quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Açougue de Carne Humana - O Sinistro Caso dos Crimes da Rua do Arvoredo

 

Dando continuidade a história dos infames crimes da Rua do Arvoredo.

Além de José Ramos e Catarina Palse, haveria um terceiro personagem na sinistra história, um tal Carlos Claussner, elemento importante na trama como um dos pivôs na tragédia. Ao seu tempo, ele também se tornaria vítima de seus comparsas.

Claussner, chamado por alguns de "alemão", era proprietário de um pequeno açougue situado na Rua da Ponte, atrás da igreja das Dores, uma região aberta e tranquila da cidade. Era um estabelecimento consolidado que atendia uma boa e fiel clientela - algumas das família mais importantes de Porto Alegre compravam ali seus suprimentos.

Claussner imigrara para o Brasil em 1859 com o título de “proprietário”, o que lhe conferia a distinção dos camponeses e artesãos, já que alguém nessa condição podia viver de rendimentos. Ele pertencia a uma classe média alta e vivia relativamente bem. Assim que chegou a Porto Alegre, estabeleceu o mencionado açougue. Isto, segundo a história, significa que deve de ter trazido consigo alguma riqueza. O ofício de açougueiro era um ramo de atividade rentável mas que não era bem visto pela população em geral. No entender da maioria, quem mexia com carne estava sempre em contato com sangue e vísceras de animais, era portanto atividade desagradável. A maioria das pessoas sequer entrava num açougue, considerando desagradável sentar os pés em tal estabelecimento. Eram escravos e criadas que faziam as compras de carne das casas de seus patrões. 

O açougueiro, no entanto, estava disposto a mudar isso: decorava, pintava e mantinha a loja sempre limpa. Alguns vizinhos se surpreendiam ao afirmar que a loja do alemão Cluassner nem parecia um açougue dado o asseio.

O alemão tornou-se amigo de Ramos em meados de 1861 e lhe ofereceu trabalho como assistente naquele mesmo ano. Ramos era hábil com a faca e não se apiedava dos animais, mesmo os novilhos novos que gritavam como bebês ao serem feridos. Ele até gostava do ruído, diziam. O mais importante é que Ramos era fluente em alemão e assim atuava como intérprete para negociar com a clientela, visto que o patrão não dominava bem o português. Como parte do acordo, ele ensinava um pouco o idioma e em contrapartida Claussner transmitia o ofício de açougueiro. 


Parece razoável supor que os dois se davam bem e que se tornaram amigos já que o alemão foi visto repetidas vezes na casa do empregado bebendo e trocando um dedo de prosa. Talvez tenha sido nesses encontros e nas conversas informais em alemão que os dois começaram a maturar o plano que lançaria seus nomes na infâmia. Talvez a ideia tenha surgido como uma suposição ou mesmo uma brincadeira... não há como saber, mas um dos dois sugeriu que assassinato poderia ser um meio de vida.

Supõe-se que em algum momento a dupla tenha colocado a teoria em prática. Há boatos de que Porto Alegre experimentou uma espécie de "epidemia" de desaparecimentos, sobretudo de visitantes e estrangeiros que chegavam a cidade para fazer negócios. Não que desaparecimento fosse algo raro em Porto Alegre. o lugar era uma cidade com cerca de vinte mil pessoas sem contar os escravos que não entravam nas contas do senso. Pode parecer pouco, mas para os padrões do Brasil colônia, era uma cidade de médio porte, quase grande. Gente chegava e partia sem se despedir, as vezes deixando tudo para trás. Havia também comércio e estabelecimentos onde dinheiro circulava de mão em mão.

Se foi Claussner ou Ramos quem sugeriu a coisa, nao importa. É de se supor, no entanto que foi o segundo quem envolveu a esposa, Catarina, na trama, ordenando que ela andasse pelas ruas escuras após o cair da noite, deixando-se ser vista pelas pessoas. Uma mulher bonita como Catarina era uma visão inesperada para homens rudes de passagem pela cidade. Ela não parecia uma prostituta, era bela e perfumada, vestia-se bem, talvez fosse uma senhora "não muito certa das ideias e disposta a ceder seus favores". Seja como for, sua presença era difícil de ignorar. Um sorriso, um sinal, um aceno eram o bastante para atrair a vítima em potencial até os fundos do açougue que era uma área deserta e escura. Lá estariam esperando os algozes com faca e porrete nas mãos dispostos a aliviá-los de seus pertences. É de se presumir que o trio tenha feito ao menos meia dúzia de vítimas dessa maneira, até mais. 

Mas em dado momento, foi o alemão Claussner quem sumiu. Se foi uma discussão sobre divisão de bens ou um desentendimento mais simples, não há como saber. É certo que Ramos começou a espalhar na vizinhança que havia comprado o negócio do antigo patrão e que dali em diante seria o único proprietário do açougue. Sobre Claussner ele simplesmente disse que havia decidido tentar a sorte em outras paragens, na Argentina informou a alguns, em Santa Catarina garantiu a outros. Ninguém sentiu falta do alemão, Ramos era o único amigo próximo.

Passou o tempo e os negociis iam de vento em popa, Ramos se estabeleceu como distribuidor de carne de qualidade. Suas peças faziam sucesso, o açougue ia bem, ele frequentava os teatros e passava o tempo livre na ópera. Em especial, sua casa era conhecida pela saborosa linguiça que estava na mesa de várias famílias da cidade. Que beleza a linguiça que o compadre Ramos vendia em sua loja!

Então, chegamos ao ano de 1864, quando foi a vez de um comerciante português chamado Januário e de seu caixeiro, José Ignacio de Souza Ávila desapareram misteriosamente. Mas no caso do português e seu assistente a coisa chamava a atenção pois eles eram bem estabelecidos e com família que deles sentia falta. A polícia na época era algo simbólico, mantinha a ordem, mas raramente se dedicava a investigar crimes, ainda mais quando não havia indício claro deles terem acontecido.


Nesse caso em especial, testemunhas haviam presenciado o português e seu caixeiro na companhia de José Ramos um dia antes do desaparecimento. Duas testemunhas afirmaram que os dois conversaram com Ramos animadamente depois do anoitecer. O açougueiro recebeu uma intimação para que explicasse o que fazia na companhia deles e onde os havia visto pela ultima vez. Ao chegar à delegacia, não revelou o que realmente tinha ocorrido, mas alegou que os desaparecidos teriam embarcado para a região de Caí. Parecia nervoso e evasivo, claramente escondendo alguma coisa.

Ao final do depoimento dado ao chefe de polícia Dário Rafael Callado, a duvida ficou no ar. O que estaria ele tentando acobertar?

Desconfiado da "história" contada, Callado decidiu investigar. Policiais ficaram de tocaia vigiando a casa de Ramos e o movimento do casal que lá residia. Havia algo estranho acontecendo: as janelas ficavam fechadas apesar do calor sufocante, Ramos entrava e saia carregando objetos e sua esposa parecia apreensiva. 

No dia 18 de abril, a polícia de Porto Alegre decidiu agir e buscar provas na residência na Rua dos Arvoredos. Mandato de busca era algo que não existia e a polícia podia simplesmente entrar a força na casa se desconfiasse do morador. Os dois policiais e o Delegado Callado não tiveram de buscar muito, deram de cara com algo horripilante no porão da casa. Em meio ao material usado para produzir linguiça haviam pedaços de uma pessoa desmembrada. Alertados, escavaram o chão de terra batida que parecia remexido.

Lá estavam enterrados os pedaços de outro cadáver, já em avançado estado de decomposição. Achavam que se tratava de um dos sumidos, mas não... a vítima foi identificada mais tarde como o alemão Carlos Claussner, antigo dono do açougue na Rua da Ponte e ex-patrão de José Ramos. Aquele mesmo que teria partido de veneta tempos antes.

A busca prosseguiu e ao examinar um poço desativado, no terreno dos fundos da casa, os policiais sentiram um fedor medonho emanando do buraco. Ramos tentou disfarçar afirmando que havia descartado restos de carne no poço, mas os policiais não ficaram convencidos. Um deles desceu com uma corda, tampando o nariz com um lenço para disfarçar o cheiro nauseante.


La no fundo encontrou os corpos de Januário Martins Ramos da Silva e de seu caixeiro, José Ignacio de Souza Ávila, de apenas 14 anos, os dois haviam sido esquartejados. Partes faltavam e os pedaços dispostos em ganchos lembravam os restos de um matadouro. O policial que fez a descoberta saiu de lá atônito, vomitando e tremendo dos pés a cabeça. "Parece o inferno", disse aos seus colegas.

Outros desceram no poço onde acharam ainda os restos recentes de um cachorro preto, rasgado da garganta ao ventre. Há boatos de que haveriam mais cadáveres secionados, cortados para o preparo da iguaria vendida pelo açougueiro. Mas as histórias foram abafadas dado o teor lúgubre da revelação.

A essa altura não havia mais como esconder o horror ocorrido naquele endereço. 

Crimes de natureza vil haviam sido cometidos por José Ramos em conluio com a esposa Catarina Palse e diante das evidências eles sequer tentaram esconder a culpa. O casal reconheceu que havia matado com o intuito de se apossar dos bens de suas vítimas. Há divergência sobre o número total de crimes. Alguns na época afirmaram que as gavetas e armários da casa estavam cheias de pertences de vítimas - baús e malas de viagem. A suspeita é que eles vinham atuando a anos, mas a investigação se concentrou apenas nos corpos achados na cena do crime. A polícia não queria mexer nesse vespeiro, por assim dizer.

O diário de Catarina, encontrado em seu quarto foi o ponto de partida para a investigação das mortes. Catarina Palse, tomada de remorso após a prisão, confessou à polícia que ali, naquele local, haviam ocorrido vários latrocínios. Mas o pior era a maneira como a dupla escolheu lidar com os corpos. A transformação deles em comida era algo digno de pesadelos.

Segundo os autos do processo, Catarina revelou seu modus operandi. Ela abordava as vítimas em potencial no Beco da Ópera, onde, nos dias de hoje, localiza-se a Rua Uruguai. Levava os escolhidos através dos becos escuros e ladeiras para um lugar combinado onde se dava o ataque. A vítima era então carregada até a casa na Rua do Arvoredo onde era degolada, esquartejada e descarnada. Toda carne extraida era moida e transformada na excelente linguiça vendida no açougue na Rua da Ponte. Segundo os registros da época, a iguaria, além de muito bem aceita no comércio, era consumida pela alta burguesia de Porto Alegre.


Consta que Ramos empurrou a culpa para os ombros de Claussner, tratado como “mentor” da fabricação de linguiça das vitimas. Seria essa a melhor maneira de impedir que os assassinatos fossem descobertos. Com a carne transformada em linguiça, os ossos eram dissolvidos em ácido ou incinerados no açougue, eliminando, dessa forma, as possíveis evidências dos crimes.

Na época, o delegado Dario Callado exercia concomitantemente as funções de Chefe de Polícia e Juiz de Direito, o que era autorizado em algumas províncias. Isso permitiu que ele agisse com celeridade no inquérito policial e cumprimento das funções judiciais. A sentença foi pronunciada rapidamente supostamente para que seu vínculo com o réu não levantasse suspeitas de sua isenção. 

Ramos foi acusado de latrocínio e condenado à pena de morte por enforcamento. Catarina acabou sendo presa como cúmplice, condenada a 13 anos de prisão. Nenhum dos dois, entretanto chegou a receber a punição estabelecida. A pena de Ramos foi comutada em prisão perpétua, e supostamente ele teria sido posto em liberdade após cumprir apenas 8 anos de encarceramento. Acredita-se que ele passou os últimos anos de sua vida no interior de Santa Catarina, trabalhando como açougueiro. Já Catarina Palse ficou presa por aproximadamente uma década, sendo transferida para um manicômio onde veio a falecer.

O autos do processo versando sobre os crimes da Rua do Arvoredo encontram-se hoje guardados na sede do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro - tendo sido transferidos para a então Capital do Império. Apesar da crença generalizada no sumiço dos papéis eles ainda existem e embora sucintos, provam que o caso realmente ocorreu e não foi mera invenção. 

Por muito tempo, o incidente foi tratado em Porto Alegre como uma lenda urbana, uma história assombrosa de tempos fúlgidos que seria um grosseiro exagero. Não é de se estranhar que autoridades em Porto Alegre tenham tentado varrer o caso para baixo do tapete da história, fazendo de conta que tais coisas jamais haviam acontecido, quanto mais em uma cidade civilizada como a Capital da Província Gaúcha. Era melhor para todos que aquilo não tivesse acontecido.

Entretanto, pergunte a qualquer porto-alegrense e ele prontamente reconhecerá a história macabra dos Crimes da Rua do Arvoredo e saberá de alguns detalhes. Crimes como esse marcam a história de uma cidade e acabam se tornando parte de sua própria existência.

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

" O Maior Crime da Terra" - Os Macabros Assassinatos da Rua do Arvoredo


Na crônica policial, certos casos ganham relevância com o passar dos anos e se tornam matéria para a vivência urbana. Se tornam ao seu modo lendários! São crimes inesquecíveis que causam comoção e que causam um misto de curiosidade e interesse mórbido numa verdadeira legião de pessoas. Tornam-se ironicamente por intermédio de sua bizarrice assunto de debate.

Não faltam crimes hediondos no Brasil, casos que, justamente pela sua natureza medonha, ganham manchetes na mídia. Creio que seja da natureza humana se interessar pelo horror sofrido pelo vizinho. Talvez a psicologia seja capaz de explicar porque essas coisas nos atraem e por que tais narrativas são tão fascinantes - não obstante o sangue, o pavor e a indignação que causam, ou justamente por esses fatores.

Não é de hoje que tais incidentes despertam o interesse das pessoas.

O caso examinado nesse artigo ocorreu há quase 160 anos, no rincão mais meridional do então Império do Brasil, a Província de São Pedro, como então era conhecido o Rio Grande do Sul. O incidente se deu na capital, a Cidade de Porto Alegre, na época, lar de cerca de 20 mil almas que se horrorizaram com os crimes pavorosos ocorridos numa sinistra casa localizada no número 27 da Rua Arvoredo.

Desconfio que alguns leitores do Blog, sobretudo do sul do país, já devem ter ouvido falar dessa história macabra. Nela, um casal de facínoras, um açougueiro e sua esposa, atraíam para a referida morada homens com a promessa de sexo fortuito, os assassinavam com requintes de crueldade, roubavam, desmembravam os corpos e num ato do mais fino horror, os transformaram em comida para serem vendidos na forma de linguiça para a população em geral.

A história dos crimes da Rua do Arvoredo foi tratada ao longo dos anos como um horror incomparável, chamado por alguns de seus estudiosos de "O Maior crime da Terra". Ganhou fama internacional e chegou a ser discutida na Europa. Charles Darwin após ler sobre o caso comentou "será que há um chacal dentro de cada homem"? Não eram apenas os assassinatos e seus detalhes sanguinolentos, que causam choque mas o fato dos criminosos terem transformado o povo de Porto Alegre em canibais inconscientes que contribui para o caráter nauseante desse caso. Por algum tempo se considerou o ocorrido um caso exagerado, cujos detalhes foram sendo assomados com o tempo e que talvez, nem tudo tenha realmente acontecido. Contudo, é inegável que os Crimes da Rua do Arvoredo de fato ocorreram, uma vez que os autos do Processo ainda existem.


Tudo começou no distante ano de 1863, durante a regência de Dom Pedro II e às vésperas da Guerra do Paraguai que lavaria com sangue as fronteiras cisplatinas.

Na tranquila cidade de Porto Alegre vivia um tal José Ramos personagem principal desta história hedionda. José era o filho mais velho de Manoel Ramos e Maria da Conceição. O pai foi batedor de um esquadrão de cavalaria de Bento Gonçalves durante a Revolução Farroupilha. Um homem violento descrito como alguém com muita habilidade no manejo da faca, que se notabilizou justamente por usar a lâmina de forma letal. Era um dos responsáveis pela mais temida forma de execução nos conflitos gaúchos - a Degola. Diziam que Manoel tinha muito gosto em passar a faca na garganta dos prisioneiros e separar cabeça do corpo em um movimento rápido de sua lâmina afiada.

Todavia, em algum momento o batedor se enjoou com todo aquele sangue e morte e decidiu desertar, fugindo para Santa Catarina, local onde fixou residência, casou e onde seu filho, José, nasceu.

Era hábito do pai contar façanhas da revolução, ouvidas com admiração pelo menino que nutria especial interesse nas narrativas sangrentas. Segundo os boatos, o pequeno Ramos insistia que o pai contasse amiúde as façanhas de seu esquadrão, especialmente  o que acontecia quando ressoava o infame toque de "degolar", ocasião em que as ordens eram acumular cabeças. Quanto mais, melhor... 

Na juventude, o pequeno José, filho mais velho de Manuel via a mãe ser agredida pelo pai embriagado. As surras frequentes continuaram até ele dar um basta naquilo. Ele tomou a faca e a projetou contra o pai, ferindo-o gravemente, levando-o à morte em poucos dias. Para não ser preso, o assassino fugiu para a Província de São Pedro, onde ironicamente se estabeleceu como membro da Polícia, exercendo a função de maneira digna, ainda que brutal na força de segurança municipal. Isso até o dia que é flagrado tentando degolar um preso célebre de alcunha Campara, uma espécie de Robin Hood dos Pampas. Dada a repercussão negativa, é exigida a baixa de Ramos que se torna civil. Ainda assim, ele  continua servindo como informante, subordinado diretamente ao Chefe de Polícia, o temido delegado Dário Callado, por quem, mais tarde, seria preso e julgado.

Diz-se de Ramos que era um sujeito mestiço claro, olhos enormes, voz sinistra, barba rala e de extraordinária força física. Alguns o descreviam como um gigante, verdadeiro Golias, com quase dois metros de altura, ainda que possa esse ser um dos tais exageros. Entre seus hábitos incomuns, o amor ao teatro e à música: era frequentador assíduo do recém inaugurado Theatro São Pedro, casa que atraía artistas e intelectuais de Porto Alegre. Ramos gostava de ópera, de música clássica e de peças dramáticas, chegava a chorar de emoção ao assistir as montagens clássicas. Vestia-se de maneira impecável, embora abusasse das colônias e perfumes, talvez para afastar os maus olores que sua profissão causava. Possuía ainda razoável nível de instrução, sendo considerado pelos vizinhos como muito religioso e sensível, em resumo, um cidadão acima de qualquer suspeita.


Foi na capital gaúcha que José Ramos encontrou e se apaixonou por sua cara metade, Catarina Palse.

Catarina Palse, embora não seja a "personagem principal", é elemento não menos importante, pois foi cúmplice de José Ramos, atraindo as vítimas para sua residência ou, simplesmente, pela omissão, acobertando os terríveis crimes do marido. Por algum tempo ela foi tratada como vítima inocente das ingerências do cônjuge, mas mais recentemente seu papel de coautora foi se consolidando tornando-a cúmplice no caso.

Catarina tinha origem Húngara, mas era etnicamente alemã, em razão de fazer parte de uma minoria alemã que povoou o território da Transilvânia que posteriormente constituiu aquele País. Filha de artesão, de família pobre, morava em uma aldeia com os pais e dois irmãos. Há rumores que ela teve a família inteira assassinada durante a Revolução contra a Áustria. Catarina de apenas 13 anos teria sido estuprada e abandonada inconsciente por soldados nas ruínas de seu vilarejo devastado. Saiu das ruínas da pequena propriedade, coberta de sangue, escoriações e vergonha. Vagou pelos campos, mas aos 15 anos, conheceu um sujeito cinco anos mais velho chamado Peter Palsen, um tosador de lã. Posteriormente, aconselhados pelos pastores protestantes, emigram para o Brasil, a fim fugir da miséria extrema em que viviam. À bordo do navio que fazia a longa viagem, o marido de Catarina, incerto diante do que os aguardaria no Novo Mundo cede ao desespero: comete suicídio se enforcando num compartimento do navio, deixando a jovem esposa viúva.

Em 1857, com 19 anos e solitária, Catarina chega à capital gaúcha junto com milhares de outros imigrantes alemães maltrapilhos. Todas as descrições da moça apontam que ela era realmente muito bonita e dona de dotes físicos - "uma visão de delicadeza e beleza". A pele branca, os cabelos finos e loiros, os olhos de um azul aquoso que brilhavam com intensidade, tudo era elogiado em sua pessoa. Era também vivaz, despachada e com uma inteligência considerável que lhe permitiu aprender o idioma em alguns meses, embora conservasse forte sotaque teutônico. 

Não há muitos registros de como Catarina viveu seus primeiros anos no Brasil, mas é de se supor que ela tenha ficado na companhia de outras famílias de colonos e lavradores em alguma comunidade fechada onde os costumes germânicos prevaleciam, já que aquela gente raramente se misturava com os brasileiros. Cinco anos após a sua chegada, sabemos que ela começou a se envolver com José Ramos embora não se saiba como se conheceram. Em 1863, o casal passou a viver junto, ainda que não fossem casados legalmente. Logo decidiram coabitar uma casa na Rua do Arvoredo 27 (atual Rua Fernando Machado), lugar próximo a um cemitério que se encontrava nos fundos da Catedral Metropolitana de Porto Alegre. 

É interessante abrir um parêntese sobre o tal endereço, pois este já gozava de certa infâmia antes do casal adotá-lo como sua residência. Aquele teto e aquelas paredes teriam testemunhado um dos primeiros casos de latrocínio ocorridos em Porto Alegre, no qual um oficial do Exército foi morto por dois subalternos que pretendiam roubá-lo. Os criminosos, um sargento e um praça da milícia local, emboscaram o superior e o mataram a facadas num dos aposentos. Cumprida a tarefa, lavaram o local e removeram o cadáver discretamente despejando-o no Rio Guaíba. O corpo achado semanas depois, inchado e semidevorado pelos peixes, causou indignação na sociedade gaúcha. Como era possível que coisa tão medonha acontecesse justo na capital? Os culpados foram presos tentando se livrar de objetos do morto e uma vez julgados foram sentenciados à morte. Justiça rápida, bem ao gosto da época.


Não se sabe se Ramos e Catarina conheciam a história da casa que escolheram viver ou se algo ali influiu para o caminho que acabaram tomando. É bem provável que soubessem, já que o aluguel da propriedade era mais barato uma vez que ninguém queria viver num lugar considerado por muitos como assombrado. Havia rumores, e todos davam conta de que coisas ruins aconteciam no sobrado de alvenaria. Era um verdadeiro palácio se comparado às demais residências mal ajambradas distribuídas ao longo da rua torta. Diferente das demais casas e casebres, o endereço era sólido, bem projetado e despontava como uma morada de respeito, ainda assim, poucos queriam viver sob o seu teto

Só as circunstâncias de sua história justificavam que o casal conseguisse aquele imóvel com três cômodos, pátio e frontão. Ali o casal passou a viver junto, desmerecendo e ridicularizando toda e qualquer história sobre fantasmas que chegava aos seus ouvidos. 

Como acontece em inúmeros casos sinistros de assassinato, ninguém desconfiava previamente dos criminosos ou de suas atividades, ao menos até elas serem reveladas. Para todos os efeitos, eram apenas duas pessoas comuns vivendo numa pequena e fechada sociedade. Quem poderia imaginar do que eles seriam capazes e de que maneira escreveriam seus nomes como um dos mais cruéis e pérfidos assassinos de nossa história?

Como se deu o caso e seus detalhes sanguinolentos?

Acompanhem a continuação do artigo.  

terça-feira, 19 de setembro de 2023

O Lapso de Tempo de Kersey - Exploradores de épocas passadas


Uma das ocorrências mais estranhas no campo do paranormal diz respeito ao fenômeno categorizado como "Lapso de Tempo". 

Estes são fenômenos em que indivíduos ou mesmo grandes grupos de pessoas parecem passar através de algum tipo de véu entre o tempo e espaço, tendo um vislumbre do passado distante, apenas para serem catapultados de volta ao tempo presente, confusos e sem entender o que aconteceu. Tais casos tendem a ser raros, mas quando ocorrem também tendem a ser bizarros.

Um lapso de tempo bastante estudado e detalhado alegadamente ocorreu com um grupo de jovens na Inglaterra, uma ocorrência que os levou a retornar à um vilarejo do interior e que deixou um mistério sem solução.

Era o outono de 1957, quando três cadetes da Marinha Real Britânica decidiram visitar a então tranquila região de Suffolk. Nesse dia, os cadetes William Laing, Michael Crowley e Ray Baker, tinham como objetivo simples, seguir uma estrada pela bucólica área, observar alguns locais assinalados no mapa de que dispunham e retornar antes do anoitecer. Considerando que era um dia claro e ensolarado, eles tinham pela frente uma caminhada agradável pela paisagem pitoresca e a princípio, isso foi exatamente o que eles encontraram. Mas as coisas estavam prestes a dar uma guinada na direção do incomum e do inexplicável.

Ao longo do caminho, os homens, passaram por um pequeno povoado chamado Kersey, um vilarejo tranquilo com pouco mais de cem habitantes vivendo em prédios medievais e ruas estreitas. A medida que se aproximavam do local, tudo parecia perfeitamente normal. O sino da igreja badalava, aves cantavam e fumaça saia das chaminés. Já que Kinsey estava no mapa, eles se aproximaram pensando em parar num pub e quem sabe beber uma cerveja. Entretanto, à medida que observavam o povoado ele parecia estranho. Em primeiro lugar, havia um silêncio tumular. Era como se o lugar estivesse deserto, abandonado.

Os sinos e pássaros haviam silenciado repentinamente, como se um manto de quietude tivesse baixado sobre o local. Tudo parecia estático: folhas cobriam as ruas, os galhos recurvos das árvores permaneciam parados, não havia vento, nem movimento. Não havia vivalma nas ruas escuras e algo sinistro parecia se precipitar sobre o vilarejo como uma sombra.

O lugar parecia tão esquisito que um dos cadetes diria mais tarde:

"Era um povoado fantasma, por assim dizer. Era desconcertante ver aquilo, sentir aquela aura de isolamento. Eu podia jurar que havíamos voltado no tempo. A sensação que eu experimentava era de tristeza profunda e depressão esmagadora. Mas havia outra coisa, um sentimento de tristeza. As sombras eram longas e escuras, formando poços de escuridão fria que me perturbavam".


Pior ainda, os cadetes relatavam sentir uma presença sobre o povoado: algo que não conseguiam ver, mas cuja existência eram capazes de perceber claramente.

Mas isso não seria tudo. Ao explorar o interior do povoado eles não encontraram carros, nenhuma linha de força, postes de telefone, bicicletas, nem mesmo ruas pavimentadas. Ao invés disso tudo tinha um ar antigo, austero e rudimentar. Os prédios em estilo medieval podiam ser vistos e o que predominava era a alvenaria rústica de séculos atrás.

Acrescentando um componente surreal, até mesmo a estação parecia ter mudado. Não era mais a primavera que eles percebiam, mas um cinzento crepúsculo invernal que os recebia. Um frio repentino os envolvia, com um nevoeiro denso erguendo-se do nada.

O grupo decidiu se aproximar de um dos prédios desertos para olhar o que havia em seu interior e se surpreendeu ao encontrar o que parecia um tipo de açougue. Um dos rapazes, o cadete Crowley, descreveu o lugar nos seguintes termos:

 "Não havia mesas e nem cadeiras, apenas um balcão de madeira atravessado. Sobre a bancada estavam duas ou três carcaças de bois esquartejados em grandes pedaços. Alguns deles estavam esverdeados e apodrecidos. As pequenas janelas estavam abertas, mas não haviam insetos apesar do cheiro nauseante que emanava do aposento cujo piso estava coalhado de sangue viscoso. Eu lembro que quando espiamos através da janela, sentimos uma forte náusea. A sensação era de descrença de que alguém poderia largar um lugar naquela estado, a não ser que precisasse fugir o quanto antes".

Os cadetes observaram outros prédios que pareciam ser pequenas casas. No interior espartano acharam alguns móveis rústicos e detritos descartados no chão de terra batida. Os habitantes, fossem quem fossem, haviam abandonado o lugar carregando suas parcas possessões. A impressão era de que deviam ter fugido repentinamente, escapando de uma grave ameaça. As lareiras ainda estavam com cinzas aquecidas o que indicava que a população tinha partido não fazia tanto tempo.

Eles foram até a Igreja que era claramente o marco principal do povoado. Mas o que os surpreendeu foi que o Campanário visto de longe havia desaparecido. A igreja ainda estava lá, mas muito mais simples e acanhada do que visto anteriormente. Era como se ela se resumisse a um prédio simples, sem muitos adornos e com um crucifixo de madeira sobre um altar irregular de pedra grés. Da torre que haviam avistado de longe e do sino que escutaram claramente retinir à distância,  não havia sinal.

A essa altura, os três homens estavam muito assustados e inseguros de prosseguir em sua exploração. Aquela sensação esmagadadora de ameaça persistia e, de fato, apenas havia aumentado. A cada lugar que exploravam o sentimento inquietante aumentava até se tornar insuportável. Eles decidiram sair dali o quanto antes.

O grupo cruzou o povoado caminhando rapidamente, sem olhar para os lados ou parar para admirar os detalhes. Tão logo deixaram o vilarejo, eles foram percebendo que à distância as características originais foram retornando. As casas modernas, os postes de força e a torre da igreja ressurgiram tão logo eles se afastaram. Havia novamente o som reconfortante dos sinos, dos pássaros e do vento da primavera.

Os cadetes retornaram para a academia com uma história incomum sobre Kersey. Nem todos acreditaram nos estranhos detalhes da narrativa, mas logo se percebeu que ele era congruente. Os cadetes lembravam exatamente dos mesmos detalhes.


Demorou muitos anos até que o caso chamasse a atenção do pesquisador paranormal Andrew MacKenzie, da Sociedade de Pesquisa Psíquica da Inglaterra. O estudioso havia ouvido rumores sobre o incidente no começo dos anos 1980. Intrigado ele conseguiu localizar os envolvidos e os convenceu a visitar Kersey para ouvir em primeira mão seu relato do ocorrido. 

Uma das principais coisas que impressionaram MacKenzie é que o relato deles era historicamente acurado. O local em que eles viram as carcaças de fato foi um açougue até meados do século XVIII. A Igreja também parecia guardar similaridade com a forma medieval original, antes do acréscimo da torre no início século XX. 

Outras observações da planta da cidade também encaixavam com documentação histórica, a qual os cadetes jamais tiveram acesso. MacKenzie chegou a conclusão de que os jovens cadetes experimentaram um fenômeno conhecido como lapso de tempo no qual pessoas viajam inadvertidamente através de um portão temporal. O fenômeno ocorre a despeito da vontade do viajante, ele simplesmente se desloca de uma época para outra geralmente sem saber o que está acontecendo.

Há teorias que tentam explicar os lapsos de tempo. Certos lugares parecem ter maior probabilidade de manifestar esse fenômeno, em especial locais com histórico de guerras, tragédias ou genocídio. Tais lugares supostamente são coalhados de emoções fortes e energia residual de acontecimentos traumáticos que desencadeiam os lapsos de tempo. Eles criam as condições para o fenômeno.

Segundo a história local, o povoado de Kersey foi destruído no século XV durante guerras civis inglesas. A população em pelo menos uma ocasião foi totalmente destruída por soldados. Outra possível tragédia que pode ter desencadeado o Lapso de Tempo remete ao período em que o povoado foi devastado pela Peste Negra na primeira metade dos anos 1400. 

Após iniciar suas pesquisas, MacKenzie ficou surpreso ao descobrir outros casos em que pessoas experimentavam Lapsos de Tempo nos arredores de Kersey. Os resultados da pesquisa de MacKenzie foram incluídas em um livro intitulado "Exploradores de Épocas Passadas", publicado em 1997.

É claro, muitas pessoas se mantém céticas diante dos casos de Lapso de Tempo. Os críticos apontam algumas discrepâncias históricas e afirmam que não há uma prova contundente sobre o fenômeno. No fim das contas, não há como ter certeza se os cadetes passaram pelo incidente paranormal ou não. Teriam eles sido transportados através do tempo para outra época? E se sim, como isso teria acontecido? Ou haveria alguma explicação razoável para o que transcorreu com eles naquela idílica paisagem do interior britânico. 

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

A Longa Campanha - Material do Guardião para Máscaras de Nyarlathotep (Parte 2)

Continuando com a postagem do material que usei na minha Campanha Máscaras de Nyarlathotep.

Nesse artigo eu mostro o material que guardo dentro das caixas de campanha apresentadas no artigo anterior. Como é muita coisa, preferi fazer apenas alguns comentários sobre as fotografias para não tornar o artigo longo demais. 

ARMAS E EQUIPAMENTO

Eu já havia trabalhado anteriormente em cartões com detalhes das armas e equipamentos em Chamado de Cthulhu. Acho que é uma maneira rápida e eficaz de deixar perto dos jogadores as informações pertinentes quando um combate tem início. E em se tratando de uma campanha PULP a quantidade de combates obviamente seria maior.

Eu utilizei a maioria das cartas de armamento e equipamento que já tinha, mas criei alguns exclusivamente para a Campanha. Há algumas armas específicas equipamentos específicos e um enorme surgimento de objetos mágicos únicos. 

PROPS

Se tem uma campanha oficial da Chaosium que dá a oportunidade ao mestre de criar props, essa campanha é Máscaras de Nyarlathotep (MdN).

As aventuras são recheadas de objetos importantes, itens de poder e é claro, Máscaras que possuem um significado especial na trama.

Eu até gostaria de ter criado mais props para a Campanha, mas os que utilizei foram bem úteis para evocar o espírito do jogo e funcionaram muito bem.

Os meus props favoritos foram o Ankh da Irmandade do Faraó Negro (que era usado virado de cabeça para baixo, representando o caráter perverso da divindade) e o pequeno crânio com o símbolo do Culto da Língua Sangrenta. 

O Crânio rapidamente se transformou em uma espécie de "cartão de visitas" dos cultistas africanos. Aqueles que recebiam esse objeto sabiam que mais cedo ou mais tarde, a Língua Sangrenta viria atrás deles. Desde a primeira aparição (nos pertences de Jackson Elias), até a última, no capítulo do Quênia, o bizarro símbolo foi responsável por causar alguns arrepios na mesa. 


As armas produzidas na Impressora 3D não eram exatamente props da campanha, mas acabaram se tornando. 

As Máscaras de Nyarlathotep também desempenham um papel importante na campanha. Há diferentes momentos em que Máscaras são encontradas e algumas delas causam efeitos e abrem as portas para acontecimentos inesperados.

Eu usei a seguinte regra na minha mesa, se por (des)ventura algum dos jogadores pegasse uma máscara e colocasse diante do rosto, eu assumia que o personagem havia feito exatamente a mesma coisa.

E como previsto, foi exatamente o que que aconteceu no capítulo de Nova York: alguém vestiu a máscara. 

Essas Máscaras eu obviamente não confeccionei, elas são Máscaras autênticas, mas que encaixaram perfeitamente na campanha.

CADERNO DE NOTAS

Em uma campanha longa e repleta de detalhes, como e o caso de MdN, nomes de pessoas, lugares e detalhes vitais precisam sempre estar ao alcance do Guardião e dos Jogadores.

Esse caderninho funcionou como uma espécie de guia para não deixar esquecer de alguns detalhes cruciais da campanha. Uma espécie de "quem é quem" de indivíduos, objetos e personagens importantes.

Gostei do acabamento que usei nas caixas e reaproveite para a capa do caderno. Ficou bem legal!

PEN DRIVE DA CAMPANHA

A quantidade enorme de papéis, recursos do Guardião e anotações criou uma preocupação.

E se por acaso acontecesse alguma coisa com esse material no computador. (Ok, existe a nuvem, mas sabe como é... o medo de perder algum material era enorme)

Só sabe a desgraça que é perder detalhes de uma campanha de RPG, aquele que já perdeu. Pensando nisso, reuni todos os arquivos em um pen drive que fica guardado junto com o material de campanha físico.

Arranjei uma caixinha e um adesivo de identificação para que ele não se perca e para que não seja apagado.

OS PORTA RETRATOS DOS PERSONAGENS

Eu sempre gostei de referências visuais para facilitar a compreensão de quem são os personagens e com o que eles se parecem. 

Em MdN eu fiz uso desses porta retratos contendo a imagem de cada um dos personagens.

As imagens foram colhidas na internet, em sites com imagens pulp e foi fácil encaixar cada personagem em sua imagem. 

OS MORTOS FAMINTOS:

Na historia central de MdN, Jackson Elias é um escritor especializado em explorar o lado mais sombrio da humanidade. 

No passado, ele esteve envolvido em diferentes investigações sobre cultos e seitas ao redor do mundo. No primeiro cenário, que se passa inteiramente no Peru, Jackson e o grupo, membros de uma Expedição à caminho da mais isolada região do país, se vê às voltas com um horrível culto andino.

A aventura serve como Prólogo de Máscaras de Nyarlathotep e serve para estabelecer a amizade e vínculo entre os investigadores e o NPC.

Uma sacada interessante desse prólogo é que a aventura se transforma em um livro escrito por Elias e editado pela Prospero Books de Londres. O titulo do livro é Os Mortos Famintos (ou em inglês, "The Hungry Dead").

O mais legal é que encontrei a capa do livro na Internet, o que deu origem a um prop bem bacana.

Imprimi capa, lateral e o verso do livro de Elias. Em seguida peguei um livro com a capa lisa e colei nele, fazendo parecer que se tratava de um livro autêntico.

Ficou até melhor do que eu imaginava.

Para completar, adicionei uma dedicatória especial aos investigadores. O livro seria um presente para o grupo no encontro marcado por Jackson Elias em Nova York - o início oficial da campanha.

DIÁRIOS DA CAMPANHA

Eu sempre gostei de Diários de Campanha em RPG. 

Se tem uma coisa que ajuda a aprofundar uma história e faz com que ela ganhe uma nova dimensão - é relatar os acontecimentos de jogo como se fossem incidentes na vida de indivíduos reais.

Achei esse caderno de notas e pensei em usá-lo como o diário da campanha Máscaras de Nyarlathotep.

Infelizmente, esse ainda é um trabalho em curso. A ideia era escrever as memórias dos personagens, usando o formato de cartas, anotações ou ainda do diário particular deles.

Eu cheguei a escrever os dois primeiros capítulos - Peru e Nova York, mas o trabalho infelizmente parou nesse ponto, mais por falta de tempo de sentar e escrever do que por qualquer outra razão. 

O diário poderia ser consultado pelos jogadores e atualizado entre um capítulo e outro, mas confesso que na empolgação acabei me estendendo demais e escrevendo muito mais do que devia. 

Ainda assim, penso em retomar a história cobrindo os principais pontos da campanha como um registro vívido das sessões.

DIÁRIO DA INVESTIGAÇÃO DE ELIAS

O Diário da Investigação de Jackson Elias sobre o misterioso destino da Expedição Carlyle talvez seja o meu prop favorito.

Na história original, Elias dá o pontapé inicial na trama ao começar a investigar os acontecimentos cercando a mau fadada expedição, ocorrida em 1919. 

Minha ideia era simular o diário no qual Elias fez anotações, reuniu pistas, fotografias e escreveu suas suspeitas sobre a Expedição Carlyle. 

Além disso, o diário contém várias pistas sobre a Expedição, seus membros e o mistério de seu desaparecimento.

Procurei imagens para ilustrar as páginas, fiz uma colagem de recortes de jornal, fotos, mapas e tudo mais. No fim, acho que ficou bem interessante: folhear essas páginas em busca de um insight do que Elias estava pensando e de suas suspeitas funcionou bem. 

Eu colei todos os recortes do fictício Pilar Reposte, um jornal que cobriu os principais fatos da Expedição e noticiou os acontecimentos em ordem cronológica.

Utilizei fotografias de época, muitas delas de expedições reais para ilustrar a viagem dos membros da Expedição e anotações como se estas tivessem sido feitas por Elias.

Imprimi as fotografias em sépia para dar um ar mais antigo (meio amarelado) e acredito ter encontrado o tom correto para representar o diário de um investigador experiente como Jackson Elias. 

Elias também se concentrou nos membros principais da Expedição Carlyle, dedicando várias páginas a analisar o background deles e qual a participação de cada um nos eventos que levaram as suas trágicas morte.

Muitas das pistas também serviram para atiçar a curiosidade dos jogadores, incentivaram o início da investigação e fez com que o grupo questionasse uma série de elementos controversos que ficaram em aberto. 

Essa talvez seja a minha página favorita no Diário Investigativo de Elias. Um mapa no qual ele faz uma análise dos lugares por ele visitados e de suas suspeitas sobre acontecimentos bizarros cercando a Expedição Carlyle.

A GRAVAÇÃO EM CERA

Nos anos 1920 havia duas maneiras de fazer gravações de voz: usar um fonógrafo com discos de vinil ou então um ditafone que preservava os sons em cilindros de cera.

O segundo método foi desenvolvido e patenteado por Thomas Edison e embora não tenha sobrevivido até a metade do século passado, ainda era empregado em 1925, data nominal da campanha MdN.

Em determinado momento, um cilindro de cera com a voz de Elais é encontrado pelos investigadores e ele literalmente fala com eles de além túmulo.  

Eu quis tornar esse trecho da campanha o mais autêntico possível, por isso criei uma réplica de um estojo para guardar cilindro de ditafone.

Esse rótulo do "Edison Standard Record" eu achei na internet e reproduzi nessa latinha. Ficou bem semelhante ao material original.

É claro, eu não tenho o aparelho para reproduzir o som, mas fui atrás do mais próximo. 

Fiz uma gravação abafada com a voz levemente distorcida para soar como algo antigo. Na gravação, Elias "falava" com os personagens e passava adiante algumas de suas suspeitas sobre o que havia acontecido com a Expedição Carlyle.

Eu tenho bastante orgulho desse trecho. Deu trabalho, mas ficou bem produzido. 

ESCUDO DO NARRADOR

MdN possui um escudo oficial que contém informações específicas e detalhes para auxiliar o Guardião. Esse escudo faz parte da campanha original e mostra no verso um dos mais terríveis avatares do caos rastejante. 

Eu tenho também essa versão do escudo de Campanha pertencente ao Kit do Guardião editado na França. Eu gosto muito da imagem no verso que mostra um grupo de Investigadores nas cercanias da terrível Montanha do Vento Negro no Quênia. 

Essa arte do Escudo francês é simplesmente deslumbrante!

O OLHO DA LUZ E TREVAS

Sem querer recair em Spoilers, mas na campanha existe um artefato lendário chamado Olho da Luz e Trevas que desempenha um papel de grande importância na trama.

Dada a importância do objeto, achei que seria legal ter um prop físico dele para poder ser manipulado pelo grupo. Imprimi ele colorido e colei em um pedaço de massa epóxi moldável para parecer uma tabuleta rachada na metade.

Eu cheguei a tentar fazer ela em argila, mas infelizmente o resultado foi bem ruinzinho. 

No fim das contas, a impressão foi a melhor opção.

MARCADOR DE PÁGINAS

Eu sempre gostei de ter um marcador de páginas, para não perder algum detalhe ou achar as páginas mais rápido no livro.

Fiz dois marcadores, um para cada livro. No verso dele eu anotava as páginas e referências para encontrar mais facilmente dentro do livro os trechos que eu precisava.  

OS DADOS OFICIAIS E DE NYARLATHOTEP

Eu consegui encontrar esses dados exclusivos da Campanha e de Nyarlathotep lançados pela Q Workshop.


Os dados da Campanha são brancos com símbolos egípcios que remetem diretamente ao Faraó Negro, uma das máscaras mais famosas (e terríveis) do Caos Rastejante.


J[a os dados dedicados a Nyarlathotep são vermelhos e com uma espécie de arabesco  em preto. Por sinal, os dois são muito bonitos!

PASTA DE HANDOUTS

Máscaras é uma campanha com uma quantidade absurda de Recursos do Guardião.

Para guardar melhor os recursos eu usei primeiro envelopes pardos, uma para cada capítulo da campanha e um para os Recursos de ambientação que podiam ser usados em mais de um cenário. 

Separar dessa maneira foi uma forma mais fácil e rápida de manter a organização nas caixas e fazer com que cada recurso pudesse ser achado mais facilmente.

Encontrei essas imagens que se referem a cada capítulo da campanha na internet, acredito que são imagens da versão espanhola da campanha. 

Fiz uma impressão colorida para cada uma das capas e colei nos envelopes pardos.

Mas como os envelopes tinham a tendência de rasgar ou amassar, decidi adotar essas pastas pretas que são bem mais resistentes e duráveis, além de dar um charme especial ao material.

Usei as mesmas imagens para identificar cada uma das pastas de material.

Aqui é possível ver como ficou cada pasta de material. Elas contém os recursos, fotos, anotações e informações gerais que eu usei quando narrei os cenários.

Dessa maneira os Recursos do Guardião (Keepers Handout) ficam mais arrumados e organizados.

Eu acabei tomando a decisão de plastificar boa parte dos recursos do Guardião, pois sabia que eles seriam manipulados e usados pelos jogadores. 

Por um lado cortou meu coração ter que recortar o Kit do Guardião, mas por outro, acho que o material assim ficou bem mais protegido. Sem o risco de sujar, amassar ou rasgar. 

No fim, foi uma boa decisão. 

FOLHETOS DE VIAGEM

Esses Folhetos de Viagem são um achado!

Eles contém informações sobre as localidades visitadas no decorrer da campanha.

Além de serem lindos, os folhetos contém notas sobre hotéis, atrações turísticas, propagandas, mapas e até propagandas de lugares onde os investigadores poderiam se interessar em explorar.

Imprimi os folhetos em papel fotográfico e dobrei como se fosse um folheto de viagem de verdade. Ficou ótimo! 

HANDOUTS

É até difícil contar quantos Recursos do Guardião fazem parte da Campanha Máscaras de Nyalathotep.

Se eu tivesse de chutar, diria que há mais de uma centena deles. 

Acabei encontrando alguns adicionais que eram apenas citados na campanha e fiz mais alguns para expandir o material. Não cheguei a contar, mas é muita coisa.

Eu gosto especialmente das fotografias de época em preto e branco ou sépia.

Usei muitos retratos de época ou de atores conhecidos para que praticamente todos os NPCs que os jogadores encontraram tivessem uma imagem de referência. Essas eu costumava colocar no Quadro Branco no decorrer da campanha.

Boa parte das pistas que usei, eu achei na internet. As diferentes versões da Campanha publicadas na Espanha e na França oferecem material de primeira.

Esses acima são slides da cidadela no deserto australiano apenas citados na versão americana. Já na versão francesa havia as imagens em negativo. Eu imprimi e fiz os slides.

Outro Handout que ficou bacana foi esse aqui - o Regnum Congo, um livro contendo segredos do ramo africano do Culto da Língua Sangrenta.

Eu reutilizei esse Recurso, que havia usado anteriormente em um outro cenário. Mas achei que seria oportuno te-lo novamente para o trecho de Máscaras que se passava em Nova York.

O CAOS RASTEJANTE

Essa é outra adição que utilizei na minha campanha. 

São páginas contendo informações vitais sobre Nyarlatotep - O Caos Rastejante.

Os investigadores conseguiam obter essas informações na reta final da campanha e assim descobriam detalhes sobre a sinistra entidade que estavam enfrentando.

O material eu tirei aqui do blog mesmo, apenas alterei alguns trechos do texto para que ele ficasse como algo tirado de um tomo de conhecimento proibido. 

FICHAS DE PERSONAGENS E MAPAS

Assim como os Recursos do Guardião, achei que seria interessante manter as fichas dos investigadores separadas para deixar tudo organizado.

Eu usei uma pasta grande para guardar cópias das fichas, cartão das armas, folhas de anotações outros itens que os jogadores precisassem manter próximos.

A Pasta contendo as fichas ficou bem prática.

Eu usei o modelo de Ficha de Personagem específico para a Campanha.

 

Decidi guardar todos os mapas em um mesmo folder para facilitar o acesso a eles.

Como os mapas da campanha são excelentes, não precisei procurar cartas adicionais.

O que fiz várias vezes foi ampliar os mapas para o formato A3. Assim os mapas ficavam maiores e mais fáceis de serem examinados.

Com as cópias, eles também podiam desenhar, rabiscar ou traçar o curso de suas viagens diretamente nos mapas.

Em certa altura da campanha eu adotei a tela da televisão com forma de mostrar os mapas.

Mas eu continuo preferindo as versões em papel. 

Muitas vezes eu simplesmente prendia o mapa no Quadro Branco e usava uma seta imantada para mostrar onde o grupo estava em dado momento da campanha.

Ufa!

Vou cortar o artigo em mais uma parte para que não fique longo demais. 

Tem, mais algum material de campanha, mas o próximo artigo - no qual mostro o Quadro Branco, será o último. 

Fiquem conosco então!