sábado, 13 de novembro de 2021

Explorando os Mythos mais Obscuros - Umr At-Tawil, o Prolongador da Vida


Além dos limites do tempo-espaço e dos grilhões do fluxo do continuum que dá ordem ao Cosmos existe um lugar dissonante de todo resto. Os estudiosos do Mythos se dividem à respeito de sua natureza, e mesmo à respeito de sua existência de fato. Ninguém é capaz de afirmar com certeza absoluta que tal lugar, onde o tempo se dissolve e deixa de existir, realmente pode ser compreendido como um espaço real ou mera abstração metafísica.

Ele seria o único lugar do Universo que Yog-Sothoth o Deus Exterior hierarquicamente abaixo apenas de Azathoth, seria incapaz de acessar. Acredita-se que se por desventura a deidade puder ver o que existe lá dentro, ele e todo o Cosmos seriam devastados. É por isso que alguns supõem que os mais bem preservados segredos do Universo estão lá dentro. O mistério por trás da criação do universo e da cegueira de Azathoth, a forma de restaurar sua consciência perdida, a natureza definitiva do Mythos, a transcendência completa para a divindade... seja lá o que for, esse lugar sem nome, que alguns chamam tolamente de "Além do Além" seria o depositário de todos mistérios, o cofre onde os maiores enigmas estão guardados.

Segundo os teóricos existe apenas um caminho que permite acesso a esse lugar, um espaço intermediário lendário conhecido em círculos herméticos como o Portão Final ou ainda o Portão Definitivo. Não há indicações de como chegar até ele, mas supõe-se que um artefato lemuriano, a Chave de Prata, possa ter ligação com esse mito. A Chave, aliás, seria o meio de remover o ferrolho que mantém o Portão Definitivo lacrado. Para alguns, a única maneira de destrancar esse portão e conseguir avançar através dele.

Mas tal façanha não se resume apenas a girar uma chave e abrir uma porta trancada.


O Portão Final é protegido por um Guardião que atende pelo nome de 'Umr At-Tawil (ou Tawil at-´Umr ou ainda Tawil Al-´Umr) uma divindade obscura cujo nome traduzido do árabe seria algo como "O Prolongador da Vida". Esse Ser seria o líder dos Mais Antigos, um emérito conselho formado por indivíduos que buscaram o Portão e que talvez tenham tido um vislumbre do que existe além dele, embora o próprio líder deles jamais o tenha feito. Por essa razão, muitos supõem, provavelmente corretamente que 'Umr At-Tawil é um Avatar ou Manifestação de Yog-Sothoth. Se isso é verdade, ninguém melhor que Ele ("aquele que tudo sabe") poderia proteger os grandes segredos universais.

A função de 'Umr At-Tawil é zelar pelo Portão Final e manter aqueles que não são dignos dele afastados. O critério de que a entidade se vale para separar os indesejados diz respeito apenas a ele mesmo, mas sua avaliação parece ser insondável e imponderável para nossa percepção. Alguns feiticeiros de enorme poder, entre estes o próprio feiticeiro Eibon, teriam sido reprovados, enquanto outros, que não dispõem de igual arcabouço, foram aceitos além dos umbrais. Aqueles que se apresentam diante do Guardião são sujeitos a seu escrutínio, algo aterrorizante se pensarmos que tal coisa envolve ser avaliado por um Deus. Não por acaso, o Livro de Thoth afirma que lidar com a entidade é algo repleto de perigo e potencialmente sem um retorno garantido.

Já se discutiu ainda se 'Umr At-Tawil não seria um ser, mas a personificação das próprias limitações que o pleiteante aos segredos deve superar para obter o verdadeiro conhecimento. Quando tais limites não são vencidos o resultado pode ser a obliteração completa do indivíduo. Outros dizem que o Guardião pode oferecer dádivas a quem pede acesso ao Portão Final como forma de compensação, tentando aqueles que duvidam de suas próprias capacidades. Talvez o nome "Prolongador da Vida" se deva a algo que o Deus pode oferecer aos pleiteantes.


A morada de 'Umr At-Tawil se assemelha a um antigo templo helênico, com grandes colunas dóricas e piso de mármore branco imaculado lavado por um brilho alvo e puro. Na grande câmara preenchida por uma névoa estática, há apenas dois marcos perceptíveis. O primeiro deles é uma grande e pesada porta dupla metálica cor de prata. Este pórtico, com duas vezes a altura de um homem adulto, possui entalhes com símbolos arcanos cuja origem e significado escapam a compreensão. A porta possui uma fechadura, mas não uma maçaneta. A porta está sempre fechada e só pode ser aberta mediante o uso da chave adequada. O outro elemento presente na sala corresponde a nove pedestais hexagonais de pedra, sobre o qual se encontram figuras imóveis que num primeiro vislumbre parecem estátuas. Uma observação mais cuidadosa, entretanto, revela que as figuras estão vivas. Elas parecem formas humanas vestindo mantos pálidos e diáfanos que ocultam sua forma. As bases estão dispostas lado a lado, a do centro dividindo quatro à direita e quatro à esquerda. Esse pedestal central é ocupado por 'Umr At-Tawil, o líder dos Mais Antigos e o único dentre eles que possui nome. Os demais geralmente se mantém imóveis no topo dos pedestais como estatuário numa galeria de museu.

'Umr At-Tawil é sempre o primeiro a se mover e saudar o visitante que adentra o recinto basilical. Ele se comunica com os recém chegados através de telepatia e supostamente conhece todos idiomas um dia falados. A voz do avatar ressoa na mente das pessoas como um címbalo metálico. Quando carece de se mover, a forma envolta em manto drapejado, levita do pedestal lentamente sem jamais tocar o chão. 

É impossível ver a forma exata da entidade já que o manto ou mortalha o cobre por completo deixando apenas a sugestão de uma silhueta humana. O capuz sobre a posição da cabeça não deixa à vista nenhum detalhe de sua fisionomia. Não há brechas para olhos, nariz ou boca na trama do tecido que lhe cai sobre a face como uma máscara. As mãos e pés tampouco são aparentes e é difícil discernir se eles realmente existem. 'Umr At-Tawil provavelmente é dotado de corpo e substância, embora o conjunto pareça translúcido algumas vezes, como um espectro fantasmagórico. Nenhuma arma, força ou energia natural conhecida é capaz de afetar o Deus. Magias ou artefatos particularmente poderosos, podem surtir algum efeito contra ele.


A entidade atua como uma espécie de Guia para o Portão, questionando as intenções e razões do visitante. Se ele julgar que as respostas à suas perguntas são satisfatórias ele permitirá que o indivíduo avance através do portão, se não, o mandará embora. No entanto, se um visitante se mostrar recalcitrante, 'Umr At-Tawil empregará as magias necessárias para resolver a querela. De fato, ele domina todas magias e se vale delas para banir ou destruir quem o desagrada. A deidade é capaz ainda de transportar uma pessoa com um simples pensamento, lançando-a no frio do espaço exterior, nas profundezas insondáveis do oceano ou no coração de um Sol para que ela seja totalmente desintegrada. Ele não se vale de qualquer ação física e jamais expressa qualquer traço emocional ao lidar com seres inferiores. Mesmo quando levado a destruir alguém que o desagrada, o Avatar não demonstra fazê-lo movido por ressentimento, e sim por um pragmatismo totalmente impessoal.

O propósito de Umr At-Tawil é motivo de grande debate entre os círculos de metafísicos dedicados ao Mythos. Muitos acreditam que um Deus de tal envergadura não poderia ficar restrito ao papel de simples Guardião, ainda que, aquilo que ele protege seja de importância vital. Existem teorias de que sua função cósmica seria muito maior, envolvendo entre outras coisas registrar o surgimento de novas entidades dotadas de centelha cósmica. Ainda que 'Umr At-Tawil não aparente ser uma Entidade com a notável indiferença dos Deuses Exteriores, aceitando inclusive ouvir e dialogar com seres inferiores, ele está muito distante de ser um Deus benigno como alguns defenderam no passado. 

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Sob as Águas Escuras - A Serpente Marinha de Gloucester


Os mares de nosso planeta são tão vastos, quanto insondáveis em seus segredos. Ninguém pode realmente dizer o que existe nas profundezas. O fato é que quase tudo que imaginamos à respeito dele pode estar errado e o que refutamos como absurdo, pode, no final das contas, se provar verdade.

As lendas mais antigas à respeito de nossos oceanos envolvem o que habita essas águas misteriosas. Que tipo de criaturas permanecem escondidas, desafiando nosso senso de normalidade e capacidade de acreditar? Diz o ditado que "ver é acreditar", mas será que tantas pessoas veem coisas inexplicáveis ou simplesmente as imaginam? 

Dentre todos os tipos de monstros, as Serpentes Marinhas estão entre as criaturas fantásticas mais famosas dos sete mares. Foram tantos os avistamentos ao longo da história, e em tantos lugares diferentes que por vezes é difícil aceitar que todos esses casos não passam de enganos e da mera imaginação dos envolvidos. Ainda que 99,9% desses avistamentos possam muito bem não passar de enganos, sempre resta aquele 0,1% que desafia a razão e nos faz perguntar: "E se?

Na maioria das vezes, os encontros com Serpentes Marinhas se resumem a incidentes fugazes e únicos. Uma testemunha solitária, um grupo de pescadores, um bando de marinheiros ou ainda, turistas em férias num navio de luxo, ficam sem saber o que pensar diante da visão de uma forma sinuosa rompendo a superfície da água e nadando sem que ninguém consiga explicar do que se trata.

Contudo, esse tipo de avistamento não constitui uma regra. 

Um dos mais estranhos casos de Serpente Marinha registrado na história assombrou o Porto de Gloucester, Massachusetts, que está situado ao norte da cidade de Boston. Vem de lá algumas das narrativas mais bizarras e peculiares à respeito de um animal de corpo alongado habitando as profundezas oceânicas. 


Até onde pode ser determinado, o relato mais antigo sobre a Serpente Marinha de Gloucester data de 1638. A testemunha foi um homem chamado John Josselyn, que escreveu o seguinte trecho em uma carta enviada posteriormente a um amigo: 

"Em Gloucester, os pescadores e homens do mar conhecem a lenda de uma serpente marinha, ou cobra gigante, que habita a costa de Cape Ann. os índios também sabem a respeito dela e a temem. Quando eu estava à bordo de um barco na companhia de colonos e de dois nativos, avistamos a criatura e alguns homens à bordo se apressaram para pegar seus mosquetes afim de atirar na serpente. Os índios imediatamente intercederam para impedi-los. Disseram que se a criatura fosse apenas ferida, todos estariam em perigo, pois ela avançaria contra eles e não pararia por nada, até afundar o barco e matar todos à bordo".

Os nativos contaram que a criatura era uma fera conhecida por eles, um monstro marinho que fazia das cavernas submarinas seu covil. Ele costumava vir à superfície de tempos em tempos, geralmente quando sentia fome. A criatura caçava em águas rasas, se aproximando furtivamente por baixo da água até chegar perto o bastante para executar o bote mortal. Ao apanhar a presa, ela a leva para o fundo, fazendo com que esta se afogue. A seguir, carregava o corpo para seu esconderijo inundado para devorá-la ao longo de semanas. Seu covil, por isso, era coalhado de ossos e restos de vítimas em decomposição. 

Um ano depois, outro colono chamado Obadiah Turner escreveu sobre a poderosa besta: 

"Alguns estavam em uma grande baía observando as embarcações pesqueiras fazendo seu trabalho honesto, quando perceberam uma forma escura sob a superfície. Espiaram uma serpente de dimensões prodigiosas nadando velozmente. Seu corpo era grande e arredondado como um cachimbo e tinha mais de quinze braças de comprimento. O monstro nadava perto do Cabo Ann e fazia daquela área de águas calmas e rasas seu lugar de caça. As pessoas já haviam ouvido falar do animal, mas quando o viram tiveram um grande choque e gritaram para os pescadores em alerta, implorando que eles voltassem o quanto antes pois onde estavam não era seguro".


As razões para a preocupação com a segurança dos pescadores eram legítimas, ou assim diziam, uma vez que a Serpente Marinha teria atacado um grupo de pescadores que estava à bordo de um bote à remos poucos meses antes. A pequena embarcação foi virada e seus três tripulantes atirados na água gelada. Embora capazes de nadar e que ali fosse raso, um dos homens foi puxado pela fera e desapareceu sem deixar rastro. 

A mesma criatura foi vista alguns meses antes espreitando próximo da praia. Na ocasião, as testemunhas de sua passagem a descreveram como uma enorme serpente com escamas de um tom azul prateado, cabeça grande e feia, olhos amarelados vítreos e presas afiladas na grande boca rasgada. A coisa, segundo alguns media pelo menos 15 metros, mas outros afirmavam que ela não passava dos cinco. Era rápida, se movia com facilidade pela água, mas não se acanhava de penetrar alguns metros em terra, sendo ágil o bastante para saltar em um bote para agarrar sua infeliz presa. Não havia consenso sobre ela ser venenosa ou não, mas alguns diziam que a criatura havia matado um cão injetando nele um veneno que o fez inchar e morrer em poucos minutos.

A única certeza é que ela vivia em um complexo de cavernas que a maré se encarregava de inundar à noite. Segundo os rumores, a Serpente foi vista repetidas vezes ao longo de 1639 e 1641, até que acabou sendo abatida por um caçador chamado John Mathias que a abateu com a ajuda de três nativos armados com lanças e machadinhas. A fera foi atraída para a praia com uma isca irresistível, uma cabra cuja garganta foi cortada afim de espalhar o cheiro convidativo de sangue fresco. Quando a fera saiu da água o caçador e seus assistentes a cercaram, o que permitiu a ele efetuar três disparos, sendo que o último a acertou em cheio na cabeça. A fera foi apresentada para a população aliviada por ela ter sido eliminada pelo corajoso caçador. Os registros da comarca atestam que a Serpente Marinha media 5,2 metros de comprimento, tinha dentes finos semelhantes a espinhos e atitude agressiva. Após ser abatida, a carcaça teria ficado em exposição na taverna local, ao menos até ser descartada quando apodreceu.         
Mas esse não foi o final da história sobre a Serpente Marinha de Gloucester, pois em 1817, foi feito um novo relato notável à respeito de um monstro habitando as águas cinzentas da baía. A criatura foi avistada pelo Sr. Amos Story, um comerciante respeitado da cidade e o tipo de pessoa que não inventaria uma história desse tipo: 

"Era cedo da manhã quando a avistei evoluindo na água aparecendo e mergulhando sucessivas vezes. Eu estava sentado na praia e me aproximei da linha das ondas para ver melhor o que era aquela coisa estranha. De repente, ela saiu da água e avançou na minha direção. Sua cabeça era muito parecida com a de uma tartaruga marinha, e ela se lançou da água violentamente. Tinha um corpo sinuoso e alongado, muito ágil e musculoso. Da parte de trás de sua cabeça até o final da cauda devia medir algo entre dez e doze metros, talvez mais. Ele se moveu muito rapidamente pela água, mas na terra era menos ligeira, se limitando a botes, o que me permitiu escapar. Frustrada em seus planos de me capturar, ela retornou para a água onde desapareceu".


O relato da história foi rapidamente seguido pelo de Solomon Allen III, Capitão do Provo, navio mercante que singrava a Baía de Gloucester. Allen foi chamado por seu imediato para ver a criatura estranha que havia surgido na rota da embarcação. O capitão descreveu o animal nos seguintes termos:

"Sua cabeça se assemelhava em forma a de uma cascavel, feia e peçonhenta, mas quase tão grande quanto a cabeça de um cavalo. Era enorme, com um corpo longilíneo similar a uma moreia.  Quando surgia na linha da superfície, rompendo a linha d'água, seu movimento era lento, às vezes brincando em círculos, e às vezes movendo-se em linha reta. Era diferente de qualquer animal que eu já tenha visto em 20 anos de serviço no mar. Parecia uma serpente, mas nunca soube de um réptil desse porte nadando em mar aberto. Não quis me aproximar e o animal também manteve uma distância constante de 20 braças. Durante todo o tempo que nos seguiu, o que deve ter durado uns bons 10 minutos, ela foi vista por vários homens". 

Na viagem de volta para Gloucester na semana seguinte, a tripulação do Provo relatou ter visto a Serpente Marinha uma vez mais, rompendo a linha d'água em duas ocasiões como se tivesse reconhecido os marinheiros acotovelados no costado. Foram eles que apelidaram a Serpente Marinha de Gloucester de Fiona e espalharam a história assim que desembarcaram no porto.

Poucos dias mais tarde um relato particularmente detalhado foi feito por Cheever Felch, um naturalista de Boston que estava viajando à bordo da escuna Science. Felch havia ouvido falar da Serpente Marinha e rumou para Gloucester interessado em ver a criatura que já havia se tornado uma lenda local. Felch sequer acreditar na própria sorte; na segunda viagem pela Baia de Gloucester, um marinheiro chamou sua atenção para a estranha criatura que aparecia cerca de 30 metros da escuna. 

A descrição do naturalista de longe era a mais acurada e técnica: 

"Sua cor é castanha escura com branco sob a garganta nas escamas. Seu tamanho não pudemos determinar com precisão, mas sua cabeça tem cerca de um metro de circunferência, plana e grande em relação ao corpo. Não vimos sua cauda; mas da ponta da cabeça até a protuberância mais distante não estava longe de ter trinta metros. Falo com certo grau de certeza, pois estou habituado a medir e estimar distâncias e comprimentos. Contei quatorze corcovas em suas costas, a primeira a três metros de sua cabeça e as demais em intervalos de dois metros. Estes diminuíam de tamanho em direção a parte posterior. O movimento era parcialmente vertical e parcialmente horizontal, como o das cobras de água doce. Conheci muitas cobras que vivem em nossos rios e posso afirmar que seu movimento era o mesmo."


A Serpente Fiona foi vista ao longo de todo o ano de 1817, em pelo menos uma dúzia de ocasiões diferentes. As testemunhas de seu aparecimento incluíam indivíduos de todas as classes sociais desde capitães e marinheiros, a viajantes ocasionais à caminho do Novo Mundo. O Porto de Gloucester se tornou famoso por algum tempo, o epicentro de várias histórias sobre monstros marinhos. Nas docas, não se falava de outro assunto e uma das mais famosas Tavernas da Zona Portuária mudou seu nome de Breeze of Gloucester para "Fiona, Serpente de Gloucester" para acompanhar o interesse despertado.

Mas as aparições se tornaram mais escassas no ano seguinte, sendo que o último registro de avistamento data de setembro de 1818. Na ocasião, um navio de passageiros vindo das Antilhas cruzou bem perto da criatura que os saudou com saltos e evoluções. Embora tenha havido avistamentos esporádicos de serpentes marinhas nas águas de Gloucester ao longo dos anos, nenhuma delas - em termos de frequência, número de testemunhas e credibilidade - chegou perto de se igualar àqueles dias tumultuados do início do século XIX, quando a população afirmava categoricamente que Gloucester era o lar de uma Serpente Marinha.

O último surto de avistamentos data de 1927, quando uma Serpente Marinha medindo incríveis 50 metros de comprimento teria sido vista pela tripulação do Stingray, um navio de guerra da Marinha em rota para Cuba. O evento reacendeu o interesse pela história, mas este teve curta duração.

Com tantos avistamentos e narrativas, será possível que todas as pessoas que afirmavam ter visto a Serpente Marinha estivessem inventando ou que tivessem se enganado no que imaginavam ter visto? Muitos sugerem que a criatura em questão poderia ser um extraordinariamente grande Peixe Remo - um animal raro, mas não inteiramente desconhecido na área. Mas seria possível que marinheiros experientes e um naturalista estivessem tão enganados quanto ao tamanho do animal, a ponto de confundi-lo com uma mítica Serpente Marinha?

Seja lá qual for a verdade, Gloucester até hoje mantém sua fama como o Porto da Serpente Marinha, e para aqueles que desejam conhece-la, é possível ouvir histórias e visitar a mesma taverna do início do século XIX, adornada com quadros e decoração remetendo ao monstro marinho que assombrou um dia essas águas.

Para os habitantes de Gloucester a Serpente sempre existiu, muito além da província das histórias de pescadores.

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Artefatos do Mythos: A lendária Chave de Prata


Num mundo um dia dominado pelos Antigos, não é de se estranhar que objetos tocados por eles guardem enorme poder. Perdidos nas cidadelas em escombros, nas ruínas engolidas por selvas e desertos ou no interior de templos submersos, repousam os derradeiros tesouros de nosso planeta. Foram estas as ferramentas manipuladas pelos Deuses em tempos idos, criadas com o seu consentimento, com propósito e razão que nos escapa à compreensão. São eles as peças centrais de um imenso quebra-cabeças que pode lançar uma luz sobre a natureza inescrutável desses seres, ou nos condenar de uma vez por todas ao horror de um saber profano.

Estes são os infames Artefatos do Mythos de Cthulhu e meramente tomar conhecimento de sua existência constitui um perigo inenarrável. Pois ponderem: O que pode ser mais perigoso para seres frágeis e de mente primitiva, como nós humanos, do que manusear objetos concebidos pelos Deuses?

Juntem-se a nós na apreciação dos mais inefáveis artefatos e engenhos urdidos por estes seres, e tema o dia em a existência de um deles vier à tona.

Hoje falaremos de um lendário item que integra diretamente a mitologia daquele que é considerado o "Um em Todos" o Deus Exterior (1) Yog-Sothoth (2) que representa o conceito cósmico de tempo e espaço. A conturbada história do artefato conhecido como a Chave de Prata atravessa um vácuo de eras, com sua posse mudando constantemente de dono. Mas seria correto afirmar que tal artefato realmente pertence a alguém? Ou seria faculdade dele escolher aquele que o detém?

A história se inicia na fabulosa Terra da Hiperbórea (3), uma das primeiras grandes civilizações humanas de que se tem notícia. Ocupando as terras setentrionais de nosso planeta, no distante Período Mioceno entre 19 e 25 milhões de anos atrás, a Hiperbórea era um Império orgulhoso de suas conquistas e realizações. Naqueles tempos imemoriais, a região era quente e fértil, coberto de densas selvas em que predadores selvagens disputavam espaço com os últimos sáurios. Seu povo pálido, alto e longilíneo detinha grande cultura e conhecimento nos campos da ciência e da magia. Commorium, sua augusta capital era uma maravilha para se vislumbrar com torres de vidro, esplanadas e palácios magníficos.


Os feiticeiros ocupavam sua própria casta superior na sociedade hiperbórea, com magos que dominavam as artes arcanas com determinação e autoridade. Eles desempenhavam inúmeras funções naquela época prodigiosa: eram conselheiros, videntes e intérpretes de sonhos, abençoados com o dom da visão e da predestinação. Os mais poderosos, que ocupavam o topo da pirâmide hermética, eram os Feiticeiros que conheciam os Segredos dos Antigos. Acredita-se que toda a fonte de magia da Hiperbórea provinha do Deus batráquio Tsathoggua (4) e que foi ele quem, através de agrados e sacrifícios, ensinou aos primeiros discípulos os mistérios da feitiçaria. Antes da inquisição do Deus Yhoundeh (5) declarar o Culto de Tsathoggua proscrito, os feiticeiros gozavam de enorme influência, entre os nobres da mais alta estirpe e os monarcas que ocupavam o trono de Commorium.

Não é de se estranhar portanto, que uma sociedade tão esotérica, cujos magos eram capazes de dobrar as próprias leis da natureza, tenha sido responsável por forjar artefatos de enorme poder. Os historiadores concordam que a Chave de Prata foi criada na Hiperbórea e que seu artesão só pode ter sido um feiticeiro com enorme domínio sobre as forças metafísicas. Apenas alguém com vasto conhecimento seria capaz de encerrar em algo tão pequeno e mundano, poderes tão espantosos.

Mas se o local é conhecido, o mesmo não ser pode dito à respeito da identidade do criador da Chave de Prata. Os pesquisadores se debruçam sobre essa questão desde que tomaram conhecimento da existência da Chave, questionando-se sobre quem a teria idealizado. Alguns apontam obviamente para o lendário Eibon (6), conhecido como o Insondável. O Mago de Milaab, era famoso pela sua erudição que lhe permitiu transcrever um dos mais importantes tomos sobre o Mythos e que não por acaso, carrega seu nome no título - o Livro de Eibon (7). 

Contudo, se Eibon é realmente o artífice da Chave de Prata, por que tal coisa não é citada em trecho algum em seu livro? É inegável que Eibon conhecia Yog-Sothoth e em mais de uma ocasião usou seus rituais para invocar o Deus Exterior que personifica o conceito cósmico de tempo-espaço. Mas isso não significa que o artefato tenha sido criado por ele. Não existe qualquer obra em que Eibon mencione a Chave, o que depõe contra sua autoria, ainda que muitos insistam que apenas ele seria capaz de tal façanha.


Mas se não foi Eibon, quem mais poderia ter criado a Chave de Prata? Alguns pesquisadores citam o Feiticeiro Zon Mezzamalech (8) que segundo as lendas vivia numa inexpugnável Torre de Cobre na península ao norte de Mhu Thulan. Os poucos registros existentes sobre ele atestam que o feiticeiro era capaz de milagres inacreditáveis e de prodígios inexplicáveis. Lendas atestam que ele podia reduzir montanhas a pó e partir mares com seus poderes. O fato dos feitos de Zon Mezzalamech serem tão impressionantes faz com que se imagine até que ponto eles não passam de exagero.

Seja como for, a Chave de Prata traz ao longo de sua superfície hieróglifos que pertencem a etnografia Hiperbórea e que só poderiam ter sido gravados por aquele povo. O objeto em questão é um pedaço de metal baço e desbotado medindo pouco mais de 20 centímetros de ponta a ponta. Sua forma se assemelha realmente a uma grande chave com um padrão artístico em arabesco de um lado e recortes chanfrados formando quatro dentes na extremidade oposta. O objeto é pesado e sólido. Os símbolos talhados com precisão notável jamais foram traduzidos adequadamente, mas acredita-se que se trata de um louvor a Yog-Sothoth, ou então, uma invocação do Senhor das Portas e Passagens.

No final do Mioceno, severas mudanças climáticas atingiram a Hiperbórea com neve e gelo. As cidades, estradas e monumentos foram gradualmente soterradas por nevascas que ocultaram as grandes realizações daquele povo. Embora inúmeros artefatos tenham desaparecido sob a neve alva que tomou tudo, a Chave de Prata não estava entre estes. Acredita-se que o artefato tenha sido levado pelos Hiperbóreos através de mares congelados para terras distantes onde os colonos decidiram fincar raízes. A diáspora dos Filhos da Hiperbórea pelo mundo é discutida por historiadores da Lemúria (9) e posteriormente pelos Gregos. 

A Chave percorreu um longo caminho até a região desértica que corresponde à Península Arábica, surgindo misteriosamente na Cidadela de Irem (10) (11). Também chamada Ubar e citada no Corão (12) como a "Cidade dos Mil Pilares", esse lugar possui uma longa e controversa história que inclui um sem número de maldições e calamidades. O livro sagrado diz que Irem foi destruída por conta dos pecados de seus habitantes, mas não se sabe que habitantes eram esses. Cultos devotados ao Grande Cthulhu afirmam que a cidade foi construída sobre ruínas ciclópicas por sua vez erigidas pelas Crias Estelares (13) quando o homem sequer existia. A destruição e consequente abandono da cidadela são um enigma até para sumidades como Al-Hazred e Prinn (14).


No alto do grande portão que dava acesso a Irem, havia uma mão de pedra esculpida em um bloco único de mármore rajado. Diz a lenda que essa mão, o Punho Cerrado dos Deuses, segurava a Chave de Prata e nenhum habitante da cidade ou visitante jamais ousou perturbá-la. Por séculos ela permaneceu lá, brilhando no sol causticante do Rub' Al-Khali (o Grande Vazio) (15), atraindo viajantes perdidos como um farol iluminando um mar revolto de dunas.

Então, em algum momento, muitos séculos depois de Irem se tornar uma cidade fantasma abandonada, a Chave de Prata desapareceu de seu lugar de descanso. Não se sabe quem foi o responsável por essa ousadia, mas o ladrão não devia pertencer às tribos nômades que vagam por esse fim de mundo. O temor dos nativos os impedia sequer de se aproximar das ruínas, que dirá retirar dela um artefato. Uma lenda afirma que se um dia a chave retornar a esse lugar, Irem será destruída pela fúria dos Deuses. Um mito similar está conectado à cidade de Alhambra (16), na Granada mourisca onde uma mão sobre o portão de entrada cita a mesma lenda. É provável que essa coincidência derive da lenda de Irem.

A Chave de Prata ficou desaparecida por séculos, os rumores davam conta de que ela amaldiçoaria qualquer um que a detivesse por mais de 1001 dias. Uma história menciona que o grande poeta e astrônomo persa Omar Khayyan (17) teria mantido a Chave consigo por algum tempo, e que próximo de completar o prazo estabelecido para a maldição se fazer sentir a lançou de uma duna esperando que o vento do deserto a cobrisse, rezando para que ela assim se perdesse para sempre. Outro rumor é que o Califa Haroun Al Raschid (18), governante de Bagdá enviou homens de sua confiança aos quatro cantos do mundo árabe para que encontrassem a Chave de Prata e a trouxessem até sua esplendorosa cidade. O Califa ansiava possuir os tesouros mais exóticos de sua época, e segundo as lendas chegou a ter num grande cofre um tapete voador, um cavalo coberto de ouro e uma orbe mágica.    

Não muito tempo depois, a Chave de Prata ressurgiu na posse de ninguém menos que Hassan Sabbah (19), o dai de uma seita islâmica nizarita ismaelita do século XI. Após muitas peregrinações, Sabbah fundou a infame Ordem Hashashim (20), que daria origem ao termo "assassino" até hoje usado para designar aqueles que matam. A Ordem dos Assassinos sob a liderança de Hassan Sabbah conquistou enorme fama não apenas entre os muçulmanos, mas também no norte da África, Mediterrâneo e na Terra Santa. Os membros da Ordem eram implacáveis e uma vez tomando para si uma missão, não desistiam até completar sua tarefa sem importar quem fosse o alvo.


A Ordem se estabeleceu na Província de Quzvin às margens do Mar Cáspio, na Pérsia em uma fortaleza no topo de um inexpugnável platô. Chamaram o lugar de Alamut (21), o Ninho da Águia. Em seu interior murado, a fortaleza possuía um jardim onde plantavam os venenos mais letais do mundo e uma biblioteca em que figuravam obras raras e esquecidas. Bem antes da Fortaleza ser destruída pelo comandante mongol Hulagu Khan (22) em 1256, a Chave de Prata já havia sumido novamente.

Ela ficou em poder de membros da Ordem dos Assassinos que a usaram inclusive em atentados. Em determinado momento a Ordem deveria eliminar um comandante militar curdo, mas o assassino enviado para o atentado mudou de ideia e ao invés de executar a missão se convenceu de que aquele homem precisava viver. Ele entregou a Chave de Prata nas mãos dele para que ele a usasse na defesa do Mundo Islâmico contra os Invasores Cristãos. Por anos Saladino Yussuf bin Ayyub (23), o Grande Comandante Muçulmano durante as Cruzadas debateu exaustivamente se deveria ou não usar o artefato. Por fim, ele decidiu que a Chave era perigosa demais e a enviou secretamente para Damasco, na Síria, para que ficasse em poder de homens da sua confiança.

Em 1218, a Chave de Prata encontrava-se na Prisão de Mezzeh (24) em Damasco, até que um prisioneiro, um cruzado chamado Geoffrey Carter, matou os guardas que a protegiam e escapou levando consigo o artefato. Não se sabe exatamente quanto tempo Geoffrey levou para retornar à sua terra natal, a Inglaterra, mas é provável que ele tenha feito um longo caminho parando em diferentes lugares para estudar o saber profano dos Mythos.

Depois desse evento, a Chave de Prata se manteve em poder da Família Carter, passando de geração em geração como uma herança de família. Muitos dos Carter ignoravam inteiramente sua natureza, poderes e o perigo que ela representava. A Chave era para a maioria um mero símbolo, um elo com um passado glorioso e heroico, embora alguns do clã soubessem bem do que ela era capaz e fizessem uso de suas faculdades. 

Levada para a Colônia de Massachusetts, ela passou pelas mãos de Edmund Carter que no final do século XV foi acusado de feitiçaria durante a Caça às Bruxas (25) na vila de Salem. Escapando da forca por um triz, Edmund se estabeleceu na região mais tolerante de Arkham no Vale do Rio Miskatonic. A Chave passou algum tempo esquecida até ser redescoberta pelo explorador, místico e aventureiro Randolph Carter (26). Acredita-se que ele tinha consigo a Chave de Prata quando desapareceu misteriosamente em 1928.


O paradeiro atual da Chave de Prata é desconhecido.

A verdadeira extensão dos poderes da Chave de Prata e o que ela é capaz de fazer é ignorado. A Chave no entanto, é obviamente um artefato ligado a Yog-Sothoth, e parece emular algumas de suas capacidades sobrenaturais no que tange aos elementos sobre o qual o Deus exerce influência. Portanto, Tempo e Espaço podem ser manipulados pelo detentor dela para que se dobrem diante de sua vontade. Quais as implicações disso deixam interessantes questões em aberto. Se o tempo pode ser conquistado com o uso da Chave, então o passado pode ser reescrito, bastando viajar no tempo e alterar acontecimentos como bem se entender. A Chave permitiria ainda deslocamento para qualquer local do futuro, garantindo uma transição imediata para onde e quando seu possuidor desejasse.

É claro, tal uso constitui um enorme risco e pode trazer sérias implicações a quem se propõe à fazê-lo. Além dos problemas inerentes à criação de lapsos temporais, acredita-se que o ser humano não está preparado para incidir em viagens temporais sem comprometer gravemente sua existência. A chave poderia mitigar esses efeitos, mas não anulá-los completamente. Além disso, há um segundo complicador que não pode ser tratado de forma leviana. Toda e qualquer forma de deslocamento físico através do tempo, acaba atraindo a atenção das ferozes bestas conhecidas como Mastins de Tindalos (27). Esses seres dimensionais habitam estruturas angulares do tempo e percebem toda e quanlquer perturbação produzida no tecido do tempo. Há poucas coisas no universo do Mythos mais temidas do que ser perseguido por um Mastim de Tindalos, algo capaz de aterrorizar os mais experientes feiticeiros.

Além disso, há relatos de que o artefato pode, e de fato, já foi utilizado com o intuito de abrir portões de forma similar ao próprio Yog-Sothoth. Para isso, a Chave de Prata deve ser erguida sobre a cabeça no por do sol e rotacionada nove vezes enquanto o nome do local que se deseja adentrar é proferido. Ao fim do último giro, a pessoa que segura a Chave é transportada para o local desejado, não importando a distância. A Chave continua em suas mãos e pode ser usada novamente para devolvê-lo ao local original. É possível que esse poder explique o sucesso da Ordem dos Assassinos em acessar lugares inexpugnáveis e se infiltrar nos esconderijos mais protegidos sem despertar a atenção. Também é possível que o cruzado Geoffrey Carter tenha usado os poderes de transporte da Chave para escapar da Prisão onde estava confinado.

Esse método de transporte também permite ao detentor da Chave de Prata viajar através de dimensões e realidades. O artefato possui uma ligação íntima com a Terra dos Sonhos (28) e parece ser atraído para levar seu dono até ela. Randolph Carter, um dos mais famosos exploradores da Dimensão Onírica usou a Chave de Prata, quando esta estava em seu poder para empreender longas jornadas que lhe garantiram enorme fama.


As lendas afirmam que o Artefato da Hiperbórea seria o único capaz de destrancar o Último Portão (também chamado de Portão Definitivo), uma passagem que daria acesso a uma realidade onde o tempo não existe e onde reside a compreensão total dos segredos mais bem guardados do Universo. Tal portal é protegido pela entidade Umr At-Tawil (29), o Prolongador da Vida que seria um avatar do próprio Yog-Sothoth. Supõe-se que o intrépido aventureiro Randolph Carter, após seu misterioso desaparecimento, teria realizado a perigosa façanha de atravessar o Portão e penetrar no que existe além dos seus umbrais. O que Carter encontrou lá dentro é sujeito a interpretações metafísicas muitas delas perturbadoras.      

Para além de todas as suas habilidades, é provável que a Chave de Prata possua inúmeras outras que são ignoradas. Com certeza ela pode ser utilizada ainda com o intuito de estabelecer contato com Yog-Sothoth e invocá-lo fisicamente, bastando para isso chamar seu nome após destrancar as fechaduras do tempo-espaço. A chegada daquele que é "uno com o todo" pode ser um evento de graves repercussões não apenas para quem tem tamanha ousadia, mas numa escala global. 

Talvez seja uma benção que a real extensão dos poderes da Chave de Prata permaneçam desconhecidas e que aqueles que a tiveram em seu poder a utilizaram até aqui com parcimônia. O que poderia acontecer se ela um dia viesse a cair em mãos erradas, é um tema digno de legítima preocupação.

Notas de Rodapé:

(1) Deuses Exteriores - esses colossos estão entre os seres mais poderosos, eles são mais do que entidades, são conceitos universais que definem princípios que estruturam o próprio Universo e permitem seu funcionamento. Para saber mais à respeito do conceito dos Deuses Exteriores, é interessante ler o artigo "Deuses Exteriores - Hierarquia do Mythos"

(2)  Yog-Sothoth é um dos mais poderoso Deuses Exteriores, Yog-Sothoth é a entidade que representa os conceitos do Tempo e Espaço. É dito que através dele todo o tempo flui, e todo o universo está contido. Em poder, Yog-Sothoth estaria abaixo apenas de Azathoth, mas ele é sem dúvida uma figura essencial no esquema cósmico. Sem ele, a realidade, os planos e dimensões desmoronariam por inteiro. Para mais detalhes concernentes a Yog-Sothoth, ler o artigo 

(3) Uma fabulosa civilização setentrional que teve seu ápice durante o Período Mioceno. O povo humanoide da Hiperborea, era explorador e aventureiro, tendo firmado colônias em várias terras distantes e influenciando o surgimento de outras civilizações séculos mais tarde. No mito grego, a Hiperbórea era a Terra mais ao Norte cujo povo vivia em um clima agradável e venerava Apolo, Deus do Sol e da música. A ocultista Madame Blavatsky situou a Hiperbórea  em uma era prévia da Terra, anterior a Atlântida e Lemúria, modelo que foi seguido por autores dedicados aos Mythos de Cthulhu. Dentro do Círculo Lovecraftiano, coube a Clark Ashton Smith o papel de definir o histórico e a cronologia da Hiperbórea usando-a como pano de fundo para vários de seus contos ambientados nela.

(4) Tsathoggua, o Deus Batráquio patrono dos Magos e Feiticeiros e um dia a entidade mais cultuada da Hiperbórea pode ser conhecido em detalhes nos dois artigos dedicados a ele:

(5) Yhoundeh é o Deus com Cabeça de Cervo que se tornou prevalecente na Civilização Hiperbórea em seus dias finais. Os clérigos dessa divindade ficaram famosos por caçar e exterminar todos aqueles que consideravam hereges aos seus olhos, em especial os seguidores de Tsathoggua. O Deus, identificado como uma entidade benigna, era considerado o senhor dos Campos, Florestas e Bosques.

(6) Eibon é considerado um dos mais poderosos Feiticeiros dentro dos Mythos de Cthulhu. Um sábio estudioso dos mistérios ocultos que depositou boa parte de seus conhecimentos esotéricos no célebre "Livro de Eibon". O personagem foi criado por Clark Ashton Smith e citado repetidas vezes em seus contos e por outros membros do Círculo Lovecraftiano como uma referência de respeito sobre conhecimento místico.

(7) Também chamado Liber Ivonis e Livre D'Ivon, o Livro de Eibon é um dos mais poderosos e completos tratados se debruçando sobre os mistérios arcanos do Mythos de Cthulhu. Ele foi escrito pelo próprio Eibon na forma de um diário de experimentos místicos quando ele era o Feiticeiro principal da lendária Hyperboria. Poucas cópias desse vasto tomo esotérico sobreviveram ao passar dos séculos, sendo que algumas cópias foram produzidas em Averoigne na Idade Média. Algumas poucas versões do livro, em francês supostamente ainda existem. O Livro foi criado por Clark Ashton Smith e figura em vários de seus contos, sendo citado em obras de outros membros do Círculo Lovecraftiano.

(8) Zon Mezzamalech é outro personagem criado por Clark Ashton Smith, cuja biografia, infelizmente não foi tão expandida quanto a de Eibon. Ele é citado no conto "Ubbo-Sathla" como um dos que falhou ao tentar reclamar os segredos preservados por essa entidade.

(9) Um interessante apanhado de informações à respeito da Lemúria, e, de fato, outras civilizações incorporadas ao Mythos, pode ser visto no artigo "Continentes Míticos" http://mundotentacular.blogspot.com/2014/08/continentes-miticos-mu-lemuria-e.html

(10) Detalhes à respeito da legendária Irem, a Cidade dos Pilares, inclusive as raízes das lendas sobre a sua existência além da ficção.  

(11) Mais detalhes à respeito da legendária Irem podem ser encontrados no artigo 'Ruínas do Medo" que menciona seus muitos mistérios e a ligação desse lugar mítico com a ficção.

(12) O Corão, ou ainda Alcorão, é o Livro Sagrado mais importante do Islã. Os muçulmanos acreditam que ele é a "palavra literal de Deus" (Alá), revelada ao Profeta Maomé (Muhammad) ao longo de 23 anos. A palavra árabe Alcorão, pode ser traduzida como "recitação". Ele é um dos livros mais lidos e citados no mundo atual.

(13) As Crias Estelares são as criaturas que acompanharam o Grande Cthulhu em sua migração da distante estrela de Xoth até a Terra e que podem ser compreendidos como "seu povo". Foram as Crias estelares que auxiliaram Cthulhu a erguer suas bases na Terra e empreender a guerra contra as Coisas Ancestrais e os Fungos de Yuggoth. Para conhecer detalhes adicionais sobre as Crias estelares, ver o artigo correspondente. 

(14) Respectivamente Abdul Al-Hazred e Ludwig Prinn, os autores do profano Al-Azif (que daria origem ao Neronomicon) e Vermis Mysteriis. Os dois tomos estão entre as mais contundentes obras sobre o Mythos de Cthulhu. 

(15) O Rub' al-Khālī; em português, "o Grande Vazio" ou ainda "a quarta parte vazia" é um dos maiores desertos do planeta e a maior área contínua de areia (erg) do mundo, ocupando a maior parte do terço sul da Península Arábica e abrangendo áreas da Arábia Saudita, de Omã, dos Emirados Árabes Unidos e do Iêmen. O deserto cobre cerca de 650.000 km². A região tem clima desértico, sendo classificada como de clima hiper-árido, com precipitações anuais médias inferiores a 30 mm. A temperatura máxima média é de 47°C, podendo chegar a 51°C.

(16) Alhambra ou, Alambra (A Vermelha) localiza-se na cidade e município de Granada, na província de mesmo nome, da Andaluzia, na Espanha, em posição dominante no alto duma elevação arborizada na parte sudeste da cidade. Trata-se de um rico complexo palaciano e fortaleza (alcazar) que alojava o monarca da dinastia nacérida e a corte do Reino de Granada. O seu verdadeiro atrativo, como outras obras muçulmanas da época, são os interiores, cuja decoração ocupa o ápice da arte islâmica. Esta importante atração turística exibe os mais famosos elementos da arquitetura islâmica no país, juntamente com estruturas cristãs do século XVI e intervenções posteriores em edifícios e jardins que marcam a sua imagem tal como pode ser vista na atualidade.

(17) Omar Khaiam foi um poeta, matemático e astrônomo nascido na Pérsia no século XI. Conhecido no ocidente como poeta e autor do Rubaiyat, (em português, “quadras" ou "quartetos”), que ficariam famosos a partir da tradução de Edward Fitzgerald, em 1839. Muitas coisas se contam sobre Omar Khaiam, porém de poucas podemos ter certeza uma vez que sua vida foi marcada por fatos lendários e possivelmente exagerados. Sabemos que nasceu em Nixapur, capital da província Persa, onde passou a maior parte de sua vida em meio a estudos, aventuras e explorações. Foi conselheiro na corte de Malik I e uma pessoa de grande importância no seu tempo. Ele faleceu em 1131 e seu túmulo está conservado até hoje.

(18) Haroun al-Rashid (conhecido como "Haroun, o Justo" ou "Haroun, o Bem-guiado"), foi o quinto califa abássida, reinando entre 786 e 809, numa época marcada pela prosperidade científica, cultural e religiosa no Islã. Ele foi o fundador da lendária biblioteca chamada de "Casa da Sabedoria" (Bay al-Hikma). Na ficção ele é citado no clássico livro "As Mil e uma Noites", que contém muitas histórias fantásticas sobre a corte de Haroun e sobre o próprio califa. A família dos barmecidas, que até então tinha tido um papel fundamental no estabelecimento do Califado Abássida entrou em declínio a partir do reinado de Harune Arraxide. Ele é citado na história "Ramadã", escrita por Neil Gaiman para seu personagem mais conhecido Sandman.

(19) Hassan Sabah, conhecido como "O Velho da Montanha" foi o líder e fundador de uma seita islâmica ascética - o ismaelismo. Após estudar teologia, em 1076, foi ao Califado Fatímida do Egito, para aperfeiçoamento religioso. Em seu retorno à Pérsia, viajou por várias regiões de modo a promover suas crenças. Com vários convertidos, capturou a fortaleza de Alamute onde se estabeleceu.

(20) A Ordem dos Assassinos (Hashashim) foi uma seita fundada no século XI com o objetivo de difundir a nova corrente do ismaelismo. A fama do grupo se alastrou pelo mundo cristão, que ficou surpreso com a devoção de seus membros que para eliminar um alvo, aceitavam se sacrificar. A Seita possuiu cerca de 60 mil seguidores, segundo se especula. O ismaelismo é considerado como uma das correntes em que se enquadram os xiitas.

(21) Alamute foi uma fortaleza situada na cordilheira Elbruz, ao sul do mar Cáspio no atual Irã. De acordo com Handalá Mustaufi a primeira fortaleza foi construída em 840, a uma altitude de 2.100 metros. A fortaleza foi construída de tal forma que só houvesse um meio artificial transitável para chegar a ela, que seria em torno do penhasco, o que dificultaria uma suposta invasão. Em 1090, a fortaleza foi conquistada pela Ordem dos Assassinos, uma poderosa seita fundamentalista islâmica.

(22) Hulagu Khan foi um poderoso Conquistador e Imperador mongol que conquistou uma vasta região do sudoeste asiático. Neto de Gengis Khan e irmão de Cublai, ele se tornou o primeiro Khan do Ilcanato (porção do Império que englobava a Persia).
 
(23) Saladino foi o chefe militar muçulmano que liderou a oposição islâmica aos cruzados europeus no Levante. No auge de seu poder, seu domínio se estendia pelo Egito, Palestina, Síria, Iraque, Iêmem e pelo Hejaz. Foi responsável por reconquistar Jerusalém das mãos do Reino de Jerusalém, após sua vitória na Batalha de Hatim e, como tal, tornou-se uma figura emblemática na cultura árabe em geral. Saladino, adepto do islamismo sunita, tornou-se célebre entre os cronistas cristãos da época por sua conduta cavalheiresca, especialmente nos relatos sobre o sítio de Queraque em Moabe, e apesar de ser a nêmesis dos cruzados, conquistou o respeito de muitos deles, incluindo Ricardo Coração de Leão. 

(24) Mezzeh é um distrito de Damasco, conhecido pela Prisão construída em 661 que serviu como masmorra para cruzados. As instalações foram usadas até recentemente como presídios de dissidentes políticos.

(25) A infame Caça às Bruxas no Vilarejo de Salem, na Nova Inglaterra foi um evento traumático na História Colonial norte-americana. Para saber detalhes à respeito desse acontecimento histórico:

(26) Randolph Carter é um personagem recorrente os contos de H.P. Lovecraft e considerado seu alter ego literário. Carter, é um autor e místico de uma família distinta da Nova Inglaterra com longa experiência investigando os Mythos de Cthulhu. Ele é o protagonista em "A Busca Onírica de Kadath", "A Chave de Prata", "Através dos Portais da Chave de Prata", "O Inominável" e "O Depoimento de Randolph Carter", fazendo uma aparição ainda em "Out of the Eons".

(27) Uma descrição completa a respeito dos Mastins de Tindalos, pode ser encontrada no artigo à seguir:   http://mundotentacular.blogspot.com/2017/06/bestas-de-dimensoes-distantes-anatomia.html

(28) A Terra dos Sonhos é uma dimensão alternativa acessível enquanto estamos dormindo. Os mortais são capazes de entrar na Terra dos Sonhos com mais facilidade na infância, mas quando chegam a idade adulta o portal se torna mais difícil de ser cruzado, exceto por "sonhadores experientes". O uso de meditação, magias, artefatos ou drogas pode facilitar o acesso de visitantes. O Mundo dos Sonhos é uma cópia alternativa do mundo real, com elementos surreais e oníricos. Ela é composta de uma colcha de retalhos de reinos exóticos onde se destacam cidades estado e por um vasto mundo subterrâneo. A Terra dos Sonhos foi criada por H.P. Lovecraft e serve de pano de fundo para muitas de suas histórias, em especial a série conhecida como Ciclo dos Sonhos.

(29) O Prolongador da Vida é uma entidade que protege os segredos ocultos além do Portal destrancado pela Chave de Prata. Ele é apresentada no conto 'Através das Portas da Chave de Prata" (1934). Ele será apreciado em um próximo artigo do blog.

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Kraken - Os Mitos sobre Monstros Marinhos Gigantescos

  

"O maior e mais terrível monstro dos mares"

Era dessa forma que um raro documento náutico redigido no século XII tratava do avistamento de uma criatura lendária para os povos do norte da Europa.

A criatura em questão, presente no folclore de toda Escandinávia, era conhecida como Kraken, uma besta que habita as profundezas insondáveis e gélidas do mar. Ele era definitivamente um monstro marinho, ainda que não uma serpente, uma baleia de proporções colossais ou um peixe gigantesco como a maioria das bestas oceânicas são descritas. O Kraken era uma monstruosidade diferente, tomava emprestado a forma de outras criaturas bizarras para construir para si uma identidade a ser temida.

De muitas formas, o Kraken das lendas parecia o resultado da combinação de um polvo gigante e de lulas com dimensões inacreditáveis. Certamente tais animais, chamados de cefalópodes, podem crescer até proporções assustadoras, atingindo comprimentos tentaculares que se estendem por mais de 12 metros. O Kraken das lendas, entretanto, era muito maior que isso. Ele superava as maiores lulas e polvos encontrados nos oceanos profundos da Terra. Se levarmos em conta as narrativas épicas sobre avistamentos do monstro, estaríamos falando do maior animal do planeta, superando e muito a baleia azul. 


As lendas nórdicas à respeito do monstro, dão conta de que seus tentáculos poderiam atingir incríveis 80 metros de comprimento total. A cabeça da besta teria as dimensões de um navio com olhos vítreos com nada menos do que um metro e meio de diâmetro. Já a sua boca poderia engolir um homem adulto de uma única vez, levando-o para um estômago em que uma bile corrosiva o dissolvia ao longo de dias. Por sinal, um dos maiores temores entre os navegadores era ser engolido por inteiro e permanecer vivo amargando um suplício hediondo no interior da fera. 

O Kraken descrito nas Sagas Vikings seria capaz de puxar embarcações para as profundezas, afundar grandes barcos à remo e afogar tripulações inteiras. Seus acessos de fúria eram incontroláveis e resultavam nos maremotos que assolavam o litoral. Para apaziguar a fúria dos elementos, ocasionada pelo monstro, tribos nórdicas realizavam sacrifícios, separando jovens virgens ou meninos de cabelos claros, para satisfazer o apetite da criatura. Os escolhidos eram amarrados em postes e colocados na praia para que a alta da maré os afogasse. Em outras circunstâncias podiam ser levados para alto-mar, e lá um sacerdote lhes cortava a garganta e jogava nas águas esperando que o sacrifício fosse o bastante para acalmar o monstro. 

A existência do Kraken, da qual ninguém duvidava, causava temor mesmo nos marinheiros mais experientes. Tão aterrorizante era seu nome que muitos navegadores temiam sequer proferir em voz alta quando estavam em alto-mar. Havia a crença de que eles poderiam ser conjurados se o nome fosse repetido muito frequentemente. Entre as muitas narrativas algumas dão conta de incríveis façanhas que esses monstros podiam realizar com seu tamanho e força titânicos. O mero rugido trovejante do Kraken seria capaz de estourar os tímpanos dos marinheiros se produzido a menos de 100 metros de distância deles. Um agitar dos seus tentáculos criaria ondas gigantes, com mais de 15 metros que viravam embarcações. O aperto dos tentáculos, grossos como troncos de árvores, podiam despedaçar mastros e botes como se fossem gravetos. As ventosas distribuídas ao longo dos tentáculos quando se fixavam em uma pessoa jamais soltavam, e se elas se prendessem na face de um pobre coitado, arrancavam seu rosto por inteiro. Ainda segundo as narrativas, a carne da criatura era tão grossa que arpão algum a penetrava. 

Mesmo as maiores baleias fugiam da fera quando esta saia à caça. Faminto, o Kraken era uma verdadeira força da natureza devorando o que estivesse em seu caminho com voracidade inigualável. Grandes carcaças de cetáceos quando apareciam nas praias com marcas distintas de dentadas, eram creditadas ao ataque de um Kraken e nenhum barco ousava sair por pelo menos uma semana. 

Nada podia pará-los, nada poderia detê-los.


Mas, se levarmos em conta todas as lendas da mitologia da Escandinávia, o Kraken pode não ser o maior monstro marinho presente nas sagas épicas. Há coisas ainda maiores nos mares, ou assim se acreditava.

Uma das narrativas náuticas mais famosas é creditada a Orvar-Oddr, um renomado herói e explorador Escandinavo, cujas aventuras fazem parte de um longa crônica redigida por volta do ano 1200. A saga original contém algumas das mais fantásticas descrições sobre criaturas marinhas. Muitos historiadores e especialistas em folclore nórdico acreditam que ela contém algumas das mais completas descrições sobre o Mito do Kraken, mas que não se limitam a esse monstro. 

Um trecho em particular afirma o seguinte:

"Vou contar a vocês sobre dois tipos de monstros marinhos que habitam as águas gélidas. Um deles é chamado Hafgufa (névoa marinha) e outro é o Lyngbakr (costas de urze). Ele (o lyngbakr) é a maior baleia do mundo, já o hafgufa é o mais perigoso monstro dos mares. É da natureza dessa criatura engolir barcos e homens, e até mesmo baleias por inteiro, se elas estiverem ao seu alcance. Ele fica submerso por dias, e quando vêm à superfície parte a água apenas o suficiente para que seu enorme nariz em forma de bico apareça do lado de fora. A criatura aguarda até a mudança das correntes e então mergulha uma vez mais. Se durante o tempo em que ele está respirando, um barco o atrair, tudo estará perdido para esses marinheiros. O monstro capta o cheiro dos homens e dá início à sua caçada que termina geralmente em naufrágio e morte".

Ele continua mais adiante:

"O Hafgufa possui enormes braços (tentáculos) que são compridos como pontes e mais grossos do que qualquer corda jamais fiada. Ele agarra os membros dos homens e os puxa com força lançando-os ao mar e então para sua goela voraz. Quando surgem na superfície eles se agarram em qualquer coisa e as puxam para o fundo na expectativa de ser comida. Homem ou barco, pouco importa, o abraço da Hargufa é a perdição".


A descrição parece bastante condizente com as famosas histórias sobre os Kraken, se consideramos que os braços da Hafgufa seriam também tentáculos. Contudo mesmo o Kraken com seu tamanho colossal parece tímido diante dessas criaturas gigantescas. O Hafgufa na descrição de Orvar-Oddr teria algo em torno de 200 ou 300 metros de comprimento, com um alcance de tentáculo de pelo menos 150 metros. Estes pseudopodes eram tão grandes que nem mesmo as pessoas em terra estariam à salvo de seus ataques. Uma das sagas, de fato, narra como uma vila de pescadores foi arrasada pela criatura que lançou seus tentáculos além da praia para capturar e arrastar suas vítimas desesperadas até sua bocarra.

Já à respeito do Lyngbakr, o navegador relata:

"Os lyngbakr são na verdade as ilhas que desaparecem misteriosamente, afundando de uma hora para outra. Todo homem do mar já viu uma ilha desaparecer, mas a maioria não tem explicação para tal coisa. A explicação é uma só, o lyngbakr vem à superfície e dorme com parte de seu dorso para fora. Por muito tempo, a criatura fica imóvel e nesse tempo, a "ilha" é coberta de terra e até mesmo vegetação - as urzes nas costas do monstro que dão nome a ele são as plantas que se fixam com mais facilidade. Se tempo suficiente passar, até montes se erguem nas suas costas. Ignorando a origem da ilha, e até mesmo que se trata de um ser vivo, pessoas passam a habitar a superfície das costas da imensa baleia, sem saber do que se trata. Não há nada que um homem possa fazer para perturbar o sono de um lyngbakr e este pode dormir por séculos. 

Algumas vezes, no entanto, aqueles que moram em tais ilhas sentem o chão estremecer e se mover sob seus pés como se o solo fosse acometido por tremores. Nada mais são do que os espasmos do monstro evidenciando a sua fome. Isso é sinal de que ele está prestes a despertar. E quando tal coisa acontece, tudo aquilo que está sobre ele, sejam casas ou pessoas, acaba sendo arrastado para o fundo quando ele mergulha".


Um documento do século XVI, o lendário Konungs skuggsja, que pode ser traduzido como "O Espelho do Rei" (sobre o qual já falamos aqui no blog - Leia no Link) descreve a Lyngbakr como algo realmente grande e temível: 

"Existe um monstro que permanece um mistério, e que só é mencionado quando se fala de seu tamanho que para a maioria das pessoas é inacreditável. Apenas alguns poucos sábios podem falar a respeito dele com autoridade, pois são raros os indivíduos que sabem de sua existência. Tal monstro não aparece perto da costa onde os pescadores lançam suas redes, mas em águas profundas. Não se sabe quantos deles existem, provavelmente não mais do que um ou dois em toda extensão marítima. O nome deles em nosso idioma é LyngbakrA criatura vista da superfície mais parece uma ilha do que um animal. Dizem que é possível desembarcar e andar sobre ele por horas sem chegar ao outro lado. Quando ele está dormindo é inofensivo, permanece imóvel por dias, mas quando desperto é mortal pois se alimenta de tudo que consegue alcançar".

O mesmo livro descreve os horríveis hábitos alimentares da Ilha monstruosa:

"É dito que faz parte da natureza desses monstros empregar estratégias para atrair presas. O Lyngbakr pode vir à superfície abrindo sua bocarra para fora e soltando um sonoro arroto. Isso libera na superfície uma quantidade enorme de peixes semi-digeridos que ficam boiando acima dele, o que atrai cardumes grandes e pequenos, interessados em se alimentar do refugo. Mesmo homens em barcos de pesca são atraídos pela fartura de pesca. Mas estes não sabem o perigo que correm. O monstro mantém sua bocarra aberta e quando sobre ela estão presas suficientes, ele simplesmente a fecha, engolindo tudo. Assim que o estômago está cheio, o lyngbakr mergulha".


Além desses relatos, existe uma terceira fonte escrita pelo marinheiro sueco Jacob Wallenberg. Seu livro, Min son på galejan (que pode ser traduzido como "Meu filho nos baleeiros"), publicado em 1750, tenta diferenciar o Kraken e outros monstros marinhos maiores e mais ameaçadores:

"O Kraken das lendas é um animal mortal. Ele se mantém no fundo do oceano, cercado de cardumes que servem de comida e são alimentados pelo seu excremento em contrapartida. O Kraken não precisa respirar, vindo à superfície apenas quando é atraído pela presença de comida. Embora prefira cardumes e baleias como alimento, ele pode atacar embarcações e devorar homens. Nenhuma embarcação é capaz de resistir à sua investida. Seus tentáculos são letais, podendo agarra e puxar as presas para sua boca em forma de bico".

Contudo, Wallenberg deixa claro que existem "monstros ainda maiores nesses mares":

"Há, no entanto, animais colossais que superam o Kraken em tamanho atingindo as dimensões de pequenas ilhas, atóis e fiordes. São tão grandes que em suas costas cresce um ambiente propício a ser usado como moradia por seres humanos e toda sorte de animais terrestres. Elers vivem ali sem se dar conta que estão nas costas de um monstro marinho dormente. Árvores e terra seca pode surgir no dorso desses seres e até pequenos montes que despontam convidativos. Não há dúvidas de que esse seria o equivalente ao próprio Leviatãs citado pela Bíblia".

O Leviatã da Lenda bíblica é citado no Livro de Jó, e tratado pela Igreja Católica como um dos Príncipes do Inferno, que representava o pecado da Inveja. A existência desse monstro marinho era tratada com seriedade pela Igreja Medieval que atestava sua existência reputando a ele o posto de "maior e mais terrível das feras que habitam os oceanos". A origem do Leviatã, possivelmente está ligada a um mito ainda mais antigo e que pode ter sido incorporado ao texto bíblico - Tiamat. 


O Deus da Mesopotâmia Tiamat era tratado como senhor dos mares e oceanos, regendo ainda os rios e lagos que podiam ser seu habitat. Em algumas versões, ele era considerado como uma deidade feminina, uma vez que teria dado à luz aos tubarões, baleias e sereias que habitavam os mares bravios. As tempestades e furacões eram resultado de sua cólera, algo considerado cotidiano. Apesar de seus arroubos de fúria, ela era uma das divindades mais cultuadas do Panteãos Semítico, recebendo tributos na forma de peixe, pérolas e frutos do mar. Uma taxa era comumente cobrada dos pescadores, quando retornavam com suas redes cheias, costumava-se deixar ao menos dez porcento da coleta antes de chegar ao porto, como forma de agradecer à Deusa e não incidir na sua ira.

Como acontecia com frequência, a Igreja Católica demonificavam divindades do passado e reputava a elas um caráter maligno. O Leviatã, provavelmente inspirado por Tiamat, compartilhava com ela a fúria que se tornaria lendária nas palavras do poeta William Blake: 

"A cabeça do Leviatã, grande e magnífica tal como a de um tigre, sulcada por listras de verde e púrpura. Em breve vimos a bocarra se abrir e as guelras pendendo sobre a espuma enfurecida, tingindo de negro o abismo com raias de sangue, avançando contra nós, simples homens, com toda a fúria de uma existência espiritual."

Nos dias atuais, avistamentos de monstros marinhos de proporções colossais se tornaram cada vez menos frequentes. Aqueles que são céticos podem dizer que provavelmente isso se deve ao fato de tais animais jamais terem existido, outros, podem dizer que eles simplesmente deixaram de existir e se tornaram extintos. 

Contudo, nem todas as histórias sobre monstros marinhos figuram no campo dos mitos. 


Em 2004, uma expedição patrocinada pelo Museu Nacional Oceanográfico do Japão conseguiu pela primeira vez fotografar uma Lula Gigante viva, perto das Ilhas Ogasawara. O espécime registrado a uma profundidade de 900 metros se agarrou a uma isca e lutou por quatro horas para se libertar. No processo, ela fugiu amputando um trecho de tentáculo com 5,5 metros. A existência das Lulas Gigantes já era conhecida pela ciência, mas imaginar que nunca tais criaturas foram encontradas com vida nos faz pensar no que mais pode existir nas profundezas insondáveis e se as lendas não passam disso...

Lendas.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Mistérios Oceânicos - Quando restos de Monstros Marinhos surgem ao redor do mundo


O Santo Graal da Criptozoologia sempre foi encontrar evidências físicas reais e concretas de suas teorias. Provas incontestáveis de que criaturas estranhas, lendárias ou bizarras de fato existem e habitam o mundo em que vivemos. Com uma infinidade de lendas sobre monstros misteriosos supostamente rondando por aí, seria de se esperar que existisse algo além de relatos de testemunhas oculares e fotos borradas. 

Contudo, de tempos em tempos surgem casos em que evidências físicas vem à tona, criando uma dúvida razoável à respeito da veracidade de certas lendas. No que diz respeito aos supostos monstros que habitam mares e lagos, não faltam relatos de avistamentos e carcaças misteriosas lançadas no litoral que despertam um misto de surpresa, choque e empolgação. Seriam essas as tão cobiçadas provas de que tais seres de fato existem?  

Vejamos alguns exemplos de monstros marinhos inexplicáveis:  

Em 1883, um homem identificado apenas como "Sr. Hoad" estava passeando por uma região rural chamada Brungle Creek, na Nova Gales do Sul, Austrália, quando tropeçou em algo bizarro. A descoberta causaria enorme controvérsia e escreveria o incidente entre os mais peculiares casos da Criptozoologia moderna. De acordo com a narrativa, Hoad encontrou os restos de uma criatura estranha medindo cerca de 10 metros de comprimento, com uma cauda curva de lagosta e no lugar onde a cabeça deveria estar apenas o que parecia ser um sinuoso tentáculo vermelho-alaranjado. O animal, que estava obviamente morto, rescendia a peixe podre e estava sendo devorado por gaivotas. Supostamente ele havia sido varrido para a praia após uma forte tempestade em alto mar e uma sucessão de ondas violentas que provocaram uma imensa inundação. 

O lendário Bunyip australiano

Na época, os jornais afirmaram com enorme sensacionalismo que a carcaça pertencia a uma criatura do folclore australiano, um ser bizarro chamado Bunyip. O Bunyip é um monstro anfíbio feroz que segundo a tradição aborígene vive em charcos e pântanos do país, escondido à espera de uma presa que se aproxime do covil para ele atacar. Sendo um carnívoro, o Bunyip costuma caçar animais de pequeno e médio porte, mas as lendas afirmam que por vezes eles atacam também homens. Sua tática envolve arrastar a presa para o charco alagadiço e ali afogá-la. As lendas citam entre as características principais do Bunyip, seu grito aterrorizante, que os nativos afirmam ser capaz de paralisar as pessoas com um medo primitivo.

A notícia da misteriosa descoberta chegou até mesmo ao "Pai da Criptozoologia", o autor norte-americano Charles Fort que anos mais tarde escreveu à respeito da descoberta em seu livro Lo!

"Os restos de um animal estranho, que não parece ser nativo deste mundo foi encontrado na margem de um riacho na Austrália. Segundo o jornal Adelaide Observer de 15 de setembro de 1883 - o Sr. Hoad encontrou em uma margem do Riacho Brungle, o tronco sem cabeça de um animal imenso, com um apêndice que se curvava para dentro, como a cauda de um lagosta. O animal estava morto e não se assemelhava a nenhuma criatura nativa da exuberante natureza australiana".

Animais pré-históricos poderiam ser os monstros marinhos das lendas?

Para tornar as coisas ainda mais confusas há relatos de outro homem com o nome de Henry Wilkinson, que também se deparou com a "carcaça de um animal estranho", com uma aparência incomum e um "apêndice terminal que se enrolava para dentro, lembrando o rabo de uma colossal lagosta". A descoberta, feita quatro anos depois, em agosto de 1887, também ocorreu nas margens do Riacho Brungle. Esse monstro era menor, medindo pouco menos de dois metros de comprimento, mas tendo em comum várias características como a cauda de lagosta. 

A notícia recebeu enorme destaque, sobretudo porque a criatura supostamente ainda estava viva quando encontrada. Várias pessoas teriam visto o estranho animal, e conseguiram trazê-lo para o vilarejo afim de preservá-lo. Infelizmente a coisa não viveu tempo o bastante, à despeito de ter sido movida para uma cisterna. 

Batizado de "Monstro de Hoad", a carcaça foi posteriormente reclamada pelo Museu Marinho de Sydney para análises científicas, mas não há mais nenhum registro ou evidência física restante. É provável que o incidente não passe de um mero relato sensacionalista, contudo, vários moradores do vilarejo pesqueiro de Brungle juravam que a criatura de fato existia e foi vista por muitas pessoas. 

O Peixe Demônio da Ilha Suwarrow

Outro relato do século XIX vem da tripulação do navio britânico Emu, que aportou no atol do Pacífico Sul conhecido como Ilha Suwarrow para reparos em sua viagem à caminho de Sydney, Austrália. Enquanto estavam lá, os nativos contaram aos tripulantes sobre uma criatura grande e misteriosa que os aterrorizava. Um monstro imenso que eles chamavam de "Peixe Demônio". A coisa em questão tinha 18 metros de comprimento, era coberta por pelos castanhos e tinha cabeça de cavalo, com duas presas formidáveis ​​projetando-se de sua mandíbula inferior. 

Os marinheiros ficaram meses na ilha e tiveram a chance de acompanhar os nativos em uma caçada ao monstro que havia espantado a pesca e afundado uma canoa, matando seu tripulante. A caçada resultou em uma perigosa perseguição que terminou com o monstro abatido por arpões. Ele foi então amarrado e puxado para a praia afim de ser apreciado. Os marinheiros descreveram a criatura como um verdadeiro monstro desconhecido e retiraram dele o máximo de restos que puderam, incluindo o crânio da fera que foi colocado no compartimento de carga. Infelizmente o Emu afundou pouco tempo depois; os reparos aparentemente não foram muito bem feitos e o navio levou para as profundezas sua carga e os troféus que provavam a existência do Peixe Demônio. 

Há boatos que a tripulação do Emu teria identificado erroneamente uma baleia com bico, um cetáceo raro naqueles mares, mas não inteiramente desconhecido. Além disso, em alto mar, é difícil reconhecer exatamente o que se está vendo, sobretudo se for uma situação assustadora. O que a tripulação realmente encontrou na Ilha Suwarrow? Até hoje, ninguém sabe ao certo, mas é fato que o capitão do navio escreveu no diário da viagem à respeito da experiência, bem como vários marinheiros cuja narrativa parece consistente. 

Em 1930 outro relato sobre Monstro Marinho ganhou fama ao redor do mundo. Em novembro daquele ano, um baleeiro americano avistou um "animal ou réptil pré-histórico" na costa da remota Ilha Glaciar na costa do Alasca. A criatura foi descrita como tendo um corpo de cerca de 6 metros de comprimento, uma cauda de 5 metros e uma cabeça de 1,8 metros no final de um longo pescoço. Ela tinha uma boca com dentes pontiagudos e atitude feroz. Era um monstro, que alguns identificaram como um elasmossauro ou um contemporâneo extinto. 

O elasmossauro, animal pré-histórico tratado como legítimo monstro marinho.

A descoberta ganhou amplo destaque em publicações respeitosas como o New York Times e Washington Post. Uma recompensa considerável foi oferecida para qualquer um que trouxesse provas da existência da criatura. A proposta motivou um conhecido aventureiro chamado W.J. McDonald a organizar uma expedição para investigar as alegações sobre a criatura. A equipe, formada por marinheiros, exploradores e aventureiros, foi transportada até a Ilha Glaciar com o objetivo de explorar o ambiente e encontrar a criatura misteriosa. A expedição McDonald construiu um abrigo em terra e passou quatro meses na ilha, amargando enormes dificuldades, lidando com tempestades e frio congelante que vitimaram fatalmente dois de seus membros. 

Apesar dos percalços, a expedição retornou com um prêmio e disposta a reivindicar a recompensa oferecida. McDonald apresentou os restos do animal descrito nos seguintes termos: "Um ser marinho desconhecido, com corpo alongado, nadadeiras dorsais e espinha vertebral muito parecida com a dos dinossauros marinhos encontrados. Tinha ossos longos e um crânio maciço de configuração incomum". A expedição alegou que a carcaça da criatura havia sido achada em uma praia rochosa na Glaciar. O animal teria sido atirado para o litoral após uma forte tempestade em alto mar. Sendo impossível preservar a carne, a equipe recuperou os ossos e os entregou ao Museu Oceanográfico de Nova York. 

O exame dos restos, no entanto constatou que a maioria dos ossos pertenciam a diferentes baleias, enquanto que o crânio foi identificado como pertencente a um mamute lanoso. McDonald não recebeu sua recompensa e os ossos acabaram enviados ao Museu Nacional de História Natural em Washington DC, onde foram identificados como pertencentes a baleias da espécie minke e um mamute.

Passando para os anos da Segunda Guerra Mundial, temos alguns casos curiosos de monstros marinhos. Um deles gira em torno de um posto de vigilância japonês estacionado nas pitorescas Ilhas Kei, na Indonésia em 1944. Eles relataram ter encontrado estranhos homens das profundezas, criaturas conhecidas pelo folclore local, chamadas de Orank Ikan, literalmente "Homens Peixe".

Orank Ikan, o homem peixe das lendas

Eram descritos como tendo estatura média de 1,50, corpo esverdeado escamoso com mãos e pés espalmados. Suas cabeças grandes eram adornadas com espinhos proeminentes e os rostos tinham uma aparência um tanto parecida com a humana, ainda que a boca fosse alongada, com olhos grandes e arredondados. Como homens, andavam eretos, mas nadavam com maior desenvoltura, sendo perfeitamente adaptados a ambos ambientes. 

Os soldados japoneses perplexos encontraram esses estranhos habitantes das profundezas repetidas vezes durante o período em que ocuparam o arquipélago. Viram as criaturas em alto mar, nadando próximo das embarcações; na costa, chapinhando em piscinas naturais e ocasionalmente nas praias que eram patrulhadas. A população nativa das ilhas estava familiarizada com essas criaturas que eram avistadas desde os tempos de seus antepassados.

O primeiro Sargento Taro Horibe do Exército Imperial, foi chamado para inspecionar o cadáver de um destes "homens peixe" que havia sido abatido à tiros por sentinelas que protegiam uma praia no litoral sul. O sargento ficou sem palavras ao averiguar os restos mortais trazidos até ele pelos seus subalternos. Descreveu o ser como uma mistura de homem e peixe, algo que ele jamais havia visto em sua vida. Horibe ficou profundamente chocado com o que viu e despachou os restos para análise de biólogos de seu país. 

No final das contas, o sargento não obteve maiores informações sobre o caso. Após a Segunda Guerra, Horibe foi à público buscando saber quais as conclusões que os especialistas haviam chegado, mas não obteve respostas e sequer a confirmação de terem recebido os restos do Orang Ikan. Alguns acreditam que os estudiosos receberam ordens de manter a descoberta em segredo, pelo caráter perturbador das suas conclusões.

Os ossos de um plesitosauro 

Outro relato da Segunda Guerra Mundial nos leva às costas da Ilha Gourock, na Escócia, onde em 1942 um animal muito bizarro foi encontrado numa praia. Um oficial chamado Charles Rankin foi chamado ao local para medir e estudar a criatura, concluindo que não era nenhum animal conhecido por ele. A coisa tinha cerca de 9 metros de comprimento, com uma cauda larga, um pescoço longo terminando em uma cabeça pequena e achatada com arestas pronunciadas sobre os olhos que se estreitavam em uma ponta, além de uma boca grande cheia de dentes intimidadores. O animal tinha quatro nadadeiras e era coberto por cerdas parecidas com penas de 15 centímetros de comprimento, e Rankin teve a impressão geral de que sua natureza era reptiliana.

A criatura aparentava ter sido ferida pelo motor de algum barco de grande porte, o que é condizente com o grande movimento de embarcações naquela rota. Os restos estavam se decompondo, com a coluna vertebral exposta e o ar impregnado de um fedor rançoso, de modo que a carcaça precisou  ser descartada imediatamente. O local de descanso final dos restos é desconhecido. Para tornar este caso ainda mais frustrante, a área por ser classificada como de alta segurança em tempos de guerra, não permitia tirar fotografias.

Em 1950, ocorreu outro caso bastante estranho no Egito, onde em janeiro daquele ano, uma tempestade desancou sobre o Golfo de Suez, deixando, após sua passagem, uma enorme carcaça do tamanho de uma baleia na praia. Os restos em decomposição pareciam os de um cetáceo em muitos aspectos, incluindo sua forma geral e o orifício de sopro em sua cabeça, mas era anômalo em outros. Tinha por exemplo duas presas enormes saindo de sua boca, ao contrário de qualquer mamífero marinho conhecido. Além disso, não haviam olhos discerníveis e sim uma série de cílios circundando sua boca como apêndices.

Na época, os biólogos marinhos não conseguiram classificar o animal e sem técnicas forenses modernas, tudo o que realmente temos é uma única fotografia granulada em preto e branco. O que veio a ser conhecido como "Carcaça de Ataka" se tornou motivo de acirrado debate e discussão, com muitos sustentando que se tratava de um animal marinho desconhecido, enquanto céticos afirmam que era tão somente uma baleia putrefata. Os ossos da mandíbula teriam se destacado, criando a impressão de se tratarem de grandes presas. No entanto, essa não foi a conclusão a que os cientistas da época chegaram, e ela permanece ainda hoje sem solução.

A Carcaça de Ataka

Avançando para a década de 60, em março de 1969, uma enorme carcaça misteriosa foi encontrada em uma praia de Tecoluta, no México. A criatura era enorme, com peso estimado em 35 toneladas, forma de serpente, coberta com escamas rígidas e um chifre gigante de 3 metros de comprimento brotando de sua cabeça. Na época, ele foi descrito como sendo algo "desconhecido pela humanidade". Os cientistas chamados para examinar os restos não conseguiram chegar a uma conclusão sobre a sua origem. A criatura ficou algum tempo na praia como atração, após ser eliminada e seus ossos depositados no Museu da Marinha em Tecoluta. Nos últimos anos, especulou-se que era apenas um narval ou uma baleia finback em decomposição, mas não se sabe ao certo. 

No ano seguinte, em novembro de 1970, outra curiosa criatura apareceu na Praia de Mann Hill, em Massachusetts. Fosse o que fosse, foi descrito como sendo de fato muito estranho, com 6 metros de comprimento e parecido com "um camelo sem pernas", com pescoço longo, cabeça pequena e duas nadadeiras dianteiras proeminentes. Embora nos últimos anos tenha sido descartado como nada mais do que uma identificação incorreta de um tubarão-frade em decomposição. A Carcaça de Mann Hill tornou-se um caso bastante famoso entre os alegados monstros marinhos lançados em terra.

Na década de 1980, há o caso de um estranho animal que apareceu na costa da nação africana de Gâmbia. Em 12 de junho de 1983, o naturalista amador Owen Burnham estava dando um passeio à beira-mar em uma área de resort chamada Bungalow Beach quando se deparou com uma criatura de 4 metros de comprimento com pele acastanhada, barriga pálida, pescoço curto, uma enorme cabeça com 1,50 de comprimento, preenchida com 80 dentes cônicos afiados. Embora parecesse uma baleia, ele percebeu que o animal não tinha uma abertura respiratória, mas narinas proeminentes. A carcaça estava em condições quase intocadas, apresentando pouca decomposição, e o único dano era uma barbatana traseira rasgada. 

Os primeiros fósseis de sáurios marinhos foram tratados como monstros marinhos

Burnham sabia que era uma descoberta importante, mas infelizmente os moradores locais logo apareceram para cortar o corpo, vender a cabeça como souvenir e enterrar a carcaça na areia. Desde então, os criptozoologistas tentaram localizar o cadáver sem sucesso acreditando que era algo desconhecido. As opiniões sobre o que poderia ser a criatura variam de uma espécie não catalogada de baleia a um espécime pré-histórico, supostamente extinto, como um tipo de plesiossauro de pescoço curto, zeuglodonte ou ainda mosassauro. Provavelmente nunca saberemos com certeza já que todos indícios dele desapareceram.

Os mares do planeta ainda constituem um mistério quase insondável para nós. Estamos longe de compreender seus enigmas e entender o que eles escondem em sua totalidade. De um ponto de vista biológico, é perfeitamente razoável assumir que criaturas estranhas, muitas delas ainda não catalogadas pela ciência, habitem os abismos oceânicos. Talvez sejam elas que de tempos em tempos, se desgarram do seu habitat, para surgir, causando um misto de estranheza e fascínio nos seus descobridores. Quando encontrados surgem muitas perguntas e a suspeita de que chamar esse mundo de "nosso", pode não passar de uma grande presunção.