quarta-feira, 10 de maio de 2023

O Deus Rato - Resenha da HQ bizarra do mestre Richard Corben


Richard Corben foi nada menos que um gigante dos quadrinhos. Agraciado com o Will Eisner Award Hall of Fame, ele tinha status de lenda na criação de quadrinhos de terror e ficção científica. O cara já era considerado um gênio na década de 1960 e era praticamente uma divindade louvada por monstros sagrados da indústria das HQ até sua morte em 2020. 

Sua história Rat God (o Deus Rato) foi um de sues últimos trabalhos e provavelmente a contribuição definitiva do autor para o gênero Horror Cósmico

Misteriosa, densa, estranha e desconfortável... ela é ainda um conto de amor, civilização antiga e terror imponderável que combina o conhecimento dos nativos americanos e a mitologia de H.P. Lovecraft. E ainda por cima ela faz uma crítica contumaz sobre a faceta mais polêmica do Cavalheiro de Providence - seu Preconceito Racial. Não que Rat God seja uma narrativa que investe apenas na crítica social, muito pelo contrário! A trama finca os dois pés no terreno revolto do terror, construindo um roteiro vertiginoso que lembra um pesadelo. 

A trama acompanha um sujeito chamado Clark Elwood, um sofisticado acadêmico da Universidade Miskatonic, na fictícia Arkham. Embora seja pedante e egocêntrico até a raiz do cabelo, Ellwood se apaixona por uma mulher chamada Kito que ele conhece na universidade. Sua postura obstinada acaba fazendo com que o relacionamento entre em crise após um incidente embaraçoso no campus. Por consequência Kito acaba sumindo. Preocupado, o sujeito decide descobrir o paradeiro de sua amada. As pistas o conduzem a uma jornada pelo interior da Nova Inglaterra até um povoado isolado chamado Lame Dog, a cidade natal da mulher.


O lugar é uma daquelas típicas cidadezinhas lovecraftianas habitada por figuras bizarras envolvidas com segredos ancestrais e adoração de coisas indescritíveis na calada da noite. O passado do povoado como não poderia deixar de ser, é sinistro e envolve cultismo e bizarrice no mais alto grau. Ellwood obviamente dispensa todos esses indícios como superstição absurda de povos inferiores e parte em busca de Kito desafiando pessoas poderosas do local. É claro que ele vai se envolver numa bruta encrenca, descobrir coisas que não gostaria de saber e perder um caminhão de sanidade. Mais terrível ainda, ele vai acabar fazendo descobertas desconcertantes sobre sua própria origem.

Corben tece uma história verdadeiramente única, usando e abusando de elementos marcantes do reino Lovecraftiano, introduz a sabedoria dos nativos americanos amalgamada com o Mythos resultando numa história enervante. Após chegar a Lame Dog, a coisa vai se tornando cada vez mais estranha e o leitor fica incerto se aquilo realmente está acontecendo ou se o protagonista está simplesmente perdendo a razão.

A grande sacada da história é apresentar o "herói" como um sujeito excêntrico e intragável, perfeitamente inserido na visão de um mundo dividido entre os que mandam e os que obedecem, baseado na condição social e no perfil racial. Ellwood é inspirado na figura do próprio Lovecraft, um estudioso aristocrático que enxergava a si mesmo como o pilar da sociedade moderna. A maneira como o protagonista é tratado pelos seus opositores ao longo da trama, e as coisas que ele vê acabam operando mudanças profundas no seu ponto de vista.



A arte é nada menos que incrível! 

Corben é famosa pelas expressões faciais grotescas e exageradas de seus personagens. Aqui esse conceito é levado a extremos! Tudo remete a uma sensação incômoda, com pessoas herdando feições de animais e animais lembrando pessoas. Mesmo as paisagens e a natureza são carregadas de uma tensão claustrofóbica. O melhor, no entanto, é quando a história envereda pelo aspecto surreal do horror, abusando dos vislumbres de monstros e entidades medonhas para extrair o máximo de choque em situações limítrofes. 

Sem deixar o interesse cair em momento algum e com um ritmo impecável, Rat God é uma leitura vibrante da primeira até a última página. A conclusão dá uma nova guinada na trama e oferece um desfecho adequado para a jornada dos personagens. nenhum deles irá emergir incólume na outra margem. 

Para quem quer acompanhá-los e mergulhar em algo incomum e bizarro, essa é uma pequena obra prima de Horror Cósmico que só os quadrinhos conseguiriam transpor com tantos detalhes.

domingo, 7 de maio de 2023

O Som de Gritos - A Lenda do monstro das Falésias Brancas

 

Se você vivesse no território de caça de um monstro - no caso uma criatura sobrenatural desconhecida, você preferia saber ou não a respeito dela? É claro que iria querer... de preferencia antes de se mudar para o local.

Essa é uma das razões pelas quais pequenos jornais ainda são algo útil - além de reportagens sobre política local e esportes, eles mantém as pequenas cidades atualizadas sobre acontecimentos que numa esfera nacional não teriam muita importância, mas num contexto menor são de grande interesse. Tomemos por exemplo os rumores sobre criaturas assustadoras que fazem parte das lendas e rumores locais de pequenas cidades. A maioria das pessoas não se interessaria muito sobre o assunto, mas se você mora por ali poderia ficar mais do que interessado em ler sobre o Demônio de Jersey ou sobre o Homem Mariposa.  

Johnson City é uma pequena comunidade no estado americano do Tennessee, lar da Universidade do Leste do Tennessee e a casa de cerca de 80 mil pessoas. Essa tranquila cidadezinha e sua população conta com uma gazeta diária, o East Tennessean que cumpre a função de mantê-los informados sobre acontecimentos locais. 

Um dos assuntos abordados pelo East Tennessean menciona a lenda do Gritador das Falésias Brancas – um monstro barulhento e lendário que dependendo a quem você perguntar pode ser uma criatura feroz ou um tipo de lobisoemen que escapou de um trem de circo itinerante. Lenda urbana ou monstro real? Felizmente, a Gazeta East Tennessean está aqui para nos informar.

"Essa é uma região histórica e muito antiga. Colhemos muitos relatos sobre coisas incomuns, mas o Gritador das Falésias Brancas se tornou algo recorrente nas redondezas. É um monstro enorme, uma besta selvagem e aterrorizante. Temos muitas pessoas que ouvem seus gritos na área e vem até nós para relatar a experiência."

Apesar da maioria das pessoas duvidar da existência de um "monstro" em Johnson City, as histórias sobre essa criatura se espalharam de tal maneira que influenciaram até os preços dos imóveis na região. O lendário Monstro das Falésias Brancas, também chamado simplesmente de Gritador Branco obteve enorme repercussão graças ao envolvimento de critozoologistas e investigadores do paranormal que parecem ter eleito a criatura um dos casos mais interessantes dos últimos tempos. Ele foi o tema de pelo menos uma dúzia de programas de televisão sobre criptídeos na última década, sem contar os inúmeros episódios produzidos para a internet. 


O Gritador Branco se tornou tão popular que começou a atrair visitantes interessados naquilo que a  maior parte dos habitantes sempre desejou evitar - contato com a criatura. O parque de camping do município recebe um número crescente de visitantes e curiosos que vem de longe para conhecer o local que o misterioso ser escolheu para viver. As autoridades de Johnson City chegaram a ter problemas quando pessoas se embrenharam nas matas densas e se perderam à procura da insidiosa entidade.

Mas o que exatamente é o Gritador Branco? De onde veio esse mito e será que ele tem algum fundo de verdade?

A busca pela origem do monstro encontra vários caminhos e hipóteses. A primeira alternativa envolve a tradicional história de uma família visitada por uma tragédia sem precedentes.

O historiador não oficial da cidade Tony England, conta ao The Tenneseean a história que já completou um século e que sempre foi muito popular entre os moradores. Ela começa com um casal e seus sete filhos que viviam nas profundezas da floresta, numa região chamada Trace Creek. A família contou a amigos e parentes que ouvia frequentemente estranhos gritos no meio da madrugada. Sons de um animal grande que os deixava em um estado de terror noite após noite e cuja origem eles não conseguiam determinar. Os gritos, que estavam mais para urros ou uivos, dependendo a quem você perguntar, eram tão apavorantes que as pessoas na casa não conseguiam dormir.

No final das contas, o marido decidiu dar um fim naquela situação. Ele pegou uma espingarda e foi para a floresta descobrir o que estava provocando aqueles gritos. Ele decidiu se afastar e montar guarda na mata até ouvir os gritos e então segui-los até o que quer que estivesse os causando. O plano parecia bom e como previsto, por volta da alta madrugada ele começou a ouvir a gritaria de sempre. O sujeito, um caçador experiente conseguiu seguir os ruídos, mas então, em um sobressalto percebeu algo apavorante: os sons vinham de sua própria casa, onde ele havia deixado a esposa e os filhos. Quando ele finalmente conseguiu retornar, encontrou os membros de sua família mortos - de acordo com a maioria das versões, despedaçados por garras e presas selvagens. Para completar a tragédia, o pai, tomado por desespero terminou colocando o cano da espingarda na boca e explodiu os próprios miolos.


Segundo Tony England, a casa onde essa família viveu ainda existe nas profundezas de Trace Creek. "É uma ruína, a floresta reclamou tudo e cobriu o lugar". 

Mas será que essa história é real? Há alguma possibilidade dela ser real ou tudo não passa de simples lenda urbana?

Johnson Town foi fundada em 1806 então com o nome de White Bluff (as tais Falésias Brancas que cobrem a região) e se tornou uma pequena cidade em meados de 1920. Antes ele era um forte que protegia a região Sudeste  do Tennessee contra ataques de nativos que ainda viviam na área. Palco de massacres e incidentes típicos do período colonial, a região conheceu seu quinhão de violência. Durante a Guerra Civil, o forte se tornou importante para o Exército da União que o usava para distribuição de munições e equipamento. Uma estrada de ferro chegou até o local que então se desenvolveu num povoado. A White Bluff Iron Forge, uma usina siderúrgica, deu aos moradores locais um lugar para trabalhar e a cidade se desenvolveu com vários negócios mercantis e uma serraria.

Não há nenhuma menção na história da cidade ao massacre na floresta. Nenhum registro, ainda que o primeiro semanário tenha surgido apenas em 1930. A tragédia teria ocorrido em meados de 1890, quando o lugar não era mais que um assentamento, o que explicaria ele jamais ter alcançado grande repercussão. Por outro lado, o massacre de uma família inteira em circunstâncias misteriosas dificilmente passaria batido. England diz que as pessoas preferiam não falar sobre a tragédia. Uma maneira de ignorar um terror do qual ninguém teria como se proteger...

Verdade ou rumor, é inegável que a história é famosa hoje em dia. Assim como os relatos sobre gritos vindos da floresta próxima. 


Um dos primeiros registros sobre o Gritador data de 1946, ano em que a Gazeta que precedeu o Tennenseean publicou a história. O artigo mencionava que moradores da área ouviam o som recorrente do que alguns arriscavam dizer, parecia uma mulher enlouquecida. Duas testemunhas da algazarra se referiam ao som como similares ao de um animal de grande porte sofrendo horrivelmente. O artigo termina sem uma conclusão clara sobre o que seriam os ruídos noturnos, apenas a constatação que não era a primeira vez que os urros ecoavam pela mata.

Nas décadas seguintes, à medida que a lenda crescia, testemunhas que foram corajosas o suficiente para investigar os gritos afirmaram ter visto uma forma enorme coberta por névoa branca aparecer pouco antes dos gritos angustiantes começarem novamente. Segundo algumas versões, quando a testemunha constatava que seus familiares e amigos não acreditavam nela, eles a levavam ao local onde a criatura habitava.

Essa lenda ganhou força na década seguinte. Johnson City, já com seu nome atual ganhou fama de ser o lar de uma ser bizarro, um mostro que espreitava pela mata e cuja existência se comprovava pelos sons medonhos que ele produzia. Havia histórias sobre lenhadores que ouviram os gritos e que quando foram investigar sua origem acabaram atacados e despedaçadas pela besta monstruosa. 

Provavelmente foram esses rumores que ganharam fama nos anos 1960 e acabaram associados com a lenda do lobisomem. 

Essa lenda segue outro caminho e merece ser citada. Segundo ela, um trem do circo sofreu um acidente em meados de 1950 e alguns animais selvagens fugiram após um grande descarrilamento. Tony England entrevistou o residente local Fred Stacey (95 anos em 2018), que disse ser um dos que acreditavam na lenda do animal fugitivo. Stacey defende, no entanto, que a fera não era um animal comum, e sim um homem atormentado com a maldição da licantropia. Alguém que era mantido prisioneiro e apresentado como uma aberração circense. 


Isso encaixaria com as histórias que terminam com pessoas sendo mortas e seus corpos surgindo dilacerados. Há inclusive um grande acidente ferroviário que ocorreu em 1947, quando uma composição descarrilou fazendo vítimas fatais, contudo não há menção alguma sobre o trem estar transportando animais selvagens de um circo.

Uma terceira teoria sobre a origem do monstro das Falésias Brancas mistura elementos das duas lendas anteriores.

Nela, um homem bom, o pai de uma família com sete filhos vivia na floresta e tinha uma vida normal. Certo dia, quando cortava caminho pela floresta ele é atacado por uma criatura estranha, um Lobo ou uma fera que quase o mata. Embora ele consiga sobreviver, a criatura transmite a ele sua maldição de selvageria. Ele começa a sentir esses estranhos efeitos, uma raiva cada vez maior, um terror palpável e uma fome cada vez maior por carne.

A família tenta ajudá-lo, ele consegue conter a fera dentro de si por algum tempo, mas em dado momento ela vem à tona. O que se segue, é um banho de sangue... um massacre no qual a família inteira é retalhada pela ferocidade do monstro.

Na manhã seguinte à chacina, o sujeito acorda sem lembrar do que aconteceu. Ele se depara com o que restou dos filhos e da esposa - feitos em pedaços pelas garras de um monstro. Ele grita e se desespera, jurando vingança contra o maníaco responsável por aquilo. Mas então percebe que está coberto de retalhos sangrentos e que em sua boca há gosto de sangue. Em flashes ele vai montando na sua mente uma cronologia do que aconteceu e entende que foi ele quem causou aquela tragédia. Tomado pelo desespero ele deixa a casa em ruínas e se esconde na floresta. O som dos gritos que ecoam pela noite seriam o lamento do homem amaldiçoado, condenado a vagar pela mata com a culpa pela morte de sua família. Contudo, mesmo sendo uma figura trágica, o monstro não conseguia conter a sua fúria e de tempos em tempos fazia alguma vítima. 


Então, com tantas histórias e lendas, o que seria o Gritador Branco das Falésias? Poderia existir uma criatura misteriosa vivendo nos recônditos do Tennenssee? Estamos falando de um dos Estados americanos mais isolados e cobertos com matas fechadas. Seria possível que algo desconhecido vivesse nesses ermos? Algo sobre o qual sabemos muito pouco?

Seja ele um monstro homicida, uma criatura que escapou de um acidente de trem ou uma fera capaz de mudar de forma, amaldiçoada pela culpa e tragédia, o fato é que o Gritador se converteu numa Lenda Urbana muito popular. O "pequeno" detalhe dele provavelmente não existir, senão no reino da imaginação, talvez seja o que menos importa. 

Os urros da fera ainda podem ser ouvidos...

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Troféus Macabros - O curioso mundo dos caçadores de cabeças peruanos


O simples nome está envolto em mistério, suspense e horror... Caçadores de Cabeça.

A prática remete a algo saído de histórias pulp envolvendo expedições no coração das selvas sul-americanas. No entanto, o ato de remover a cabeça de cadáveres após matar seu dono e preserva-las como um troféu macabro, é algo muito mais comum do que se poder supor. De fato, tal coisa foi praticada extensivamente em todos os continentes (exceto Antártida, ao menos até onde sabemos) e ainda é realizada em algumas culturas modernas.

Embora a razão mais comum para esse ato seja demonstrar o poder de conquista e promover o terror sobre os inimigos, há outros motivos. Um deles envolve a crença de que conquistar a cabeça de alguém, é uma forma de controlar e escravizar um inimigo espiritualmente. O que pode ser mais aterrorizante do que saber que seus inimigos, não apenas irão decapitar sua cabeça, mas que esse ato irá condenar seu espírito a uma submissão eterna?

Entre os povos no Peru pré-colombiano, Caçadores de Cabeça agiam em meio a guerras, conflitos ou revoltas. Havia até uma casta de indivíduos que compunham uma espécie de elite de guerreiros xamãs cuja função primordial era remover e preservar cabeças que eram então ofertadas aos chefes militares como valiosos troféus. Uma cabeça podia ser negociada, trocada e ofertada como um tesouro inestimável dependendo de quem era o dono original dela.

A recente descoberta de um esconderijo contendo centenas de cabeças mumificadas no Peru trouxe novos fatos sobre esses estranhos costumes.


Nossa história começa no Vale de Vitor no Sudeste do Peru, uma área habitada em tempos antigos, antes mesmo da escrita e das civilizações que ocupariam o país muitos séculos depois. O Vale foi o berço da civilização de La Ramada, uma cultura sobre a qual sabe-se ainda muito pouco, exceto que eles eram ávidos caçadores e negociantes de cabeças.

Escavações recentes na área, lideradas pela arqueóloga peruana María Cecilia Lozada, encontrou 27 sepulturas datando do ano 550 a.C. Os poços de 4 metros de profundidade continham os restos mortais de cerca de 60 pessoas, incluindo mulheres e bebês, além de artefatos como estatuetas, utensílios, joias de adorno e tecidos cerimoniais. No entanto, a descoberta mais significativa no interior das sepulturas foram seis cabeças cuidadosamente acomodadas em caixas de madeira estofadas com pele de lhama.

Cabeças e caveiras eram parte de um grande negócio no Peru - sendo o Vale de Vitor um dos centros para empreendedores dispostos a negociar suas mercadorias macabras. Há varios lugares no Peru onde as tzompantli - como eram conhecidas as coleções de crânios – podem ser encontradas. Os nobres, os líderes tribais e sacerdotes estavam dispostos a pagar verdadeiras fortunas a quem lhes trouxesse cabeças pertencentes a notórios guerreiros ou pessoas importantes.


Uma tzompantli poderia conter algo entre dezenas até milhares de crânios e cabeças cuidadosamente acomodadas em prateleiras. Quanto mais peças numa coleção, maior o status de seu dono. A crença era de que os crânios representavam um tesouro que poderia ser desfrutado no além vida. Ao morrer, o dono daquelas cabeças teria poder sobre os espíritos e estes o serviriam eternamente como escravos.

A maioria dos estudiosos acreditavam até recentemente que todos os crânios nas coleções pertenciam tao somente a vítimas de sacrifício humano e prisioneiros de guerra. Sabese agora que os crânios mais valiosos pertenciam a inimigos mortos em batalha e trazidos de volta como  troféus. Muitas vezes estas peças eram cuidadosamente montadas em estacas de madeira ou cetros de metal. Recebiam adornos na forma de brincos, correntes, piercings e ate mesmo tatuagens post-mortem. Algumas tinham ainda dentes extraídos e substituídos por moldes de metal precioso ou gemas depositadas nas órbitas vazias.  Quanto mais elaborada a apresentação, melhor.

Uma cabeça-troféu especial, dependendo da fama do individuo em vida, poderia comprar muitos escravos, uma porção de terra e até mesmo valer o equivalente a uma casa ou fazenda. 

Os crânios-troféu encontrados no Vale Vitor passavam por um processo elaborado de mumificação que preservava suas características e permitia o reconhecimento muito tempo depois da morte. Após serem removidas seguindo métodos específicos, a cabeça era tratada com diferentes ingredientes e seivas naturais, além de ser conservada em um ambiente seco que potencializava a mumificação. Quanto mais preservada a cabeça, mais valiosa ela se tornava, contudo crânios também podiam alcançar grandes valores se ficasse comprovada a sua origem.


Curiosamente as cabeças-troféus nem sempre pertenciam a inimigos ou estrangeiros. Um colecionador poderia ansiar por peças que pertenciam ao seu próprio povo ou a soldados que se destacavam em combate e que eles desejavam manter a seu serviço mesmo após a morte.

Esse costume pode ter surgido com o interesse de trazer de volta para sua terra natal ao menos uma parte dos soldados que morriam em algum canto distante. Posteriormente, alguns colecionadores decidiram incorporar até mesmo os aliados às suas tzompantli, um procedimento que não devia ser muito popular e que por isso era mantido em sigilo. 

Uma análise de DNA nas seis cabeças encontradas recentemente apresentou resultados curiosos. Apenas duas delas pertenciam a indivíduos de outros povos, sendo as outras quatro cabeças de indivíduos da mesma cultura que o "dono" destas.

O desejo por colecionar certas cabeças fazia com que algumas pessoas deixassem ordens expressas aos seus descendentes para terem duas cabeças emovidas e destruídas após a morte como forma de evitar que eles fossem escravizados. Isso explica porque vários corpos encontrados em cemitérios antigos no Vale Vitor surgiam decapitados - essa era uma medida para garantir a segurança dos espíritos.


A prática de colecionar cabeças da Cultura de La Ramada parece ter se mantido até a decadência dessa civilização. Posteriormente ela foi passada para outros povos, inclusive a poderosa Civilização Inca que teve seu maior centro localizado em Cuzco. Os Incas dedicavam grande importância a cabeça e devotavam muitos interesse em moldar o formato do crânio de recém nascidos.

Ainda hoje, em áreas isoladas no interior do Peru, a cabeça é considerada a parte mais importante do indivíduo. Embora não haja mais tzompantli, o costume de ter pequenas cabeças feitas de pano e tecido em casa, é bastante difundido. Algo reminiscente dos tempos em que colecionar cabeças humanas verdadeiras era sinal de riqueza e poder.

domingo, 30 de abril de 2023

Os Devoradores de Gordura Humana - A Lenda do Kharisiri e Pishtaku


Todas as culturas têm seus monstros, todas civilizações constroem seus próprios "bichos-papões". São criaturas que vagam pelos limites da imaginação, mas que se insinuam perigosamente no mundo real, sendo legitimamente temidas por aqueles que creem em sua existência.

Os Kharisiri, também conhecidos como khari-khari e lik’ichiri no idioma Aymara ou ainda ñak’aq e pishtaku no dialeto Quechua é  um desses monstros aterrorizantes. Uma figura assustadora presente nas terras elevadas do Peru e na Bolívia. A mitologia por trás do kharisiri é impressionante e mistura componentes de moral e ética, com noções realçando os perigos da cobiça. 

No altiplano dos Andes peruanos, os Pishtaku como é mais conhecido é muitíssimo temido. As crianças temem a presença do monstro que se esgueira pelas sombras, invade as casas e captura os pequeninos, em especial, aquelas mais gordinhos. O objetivo da criatura é um só, roubar a gordura corporal dos vivos.

Tradicionalmente esses seres nefastos assumem um disfarce que lhes permite trafegar pelas cidades e povoados em busca de suas vítimas. As identidades preferidas deles incluem um estrangeiro rico, um viajante branco ou um padre que parece especialmente caridoso. Os monstros quando alimentados parecem com pessoas normais, mas quando estão famintos apresentam uma aparência cadavérica, uma coloração amarelada na pele, olhos profundos embaçados e uma boca larga, rasgada nos cantos que exala um fedor de putrefação.

Os Kharisiri existem apenas para saciar sua fome profana por gordura. Como o vampiro das lendas, eles também são parasitas vorazes que precisam dos vivos para deles extrair sustento. 


A lenda originalmente precede a chegada dos conquistadores europeus às Américas, mas quando os espanhóis começaram a colonizar o Novo Mundo ela ganhou novo fôlego. Há muito no mito do Kharisiri que espelha a dinâmica de poder estabelecida entre conquistadores e conquistados. Uma simbologia imperialista bastante adequada veio à tona.

A Lenda fala de um monstro que parece com pessoas normais, mas que não é como elas. Que se insinua no meio delas, por vezes, com promessas e agrados, mas que deseja roubar e obter para si tudo aquilo que é valioso. A gordura para os povos do altiplano simboliza riqueza e prosperidade - alguém gordo é alguém de posses, que vive em meio ao luxo e que se alimenta bem.

O Sacamanteca (ladrão de gordura) como os espanhóis apelidaram a lenda, era mais do que uma figura para assustar crianças, ele era um terror real. Muitas pessoas que se viam afligidas por doenças até então pouco conhecidas e debilitantes, como câncer por exemplo, temiam estar sendo visitadas pelo Kharisiri. A perda de peso e de disposição eram um indício que a criatura estava se alimentando do indivíduo, deixando-o cada vez mais fraco. Remédios naturais para ajudar aqueles que eram vítimas do ataque do kharisiri podiam ser comprados em mercados públicos. Xamãs e bruxos também ofereciam amuletos e patuas que podiam afastar o monstro e devolver a vitalidade de alguém que tornou-se vítima recorrente de suas depredações. Mas nem sempre a cura vinha a tempo e o toque do Kharisiri não raramente acabava sendo letal.

Os detalhes sobre o mito do Khalisiri variam dependendo do país ou região. Ele encontra particularidades em cada lugar. Por exemplo, o pishtaku peruano é conhecido por matar instantaneamente as suas vítimas para remover sua gordura e desaparecer em seguida. Já na Bolívia, a morte do Kharsuta (aquele atacado pelo Kharisiri) pode demorar dias, ou mesmo semanas após o primeiro ataque. A vítima adoece e sem o devido tratamento vai minguando até morrer. Da mesma forma, descrições sobre a aparência do monstro mudam de acordo com o período histórico e local.

O kharisiri se vale de um pequeno instrumento chamado maquinita, para extrair a gordura ou banha das vítimas escolhidas. O instrumento de metal, semelhante à um canudo metalico é enfiado no ventre, na altura do rim. Uma pequena marca de incisão se forma ali e pode ser percebida com um exame mais criterioso. O kharsuta não se recorda do que aconteceu; sua memória do ataque é nublada e ele vai adoecendo até morrer se não tiver tratamento.


O kharisiri é humano em aparência, mas alguns acreditam que ele pode mudar de forma transformando-se em cão, urubu ou rato. Kharisiris atacam mais frequentemente à noite, e são especialmente ativos nos meses de agosto, quando as oferendas para Pachamama e os demais deuses das montanhas os achachilas são feitas. No dialeto  Aymara, agosto é chamado de  lakraniphaxi, "o mês faminto", e tem forte significado mistico. 

O kharisiri tem como alvo pessoas saudáveis e no auge de suas energias. Eles tem preferência por indivíduos que se alimentam bem e que possuem bastante gordura corporal. Usando métodos sobrenaturais, o kharisiri faz com que a vitima adormeça e não consiga despertar, mesmo que seja perfurada para remoção da gordura. Ele tira apenas o suficiente para seu sustento sorvendo pelo canudo a gordura e se deliciando com a experiência. Ao terminar, ele lambe a ferida que imediatamente para de sangrar e se fecha, deixando uma marca discreta na pele.

O kharisiri se alimenta da gordura ou então a vende para cha’makanis, um tipo de bruxo que usa a gordura em seus rituais. A banha é regurgitada pela criatura e uma vez recolhida e tratada, é transformada em uma vela amarela de cheiro medonho. Uma vez acesa durante as celebrações, ela potencializa os rituais de maldição e encantamento.

Na Bolívia, os kharisiri são achados em todo altiplano, de Potosi a PunoEntretanto eles parecem se concentrar na área do entorno do Lago Titicaca, especialmente nas proximidades da cidade de Achacachi. Visitantes lá são instruídos a consumir alimentos apimentados pois as criaturas ficam nauseadas com o tempero na corrente sanguínea das pessoas.

O Pishtaku, a versão peruana do monstro parece mais um morto vivo clássico: a pele emaciada e pálida cobre os ossos salientes em seu corpo delgado. Eles parecem pessoas doentes e exalam um cheiro de sepulcro. 

Conseguem andar pelas cidades vestindo disfarces e se fazendo passar por vagabundos, mendigos ou viajantes. O Pishtaku, diferente do Kharisiri, pode ser tanto homem quanto mulher, adulto, velho ou mesmo crianças. Eles surgem como um tipo de maldição que se espalha mediante o contato prolongado com outro Pishtaku.

O ataque do monstro no Peru é mais violento. Ele não usa instrumentos para extrair a gordura das vítimas, fazendo uso apenas das mãos e da língua comprida e serrilhada. O Pishtaku abre com as unhas uma ferida e nela insere a língua para explorar os depósitos de gordura na barriga, pescoço, nádegas e seios de suas vítimas. Enquanto ele se alimenta, a vítima não sente nada já que a língua possui um tipo de substância responsável por anestesiar a área. 

O monstro chupa a gordura até deixar a vítima vazia, enquanto ele vai ficando inchado pelo material consumido. O ataque tende a ser letal resultando num cadáver reduzido a pele e ossos. Após se alimentar o Pishtaku fica com aspecto mais saudável e consegue se passar por uma pessoa comum. Isso, no entanto, dura pouco tempo, pois logo ele irá precisar de mais gordura para continuar existindo.

Nas sociedades andinas, a gordura era tida como "elemento central para a manutenção da vida", mais até do que o sangue. Gordura, em especial a de lhamas, era usada em rituais sagrados e como uma poderosa oferenda a Pachamama e demais deuses. Até mesmo o poderoso Deus Viracocha teria surgido quando o Lago Titicaca verteu um fluxo de gordura de suas profundezas. De fato, o nome Viracocha significa "gordura do fundo do lago".

Historicamente os europeus do século XV a XVII também acreditavam que gordura humana possuía propriedades magicas. Ferimentos podiam ser tratados com gordura que segundo os antigos tinha propriedades cicatrizantes. A gordura, inclusive a humana, podia ser usada para cozinhar, para alimentar o fogo e para untar a pele e cabelos. Além disso, a gordura de crianças não-batizadas era tida como um potente ingrediente para feitiço, entre os quais o filtro mágico que permitia ao bruxo voar.

Quando os conquistadores espanhóis chegaram a América andina, a crença nos atributos benéficos da gordura continuava em voga na Europa. Os conquistadores saquearam as reservas de gordura dos povos ameríndios atraindo para si o boato de que eles seriam servos dos Kharisiri e Pishtakus.


Diz a lenda que o comandante máximo dos conquistadores, Hernán Cortés, certa vez ordenou que 13 barcos fossem preparados para explorar os rios navegáveis do Peru. Quando não havia parafina para tratar o revestimento de madeira das embarcações, ele ordenou que fosse usada a gordura dos mortos devidamente extraída e derretida em caldeirões de ferro.

Esse incidente deve ter aterrorizado as comunidades nativas fazendo com que os conquistadores fossem vistos como agentes ou mesmo como os próprios monstros de seus mitos. O choque foi tão grande que alguns nomes usados para se referir aos espanhóis derivaram do termo Kharisiri. Uma vez que os Conquistadores que dizimaram as civilizações pré-colombianas estavam atrás de ouro e prata, eles passaram a ser associados a cobiça por riquezas, faculdade que foi transmitida para os Kharisiri e Pishtakus.

Mesmo hoje, em pleno século XXI, o mito dos monstros que cobiçam gordura continua vivo no altiplano. Em alguns lugares a presença de forasteiros é vista com desconfiança de que possam ser eles monstros disfarçados. Isso ajudou a criar o costume de oferecer a estranhos, em especial gringos, um pedaço de pimenta como boas vindas. 

O longo legado de medo dos kharisiri e pishtakus continua presente nas sociedades andinas mais tradicionais. Em 1983, após um devastador surto de cólera no interior da Bolívia o antropólogo francês Gilles Riviere foi acusado de ser um Kharisiri. Ele acabou sendo linchado pela população local em busca de um bode expiatório para a epidemia. Após ser massacrado por um bando, seu corpo foi incendiado em praça pública.

O mito do monstro estrangeiro devorador de gordura foi construído com base em elementos históricos e reforçado pelo ressentimento deixado pelos séculos de colonização opressora. Não se trata de algo que desaparece rapidamente e mesmo séculos depois, ele continua vivo na mente e nas crenças da população local.

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Monumento Ancestral - O Enigma do Stonehenge brasileiro


Como capataz de uma fazenda pecuária nos limites da Floresta Amazônica, Lailson Camelo da Silva tinha como atribuição fazer queimadas para converter a floresta em pasto. Certo dia, após queimar uma vasta área ele se deparou com algo incomum que estava oculto pela vegetação em estado puro. Ali, no meio da selva havia grandes pedras de granito maciço alinhadas em um bizarro círculo.

Observando com cuidado, ele percebeu que aquilo não parecia ser um arranjo natural. As pedras haviam sido dispostas propositadamente daquela maneira. As enormes rochas estavam de pé, tendo sido claramente colocadas daquela maneira incomum.
 
"Eu não tinha ideia de que estava descobrindo o Stonehenge da Amazonia",  conta o Sr. da Silva que hoje está com 65 anos de idade.

Tudo isso aconteceu em um outubro especialmente quente 23 anos atrás. O grupo topou com o sítio arqueológico localizado a poucos quilômetros ao norte do Equador. "Isso me faz imaginar: O que mais será que existe escondido pela Selva? O que mais ficou oculto por séculos e que ainda não foi encontrado nas selvas do Brasil?"

Após conduzir um teste de radio carbono e fazer medidas durante o solstício de inverno, estudiosos do campo da Arqueoastronomia determinaram que as pedras foram arranjadas por culturas locais cerca de 1200 anos atrás. Os megálitos foram portanto erguidos em um círculo sete séculos antes dos europeus chegarem a América e conquistarem os povos nativos. A estrutura foi formada com enormes blocos de granito, alguns enormes, com mais de seis metros de altura e várias toneladas. Como teriam sido erguidos e como teriam chegado até lá eram questões difíceis de responder. 


Esse notável achado, junto com outras descobertas arqueológicas realizadas nos últimos anos no Brasil - incluindo uma pedra gigantesca com símbolos pictórico, restos de fortalezas e até mesmo estradas incrivelmente modernas, estão contribuindo para uma mudança no ponto de vista de arqueólogos que afirmavam ser a Amazônia uma região pouco tocada pelos humanos. Até muito recentemente, o entendimento geral era de que a selva constituía um obstáculo grande demais para ser transposto pelos nativos em um estado semiprimitivo. Até então, era aceito que apenas algumas poucas tribos nômades haviam se estabelecido na região.

Um número cada vez maior de especialistas defendem agora que a maior floresta tropical do mundo foi muito menos um Jardim do Éden, livre da presença humana do que se haviam imaginado. Há estimativa de que ela possa ter abrigado uma população de até 10 milhões de pessoas antes que as epidemias e massacres em larga escala diminuísse o número de habitantes. 

O Stonehenge Brasileiro está localizado no norte do estado do Amapá, em uma região esparsamente habitada. Não há cidades próximas e o único sinal de presença humana são fazendas e pequenos assentamentos isolados. As pessoas nessa região falam sobre lugares antigos e perdidos, utilizados pelos povos indígenas em seus rituais. Tais lugares foram esquecidos pela maioria, mas há lendas entre as populações nativas mencionando templo magníficos, cidadelas de pedra e enormes centros comerciais. Infelizmente, tudo isso teria sido engolido pela floresta.

As pedras solares, montadas em círculo chamam a atenção, mas não são exatamente uma novidade segundo as lendas indígenas. Muitas delas falam sobre um povo ancestral que observava as estrelas e que era dono de um grande conhecimento. Eles estariam em comunhão com os Deuses e estes lhes revelaram incontáveis segredos da criação.

O Circulo de Pedras fica próximo de outra área interessante do ponto de vista arqueológico, o Córrego do Rego Grande, uma região em que, no passado, floresceu uma lendária civilização conhecida pelos povos que os sucederam. Eles eram ao mesmo tempo admirados, invejados e temidos por seu grande saber e conquistas. 


Os arqueólogos dedicados a desvendar os segredos da Amazônia pré-histórica afirmam hoje que esse povo era muito mais sofisticado do que se poderia imaginar.

"Quando se fala sobre o passado dessa região, o consenso até alguns anos era de que as populações locais eram pouco desenvolvidas. Nós estamos começando a rever esses conceitos. Há um enigma no que diz respeito a história humana na Bacia Amazônica. Nos sabemos muito pouco sobre esses povos e do que eles eram capazes", relata Mariana Cabral, arqueóloga da Universidade Federal de Minas Gerais, que na companhia de seu marido, o também arqueólogo João Saldanha, vem estudando a região do Rego Grande na última década. 

"As descobertas realizadas no Amapá são absolutamente fantásticas. Elas evidenciam um grau de conhecimento notável para essas pessoas até então tratadas como primitivos".

No final do século XIX, o zoólogo suíço Emílio Goeldi esteve nessa mesma região e afirmou ter observado a presença de megalitos - enormes pedregulhos - ocultos pela vegetação. Goeldi percorreu uma área muito abrangente durante uma expedição que cobriu a fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa. Ele mencionou além das rochas dispostas em círculos, a existência de lendas locais sobre uma civilização majestosa que habitou aquela área. Outros aventureiros, incluindo a arqueóloga pioneira norte-americana Betty Meggers, também encontrou evidências desses sítios, mas argumentou não acreditar que uma região tão erma quanto a Amazônia poderia sustentar um povo avançado. Mesmo assim, ela ponderou que a presença das pedras eram um forte indício de que uma civilização pouco conhecida teria deixado suas marcas na paisagem.

Apenas quando o sr. Da Silva localizou as pedras na selva em 1990 é que estudiosos voltaram sua atenção para o local. Da Silva conta que os nativos conheciam as pedras, mas que não sabiam o significado delas. Segundo ele, na década de 1960 os nativos haviam descoberto os círculos.


"Um dos homens que ajudou a revelar os restos da mata disse ter estado ali décadas antes. Ele estava caçando um porco do mato junto com amigos e encontraram as pedras. Eles acharam aquilo estranho, exploraram por algumas horas, mas depois as deixaram de lado", conta Camelo da Silva que se tornou Guarda Florestal algum tempo depois de fazer sua descoberta.

"Muitos nativos com quem falei dizem que o lugar é sagrado e que as pessoas não deveriam mexer nele. Quase como se, estar ali fosse errado. De certa forma eu concordo com eles, ~e um lugar com grande energia", ele conta.

As populações de indígenas que habitam a região dizem que o Rio do Rego Grande um dia foi maior e que seus antepassados o usavam para viajar pelas vias hídricas. Dizem ainda que a área recebia muitos visitantes vindos de outras tribos que procuravam aqueles que ali viviam para conhecer seus mistérios e obter seu conhecimento.

Mas que conhecimento era esse?

"Bem, as estrelas. Ao menos é isso que todos falam! Que os povos ali sabiam muito sobre o que existe além da Terra e sobre os Deuses que vivem nos céus".

Cerca de 10 anos atrás, após obter fundos para proteção do Círculo de Pedras, grupos de Arqueólogos brasileiros liderados por Cabral e Saldanha começaram a escavar o sítio. Eles definiram uma área circular com as pedras ocupando o centro de sua área de exame. Eles logo identificaram uma área ribeirinha a cerca de um quilometro de distância de onde os blocos de granito foram retirados. Além disso, também fizeram descobertas significativas em uma série de grutas intocadas pelo tempo. Lá dentro obtiveram ferramentas, objetos de adorno e urnas de cerâmica usadas para coletar as cinzas dos cadáveres que eram cremados nos ritos fúnebres. Pela quantidade de urnas encontradas, existe a possibilidade de que o sítio tenha sido usado como cemitério para sepultar pessoas importantes -  líderes, feiticeiros e caciques.


Ao mesmo tempo que as escavações eram realizadas, uma equipe do Instituto de Ciência e Tecnologia do Amapá descobriu que as pedras estariam alinhadas com o sol e que serviam para calcular seu movimento e determinar com exatidão o Solstício de Inverno. 

Após descobrir outros pontos no sítio onde as pedras poderiam ser usadas para acompanhar os movimentos celestes, os pesquisadores começaram a desenhar uma teoria na qual Rego Grande poderia ter desempenhado uma função importante no passado. 

"É possível que estejamos diante de um grande centro de rituais e cerimônias do passado. Um lugar que atraia visitantes vindos de outras partes e que realizavam sua jornada através do território de selvas usando trilhas que hoje estão perdidas".

Assim como ocorria em círculos de pedras na Europa, o círculo amazônico desempenhava um papel importante para os povos antigos. Como um centro de conhecimento e de informação em uma época em que saber o movimento dos astros influenciava em atividades essenciais como a agricultura e caça. 

"Rego Grande e uma serie de outros megalitos menos elaborados ainda devem existir, ocultos pela selva e escondidos de nossos olhos. Eles ainda devem estar aqui, erguidos há mais de um milênio por nativos que muitos consideram como atrasados e incultos. Está na hora de rever esses preconceitos e aceitar que existiram povos sofisticados que habitaram o Brasil antigo", explica Cabral com grande entusiasmo.


Mas nem todos os estudiosos compartilham desse mesmo entusiasmo, afirmando que é preciso obter mais informações sobre o monumento e seu propósito. Além disso, parte dos especialistas ainda duvidam que a Civilização que habitou o Amapá na pré-história teria condições para erguer estas pesadas pedras e que elas cumpriam função astronômica como dizem os pesquisadores locais. 

"Nós encontramos uma série de afirmações similares em várias partes do mundo, mas é preciso mais do que um círculo de pedras alinhadas para dizer que se trata de um Stonehenge", diz Jarita Holbrook, pesquisadora da Universidade do Cabo, na África do Sul que estudou as características de vários círculos ao redor do mundo. Nem todos esses monumentos são realmente calendários astronômicos, alguns são apenas círculos de pedras alinhados, um padrão comum para várias civilizações antigas.

Por hora, Rego Grande, que muitos chamam de Stonehenge Amazônico, permanece como um enigma. Restos de cerâmica e ossos se espalham pelo solo lamacento da selva próximo das pedras oferecendo pistas hipnóticas sobre o local, que alimenta a imaginação de todos. Pesquisadores ainda tentam definir com Rego Grande se encaixa na história da evolução humana na Amazônia. 

Cabral e Saldanha, os arqueólogos brasileiros que passaram anos estudando Rego Grande, dizem que a evidência de grandes assentamentos permanece indefinida. É muito difícil encontrar as provas necessárias numa área tão extensa e coberta por um manto verde que recobre tudo. Nem mesmo imagens de satélite conseguem penetrar em certos pontos em busca de indícios de construções ou assentamentos humanos.  

Representantes entre os Palikur, um povo indígena que vive no interior do Amapá e algumas partes da Guiana Francesa, recentemente se adiantaram para dizer que seus ancestrais também frequentaram Rego Grande. Os mitos dos Palikur falam de um povo sábio que vivia ao sul e que era creditado como grandes observadores dos céus. Eles teriam recebido parte de sua sabedoria e cultuaram os mesmos deuses. Ainda assim, os arqueólogos mais conservadores expressam cautela ao estabelecer tais ligações, enfatizando o quanto as sociedades humanas podem mudar ao longo de mil e duzentos anos.


De qualquer maneira, John McKim Malville, um físico solar da Universidade do Colorado que escreve extensivamente sobre arqueoastronomia, enfatizou como o campo está deixando de se concentrar exclusivamente em funções astronômicas para interpretações mais holísticas, incluindo as cerimônias e rituais de culturas antigas. Nesse contexto, o sítio de Calçoene oferece um vislumbre sedutor, embora enigmático, do passado da Amazônia.

As pedras de Rego Grande são bastante extraordinárias e em sua irregularidade podem ter um significado próprio, diferente de outros sítios megalíticos ao redor do mundo”, opina Malville, levantando a possibilidade de que Rego Grande reflita a importância do animismo nas culturas amazônicas, a atribuição de uma alma a entidades da natureza e até mesmo a pedras inanimadas. Nesse contexto, ele seria um magnífico Templo a céu aberto, um lugar de mistérios e superstições milenares sobre os quais ainda sabemos muito pouco.

Enquanto não se descobre o real significado desse Monumento, as pedras em círculo permanecem de pé desafiando estoicamente a passagem dos séculos. Talvez um dia venhamos a conhecer quem as ergueu e para que elas foram utilizadas. 

Até lá, todas interpretações são bem vindas...