domingo, 13 de novembro de 2022

A Galeria do Bizarro - As Obras primas de Richard Pickman

 Ainda falando sobre o controverso artista Richard Pickman, aqui está um apanhado de telas assinadas por ele e uma breve descrição das obras.

Convidados para o Banquete

Óleo sobre tela.

Um dos quadros mais emblemáticos de Richard Pickman concluído em 1923 pouco antes dele se mudar para o ateliê mais modesto na Rua Grimanci. Executada ao longo de meses de laborioso estudo, trata-se de uma de suas pinturas mais soturnas. Ela foi exposta na Galeria Tuttle e dividiu opiniões causando a indignação de parte do público.

No centro da cena, Pickman retratou uma presença feminina única, sua antepassada Lavínia que ele sustentava, foi  acusada de feitiçaria durante a Caça às Bruxas. Sabe-se bem pouco sobre ela, mas o artista afirmava ter encontrado informações sobre sua parente nos arquivos da comarca de Salem. Nos autos do Processo constava que ela havia sido acusada de praticar feitiçaria e de manter conluio com o demônio. Esses documentos, todavia jamais foram localizados.

As figuras ao redor da mesa, os comensais da ceia profana, foram inspirados em conhecidos de Pickman, alguns colegas de estudo, professores e parentes. Não por acaso a tela causou constrangimento e gerou protestos por parte de indivíduos incluídos na imagem. Com a ameaça de um processo legal, Pickman aceitou refazer o rosto de três das figuras retratadas. 

Após grande polêmica o quadro foi finalmente apresentado na Galeria Tuttle, mas apenas por uma noite. Alguns dos visitantes da exposição se disseram ultrajados pela imagem grotesca e pela riqueza acachapante de detalhes mórbidos. À época, a exposição despertou uma forte reação no público, com boatos sobre mais de um visitante desmaiando após vislumbrar a obra. A Galeria se viu diante de um grande dilema e no fim optou por remover o quadro, sobretudo após críticas publicadas em jornais locais que chamavam a obra de "o delírio de uma mente insana".  

Pickman removeu o quadro e o levou de volta para seu ateliê. Ele recusou ofertas para vender a tela, afirmando que ela era uma de suas favoritas. "Convidados para o Banquete" adornou a parede de sua sala de jantar até desaparecer junto com ele em 1928.  

Jardim da Danação

Óleo sobre tela executado em 1925.

Uma das principais obras da série conceitual "Os Vermes da Terra".

Pickman realizou essa obra mas ela não chegou a ser exposta ao público. Ela é reminiscente do período em que ele costumava fazer seus passeios pelas florestas da Nova Inglaterra em busca de inspiração. A cena mostra uma série de criaturas monstruosas semelhantes a cães antropomorfizados acompanhando os estertores finais de uma mulher enforcada, pendendo na ponta de uma corda.

Após o desaparecimento de Pickman a obra foi redescoberta e depois de 1968, passou a ser exposta no Museu de Belas Artes de Boston.  Em 1981 ela foi citada pelo infame serial killer, o "Açougueiro de French Hill" em uma correspondência enviada para a polícia. Nesta ele ofereceu a localização do corpo de uma de suas vítimas. A cena do crime havia sido cuidadosamente trabalhada para se assemelhar a esta imagem. O assassino foi meticuloso a ponto de reproduzir o mesmo tipo de nó mostrado na imagem. Detetives da Polícia de Arkham se disseram chocados pela recriação do assassino. Por muitos anos comentou-se sobre a existência de estranhas pegadas no local, mas este detalhe jamais foi confirmado ou negado.

Após o infame incidente, o quadro foi removido da exposição, colocado em uma caixa e mantido num depósito. Ele supostamente ficou guardado, longe dos olhos do público até 1994, quando descobriu-se que a caixa onde havia sido encerrado sumiu. O caso foi tratado como roubo mas nenhuma pista sobre "Jardim da Danação" foi encontrada.

O Sabá dos Infortúnios





















Óleo sobre madeira executado em 1922

Uma das obras da série "Sacrifício" que se debruçava sobre questões religiosas. Fortemente influenciada pelo mestre espanhol Francisco de Goya, a obra reflete uma das paixões principais de Pickman, o Sabá das Feiticeiras.

As três bruxas em destaque são uma clara alusão a Hécate enquanto que a mulher cujos olhos vertem filetes de sangue é a esposa de um de seus colegas de universidade que se ofereceu como modelo. Segundo rumores, o colega em questão se disse ultrajado com a obra e rompeu a amizade que tinha com o pintor logo após ver o trabalho concluído.

Uma história pérfida associada a essa obra afirma que o primeiro filho da modelo em questão, um menino, desapareceu quando tinha quatro anos de idade. Não há entretanto como confirmar essa informação e tudo leva a crer que ela não passe de um rumor.

O quadro foi comprado após o desaparecimento de Pickman e permaneceu com um colecionador não identificado até 1967 quando foi adquirido por Noah Chrisholm e passou a fazer parte de sua coleção particular.  

O Doce Presente

Óleo sobre madeira provavelmente executado em 1923

Mais uma obra da coleção "Sacrifício" que cobre uma das primeiras séries temáticas do artista. "O Presente" foi oferecido por Pickman ao seu marchand após uma breve exposição arranjada por ele.

A obra convenceu a socialite Asenath Waite a contratar Pickman para a tarefa de retratá-la em um quadro intitulado Salomé. Pickman teria afirmado que o quadro foi resultado de alguns sonhos "muito vívidos" que ele experimentou na época, traduzido em imagens que remetem novamente a Goya. Pickman não ficou particularmente satisfeito com esse quadro, o que explica tê-lo dado ao seu marchand. Sabe-se que este vendeu a tela em 1933. 

O quadro posteriormente foi adquirido por Noah Crysholm e passou a compor a sua coleção particular de obras assinadas por Pickman. Após sua morte, ela foi negociada pelos herdeiros num leilão fechado em 2004. O novo proprietário que a arrematou permanece anônimo.

Estudo de um Condenado

Óleo sobre tela datado de 1918

Um dos primeiros trabalhos de Pickman ainda como um promissor estudante da Universidade de Minneiska, "Estudo de um Condenado" recebeu o primeiro prêmio em uma mostra de novos talentos. 

Pickman contava que a inspiração para essa obra veio de uma visita a um manicômio em Providence quando ele tinha 11 anos de idade. Alegadamente ele havia sido levado até lá por sua mãe para visitar um tio que havia sido internado. O artista contava que sua mãe o forçou a acompanhá-la para que ele visse como uma pessoa considerada insana vivia. O objetivo era assustar o menino para que ele "não terminasse num lugar como aquele". Ironicamente a mãe de Pickman passou seus dias finais trancafiada em uma instituição semelhante, após um surto esquizóide.

O artista falava pouco sobre sua mãe e não há registros precisos de sua condição mental, ainda que ela realmente tenha sido institucionalizada. Pickman acreditava que a loucura estava entranhada em sua família e que ela era uma espécie de herança de sangue. Para amigos íntimos ele afirmou temer que um dia pudesse manifestar os mesmos sintomas do tio e da mãe.

Essa tela, menos importante que as demais nunca chegou a ser vendida e permaneceu no ateliê de Pickman após seu desparecimento em 1928.    

Modelos

Óleo sobre tela.

Datada de 1927, essa obra perturbadora faz parte do tema "Os Vermes da Terra" revisitado pelo artista uma vez mais. 

Pickman afirmava que a inspiração para essas criaturas grotescas vinha de seus sonhos. Nessa época, seus poucos amigos afirmavam que ele sofria de um acentuado quadro de insônia, o que o levava a andar por horas pelas regiões insalubres de Boston. Naturalmente atraído para lugares desertos, ele costumava se refugiar em casebres em ruínas, velhos moinhos e em mausoléus nos antigos cemitérios coloniais da cidade. Há rumores de que em busca de inspiração ele tenha passado noites em claro vasculhando esses lugares na calada da noite. Alguns detratores do artista diziam que ele havia cedido a um macabro interesse pela morte o que o conduziu a atos temerarios, como violar sepulturas. Muito se falou sobre a estranha coleção de crânios, esqueletos e ossadas que adornavam as prateleiras de seu ateliê. Para alguns rivais, Pickman podia até ser um necrófilo. 

Quando apresentou esse quadro, enigmaticamente intitulado "Modelos", o artista foi sucinto em suas explanações: "Eles são algo que vi em minhas divagações entre a lucidez e o torpor. Vieram posar para mim em uma noite sem lua", disse em certa ocasião quando havia bebido algumas doses a mais de absinto.

Pickman gostava de chocar as pessoas e inventava histórias sobre suas escapadelas para os cemitérios locais. Certa vez se gabou de ter explorado uma cripta onde ossos de gerações eram estocados e montados como esculturas funestas de mórbida beleza. "Eu vi a morte de perto e passei a encarar a corrupção da carne como algo belo", teria dito.

Essa obra desapareceu em 1928 junto com o artista, mas ressurgiu em 1932.  

Os que vivem nas Profundezas

Óleo sobre madeira

Esta é uma obra estranha e que desperta certa controvérsia. Alguns críticos acreditam que constitui uma fraude e que, embora seja assinada por Pickman (com a usual letra "P" no canto direito inferior) ela não foi executada pelo artista. O estilo sem dúvida remete a ele, mas a obra surgiu em 1935, sete anos depois do desaparecimento do artista e supostamente após a sua morte oq ue reforça a hipótese de ter sido criada por um falsificador.

É curioso pois a essa altura Pickman era pouco conhecido e não faria sentido fraude seu estilo para introduzir novas obras de um artista tão obscuro.

O quadro mostrando uma cena medonha em um cemitério parece uma nova apreciação da série "Os Vermes da Terra" com a presença dos grotescos seres apresentados em "Modelos". O quadro foi encontrado em uma galeria de esgoto, próximo ao ateliê que Pickman mantinha na Rua Grimanci.

Um detalhe especialmente macabro nessa obra é que o artista parece figurar não apenas uma, mas duas vezes na pintura. Acredita-se que o cadáver eviscerado no chão seria o próprio Pickman semidevorado pelas criaturas que se fartam de sua carne. Ironicamente, a criança retratada se assemelha sobremaneira ao artista em uma foto de família tirada quando ele tinha 4 anos de idade.

Embora a obra divida opiniões no que diz respeito a autoria, ele é tratado como alguns como a última obra de Richard Pickman executada em algum momento após seu desaparecimento. O título "Os que vivem nas Profundezas" foi sugerido por um antigo colega do artista e acabou sendo adotado oficialmente.

*     *     *   

As obras apresentadas nesse artigo foram concebidas para o episódio quinto da série "O Gabinete de Curiosidades de Guillermo Del Toro".

Elas foram criadas pelos extraordinário artista Vincent Proce, que os concebeu imaginando obras executadas por Richard Pickman. Imagino a dificuldade dele ao tentar trabalhar com algo que pudesse emular o bizarro artista da ficção.

Eu compreendo que as imagens por serem grandes para o formato do Blog acabem estourando os limites da diagramação. Contudo, para permitir uma visão mais detalhada dos detalhes de cada quadro eu preferi manter dessa maneira. 

Os textos que acompanham as imagens são minha interpretação da origem dessas telas e da Galeria do Macabro assinada por Pickman. 

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Macabre Artist - The Disturbing Life of Richard Pickman


Richard Upton Pickman is without a doubt one of the most memorable characters created by H.P. Lovecraft. Protagonist of the fantastic tale "Pickman's Model", Richard was an artist, a painter whose artistic flair led him through a relentless search for inspiration. His inspiring muse, however, was morbidity, which finally aroused terrible needs in him and set the hideous transformation from Man to Ghoul.

The following text simulates an art magazine article in which Pickman's career is examined.

Artist du Macabre

An essay on the controversial Richard Pickman

In the current art scene, the controversy gained prominence thanks to exponents such as Francis Bacon and Anuard Janeau. But one of America's most controversial artists came much earlier.

Richard Upton Pickman was born in Providence, in the heart of New England in the year 1884. A member of an rich family, money was never an issue for the Pickmans from Rhode Island. The fortune flowed from successful contracts carried out throughout the 19th century when a direct ancestor signed advantageous deal with the Union during the Civil War.

Free from financial difficulties, young Master Pickman could dedicate himself entirely to his artistic career, even though he has studied the basic curriculum of architecture and engineering. Still a neophyte in the art world, he already demonstrated an enviable mastery of technique and an innate talent for portraits and landscapes. Even in his early works, the young artist's ability to compose works of a lugubrious nature with strong colors and striking features was evident. As his studies progressed, the boy gained some notoriety for his canvases depicting wild landscapes and equally sinister panoramas.


The few relatives and friends who had contact with Pickman described him as an eccentric young man fascinated by the dark colonial history, especially the infamous Witch Hunt that swept New England. Pickman recounted that an ancestor was one of those accused in the witch trials. Such a past did not cause him embarrassment, on the contrary, he expressed great pride, since this ancestor - a great-grandmother of the maternal branch, unlike many women unfairly accused, was in fact a sorceress. Pickman even studied the family tree, stating that he was a direct ancestor of the woman.

Those who knew him at the University of Fine Arts say his habits were unusual, to say the least. His walks through dark forests in search of inspiration were quite famous, as was his exploration of unsanitary places such as ancient cemeteries and old ancestral houses, some in a state of complete abandonment. He spent time inside these shadowy corners, observing for hours some detail that only his macabre perception could detect: a furtive shadow, a crack on a tombstone or a tiny lichen growing on the marble.

The few to whom he confided about these "walks" remember Pickman nostalgically recounting such explorations. Night was his natural ambiance, and his eyes became familiar with the most bleak surroundings, even when immersed in complete darkness, or so they said. These experiences shaped Pickman's deep sensitivity to portray the unusual and a clinical eye for everything that is bizarre, abject and disturbing to most.

Whatever his source of talent, Pickman undeniably displayed remarkable virtuosity. On his journeys he always carried a notebook with him in which he drew what he saw and catch his interest. The few pages that remain from this period show the ruins of old colonial houses, the wild heather growing in a neglected garden or the cracked headstones of an old cemetery.


When the time came, Pickman decided to leave Providence to attend the University of Minneiska in Wisconsin. At that time, Minneiska already had a community of bohemians fascinated by romanticism and decadence. Modern realist styles divided opinion among critics, but Pickman was in no doubt. Contact with poets fond of Lord Byron's melancholy poetry took their morbid instincts to a new level, that and possibly absinthe nights. However, the raw realism of Pickman's canvases made him shunned by fellow students.

He became something of a hermit among his peers. Criticized for excessive style and controversial canvases that shocked some teachers and several colleagues. Yet his brilliance was undeniable.

Upon completing his studies, Pickman settled in the city of Boston. He immediately began producing his work in the small house he rented in the North End. There he owned a loft in which he spent most of his time, except when he went out at night to roam like a lost soul in search of inspiration. Pickman used to carry a camera with which he recorded scenes, objects and people who served as his models. He recorded several peculiar figures he encountered on the streets of Boston, the destitute, the poor and the excluded. He used these models as a reference for his works, giving the real figures a fantastical aura. Beggars became monsters, harlots turno into witches, and desperate outcast, creatures of the night.

It is from this period the series of oil paintings known as "Sacrifice" in which Pickman presents his vision of religion. A good part of these canvases stem from his explorations of religious missions in which the artist found the figures he wanted to portray from his particular point of view. Several of these works were criticized and met with enormous resistance from the public. In an exhibition held at the famous Tuttle Gallery, one of Pickman's paintings was even vandalized by a visitor scandalized by its depiction of the nativity. Pickman had no particular disdain for religion, but he saw himself as a materialist willing to break away from formalities.

Pickman's art shocked, but attracted the attention of an audience interested in his transgressions. His following series, clearly inspired by the techniques of Henry Fuseli and Gustav Doré, were more successful, but did not guarantee the young artist financial return.


Although the public welcomed his next collection, called "uncommon glimpses", it is said that some of his canvases were acquired by art collectors. At that time, the family business, always affluent, began to show signs of wear off. Pickman moved to a modest atelier and began to supplement his income by teaching aspiring painters.

There are rumors that he was once hired to portray a high society lady. The result, however, insulted the model to such an extent that his employer buried what little reputation he had cultivated over the years. For a time Pickman was part of the Boston Art Club, but was eventually forced to leave the association by pressure from some of his peers who were said to be anoyed by the lewd canvases he produced. The "Nature of the Grave" collection featured a series of canvases showing naked and dissected corpses, these works are said to have been recorded after his visits to the Boston Medical Examiner's Office.

It would be the next collection that, however, would cause the greatest controversy and launch the name of Richard Pickman as one of the most provocative artists of his generation. Pickman, around 35 years old, reached the height of his creative maturity by painting a long-running series called "The Worms of Earth".

One canvas in particular was acquired by notorious Arkham occultist Cabot Jenkins shortly before he passed away under mysterious circumstances. Rumor has it that the controversial British mystic Alesteir Crowley considered Pickman to portray him. According to some, Crowley confided that only the painter would be able to capture his true essence. True or not, it is unlikely that Pickman and Crowley ever met in person.


Pickman's fame among scholars of the "occult sciences" is confirmed by letters written by himself: "I feel very close to this circle of so-called exotic people. Perhaps because they can understand what I want to achieve in my works." he once wrote to his art dealer. Some people who visited his studio commented that he kept strange paraphernalia linked to the occult and that he spoke on the subject as an authority.

In 1925, Pickman sold the painting "Salome" to poet Edward Pickman Derby (a distant relative) who in turn gave it to his fiancée Asenath Waite shortly before they were married. Asenath was recognized as an occult scholar and a woman "ahead of her time". The painting is said to have earned a place of honor at the couple's Crownshield estate.

Pickman's artistic output has always been questioned. For some he rarely finished a work, for others the walls of his studio on Grimanci street were always full of canvases. Some claim that the painter kept another loft in downtown Boston for a time and spent most of his time there. These same colleagues have hinted that several of Pickman's paintings were kept in this secret studio and are still waiting to be discovered.

In 1928, Richard Upton Pickman disappeared from his house in Boston, along with several of his canvases. Some believe he committed suicide as his career had been stagnant for some time. Others believe that the painter had simply given up his artistic career and sought the public's acquiescence in another activity.

A more bizarre explanation was given by the medium Anita Gershwin in 1932 who cryptically stated that "Pickman had reached another state of consciousness, something he could only scratch at in his provocative works".


We may never known the truth, for his whereabouts are never heard again.

In the decades that followed the artist's mysterious disappearance, some signed paintscontinued to appear. All of them with the peculiar painter's trademark: the aura of morbidity and corruption. Whether the canvases were painted by a forger or not is a matter of dispute, but it is a fact that they continued to appear. Specialists points to a similar style, but agree with new elements and techniques.

Pickman represents only a footnote in the history of American painting, at least until it was rediscovered in the 1960s by exponents of the counterculture movement.

In 1967, the famous cultural agitator Noah Crysholm organized an exhibition with eight paintings by the artist that were part of his private collection. The show was a huge success having been shown in New York and for some time in San Francisco. Pickman's visceral style was perhaps too much for its time, but in the turbulent 60's, fueled by rebelliousness and extravagance, they found full recognition.

In 1969, a painting by Pickman called "The Supper of the Damned" was acquired by demonologist and founder of the Church of Satan, Anton LaVey. In 1973 one of his works exhibited at the Museum of Modern Art in Boston was damaged by a former seminarian who threw acid on the canvas. The man, considered mentally disturbed, claimed that the work was an affront in the eyes of God. Despite the drastic action, the screen remained on display for a few more months until it simply disappeared.


In 1981, Pickman gained evidence once again through letters sent by the serial killer known as "The Butcher of French Hill". The killer, who leave a trail of death in the Arkham region with eight victims, claimed in one of the letters he sent to police that he killed to honor the genius of Richard Pickman. The letter sparked yet another Pickman fever in New England and sparked a controversial exposure called inopportune by the victims' families. The identity of the killer remains to this day, unknown.

More recently, Pickman has become an attractive name for collectors and dealers. He seems to have gained special appreciation in the European market, which has been avidly consuming his canvases, paying fortunes for works by a relatively obscure artist.

With so many twists and turns in his career, Pickman still seems to spark controversy and interest in the avant-garde of art. It is quite possible that his work will be rescued once more, and return hungry, to shock and amaze new generations.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Artista do Macabro - A incômoda biografia de Richard Pickman

 

Richard Upton Pickman é sem dúvida um dos mais memoráveis personagens criados por H.P. Lovecraft. Protagonista do fantástico conto "O Modelo de Pickman" (Pickman's Model), Richard era um artista, um pintor cujo apuro artístico o conduziu através de uma busca incessante por inspiração. Sua musa inspiradora, no entanto, era a morbidez, que finalmente despertou nele terríveis necessidades e deu início a horrenda transformação de Homem em Carniçal.

O texto a seguir simula uma matéria de revista de arte em que a carreira de Pickman é examinada.

Artista do Macabro

Um ensaio sobre o polêmico Richard Pickman

No panorama da arte atual, a polêmica ganhou destaque graças a expoentes como Francis Bacon e Anuard Janeau. Mas um dos mais controversos artistas americanos surgiu bem antes.

Richard Upton Pickman nasceu em Providence, no coração da Nova Inglaterra no ano de 1884. Membro de uma família aristocrática, o dinheiro jamais foi problema para os Pickman naturais de Rhode Island. A fortuna fluiu a partir de negócios bem sucedidos realizados ao longo do século XIX quando um antepassado direto assinou contratos vantajosos com a União durante a Guerra Civil. 

Livre de dificuldades financeiras, o jovem Richard pode se dedicar inteiramente a carreira artística, ainda que tenha estudado o currículo básico de arquitetura e engenharia. Ainda um neófito no mundo das artes, ele já demonstrava um invejável domínio de técnica e talento inato para retratos e paisagens. Mesmo em seus primeiros trabalhos ficava evidente a habilidade do jovem artista em compor trabalhos de natureza lúgubre com cores fortes e traços marcantes. A medida que os estudos avançavam, o rapaz  ganhou certa notoriedade pelas telas retratando paisagens ermas e panoramas igualmente sinistros. 


Os poucos parentes e amigos que tiveram contato com Pickman o descreviam como um jovem excêntrico, fascinado pela obscura história colonial, em especial, da infame Caça às Bruxas que varreu a Nova Inglaterra. Pickman contava que uma antepassada foi uma das acusadas nos julgamentos de bruxaria. Tal passado não lhe causava constrangimento, pelo contrário, ele manifestava enorme orgulho, visto que essa antepassada - uma bisavó do ramo materno, diferente de muitas mulheres injustamente acusadas, era de fato, uma feiticeira. Pickman chegou a estudar a árvore genealógica desse ramo familiar afirmando que era um antepassado direto da mulher.  

Aqueles que o conheceram na Universidade de Belas Artes afirmam que seus hábitos eram incomuns, para dizer o mínimo. Suas caminhadas por florestas escuras, em busca de inspiração eram bem famosas, bem como sua exploração a locais insalubres como cemitérios antigos e velhas ancestrais, algumas em estado de completo abandono. Passava horas no interior desses recantos sombrios, observando por horas à fio algum detalhe que apenas sua percepção pelo macabro podia detectar: uma sombra passageira, um vislumbre sobre uma lápide ou um diminuto líquen em crescimento na pedra.

Os poucos a quem ele fez confidencias sobre esses "passeios" se recordam de Pickman narrando com ares nostálgicos tais explorações. A noite era seu ambiente natural e seus olhos se familiarizavam com os ambientes mais ermos, mesmo quando imersos na mais completa escuridão, ou assim diziam. Teriam sido essas experiências que moldaram em Pickman sua profunda sensibilidade em retratar o incomum e um olho clínico para tudo aquilo que é bizarro, abjeto e perturbador para a maioria.

Seja qual for a origem de seu talento, Pickman inegavelmente demonstrava um virtuosismo notável. Em suas jornadas ele sempre carregava consigo um caderno no qual desenhava aquilo que via e que despertava seu interesse. As poucas páginas que restam desse período evidenciam ruínas de antigas casas coloniais, as urzes selvagens crescendo em um jardim mal cuidado ou as lápides rachadas de um velho cemitério.


Quando chegou à maioridade, Pickman decidiu deixar Providence com intuito de estudar na Universidade de Minneiska no Wisconsin. Nessa época, Minneiska já contava com uma comunidade de artistas boêmios, fascinados pelo romantismo e pela decadência. Os estilos realistas modernos dividiam opiniões entre os críticos, mas Pickman não tinha dúvida alguma. O contato com poetas aficionados pela poesia melancólica de Lord Byron alçou seus instintos mórbidos a um novo patamar, isso e possivelmente as noites regadas a absinto. Contudo o realismo cru das telas de Pickman fizeram com que ele fosse evitado pelos colegas de curso.

Tornou-se uma espécie de eremita entre os seus pares. Criticado pelo estilo excessivo e pelas telas polêmicas que chocaram alguns professores e vários colegas. Ainda assim era inegável seu brilhantismo. 

Ao completar os estudos, Pickman se estabeleceu na cidade de Boston. Imediatamente ele começou a produzir seus trabalhos na pequena casa que alugava em North End. Lá ele possuía um loft no qual passava a maior parte de seu tempo, exceto quando saia à noite para vagar como uma alma perdida em busca de inspiração. Pickman costumava carregar consigo uma câmera com a qual registrava cenas, objetos e pessoas que lhe serviam de modelos. Ele registrou várias figuras peculiares que encontrou nas ruas de Boston, os destituídos, os pobres e os excluídos. Usava esses modelos como referência para seus trabalhos, conferido às figuras reais uma aura fantástica. Mendigos se tornavam monstros, prostitutas bruxas e marginais criaturas desesperadas. 

É dessa época a série de telas à óleo conhecidas como "Sacrifício" em que Pickman apresenta sua visão da religiosidade. Boa parte dessas telas decorrem de suas explorações pelas missões religiosas na qual o artista encontrava as figuras que desejava retratar sob sua ótica particular. Várias dessas obras foram criticadas e encontraram enorme resistência por parte do público. Em uma mostra realizada na famosa Galeria Tuttle, um dos quadros de Pickman chegou a ser vandalizado por um visitante escandalizado pela sua representação da natividade. Pickman não tinha desdém particular pela religião, mas via a si mesmo como um materialista disposto a romper com as formalidades.

A arte de Pickman chocava, mas atraia a atenção de um público interessado em suas transgressões. Sua série seguinte com clara inspiração nas técnicas de Henry Fuseli e Gustav Doré foram mais bem sucedidas, contudo não garantiram ao jovem artista fama ou retorno financeiro.


Embora o público tenha recebido friamente sua coleção seguinte, chamada "Olhares Fúgidos",  comenta-se que algumas de suas telas foram adquiridas por colecionadores de arte. Nessa época, os negócios da Família, sempre afluentes começaram a dar sinais de desgaste. Pickman se mudou para um atelier mais modesto e passou a complementar seus rendimentos dando aulas para pintores aspirantes. 

Existem rumores que certa vez, ele foi contratado para retratar uma senhora da alta sociedade. O resultado, no entanto, insultou a modelo de tal forma que sua contratante enterrou a pouca reputação que ele havia cultivado ao longo de anos. Por um tempo Pickman fez parte do Clube de Arte de Boston, mas eventualmente foi forçado a se desligar da associação por pressão de alguns de seus colegas que se diziam chocados pelas telas obscenas que ele produzia. A coleção "natureza da Campa" trazia uma série de telas mostrando cadáveres nus e em estado de dissecação, dizem que estas obras foram registradas após visitas dele ao Instituto Médico Legal de Boston.

Seria a coleção seguinte que no entanto causaria a maior polêmica e lançaria o nome de Richard Pickman como um dos artistas mais provocativos de sua geração. Pickman com cerca de 35 anos atingiu o auge de sua maturidade criativa assinando uma longa sequência chamada "Vermes da Terra".

Uma tela em especial foi adquirida pelo notório ocultista de Arkham, Cabot Jenkins pouco antes deste falecer sob circunstâncias misetriosas. Houve rumores que o igualmente polêmico místico britânico, Alesteir Crowley considerou Pickman para retratá-lo. Segundo alguns, Crowley confidenciou que apenas o pintor seria capaz de captar a sua verdadeira essência. Verdade ou não, é pouco provável que Pickman e Crowley tenham se encontrado pessoalmente.


A fama de Pickman entre estudiosos das "ciências ocultas" é confirmada por cartas escritas por ele próprio: "Sinto uma grande proximidade com esse círculo de pessoas ditas exóticas. Talvez pelo fato delas poderem compreender o que quero demonstrar em minhas obras." escreveu certa vez ao seu marchand. Algumas pessoas que visitaram seu ateliê comentam que ele mantinha uma estranha parafernália ligada ao ocultismo e que conversava sobre o tema como autoridade.  

Em 1925, Pickman vendeu o quadro "Salomé" ao poeta Edward Pickman Derby (um parente distante) que por sua vez o ofereceu a noiva Asenath Waite, pouco antes deles casarem. Waite foi reconhecidamente uma estudiosa de ocultismo e uma mulher "a frente de sua época". O quadro segundo consta ganhou um lugar de honra na propriedade do casal em Crownshield.

A produção artística de Pickman sempre foi questionada. Para alguns ele raramente terminava uma obra, para outros as paredes de seu ateliê na Rua Grimanci estava sempre cheio de telas. Alguns afirmam que o pintor manteve por algum tempo outro loft no Centro de Boston e que lá passava a maior parte de seu tempo. Esses mesmos colegas insinuaram que várias telas de Pickman teriam sido guardadas nesse estúdio secreto e que ainda aguardam serem descobertas.

No ano de 1926, Richard Upton Pickman desapareceu de sua casa em Boston, junto com várias de suas telas. Alguns acreditam que ele tenha cometido suicídio, pois sua carreira estava estagnada há tempos. Outros acreditam que o pintor tivesse simplesmente desistido da carreira artística indo buscar em outra atividade a aquiescência do público.

Uma explicação mais bizarra foi concedida pela medium Anita Gershwin em 1932 que afirmou enigmaticamente que "Pickman havia atingido outro estado de consciência, algo que ele apenas conseguia arranhar em suas provocantes obras".


A verdade talvez nunca se venha a saber, pois nunca mais se ouviu falar de seu paradeiro.

Nas décadas que se seguiram ao misterioso sumiço do artista, algumas telas assinadas continuaram aparecendo. Todas elas com a marca registrada do peculiar pintor: a aura de morbidez, corrupção e morbidez. Se as telas foram pintadas por um falsário ou não, é matéria de discussão, mas constitui um fato que elas continuaram aparecendo. Especialistas divergem apontando para um estilo similar, mas concordam com a existência de elementos novos nas técnicas.

Pickman representa tão somente uma nota de rodapé na história da pintura norte-americana, ao menos até ser redescoberto nos anos 60 por expoentes do movimento da contracultura.

Em 1967, o famoso agitador cultural, Noah Crysholm organizou uma mostra com oito quadros do artista que integravam sua coleção particular. A mostra fez enorme sucesso tendo sido exposta em Nova York e por algum tempo em San Francisco. O estilo visceral de Pickman talvez fosse demais para a sua época, mas nos turbulentos anos 60, regados a rebeldia e extravagância eles encontraram pleno reconhecimento.

Em 1969, um quadro de Pickman, chamado de "A Ceia dos Malditos" foi adquirido pelo demonologista e fundador da Igreja de Satã, Anton LaVey. Em 1973 de suas obras exposta no Museu de Arte Moderna de Boston foi danificada por um ex-seminarista que atirou ácido na tela. O homem, considerado mentalmente perturbado alegava que a obra era uma afronta aos olhos de Deus. Apesar da ação drástica, a tela continuou em exposição por mais alguns meses até simplesmente desaparecer.


Em 1981, Pickman ganhou evidência uma vez mais através das cartas enviadas pelo assassino em série conhecido como "O Açougueiro de French Hill". O matador, que espalhou um rastro de morte na região de Arkham, deixando oito vítimas afirmou em uma das cartas que enviou à polícia, que matava para homenagear o gênio de Richard Pickman. A carta provocou mais uma febre de Pickman na Nova Inglaterra e motivou uma polêmica exposição chamada de inoportuna pelas famílias das vítimas. A identidade do assassino permanece até hoje, desconhecida.

Mais recentemente, Pickman tornou-se um nome atraente para colecionadores e marchands. Ele parece ter obtido especial apreciação no mercado europeu que vem consumindo avidamente suas telas pagando verdadeiras fortunas por obras de um artista relativamente obscuro.

Com tantas reviravoltas em sua carreira, Pickman parece ainda despertar controvérsia e interesse na vanguarda da arte. É bem possível que sua obra seja resgatada uma vez mais, e retorne faminta, para chocar e maravilhar as novas gerações.

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

O Gabinete de Curiosidades de Guilhermo del Toro - Resenha da Antologia de Horror do Netflix


Não há nada de novo nas antologias de terror que se tornam séries de televisão, elas são populares desde os anos 50, com "Além da Imaginação" e "Além dos Limites", passando por clássicos como "Amazing Stories" "Tales from the Crypt" e títulos mais recentes como "Channel Zero" e "Mestres do Horror". 

As antologias estão fazendo um retorno de sucesso através de séries de sucesso mais recentes como "American Horror Stories", "Love, Death + Robots", "Creepshow" e muitas outras que estão no ar. O melhor das antologias é sua capacidade de oferecer um amplo espectro de talentos em histórias sem conexão. Há uma possibilidade de se reinventar a cada episódio e de oferecer algo novo e fresco aos mais variados tipos de público.

Entra em cena o diretor mexicano Guillermo Del Toro, um amante apaixonado pelo cinema e pelo Gênero do Terror. Ele emprestou suas habilidades a muitos grandes diretores e projetos ao longo de sua bem sucedida carreira. A grande quantidade de filmes que incluem seu nome nos "agradecimentos especiais" é prova disso, assim como os relatos de colegas diretores como James Cameron e Ana Lily Amirpour à respeito de sua bondade e disposição em ajudar. Pergunte a quem quiser, Del Toro é um cara legal!

Seu interesse em expandir os horizontes do Horror, seja no papel de diretor ou de produtor, é genuíno. Pensando nisso, o projeto para uma série antológica sempre esteve entre os seus planos: uma produção que reunisse episódios escritos e dirigidos por jovens talentos e nomes promissores. Ele trabalhou essa ideia por anos, amadurecendo a proposta até obter sinal verde. 

O resultado é "Guilhermo Del Toro Cabinet of Curiosities", uma antologia composta de oito episódios que está à disposição na plataforma do Netflix. A série é vagamente baseada na premissa de um Gabinete de Curiosidade, que historicamente eram salas onde se guardavam coleções de objetos bizarros, exóticos, perturbadores ou raros. Esses gabinetes eram uma maneira de preservar os enigmas do mundo numa época em que a ciência era incapaz de compreender tudo aquilo que nos cercava. A premissa encaixa muito bem na proposta da série, já que cada episódio, assim como os itens de uma coleção de Curiosidades, é único e extraordinário.     


Del Toro em pessoa surge como o apresentador das histórias, andando pelo seu gabinete barroco falando algumas breves palavras que nos preparam para a narrativa à seguir. Esse tipo de introdução se tornou popular em séries como Além da Imaginação, mas é em Galeria do Terror (série dos anos 1970) que reside a melhor comparação. Como o Curador de um Museu Fantástico, Del Toro fornece algumas pistas sobre o curta metragem à ser apresentado e seu Diretor. 

Sua presença é encantadora, mas apesar de seu nome estar no título, Del Toro não é o foco da série. Ele cede o palco quase que instantaneamente para o diretor convidado assumir o show e mostrar à que veio. Eu adoraria poder vê-lo um pouco mais, mas faz sentido ele ser apenas o Mestre de Cerimônias do Circo aterrorizante que está para vir em seguida. 

Conforme exposto, cada episódio é dirigido por alguns dos melhores nomes que trabalham no terror hoje em dia (juntamente com algumas ótimas surpresas). O repertório variado oferece atores conhecidos e uma produção de excelente qualidade. As histórias são muito diferentes, mas combinadas fornecem alguns insights sobre a natureza da posse, propriedade e coleta.

Alguns episódios são genuinamente assustadores, e quase todos fazem uso de terror atmosférico de bom gosto e qualidade. O apuro visual é notável e cada curta metragem, graças ao orçamento do Netflix, tem visual e acabamento de um longa metragem. Efeitos digitais, trilha sonora, cenografia, maquiagem... toda a parte técnica é muito bem feita e merece aplausos.

Mas e quanto aos episódios em si? Quais deles merecem maior atenção? Como ocorre em todas antologias, a qualidade varia, com alguns pontos altos e outros nem tanto. Vejamos à seguir, quais são as histórias que compõem o Gabinete de Curiosidades do Senhor Del Toro.

LOTE 36 

O Lote 36 abre o Gabinete de Curiosidades com um desempenho muito forte em um episódio infelizmente fraco. O excelente Tim Blake Nelson, está maravilhoso como um sujeito raivoso cujo desespero e misantropia estão sempre prestes a atingir fervura máxima. Com uma dívida vencida e o prazo final se aproximando, ele compra um depósito num leilão, na esperança de encontrar alguns itens caros que possa passar adiante. O que ele encontra, porém, pode ser perigosamente diabólico.

O roteiro assinado por Del Toro garante alguns bons momentos. Eu gostei especialmente dos acenos lovecraftianos na história, com direito a tomos malignos, além de personagens coadjuvantes sinistros dispostos a tudo para conseguir itens para suas coleções. E também há um monstro bastante bizarro e interessante! 

O responsável pelo episódio é Guillermo Navarro, um mestre na direção de fotografia, detentor de um Oscar por O Labirinto do Fauno. Ele sabe como ninguém filmar a escuridão, o que ajuda muito nos corredores claustrofóbicos do depósito e da unidade de armazenamento. No entanto, se visualmente o episódio é impecável, mas deixa a desejar no que diz respeito ao ritmo e conclusão um tanto óbvia.

RATOS DO CEMITÉRIO


Graveyard Rats é o primeiro vislumbre de quão incrivelmente divertido gabinete de Curiosidades pode ser quando tudo está funcionando bem. O episódio mais curto da série apresenta um pilantra  maravilhosamente desavergonhado que também tenta pagar uma dívida prestes a prescrever. Sua família possui uma casa funerária e cemitério há gerações, então ele rouba os túmulos para pagar o que deve. Seu cemitério parece ter um problema com ratos que insistem em levar seus cobiçosos tesouros antes que ele possa colocar suas mãos neles. Disposto a juntar a soma devida, ele se vê lutando contra roedores ferozes nos subterrâneos do cemitério, cercado de corpos, esqueletos e coisas mais estranhas.

O brilhante Vincenzo Natali (diretor de Cubo, Cypher, Splice) dirige Ratos de Cemitério com sua sutileza habitual e imaginação, escalando seu amigo de longa data e ator favorito David Hewlett no papel principal de Masson. O personagem é deliciosamente memorável, um homem de uma antiga família rica que fala docemente com todos, mas não consegue disfarçar o quão patético e corrupto se tornou. Assaltando túmulos e gritando com ratos, rezando por misericórdia sempre que está em apuros, ele é a personificação absoluta de um canalha.

Baseado no conto original de Henry Kuttner, além da divertida atuação, Ratos de Cemitério tem alguns momentos realmente assustadores entrelaçados com cenas mais cômicas. Os cenários, figurinos e efeitos são maravilhosos, resultando em uma pequena joia desagradável que explora a noção obsessiva de querer possuir algo para todo sempre.

A AUTÓPSIA


Sem dúvida um dos episódios mais revigorantes no Gabinete de Curiosidades, "The Autopsy" deixa claro em seu título o que os espectadores estão prestes a encontrar. O que seria de uma antologia de horror sem algumas imagens nauseantes, sanguinárias e gore? Afinal, tripas e sangue fazem parte do gênero e teriam que aparecer em algum momento. Não por acaso, esse é um dos segmentos mais angustiantes e interessantes da série, não perdendo tempo, colocando tudo no lugar para uma conclusão impressionante (e doentia). 

Inteligentemente dirigido por David Prior (de "O Homem Vazio"), ele foi escrito pelo brilhante roteirista David S. Goyer (de Dark City, Blade, The Dark Knight) com base num conto de John Shea.

Além de contar com uma ótima história, o episódio traz o lendário ator F. Murray Abraham que interpreta um legista recém chegado à uma pequena comunidade para investigar uma tragédia que vitimou vários operários de uma mina de carvão. Recebido pelo confuso chefe de polícia que tenta compreender o caráter bizarro do incidente, o personagem de Abraham é encarregado de abrir os corpos após a explosão e desabamento numa mina. Ele se aprofunda no mistério, ao mesmo tempo que revista as vísceras e entranhas humanas, sem imaginar o que o espera.

Algumas cenas surreais, uma conversa horripilante e uma autópsia bizarramente grotesca tornam essa um dos melhores segmentos da coleção. 

O EXTERIOR 


Dirigido por Ana Lily Amirpour (The Bad Batch, A Girl Walks Home Alone at Night) esse é sem dúvida um dos segmentos mais esquisitos de Cabinet of Curiosities. The Outside é até difícil de conceituar como terror, ainda que seja uma história incômoda que confronta questões sobre beleza, autoimagem e narcisismo. 

O episódio envolve uma funcionária de banco suburbana e feia, que tenta se encaixar entre outras colegas de trabalho. Para isso, ela utiliza um misterioso e revolucionário produto de beleza que promete fazer milagres não apenas para sua aparência, mas também personalidade. Kate Micucci é responsável por dar vida a personagem principal em busca da aceitação das colegas e de si própria, disposta a qualquer coisa para "se transformar em alguém diferente".

Filmado de forma incomum, com closes e cores berrantes, o visual chega a incomodar.  Alternando um estilo de humor ácido e pouco convencional, combinado a psicodrama, o episódio acompanha a deterioração da saúde mental de uma mulher que passa a sofrer alucinações com as promessas do hidratante mágico.

Não foi pra mim... Achei o resultado sofrível, se estendendo demais e terminando de forma abrupta, não que fosso melhor prolongar essa história.

O MODELO DE PICKMAN


Confesso que era esse o episódio que eu estava mais ansioso em assistir, mas o resultado é um tanto frustrante.

Trata-se de um drama de época elaborado pacientemente cujo horror vai crescendo até transbordar em um espetáculo de sangue e morte na reta final. Pickman's Model é uma das mais populares e horríveis histórias de H.P. Lovecraft, mesclando tabu e arte num mesmo caldeirão fervente de decadência e corrupção. O roteiro do episódio é um tanto quanto diferente, contemplando uma meditação sombria e melancólica à respeito da arte e do significado da beleza. Não é exatamente a proposta de Lovecraft que era bem mais direta em oferecer uma narrativa de horror gótico, quase homenageando Poe.

O Modelo de Pickman segue o premiado aluno de uma escola de arte (Ben Barnes) depois que ele encontra as horríveis pinturas de um misterioso colega de universidade, Richard Pickman. Interpretado por um Crispin Glover perfeitamente concentrado em uma daquelas performances que parecem estranhas demais para ser verdade, Pickman é um gênio artístico cujas pinturas mórbidas são capazes de levar as pessoas à loucura.

A interpretação afetada de Glover como um artista obsessivo, olhos semicerrados, comportamento nervoso e sabedoria sombria é a melhor coisa do episódio. Isso e as pinturas incrivelmente macabras e  belas que parecem causar um misto de fascínio e repulsa. Keith Thomas (diretor de The Vigil e Firestarter) faz um bom trabalho ao dar vida ao início do século XX e cria algumas cenas realmente tétricas, mas parece que falta alguma coisa na conclusão. Por pouco ele não sai da pista e capota ao insistir em mostrar aquilo que o conto original no qual ele se inspira, apenas sugere.

SONHOS NA CASA DA BRUXA


O ponto mais fora da curva infelizmente veio em uma das minhas histórias favoritas de H.P. Lovecraft, e também uma das mais aterrorizantes. Dreams in the Witch House já havia sido adaptado anteriormente em outra antologia chamada Mestres do Horror. O resultado naquela ocasião, se não era grande coisa, ao menos se aproximou muito mais do conteúdo original. Se essa versão tem um visual mais eficiente, o roteiro, por sua vez, deixa muito a desejar. 

Catherine Hardwicke (Treze, Crepúsculo, Chapeuzinho Vermelho) é conhecida por fundamentar histórias fantásticas e de terror juvenil de forma eficiente, mas aqui ela não foi feliz. Tudo soa familiar, sem graça e previsível. Os medonhos pesadelos vividos na Casa com ângulos não euclidianos se transformam em uma caça aos espíritos, focando no relacionamento de dois irmãos muito próximos, mas separados pela morte.
 
Rupert Grint, um tanto sumido desde o fim da franquia Harry Potter, faz o possível para transmitir alguma simpatia, mas esbarra novamente no roteiro frouxo que não lhe dá muito com que trabalhar. Ele interpreta um homem em busca de provas do sobrenatural para entrar em contato com sua irmã gêmea, cujo fantasma ele testemunhou ser sugado para alguma dimensão além. Através do uso de drogas e algumas investigações metafísicas, ele acaba encontrando uma casa decrépita que pode funcionar como portal para outra realidade. Infelizmente ele não percebe que forças malignas habitam essa morada e usarão seus planos em seu benefício.

Eu lamento que o episódio baseado em uma história verdadeiramente assustadora tenha se tornado um arremedo da ideia original. Todo o ar macabro e sinistro impresso no conto cede lugar a melodrama barato e uma correria sem sentido num tipo de floresta espiritual. Na minha opinião, é de longe o pior episódio da antologia.  

 A INSPEÇÃO


Panos Cosmatos (Beyond the Black Rainbow, Mandy) é considerado um dos diretores mais visionários da atualidade. Ele possui um estilo inigualável, então, é claro, seu episódio seria algo completamente diferente do restante dessa antologia de horror.

A Inspeção parece e soa deslocado em meio aos demais episódios que compõem o Gabinete, mas ironicamente ele talvez seja o mais fiel a proposta do tema que permeia toda série: obsessão para com objetos, colecionismo e desejo de possuir.

Panos conta uma história curiosa se passando em 1979, envolvendo um milionário que reúne quatro indivíduos, cada um deles brilhante dentro de sua área de atuação para participar de uma inspeção na qual um item único será apresentado. A ideia é que eles irão ajudar a interpretar o objeto em questão, cada um sob o ponto de vista de sua área. É claro, em se tratando de uma antologia de horror, a tal inspeção não irá ocorrer conforme eles esperam.

O episódio consegue segurar a atenção, atiçando a curiosidade do que vai acontecer a seguir, mesmo com um desenvolvimento lento. A Inspeção é muito bem feito, com visual retrô, sons, diálogos e atuações excelentes, sem mencionar os efeitos práticos que fazem o filme ter um a de produção dos anos 80.

Como quase tudo de Panos Cormatos (o roteiro também também dele), o importante é o visual e a essência. No fim o episódio termina sem explicar o que acabamos de ver o que pode ser frustrante, mas ao mesmo tempo convidativo ao espectador interpretar o que viu.

Estranho? Esquisito? Bizarro? Com certeza, mas mesmo assim, muito bom.
 
O MURMÚRIO


O episódio final da Antologia, Murmúrios, não fecha a série com uma explosão ou um cliffhanger, mas com um sussurro quase inaudível. De fato, é um dos capítulos mais tranquilos, ainda que haja algum espaço para jump scares razoáveis. A história também é mais tradicional, seguindo a premissa de uma história de fantasmas clássica, com direito a uma casa isolada, tragédias pessoais e assombrações tentando transmitir para os vivos as suas aflições. A grande sacada do roteiro é misturar a crença de que pássaros podem ser os condutores das mensagens do além.

O episódio segue um casal de ornitólogos (Essie Davis e David Lincoln) no início dos anos 50 que se dedicam a estudar os padrões comportamentais de uma espécie de pássaro. Eles se mudam para uma ilha deserta e passam a ocupar uma casa isolada à beira de um lago onde as aves costumam se reunir. Entre as gravações e filmagens dos animais, a personagem de Essie Davis começa a ouvir os pedidos de ajuda de uma criança e ter um vislumbre de algo sobrenatural. A dúvida principal é se ela está vendo algo realmente sobrenatural ou se está sofrendo alucinações agravadas por um trauma.

Dirigido por Jenifer Kent, a história se assemelha ao do seu filme mais conhecido, "O Babadook" no sentido de que também envolve uma mãe lidando com intensos horrores emocionais e tendo que superar tragédias pessoais. Para quem está interessado em horror, talvez a profundidade do drama seja um tanto incômoda, já que o terror é apenas um background para os acontecimentos mais importantes.

*     *     *

No geral, O Gabinete de Curiosidades de Del Toro oferece um leque de episódios que variam tanto na proposta quanto no interesse. É provável que a seleção de favoritos varie enormemente de pessoa para pessoa, já que cada episódio oferece uma abordagem diferente do gênero.

É inegável que tudo é muito bem feito, muito bem conduzido e muito bem executado. A competência com que cada episódio foi feito também não se discute, mas confesso que a minha expectativa estava muito alta. A alternância de bons episódios e episódios fracos, faz com que a série sofra de altos e baixos.

Se Gabinete de Curiosidades não é perfeita, não é um desapontamento ficando no meio do caminho. Veremos o que uma segunda temporada, mais coesa e quem sabe equilibrada terá à oferecer.


sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Horror no Hospital - Atos de Canibalismo em Hospital de Novo Hamburgo


De onde vem o Horror? O que realmente nos assusta? 

Às vezes, olhando para o que está à nossa volta, temos um vislumbre de cenas, eventos e acontecimentos apavorantes que ficam disfarçadas entre as notícias do cotidiano. Nada é mais pavoroso do que certas coisas que podem acontecer inesperadamente e quebrar a nossa normalidade.

Vamos tomar por exemplo uma notícia de alguns dias atrás que eu ponderei a respeito da veracidade, apenas para constatar mais tarde que realmente era uma notícia verdadeira e não mera fantasia sensacionalista. 

Segue a íntegra da notícia cuja manchete chama a atenção por si só. 

*    *     *

PACIENTE APAVORA HOSPITAL DE NOVA HAMBURGO 
Atos de Canibalismo em unidade de tratamento


NOVO HAMBURGO (RS) - É apavorante o relato de funcionários e acompanhantes de pacientes da unidade Águia do Hospital Municipal de Novo Hamburgo (HMNH). Um ex-presidiário de 24 anos, internado há 16 dias, vem praticando autocanibalismo e tenta morder aqueles que chegam perto dele. 

“Ele come a própria carne como se estivesse saboreando um churrasco”, contou uma cuidadora de idosos. Com medo que o homem se solte e ataque, visitantes fizeram abaixo-assinado pela transferência a uma clínica especializada. A administração do HMNH passou a mantê-lo sedado e trancado em quarto individual. Antes ele vinha sendo mantido preso com uma algema emprestada de um policial.

Segundo o hospital, o quadro é de surto psicótico agudo e esquizofrenia, incluindo automutilação. Morador de São Leopoldo com antecedentes criminais, o homem (cujo nome não foi divulgado) chegou em ambulância do Samu no último dia 9. Estava em um lar psiquiátrico no Vale do Sinos, que pediu sua remoção imediata em razão de violentas crises - eles não conseguiam garantir a segurança dos outros enfermos.

 O internado responde por delitos graves como tentativa de homicídio, roubos e receptação. Já teve que ser contido por surtos semelhantes quando era detento no sistema prisional e por conta dessas crises foi transferido anteriormente.

Acompanhantes e familiares de pacientes dizem que a vinda do paciente tornou o ambiente num "pesadelo". Os doentes da unidade, entre idosos e acidentados, passaram a não conseguir repousar em razão dos gritos constantes. O surto mais forte aconteceu na madrugada de segunda-feira segundo testemunhas. 

O paciente conseguiu se soltar da algema que o mantinha preso na grade da cama no dia 26/10. A Guarda Municipal teve que intervir e foram necessários três policiais para conter o homem. A confusão foi das 3 às 5 horas da madrugada e só foi contornada quando os policiais usaram armas de choque para incapacitar o agressor.

"Imagina se ele ataca os outros pacientes que estão acamados e incapazes de fugir? A vozinha que eu cuido está muito assustada. Mal dorme”, expõe uma testemunha.

Uma cena aterrorizante não sai da cabeça das pessoas que testemunharam a tentativa de fuga. No tempo que ficou sozinho no quarto, o homem mordeu, arrancou e comeu os próprios dedos dos pés e das mãos. 

"Enquanto mastigava a própria carne, dava para ouvir os estalos dos ossos na boca, que ele lambia. Era como se estivesse apreciando, enquanto encarava a equipe de enfermagem com olhar ameaçador. Dizendo que ia fazer o mesmo com quem se aproximasse".

Os Guardas Municipais felizmente não demoraram a chegar uma vez que estavam de prontidão desde a chegada do paciente. Mesmo assim, não é algo que se possa lidar.

"Foi uma das cenas mais medonhas que já vi em toda minha vida. Nós ficamos sem ação por alguns momentos", contou o Guarda da Brigada Militar.

Depois do ocorrido o paciente tem sido mantido controlado através de medicação pesada. Ele recebeu os primeiros socorros depois de ter arrancado 3 dedos em cada mão e ter perdido todos os dedos do pé esquerdo. Os ferimentos foram auto infligidos e ele comeu os dedos amputados. No processo de mastigação insólita ele também perdeu os dentes da frente.

"As enfermeiras e equipe de limpeza tomam todo cuidado e evitam passar na porta mesmo com o paciente sedado e amarrado ao leito. Ele não só tenta atacar, como xinga e cospe no pessoal.".

 Apesar da força que demonstra nos surtos, o paciente está em deterioração. O abaixo assinado feito pede a sua remoção imediata para outra unidade melhor aparelhada.

O comportamento autodestrutivo do paciente demandou socorro na Penitenciária Estadual de Canoas onde ele era mantido. Na madrugada de 29 de junho de 2019, carcereiros foram chamados por apenados, assustados com o comportamento de um companheiro de cela que se lesionava com fortes socos no rosto. Ele não parou com as "autolesões" mesmo durante a intervenção dos agentes. Bateu tanto em si que precisou de socorro médico. Esse episódio deixou cicatrizes e ferimentos permanentes.

A situação está sendo avaliada pela Secretaria de Saúde de Novo Hamburgo que estuda a melhor medida para proteger o interno e as pessoas à sua volta."

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Bem, esse é um bom momento para lembrar uma das máximas aqui do Mundo Tentacular:

"Nada no mundo da ficção é remotamente tão assustador quanto o que acontece no mundo real."

Boa noite e bom descanso para todos...