quinta-feira, 18 de junho de 2020

Revisitando Lovecraft - Relemos o macabro conto "A Casa Abandonada" (1924)


Bem vindos de volta a Revisitando Lovecraft, onde nós fazemos uma releitura de algumas das histórias do velho Cavalheiro de Providence em busca de coisas que deixamos passar e curiosidades escondidas no texto.

Nesse artigo vamos esmiuçar uma de suas primeiras histórias, uma das menos conhecidas e que se enquadra à primeira vista em um tipo de terror mais convencional envolvendo uma casa assombrada. Contudo, a primeira impressão pode enganar: Observando com um pouco mais de cuidado, esse pequeno conto revela uma série de elementos consagrados do cânon lovecraftiano: velhas maldições, bruxaria, horrores de além das esferas e uma criatura simplesmente tenebrosa - ou ao menos o cotovelo dela (!!!).

Estamos falando de "A Casa Abandonada" (The Shunned House), escrita em outubro de 1924 e publicada pela primeira vez em 1928 em uma pequena tiragem. Foi para todos os efeitos o primeiro trabalho em forma de livro publicado por Lovecraft. Posteriormente ela foi aprovada para publicação na edição de número 30 da Weird Tales em outubro de 1937.


A Casa Abandonada teve como inspiração uma construção real existente na amada cidade natal de Lovecraft, Providence, estado de Rhode Island. A construção em questão se localizava no número 135 da Benefit Street e sempre foi uma casa que chamou a atenção de Lovecraft no período em que ele viveu em Providence. Uma tia de Lovecraft chamada Lilian Clark chegou a morar no endereço, conhecido como "Babbitt House", trabalhando lá como zeladora. Lovecraft fez uma ou duas visitas a ela nesse período, ocasião em que admirou a fachada da propriedade que ao mesmo tempo lhe era atraente e de alguma forma assustadora. Sua tia ficou no endereço por apenas um ano e saiu de lá alegando que a casa era grande e úmida demais. Lovecraft lamentou essa mudança, mas continuou interessado na propriedade escrevendo de cabeça a respeito de seus detalhes com uma minúcia impressionante.

Sumário:

Um narrador não identificado começa a histórica apontando a ironia de que durante a estadia de Edgar Allan Poe em Providence, o mestre do macabro passou várias vezes diante de uma casa na Rua Benefit sem perceber a aura de estranheza que reina sobre o local - "verdadeiro símbolo de tudo que é indizivelmente tétrico".

A Casa Abandonada fascina o narrador desde menino. Seu pátio é incrivelmente esquisito, com um gramado de cor pálida, árvores retorcidas e uma singular ausência de pássaros. Seu interior apresenta a desolação de uma ruína negligenciada há tempos, enquanto apenas o mais bravo dos exploradores se mostra capaz de visitar seu sótão. Mas o pior, de longe, é o porão. Mesmo com uma porta e escadas levando ao seu interior, o fedor que contamina o lugar é mais forte lá. Fungos brancos e fosforescentes brotam do chão de terra e um estranho bolor se ajunta ao redor da lareira. De tempos em tempos, o padrão de crescimento do bolor lembra uma silhueta humana esparramada no chão, e certa vez, o narrador vê o que parece ser uma emanação amarelada se erguendo dessa figura.   

O tio do narrador, um médico e antiquário chamado Elihu Whipple, também possui um fascínio mórbido pela casa. Ele eventualmente compartilha os frutos de suas pesquisas a respeito do endereço. A casa teria sido erguida em 1763 por um tal William Harris. Pouco depois da família se mudar para lá, sua esposa Rhoby perde o bebê que estava esperando. Por mais de 150 anos, nenhuma criança nasce vive na casa. De fato, crianças e empregados morrem no endereço com notável frequência, como se fossem lentamente consumidos. Rhoby passou os últimos anos confinada no sótão após sua sanidade declinar na velhice. Mais estranho, ela parece proferir palavras em algum dialeto francês, uma língua que jamais aprendeu.


Um filho do casal sobrevive e se muda para outra casa mais saudável. Ele planeja alugar a casa para inquilinos que invariavelmente acabam vítimas de doença e morte. Em 1861, a casa é abandonada de vez e deixada para se desintegrar lentamente sem cuidados ou manutenção. 

O narrador mergulha mais fundo na história da casa. Ele descobre que uma empregada dos Harris suspeitava que um vampiro havia sido enterrado no porão e que ele se alimentava das energias dos habitantes, o que os levava à morte. Algumas vítimas que pereceram na propriedade tinham um terrível estado de anemia. 

Por sorte o narrador fica sabendo que a casa havia sido projetada por um refugiado francês chamado Etienne Roulet. Este misterioso francês lia livros estranhos e desenhava diagramas esquisitos e seu filho Paul era tão detestado que acabou incitando um levante que resultou no linchamento de todo o clã. O nome Roulet segundo o narrador pode estar ligado a um certo Jacques Roulet que em registros de 1598 teria sido considerado culpado do assassinato de uma criança. Roulet segundo as más línguas era um vampiro ou lobisomem, provavelmente descendente do vampiro mencionado. 

Certa noite, o narrador visita a casa à noite. Ele constata a forma estranha do bolor no porão e o vapor que se ergue dele e assume formas bizarras. Ouvindo isso, Whipple insiste que uma nova vigília seja feita e que eles se preparem para destruir seja lá o que habita aquela casa.

A teoria dos protagonistas tem base científica. Eles acreditam que a coisa habita ao mesmo tempo o nosso mundo e uma realidade adjacente, conseguindo se manifestar brevemente para drenar a força vital das pessoas na casa, permanecendo dormente no restante do tempo. Eles decidem utilizar um aparato que produz radiação para destruir a criatura, e se isso falhar estão preparados para usar lança-chamas.


Armados, os dois acampam no porão e aguardam a coisa se manifestar. Em meio a uma noite marcada por pesadelos, Whipple acaba sendo dominado pela entidade alienígena e é dissolvido pela criatura que dele se alimenta. Radiação e lança chamas se mostram ineficazes e em pânico o narrador foge.

Dias mais tarde ele retorna ao porão decidido a destruir a criatura que levou seu querido tio. Ele dá início a uma escavação no porão que revela um tipo de substância medonha e uma parte da gigantesca anatomia da criatura. Sem pestanejar ele sai do buraco e começa a derramar nele o conteúdo de garrafas de ácido sulfúrico que havia trazido consigo. A coisa enfim é afetada pela substância corrosiva. Vapor esverdeado se ergue do porão e uma fumaça virulenta é expelida pelas janelas e chaminés. Como resultado o fungo se desmancha em uma poeira cinzenta o que evidencia que a coisa foi destruída de uma vez por todas. 

Na primavera seguinte o dono da casa a coloca para aluguel. No quintal, as antigas árvores pela primeira vez dão fruto e os pássaros retornam aos arredores.

O que é tipicamente Lovecraftiano:

Cogumelos! Lovecraft parece obcecado por eles nesse conto e os menciona várias e várias vezes, em algumas ocasiões com alguma variação: Fungo, Fungoso, fúngico... As descrições do porão da Casa Abandonada sempre incluem uma menção aos cogumelos bizarros que brotam no local. Nós sabemos que Lovecraft é conhecido por escolher cuidadosamente as suas palavras, então causa um pouco de surpresa a repetição que soa em alguns momentos até excessiva.


A localidade abandonada, o senso de decadência e o isolamento estão presentes quando o narrador e o tio exploram o porão. Lovecraft descreve esse lugar insalubre como se fosse a superfície de outro planeta e não um porão localizado em Providence.

A forma como os protagonistas escolhem enfrentar o monstro, com preparativos e buscando respaldo na ciência ao invés de folclore é bem lovecraftiano. Em momento algum os heróis (homens esclarecidos) se rendem a convenções de superstições e crendices. Mesmo quando mencionam a possibilidade de ser um vampiro que habita o porão, eles deixam claro que não se trata de um vampiro clássico.

O que é Degenerado:

O francês Etienne Roulet e sua família são o típico exemplo de indivíduos degenerados, alterados por seu envolvimento com o sobrenatural. Há uma menção ao filho de Roulett e que as ações deste acabam levando todos à morte. Lovecraft não deixa claro do que se trata, mas fica implícito que o comportamento destes forasteiros bate de frente com a "retidão moral" das pessoas da Nova Inglaterra.

Em outro momento ele deixa claro que os empregados da casa e camponeses são dados à acreditar em superstições e espalhar rumores. De fato, é com base em um desses boatos que eles passam a  conjecturar a possibilidade de se tratar de uma entidade vampírica.

O que pertence ao Mythos:

Embora o conto em momento algum faça uma conexão direta da criatura do porão com os Mythos, parece claro que a entidade é algo vindo de outra realidade. A descrição da coisa como uma "geleia congelada semipútrida, com impressões de translucidez" remete aos horrores viscosos e rastejantes do Mythos, no qual os Shoggoth são os representantes mais famosos.


A cena em que o tio é morto pela criatura que o engloba e começa a derreter seu corpo, fazendo surgir uma sucessão de faces e corpos de vítimas anteriores também sugere um horror saído do Mythos: imortal, implacável e incompreensível.

Tomos e Livros:

Poe é citado rapidamente, mas a obra do autor gótico tão admirado por Lovecraft passa batida. Ao invés disso, é comentado que o tio possui uma biblioteca com vários livros curiosos que auxiliam os protagonistas a entender a natureza da Coisa do Porão.

Etienne Roulet é descrito como um sujeito sinistro que lia "livros estranhos e desenhava gráficos" o que remete ao trabalho de um estudioso das artes ocultas. Não há citação a nenhum desses "livros estranhos" ou o conteúdo deles, mas conhecendo Lovecraft ele deve ter pensado ao menos brevemente em citar um ou dois de seus tomos blasfemos aqui.  

O que é Insano:

Rhoby Harris uma das primeiras moradoras da casa termina trancada no sótão por sofrer de uma gradual insanidade provocada pela criatura no porão. Não é para menos: seus filhos morreram e ela assistiu a saúde de cada um se deteriorar lentamente. O fato dela gritar em francês, língua que não conhecia, sinaliza que ela estava sendo tomada pelo espírito de um dos Roulet o que é por si só muito bizarro!

Após o primeiro embate com a criatura, o narrador foge em disparada pelas ruas de Providence e vaga sem destino por várias horas até recobrar seus sentidos. 

O tio também parece deslizar para a loucura poucos momentos antes de ser vítima de uma fagocitose. Os gritos de "minha respiração, minha respiração" são um indicativo de que a sanidade do pobre tio Elihu desceu a ladeira...  

Comentários:

Na superfície "A Casa Abandonada" é uma típica história de lugar assombrado. Inspirada por lendas locais sobre vampiros e se passando em uma casa realmente existente de Providence, a história apresenta um Lovecraft inaugurando seu próprio estilo. Assim como em outras histórias,a ciência desempenha um papel importante na luta contra o sobrenatural.  


- A "Casa dos Babbitt" como Lovecraft se referia à estrutura, realmente existe e se localiza no endereço descrito no conto, 135 da Benefit Street, hoje em dia é chamada de John Mawney Manor ou Stephen Harris House. Em 1920, ela pertencia a Sophia Babbitt, e após sua morte, foi herdada por outros membros da família que lá viveram. A tia de Lovecraft, Lillian viveu lá por pouco mais de um ano. Até onde se sabe, jamais foi maldita ou assombrada.

- Ao visitar New Jersey anos depois, Lovecraft conheceu uma casa na cidade de Elizabeth que lembrou a ele a Casa dos Babbitt em Providence. Ele usou essa casa como inspiração adicional para o conto afirmando que era perfeito para uma história de terror. A casa em Elizabeth tinha uma arquitetura semelhante à de Providence, mas Lovecraft em uma carta para uma tia a descreve nos seguintes termos: "Um lugar velho e terrível! Verdadeiramente uma casa infernal, onde coisas obscuras devem ter acontecido no início do século XVII", ele continua mais tarde "a pintura escura, o telhado estranhamente íngreme, e os degraus externos levando para o segundo pavimento, tudo sufocado por uma parede de erva daninha tão densa que é impossível evitar imaginar o lugar como amaldiçoado".

- O sobrenome do tio do narrador, Whipple, é coincidentemente o sobrenome da família dos parentes de Lovecraft por parte de mãe. O nome foi preservado como o primeiro nome de seu estimado avô materno, Whipple van Buren Phillips. Lovecraft viveu na casa de Whipple boa parte de sua infância e foi esse período que despertou no jovem Lovecraft o interesse por literatura, já que o avô tinha uma vasta biblioteca cujo acesso era franqueado ao neto. Foi nessa biblioteca que Lovecraft leu pela primeira vez "As 1001 noites" que teve enorme importância em sua carreira e onde ele alegou ter sonhado vez com os Nightgaunts.

- O trecho sobre vampirismo foi inspirado diretamente pelo folclore da Nova Inglaterra. Queimar o coração de um vampiro e reduzir o órgão à pó era segundo as superstições regionais o método mais garantido para liquidar a ameaça desses mortos vivos. A condição "vampirismo" segundo o folclore local engloba uma série de doenças debilitantes, mais ou menos parecidas com a tuberculose na qual a vida da pessoa era gradualmente consumida (daí decorrendo o nome em inglês "Consumption"). Ainda segundo o folclore local trata-se de uma doença espiritual e não física, causada pela presença de uma entidade capaz de se alimentar da energia vital da vítima (ou do sangue dependendo da versão).


Conforme o folclore local, se um cadáver desenterrado tivesse "sangue residual no coração" isso significa que ele era um vampiro que havia roubado esse mesmo sangue de alguma vítima. Os camponeses da Nova Inglaterra no século XVII exumavam cadáveres em busca dessa evidência reveladora e quando a encontravam procediam com as medidas para destruir o vampiro, o que envolvia queimar o coração. As cinzas deste podiam ser então usadas para criar uma bebida mágica que era dada aos afligidos pela doença. Segundo a crença aqueles que bebiam restauravam suas forças e sobreviviam à experiência.

- Essas estranhas práticas mortuárias da Nova Inglaterra se tornaram bastante conhecidas e serviram como inspiração para Bran Stoker quando ele estava escrevendo Dracula. Em 1896 ele foi revisor em um artigo publicado em uma revista a respeito dos "Vampiros da Nova Inglaterra".

- Não existe atualmente uma vila chamada Caude na França. Lovecraft pode ter usado outras como inspiração, possivelmente Caudecoste ou Gaude. Os huguenotes eram um movimento protestante surgido na França do século XVI. Com o Édito de Nantes eles ganharam certa autonomia no país, mas esta não durou muito. No século seguinte as Guerras Religiosas causaram uma série de perseguições que levaram os huguenotes a se exilar no Novo Mundo.      
  
- Um Tubo de Crookes é um instrumento desenvolvido pelo médico britânico William Crookes. O objeto em questão tem a forma de uma ampola comprida de vidro preenchido com gás pressurizado. Quando os elétrons saem do cátodo, colidem com moléculas do gás e ocorre a ionização deste e a liberação de luz que ilumina toda a ampola. A "ampola de Crookes" é feita de vidro ou quartzo e dentro dela se faz o vácuo. Ela contém duas placas metálicas ligadas a uma fonte de tensão elétrica. O instrumento era usado por médicos como uma espécie de precursor dos raios-x.


- Diferente de muitas histórias de Lovecraft, A Casa Abandonada possui um final atípico e relativamente feliz. Embora sofra com a morte do tio, o narrador é capaz de destruir a criatura maligna que habita a Casa fazendo com que a presença dela deixe de incidir sobre o local. Nem sempre os protagonistas lovecraftianos tem essa sorte, de fato, são bem poucas as vezes em que um final reflete esperança nos dias vindouros.

Bem é isso...

Comentários e sugestões são bem vindas. 

terça-feira, 16 de junho de 2020

TOP 5: Os 5 melhores cenários de Chamado de Cthulhu envolvendo Casas Assombradas


E está na hora de um novo TOP 5.

Dessa vez, a coisa envolve CASAS MAL-ASSOMBRADAS. Aqueles lugares escuros, ermos, perigosos, onde habitam fantasmas e assombrações, em que poltergeists batem na madeira, passos são ouvidos na escada e coisas inexplicáveis tendem a acontecer.

Chamado de Cthulhu é por definição um RPG de horror, mas o fato dele ser voltado para o Horror Cósmico não impede que algumas aventuras se passem em casas assustadoras. De fato, há um bom número de cenários que se passam em casas abandonadas e com má reputação. Nada como lançar os seus jogadores em uma investigação macabra em um endereço marcado pela tragédia ou que é palco de incidentes sobrenaturais.

Qual o Guardião que não adora descrever os aposentos decadentes, os ambientes soturnos e a aura macabra que permeia esses antros de terror? Como jogador eu adoro uma boa aventura de casa mal-assombrada não importa o sistema e como mestre adoro descrever um lugar particularmente medonho.

Reuni para esse TOP 5 os cenários de Chamado de Cthulhu em que casas malignas aparecem quase como personagens na trama. Para definir o que é uma aventura de casa mal-assombrada estabeleci os seguintes parâmetros:

1) A aventura tem que se passar em uma casa ou ter pelo menos metade da trama envolvendo um mistério que ali se passa.

2) A Casa tem que ser um lugar amaldiçoado, perigoso ou que sirva de covil para algo maligno.

3) A casa tem que ser mais do que o lugar onde os fatos acontecem, ela tem que ter uma... personalidade (na ausência de uma palavra melhor).

Com base nisso, defini as cinco aventuras de Chamado de Cthulhu que melhor invocam a aura de mistério, segredo e terror desses lugares assustadores.

Vamos lá!

Quinto lugar:
THE SANATORIUM 
(Mansions of Madness)


Na minha opinião "The Sanatorium" (O Sanatório) não apenas é uma das melhores aventuras para introduzir jogadores ao universo dos Mythos, como é uma excelente pedida para apresentar RPG a quem nunca rolou um dado e diz "nossa que esquisito" quando vê um d20.

Isso se deve ao fato de "Sanatorium" ser simples e direto ao ponto. Os elementos da trama são fáceis de serem compreendidos, as cenas se desenrolam bem e os NPCs são muito bem construídos, com destaque para o elenco de loucos institucionalizados que vive no North Island Sanitarium. Localizado em um pequeno rochedo na Costa da Nova Inglaterra, os investigadores desembarcam na ilha sem saber que estão entrando num pesadelo do qual será muito difícil escapar. Isolados e sem comunicação com terra, eles terão de enfrentar uma ameaça invisível e seus escravos. Quem assistiu o filme "Ilha do Medo" (Shutter Island) não cansa de apontar como as histórias são parecidas, mas para constar, Sanatorium veio primeiro. 

Esse cenário não é exatamente uma aventura sobre uma casa assombrada maligna, mas uma casa que se torna maligna graças aos acontecimentos que conduzem a história. Quando os loucos abrem as portas de suas celas e ganham liberdade, caberá ao grupo negociar e estabelecer uma certa diplomacia. Isso até eles encontrarem uma força com a qual é impossível negociar.

"Carne para o Mestre" se tornou uma frase que meu grupo adora repetir até hoje, se tornou sinônimo de "algo ruim está acontecendo". Devo ter narrado essa aventura umas quatro ou cinco vezes e ela sempre tem um climax divertido, sobretudo quando paranoia e desespero se juntam ao desejo de sobreviver à qualquer custo.

Mais detalhes a respeito desse cenário podem ser encontradas nesse artigo: SANATORIUM

Quarto Lugar:
THE CRACK'D AND CROOK'D MANSE
(Mansions of Madness)


Outro clássico de Chamado de Cthulhu!

Essa é por excelência uma das mais perfeitas histórias de Casa Mal-Assombrada. 

A história é simples e envolve uma casa de má fama e com reputação de atrair todo tipo de incidente sobrenatural e má sorte aos seus donos. A Mansão Fitzgerald é um lugar que viu diversas fatalidades e acontecimentos desagradáveis como loucura, violência e morte. Esses incidentes ficaram impressos em suas paredes. Duas enormes tragédias ocorreram em seus salões e aposentos, um terceiro está prestes a acontecer e caberá aos investigadores tentar evitá-lo...

Esse cenário é uma delícia. A começar pelo nome "Crack'd and Crook'd" que se refere literalmente a "quebrada e torta", duas características presentes na casa a ser explorada e no mistério a ser desvendado.

Eu joguei essa aventura em um evento de RPG muitos e muitos anos atrás, com um excelente mestre que carregou nos elementos macabros da trama e realçou perfeitamente os detalhes do lugar. A Mansão Fitzgerald esconde algo impensado, algo muito pior do que simples fantasmas e estas forças nefastas conspiram para eliminar os investigadores. Foi uma das primeiras aventuras que joguei que terminou em TPK (Total Party Killed) e vou lhe dizer, foi divertido demais concluir a história mandando a casa toda pelos ares em meio a uma orgia de sangue e insanidade.

Posteriormente cheguei a narrar essa história, também em um evento e usei muitos elementos de filmes clássicos de horror em especial "A Assombração da Casa na Colina". Na minha versão dessa aventura aumentei o tamanho da Mansão e inclui mais algumas cenas aterrorizantes.  

Estou curioso para saber o que mudaram na história original, já que esse cenário foi revisto para a nova edição de Mansions of Madness: Behind closed Doors.

Terceiro Lugar:
HELL HATH NO FURY
(Golden Dawn)


Em uma excelente antologia de histórias vitorianas como Golden Dawn, "Hell Hath no Fury" se destaca como um cenário absolutamente sinistro e cheio de reviravoltas macabras.

A história é simples e bastante convencional, envolve o pedido de ajuda de um amigo que vive no interior da Inglaterra e teme ser vítima de uma maldição lançada por uma bruxa. A maldição foi lançada contra um antepassado que participou do julgamento da bruxa, mas ela parece ter sido transmitida aos herdeiros. Ele pede que os investigadores, na qualidade de especialistas, analisem a situação e encerrem com a maldição.

Isso os leva a investigar a origem da história e descobrir que há muito mais em jogo.

O ponto alto da aventura é quando o grupo se instala na casa para ficar mais próximo da "maldição" e eles próprios acabam sendo afetados por ela. A sucessão de incidentes bizarros, fenômenos estranhos e acontecimentos devastadores para a sanidade dos personagens segue em um ritmo crescente até o clímax quando o grupo terá de enfrentar a bruxa em pessoa. Antes porém a aventura nos saúda com uma das cenas mais malvadas e dolorosas que eu já descrevi em uma mesa de jogo, o tipo da coisa difícil de esquecer para quem está jogando.  

"Hell hath no fury", cujo título poderia ser traduzido "O Inferno não possui fúria igual" é uma aventura para mestres experientes, cabe ao Guardião sentir o ritmo dos jogadores e aumentar o tom dos ataques sobrenaturais a medida que a história progride. Perder a mão pode colocar tudo à perder, mas se for feito direito ela é inesquecível.

A campanha vitoriana Golden Dawn foi descrita em detalhes em um artigo e pode ser lida no seguinte link: Campanha Golden Dawn    

Segundo Lugar:
FORGET ME NOT
(The Things We Leave Behind)


Esse cenário clássico escrito por Brian Sammons não apenas é uma excelente aventura de Casa Assombrada, como é um dos melhores cenários de Chamado de Cthulhu contemporâneos.

O roteiro é incrível, envolve a equipe de produção de um programa de televisão que investiga fenômenos paranormais e se mete com uma legítima casa-assombrada ao invés de uma fraude. Sem memória, experimentando aterrorizantes deja-vu e sofrendo com estranhos efeitos colaterais, os membros da equipe terão de buscar pistas e refazer seu caminho para entender o que de fato aconteceu durante sua visita à Casa Cooper.

Forget Me Not (Não me esqueça) remete àqueles filmes de horror em que os protagonistas mergulham cada vez mais fundo nos acontecimentos e todos sabem desde o início que a coisa não vai terminar bem. E mesmo assim, não encontram outra maneira de lidar com a situação. É como afundar na areia movediça, quanto mais se mexe tentando escapar, mais rápido você afunda.

Mas é melhor não falar demais para não revelar detalhes, quanto menos os jogadores souberem melhor. Para quem estiver curioso, é possível assistir a sessão de jogo que narrei pelo Roll 20, nesse link: Parte 1 e Parte 2

O que me agrada tanto nessa aventura é a forma como ela é trabalhada e a maneira como os jogadores são envolvidos e acabam andando na direção de sua própria desgraça sem desconfiar do que vai acontecer. E quando eles finalmente percebem, é tarde demais...

Um verdadeiro clássico instantâneo que mostra que não faltam ideias inovadoras para sessões de jogo.

Primeiro Lugar:
THE HAUNTING 
(Chamado de Cthulhu Quick Start)


Na história de Chamado de Cthulhu, "The Haunting" (A Assombração) ocupa um lugar de destaque que lhe valeu o primeiro lugar nessa lista. 

Praticamente todos os jogadores e mestres do sistema conhecem, narraram ou jogaram esse cenário que é considerado por muitos a melhor introdução para a ambientação. Os conceitos da aventura são muito bem apresentados, as cenas bem construídas e a conclusão nunca deixa a desejar. É impressionante como muitos jogadores veteranos citam essa aventura como uma de suas melhores experiências narrando Chamado. É realmente difícil encontrar alguém que fale mal desse cenário ou que não fale dele com uma ponta de nostalgia. Não por acaso "The Haunting" está presente desde a primeira edição.

A história envolve um lugar assombrado, a Casa Corbitt que é a fonte de estranhos fenômenos sobrenaturais que os investigadores são chamados à investigar. É claro, nem tudo é o que parece, e logo os jogadores começam a descobrir a origem conturbada da casa e quem (ou o que) causou os distúrbios. Como não poderia deixar de ser, o clímax envolve uma exploração do lugar, aposento por aposento, sala por sala, ocasião em que os investigadores são confrontados com cenas bizarras e perigos para sua vida e sanidade.   

The Haunting não tem uma história intrincada e cheia de reviravoltas como os demais cenários que compõem essa lista, de fato, a história comparativamente é bem simples. Por outro lado, reside nessa simplicidade seu maior mérito: ser uma perfeita porta de entrada para o mundo de Chamado de Cthulhu.

A Assombração da Casa Corbitt parece que sempre estará lá, esperando para assustar e cativar novos jogadores.

*          *          *

Bem é isso, nossa lista das melhores aventuras de Casas Assombradas.

Sentiu falta de algum cenário? Não concordou com nossa lista? Achou algum absurdo? Conte para nós nos comentários!

domingo, 14 de junho de 2020

O Caso das Irmãs Papin - O Crime hediondo que aterrorizou a França



Era uma noite fria de inverno em 1933 quando o advogado aposentado de meia idade, Monsieur René Lancelin chegou em sua casa em uma distinta vizinhança na cidade de Le Mans. Ele havia combinado de apanhar a esposa e filha e levá-las até a casa do cunhado para um jantar. Mas ao chegar encontrou a porta trancada por dentro e as luzes apagadas, exceto por uma fraca luz de vela que vinha do sótão. Ele bateu à porta, chamou, mas ninguém respondeu.

Lancelin achou aquilo muito estranho, mas concluiu que a esposa Leonie e a filha Geneviéve haviam seguido para o encontro mais cedo. Chegando lá, ele descobriu que nenhuma delas havia aparecido o que o deixou preocupado. Lancelin foi até a delegacia de polícia e explicou a situação e logo ele foi até a casa acompanhado de policiais. Lá forçaram a porta que havia sido trancada e barricada com um armário. As luzes elétricas não estavam funcionando. Os policiais apanharam lanternas e começaram a fazer uma busca pelo local ainda sem saber o que havia ocorrido. Os homens subiram as escadas onde se depararam com uma cena de horror indescritível.

Mãe e filha jaziam largadas em uma poça de sangue. Elas não haviam sido simplesmente assassinadas, e sim, massacradas com uma selvageria que chocou até os mais calejados agentes policiais. As mortes foram algo hediondo. Havia sinais de tortura: as unhas tinham sido arrancadas, os corpos apresentavam ferimentos de faca e mais terrível, os olhos haviam sido vazados. O golpe final, desferido na cabeça, foi produzido com um objeto pesado que transformou os rostos numa massa sangrenta. O sangue havia escorrido em profusão sendo absorvido pelo tapete.

Lancelin, que estava junto dos policiais no momento da descoberta reconheceu sua mulher e filha. Os policiais perguntaram a ele se havia mais alguém residindo na casa e ele pálido como papel teve a presença de espírito de confirmar, dizendo que duas criadas viviam num quarto no sótão. Os policiais temiam que elas também tivessem sido vítimas de um maníaco, pois apenas um louco seria capaz de crime tão medonho. Enquanto um policial escoltava René para o lado de fora, dois outros subiram as escadas até o aposento no alto da escada. A porta estava trancada e eles bateram repetidas vezes ordenando que quem estivesse lá abrisse imediatamente. Não obtiveram resposta, então resolveram arrombar a porta.

Lá dentro encontraram algo inesperado, duas mulheres nuas deitadas na mesma cama. Elas estavam desgrenhadas, sujas de sangue e aparentavam um estado de confusão mental. Quando um policial se aproximou, uma delas apanhou um lençol e se cobriu enquanto a outra permanecia olhando para o vazio. Elas foram identificadas como Christine e Lea Papin, empregadas que trabalhavam na casa. Quando perguntadas a respeito do que havia acontecido, simplesmente responderam que eram as responsáveis pelas mortes. Após vestirem robes e lavar o rosto sujo de sangue, foram conduzidas até a chefatura de policia para interrogatório. No quarto das irmãs a polícia encontrou uma faca de trinchar, um martelo e um pesado jarro de metal. Os objetos foram usados para matar a patroa e a filha, todos estavam cobertos com o sangue das vítimas.


Uma entrevista preliminar obteve a confissão. A razão para o crime? A irmã mais velha, Christine contou que enquanto passava roupa, o ferro quebrou pela segunda vez na semana. Madame Lancelin reclamou do ocorrido e ela não gostou do tom que insinuava ter sido algo proposital. As irmãs foram presas e autuadas ali mesmo. 

O crime sangrento chocou e deixou a população de Le Mans estarrecida. As duas irmãs trabalhavam na casa havia seis anos, desde 1926, quando Christine chegou com a idade de 21 e Léa com apenas 15. As duas tinham reputação de serem jovens esforçadas, quietas e atenciosas em suas tarefas domésticas. Elas não tinham amigos próximos, mas eram tidas como pessoas honestas e de boa índole. Nenhuma possuía passagem criminal ou vícios conhecidos e tinham como hábito frequentar a igreja local todos os domingos.

A pergunta que prevalecia na mente de todos era a mesma: O que teria levado as irmãs a um crime tão medonho, descrito pelos jornais como uma verdadeira orgia de sangue? Os cidadãos de Le Mans suspeitava que algo mais sério pudesse ter acontecido. Rumores davam conta de que as duas pudessem ter sido possuídas por alguma entidade sobrenatural que as obrigou a cometer aquela atrocidade. O caráter bizarro das mortes chamava atenção por envolver uma tortura desprezível. 

Após uma briga iniciada na cozinha, as criadas seguiram a patroa escada acima e a esfaquearam na sala onde ela caiu. Genevieve veio em seu socorro, provavelmente atraída pelos gritos, e também foi agredida. As duas caíram, feridas com cortes de faca, mas ainda vivas. Enquanto agonizavam os olhos delas foram arrancados pelas assassinas com as próprias mãos. Um dos olhos de Madame Leonie estava no cachecol que ela usava o outro foi deixado sob seu corpo. Os da filha haviam sido destruídos nos degraus da escada esmagados. O golpe final foi dado com um pesado jarro de metal. Posteriormente uma das irmãs temendo que as vítimas ainda estivessem vivas encontrou um martelo que foi usado para golpear a cabeça delas repetidas vezes. A quantidade de sangue era tamanha que havia penetrado no piso e penetrava no teto do andar inferior. Havia manchas de sangue e massa encefálica nas paredes e no teto, projetadas pelos golpes desferidos.


A descrição causou um terror tão grande que algumas pessoas passaram a desconfiar de seus próprios empregados e funcionários, temendo que aquilo era apenas o primeiro passo de uma revolta coletiva da classe trabalhadora. Muitas pessoas acabaram perdendo seus empregos por conta do clima de paranoia que se instalou.

Da noite para o dia, as irmãs Papin se tornaram conhecidas em toda França. Era o "Crime do Século", como estamparam as manchetes alguns jornais. Correspondentes internacionais levaram a notícia através do Atlântico e o infame caso das Irmãs Homicidas ganhou repercussão na América.

Havia um componente adicional escandaloso ao crime. Muitos especulavam que as irmãs eram amantes por terem sido encontradas nuas na mesma cama. Os rumores davam conta que após o assassinato elas haviam feito sexo na cama que compartilhavam o que chocava ainda mais a sociedade conservadora francesa. Por conta de todos esses elementos bizarros, a sanidade das duas começou a ser questionada.

O caso atraiu o interesse de intelectuais franceses da época, como o cineasta Jean Cocteau, o novelista Jean Genet e o escritor Jean-Paul Satre, que acreditava ser o crime um reflexo da luta de classes. As duas mulheres rotineiramente trabalhavam 14 horas por dia com apenas meio dia de folga aos domingos. No tribunal foi revelado que Madame Lancelin era uma patroa tirânica que usava luvas brancas para verificar se a poeira havia sido tirada a contento. As irmãs também recebiam apenas o almoço e tinham descontado do salário as demais refeições. Elas também não possuíam direito a calefação no sótão em que dormiam e nas noites frias praticamente congelavam. Contudo, o crime continuava parecendo aos olhos da população uma atrocidade.


Enquanto estava na prisão, sob custódia, Christine, a irmã mais velha, começou a exibir um comportamento extremo. De acordo com testemunhas ela afirmava ter visões e alucinações. Via as carcereiras como demônios que vinham torturá-la e os médicos que aplicavam sedativos como monstros aterrorizantes. Ela se atirava contra as paredes e chegou a remover uma camisa de força provocando em si mesma escoriações. Em dado momento se cortou e usou o sangue para desenhar cruzes nas paredes da cela e em seu próprio corpo. Afirmava que estava sendo visitada pelo Diabo que vinha recolher sua alma. Ela também continuava gritando por Lea, que havia sido levada para outro pavilhão. 

Quando as duas irmãs eram reunidas, o comportamento de Christine se tornava ainda mais estranho e de natureza inapropriadamente sexual. Ela se dizia "dona" da irmã e seu comportamento possessivo fazia com que Lea simplesmente se encolhesse num canto incapaz de reagir. Em julho de 1933, Christine experimentou um tipo de surto no qual tentou arrancar os próprios olhos e mastigar a língua. Ela foi então isolada em uma cela acolchoada e mantida aprisionada com uma camisa de força. Após o incidente ela disse que havia sofrido um episódio similar poucas horas antes de cometer o assassinato. O relato não foi incluído nos autos do processo uma vez que elas não quiseram alegar insanidade. Lea quando sozinha apresentava um comportamento tímido e inseguro, ficando em silêncio e preferindo não dizer nada sem a presença de sua irmã.

Oito meses após a prisão, as irmãs foram finalmente levadas ao tribunal para serem julgadas. O evento se converteu em um acontecimento nacional, contando com a presença de várias mentes criminais e jurídicas. A polícia teve que providenciar segurança reforçada quando o carro com as irmãs chegou ao tribunal, cercado por milhares de populares furiosos. 

As irmãs negaram ter relação sexual, mas não fizeram nenhum esforço para negar os assassinatos. A despeito das evidências colhidas de que a loucura fazia parte da Família Papin (o avô havia sido preso em um manicômio e vários de seus parentes haviam cometido suicídio), as duas mulheres se não aceitavam argumentar esse excludente apesar dos apelos de seu defensor. Elas acabaram então condenadas. Christine recebeu a sentença mais severa, morte na guilhotina, enquanto Lea foi sentenciada a 10 anos de trabalhos forçados. O juri optou por essa pena mais branda por considerar que ela foi coagida pela irmã que a dominava.


Ao longo do julgamento, o triste passado das Irmãs Papin começou a vir à tona. Christine e Lea haviam crescido em um vilarejo miserável no sul de Le Mans. Elas tinham uma irmã mais velha, Emilia, que sofreu abusos por parte do pai alcoólatra e que se tornou uma freira. Após a morte da mãe, o pai as abandonou em um orfanato. Elas ficaram sob a tutela da instituição religiosa e ansiavam por se tornar freiras como Emilia. Contudo após uma entrevista, a madre de um convento afirmou que elas não tinham condições de entrar para a vida religiosa. Christine já perto de atingir a maioridade saiu então para procurar emprego. Lea a acompanhou e elas conseguiram trabalho em uma série de lugares como lavadeiras, operárias e na cozinha de um internato, sobrevivendo assim de pequenos serviços até conseguirem uma indicação para a casa dos Lancelin.

Os registros da entrevista de Christine quando ela tentou ser aceita em um convento foram usados como prova no tribunal. Ela confidenciou ser atormentada por entidades diabólicas, afirmando ser vítima de ataques sobrenaturais desde a infância. Em mais de uma ocasião ela teria sofrido de "possessões", ocasião em que deixava de ser "ela mesma" e se via dominada por uma ou mais criaturas diabólicas. Seguindo o caminho da vocação religiosa ela esperava reduzir ou acabar com esses ataques. Em um interrogatório, Lea reconheceu que a irmã sofria desses episódios, e que se tornava violenta e a agredia. Ela não reconheceu o incesto, mas os especialistas acreditam que esse elemento estava presente na relação das duas.

Conceituados médicos psiquiatras franceses se ofereceram para estudar o caso das irmãs e dar a elas um tratamento após a conclusão do julgamento. Graças a intercessão desses médicos, a pena de morte de Christine foi comutada em prisão perpétua e ela transferida para um asilo em Rennes. Na prisão, a saúde de Christine continuou deteriorando rapidamente. Muito deprimida após ser separada de Lea, ela se recusava a comer e seu estado clínico seguiu piorando. Transferida para outro asilo, ela jamais demonstrou qualquer sinal de melhoria vindo a falecer em 1937. Lea foi libertada da prisão em 1941, com a sentença reduzida por bom comportamento. Ela foi viver em Nantes, onde conseguiu emprego como arrumadeira de um hotel usando nome falso. Não se sabe exatamente quando ela morreu, mas algumas pessoas acreditam que foi em 1982. Entretanto, o cineasta Claud Ventura afirmou ter encontrado a verdadeira Lea vivendo em um asilo em 2000 e chegou a entrevistar a anciã para um documentário que ele estava produzindo. A mulher morreu em 2001, sem que tenham chegado a  conclusão se ela era a verdadeira Lea.  

Ainda hoje, profissionais tentam compreender qual era o problema das Irmãs Papin. 


A corrente majoritária é que Christine sofria de um quadro agravado de paranoia esquizofrênica que começou a se manifestar quando ela era adolescente e a acompanhou até a idade adulta. Nos anos 1930 não existia tratamento para essa desordem mental. Hoje em dia ela poderia ser tratada com um cocktail de drogas que lhe daria alguma qualidade de vida. Lea, por outro lado, nunca demonstrou qualquer sinal de doença mental. Ela sempre aparentou ser muito tímida e ter sua personalidade anulada pela irmã sobretudo durante situações de stress. Os Lancelin não tinham nada contra Lea e chegaram a cogitar despedir Christine e ficar apenas com a irmã mais nova no serviço. A grande tragédia da vida de Lea aparentemente foi ser dominada pela irmã.

Outra corrente assume que as irmãs sofriam de algo chamado desordem paranoica compartilhada. Essa condição tende a ocorrer em pequenos grupos ou pares que se sentem isolados do mundo. Eles estabelecem entre si uma relação intensa, temendo se abrir para novas experiências e se dedicando totalmente um ao outro. Nessa desordem mental é típico que um companheiro tenha controle sobre o outro, por vezes exercendo também um domínio de natureza sexual. As Irmãs Papin parecem ser um trágico exemplo disso.       

O dramaturgo Jean Genet ficou tão impressionado com o caso que adaptou o incidente em uma de suas mais famosas obras, "Les Bonnes" ou "As Criadas". O crime continua a fascinar escritores e cineastas na França, assim como em outros países. Ruth Rendall também escreveu um romance que analisa as causas do crime. Dois filmes foram lançados apenas nos últimos dez anos, em inglês e francês.

Chocante e assustador, ainda hoje, passados quase 90 anos, o Caso das Irmãs Papin gera discussão e debate.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Resenha: Mansions of Madness: Behind Closed Doors


por Fábio Silva

A Chaosium tem surpreendido com a qualidade de seus produtos em Chamado de Cthulhu 7ª. Cada vez mais, eles têm lançado material inédito, explorando novas ideias e apresentando esse jogo incrível aos novos jogadores e guardiões. Porém, há mimos para os veteranos também. Na caixa do Starter Set eles reformularam o texto do Quick-Start Rules além de incluir cenários clássicos, revisados e ampliados, com uma arte fenomenal. Atualizaram o Cthulhu Dark Ages, que agora conta com mais conteúdo além de uma nova abordagem e uma nova aventura, com regras para a 7ª edição. Até mesmo Dead Light (Leia a respeito aqui) , uma aventura escrita, já há algum tempo, para a 7ª edição, recebeu uma nova edição revisada e com nova arte, acompanhada de uma aventura inédita. E claro, não podemos deixar Masks of Nyarlathotep (Resenha aqui) de fora disso, com um trabalho primoroso em um livro duplo, com conteúdo novo e novas ilustrações.

Nos novos produtos, bem como nos clássicos revistos, a Chaosium tem feito os textos, e as regras, amigáveis para novos guardiões, além de incluir caixas de texto com orientações, dicas e até mesmo resumo de regras (esse volume contém uma explicação sobre como funciona o gasto de sorte, por exemplo). Não foi diferente com Mansions of Madness Volume 1: Behind Closed Doors (Mansões da Loucura: Atrás das Portas Fechadas).

Mansões e Loucura em Chamado de Cthulhu 

Mansions of Madness foi originalmente publicado em 1990 para Chamado de Cthulhu 4ª Edição (apenas em inglês). Ele vinha com cinco aventuras, sendo elas: Mister Corbit por Michael DeWolfe; The Plantation por Wesley Martin; The Crack’d and Crook’d Manse por Mark Morrison; The Sanitorium por Keith Herber; e Mansion of Madness por Fred Behrendt. A arte clássica da capa — criada por Lee Gibbons — está inclusa nessa nova edição como abertura do capítulo de introdução.

O sucesso foi tremendo e hoje muitos dos cenários estão na lista de favoritos de vários guardiões e jogadores de Chamado de Cthulhu. Por isso, em 2007, o livro recebeu uma nova edição para o Chamado de Cthulhu 6ª edição do jogo (publicado no Brasil pela Terra Incógnita). A capa se manteve a mesma, apesar dos tons de cores serem mais vivos, enquanto o livro teve um acréscimo significativo: a Chaosium inclui um sexto cenário. The Old Damned House por Penny Love e Liam Routt entrou para a lista dos cenários que receberam destaque nessa coleção. Novas artes e mapas foram elaborados para a reedição do livro, trazendo uma nova roupagem para os antigos e novos fãs desse compêndio. 

Agora, após o sucesso da segunda edição dessa coleção de aventuras, a Chaosium preparou uma surpresa, dessa vez atualizado para as regras do Chamado de Cthulhu 7ª edição (publicado no Brasil pela New Order), mas com layout e artes completamente novos — incluindo uma nova capa. Também, a coleção de aventuras foi dividida em mais de um volume. O primeiro deles, Mansions of Madness Volume 1: Behind Closed Doors contém apenas 2 dos cenários clássicos, publicados desde a primeira edição. Eles acrescentaram três novos cenários (falo sobre eles abaixo), mantendo a premissa: aventuras que acontecem por trás de portas trancadas, em casas sinistras. 

Uma Reedição Renovada 

A nova edição de Mansions of Madness é, na verdade, parte do plano da Chaosium de criar uma série de suplementos de aventuras que sejam amigáveis para novos jogadores e guardiões. Eles fizeram isso com o recente Gateways to Terror e Portais para as Trevas (Doors to Darkness Resenha aqui) e agora aplicaram o mesmo conceito revisando e criando cenários dentro da premissa do Mansions of Madness. A ideia é que todos os cenários possam ser jogados sem dificuldades usando as regras do Starter Set ou Chamado de Cthulhu: Guia do Guardião  apenas. Para aqueles que desejam ter uma pitada a mais de ação, os cenários são compatíveis com o Pulp Cthulhu também. Os cenários podem ser jogados numa média de uma a três sessões, com apenas um investigador ou mais; ideal para quem procura partidas curtas. 

Eles incluíram os cenários em uma ordem cronológica, o que permite conectá-los, criando uma pequena campanha formada por episódios soltos — ao longo do texto, há dicas sobre como mover as coisas através dos lugares ou do tempo, para que as coisas façam sentido. Porém, as aventuras podem ser jogadas de maneira independente ou como um intervalo em uma campanha em andamento. Também há ideias sobre como o guardião pode desenvolver futuras aventuras baseado nas decisões dos jogadores no decorrer da história.


É possível notar que, diferente de outros cenários escritos diretamente para guardiões inexperientes, nesses há menos orientações profundas sobre como proceder em algumas situações que pode surgir durante a aventura. É como um primeiro passo ao improviso numa aventura de Chamado de Cthulhu. Guardiões experientes não devem encontrar dificuldades em lidar com tais situações. 

A Chaosium disponibiliza seis personagens pré-montados para usar com os cenários, ou como bem entender. Isso é prático para orientar novos jogadores ou para guardiões que desejam iniciar a sessão rapidamente. Se os jogadores preferirem, em cada cenário há uma sessão Como Envolver os Investigadores que fornece orientações sobre como criar personagens que sejam úteis e diretamente ligados aos mistérios de cada cenário — incluindo sugestões de perícias úteis. 

Os Cenários 

Para evitar revelações do enredo, já que alguns jogadores podem estar lendo essa resenha (inclusive os meus jogadores!), vou apresentar a premissa de cada cenário abaixo e falar minhas impressões. Porém, penso em, à medida que eu preparo cada cenário para minhas sessões, preparar também uma resenha profunda de cada um dos cenários (quem sabe eu crio meu próprios handouts). Se vocês tiverem desejam ver isso e saber mais sobre os cenários, deixe o seu comentário, para que eu saiba do interesse e possa escrever novas postagens detalhando cada um deles. 

Mister Corbitt 

Um empresário local aposentado, aparentemente tímido e recluso, esconde um segredo terrível. Conseguirão os investigadores podem resolver o enigma e salvar o dia? 

Eles mantiveram a ideia original aqui, incluindo novos elementos, explicações e dicas de como conduzir o cenário. Várias partes do texto foram retiradas do texto original da segunda edição de Mansions of Madness (2007). Os mapas e artes foram atualizados no estilo do que tem sido feito na produção de arte da linha Chamado de Cthulhu 7ª — a remasterização da arte presente no fim da aventura da segunda edição serve como abertura da aventura. 

The Crack’d and Crook’d Manse 

Há muito considerado um lugar amaldiçoado pelo povo de Gamwell, parece que a Mansão Fitzgerald finalmente se livrou de sua fama de um passado sórdido. Mas ninguém vê o novo proprietário, Arthur Cornthwaite, há algum tempo. A história está se repetindo? 

Esta é a segunda das aventuras clássicas que está sendo republicada. Assim como a anterior, há conteúdo extra, novas ideias e elementos. A arte também foi reformulada. Partes do texto da edição anterior também foram incluídos aqui, o que a deixa muito próximo do que era, mas com um novo sabor.


The Code 

Convocados para a casa do Dr. Kenneth Connolly por um telegrama urgente, os investigadores podem entender os eventos bizarros que afligem Wellington Manor? 

Está é a primeira das três novas aventuras incluídas no livro. Ela tem um tom de mistério, com pitadas de aventura, ficção científica e terror — um sabor suave de Pulp, que pode ser facilmente transportada inteiramente para dentro desse gênero. 

The House of Memphis 

O mágico mundialmente famoso Memphis, o Grande, não é visto há semanas. Ele simplesmente partiu para outra de suas lendárias viagens de caça à magia, ou há uma razão mais sinistra para seu desaparecimento? 

A segunda aventura inédita, e assim como a anterior, bebe um pouco do Pulp das histórias pós-Lovecraft, mas sem exageros da ficção do gênero — os Mitos de Cthulhu sendo usado como banalidade na vida mundana e acarretando consequências por isso. 

The Nineteenth Hole

O trabalho de restauração no Thistledown Golf Club não foi executado de forma adequada. Primeiro, havia histórias de doenças, depois avistamentos fantasmagóricos, e agora ninguém consegue encontrar o dono. A escuridão cai sobre a Escócia e nem tudo é o que parece. 

O terceiro dos novos cenários e talvez o que mais bebe do Pulp. Ficção, física e esoterismo criam o clima de terror clássico dessa aventura, que traz revelações nos Mitos de Cthulhu para surpreender os Investigadores. 

O livro finaliza com um capítulo reunindo todos os handouts e mapas das aventuras e um índice. 

É um livro completo no que ele se propõe: aventuras rápidas para jogadores e guardiões novos ou experientes. Para alguns que gostam de elementos mais Lovecraftianos ou Pulp em seus jogos, alguns ajustes farão você alcançar o que deseja — os cenários são um meio termo entre um e outro (os três últimos em especial). 

A dúvida que não quer calar é: eles farão apenas mais um livro (Volume 2) contendo as quatro aventuras presentes na edição de 2007 com mais uma ou duas aventuras inéditas? Ou teremos três volumes, cada um deles contendo cinco aventuras? 

Estamos no aguardo.


segunda-feira, 8 de junho de 2020

Amityville - A incrível história da mais famosa casa assombrada


Certos casos extraordinários envolvendo assombrações conseguem ao longo dos anos se transformar em algo mais, ganhando proporções que vão muito além do folclore local, tornando-se lendas alimentadas pelas pessoas que as compartilham. Os rumores e narrativas as nutrem com uma espécie de vida própria até se tornarem icônicas.

É possível que nenhuma outra assombração tenha atingido um grau tão elevado de popularidade quanto o Horror de Amytiville, uma macabra história envolvendo fantasmas e demônios reunidos sob um mesmo teto amaldiçoado. A controvérsia, o debate e as opiniões que ela suscitou nesses últimos 40 anos ainda reverberam e são tema de discussão em todo o mundo.

Como muitas outras histórias assustadoras, esta fábula medonha se inicia com um brutal assassinato. A Família Defeo era bem conhecida e respeitada na pequena comunidade de Amityville, no interior do Estado de Nova York. Os membros da família viviam na confortável casa localizada no número 112 da Ocean Drive e tudo indicava que eram pessoas felizes. Compartilhavam o mesmo lar os pais Ronald e Louise Defeo e seus cinco filhos. Os vizinhos os conheciam bem e para todos eles pareciam a típica família vivendo o sonho americano. Mas como diz o ditado, as aparências podem enganar, e de fato, haviam nuvens escuras pairando sobre a aparentemente pacífica família.

A noite de 13 de novembro de 1974, começou como qualquer outra na vizinhança, mas aproximadamente às 3 da manhã a tranquilidade foi rompida pelo som de sirenes de polícia e ambulâncias. Os veículos cruzavam as ruas desertas e paravam bruscamente diante da casa dos Defeo. A cena que aguardava policiais e enfermeiros naquela casa era digna de pesadelos. Lá, com a face afundada em travesseiros, estavam seis membros da família Defeo, cada um deles alvejado por devastadores disparos de espingarda dados à queima roupa. O filho mais velho, Ronald Defeo Jr foi preso e acusado de provocar o massacre. Ele tentou de início culpar um executor à mando da mafia pela chacina de seus pais, irmãos e irmãs, mas as evidências foram claras de que ele tivera participação direta na tragédia. A arma do crime foi achada e ele então admitiu sua culpa.

Ronald Jr culparia então seus pais, alegando que teria agido em legítima defesa contra os pais em face dos abusos que sofria desde criança. Não ajudava muito na sua versão do ocorrido que ele tivesse um perfil antisocial marcado pelo uso de drogas pesadas. Parentes próximos relataram que pai e filho tinham brigas frequentes. Após uma tentativa de alegar insanidade, Ronald Jr foi sentenciado a 25 anos de prisão para cada um dos homicídios cometidos. Ele sequer tentou recorrer.


Haviam no entanto muitos mistérios a respeito do crime. Embora a espingarda usada em cada uma das mortes fosse extremamente barulhenta, os vizinhos não ouviram nenhum som de disparos, apenas os latidos do cachorro que pertencia aos Defeo. De fato, a polícia apenas chegou ao local do crime mediante um telefonema feito pelo próprio assassino, Ronald Jr, que avisou sobre as mortes simulando que havia se escondido e assim escapado do massacre. Também havia o bizarro detalhe de que os membros da família haviam sido mortos enquanto dormiam, mesmo que os estampidos fossem altos o bastante para acordar a todos depois do primeiro disparo ser feito. Finalmente era estranho que os corpos tivessem sido encontrados de bruços em suas camas, enquanto o assassino sustentava não ter mexido neles. Considerando que Defeo constantemente mudava a sua versão dos acontecimentos e que se mostrava pouco cooperativo durante os interrogatórios, detalhes do crime permaneceram sem explicação.

A despeito do horrendo massacre ocorrido no 112 da Ocean Drive, a casa voltou a ser anunciada para o mercado 1975. Ela foi comprada por George e Kathleen Lutz, que se mudaram para o lugar com suas três crianças. Embora a construção fosse uma bela casa em estilo holandês com um ótimo preço, a venda não foi fácil, como seria de se esperar. Longe de esconder os detalhes sobre o que havia acontecido na casa e os motivos para ela estar anunciada com um valor tão baixo a imobiliária expôs toda a situação aos possíveis compradores. Os Lutz sabiam dos detalhes e mesmo assim viram na compra uma excelente oportunidade. O casal decidiu não contar às crianças a verdade e pediu que um padre fizesse uma benção antes deles se mudarem em caráter definitivo. Para todos os efeitos, era a casa dos seus sonhos, uma que eles em circunstâncias normais jamais teriam a chance de comprar. Entretanto, o sonho estava prestes a se transformar em um pesadelo.

As coisas estranhas começaram a acontecer imediatamente tão logo a família concluiu sua mudança. Começou como em geral acontece, com pequenas coisas, como sons misteriosos no porão ou em aposentos vazios. Os ruídos iam de estranhos assovios, passando por batidas e finalmente passos. As crianças reclamavam do constante som de arranhões do lado de fora da janela, como se pássaros tivessem feito ninho do telhado. Em casos mais extremos batidas violentas e uma estranha cacofonia de sons, como pessoas falando ao mesmo tempo podia ser ouvida no andar de cima, onde não havia ninguém. Convidados que visitaram a casa também descreveram esses fenômenos perturbadores, para alívio dos Lutz, que temiam estar enlouquecendo. George Lutz contou a respeito desse início:

 "Eu não queria deixar a casa. Depois da mudança, havíamos empenhado quase tudo na reforma e nossa conta no banco estava quase zerada. Mas ao mesmo tempo, era impossível negar que algo estranho estava acontecendo. Nós convidávamos pessoas para ouvir pessoalmente os ruídos e assim não nos sentíamos tão mal. Por vezes, quando estávamos na sala ou na cozinha, ouvíamos os ruídos vindo dos quartos, onde não havia ninguém. De madrugada, quando estávamos deitados era possível ouvir o som de alguém caminhando nas escadas ou remexendo nas gavetas da cozinha. Nós tentávamos correr para ver se conseguíamos flagrar alguém, mas os aposentos estavam sempre vazios, ainda que por vezes parecessem ter sido revirados às pressas. Nós precisávamos de alguém que nos dissesse que não estávamos imaginando aquelas coisas e que não era nossa imaginação". 


Mas havia muitos outros fenômenos. Os moradores sentiam vários lugares gélidos na casa. Algumas vezes aposentos ficavam tão frios que eles eram obrigados a acender as lareiras mesmo no auge do verão. Ironicamente haviam pontos que misteriosamente ficavam extremamente abafados ao ponto das pessoas se sentirem desconfortáveis. Além disso, as luzes costumavam piscar, objetos se moviam e inexplicáveis odores sem uma origem definida podiam ser sentidos. O cheiro de perfume e de comida recém preparada, além de carne podre e excremento eram os mais frequentes. Acima de tudo, havia uma sensação palpável de angústia que pesava sobre a casa. A medida que a família tentava lidar com a situação a atividade paranormal foi se intensificando.

Portas e janelas batiam sem parar abrindo e fechando espontaneamente, quadros caíam das paredes enquanto espelhos trincavam e pratos rachavam. Era como se forças invisíveis estivessem sempre em ação, atirando coisas de um lado para o outro. Em seguida veio a sensação de que algo encostava ou empurrava os moradores da casa. Kathleen descreveu que certa vez sentiu um abraço em volta de seu corpo, como se alguém estivesse deitado na cama com ela. As crianças começaram a apresentar marcas de arranhões, contusões e até mesmo mordidas. As meninas tinham ferimentos arroxeados de dedos nos braços e pernas, como se alguém as tivesse agarrado com força. Em uma ocasião, George ouviu as crianças gritando em desespero e correu para acudi-las. Ao chegar ao quarto encontrou as camas no chão como se alguém as tivesse arrebentado. Houve vários incidentes em que Kathleen e as crianças chegaram a ser erguidas no ar e lançadas contra a parede ou de encontro a móveis.

Finalmente, tiveram início as aparições na casa: uma gosma esverdeada que escorria pelas paredes, nuvens de moscas que apareciam do nada e causavam verdadeiro horror nas crianças, baratas e gafanhotos enormes. Por algum tempo, incidentes muito estranhos aconteceram, como a ocasião em que George e Kathleen viram a face de uma criatura diabólica aparecer no fogo da lareira e em outra quando George despertou e descobriu que estava deitado ao lado de uma mulher estranha: "uma velha de cabelo branco desgrenhado, com um rosto enrugado e fios de baba escorrendo da boca". Além disso, George também passou a sofrer de sonambulismo, acordando toda noite por volta das 3 da manhã, o horário exato em que os crimes da Família Defeo haviam acontecido. 


Entre os muitos incidentes bizarros descritos pela Família Lutz, um dos mais estranhos ocorreu quando as crianças começaram a se comportar de maneira atípica. A filha mais nova, Missy passava muito tempo sozinha e adquiriu o hábito de falar e até cantar para um amigo imaginário que ela chamava de "Jodie". Ao descrever essa amiga, ela dizia se tratar de uma porquinha de olhos grandes e expressivos que ficava visível apenas quando desejava. A principio os pais assumiriam que não havia nada de mais nisso, e que seria apenas a fértil imaginação dela em ação. Mas certa vez, George estranhou que a filha estivesse muito quieta e entrou no quarto para verificar, se deparando com algo escondido num canto, algo parecido com um porco, dotado de olhos quase humanos. Ao se assustar com a coisa, George puxou a filha de lado e "Jodie" imediatamente investiu contra ele. George conseguiu sair do quarto carregando a filha e batendo a porta. atrás de si Os sons de grunhidos do "animal" foram ouvidos em toda casa pelo restante da família e quando pararam George e Kathleen foram até o quarto investigar. Supostamente encontraram o aposento arruinado e inúmeros rastros deixados por algo com pegadas semelhantes às de um porco.   

Ao longo de toda permanência da família na casa ocorreram outros pequenos fenômenos. George encontrou um quarto secreto no porão todo pintado de vermelho que lhe causou uma terrível sensação de desespero. O aposento não estava na planta da casa e aparentemente havia sido incluído depois da construção. De dentro desse quarto misterioso vinha um fedor nauseante que contaminava toda casa com um fedor que lembrava um abatedouro.

Além desses fenômenos inquietantes, os membros da família se viram de uma hora para outra afetados emocionalmente pela aura maligna da casa. As crianças se tornaram agressivas, Kathleen sofria crises nervosas e tinha episódicos de pânico paralisante, já George dizia que ao se olhar no espalho parecia cada vez mais diferente. Ele começou então a sofrer de pesadelos nos quais matava e sacrificava animais com uma espingarda. Kathleen também experimentava alucinações com os crimes cometidos na casa, chegando ao ponto de sonhar com o massacre dos Defeo, quase como se estivesse testemunhando os acontecimentos em primeira pessoa. 

Era como se a mente de cada membro da Família estivesse sendo de alguma forma invadida por uma memória que não lhes pertencia. No auge do terror, a Família resolveu entrar em contato com o Padre Ray Pecoraro que havia presidido a benção inicial na casa. O sacerdote aceitou retornar e repetir o processo, mas supostamente a experiência o deixou aterrorizado.

Quando Pecararo tentou abençoar a sala de estar foi empurrado por uma força invisível e um sonoro grito se fez ouvir. Suas mãos desenvolveram estranhas bolhas, e sempre que ele fazia o sinal da cruz portas e janelas batiam e a casa era sacudida por um tremor. O religioso entregou aos membros da família crucifixos que deveriam ser usados com proteção, mas cada vez que faziam uso dos amuletos para afastar o mal eram confrontados com objetos voando e vozes furiosas surgidas do nada. Sem saber o que fazer, os Lutz concluíram que não iriam suportar aquela situação por muito tempo e decidiram se mudar. Em 14 de janeiro de 1976, a família decidiu deixar a residência. Naquela mesma noite uma cacofonia de gritos e um turbilhão de fenômenos paranormais eclodiu com tamanha força que a Família achou melhor antecipar seus planos e partir o quanto antes: "Parecia uma espécie de comemoração ou uma horrível demonstração de ódio para conosco".      


Pouco depois da Família Lutz se mudar, a Casa se tornou o foco do famoso casal de investigadores paranormais Ed e Lorraine Warren, que deram início a uma complexa exploração da casa na companhia do repórter Marvin Scott e uma equipe de médiuns. George e Kathleen Lutz ofereceram sua assistência, embora os dois compreensivamente se recusassem a colocar os pés na propriedade novamente. Assim que os Warren chegaram eles foram saudados pela força acachapante que dominava o lugar. Além de um esmagador sentimento de tristeza e depressão que permeava cada espaço, as coisas se tornaram especialmente perigosas quando Ed desceu até o porão. Lá ele afirmou ter sido fisicamente empurrado escada abaixo por uma presença inumana. Ele descreveu o ataque nos seguintes termos:
"Era como ser atingido por uma cachoeira. E a pressão foi me empurrando para baixo até o chão. Eu chamei pelo nome de Jesus Cristo e ordenei que a coisa revelasse sua identidade... eu compreendi nesse momento que não estava lidando com um fantasma. Aquela não era uma casa comum, com uma presença que um dia tivesse sido humana".

A investigação em Amityville foi especialmente complicada, marcada por visões dos assassinatos ocorridos no lugar, bem como alucinações de Lorraine que via os corpos, bem como uma "presença diabólica", que por vezes a confrontava fisicamente. Outros membros do time experimentaram fenômenos inexplicáveis também, como um cameramen que foi atormentado por palpitações e falta de ar ao descer uma escadaria. No segundo andar, um dos mediums foi paralisado por um frio indescritível. Lorraine Warren descreveu as entidades na casa como de natureza demoníaca ao invés de fantasmas de seres humanos. Ela comentou sobre as entidades dizendo:

"Seja lá o que fosse, na minha estimativa, era algo negativo. Não tinha nada a ver com pessoas que viveram na casa ou que um dia andaram na Terra na forma humana. Era algo vindo das profundezas. Seja o que for, estava lá, e era capaz de se mover. Ela não precisava ficar na casa, mas aquele era o seu covil, seu esconderijo".


Aparições foram vistas pela equipe também, e em certa ocasião eles foram capazes de fotografar a forma espectral do que se acredita ser uma das crianças Defeo assassinadas no segundo andar. Após pesquisar a história da casa e da propriedade em si, os investigadores descobriram que ela pertenceu ao feiticeiro John Ketchum, e que muito antes, a área era usada pelos nativos da tribo Shinicock como um lugar para onde eram exilados os loucos e enfermos. 

À despeito de toda essa investigação e do grande número de testemunhas, a história só começou a atrair a atenção da opinião pública quando o autor Jay Anson publicou o livro intitulado "The Amityville Horror: A True Story" (O Horror de Amityville: Uma história real) no ano de 1977. Não demorou muito até o livro se tornar uma sensação e ganhar o topo das listas dos mais vendidos. Com base nesse primeiro trabalho, a casa recebeu atenção internacional com artigos, romances e estudos, além, é claro, uma adaptação para o cinema chamada "The Amityville Horror" em 1979 que teve várias sequências. A Casa Assombrada é uma das mais conhecidas e um dos  das mais estudadas e documentadas.

Contudo, apesar de toda fama, a casa sempre foi objeto de muito ceticismo.

Um dos principais problemas com sua espetacular história é que as narrativas variam enormemente. Os detalhes mudam dependendo de quem conta, com linhas de cronologia se confundindo à todo momento, discrepâncias gritantes surgindo e descrições que não se sustentam quando examinadas de maneira mais cuidadosa. Muitos dos elementos não podem ser confirmados ou corroborados, como por exemplo o envolvimento do Padre Pecoraro, que dependendo da versão contada é tratado como testemunha e meramente um contato em outros. O Padre sempre se mostrou muito evasivo quanto a sua participação nos acontecimentos, dando poucas informações, permanecendo em silêncio a respeito do assunto. Há também a questão de que se produziu poucas evidências físicas dos acontecimentos. As histórias coletadas sequer se sustentam em alguns pontos, com representantes de tribos nativas negando que a área tenha sido usada no passado para banir indesejados. Até mesmo o envolvimento dos Warrens, que foram considerados farsantes por algum tempo é colocado em dúvida. Segundo algumas fontes a participação deles na "exploração" da casa teria se limitado a uma ou duas visitas de poucas horas, período no qual nada sobrenatural teria ocorrido.


Talvez a evidência mais danos de todas seja algo que o próprio autor sugeriu no livro, de que ao menos parcialmente a história tenha sido inventada, embora ele sempre tenha se mostrado crente a respeito dela. Anson em uma entrevista para a revista People disse: "Eu sou um escritor profissional e não acredito em todos os elementos descritos no livro. Eu deixo no entanto para o leitor decidir por conta própria". Ele jamais admitiu ter publicado trechos com conhecimento de que eram falsos, mas também não negou que algumas partes da história careciam de maiores provas. O advogado de Ronald Defeo Jr veio à público dizer que toda a história era fabricada com ajuda da Família Lutz. De fato, os únicos personagens da história que sustentaram do início ao fim a certeza nos incidentes foram os próprios Lutz, que sempre foram claros na exposição dos fatos. Kathleen Lutz comentou a respeito da controvérsia:

"Algumas pessoas chamaram nosso testemunho a respeito de Amityville uma invenção. Não há nada que eu possa dizer a eles... não há nada que eu possa mostrar que prove o que vimos e experimentamos. Mas é a verdade. Nosso testemunho é real. Não há como essas pessoas julgarem o que vimos, sem ter estado lá, ou sem terem sido tocados por aquilo... eles não tem o direito de nos julgar".

George Lutz também defendeu os eventos descritos por ele no livro e negou qualquer forma de truque ou invenção, se mostrando surpreso com a quantidade de pessoas dispostas a criticar sua narrativa. 

"A história é real, eu e minha família vivemos aquilo... é fácil para alguns chamar de fraude. Quisera Deus, fosse uma invenção da nossa parte. Mas não é! Eu não desejo a ninguém experimentar aquele horror e sofrer por conta das pessoas não acreditarem nas suas palavras. Uma das piores coisas é justamente isso: não ser capaz de provar o que viu e enfrentar os olhares de reprovação das pessoas que o consideram um farsante".

Embora o caso da Assombração de Amityville seja acusado por muitos de ser uma fraude fabricada, ele ainda é muito debatido e discutido e talvez continue sendo por décadas adiante. Trata-se de uma verdadeira peça do folclore e se estabeleceu em nosso inconsciente coletivo de tal maneira que o termo Amityville virou sinônimo de assombração. Parece que não importa quanto ceticismo e crítica é direcionado para o caso, ele continuará sendo um evento de proporções espetaculares no reino do paranormal.