sábado, 15 de setembro de 2018

Cinema Tentacular: A Freira - "Deus termina aqui"


Eu estudei em colégio de freiras minha infância e adolescência inteiras.

Na época em que eu estava no colégio, freiras já eram bem diferentes da ideia que boa parte das pessoas tem delas. Elas não eram amargas, ressentidas, fanáticas religiosas vestidas de pinguim e armadas com poderosas e devastadoras réguas usadas para disciplinar as crianças. Elas jogavam vôlei e dirigiam, sem falar que a maioria delas eram bem simpáticas e nem usavam hábito. É provável que a visão que muitas pessoas tem das freiras, seja uma visão um tanto estereotipada, posteriormente suavizada por simpáticas Noviças Rebeldes e/ou voadoras.

Minha mãe que também estudou em colégio de freiras sempre contou como elas eram severas, enérgicas e muitas vezes apavorantes. Talvez para a minha mãe, o filme "A Freira" (The Nun) surtisse mais efeito do que em mim. Talvez para ela fosse mais fácil associar a Freira Monstruosa do filme com as religiosas que mandavam no colégio que ela estudou.

Sem dúvida o filme "A Freira" aposta em uma imagem de Severidade e Isolamento para contar sua história de Horror. E cria um personagem bem macabro, como é possível atestar no trailer e nas fotos emoldurando essa resenha.


Mas falemos do filme em si, "A Freira" (The Nun/2018) é a quinta produção da franquia iniciada por Conjuração do Mal, que introduziu o casal de Investigadores e Demonologistas Ed e Lorraine Warren. Desde o primeiro filme, os dois se meteram com fantasmas, bonecas malditas, demônios e tiveram um entrevero com a própria freira que é a personagem central nesse capítulo. Sabendo que os Warren do mundo real estiveram na ativa e nas manchetes de tabloides por boa parte dos anos 70 a 90, é provável que ainda tenhamos mais filmes envolvendo o universo do casal. Enquanto estes estiverem rendendo uma boa bilheteria é razoável assumir que veremos outros casos paranormais seguindo o mesmo esquema.

"A Freira" é uma espécie de prequel na qual a história do macabro demônio chamado Valek é aprofundada. Ficamos sabendo mais alguns detalhes a respeito dessa criatura maligna, seus objetivos, de onde ele veio e como ele foi contido.

A história se passa no ano de 1952, no interior da Romênia, uma nação que sofreu profundamente com a Segunda Guerra e que ainda se reconstruía. Como um dos personagens comenta, viajar pelo interior do país é como retornar a Era Medieval, uma verdadeira colcha de retalhos de tradições, folclore e superstições.


Os primeiros dez minutos criam a atmosfera que vai acompanhar o espectador durante todo o filme. Não vou estragar as surpresas contando do que trata, mas a abertura é excelente, de fato, uma das melhores coisas do filme. Nela conhecemos a sinistra Abadia de St. Carta, a morada de uma rígida ordem de freiras que se dedicam a rezar e meditar sem qualquer contato com o mundo exterior. Mesmo as entregas de suprimentos para a abadia são feitas através de uma porta giratória para que ninguém entre e, mais importante, nenhuma das freiras saia. Quando o encarregado de levar os tais suprimentos chega a abadia e se depara com uma cena medonha do que parece ter sido um suicídio, ele corre para avisar.

Ciente do ocorrido, o Vaticano despacha para a região um religioso badass, Padre Burke (Demian Beshir) uma espécie de investigador sobrenatural com experiências desagradáveis durante a guerra. A missão do Padre é avaliar o que motivou o suicídio e se o local ainda pode ser considerado "sagrado". Para auxiliá-lo nessa importante tarefa, decidem enviar para acompanhá-lo uma noviça de mente aberta e atitude progressista, Irmã Irene (Tessa Farmiga). As razões para ordenar que uma jovem noviça tome parte em algo tão incomum permanecem à princípio desconhecidas, até mesmo mesmo para a própria mocinha. Depois de encontrar o sujeito que descobriu o corpo, um franco-canadense apelidado de Frenchie (Jonas Bloquet), os três acabam seguindo para a Abadia a fim de dar início a investigação e desvendar seus muitos segredos.

Um dos méritos do filme é que ele não perde tempo... assim que o grupo chega a abadia coisas bizarras começam a acontecer quase que de imediato. Uma sombria Madre Superiora os convida para passar a noite no alojamento do convento e explorar os arredores de maneira mais completa. De vultos macabros a ruídos inexplicáveis, passando por presenças invisíveis e espectros furiosos, o filme ao longo de 96 minutos de duração oferece toda sorte de manifestações sobrenaturais com o objetivo de pegar o público de surpresa e assustá-lo.


Aí está um dos problemas: ao recorrer repetidas vezes ao expediente do jump scare, o filme quase derrapa, tornando-se repetitivo. Quem realmente gosta de filmes de horror sabe que nada, nem mesmo a cena mais bem elaborada ou efeito especial mais mirabolante, consegue superar uma boa dose de horror psicológico. A Freira em alguns momentos repete a fórmula de tentar surpreender o público custe o que custar, mas não chega a realmente assustar. Por sinal, se essa for uma condição essencial para que você assista esse filme, então é possível que saia do cinema desapontado. Com todos seus jogos de câmera, sombras furtivas, gritos estridentes, o filme não chega a causar qualquer sensação de medo ou desconforto.

O que parece é que o roteiro joga para a torcida. Em um filme mais profundo e denso algumas cenas talvez conseguissem incomodar, mas o diretor parece tentar agradar a todos: aos que vieram assistir um filme de horror tradicional e aqueles que não tem muita certeza se deveriam estar na platéia. Para estes, o roteiro quebra o clima de horror inserindo aqui e ali algumas pontas de humor e piadinhas que atenuam a atmosfera de medo. Para os fãs mais hardcore isso pode ser um pecado mortal, mas a suavização deve agradar ao pessoal menos afeito ao gênero.

Visualmente "A Freira" é impecável! O filme possui uma fotografia escura, com sombras que parecem adquirir vida própria dependendo do ângulo em que elas são enquadradas. A equipe de direção de arte se esmerou em criar os ambientes soturnos da abadia nos mínimos detalhes: cada aposento, cada estátua, cada espelho e detalhe de afresco ajudam a passar uma ideia de isolamento e confinamento. Mesmo do lado de fora, o cemitério, com as suas lápides e cruzes de todos os tamanhos e formas, criam a ilusão de ser impossível escapar. Para quem aprecia os antigos clássicos da Hammer/Amicus, é possível perceber que o visual rende uma homenagem a esses velhos filmes góticos com seus castelos medievais e mansões assombradas, aqui transformados em um convento maldito. Os efeitos visuais e especiais são sólidos, mas não chegam a encher os olhos.


O elenco consegue estabelecer uma boa química: a dupla de protagonistas religiosos (padre e noviça) são suficientemente confiáveis e entregam aquilo que se espera. Tanto Beshir quanto Farmiga são bons atores e estão à vontade em seus papeis - por sinal Tessia Farmiga é irmã mais nova de Vera Farmiga que vive Lorraine Warren. O terceiro protagonista, Jonas Bloquet, serve como um alívio cômico um tantinho exagerado, mas que felizmente não chega a comprometer.

Talvez a maior decepção infelizmente seja justo o "monstro" do filme, que não rende o esperado. Embora seja um spinoff centrado em Valek, o roteiro é bastante econômico a respeito das motivações do Demônio. No fim, ele é mal, porque trata-se de um demônio, e espera-se que um demônio seja malvado. Quando ele aparece na tela existe a expectativa de que a cena vai ser assustadora, mas fica apenas nisso: Expectativa. Nenhuma das aparições chega a ser tensa ou particularmente memorável. Uma pena, pois a aparência cadavérica da Freira Demoníaca tinha tudo para causar apreensão e alçá-la a um lugar de honra na galeria de monstros memoráveis.


"A Freira" é um filme que consegue entreter, mas está longe de ser uma montanha russa de emoções e surpresas. Está mais para um passeio indolor num trem fantasma, daquele que quando termina você diz "foi isso"? Sem dúvida, aqueles que conseguirem manter as expectativas baixas vão aproveitar muito mais e sair com uma sensação de ter assistido uma matinê. Quem for esperando algo mais profundo, provavelmente vai reclamar e querer seu dinheiro de volta.

De uma forma ou de outra, a Freira está longe de ser "O capítulo mais assustador de Invocação do Mal" como promete o cartaz. Ele é divertido, mas perfeitamente esquecível.

Trailer:



quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A Besta (continua) entre nós - Mais histórias reais de Lobisomens


Leia aqui a primeira parte do artigo: A Besta entre Nós

Na história européia, há muitos casos documentados de pessoas que cometeram o crime de Licantropia e que foram condenados por serem Lobisomens. 

Em suas confissões, muitos acusados descreviam a transformação sendo causada por algum objeto mágico: um cinturão ou manto de pelo de lobo, um unguento mágico, uma poção encantada ou algum outro instrumento místico. Historiadores acreditam que tais objetos faziam parte da ilusão experimentada por mentirosos patológicos ou esquizofrênicos limítrofes que sofriam alucinações capazes de alterar a realidade. De certa forma eles falavam a verdade ao dizer que eram lobisomens, uma vez que acreditavam realmente serem lobos. Sua percepção assim interpretava e reconhecia os seus delírios. A psiquiatria compreende nos dias atuais que vários esquizofrênicos agudos realmente experimentam alucinações vívidas, sendo que a "transformação do homem em besta" é um dos relatos mais frequentes.

Mas o que dizer dos casos que possuem testemunhas que presenciaram homens se transformando em lobo? É preciso lembrar que a existência da licantropia e de lobisomens era um fato incontestável, mesmo para estudiosos e acadêmicos do período que davam por certa a possibilidade da transformação. É possível que os testemunhos decorressem de mera fabricação, de loucura ou mais provável da histeria em massa, motivada pelas muitas superstições.

Afinal, lobisomens não existem... ou será que existem?

Aqui estão mais alguns casos chocantes e verdadeiros envolvendo Lobisomens.

O Lobo Magistrado de Ansbach



A maioria dos casos envolvendo Lobisomens acabam sendo descobertos após uma pessoa cometer os crimes e confessá-los diante de um tribunal.

Mas nem sempre é assim... às vezes o Lobisomem veste a Toga de Magistrado.

Em 1685, um terrível lobo descrito como uma "besta feroz e incontrolável" aterrorizou a cidade de Neuses no Principado de Ansbach no que hoje e a Alemanha. A fera fazia vítimas e parecia determinada em caçar e matar suas presas com requintes de crueldade. O medo era tanto que as pessoas se trancavam em casa assim que escurecia e ninguém ousava sair. Havia o rumor de que a criatura não era um lobo comum, mas um lobisomem tamanha sua ousadia ao adentrar o vilarejo para aplacar sua sede de sangue.

Na época, o Chefe dos Magistrados de Neuss era um homem cruel e odiado por todos chamado Michale Leicht. Ocorre que esse sujeito acabou morrendo de repente - oficialmente de causas naturais, mas a família não permitiu que ninguém visse o cadáver que foi enterrado. Logo, um estranho boato se espalhou por Neuss, o de que o lobisomem havia sido visto nos arredores da casa do Juiz Leicht espreitando em mais de uma ocasião. Isso fez com que as pessoas passassem a acreditar que o espírito do juiz havia reclamado o corpo do lobo pelos seus muitos pecados.

Certo dia, um grupo de caçadores chegou a cidade e se comprometeu a caçar a fera. Eles conseguiram emboscar o lobo perto de um poço onde o mataram. Até aí, nada de mais, contudo, o que se seguiu a isso foi deveras macabro. O povo de Neuss levou a carcaça do enorme animal até a praça central da cidade onde o prepararam para ser apresentado. Eles colocaram no animal uma toga negra, chapéu e peruca semelhantes às usadas pelos magistrados e um óculos que lembrava o que o juiz usava. Então penduraram o corpo da fera antropomorfizada em uma forca para que toda cidade pudesse apreciar a visão. Dizem que ao longe, a criatura realmente parecia um homem animalesco. Gente de toda região viajava para ver a criatura que muitos acreditavam ter sido morta vestindo aquelas roubas em uma medonha paródia de homem e fera.

Depois de algum tempo, o lobo foi removido da trave de madeira e os restos cuidadosamente empalhados por um taxidermistas. Eles ficaram em exibição na prefeitura local até 1910. Eventualmente foram colocados no museu da cidade por serem considerados excessivamente bizarros.

O terrível caso de Jacques Roulet



Dentre todos os incidentes envolvendo licantropia na França, um se destaca pela natureza absurdamente bizarra e perturbadora dos detalhes. Trata-se do incidente de Jacques Roulet, um caso que nos faz pensar se realmente não haveria algo sobrenatural nos mitos do Homem Lobo.

O ano era 1598 e o lugar, os arredores da cidade de Angiers, na França.

Dois caçadores encontram os restos destroçados de um rapaz de 15 anos. Um enorme lobo está se alimentando do cadáver, arrancando a carne que ainda se agarra aos ossos. Um dos homens atira, mas o animal foge para a floresta. Um deles decide persegui-lo pela mata, lá acaba encontrando um homem semi-nu tentando se esconder atrás de uma moita. Ele está coberto de sangue, sua boca e barba cerrada estão manchados de vermelho com restos de pele, seus olhos são ferozes e animalescos... imediatamente os caçadores decidiram levá-lo até as autoridades.

O homem foi identificado como sendo um vagabundo chamado Jacques Roulet. A investigação a respeito do sangue concluiu que se tratava de sangue humano e depois de ser interrogado ele admitiu ter matado o rapaz de 15 anos. Jacques explicou então que era um lobisomem e que havia contraído licantropia através de uma bebida mágica dada pelos seus pais que eram feiticeiros. Jacques afirmava que seu irmão e primo também se tornaram licantropos da mesma maneira. A seguir, voluntariamente ele começou então a relatar os muitos crimes que o trio havia cometido sob influência da licantropia. 

Além do rapaz recém assassinado, Roulet confessou pelo menos mais uma dúzia de assassinatos brutais. As vítimas em geral eram crianças que andavam sozinhas pela floresta ou recolhidas em aldeias isoladas. O trio costumava capturar essas crianças, soltá-las na floresta e então "caçá-las" da mesma forma que fazia os predadores. Roulet afirmava que o trio assumia a forma de lobos e então perseguiam as vítimas até encontrá-las e matá-las. A excitação da caçada terminava com uma orgia de sangue, na qual a presa era morta e então devorada. O vagabundo contou que o grupo preferia jovens, pois estes tinham a carne mais tenra e saborosa. As descrições de Roulet eram tão minuciosas que as autoridades não tiveram dúvidas de que eram verdadeiras.

Roulet foi condenado por todos os crimes que admitiu ter cometido, a despeito de que apenas o corpo da vítima de 15 anos tenha sido comprovado. Ele foi condenado por assassinato, licantropia, bruxaria e canibalismo e a sentença foia  morte. Contudo um magistrado apelou à Corte de Justiça em Paris alegando que o homem era meramente insano. Ele foi então confinado em uma instituição mental.

O caso de Jacques Roulet é considerado o caso mais documentado a respeito de lobisomem na história da França. Existem dezenas de documentos e precedentes legais no arquivo de Paris à  respeito desse caso em especial. Historiadores acreditam que Roulet sofria de surtos condizentes com um quadro agudo de esquizofrenia e que teria cometido vários crimes nessas circunstâncias. Ele é considerado um precursor dos assassinos em série, e extremamente prolífico para sua época.

O Lobisomem de Allariz


Mas as histórias de Lobisomem não acontecem apenas na França e Alemanha e não estão confinadas apenas ao século XV e XVI.

Notório na Espanha como o primeiro assassino em série daquele país, Manuel Blanco Romasanta foi um lobisomem ativo durante a metade do século XIX. De fato, Romasanta é um caso extraordinário de muitas maneiras.

Nascido em 1809, ele foi criado como menina por uma mãe extremamente autoritária até completar aproximadamente seis anos de idade. Essa condição gerou nele um profundo ressentimento que seria carregado por toda a vida. A mãe havia ameaçado repetidas vezes cortar seu pênis com uma tesoura, o ridicularizava e diminuía. Quando um médico descobriu  que ela estava fazendo, a afastou e Manuel foi morar com tios. Ele cresceu e se casou, arranjando emprego como tecelão. Quando sua esposa faleceu em 1833, ele assumiu o trabalho de vendedor, fazendo frequentes viagens para Portugal e interior da Espanha.

As viagens ajudavam Romasanta a ocultar suas atividades criminosas. Ele era um assassino em série extremamente frio e calculista que usava de sua educação e aparência frágil para se aproximar e matar. Não bastasse as mortes, Romasanta também canibalizava as vítimas, cortava pedaços de pele e buscava órgãos internos que pudesse comer aos bocados. Acreditava ser um lobisomem, quando matava, sentia-se livre de culpa pois era um predador da natureza e como tal não tinha porque atender às leis. Seus crimes eram tenebrosos e entraram para o imaginário popular das nações Ibéricas.

Logo depois, descobriu que poderia remover a gordura dos cadáveres para com ela fabricar sabonetes. Um de seus clientes perguntou como o sabão de qualidade era feito e Romasanta contou em tom de brincadeira que aquela gordura havia vindo de uma menina de determinada cidade. Ocorre que o cliente havia ouvido falar desse crime e preocupado resolveu denunciar o sujeito.

Depois de 12 dias na masmorra ele pediu para ver o delegado responsável pela investigação e disse que queria fazer uma confissão. Manuel Romasanta contou que era culpado de 13 assassinatos. Ele descreveu cada um deles em detalhes, mas afirmou que não poderia ser considerado culpado pois não tinha controle sobre suas ações pois havia cometido os crimes usando a pele de um lobo. Disse também que a última morte havia terminado com sua maldição e que portanto não representava mais um perigo.

Romasanta foi julgado e considerado culpado de quatro mortes. As evidências forenses haviam determinado que os demais crimes que ele assumiu teriam sido cometidos por lobos de verdade, e para não aceitar a teoria de que ele era um Lobisomem, o juízo não admitiu que ele era o responsável. Um exame à luz da Frenologia (um tipo de exame criminalístico muito em voga no período) apontou que Romasanta era insano e não não podia ser culpado pelas suas ações.

Ele foi condenado a pena de morte com garrote, mas esta acabou sendo transformada em prisão perpétua a pedido de um famoso hipnólogo francês. A teoria colhida sob hipnose era de que ele sofria alucinações nas quais acreditava realmente ser um lobo. Em uma das sessões, Romasanta chegou a se comportar como uma fera, sendo inclusive acorrentado para não morder as pessoas que acompanhavam o experimento. Médicos franceses e espanhóis fizeram uma petição para estudar cientificamente o caso de Romasanta, considerado então um legítimo licantropo.

Anos depois de sua prisão, ele recebeu um indulto especial assinado pela própria Rainha  graças a médicos que acreditavam tê-lo curado. Ele passou os seus anos finais em um vilarejo sem que ninguém soubesse de sua verdadeira identidade e do que ele havia feito.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

A Besta está entre nós - Histórias apavorantes e reais envolvendo Lobisomens


Acusações de Licantropia eram algo relativamente comum na Europa entre os séculos XV e XVII.

A histeria com a presença maléfica de lobos e bruxas se tornou uma epidemia na qual qualquer pessoa podia ser acusada. Muitas pessoas acabaram sendo acusadas das duas coisas e terminaram seus dias exilados, punidos ou executados.

Existia uma forte ligação entre crimes de assassinato e licantropia. Um homem que confessava ter matado crianças ou mulheres podia ser chamado de lobisomem, se o crime tivesse sido cometido em determinadas datas, em noites de lua cheia ou por meio de violência desmedida. Canibalismo, desmembramento ou necrofilia também eram tidos como indícios da atividade de um lobisomem.

É perfeitamente possível que alguns dos primeiros Assassinos em Série documentados tenham sido acusados de se transformarem por intermédio da licantropia. O Lobisomem era considerado um monstro e atribuir aos acusados atributos sobrenaturais, era uma forma de explicar a maldade que alguns eram capazes de produzir.

Aqui está uma lista de lobisomens documentados ao longo da história.

O Lobo da Livônia


As confissões envolvendo pessoas acusadas de serem lobisomens podiam ser bastante peculiares. 

Tomemos como exemplo um tal Thiess de Kaltebrun que viveu em uma região chamada Livônia na Suécia no século XVII. As pessoas tinham muito medo de Thiess e o evitavam à todo custo. O homem tinha mais de 80 anos de idade e habitava uma cabana isolada. Ele raramente ia até o vilarejo, pois havia sido avisado para não fazê-lo, do contrário seria linchado. Mesmo seus filhos, netos e bis- netos detestavam o ancião e haviam mudado de nome para não ter qualquer ligação com ele.

Você pode se perguntar o que esse octogenário poderia ter feito para ser tão desprezado por todos os seus vizinhos e parentes. A resposta é simples: Ele afirmava ser um lobisomem.

Thiess teria contraído licantropia depois de passar um inverno inteiro sozinho. Desesperado de frio e fome ele aceitou uma barganha com o diabo que apareceu diante dele. O tinhoso ofereceu a chance de sobreviver, desde que aceitasse a maldição de se transformar em lobo. O velho não apenas afirmava que a história a seu respeito era verdade, mas se orgulhava da sua Licantropia.

As autoridades locais não se importavam muito com o velho, já que o consideravam louco e inofensivo. Que mal poderiam fazer as sandices de um velho eremita? Entretanto, em algum momento de 1691, três juízes visitaram a casa de Thiess para fazer perguntas a respeito de um roubo que havia ocorrido na Igreja do povoado. O velho recebeu os juízes e disse não saber nada a respeito do roubo, mas que gostaria de confessar uma série de outros crimes que havia cometido quando se transformava em lobisomem. A princípio, os juízes não levaram o sujeito à sério, mas acabaram concordando em levá-lo para a aldeia e ouvir o que ele tinha a dizer.

O problema é que, quando começou a falar, ele simplesmente não parava mais.

De acordo com o testemunho, Thiess afirmava ter vivido com a licantropia e usado os poderes que ela lhe concedia para fazer todo tipo de perversidade. Ele afirmava que se transformava em lobo em dias sagrados como o Dia de S. lúcia, Pentecostes e Páscoa como uma forma de renegar a Deus. Sua transformação acontecia quando ele vestia uma pele de lobo que jogava sobre as costas e que lhe concedia a fúria e a força daqueles animais selvagens.

O velho confessou que uma vez transformado em lobisomem vagou pelos campos e fazendas matando animais e os devorando. Declarou também ter atacado fazendeiros inocentes, tomado suas esposas e filhas, matado seus herdeiros e derramado seu sangue. Até então as histórias do velho não pareciam muito coerentes, contudo a medida que ele ia falando um dos juízes lembrou de casos semelhantes ocorridos na sua infância em que inocentes foram assassinados pelo que se julgou tratar-se do ataques de lobos.

Os relatos começaram a se tornar cada vez mais impressionantes e repletos de detalhes sanguinolentos, atraindo a população dos vilarejos próximos que disputavam um lugar na sala de audiência para ouvir as medonhas confissões.

Em determinado momento, as histórias foram se tornando ainda mais bizarras. O velho afirmava que embora ainda fosse um lobisomem e tivesse feito coisas horríveis, havia traído a barganha com o diabo e abraçado novamente a fé cristã. Para se redimir, Deus deu a ele a tarefa de caçar outros lobisomens e bruxos. Por muitos anos ele teria matado esses monstros como uma espécie de agente divino o que o reabilitou.

As pessoas mudaram o julgamento a respeito do velho e começaram a acreditar que ele realmente poderia ter se arrependido e que, portanto, merecia o perdão da justiça. Os juízes ficaram sem saber o que fazer a respeito do caso do estranho lobisomem. Finalmente, foi revelado que o velho não era um luterano devoto, e que praticava um tipo de magia camponesa baseada em amuletos e bençãos. Os juízes decidiram então que por esse crime, ele deveria ser exilado da região sob pena de ser executado caso retornasse.

Não se sabe o que aconteceu depois disso com Thiess de Kaltebrun, mas até o século seguinte algumas lendas afirmavam que ele ainda vivia na floresta e que continuava sendo um lobisomem a serviço de Deus.

O Lobisomem de Dole


Bem menos divertido é o Lobisomem de Dole, Gilles Garnier um camponês que vivia nos arredores da cidade de Dole na Província francesa de Comté.

A crueldade de Garnier se tornou lendária e alimentou por muitos anos a imaginação dos franceses a respeito de lobisomens. Segundo a história, Garnier havia casado há pouco tempo e decidiu se mudar com a sua jovem esposa para uma cabana isolada na floresta. Acostumado a sustentar apenas uma pessoa ele achou extremamente difícil providenciar comida para sua esposa. Mais ou menos nessa época, várias crianças pequenas começaram a desaparecer ou foram encontradas mortas, supostamente vítimas de lobos. As autoridades da Província lançaram um édito para que interessados em matar ou apreender lobos se apresentassem. Já então, corria entre os camponeses supersticiosos o rumor de que o responsável pelas mortes era um lobisomem. 

Certo dia, um grupo de aldeões estava voltando do trabalho no campo, quando avistaram ao longe um enorme lobo negro. Eles atiraram pedras e afugentaram a fera, mas infelizmente acharam o corpo destroçado de uma menina ali perto. Um grupo de homens se armou e fez uma busca pelo bosque sem encontrar sinal da besta. Entretanto, acharam um homem suspeito vagando pelo mesmo local. Era Giles Garnier, com as roupas sujas de sangue e aparentemente confuso. O sujeito não foi capaz de explicar o que fazia ali e acabou preso pela turba.

Mais tarde na aldeia, ele foi interrogado e acabou revelando uma história bizarra de morte e crueldade que chocou a todos. Giles contou que no início do inverno estava caçando sem sucesso na floresta, tentando encontrar comida para ele e a esposa. Foi quando ele avistou um tipo de espectro espreitando atrás das árvores. A assombração ofereceu a ele um unguento que acabaria com todos os seus problemas, bastando para isso passar o líquido em seu corpo. Dessa forma ele conseguiria caçar e suprir a casa com comida suficiente para garantir sua sobrevivência. 

Acreditando que aquilo era um milagre ele afirmou tê-lo feito conforme instruído. O unguento, nas palavras do próprio acusado, fez com que ele se transformasse em em um lobo, e como tal, conseguia caçar e obter sustento. Entretanto, vestindo a pele da fera ele também se tornava um terrível matador que não tinha controle nenhum sobre sua sede de sangue. Garnier confessou ter atacado e matado ao menos cinco crianças entre 9 e 12 anos de idade. 

Em Outubro de 1572, ele fez sua primeira vítima, uma menina de 10 anos que foi arrastada até uma videira perto de Dole. O lobisomem disse que a estrangulou, removeu suas roupas e comeu sua carne dos braços e cintura. Quando se satisfez, removeu parte da carne e levou para sua esposa. Semanas mais tarde, Garnier ferozmente atacou outra garotinha, mordendo e arranhando até derrubá-la, mas ele foi interrompido por um transeunte e teve de abandoná-la. A menina acabou sucumbindo aos ferimentos dias depois. Em novembro, Garnier matou um menino de 10 anos, e novamente canibalizou o seu corpo, levando para a mulher uma parte da perna para que ela fizesse um ensopado. Ele estrangulou um outro menino um mês depois, mas também teve de abandonar o corpo na floresta por ter ouvido a aproximação de alguém. No final do ano, ele matou um menino de 12 anos com uma mordida no pescoço, cortou o corpo da vítima e levou seus braços e parte da barriga para que a mulher servisse com cebolas e aspargos em uma ceia. A seguir, o lobisomem fez sua derradeira vítima, uma menina de 13 anos que ele estrangulou, e de quem chegou a cortar a carne. Antes de devorá-la, contudo, teve de fugir de uma turba. Pouco depois, ele acabou sendo capturado logo depois de reverter a forma humana.

Garnier foi julgado culpado dos crimes de licantropia e feitiçaria. Em janeiro de 1573 ele foi conduzido até uma estaca de madeira colocada no centro de uma grande fogueira. Seus crimes foram considerados tão tenebrosos que o juiz ordenou que ele fosse queimado sem o benefício de ser previamente estrangulado. Para o caso do lobisomem de Dole, era preciso ouvir seus gritos para saber que ele havia sido realmente morto. Para se certificar disso passaram em seu corpo piche e óleo. Quando as chamar lamberam seus pés ele se incendiou por inteiro em um espetáculo descrito como medonho. Sua esposa também foi capturada, mas morreu em uma masmorra antes da sentença ser cumprida. O cadáver também foi queimado até ser reduzido a cinzas.

Após a execução, mais de 50 pessoas se apresentaram dizendo que seus filhos e filhas haviam sumido e que possivelmente o lobisomem também era responsável por estas mortes. Até os dias de hoje não se sabe quantas pessoas o loup-garou matou.

Hans o Lobisomem


O julgamento de Hans, o lobisomem é um típico exemplo de como julgamentos de lobisomens podiam se combinar aos famosos julgamentos de bruxos. Este caso em especial ocorreu no século XVII, na atual Estônia, uma nação que foi varrida pela caça às bruxas e que sofreu muito com a superstição e fanatismo.

Em 1651, um rapaz chamado Hans foi trazido diante da Corte de Justiça na cidade de Idavare, acusado de ser um lobisomem desde os dezesseis anos de idade. Ele tinha na ocasião apenas 18 anos e segundo seus acusadores havia se convertido em um Agente de Satã.

Hans confessou caçar na forma de um lobisomem, cruzando as florestas e matando qualquer animal que pudesse encontrar, geralmente devorando-os, mas em algumas ocasiões apenas pelo prazer de causar a morte. Ele reconheceu ter matado ao menos uma dúzia de ovelhas e cabras, para beber seu sangue quente, coisa que lhe dava muito prazer.

Quando questionado como se dava a transformação, se ela era física ou meramente espiritual (uma preocupação comum na época), ele disse que todo seu corpo se transmutava e que ele podia demonstrar para a corte se eles quisessem assistir a transformação. Os juízes ordenaram que Hans fosse preso em uma corrente para que então realizasse a transformação. Como é de se imaginar, fisicamente o rapaz não mudou, mas produziu o que foi descrito como uma "apresentação desagradável" na qual rosnou, uivou, babou e se urinou enquanto tentava se ver livre dos grilhões que o prendiam.

Depois do espetáculo, os juízes cogitavam que o rapaz simplesmente fosse louco e que deveria ser libertado. Contudo um detalhe na confissão acabou chamando a atenção dos magistrados. Hans havia dito que sua transformação em lobo ocorreu graças a um malefício realizado por um "homem negro". Esse homem misterioso apareceu para Hans em uma madrugada e ofereceu a ele um presente na forma de uma bebida mágica, que uma vez ingerida, concederia poderes mágicos ao custo de sua alma imortal. Quando perguntado se aceitou de bom grado a barganha, ou foi enganado, Hans disse que aceitou pois achou que teria muito a ganhar com a oferta.

A corte considerou então que o rapaz não apenas havia cometido o crime de licantropia - ou seja, se tornar um lobo, mas que, muito mais grave, tinha firmado conluio com o próprio Satã, disfarçado como o tal Homem de Negro. Hans foi julgado como bruxo e condenado.

É triste que a vida de um rapaz de apenas 18 anos, possivelmente com problemas mentais, tenha terminado dessa maneira, fosse ele um lobisomem ou não. O pior é que o caso de Hans, embora estranho, está longe de ser o único. Embora ele seja o mais conhecido dos lobisomens da Estônia, julgamentos similares eram comuns. Ao menos duas dúzias deles aconteceram no mesmo período. É possível que acusados fossem convencidos a confessar seus "crimes", principalmente bruxaria, na esperança de receber perdão. Ao invés disso, acabavam executados já que nos países Bálticos essa era a sentença comum.

domingo, 9 de setembro de 2018

Fera Selvagem - O caso do Lobisomem Demoníaco de Southend


Nos reinos do estranho, existem alguns casos que são simplesmente difíceis de classificar.

Alguns parecem transcender as fronteiras e tentativas de interpretá-los nos diferentes ramos do oculto. Por exemplo, existem casos de fenômenos inexplicáveis envolvendo fantasmas, possessão demoníaca e lobisomens, mas muito poucos conseguem a proeza de misturar todos estes elementos em algo incrivelmente bizarro. Ainda assim, um dos mais surpreendentes e incríveis incidentes paranormais conseguiu isso, e mais. 

Em uma tranquila região costeira da Inglaterra, um homem de família normal encontrou-se repentinamente envolvido em uma trama horrenda e absurda na qual uma força não-identificada juntou assombração, possessão e licantropia num mesmo caso estarrecedor.

A história do que ficaria conhecido como o Caso do Lobisomem de Southend começa no vilarejo litorâneo de mesmo nome, no condado de Essex, em um quente e ensolarado domingo de 1952. Nesse dia, William Ramsey então com 9 anos estava no jardim de sua família brincando sozinho. Ele era um garoto cheio de imaginação, que havia acabado de assistir um filme a respeito de pilotos da Segunda Guerra e que por isso, fazia de conta que conduzia seu caça Spitfire pelos céus. Corria de braços abertos pelo quintal para diversão de sua mãe. Após uma hora correndo pelo gramado, Bill Ransey sentiu um estranho e repentino arrepio. Depois disso, ele começou a tremer incontrolavelmente dos pés à cabeça, ao mesmo tempo que sentiu um forte odor trazido pelo vento. Mais tarde ele lembraria do sentimento:

"Você já abriu a porta de um congelador num dia quente? Era essa a sensação. Eu estava brincando em um dia ensolarado e agradável quando de repente um frio absurdo me atingiu, como se de um momento para outro a temperatura de meu corpo tivesse caído 20 graus. O suor congelou no meu corpo e eu comecei a tremer. Era como se alguém tivesse aberto a porta desse congelador e me empurrado para dentro. E havia aquele fedor! Um cheiro horrível, insuportável. Eu jamais senti algo como aquilo, e pensei que iria vomitar a qualquer momento".        


A medida que o jovem William lutava para controlar os tremores e o mal estar causado pelo cheiro, ele sentiu que alguma coisa havia mudado dentro de si. William voltou para casa e se fechou no seu quarto. Dali em diante ele não tinha mais interesse em brincar ou usar sua imaginação, nada daquilo fazia sentido. Bill passava a maior parte de seu tempo quieto e contemplativo. Seus olhos assombrados, como se fosse capaz de enxergar algo invisível. Daquele dia em diante seus pais sentiram uma severa mudança no filho, algo difícil de explicar. O menino sequer parecia o mesmo!

Ele ainda ficava a maior parte de seu tempo sozinho no quintal, mas permanecia observando o céu. De repente, como se tomado de um surto irracional emitia um lamento que os pais achavam parecido com um uivo. Mais estranho era quando o garoto de repente corria de quatro chocando todos que assistiam aquela cena inusitada.

Os meses passaram e o jovem William ia desenvolvendo um comportamento cada vez mais peculiar. O menino havia começado a perambular pelas estradas que margeavam o bosque. Por vezes entrava na floresta fechada e ficava horas sozinho, sem que ninguém soubesse o que estava fazendo. Também havia adquirido uma mania inconveniente, a de seguir as pessoas e pregar nelas sustos saltando da mata e correndo na direção delas gritando, segundo alguns, rosnando. Alguns vizinhos se queixaram de ter encontrado o menino naquelas circunstâncias. Um descreveu como o menino correu na sua direção com os olhos injetados e a boca aberta mostrando os dentes.     

Em determinado momento, os pais preocupados com tudo o que haviam ouvido, chamaram o jovem e tentaram entender pelo que ele estava passando. Foi então que Bill, tomado de uma fúria cega investiu contra os pais. Ele começou a rosnar, arranhar e morder ferozmente. Os pais ficaram compreensivamente aterrorizados: o menino mordeu a mãe e quando o pai conseguiu afastá-lo ele se atirou no chão, rosnando e babando como se fosse uma besta selvagem. Aterrorizados com aquilo, o casal correu para fora de casa esperando que o menino recobrasse o controle antes que eles pudessem retornar. Uma vez sozinho, William deu início a uma destruição de móveis e objetos, derrubando até mesmo um armário d emadeira maciça que um menino de seu tamanho e peso dificilmente conseguiria mover.

A medida que ouviam os ruídos animalescos que seu filho produzia no interior da casa, os dois se perguntavam o que estava acontecendo. Finalmente, o pai de William decidiu entrar na casa e dominar o filho. Com o menino rosnando e uivando como uma fera, ele conseguiu contê-lo, mas não sem receber várias mordidas e sofrer escoriações. Enfim, depois de impor sua força, o menino começou a se cansar arfando como um cão raivoso. Sangue escorria pelo seu queixo e havia sofrido vários machucados provocados pela luta com o pai. O menino então desmaiou, acordando horas depois sem entender o que havia acontecido. Ele dizia não lembrar de seu frenesi selvagem e que por alguns instantes tudo havia escurecido. Era como se ele tivesse dormido profundamente e despertado apenas naquele momento.

Os pais temiam que o filho tivesse desenvolvido algum tipo de doença mental, mas uma vez que nos dias seguintes ele passou a se controlar, parecendo seu filho novamente, acreditaram que o pior havia passado. Decidiram não insistir em questionamentos e esquecer o que houvera, esperando que ele se recuperasse sem a necessidade de envolver médicos psiquiatras.


A vida da família voltou ao normal sem maiores incidentes. Bill Ramsey daquele dia em diante experimentou uma vida perfeitamente normal: terminou seus estudos, casou e teve três filhos. Ele se tornou um respeitável homem de família que deixou para trás aqueles meses estranhos nos quais chocou aos pais. 

Poucos meses depois de seu casamento ele começou a ser atormentado por pesadelos vívidos nos quais corria pela floresta, rosnando como um animal selvagem. Os estranho sonhos e episódios eventualmente pararam bruscamente em 1967, depois que Bill e a família se mudaram para outra casa. A vida voltou ao seu curso normal, até que em 1980 uma série de bizarros incidentes provariam que ainda havia algo muito errado com sua personalidade. 

No início de 1983, Bill estava em um bar bebendo com um grupo de amigos quando ele afirmou sentir um arrepio gelado em seu corpo, muito semelhante ao que havia experimentado quando criança. Sentindo-se nauseado, ele correu para o banheiro e lá captou aquele fedor nauseante uma vez mais. Assustado, com as memórias que inundaram a sua mente, ele lavou o rosto esperando que a água o fizesse recobrar os sentidos. Nesse momento olhou seu reflexo no espelho e atordoado viu que sua face estava distorcida: mais animalesca e com traços grosseiros. "Claramente lupina" ele disse mais tarde.

Assustado com todo o incidente, Bill pediu que o levassem para casa. No caminho ele se curvou no banco de trás do carro e começou a murmurar e rosnar como se o seu corpo estivesse acometido de dores agudas. Seus amigos perguntavam o que ele estava sentindo, mas Bill já não era capaz de responder de maneira racional. Acometido de uma fúria cega ele começou a rosnar e uivar. O motorista foi capaz de encostar o carro no acostamento. Os quatro homens que estavam no automóvel conseguiram segurar Bill que perdera totalmente o controle, gritando e tentando mordê-los. Eles descreveram o ataque como o frenesi de um louco que parecia ter adquirido uma força sobre-humana. De fato, foram necessários os esforços combinados dos quatro para contê-lo. Bill acabou desmaiando e quando acordou dizia não lembrar de nada a respeito do estranho incidente.

Mais tarde, naquele mesmo ano, as coisas se tornaram ainda mais estranhas. 

Perto do Natal de 1983, Bill começou a sofrer crises agudas e quase incapacitantes de uma forte pressão no peito, algo que ele jamais havia tido antes. O temor é que estivesse sofrendo um ataque cardíaco e por isso imediatamente foi levado até um hospital. Uma vez lá, ele foi conduzido a uma ala de emergência para ser examinado, mas quando estava aguardando atendimento foi acometido por aquela onda de frio extremo. Em determinado momento uma enfermeira se aproximou e ele soltou um rosnado gutural seguido de uma mordida em seu braço. A mulher conseguiu se desvencilhar, enquanto Bill recuou para a parede e de quatro começou a rosnar e babar como uma fera acuada. A polícia foi chamada e com a ajuda de enfermeiros do hospital, ele foi dominado. Ainda assim lutou como uma besta selvagem, até ser sedado com uma dose maciça de tranquilizantes.  

Testemunhas mais tarde descreveram a cena como algo aterrador. Bill estava completamente irracional, absolutamente animalístico, com as mãos curvadas como garras, dentes à mostra e rosnando de maneira incompreensível. Para todos que viram a cena ele parecia mais um animal do que um ser humano. Um dos policiais que ajudou a conter Bill diria mais tarde que os olhos do homem pareciam os de um lobo feroz.


Uma vez sedado, o homem foi levado para o Hospital Mental Runwell, e quando os efeitos das drogas diminuíram, Bill alegava não se recordar de nada do que havia acontecido ou a razão pela qual havia sido levado para um sanatório. Embora os médicos tenham sugerido que Bill passasse por novas avaliações e testes, ele abriu mão disso, e uma vez que apresentava um quadro de normalidade, permitiram que ele deixasse o local. Era opinião do médico psiquiatra que o atendeu que ele estava propenso a ter um novo episódio e que era necessário compreender o que se passava em sua mente. Bill entretanto ignorou os conselhos e decidiu voltar para casa, afirmando que se sentia bem e que precisava apenas descansar. Infelizmente, o médico estava certo em seu prognóstico.

Em janeiro de 1984, Bill foi visitar a sua mãe e enquanto conduzia seu carro teve um novo e devastador episódio. Imaginando o que poderia acontecer, ele dirigiu o mais rápido possível para um hospital, dando entrada na mesma emergência em que estivera antes. Entretanto, no momento em que ele chegou, a selvageria já o dominava por inteiro. Quando um enfermeiro disse que ele deveria esperar até o atendimento, Bill o empurrou no chão, subiu sobre ele e começou a arranhar e morder sua face. O ataque foi tão selvagem que as pessoas que estavam próximas ficaram sem ação. Foi necessário a intervenção de cinco enfermeiros para remover o homem-fera de cima de sua presa que tentava afastá-lo sem sucesso. 

A polícia chegou logo a seguir e dois oficiais conseguiram com muita dificuldade imobilizá-lo com algemas. Ainda assim, Bill continuava a morder, espumar e rosnar. O comportamento dele era tão errático que os policiais ficaram sem saber o que fazer a seguir. Declararam que jamais haviam visto uma resistência tão feroz, nem mesmo em indivíduos sob influência de drogas pesadas. Eles chegaram a temer que a algema não fosse capaz de contê-lo.

Os policiais decidiram então transportá-lo para a delegacia. Ele recebeu uma dose de tranquilizante e foi carregado desacordado para a viatura. Na cadeia ele dormiu por mais algumas horas, acordando sem qualquer lembrança do que havia ocorrido depois de sua chegada ao hospital. Depois de despertar e ser informado do que havia acontecido, Bill Ransey disse que não tinha qualquer memória de que havia ferido uma pessoa e resistido à prisão. Após pagar fiança ele foi liberado.


Por algum tempo, sua personalidade animalesca ficou sob controle, mas ela iria aflorar novamente em 22 de julho de 1987. Bill participou de uma festividade no White Horse Inn, um bar local onde ele encontrou com amigos e bebeu consideravelmente. No fim da festa, os amigos aconselharam que Bill pedisse um taxi para voltar para casa, mas ele disse que preferia ir andando. No caminho para sua casa, Bill passou por uma prostituta em uma esquina escura. A mulher disse que não o abordou, uma vez que ele parecia claramente embriagado, mas que ele se aproximou dela. A mulher afirmou que ele então começou a tremer por inteiro como se estivesse tendo um tipo de ataque e de repente começou a rosnar furiosamente. A mulher se afastou assustada, mas Bill então começou a persegui-la rosnando furiosamente. 

Por sorte, um grupo de pessoas passava pela rua e veio em socorro da mulher. O grupo conseguiu afugentar Bill que correu para a rua e foi atropelado por um carro que passava. Apesar do impacto, ele se recobrou e correu de quatro até um beco onde se escondeu. As pessoas chamaram a polícia e imediatamente uma viatura respondeu. A essa altura Ransey soltava uivos agudos que deixavam as pessoas aterrorizadas. Os policiais entraram no beco e encontraram o homem-fera acuado contra o muro. Ele havia rasgado suas roupas e estava completamente nu. Seus olhos injetados, a boca aberta mostrando os dentes e as mãos como garras. 

Ele não respondeu à ordem de prisão e tentou escapar, mas foi contido pelos policiais que acharam melhor chamar reforços. Foram necessários seis homens fortes armados com cassetetes para dominar o sujeito e retirá-lo daquele beco escuro. Todos os envolvidos em depoimento disseram jamais ter visto nada parecido. A prostituta, identificada apenas como "Lauren" disse ter certeza de que o homem iria mata-la se não tivesse sido ajudada. 


O ocorrido fez com que o caso de Bill Ransey ganhasse as manchetes de jornais sensacionalistas que o chamaram de "Lobisomem de Southend". Uma ordem cautelar foi emitida para que ele fosse hospitalizado e passasse por vários testes, mas infelizmente nenhum deles conseguiu determinar o que havia causado o surto de violência extrema. 

Enquanto estava hospitalizado Bill teve mais dois surtos de violência animalesca, que foram controlados através de drogas e calmantes. A essa altura, o caso ganhava exposição graças a jornalistas que apresentaram o incidente em cadeia nacional. O tormento de William Ransey capturou a atenção da população e atraiu os famosos investigadores sobrenaturais Ed e Lorraine Warren que aceitaram viajar até Londres para analisar a situação. Depois de contatar as autoridades locais, os Warren conversaram com a Família Ransey que permitiu uma entrevista com Bill. 

Enquanto o casal Warren a princípio suspeitava de que o caso inteiro não passasse de uma fraude, após diversas conversas julgaram que alguma coisa sobrenatural pudesse realmente estar causando os surtos de violência incontrolável. Os Warren acreditavam que de alguma forma Bill estava sendo possuído por uma espécie de entidade demoníaca animalesca. Depois de várias entrevistas, Bill concordou que os Warren o levassem até uma igreja em Connecticut para que lá realizassem um exorcismo feito pelo Reverendo Robert McKenna, que havia realizado uma cerimônia semelhante em um rapaz que se dizia afligido por um espírito semelhante. Em 1989, Bill e sua esposa receberam autorização para deixar a Inglaterra e viajar para a América, esperando que o religioso fosse capaz de tirar de seu corpo a influência maligna.  


Nos dias antes do exorcismo, houve um incidente bizarro em que Bill tentou sufocar a sua esposa enquanto esta dormia ao seu lado. As pessoas ouviram o barulho e conseguiram salvá-la. Ao acordar o marido afirmava não se lembrar de nada e que não podia acreditar no que havia acontecido. 

No dia do Exorcismo, estavam presentes na Igreja o Reverendo McKenna, os Warren, William Ransey, sua esposa, o investigador paranormal John Zaffis, jornalistas de uma revista especializada no sobrenatural, que haviam patrocinado a viagem e vários indivíduos contratados para fazer a segurança como guarda-costas. Quando o Ritual de Exorcismo se iniciou, Bill parecia cético e pouco impressionado a medida que o religioso professava as palavras em latim. Ele começou a imaginar que toda a viagem havia sido uma perda de tempo, e mais tarde reconheceu ter pensado que aquilo não passava de "mumbo jumbo". Mas quando o Reverendo pressionou sua estola sagrada contra a testa de Bill, exigindo que o demônio se identificasse, as coisas se tornaram estranhas.  

O comportamento de Ransey mudou abruptamente, ele começou a rosnar e sua face se contorceu em uma máscara bestial, com olhos injetados, dentes à mostra e baba escorrendo pelos cantos da boca. Suas mãos se curvaram na forma de garras e ele começou a tremer por inteiro. Lorraine Warren afirmou mais tarde que até suas características físicas apresentaram mudanças, com as orelhas parecendo pontudas, seu rosto mais animalesco e seus dentes mais longos que antes. De repente, Bill saltou sobre McKenna tentando morder e arranhar, mas foi contido pelos seguranças que estavam presentes. Ele foi colocado em uma cadeira e amarrado com uma corda resistente.

McKenna retornou ao Ritual e ergueu seu crucifixo exigindo que o demônio que estava no corpo saísse imediatamente. Isso pareceu apenas enfurecer a besta. Bill tentava se soltar se atirando para frente e para trás bruscamente. Um dos guarda-costas correu então para reforçar a corda e evitar que ele se livrasse. Completamente fora de controle, Bill tentou mordê-lo e quando não conseguiu começou a uivar como um lobo. Quando o Reverendo McKenna terminou de falar, Bill ficou imediatamente em silêncio e seu corpo começou a tremer. Seus olhos se viraram nas órbitas, sua boca se abriu e ele soltou um último rosnado que ecoou pela igreja inteira. Então ele perdeu a consciência por várias horas. Mais tarde, Bill contou o que havia acontecido:

 "Era como se o veneno que estava em meu corpo estivesse sendo drenado. A coisa me dominava por inteiro e quando ele começou a ser arrancada, e sentiu que ia perder, tentou me levar junto. Eu tentei resistir, eu sei que ele queria me matar... mas eu suportei aquilo tudo. As palavras do Reverendo McKenna ajudaram a suportar aquela pressão".


O exorcismo inteiro foi filmado, e todos os que testemunharam os acontecimentos permaneceram crentes de que seria virtualmente impossível encenar aquilo. Bill Ransey dali em diante não sofreu mais nenhum incidente de violência e levou uma vida pacífica. Ed e Lorraine Warren escreveram um livro sobre o caso com o título "Werewolf: A True Story of Demonic Possession" (Lobisomem: Uma História Real de Possessão Demoníaca).

É difícil dizer exatamente o que afligia William Ransey e dependendo a quem você perguntar, você irá obter diferentes opiniões.

De acordo com os Warren e o Reverendo McKenna, ele estava possuído por uma entidade demoníaca e animalesca. Uma espécie de fera diabólica que agia apenas por instinto e que por isso tinha um comportamento totalmente inumano. Tal fera raramente se manifesta em uma pessoa, mas quando o faz, segundo o casal, enseja a maioria dos casos de violência e brutalidade extrema que não raramente acabam sendo atribuídos a Licantropia, a crença na transformação de um homem em fera. Os Warren afirmaram que esse tipo de incidente é provavelmente similar a outros casos de famosos lobisomens registrados ao longo da história.

Outra possibilidade é que Ransey sofresse de uma condição médica conhecida como "licantropia clínica", na qual a vítima realmente acredita que seu corpo está sofrendo uma transformação e se tornando um animal, na maioria das vezes um lobo, urso ou outro animal selvagem, incluindo javalis, cães e lagartos. Ele também poderia exibir uma série de desordens psicóticas e problemas mentais. Alguns surtos psicóticos produzem uma enorme quantidade de adrenalina que confere o que poderia ser interpretado como uma força sobre-humana, como era o caso de Ransey segundo várias testemunhas. É possível que ele tenha manifestado mais de um sintoma, como por exemplo o frio extremo e o odor que ele afirmava sentir sempre que a "transformação" ocorria.  

Mas o que aconteceu com Bill Ransey no final das contas?

Seria o homem atormentado por uma série de problemas psiquiátricos que o levaram às raias da loucura? Poderia tudo isso ser explicado pela ciência médica, como uma condição atroz que suplantava a sua consciência e o transformava em uma fera? Ou haveria algo mais terrível e assustador operando? Poderia tudo ser o resultado de uma manifestação demoníaca de um demônio animalesco que invadia o seu corpo e o reclamava como seu? Tudo o que sabemos vem através de testemunhas que participaram dos incidentes e que viram em primeira mão o horror de um homem ser reduzido a uma fera.

Considerando que Bill Ransey não manifestou mais nenhum episódio desde o fatídico exorcismo e simplesmente decidiu sumir do mapa é possível aferir que ele tenha encontrado uma cura. O estranho caso de William Ransey continua sendo um dos mais bizarros e estarrecedores casos de possessão demoníaca e de transformação em lobisomem de todos os tempos. Fartamente documentado e estudado por parapsicólogos, demonólogos e ocultistas como um incidente realmente inexplicável.

E é provável que ele continue a dividir opiniões, para sempre.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Licantropia 101 - Tratando dos Mitos sobre Homens que se transformam em lobos


Com base no trabalho "A Base Histórica da Licantropia" 
de Martim Wettstein

O mito do Lobisomem diz que um indivíduo mordido por um homem-lobo ou que tem um ancestral que sofreu da mesma aflição (a licantropia) está fadado a se transformar em uma besta selvagem com sede de sangue.

Ainda segundo o mito, lobisomens vivem entre nós, ocultando sua natureza e se transformam em lobos nas noites de lua cheia. Eles são mais rápidos e fortes do que qualquer homem, seu corpo é coberto de pelos, seus dentes e unhas se tornam presas e garras afiadas usadas para morder e dilacerar suas vítimas. Quando o frenesi assassino passa, eles revertem a sua forma original muitas vezes sem memórias do que fizeram. Lobisomens caçam outros seres humanos nas noites de lua cheia e matam sem nenhum arrependimento. A única coisa capaz de parar um lobisomem é a prata, uma substância pura, cujas propriedades afetam a criatura. Uma lâmina ou uma bala de prata pode matar um lobisomem. Todas as outras armas são ineficazes.    

O conjunto de lendas e regras que cerca os lobisomens parece ser antigo, mas de fato ele é bem recente. Junto com vampiros, zumbis e múmias, o mito do lobisomem foi exaustivamente explorado pela literatura e cinema que contribuiu para a construção de sua imagem atual. Contudo, a lenda do monstro selvagem em forma de lobo, é muito mais antiga, com raízes profundas no folclore da Europa Medieval, principalmente da França e Alemanha.

Esse artigo explora a base dessas lendas que levaram a criação de tal monstro.

1) Aqueles que mudam de forma


Lendas a respeito de indivíduos capazes de mudar de forma estão presentes em várias culturas ao redor do mundo. Mesmo em Gilgamesh, o primeiro épico, escrito na antiga Babilônia, o personagem título culpa a deusa Ishtar por ter transformado um pastor em lobo. Embora no livro a transformação seja uma metáfora, a alusão ao homem que se torna uma fera é bastante clara.

Os guerreiros nativos-americanos bem antes da chegada dos europeus vestiam peles de urso, coiotes e lobos para ganhar a força desses animais em batalha. A ideia era que a natureza feroz e temível do animal era transmitida para o guerreiro que usava a pele sobre seus ombros. Tomado por essa energia mística, o guerreiro ganhava a fúria, a agilidade, a resistência e a astúcia do animal. Também existia uma forte crença de que ancestrais mortos podiam visitar seus descendentes, habitando a forma de animais em momentos de necessidade. Mesmo os deuses dos nativos possuíam avatares na forma de animais.  

Do outro lado do mundo, na India havia uma infinidade de Deuses e Demônios que assumiam a forma de animais. No panteão indiano, o Rakshasa era um dos mais conhecidos e temidos demônios, capaz de mudar de forma, transformando-se à vontade em tigre. Mas não apenas o Rakshasa assombrava os indianos, haviam demônios em forma de homem-lobo habitando as profundezas das florestas. Existia ainda lendas de crianças que haviam sido perdidas na floresta e criadas por lobos e cães selvagens aprendendo a viver e até se comunicar com eles.

No Egito, há muitos deuses com traços antropomórficos, com destaque para Anúbis, o deus do submundo com cabeça de chacal. Sacerdotes de Anúbis usavam máscaras semelhantes a representação do deus e tinham por ritual de iniciação devorar um coração, simbolizando o julgamento dos impuros.

Na África sub-saariana, caçadores que realizavam sua primeiro abate, tinham como ritual de passagem sujar o rosto e as mãos com o sangue do animal ou ainda devorar o coração deste para obter seus atributos, força e coragem. Os mesmos caçadores tribais, inclusive a tribo massai, vestia adereços e enfeites retirados de animais selvagens a fim de personificar as feras, e quando saíam para a selva cumpriam o ritual de imitar os sons e a atitude desses animais.

O que não falta, são exemplos de homens personificando animais na cultura nórdica. Tribos germânicas, conhecidos como Berserks, vestiam a pele de ursos e lobos sobre suas costas. Essas tribos eram extremamente temidas pela sua selvageria e sede de sangue. Antes de partir para a batalha, realizavam uma espécie de ritual visando assumir a personalidade do animal, entrando em um frenesi que supostamente lhes garantia faculdades sobrenaturais. Os berserker eram guerreiros indomáveis. A força e resistência que demonstravam quando em transe se tornou legendária e muitas tribos inimigas acreditavam que o espírito do animal de que eles tiravam a pele, possuía seus corpos.

O temperamento dos berserker os levava a ações temerárias de fúria incontrolável e massacres sanguinários. Segundo rumores, durante o transe eles chegavam a atacar os próprios companheiros, incapazes de diferenciar aliados de inimigos. Alguns berserkers chegavam a se banhar em sangue e devorar partes dos corpos dos oponentes. Até hoje a expressão "lutar como um berserk"  (fight like a Berserk) é usada para apontar um lutador feroz.

Na obra "Metamorphosis" do poeta Ovídio, o rei grego Lycon, é amaldiçoado por Zeus e transformado em um lobo como punição. Os gregos acreditavam que os descendentes de Lycon eram atormentados pela mesma maldição, que passou a ser chamada de Lycantropia, a disseminação da maldição que transforma homem em fera, razão em fúria, civilidade em selvageria incontida. Os licantropos eram sinônimo de loucos, maníacos e homicidas para os gregos.

A ideia de homens que se transformam em animais não é portanto nova. Ela é familiar em muitas culturas e em diferentes épocas.  

2) A Humanização dos Lobos



Uma questão que surge quando se analisa o mito do licantropia, é, porque o lobo foi escolhido como o animal preferencial para representar a transformação de homem em fera. É claro, existem muitas lendas a respeito de homens que se transformam em ursos, pássaros ou outros animais, mas lobos são de longe a representação mais frequente. De Gilgamesh a Ovidio, a transformação de homem em lobo está presente em várias culturas.

Uma das explicações talvez seja a ideia de perigo que está associada ao lobo. A presença de um lobo próximo a uma vila sempre representou uma ameaça a todos seus habitantes. O lobo forçava as pessoas a ficar em casa, impedia que se buscasse água ou comida na floresta, impedia que se visitasse quem precisava de auxílio... o lobo era a representação clara e inequívoca da ameaça à vida.

Além disso, nenhum outro animal selvagem está presente em tantas regiões do mundo quanto o lobo. Lobos podem ser encontrados na Ásia, Europa e América, das regiões polares aos climas mais amenos e quentes. Desde o início dos tempos, o homem aprendeu a respeitar e temer esses animais. Lobos sempre estiveram por perto e para muitos antropólogos a formação das sociedades se deveu entre outros fatores a necessidade dos homens de se proteger de animais selvagens, entre os quais, o lobo.

É possível que o medo do lobo esteja ligado a um tipo de memória primitiva coletiva, inerente a toda a humanidade. O medo do predador, da fera, da besta assassina sempre à espreita.

Nas fábulas e contos de fada ao redor do mundo, lobos ocupam uma posição proeminente. Eles são quase sempre o elemento que define a ameaça e o terror. Nas fábulas germânicas, como chapeuzinho vermelho ou os Os três porquinhos, o lobo é o antagonista. Ele também aparece na estória russa de "Pedro e o Lobo". Eles estão presentes no folclore da Grécia, na India, no Alasca, na cultura dos Celtas e na Península Ibérica...

O lobo foi por muitos séculos o catalizador dos temores mais primitivos do homem: o medo de estar sozinho na floresta, de estar perdido, de ser perseguido, ferido gravemente e de acabar devorado...

Curiosamente na maioria dessas estórias, a transformação existente ocorre de forma inversa. Não é o homem que se torna lobo, mas o lobo que ganha atributos humanos, age e pensa como um homem. O lobo que fala, que anda nas patas traseiras, que se disfarça, que emprega estratégia e artimanhas e que se comporta de forma ousada.

Então, pessoas em diferentes partes do mundo cresceram ouvindo estórias a respeito de lobos com características humanas. O passo seguinte para a construção do mito de que homens se transformam em lobos sob certas condições ainda estava para ser dado...

3) Os Wargs



Em textos legais dos países nórdicos, presentes em documentos do século XIII, é possível encontrar um costume que ajuda a explicar a extensão do medo do homem-lobo.

"O criminoso que comete um crime contra sua comunidade deve ser expulso. Ele será banido para as profundezas da floresta, sem uma casa, arma ou ajuda de qualquer pessoa. Pois ele é uma fera, e como tal deve viver e morrer".  

O princípio é que o indivíduo banido teria que viver sozinho, sem um teto e sem nenhum apoio da família, amigos ou conhecidos. Muitos desses homens eram chamados de "wargs", ou lobos, uma vez que o lobo é um exemplo de animal solitário que depende unicamente de sua astúcia e crueldade para sobreviver.

O local onde esses homens banidos passavam a viver eram chamados de "Floresta do Warg", a morada selvagem do criminoso. O reduto do "homem-fera", alijado de todo e qualquer contato social, temido e proibido de viver entre os iguais.

Os nativos dessas regiões, é claro sabiam da natureza do crime e da identidade do criminoso. Sabiam que ele não era realmente um homem-lobo, mas para estrangeiros, não familiarizado com esses costumes acreditava que o "warg" era exatamente o que o nome dizia: um homem-lobo. 

O termo "warg" na cultura nórdica também está associado a "conspiração". O lobo é um traidor por natureza, "falar com língua de lobo" (talking with wolfs tongue") é um ditado que indica aponta aqueles que contam mentiras ou envenenam uma pessoa contra outra. No folclore nórdico, o nome do Deus da mentira, Loki deriva de uma raiz primitiva germânica da palavra "lok" - ou lobo. 

Portanto, haviam homens-lobo na Escandinávia. Mas em sua gênese eles não tinham o poder de mudar de forma, eles não mordiam outros homens ou passavam a sua maldição dessa forma, e tampouco eram suscetíveis a prata. Mas eles eram considerados como lobos, para todos os efeitos.

4) A Mordida do Lobo



Um dos mais temidos poderes do lobisomem é transmitir a licantropia através de sua mordida.

A origem desse mito não se encontra no folclore escandinavo, onde homens-lobos eram criminosos, mas pode ser achada na Alemanha Medieval.

Naqueles dias muitas estórias eram contadas nos vilarejos da Europa Central. Como não havia quem escrevesse essas estórias, elas eram compartilhadas de forma oral, contadas muitas e muitas vezes. E a cada vez que uma dessas estórias era relatada, ela mudava um pouco, obtendo um tom cada vez mais assustador e inacreditável.

Nessa mesma época, a raiva também era um perigo constante. Lobos nas florestas carregavam a raiva que contaminava cães, e é claro, homens. Um cão infectado com a raiva, não responde as ordens de seu mestre e "morde a mão que o alimenta". Um cão acometido pela raiva, não por acaso era chamado de "lobo".

Esse animal produz espuma em sua boca, e o mesmo se verifica na boca de um homem infectado pela raiva. O animal infectado ataca seu dono, um homem infectado ataca sua família. Quando um homem contaminado pela raiva se comportava como um animal selvagem, as pessoas não compreendiam o que havia acontecido com ele. A única coisa que eles compreendiam é que um homem mordido por um animal raivoso, podia se comportar como esse animal. E assim começaram a surgir estórias sobre lobos (ou cães assim chamados) que transformavam homens em bestas. 

Além disso, um outro tipo de homem-lobo surgiu na Alemanha Medieval. Um monstro chamado "Roggenwolf" (literalmente "lobo do centeio"), que espreitava nos campos de centeio e que mordia os agricultores que ali trabalhavam. Segundo o mito, ele tinha uma mãe maligna (como Grendel da saga 'Beowulf'), que era chamada de 'Roggenmutter'. A criatura era tão insidiosa que por vezes a pessoa atacada sequer sentia a mordida e não sabia que havia sido contaminada pela maldição da licantropia até ser tarde demais. 

Aqueles que retornavam dos campos contaminados apresentavam uma mudança física. A vítima tinha sintomas como falta de ar e sofria desmaios. Ela sentia uma sede e fome constante. Eles viam e ouviam coisas que mais ninguém era capaz de perceber. Tornavam-se agressivos, violentos, irracionais. Depois de algum tempo o nariz mudava, ficava achatado, escuro e frio. A ponta das orelhas ficavam  pontudas e escuras. As gengivas sangravam e recediam. A ponta dos dedos escureciam e as unhas cresciam. Com efeito, os sintomas da mordida do "Roggenwolf" tornavam a vítima cada vez mais animalesca.

Hoje, a ciência sabe que esses são os sintomas do ergotismo, uma doença causada pelo contato com a toxina produzida por um fungo (Aspergillus fumigatus) que cresce nos campos de centeio. Uma pessoa intoxicada por essa substância sofre alucinações bastante vívidas uma vez que o princípio ativo da toxina age sobre os neuro-transmissores do cérebro. As alucinações não são o único sintoma. O ergotismo causa o afinamento nos vasos sanguíneos e uma falta de irrigação nas extremidades do corpo. Dedos, nariz, gengivas e orelhas começam a escurecer gradativamente. Então as pernas e braços, órgãos até que, em casos crônicos, a vítima morre.

Essas duas doenças na Alemanha medieval contribuíram para o surgimento de histórias sobre lobisomens escondidos nos campos de centeio, capazes de transmitir a maldição. Um homem infectado estava fadado a mudar, a agir como uma fera e até se transformar em uma até finalmente morrer da maldição.

5) Herança Maldita



Mas a licantropia não se transmitia apenas através da mordida da fera. Ela podia ser herdada por laços de sangue. A herança maldita era passada de pai para filho, para neto e bis-neto e todos os seus descendentes podiam sofrer do mal.

 A explicação para esse mito pode ser explicada pela medicina moderna.

Existem várias desordens genéticas que podem levar uma pessoa a desenvolver uma aparência lupina. 

A CGH (Congenital generalized hypertrichosis) é uma desordem extremamente rara caracterizada pelo crescimento excessivo de pelos na face e na parte superior do corpo. Chamada comumente de "síndrome do lobisomem" os indivíduos com esse raro fenótipo até pouco tempo eram tratados como aberrações e figuravam como atrações de circos e galerias bizarras sendo chamados de "homens cães" ou "homens macacos". Até o século XIX, um espetáculo circense que se apresnetava de forma itinerante nos Estados Unidos reunia uma família inteira de "lobisomens", indivíduos que na verdade sofriam de CGH, condição transmitida hereditariamente. 

Outra doença rara, a Porfíria é uma desordem genética que torna o corpo incapaz de produzir Heme (a molécula presente nas células vermelhas do sangue responsável por transportar o oxigênio). Como efeito, mesmo uma fraca luminosidade solar é capaz de provocar ulcerações, bolhas e lesões permanentes na epiderme. Não raramente a pele desses indivíduos assume uma coloração castanha escura. As mucosas também são afetadas, os lábios e gengivas secam, e os dentes parecem maiores do que realmente são. Não bastasse esses efeitos, o crescimento excessivo dos pelos, cabelos e barba constitui um dos possíveis sintomas. Finalmente a porfíria pode causar alterações mentais e comportamentais e assimilação de conceitos. Alguém chamado de "lobisomem" pode muito bem acreditar que realmente está amaldiçoado pela licantropia.

Infelizmente, a porfíria também é hereditária. Um indivíduo pode passar anos sem que a condição se desenvolva, mas quando ela se instala, não existe cura e a desordem progride rapidamente. Nesse contexto, o filho de alguém infectado pela porfíria pode nascer normal e viver muitos anos sem manifestar os sintomas de seu parente, até que a desordem se faz sentir.

Para povos incapazes de compreender noções básicas de genética, sofrer do mesmo mal de um parente, equivalia a compartilhar de sua maldição. Assim surgiu a maldição hereditária da licantropia.

6) A Lua Cheia



Outro famoso aspecto do mito do lobisomem é sua conexão com a lua cheia. Muitos lobisomens modernos são capazes de se transformar em bestas ferozes apenas quando a lua cheia se ergue nos céus. Mas essa é uma peculiaridade consideravelmente recente introduzida pela literatura francesa do século XVI. O lobisomem francês, o "loup-garou" foi o primeiro a ser " influenciado pelas fases da lua.

A cultura francesa possui raízes celtas. Apesar do mito na Europa ter se originado entre as tribos germânicas, os Celtas contribuíram com várias características que aumentaram a lenda. No folclore celta, a lua é de suma importância. As fases da lua influenciam vários acontecimentos na Terra, e as criaturas sobrenaturais por vezes ganham poderes ou fraquezas em decorrência de sua fase. Para os celtas, fantasmas  normalmente invisíveis podiam ser vistos, e em alguns casos até tocados, quando banhados pela luz da lua cheia. Os vampiros, por sua vez podiam ser afetados pela luminosidade lunar quase tanto quanto o brilho do sol.

Não é de se surpreender, portanto, que na França (pós-Celtas) a transformação mística de um homem em lobo estivesse de alguma forma conectada com o aspecto lunar. Para os celtas, a lua cheia era capaz de "trazer à tona", a forma bestial e fazer com que a selvageria incontida do animal emergisse. O lobo afinal, "canta" para a lua em seu lacônico uivo. A lua portanto seria um emissário da loucura animalesca, um fator de transformação. 

Uma outra razão para o surgimento da lua no mito do Lobisomem pode estar ligado a alguma doença psicológica. A ciência médica reconhece que a lua possui um grande poder de sugestão na mente de indivíduos afetados por problemas mentais. Não por acaso, os alienistas do século XIX sagraram o termo "lunático", que designa uma pessoa de mentalidade instável sujeito a mudanças comportamentais, tão frequentes quanto as fases da lua sobre sua cabeça. Para os antigos gregos, a lua podia ser causa e efeito de episódios de loucura. Em algumas culturas, indivíduos com episódios de loucura eram trancafiados ou colocados em correntes, ou ainda marras, quando o calendário se aproximava da lua cheia.

Mesmo em nossos tempos atuais, a lua continua exercendo fascínio e talvez, realmente influenciando comportamentos estranhos. Existem criminólogos e pesquisadores convencidos de que as fase da lua, influenciam o aumento de crimes violentos. Estudos nesse sentido ainda carecem, contudo de fundamento científico.

7) Como matar um Lobisomem



Ainda mais farto do que as descrições a respeito do Mito do Lobisomem, são os métodos infalíveis de lidar com a Besta. Em alguns momentos parece que cada história a respeito de licantropia trata o assunto de uma forma diferente. Muitas dessas maneiras diferentes devem sua existência a herança cultural da região em que ela surgiu. Algumas delas são bastante recentes, enquanto outras parecem enraizadas em mitos e lendas que acompanharam o próprio surgimento de alguns povos.

Vejamos alguns exemplos:

- A medida que as histórias sobre lobisomens foram se difundindo entre os povos católicos da Europa, começaram a aparecer alguns métodos para eliminar as feras. Em alguns vilarejos da Europa central existia a crença de que se a identidade da criatura fosse conhecida e seu nome de batismo repetido três vezes ele reverteria a sua forma humana. O princípio é que a repetição do nome cristão ajudaria a restaurar a humanidade da pessoa agindo como um tipo de "exorcismo" da besta presente em seu corpo. 

- As lendas celtas tratavam de lobisomens em vários de seus mitos. Uma das formas de escapar de um ataque de lobisomen envolvia escalar uma Árvore de Freixo. Esse tipo de árvore segundo o folclore Celta é sagrada e nenhuma fera é capaz de fazer mal a alguém que busca refúgio no alto dela. 

- Outro ritual Celta que deu origem a uma tradição cristã envolvia acertar a cabeça do lobisomen três vezes. Supostamente isso fazia com que a fera vertesse três gotas de sangue que removiam a sua fúria e diminuíam o seu ímpeto de matar. O problema, é claro, deveria ser acertar a cabeça do lobo.

- A planta venenosa Acônito, não por acaso chamada em inglês de Wolves Bane (Danação do Lobo) se tornou um dos métodos consagrados da cartilha dos caçadores. Os gregos podem ter sido os primeiros a reparar que lobos evitavam a planta e por isso associaram o seu uso ao extermínio dos lobisomens. Se um lobisomem recebesse uma dose do extrato da planta, ele imediatamente se sentiria doente e fraco, morrendo em poucas horas se não revertesse à forma humana. Não por acaso, a planta era oferecida a pessoas de quem se desconfiava sofrer de licantropia e para conter a transformação ela podia ser colocada em volta do pescoço. 
- Um dos métodos mais famosos de eliminar a ameaça de um Homem Lobo envolve utilizar prata. Segundo a mitologia grega, homens feras seriam suscetíveis a prata, uma vez que o metal era considerado como tendo um efeito purificador. Um ferimento causado pela prata era capaz de remover a fúria da criatura, fazendo com que o lobisomen revertesse à sua forma humana.

- Posteriormente, as lendas germânicas afirmavam que a prata poderia matar o lobisomem. A prata, era o metal associado à Lua, que segundo as lendas fascinava as feras e as incitava. A famosa lenda  "Der Werwolf von Hüsby", escrita no século XVI trata de um lobisomem que é morto por uma lança feita de prata. Alternativamente, temos histórias de homens lobo que foram destruídos por armas que recebiam um banho de prata em sua lâmina e que assim se tornavam letais para as criaturas.

- Isso nos leva à bala de prata. É  método favorito empregado pelos caçadores de lobos de Hollywood. Uma bala produzida com prata maciça, de preferência de um crucifixo ou outra regalia religiosa derretida, era infalível contra um lobisomem. Em algumas versões da lenda, a bala tem que ser abençoada por um sacerdote para que tenha efeito. O princípio é exatamente o mesmo das lendas de armas de prata empregadas contra os lobisomens, o metal seria eficaz uma vez que tem propriedades curativas e purificadoras.

- Mas haviam outros métodos estranhos de enfrentar a Besta: enterrar uma lança de prata no coração do lobo (como se fazia no caso do vampiro), queimar a pele de uma fera caçada na lua cheia, matar uma ovelha e rechear a carcaça com determinadas ervas (em especial acônito), fincar no chão estacas de madeira verde em um padrão de cruz, pendurar na porta de casa uma faca com a lâmina recém afiada, entre outras maneiras.

Assim como acontecia no mito do vampirismo, a licantropia oferecia várias soluções, sendo que a maioria deles não eram muito fáceis.

8) Sumário



Conforme vimos, lendas sobre homens-animais estão presentes em várias partes do mundo como pare da herança culturas e folclore. A lenda predomina obviamente em países que possuem a presença de lobos. A capacidade de se transformar em lobo e voltar, constitui a base da lenda, já uma transformação em uma mistura de "homem e lobo" é algo relativamente novo na Europa.

Os lobisomens tem diferentes origens.

O warg da Escandinávia bem como o Werwolf das tribos germânicas só se transformavam em lobo através da magia contida em um cinturão encantado confeccionado com a pele de um lobo. Raiva e Ergotismo também poderiam causar a transformação. Essas versões da lenda sofreram alterações durante o período medieval, quando o cristianismo passou a associar a Besta Fera com as depredações do Demônio.

É importante ter em mente entretanto que a maior parte das lendas a respeito de lobisomens se desenvolveu muito lentamente. Levou mais de 200 anos para que o mito ganhasse força e chegasse a cidades, sendo que ele era difundido quase que exclusivamente nas regiões rurais. Cada geração parece ter adicionado um pequeno elemento ou detalhe à lenda e ela cresceu. A mais recente adição a esse mito pode ser a noção de que a licantropia seria transmitida por intermédio de um vírus contido na saliva da criatura. Uma mordida disseminava a doença que se alastrava dessa maneira sob uma perspectiva científica, encontrando similaridade na raiva canina. Julgando-se que nosso conhecimento de vírus datam do final do século XIX e só encontraram pleno conhecimento no século seguinte, é justo afirmar que elementos e detalhes continuam sendo adicionados pelas atuais gerações. A lenda, portanto, continua muito viva e em constante transformação.

Eu francamente não acredito que lobisomens existam, ao menos até ter a má sorte de encontrar um cara a cara.