quinta-feira, 13 de julho de 2023

Sawney Bean - A Lenda do Clã de Canibais que aterrorizou a Escócia


É difícil saber ao certo onde terminam os fatos e onde tem início a lenda de Sawney Bean.

Chamar a história do clã de Sawney Bean de "história" também parece um tanto impróprio; existem contos populares, lendas locais e uma infinidade de rumores. Embora possa haver algum fundo de verdade, não há uma base suficientemente confiável para considerar os eventos como reais. Após tantos anos, seria impossível que a narrativa não recebesse acréscimos e adulteração.

Passados mais de 500 anos, ele ainda causa impacto no folclore de sua terra natal, a Escócia. Amplamente considerado a inspiração por trás de um sem número de relatos chocantes envolvendo famílias entregues ao mais pérfido dos tabus: o Canibalismo

Sawney Bean pode ser considerado também como uma figura mítica; dizem que no século XVI, seu nome era mais conhecido em sua pátria do que o do Papa e do Rei em pessoa. Ele era enormemente temido e o terror que seu nome despertava continuou provocando arrepios ao longo dos séculos seguintes. É claro, tudo isso pode ser produto de propaganda; mesmo que ele não tenha existido exatamente como os contos sugerem, sua história não é menos significativa. Examinada e analisada incontáveis vezes, aumentada e dissecada criteriosamente, mesmo os historiadores não sabem o que fazer com os dados disponíveis. Cada fonte acrescenta um detalhe que contribui para tornar tudo ainda mais chocante e dantesco. 

As versões mais aceitas dizem que Sawney Bean, nasceu com o nome Alexander Bean e foi o líder de um clã escocês que se estabeleceu no sudoeste do país em algum momento entre os anos 1400 e 1500. Eram tempos difíceis, quando a existência esbarrava em horríveis privações que constituíam um obstáculo à sobrevivência. Segundo a lenda, Sawney Bean foi o responsável por levar sua família a assassinar e canibalizar mais de 1.000 vítimas. A ideia de uma família de assassinos maníacos buscando vítimas inocentes, matando e por fim devorando seus restos, parece o roteiro de um filme de terror moderno, contudo é exatamente o que dizem as narrativas.

Alexander "Sawney" Bean teria nascido em uma família honesta que trabalhava com plantio, mas que em dado momento se viu forçada ao trabalho de escavar e abrir valas. Era uma tarefa árdua,  mas necessária, sobretudo na estação das chuvas, quando alagamentos ocorriam com frequência. Cansado do trabalho, Bean abandonou o negócio da família e tentou o ofício de peleiro, curtindo e costurando couro, mas não foi bem sucedido.


Em algum momento ele conheceu uma mulher chamada "Black" Agnes Douglas que segundo algumas versões seria uma prostituta acusada de matar e roubar alguns de seus clientes. Douglas era uma mulher disposta a fazer qualquer coisa para sobreviver; quando jovem foi atraente, com cabelos negros que lhe valeram o apelido. Contudo, a vida no meretrício drenou seus encantos e a deixou amarga e cruel. Ainda assim, Bean a desposou em Ayrshire e decidiu viver com ela. 

Os dois deixaram o vilarejo para tentar a sorte em uma caverna no litoral entre Girvan e Ballantrae. Era uma região escura e isolada, pontilhada por formações rochosas e pântanos salgados. A caverna escolhida por eles era conhecida como Bennanne (que significa garganta) e seus túneis se estendiam por mais de uma milha rocha adentro. Eles exploraram o complexo e decidiram fazer daquele lugar seu lar, vivendo como uma família primitiva não muito diferente daquelas que ali habitavam na Idade da Pedra.

Afastados da sociedade, eles tentaram sobreviver da pesca e do que conseguiam extrair das charnecas próximas - cogumelos, frutas e pássaros. As dificuldades, no entanto deviam ser enormes, o que fez com que passassem privações. Dois de seus filhos recém nascidos teriam morrido de má nutrição ou das muitas moléstias que eram coletivamente chamadas de febre do pântano. No inverno, o frio quase os congelada e a fumaça das fogueiras dentro da caverna por pouco não os sufocava.  Ainda assim, eles conseguiram sobreviver por dez anos e constituir uma pequena família.

Em algum momento, Sawney e Douglas cederam a tentação de emboscar viajantes que cruzavam a estrada que passava a alguns quilômetros de seu covil. Essa via, embora deserta e erma, era uma das únicas que ligava aquela região ao grande centro urbano da época - Edimburgo. Por ali passavam fazendeiros e comerciantes que levavam seus produtos para vender nas feiras. O roubo se converteu rapidamente em sua atividade principal e para evitar reconhecimento eles assassinavam suas vítimas. Os corpos eram amarrados a pedras e afundados nas águas ou então sepultados em cavernas profundas onde não seriam encontrados.


É possível que a peste que assolou a região ao longo desse período tenha levado um número de camponeses a buscar refúgio nas cavernas onde a família havia se estabelecido. Sawney Bean se converteu em um tipo de autoridade na área, aceitando ou negando a presença de novas pessoas. Ele era quase um chefe tribal e como tal, construiu seu próprio clã. Bean selecionou à dedo quem poderia ficar, escolhendo os que acatavam suas ordens e que ajudariam nos roubos. Os rumores dão conta de que o bando cresceu, aceitando homens e mulheres desesperados e sem perspectivas. A quadrilha espreitava pelas colinas, observando a passagem de viajantes e descendo sobre aqueles que julgavam carregar algo de valor. Atacavam, saqueavam e matavam sem qualquer pudor. Viviam todos nas cavernas profundas em uma estrutura primitiva onde compartilhavam tudo, inclusive a intimidade dos casais. Sawney Bean e sua esposa, no entanto eram os chefes e sua palavra era lei, as ordens eram obedecidas sob pena de banimento ou execução.

Contando com 18 membros, o bando era uma ameaça constante e isso começou a afastar os viajantes que temiam cruzar aquela estrada insalubre. O bando teve de se afastar do seu covil e atacar os que tentavam a sorte por estradas secundárias. Em dado momento lhes ocorreu que, para garantir que nunca fossem identificados, não era o bastante matar, mas precisavam fazer os cadáveres desaparecer para sempre. Durante um inverno especialmente rigoroso o Clã teve a macabra ideia de usar os corpos como base de uma dieta rica em proteínas. As vítimas eram arrastadas para as profundezas das cavernas, esquartejadas e lançadas em grandes caldeirões e potes onde viravam cozido. 

A dieta se provou eficaz, resolvendo dois problemas para o clã que continuou crescendo. Agnes Douglas a essa altura havia tido mais de 14 crianças, cada uma com um apetite pouco saudável por carne humana. O clã se desenvolveu chegando a ter mais de 40 indivíduos, além de crianças incestuosas nascidas e criadas naquele regime comunal digno de pesadelos. Ao longo de duas décadas, gerações de bebês cresceram nas Cavernas de Bennane, refinando suas habilidades de assassinato e culinária canibal, incluindo a arte de salgar e conservar carne humana. Também confeccionavam roupas e utensílios com couro esfolado das vítimas, cabelos, ossos e até tendões cuidadosamente desfiados para fazer linha de costura. 

As autoridades locais já haviam estabelecido que alguma coisa sinistra estava acontecendo naquela região erma, mas não tinham noção da dimensão das atrocidades cometidas. Na Idade Média, não existia um senso confiável da população, contudo o número crescente de desaparecidos chamava a atenção. Embora buscas tenham sido conduzidas para localizar as pessoas sumidas ou seus assassinos, ninguém jamais pensou em vasculhar as profundezas da Caverna Bennane e seus arredores. Na falta de vítimas o bando escolhia um dentre eles para ir para o caldeirão e garantir o sustento dos demais. 


Em face do temor de cruzar aquela área remota, as presas começaram a rarear o que forçou o clã a buscar alvos cada vez mais longe. O crescimento do clã aumentava a demanda por carne e a coisa chegou ao ponto em que o roubo se tornou secundário diante da necessidade por alimento. Eles invadiam fazendas, atacavam camponeses solitários e sequestravam crianças que se afastavam de suas casas. Também haviam se especializado em emboscadas, atacando seus alvos aos urros, vestindo suas roupas de couro humano para causar o máximo de terror nas vítimas.  
  
No entanto, o bando não conseguiria manter suas ações temerárias em segredo para sempre. Certa vez o bando de Sawney Bean que estava à procura de vítimas avistou um grupo que voltava de uma feira. Os canibais avançaram sobre a caravana como sempre faziam: golpeando e estripando quem encontravam pela frente. Percebendo que não adiantava se render, um fazendeiro investiu com seu cavalo indo para cima de seus implacáveis atacantes. Ele conseguiu escapar, sendo perseguido por pelo menos meia dúzia de canibais em seu encalço. Para sua sorte, ele acabou encontrando uma comitiva armada que vinha da mesma feira e que escoltava um nobre. Após um encontro breve e violento, a tropa de Sawney Bean se viu, pela primeira vez, em desvantagem numérica e imediatamente recuou para a caverna afim de considerar a situação. 

Os guardas investigaram o local da emboscada e verificaram que muitas vítimas já haviam sido evisceradas e mutiladas a golpes de machado. Eles estavam sendo preparados para ser levados até o covil dos canibais. Durante a retirada foram deixados para trás evidenciando que algo sinistro estava prestes a acontecer com os cadáveres.

O fazendeiro sobrevivente e o nobre se apresentaram diante do Chefe Magistrado de Glasgow que depois de ouvir o relato macabro juntou as peças com a extensa lista de desaparecidos ao longo dos anos. Por sorte o Rei Jaime I em pessoa estava na região em visita oficial e ouviu o relato atônito. Ele prontamente seguiu para Ayrshire acompanhado de um pequeno exército de quatrocentos soldados e uma matilha de cães rastreadores, além de voluntários locais. E assim deram início a uma das maiores caçadas humanas que o país havia visto.


Como antes, a busca se concentrou no interior de Ayrshire e, como antes, o paradeiro dos canibais não foi encontrado. Entretanto, uma profusão de restos humanos descartados, ossadas e objetos foram achados nos bancos de areia do pântano. Furioso o monarca ordenou que um contingente ainda maior fosse deslocado para a região e que a área de busca fosse ampliada. Dias depois, cães farejadores sentiram o cheiro de carne humana em decomposição enquanto passavam por uma caverna parcialmente selada. Ao abrir acharam lá dentro sepultados os restos de uma dúzia de vítimas. Isso deu aos perseguidores a noção de que o bando estaria escondido em cavernas.

Rastreando cuidadosamente a área, os soldados localizaram uma trilha que levava para uma área isolada e de difícil acesso. A patrulha foi recebida violentamente por um bando fortemente armado, mas este teve de recuar diante de uma saraivada de mosquetes. O rastro que eles deixaram levava até a entrada da Caverna de Bennane. 

Reforçada por um contingente de 80 homens contatados às pressas, os soldados iniciaram a invasão com espadas desembainhadas. À luz de tochas improvisadas a tropa seguiu pelos túneis sinuosos até as profundezas do covil maligno, lar da Família de Sawney Bean. Nada poderia tê-los preparado para a visão abominável que testemunharam naquele dia. As paredes úmidas da caverna estavam repletas de fileiras e mais fileiras de membros e partes de corpos humanos, como carne pendurada em um açougue. Haviam crânios adornando as passagens e ossos colados na moldura das portas. Velas feitas de gordura humana crepitavam nos cantos que serviam de dependências para homens, mulheres e crianças selvagens. Outras áreas da caverna guardavam fardos de roupa, pilhas de objetos, anéis e joias - tudo roubado ao longo de décadas. Haviam túneis repletos de ossos e uma câmara especialmente medonha que servia como uma rústica cozinha. Ali, encontraram tachões, caldeirões e panelas de ferro com restos de banquetes canibais antigos. Uma despensa completa continha o estoque salgado de carne humana pertencente ao clã.  

Após uma luta feroz travada nos corredores, a caverna foi sendo conquistada metro a metro. Alguns foram mortos, mas o restante da família, 58 indivíduos, foram capturados e amarrados na entrada da caverna. Entre eles estavam Sawney Bean e sua esposa, os dois já bem idosos mas ainda suficientemente lúcidos e notavelmente saudáveis. Por ordem real o bando foi preparado para seguir rumo a Edimburgo e uma escolta especial foi organizada para impedir que a população, ciente dos crimes perpetrados, os linchassem.  


Os réus foram conduzidos até a masmorra e colocados à ferros, inclusive crianças e adolescentes. Os crimes foram considerados tão hediondos que o sistema de justiça l pelo qual a Escócia era famosa, foi abandonado. Em detrimento de um processo longo e desgastante que iria expor todos os meandros do horrível caso,  toda a família foi sumariamente condenada à morte. Os legisladores recorreram ao Rei para que ele desse aval para que os criminosos fossem executados o mais rápido possível já que os prisioneiros da masmorra real ensaiaram um motim visto que temiam dividir a prisão com aqueles monstros.

No dia seguinte, vinte e quatro homens do clã tiveram um destino semelhante ao de muitas de suas vítimas. A sentença foi cumprida de forma cruel, como era comum naquele tempo. Eles tiveram pernas e braços amputados por golpes de machado ou espada e foram deixados sangrando lentamente no patíbulo até a morte, vigiados por suas mulheres. O sangue foi tamanho que testemunhas disseram que o fedor podia ser sentido a quilômetros de distância. As vinte e duas mulheres consideradas culpadas de conluio nas mortes e de terem preparado a carne, foram queimadas como bruxas em grandes fogueiras acesas fora da cidade. A elas não foi permitida a piedade de serem enforcadas antes e portanto seus corpos arderam na pira até nada restar. As crianças foram poupadas, mas a maioria delas foi mandada para fora da Escócia, as que restaram deram origem a boatos sobre canibalismo nas décadas seguintes.

Uma das razões pela qual a história de Sawney Bean não pode ser validada é que não restaram documentos e nem registros dos eventos. Tudo que se tem são alguns poucos comentários feitos por historiadores que viveram no século XVII em diante e diários que mencionam o ocorrido. Contudo não é possível dizer ao certo como estas pessoas obtiveram as informações ou se elas adulteraram o incidente.

Relatos dão conta de que o Clã ficou ativo por pelo menos 30 anos e que nesse período teria feito mais de 1000 vítimas, mas é virtualmente impossível saber ao certo se tal número pode ter sido atingido. Também é inviável comprovar todos ou mesmo alguns dos detalhes macabros que rondam a lenda. Entretanto, Sawney Bean e seu clã homicida sempre foram extremamente populares na Escócia. Verdadeiro bicho papão nas Ilhas Britânicas, ele é tido como um dos maiores homicidas que viveu nas Ilhas Britânicas.

segunda-feira, 10 de julho de 2023

Resenha "Nas Montanhas da Loucura" - A incrível parceria entre H.P. Lovecraft e François Baranger


"Nas Montanhas da Loucura" é conhecida como uma das mais espetaculares histórias do genial H.P. Lovecraft.

Escrita em 1931 e publicada apenas um ano antes de sua morte precoce em 1937, Montanhas pode ser considerada como um dos trabalhos mais complexos do autor. O tema, o embasamento científico, o realismo exacerbado, tudo foi exaustivamente pesquisado para que o resultado fosse uma história que se assemelha a uma jornada verossímil de um grupo de cientistas até o que era, então, a fronteira final do planeta: o Continente gelado da Antártida. A narrativa concebida como um relato feito por um dos sobreviventes está repleta de termos científicos, de descrições técnicas e inúmeras referências usadas na época.

Para muitos especialistas em literatura, Nas Montanhas da Loucura é um dos pontos altos da carreira de Lovecraft que se mostrava perfeitamente à vontade unindo Terror e Ficção Científica - uma mistura que hoje é normal, mas que na época constituía uma grande inovação. Não por acaso ele serviu como base para a franquia Alien e do cultuado O Enigma do Outro Mundo. Os fãs também consideram esse conto (de fato, uma novela dada a sua extensão), um de seus trabalhos mais emblemáticos, servindo de inspiração para outros contos, quadrinhos, jogos de computador, boardgames e frequentemente cotado para se tornar um longa metragem.

Entra em cena o ilustrador francês François Baranger, um dos artistas mais elogiados e admirados da atualidade. Baranger é dono de um notável portfolio artístico que inclui outra visão de um conto clássico de Lovecraft, "O Chamado de Cthulhu" que recebeu uma resenha aqui no blog alguns anos atrás. Na ocasião Baranger já demonstrava seu talento para compor paisagens grandiosas, ilustrar jornadas épicas e dar forma aos horrores titânicos do Universo do Mythos. O resultado foi magistral, mas ouso dizer que aquela era somente o início de uma empreitada muito mais ousada.

Convocado a repetir a parceria com Lovecraft, Baranger esbanja talento e nos convida a explorar a vastidão dos desertos gelados e os recessos mais escuros do Horror Cósmico em "Nas Montanhas da Loucura".


A história tem um lugar mais que merecido entre as maiores obras de terror de todos os tempos e ilustrar essa saga foi um desafio para o artista. Para isso ele usou um princípio muito inteligente: “Tentei entrar na mente do autor para melhor transcrever seu universo. Não tentei modernizar Lovecraft, mas me ater às suas verdadeiras intenções e descrições.”

O resultado é sensacional.

"Nas Montanhas da Loucura" acompanha os eventos e incidentes de uma malfadada expedição à Antártida no início dos anos 1930. O que é relatado ao leitor é uma jornada de descoberta notável seguida de tragédia sem precedente. Uma viagem científica que cobra de seus membros um preço altíssimo e que revela um horror indescritível. A descida rumo a essa espiral de loucura e as descobertas perturbadoras sobre a origem do homem precipitam a ruína da expedição. 

Nas Montanhas da Loucura é contado a partir da visão do Dr. William Dyer, um geólogo da fictícia Universidade Miskatonic, que presenteia o leitor tanto com os detalhes inocentes da expedição, quanto com os eventos mais sinistros mantidos em segredo até então. Com seu relato, Dyer espera impedir que outra expedição cometa o mesmo erro que a dele e garantir que a verdade permaneça oculta sob o gelo glacial.

O ritmo lento da história constrói meticulosamente a tensão e levanta questões que vão sendo respondidas ao longo da trama. O terror não surge repentinamente, ele espreita em cada canto como uma presença agourenta que desce feito uma sombra sobre os exploradores. 

Esse conto consolidou Lovecraft como um mestre da tensão e do mau presságio. O leitor sabe que algo horrível está prestes a acontecer, que os personagens estão em perigo e que o destino deles será medonho. Mas essa certeza só torna a leitura ainda mais instigante. Para alguns, o estilo pode soar cansativo, mas o verdadeiro brilhantismo dessa história está na forma como ela é construída e como ela vai crescendo em intensidade até a explosão final.


Não é segredo para ninguém que histórias de terror se beneficiam muito da arte. O componente visual fornece outra dimensão à história e empurra o leitor para dentro da experiência. É por isso que os filmes de terror fazem tanto sucesso. Os aspectos audiovisuais dessas narrativas - sustos, música tensa, cenas horríveis - aumentam o drama, o suspense e o terror. Aqui temos algo similar.

A escolha de Baranger para ilustrar essa história gera um casamento perfeito entre texto e imagem. Ele consegue dar forma vívida à imaginação de Lovecraft construindo um panorama grandioso das cenas mais marcantes da novela. A visão de Baranger confere uma nova apreciação da história. Ela ganha asas! Se torna misteriosa. Soa estranha. Distante do cotidiano e de qualquer coisa normal. Mais que isso, inspira admiração e causa certo grau de apreensão.

Brancos ofuscantes, marrom quente, cinza escuro e piscinas negras de escuridão abissal recobrem as páginas. Toda essa paleta de cores fortes se mistura e cria imagens viscerais das montanhas e da megalomaníaca incursão humana às proibidas latitudes da loucura. O universo lovecraftiano com seu pessimismo tétrico fica gravado na mente do leitor com essas paisagens colossais esparramadas ao longo das páginas. As imagens quase queimam em nosso subconsciente.

Baranger retrata vividamente o passo a passo da expedição atraindo os olhos do leitor para um banquete visual. Mesmo que você já tenha lido "Nas Montanhas da Loucura" centenas de vezes, ler essa versão será algo especial e diferente. Para quem não conhece Lovecraft ou sua obra, essa é uma oportunidade de ouro para mergulhar de cabeça e se deixar conquistar por esse mestre do horror e da ficção.


Fisicamente, o livro tem 23 x 30 centímetros, um tamanho adequado para tais imagens. Ele remete àqueles Livros de Arte que costumam adornar o centro de mesa. Essas dimensões permitem uma melhor apreciação dos detalhes que Baranger arduamente trabalhou em cada cena (e que vocês podem constatar nas imagens incluídas aqui na resenha). 

A Editora Darkside, que lançou o álbum "O Chamado de Cthulhu" aqui no Brasil, também é a responsável por essa edição. Nem é preciso mencionar o capricho das publicações da Darkside. Quem coleciona livros e gosta de edições luxuosas em sua estante já deve conhecer bem o catálogo da editora. A capa dura, o papel brilhante de alta qualidade e a excelente tradução de Ramon Mapa são perfeitas. 

É importante, entretanto, salientar que esse é o primeiro volume da obra, ou seja, a conclusão de "Nas Montanhas da Loucura" ainda será lançada pela Darkside provavelmente ano que vem. Muitos se perguntam porque ele não foi lançado em uma edição única, mas esse formato é idêntico ao que foi publicado lá fora.

Para os fãs de longa data ou para os que estão conhecendo apenas agora, o primeiro volume de "Nas Montanhas da Loucura" é uma celebração do gênero e um item quase obrigatório para os fãs do Horror Cósmico.   


Este livro e outros podem ser adquiridos diretamente na página da Editora Darkside no link abaixo. Comprando no site da editora ele vem acompanhado de um brinde exclusivo.

quinta-feira, 6 de julho de 2023

O Fenômeno "Eu sou Deus" - Um mistério contemporâneo da internet


A internet possui incontáveis mistérios.

Alguns deles se mostraram reais, outros se provam não passar de bem engendradas farsas. Mas certos mistérios se mostraram tão enigmáticos que continuam sem uma explicação razoável apesar de terem sido investigados e analisados ao longo dos anos.

Um desses mistérios envolve um sinistro arquivo do 4chan que deu margem a um caso muito debatido, conhecido mundialmente como o Fenômeno do "Eu sou Deus".

Tudo começou em meados de junho de 2014 quando um usuário do 4Chan iniciou um novo thread no tópico "Incidentes Paranormais" do fórum. Para resumir do que se tratava, o usuário relatava que um amigo vinha experimentando estranhas anomalias em sua casa: sons misteriosos, luzes piscando e a inconveniente sensação de estar sendo observado. Isso começou com estranhos e-mails e mensagens que surgiam em seu computador, enviadas por pessoas que ele não conhecia. Ele terminava a sua postagem perguntando aos demais usuários se eles acreditavam haver uma explicação lógica para esses acontecimentos ou se algo sobrenatural estaria ocorrendo.

Vários usuários expressaram seus pensamentos acreditando que o mais provável é que fosse um malware e que as ocorrências tinham uma explicação razoável. Entretanto, um dos usuários pediu que fossem repassadas a ele as mensagens de email para que pudesse analisá-las em busca de algum indício de quem as havia enviado. Ao abrir os arquivos ele descobriu que as mensagens sempre vinham acompanhadas de um fragmento de imagem. Ao abrir a primeira imagem ele tentou entender do que se tratava, mas a forma era muito vaga e pouco discernível.

A segunda imagem veio dois dias depois e os usuários começaram a conjecturar qual poderia ser a ligação entre os dois fragmentos.

Alguns especulavam se elas não poderiam conter uma mensagem oculta, um encaixe ou quem sabe até ser uma espécie de mapa. Finalmente, um dos usuários sugeriu que a imagem parecia ser parte de um rosto humano, o que a maioria acabou concordando se tratar.

Após algumas edições da imagem eles concluíram que o mais provável é que se tratava realmente de um rosto humano pintado de vermelho. Um caso tão curioso chamou a atenção de mais e mais pessoas que fizeram um esforço coletivo para tentar entender do que se tratava. Em determinado momento, um dos usuários percebeu que havia uma leve descoloração na porção superior esquerda da primeira imagem. Quando ele aplicou alguns filtros de cor, estranhos caracteres apareceram formando o que mais tarde foi reconhecido como um código binário oculto. Estes números quando traduzidos para uma linguagem verbal resultavam em uma única palavra:

DEUS

A palavra deixou os usuários que estavam se dedicando a tarefa embasbacados. Realmente não podia ser uma simples coincidência.

Poucas horas depois de obter essa informação, um terceiro arquivo foi repassado contendo um novo fragmento da imagem. Trabalhando essa imagem, invertendo e colando da maneira mais adequada ela se mostrou encaixar perfeitamente nas anteriores. Um novo trecho em linguagem binária resultou em uma confluência de letras que aparentemente não faziam muito sentido, mas que quando lançadas em um decodificador geraram a seguinte tradução:

"EU SOU" em gaélico.

Juntando os dois pedaços de informação os usuários concluíram que a mensagem não poderia ser outra. Inequivocamente a frase era "EU SOU DEUS".

Diante dessa revelação, usuários simplesmente desistiram de prosseguir na tarefa de decodificação. Alguns, no entanto, alegaram uma razão bem curiosa para desistir de analisar o quebra cabeça. Enquanto alguns disseram ter perdido o interesse, outros afirmavam terem experimentado "coisas estranhas" ocorrendo cada vez mais frequentemente ao seu redor. Três usuários supostamente estariam ouvindo estranhos sons em suas casas e tendo sensações desagradáveis, como se uma estranha presença os estivesse observando. Outro usuário foi mais longe afirmando ter tido um pressentimento muito forte de que deveria encerrar qualquer participação naquele projeto.

Alguns usuários disseram que provavelmente seus colegas estavam inventando aquilo, mas um número cada vez maior de indivíduos envolvidos na decodificação alegaram nos dias seguintes sentir o mesmo desconforto ao lidar com os códigos.

Enquanto isso, o usuário original que havia iniciado o thread no 4Chan disse que seu amigo, aquele que recebia as mensagens codificadas havia sumido. Supostamente saído de sua casa por não aguentar mais os misteriosos incidentes que o atormentavam. Sua mensagem final para o amigo era muito breve:

"Estou saindo de casa. Não me sinto seguro aqui. Vou arrumar uma mochila e sair o quanto antes."

Junto com essa mensagem ele enviou também um vídeo curto no qual andava pelo apartamento antes de ir embora. O vídeo em questão não revelava muito, contudo em um determinado momento, aqueles que o assistiram disseram ter percebido algo estranho perto da sua conclusão: uma imagem estranha com formato vermelho.

A pessoa que filmou não parece perceber, mas muitos que assistiram o video sugeriram que a forma seria semelhante a face humana contida nos arquivos. Além disso, trabalhando nos canais de som foi possível isolar um trecho o que parece ser a frase "Não fuja de mim".

Posteriormente ele recebeu mais um email com outro fragmento que foi repassado ao 4share. Não foi preciso muito para perceber que ela encaixava perfeitamente junto com as demais, quase completando a imagem de uma face humana avermelhada.

A essa altura, vários usuários relataram que também estavam tendo uma sensação difícil de descrever ao analisar o material. Um deles tentou explicar recorrendo a uma analogia - "era como se, a cada vez que eu examinasse o desenho tivesse uma sensação de que alguém estava me observando, ou mais bizarro ainda, que aquela imagem estivesse olhando para mim".

Outro usuário, antes de se despedir, aconselhou os demais a parar de investigar. Ele disse que luzes estavam acendendo e apagando em sua casa e que ouvia claramente ruídos, sobretudo nas altas horas da madrugada. "É como se tivesse alguém andando pela casa", arriscou ele.

A essa altura, o número de usuários interessados na thread já era bastante grande e a curiosidade sobre as misteriosas imagens e seu significado haviam gerado diferentes interpretações e um acalorado debate uma vez que mais e mais pessoas alegavam experimentar aquela mesma sensação perturbadora.

"Ouvi sons estranhos em minha casa, mesmo sabendo que estava sozinho. Eu fiquei apavorado!" escreveu um usuário. Outro prosseguiu: "Eu não sei o que é, mas era como se eu tivesse convidado alguém, ou alguma coisa a entrar na minha casa através da imagem na tela do meu monitor". Um terceiro usuário concluiu: "Estou apavorado! As luzes aqui em casa não param de piscar e eu tenho ouvido coisas. Juro que parece ter alguém sussurrando".

Ainda que a maioria dos usuários tenham acusado seus colegas de que estes meramente tentavam fabricar um hoax, era impressionante a quantidade de pessoas garantindo terem experimentado algo inexplicável depois de mexer com os arquivos e manipular as imagens. Alguns chegaram até a relatar terem recebido mensagens incompreensíveis por email, whatsapp ou em seus telefones.

Um usuário conjecturou que as imagens poderiam conter algum vírus ou um tipo de malware capaz de obter endereço de IP ou dados daqueles que o manipulavam por muito tempo. Contudo, ninguém chegou a uma conclusão sobre o fenômeno.

A imagem final do quebra cabeças foi repassada cerca de uma semana depois. Ela trazia a peça final que montava a imagem da face e uma outra mensagem cifrada que dizia: "Por favor, não perca dessa vez".

Os usuários conjecturavam o que era a imagem, contudo ninguém chegou a uma conclusão sobre o seu significado. Muitos acreditam que a face era a mesma vista de relance no vídeo, mas ninguém foi capaz de dizer com certeza. As mensagens pararam logo depois e mais nenhum arquivo chegou ou foi repassado pelo usuário que abriu o thread. De fato, o perfil dele foi apagado!

O estranho incidente capturou a atenção de inúmeras pessoas e se tornou objeto de análise e investigação de muitas pessoas. 

Ainda hoje muitos afirmam que esses arquivos e essa imagem despertam sentimentos dúbios que não se consegue explicar inteiramente.

O caso se tornou conhecido como o fenômeno "Eu sou Deus" e se espalhou pela internet desde então. Há diferentes versões para a história e incontáveis variações do tema, mas essa é uma das mais sinistras na minha opinião. 

Diante de tudo, o que podemos concluir? 

O mais provável e que isso não passa de um HOAX bem construído com o objetivo de gerar repercussão e debate - a semente de uma creepypasta, e nada mais do que isso. Por outro lado, diante do assombroso número de pessoas que alegam terem sido afetadas pela imagem, quem pode saber ao certo?

Uma teoria muito interessante e controversa afirma que a internet teria ajudado a dar forma a manifestações do inconsciente coletivo, cristalizando elementos da ficção no mundo real. Por essa linha de pensamento, se um número considerável de indivíduos acreditar piamente em algo e essa crença se espalhar, ela poderia se tornar verdadeira. Esse conceito encontra respaldo na lenda do TULPA que é parte do folclore tibetano. Ele  defende que um pensamento pode ser alçado a condição de materialidade se estes pensamentos forem poderosos o bastante.

Enquanto não se define qual a natureza e razão de ser do Fenômeno "Eu sou Deus", nos resta acreditar no que acharmos mais conveniente.

segunda-feira, 3 de julho de 2023

O Incrível Caso de Thomas Fell - Props de um Cenário para Rastro de Cthulhu


Recursos do Guardião e Props são elementos que engrandecem demais uma sessão de RPG.

Os cenários investigativos por excelência convidam o mestre a produzir e fornecer aos jogadores esse tipo de material. Ele torna a experiência de jogar uma aventura, algo muito mais interessante e evocativo. Ao invés de simplesmente descrever as páginas de um diário antigo e amarelado, o mestre entrega nas mãos dos jogadores as páginas em questão, para que eles leiam. No lugar de explicar como é o desenho de uma estranha criatura feito por uma testemunha, ele fornece o desenho para apreciação geral. Ao invés de dizer que há fotos numa velha caixa, ele dá aos jogadores a chance de abrir a caixa e encontrar essas fotos...

Esse tipo de recurso visual é extremamente bem vindo!

Os jogadores se sentem como seus investigadores: examinando, verificando, estudando e processando as pistas achadas. O que eles seguram em suas mãos é basicamente o que seus personagens estão simultaneamente manipulando no jogo.

É claro, produzir esse material é trabalhoso, mas em contrapartida, o efeito se faz sentir na mesa.

Faz algum tempo, nosso colega aqui do Blog, Ricardo Ramada criou um material incrível para o cenário "O Incrível Caso de Thomas Fell". Essa é uma aventura para Rastro de Cthulhu, excelente para jogadores iniciantes. Os recursos ficaram simplesmente incríveis, tudo muito bem feito e extremamente bem produzido.

Ele muito gentilmente me ofereceu esse material e eu pretendo usá-lo em breve quando for narrar essa história.

"O Incrível Caso de Thomas Fell" é um cenário introdutório para Rastro de Cthulhu. Ele acompanha um grupo de investigadores de primeira viagem que busca desvendar as estranhas circunstâncias que cercam o desaparecimento de Thomas Fell, um amigo que parecia ocultar um terrível segredo. O que aconteceu com ele? Qual o seu paradeiro atual? E como essa investigação mudará para sempre as suas vidas? Trata-se de uma excelente introdução ao perigoso mundo de Rastro de Cthulhu e aos Mythos ancestrais.

Para quem tiver interesse, na página da Editora Retropunk pode-se encontrar gratuitamente o cenário. Basta ir no link abaixo:


As imagens abaixo são do referido material, vou descrever brevemente do que se trata.

As Fotos e Handouts:

As fotos e imagens gerais são um ótimo recurso visual para envolver os jogadores na Investigação.

Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras, em no caso de cenários de RPG, isso muitas vezes é verdade.

Essas fotos foram impressas em papel de alta gramatura em cor sépia ou preto e branco e ficaram excelentes.



Fichas de Personagens:

As Fichas de Jogo são muito mais do que uma coleção de estatísticas e resumo dos atributos de um determinado personagem.

Elas conectam o jogador de carne e osso ao seu alter ego fictício. 

As fichas produzidas para Rastro são bem funcionais e de fácil compreensão. Essas fichas para a aventura acompanhadas das imagens dos personagens (tiradas do elenco do filme "Assassinato no Expresso do Oriente") ficaram perfeitas. 


As Fotos do Explorador Thomas Fell:

No cenário, Thomas Fell é um amigo em comum dos investigadores.

Ele é um aventureiro que viajou pelo mundo e registrou sua jornada na forma de fotografias tiradas em diferentes lugares do mundo. O registro dessas fotos constitui uma valiosa pista para solucionar o caso de seu desaparecimento. 



Uma misteriosa Ilustração:

Eu adoro esse Handout de um desenho feito pelo próprio Thomas Fell no qual ele tenta capturar a forma de um horror visto em primeira mão.


O Mapa com as Linhas:

No decorrer da investigação, os personagens encontram um misterioso mapa mundi com estranhas linhas vermelhas traçadas ao longo dele.


Compreende o significado dessas linhas e saber o que elas representam é uma das partes mais importantes desse cenário. Sem falar que 


O Decalque da Placa:

Outro recurso incrível é esse decalque em papel vegetal de uma placa ou tabuleta de pedra toda entalhada.

Ao examinar o recurso é como se os jogadores tivessem em suas mãos o decalque feito por alguém que raspou um pedaço de carvão sobre uma placa de pedra obtendo assim os desenhos de sua superfície. 


Esse é um dos meus props favoritos nessa coleção.


O Diário de Thomas Fell:

Mas se eu tivesse de escolher apenas um recurso para apontar como o mais legal dessa coleção, seria esse aqui.

Trata-se do Diário de Thomas Fell relatando de seu próprio punho os acontecimentos que levaram a seu trágico destino.


O diário foi tão bem produzido que incluía até o ex-libris de seu dono na contracapa.


Enquanto isso, o interior traz o registro das andanças de Thomas Fell pelo mundo, o que ele viu e o que ele descobriu viajando pelo Egito, se lançando nos Desertos da Austrália, no extremo oriente e finalmente nos planaltos da América do Sul.




As fotografias com as bordas recortadas são um detalhe a mais nas páginas amareladas com café, complementadas pelas imagens dobradas.


E essas páginas que parecem ter sido arrancadas de antigos tomos de magia e compêndios de conhecimento arcano, ficaram excelentes!


Sem falar dos desenhos supostamente feitos pelo próprio Thomas Fell, registrando a forma de monstros e criaturas do Mythos.


Mais do que um simples diário, as páginas possuem as pistas que permitirão desvendar o mistério dessa investigação.


Ficou incrível!

Aliás, se algum dos leitores aqui do Mundo tentacular quiser compartilhar com os demais suas coleções de Recursos, teremos enorme prazer em publicar.

No mais, deixem os dados rolar e percam sanidade!  

quinta-feira, 29 de junho de 2023

Terra de Gigantes - As antigas lendas sobre os Gigantes da Sicília


A história da Sicília, na Costa da Itália, sempre esteve ligada à lendas sobre gigantes mitológicos supostamente os primeiros habitantes da ilha. A crença local, profundamente enraizada no folclore siciliano menciona homens de enorme estatura que viviam no interior da ilha e que eram muito temidos pelos povos da península italiana. De certa forma foi o temor diante dos misteriosos gigantes que manteve a Sicília deserta por séculos. 

As lendas são recordadas de forma vibrante na procissão chamada "Passeggiata dei giganti", que significa literalmente "A Caminhada dos Gigantes". Este festival é celebrado na cidade de Messina todos os anos no dia 14 de agosto, em memória de dois gigantes conhecidos como Mata e Grifone. Duas imensas estátuas de madeira, com quase 8 metros de altura, representando Mata, uma bela mulher branca de cabelos dourados, e Grifone, um guerreiro sarraceno gigante de pele escura, são puxadas pelas ruas sobre rodas, acompanhadas por músicos e da batida incessante de tambores.

Existem opiniões divergentes sobre a origem do festival. A versão mais conhecida nos leva de volta no tempo para o ano 964 dC, quando Messina era o último baluarte no sul da Itália a resistir à ocupação árabe. Durante o cerco de Messina, o general mouro Hassan Ibn-Hammar, recebeu ordens para tomar a cidade e destruí-la, mas ele se apaixonou perdidamente por Mata, filha de um comerciante local. O comandante fez o possível para cortejar Mata, mas ela só concordou em casar com ele se o pretendente poupasse sua cidade. Ele concordou e Messina sobreviveu à guerra. Em seguida, ele mudou seu nome para Grifo e ficou conhecido como Grifone (que significa "o Grande Grifo"). Mata e Grifone tiveram muitos filhos e viveram felizes para sempre.

Por mais romântica que pareça essa história, provavelmente ela foi inventada em um período posterior para promover a harmonia comunitária e lançar uma pitada de romance sobre uma época especialmente violenta. A história da ocupação da Sicília é repleta de guerra, vinganças e chacinas, com narrativas sanguinolentas. Entretanto, é provável que Mata e Grifone sequer tenham existido e que as imagens sejam de outros personagens. 

As lendas sobre gigantes na Sicília são bastante antigas.

Muitos acreditam que os dois gigantes são na verdade representações dos verdadeiros fundadores da cidade de Messina. Eles representariam Malthea e Banxone, marido e mulher, que outrora exerciam sua tirania sobre os habitantes da Sicília. Segundo o folclore eles eram um casal de gigantes que exigiam um tributo anual dos habitantes da ilha. Caso não recebessem sua parte, ameaçavam destruir os vilarejos e matar os camponeses. Como não poderia deixar de ser, a história de Malthea e Banxone envolve uma boa dose de sangue. Em algum momento o povo oprimido da Sicília decidiu oferecer aos seus governantes colossais uma refeição cheia de veneno. Os gigantes comeram, mas logo perceberam que algo estava errado: tomados de uma dor de estômago que era superada apenas pela fúria, eles desceram sobre os vilarejos destruindo e matando todos em seu caminho. Felizmente, em algum momento o veneno fez efeito e os dois começaram a perder as forças. Foi a vez do povo então se vingar - e vingança siciliana sempre é algo feio de se ver. O casal de gigantes teriam sido apedrejados, mutilados e finalmente decapitados.  

Mas as lendas sobre gigantes na Sicília são ainda mais antigas. Desde pelo menos o século V aC, os poetas gregos acreditavam que os antigos habitantes da Sicília não eram apenas gigantes, mas um tipo específico de gigante muito mais terrível que os demais. Eles seriam membros da lendária raça de monstros de um olho só, os Ciclopes. 

Na Odisseia, Homero escreveu que os ciclopes viviam em cavernas e levavam uma vida perversa, não plantando nada mas devorando o que conseguissem agarrar com suas mãos ávidas. Eram carnívoros terríveis, adeptos do canibalismo que massacravam qualquer visitante indesejado que pisasse em sua ilha. Arremessavam pedregulhos à distância prodigiosa, esperando atingir embarcações que estivessem navegando pela costa. Um petardo que acertasse em cheio uma nau deixaria os náufragos à mercê dos monstros. 

Um dos gigantes mais famosos da antiguidade era Polifemo - não por acaso, o maior deles. O ciclope conseguiu capturar Odisseu e seus companheiros e os manteve aprisionados dentro de sua caverna, com a intenção de devorar dois deles a cada dia. Mas Odisseu conseguiu escapar após cegar o único olho de Polifemo.

A principal característica dos ciclopes; seu olho único é uma característica extremamente bizarra. Na natureza não há nenhum exemplo de animal dotado de apenas um olho. Curiosamente não há gigantes caolhos nas lendas de nenhuma outra cultura. É possível que os marinheiros fenícios, cuja mitologia influenciou os poetas gregos, tenham contado histórias sobre gigantes de um olho só. Os fenícios foram pioneiros em viagens pelo Mediterrâneo e exploraram a maioria das ilhas antes de qualquer outro povo. Como forma de desestimular outras nações a fazer o mesmo, eles inventavam inúmeras lendas sobre monstros, criaturas e seres aterrorizantes. Os rumores sobre gigantes ferozes habitando ilhas podia fazer com que mercadores rivais evitassem tais lugares.

Uma alegada nascara mortuaria de um ciclope 

Outra possibilidade é que os ciclopes podiam pintar um "terceiro olho" proeminente na testa. No imaginário antigo o terceiro olho era o símbolo de uma consciência mística das coisas além da visão comum. Há representações em que os ciclopes aparecem com um olho adicional e não como caolhos. Os deuses hindus, como Shiva, eram geralmente representados com um terceiro olho proeminente, enquanto muitos sacerdotes pintam o "tilak", uma marca alongada na testa, simbolizando o terceiro olho. Parece razoável supor que os ciclopes seguissem um costume semelhante. Ou talvez, os ciclopes realmente tivessem um terceiro olho que funcionasse bem, além dos olhos normais, o que não é impossível, já que eles eram de origem divina; filhos de Poseidon, o Deus do Mar.

Uma escultura romana datada do século primeiro aC retrata em detalhes a cena da "Cegueira de Polifemo". Na obra é possível ver a diferença do tamanho entre os heróis e o monstro. Odisseu e seus homens eram descritos como altos (o que na época significava ter 1,70 m de altura). Já o Ciclope Polifemo tinha ao menos 6 metros de altura segundo as versões romanas. Não era incomum que os monstros - Gigantes e Titãs, fossem descritas como criaturas muito altas. Os gregos e romanos associavam a estatura diretamente com a força, quanto mais alto um homem (ou criatura) mais poderosa ela seria. 

Por essa razão os gigantes eram tão temidos pelos povos da antiguidade. Um monstro com vários metros de altura era visto como uma ameaça considerável, capaz de superar muitos homens ao mesmo tempo. Historiadores gregos e romanos eram unânimes em relatar que gigantes estavam entre as criaturas mais perigosas (e temidas) no mundo antigo.

Filistas, um cronista cretense do século II aC escreveu que "não há nada mais assustador do que a ira de um gigante" visto que "uma única criatura dessa espécie poderia aniquilar um exército inteiro". Os romanos acreditavam que o Norte da Europa era o lar de tais criaturas, e que os povos nórdicos que residiam naquelas latitudes (muito altos) eram descendentes desses seres. Já os gregos acreditavam que havia gigantes no Norte da África, na Península Ibérica e é claro, nas ilhas do Mediterrâneo. E a Sicília era um dos lugares onde tais monstros podiam ser encontrados mais habitualmente. 


Polifemo sendo cegado por Odisseu

Outra razão para a Sicília atrair tantas suspeitas quanto a presença de gigantes se encontra em sua própria geografia. Existem muitas cavernas artificiais na Sicília que são tão grandes que não há uma explicação simples sobre quem as construiu ou com que finalidade. A chamada "Orelha de Dionísio" é uma caverna de calcário escavada nos arredores de Siracusa, na Sicília. Ela tem incríveis 23 metros de altura e se estende por 65 metros até terminar em um penhasco. Horizontalmente, dobra-se em forma aproximada de S, enquanto verticalmente afunila no topo como uma lágrima. A acústica dentro da caverna é muito boa, fazendo até mesmo um pequeno som ecoar várias vezes. O nome "Orelha de Dionísio" foi cunhado pelo pintor Michelangelo que visitou o lugar e o batizou em função do formato lembrando uma orelha. Qualquer pessoa que visita o lugar se pergunta por que seria feito tamanho esforço para construir uma caverna tão alta, sem nenhum propósito aparente. 

Desde a antiguidade exploradores cogitavam se aquela caverna não teria servido de abrigo para gigantes quando eles, conforme as lendas, emergiram de seus covis subterrâneos sob o Monte Etna. De fato, essa caverna era muito temida e evitada pelos primeiros habitantes que chegaram à Sicília e lá se estabeleceram do século VI dC em diante. Acreditavam que gigantes ainda espreitassem nas profundezas. Também se mencionava que o lugar estava sempre coalhado de energias místicas e que bruxos costumavam se reunir na escuridão para seus rituais.    
 
Outra caverna de dimensões gigantescas também na Sicília é a Grutta di Gurfa que foi escavada em um período muito remoto - alguns acreditam que no quinto milênio antes de Cristo. As cavernas Gurfa têm várias salas esculpidas em dois níveis: um primeiro andar e um andar superior. No centro está uma enorme sala oval que conecta tudo. Ela tem uma cúpula de 16 metros de altura e é iluminada por um óculo acima e uma janela a sudoeste através do qual penetra a luz do sol. É claramente uma caverna escavada na rocha e deve ter demandado uma notável mão de obra para ser concluída. Tais cavernas com tetos anormalmente altos e escavadas por mãos humanas teriam sido moldadas pelas mãos de gigantes como acreditavam os antigos?

Há ainda um outro elemento que relaciona a Sicília com a presença de gigantes em seu interior: a existência de lendárias ossadas humanas.

Tommaso Fazello um frade dominiano e historiador nascido na Sicília foi o primeiro a pesquisar as origens da ilha. Ele escreveu um tratado publicado em Palermo no ano de 1558 no qual descrevia meticulosamente muitos dos locais antigos da Sicília – como Akrai, Selinus, Heraclea Minoa. Nesses lugares, segundo ele, haviam cemitérios que receberam os restos de gigantes, os primeiros habitantes da Sicilia. 

O tamanho relativo de um gigante

Fazello relatava a descoberta de uma caverna aos pés do Monte Eryx, onde exploradores encontraram os restos de um gigante ao lado de um cajado do tamanho de um mastro de navio. A ossada do indivíduo em questão deveria ter pelo menos 5 metros de altura e seu enorme crânio tinha uma única órbita ocular, o que serviu para convencer as testemunhas que se tratava de um ciclope. Os ossos teriam sido levados para Messina e expostos no Palácio Ducale até 1430 quando foram roubados por saqueadores árabes. Dos restos originais sobraram apenas três dentes que foram guardados pelo magistrado da cidade de Eryx. Os dentes, quatro vezes maiores do que os dentes humanos normais, fizeram Fazello considerar que o corpo pertencia a ninguém menos do que o lendário Polifemo.

Relatos semelhantes de esqueletos gigantes encontrados na Sicília estão presentes na obra de vários outros escritores medievais. Rovello Cassio, um cronista napolitano de 1610 menciona que cavernas em Akrai possuíam nichos escavados na rocha sólida onde foram depositados cadáveres tão grandes que seus descobridores ficaram chocados. Eram, para todos os efeitos, gigantes com mais de 5 metros de altura, muitos deles com um único olho. Diferente da ossada de Eryx, estes gigantes estavam mumificados, com os corpos em excelente estado de conservação. Infelizmente as peças foram levadas para Palermo e deixadas em um ambiente que terminou por deteriorá-las de tal forma que os restos acabaram sendo destruídos.   

Mas não apenas historiadores italianos mencionavam os ossos gigantes. O explorador inglês R. S. Kirby escreveu em seu livro intitulado "Wonderful and Scientific Museum" em 1804 as seguintes notas: 

"Em 1516 Johannes Franciforte, Conde de Mazarino, tendo feito cavar uma cova, numa planície a cerca de uma milha da aldeia de que era senhor, encontrou num sepulcro, o corpo de um gigante medindo incríveis 7 metros de altura. Pouco tempo depois, em 1547, Paul Leontino, examinando o solo no sopé de uma montanha nos arredores de Palermo, em preparação para a escavação de uma mina de salitre, encontrou o corpo de um gigante de 6 metros."

Ele também dizia que em uma pequena aldeia entre Siracusa e Leôncio, um grande número de sepulcros e esqueletos gigantescos foram descobertos, e que muitos outros semelhantes foram encontrados perto da antiga aldeia de Hicara, que os sicilianos chamam de Carini, em uma imensa caverna no sopé da montanha.

A descoberta de uma ossada de gigante.

É fascinante – e um tanto inacreditável – ler sobre a descoberta de esqueletos medindo fenomenais 6 metros de comprimento. Mais incrível ainda é saber que R.S. Kirby foi um famoso cartógrafo muito respeitado pelas seus cálculos precisos e cartas náuticas. Teria um genuíno explorador inventado histórias sobre gigantes ou ele realmente viu esses ossos misteriosos?

Curiosamente Kirby não foi o único estrangeiro a apontar evidências sobre a presença de gigantes na Sicília. O naturalista, matemático e cosmólogo francês Conde de Buffon, em seu livro “História Natural: Geral e Particular" publicado em 1780 descreve o seguinte:

"Não resta dúvidas de que a Sicília no passado foi habitada por uma raça de homens que devem ser considerados como gigantes de enorme magnitude (...) eram indivíduos, a maioria do sexo masculino com mais de 5 metros de altura, alguns medindo até 8 metros. As encostas montanhosas da ilha estão pontilhadas por antigas cavernas escavadas na época desses indivíduos. Tais localidades serviram como mausoléus por gerações e lá foram sepultados incontáveis gigantes."

O Conde de Buffon também foi responsável por uma publicação no Journale Scientifico em que atestava que na Alta Calábria, região do extremo sul da Itália, separada da Sicília pelo estreito de Messina, também haviam indícios de mausoléus comportando gigantes. Em 1665, foi escavado nos jardins do Signior de Tiviolo, um esqueleto humano com 5,4 metros, sendo que o crânio tinha 86 centímetros de comprimento. 

Esses relatos estão alinhados com descobertas semelhantes de esqueletos gigantes relatadas por vários historiadores greco-romanos. Philostratus escreveu sobre um esqueleto gigante que tinha 6,4 metros e jazia em um afloramento do promontório em Sigeion. Phlegon de Tralles descreveu que dois esqueletos gigantes foram encontrados dentro de seus caixões pelos cartagineses, um dos quais com 4,4 metros e outro 5,8 metros de altura. 

O terror dos ciclopes

Será possível que todos esses escritores estivessem enganados ou simplesmente inventando coisas? Se por um lado as descrições são completas e repletas de detalhes, por outro, não há quaisquer provas físicas da existência dessas ossadas. 

Alguns arqueólogos e antropólogos modernos acreditam que os historiadores antigos provavelmente confundiram os ossos de animais extintos do Pleistoceno, como os mamutes e preguiças gigantes com os de gigantes lendários - uma hipótese interessante visto que há ossadas de elefantes e animais pré-históricos em toda ilha. Havia duas espécies de elefantes na Sicília, ambas descendentes dos gigantescos elefantes de presas retas da era do Pleistoceno, com mais de 4,5 metros de altura, que migraram para a Sicília há mais de 500.000 anos. As espécies menores de elefantes, chamadas Palaeoloxodon falconeri, mediam apenas 3 metros de altura, enquanto o espécime maiores chamados Palaeoloxodon mnaidriensis tinha uma altura média estimada de 2,80 metro. Esses espécies de elefantes foram extintos na Sicília muito antes da chegada dos primeiros homens ao local mas seus ossos estavam dispersos em todo canto.

Contudo, parece improvável que um homem da Idade Média, ainda mais um estudioso pudesse confundir a ossada de um elefante com a de um homem, mas esse pode muito bem ser o caso.  

Esqueleto de elefante achado na Sicília 

O crânio de um elefante se assemelha ao crânio de um ciclope.

Embora os restos esqueléticos de gigantes de 6 metros de altura não tenham sido recuperados na era moderna da Sicília ou do mundo greco-romano, um desses esqueletos apareceu no ano de 1934. A notícia desta descoberta foi publicada em vários jornais em todo o mundo. Um deles foi o British Courier de Manchester que afirmou:

"Palermo. 9 de agosto: A descoberta de um esqueleto que se acredita ser de um gigante pré-histórico, medindo 6,3 metros, foi relatada em Garise, na porção central da Sicília. O esqueleto foi encontrado por um fazendeiro, que notou um osso parcialmente enterrado na margem do rio na fazenda de sua propriedade. As tentativas de desalojar o esqueleto com a ajuda de outros aldeões falharam. Um trator foi necessário para erguer os restos, com o fêmur medindo 1,8 metros de comprimento. O esqueleto foi levado ao palácio de governo em Garise onde aguarda por um exame pericial. O distrito é conhecido pela riqueza de relíquias fossilizadas de uma era anterior. A última descoberta importante foi feita há três anos, quando foram encontrados os restos de um mamífero pré-histórico gigante."

Esta descoberta extremamente significativa está intimamente alinhada aos relatados de Fazellus, o Conde de Buffon e os historiadores greco-romanos. O relatório descreve o esqueleto como o de um “gigante”, o que não é surpreendente, pois a Sicília conservou suas lendas sobre gigantes até o século XX. Infelizmente, porém, não ouvimos mais nada sobre esse esqueleto em particular depois que os geólogos colocaram as mãos nele. Certamente, uma descoberta tão notável deveria ter recebido ampla cobertura da mídia, mas ela simplesmente desapareceu. O esqueleto parece ter sido levado para algum local desconhecido, e posteriormente o assunto foi sendo esquecido. Isso levanta a suspeita de que, pelo menos algumas partes dos restos mortais encontrados no passado possam também ter sido encontrados para em seguida desaparecerem sem deixar rastro. Ou pior ainda, poderiam ter acabado em coleções particulares longe do público em geral.

Com tudo isso, seria pedir demais devotar alguma credibilidade às histórias sobre Gigantes na Sicília, ou tudo não passa de simples lenda? Teria existido uma raça de gigantes vivendo na ilha? E se sim, o que teria acontecido com eles? É provável que essas lendas não sejam nada além de mero folclore, mas novamente ficamos atormentados com aquela minúscula pergunta: E se houver um fundo de verdade em algum lugar?