósmico de primeira grandeza. Um sentimento opressivo permeia as páginas, mesmo nas circunstâncias mais mundanas, há algo que deixa o leitor inquieto. 

A história central acompanha dois viúvos, Abe e Dan, que perderam suas famílias e que ainda estão tentando lidar com as repercussões de sua imensa dor. Devorados por um vazio monumental do qual parece não haver escapatória, os dois encontram um amor em comum na forma de um hobby que preenche o vazio deixado por suas esposas e filhos - a pescaria. Pescar parece ser a única coisa que diminui a dor e sempre que possível os dois se reúnem com esse intuito. Em sua busca incessante por novos rios para lançar o anzol, Dan descobre um lugar obscuro chamado Dutchman's Creek (Riacho do Holandês). Eles partem então esperando um longo dia de pesca e tranquilidade. Contudo o riacho não corre simplesmente pelas montanhas de Catskills, no interior de Nova York, e sim pelo coração do inferno e os terrores que aguardam a dupla são horríveis além da descrição.


Enquanto estão se dirigindo para seu destino, o tal riacho, os dois param em um restaurante de beira de estrada para pedir direções. Lá eles conhecem o amistoso dono do estabelecimento, um homem que já ouviu falar do "Dutchman´s Creek" e que tem uma longa história para contar à respeito dele.

É nesse ponto que a história dentro da história começa a ser contada. 

Os protagonistas cedem lugar para a narrativa, propositalmente similar a uma história de pescador, na qual somos apresentados a uma série de estranhos acontecimentos que tiveram lugar nos arredores das Catskills no início do século XX. A construção de um enorme reservatório de água muda de vez a vida de habitantes da região, em especial a de um homem que recebe um soturno visitante que passa a morar em sua casa e levanta todo tipo de rumor assustador. O que o sujeito misterioso, o tal forasteiro faz na mansão e o que acontece naquele lugar na calada da noite é parte central da história, bem como os eventos que envolvem os operários - quase todos imigrantes, atraídos pela perspectiva de um grande empreendimento. Entre esses trabalhadores está Rainer Schmidt, um imigrante alemão de passado nebuloso que busca melhores oportunidades de vida para sua família e acaba tendo de enfrentar algo aterrorizante.

Essa porção de "O Pescador" é simplesmente brilhante! 

A lenda sombria de "Der Fisher" é uma experiência para Abe e Dan e também para o leitor. Magia negra, visões surrealistas, rituais antigos, tomos com conhecimento arcano e criaturas bizarras que parecem saídas dos piores pesadelos aparecem numa sucessão vertiginosa. Coisas difíceis de compreender como estas encontrariam abrigo fácil no universo Lovecraftiano e se aninhariam confortavelmente entre os tentáculos dos deuses antigos e seus servos. Langan explora esses caminhos tortuosos e escuros como a noite com maestria, conduzindo a trama de forma perfeita. Seus personagens são reais, as situações, mesmo as mais surreais, são descritas com um colorido especial que torna tudo crível e a forma como ele conduz a trama não é menos que sensacional. John Langan habilmente, com grande atenção aos detalhes, cria uma atmosfera de terror e inquietação, enquanto lentamente nos introduz no universo do romance. Mas em determinado momento, o ritmo se quebra, lançando o leitor em uma montanha russa de ação e violência. 


O terço final da trama confronta os protagonistas com uma escolha cruel. Sabendo de todos os detalhes transmitidos, eles seguirão com a sua excursão ao riacho? Irão acreditar na história ou desconsiderar como mera superstição? Ou irão aceitar a vida e o destino que receberam? Eles buscarão uma maneira não-natural de aplacar sua perda? E ao fazê-lo, que horrendas repercussões suas escolhas trarão? O final reserva algumas reviravoltas e uma conclusão agridoce para os protagonistas.  

A versão nacional de "O Pescador" foi lançada pela Editora Darkside com a já conhecida qualidade que marca suas publicações. A edição em capa dura, marcador de página, borda colorida e belo acabamento gráfico é um complemento à altura dessa grande história. Foi um enorme acerto da Darkside trazer John Langan para nosso idioma e apresentá-lo ao público brasileiro através desse trabalho impecável. Fica a dica para que eles sigam adiante com as publicações desse autor. 

"O Pescador" recebeu o Bran Stoker Awards de 2016 na categoria melhor romance, premiação mais do que merecida na minha opinião. A incrível narrativa fluida de Langan, suas visões surreais e a atmosfera perturbadora tornam a leitura desse livro puro prazer. É um deleite para os fãs de literatura de terror e eu não poderia indicá-lo mais.


domingo, 4 de setembro de 2022

O pior de todos os anos - O trágico ano de 536



Pode ser uma pergunta estranha, mas qual teria sido o pior dos anos?

O pior mesmo, aquele que deixou uma marca clara na história como um ano especialmente ruim para a humanidade.

Se você perguntar ao historiador medieval Michael McCormick qual foi o pior ano para se estar vivo, ele terá uma resposta rápida e sem rodeios: "536 d.C". 

Ele não dirá 1349, quando a Peste Negra varreu metade da Europa matando milhares e devastando cidades inteiras sob os auspícios da doença. Tampouco dirá 1918, quando a Gripe Espanhola matou algo entre 50 e 100 milhões de pessoas, principalmente adultos jovens. 

Ele dirá 536, e será categórico em sua opinião. Mas o que esse ano em particular teve de tão terrível? Com certeza, a maioria das pessoas não saberia dizer.

A explicação é simples. 

Na Europa, "foi o início de um dos piores períodos para se estar vivo, se não o pior ano de que se tem notícia desde o início da história humana registrada", explica McCormick, um historiador e arqueólogo que preside a Iniciativa da Universidade de Harvard para a Ciência do Passado Humano.

O ano de 536 teve início com um nevoeiro misterioso que mergulhou a Europa, o Oriente Médio e partes consideráveis da Ásia numa escuridão terrível. Dia virou noite e esse estranho fenômeno durou nada menos do que 18 meses. 


"O sol mostrou sua luz sem brilho, tênue como a lua, durante todo o ano", escreveu o historiador bizantino Procópio um dos muitos que registraram esse estranho incidente ao redor do mundo. As temperaturas no verão de 536 caíram de 1,5°C a 2,5°C, iniciando a década mais fria dos últimos 2300 anos. Neve caiu em pleno verão na China; as colheitas foram devastadas; pessoas passaram fome. As crônicas irlandesas registram "uma falta de pão e víveres que lançou milhares na carestia. A fome era tamanha e tão terrível que pessoas morriam de inanição nas ruas. Forçadas ao limite de suas forças, há relatos de um desespero que levou as pessoas a comer cavalos, cães e gatos. Em algumas partes da Europa, em especial no Leste, a fome era tamanha que o canibalismo foi praticado largamente. Com a crise de alimentos, cidades esvaziaram, portos pararam, o comércio deteriorou e as moedas perderam o valor.

Então, na esteira desses acontecimentos, a peste bubônica atingiu o importante porto romano de Pelusium, no Egito. Dali a praga encontrou lugar nos navios que navegavam pelo Mediterrâneo, sendo disseminada pelos ratos que habitavam os porões. A Peste foi tão impiedosa que devastou os poucos lugares que ainda resistiam à fome. A epidemia de ratos era tamanha que os animais proliferaram livremente. Em vários cantos da Europa eles se tornaram um problema de verdade, com ratazanas devorando os mortos e atacando os vivos.

"Aquilo que veio a ser chamado de Praga de Justiniano se espalhou rapidamente, eliminando de um terço a metade da população do Império Romano Oriental, acelerando seu colapso", diz McCormick.

Os historiadores sabem há muito tempo que a primeira metade do século VI foi um tempo especialmente sombrio no que costumava ser chamado de Idade das Trevas, mas a fonte das nuvens misteriosas que submergiram o mundo em uma escuridão até então era um enigma. Agora, uma análise ultra precisa do gelo extraído de uma geleira suíça por uma equipe liderada pelo glaciologista Paul Mayewski, do Instituto de Mudança Climática da Universidade do Maine, apontou aquilo que pode ser o culpado. 

Num workshop em Harvard, a equipe relatou que uma erupção vulcânica cataclísmica ocorrida na Islândia expeliu cinzas no Hemisfério Norte no início de 536. Duas outras erupções maciças se seguiram, em 540 e 547. Os golpes repetidos, seguidos de peste, mergulharam a Europa em estagnação econômica que durou até 640, quando outro sinal no gelo – um pico de chumbo no ar – marcou um ressurgimento da mineração de prata, e retorno a certo grau de normalidade.


Para Kyle Harper, reitor e historiador medieval e romano, o registro detalhado de desastres naturais e poluição humana congelados no gelo "nos dá um novo tipo de registro para entender quais as causas naturais que levaram à queda do Império Romano - e os primeiros movimentos da nova economia medieval."

Desde que estudos de anéis de árvores na década de 1990 sugeriram que os verões por volta do ano 540 eram excepcionalmente frios, os pesquisadores procuravam a causa. Três anos atrás, núcleos de gelo polar da Groenlândia e da Antártida forneceram a pista. Quando um vulcão entra em erupção, ele expele enxofre, bismuto e outras substâncias na atmosfera, onde formam um véu que reflete a luz do sol de volta ao espaço, resfriando o planeta. Ao comparar o registro de gelo desses traços químicos com os registros climáticos de anéis de árvores, uma equipe descobriu que quase todo verão excepcionalmente frio nos últimos 2.500 anos foi precedido por uma erupção vulcânica. Uma erupção maciça se destacou no final de 535 ou início de 536; outra se seguiu em 540. A equipe de Sigl concluiu que o golpe duplo explicava a escuridão e o frio prolongados.

A equipe decidiu procurar as mesmas erupções em um núcleo de gelo perfurado em 2013 na geleira Colle Gnifetti, nos Alpes. O núcleo de 72 metros de comprimento sepulta mais de 2.000 anos de precipitação de vulcões, tempestades de poeira do Saara e atividades humanas bem no centro da Europa. A equipe decifrou esse registro usando um novo método de resolução no qual um laser esculpe lascas de gelo de 120 mícrons. A abordagem permitiu que a equipe identificasse tempestades, erupções vulcânicas e levasse a identificar a poluição nos últimos dois mil anos.

No gelo da primavera de 536, foram encontradas partículas microscópicas de vidro vulcânico. Ao bombardear os fragmentos com raios-x para determinar sua impressão digital química, a equipe descobriu um núcleo de gelo semelhante ao da Islândia. As semelhanças químicas convencem os geocientistas que as partículas no gelo provavelmente vieram do vulcão islandês. 


De qualquer forma, os ventos e os sistemas climáticos em 536 devem ter sido mortalmente perfeitos guiando as nuvens de erupção para o sudeste, através da Europa e, mais tarde, para a Ásia, lançando uma mortalha fria à medida que a névoa vulcânica dominava a paisagem. O horror das pessoas diante dessa nuvem que encobria os céus, deve ter sido inenarrável. A cobertura devia resplandecer com cristais de vidro concedendo uma coloração avermelhada ao firmamento. Algo que permaneceu igual por meses.

Um século depois, em 640 a prata voltou a ser fundida com minério de chumbo, sinal de que o metal precioso estava em demanda em uma economia se recuperando do golpe de um século antes. Um segundo pico de chumbo, em 660, marca uma grande infusão de prata na economia medieval emergente e uma mudança cada vez maior no panorama. Os sinais de chumbo viriam a desaparecer novamente durante a Peste Negra de 1349 a 1353, revelando uma economia que novamente se achava estagnada.

Quem poderia imaginar que a análise de extratos de gelo poderia revelar tantos detalhes sobre a nossa história, inclusive os mais obscuros.