quinta-feira, 14 de abril de 2022

A Entidade de Swansea - O misterioso Poltergeist que aterrorizou uma família


Como explicar manifestações sobrenaturais e como lidar com elas? O que fazer quando nossas casas e nossas famílias se tornam o foco de ocorrências inexplicáveis que desafiam nossa razão e nos colocam em xeque? Como fica nosso ceticismo quando somos confrontados com coisas que desafiam a razão?

O estranho caso da Entidade de Swansea desafia convenções e nos coloca face a face com algo que não tem explicação e nos faz pensar sobre o que realmente conhecemos do mundo à nossa volta.

Situada ao longo da costa sudoeste do País de Gales encontramos a cidade costeira de Swansea, oficialmente Condado de Swansea, a segunda maior cidade do País de Gales e com uma longa e rica história. Em 1965, Marcia Howells, de 22 anos, seu marido David, sua filha de três anos, Beverly, e seu filho Gareth, de um ano, além da avó de Marcia, Glendora, se mudaram para uma pequena casa na Rhondda Street. Era apenas uma das muitas casas semelhantes na área e parecia não haver nada de especial nela. Era o tipo de lugar comum que passaria desapercebido, mas logo provaria não ser uma casa normal, à medida que uma série de eventos sobrenaturais aterrorizantes começava a se desenrolar.

As coisas estranhas tiveram início apenas três dias depois da família se mudar, quando Márcia e o marido foram acordados à noite por uma sensação de aperto na garganta, como se algo os estivesse sufocando levemente. David a princípio pensou que havia um vazamento de gás em algum lugar, mas uma inspeção da casa não revelou nada fora do comum. Ambos experimentariam isso por várias noites, mas não conseguiam encontrar uma explicação para o incidente. Depois disso, eles notaram coisas estranhas pela casa, como itens aparecendo onde não deviam estar, ou portas que estavam trancadas quando ninguém as havia trancado, às vezes trancadas por dentro de um quarto sem ninguém. Portas e janelas também seriam achadas abertas depois de fechadas, e tudo era muito estranho, mas não particularmente assustador até esse momento. 


No entanto, isso logo mudaria e uma escalada de incidentes inexplicáveis, cada um mais violento que o anterior, faria com que a família Howells sentisse estar vivendo num pesadelo. O início dos ataques ocorreu repentinamente, dando início a experiências muito mais graves. Conforme contou; Marcia estava em casa com seus dois filhos enquanto David havia ido para o trabalho. Ela diria sobre o que incidente:

"Eram cerca de cinco horas da tarde e eu tinha acabado de servir uma xícara de chá para minha filhinha no quarto da minha avó. Voltei para a cozinha, quando de repente uma garrafa foi atirada em minha direção. Eu consegui fechar a porta para me proteger. Abri de novo e vi a cozinha inteira varrida por um vendaval. Tudo estava fora do lugar, panelas, copos, pratos voavam pelo ar e se estilhaçavam nas paredes. As gavetas e armários ficavam abrindo e fechando sozinhas. Coisas flutuavam no ar. Imediatamente subi e peguei as crianças e minha avó. Não ficaria ali com elas! Quando saí correndo, meu marido estava descendo a rua e ele foi verificar, e quando chegou lá, ainda viu aquela atividade medonha."

Esse foi o primeiro de muitos ataques que se tornaram recorrentes. Os quartos eram encontrados com móveis arremessados ​​e itens espalhados pelo chão, tudo quebrado em pedaços como se alguém tomado por uma fúria tivesse quebrado tudo. Às vezes, eles encontravam os cômodos neste estado, mas em outras ocasiões, eles testemunhavam a atividade sobrenatural em curso. Eram nestes casos que a família ficava mais horrorizada. A fúria com que as coisas voavam pelo cômodo, os sons de coisas quebrando evidenciavam uma raiva quase palpável. Seja lá o que estivesse agindo sobre a casa, era algo furioso e que pendia para a violência. 


Em pelo menos duas oportunidades, objetos lançados contra a família acabaram causando ferimentos. Em uma oportunidade um quadro foi arrancado da parede e voou na direção de Marcia que sofreu um corte na testa causado pela moldura pesada. Em outro, David sofreu um ferimento quando uma cadeira simplesmente voou contra ele, atingindo-o com força suficiente para quebrar o móvel. Marcia relatou uma das ocorrências: 

"Uma tarde eu estava com minha avó no quarto dela e de repente ouvimos o som de alguma coisa caindo. Esse tipo de coisa acontecia regularmente, mas sempre nos deixava em estado de alerta. Quando cheguei na sala descobri o que estava acontecendo: era a lareira. Os pedaços de lenha ainda em brasa estavam sendo lançados de um lado para outro. A tela de proteção da lareira estava sendo arrastada e o fogo queimava alto. Eu fiquei apavorada, pois uma fagulha poderia causar um incêndio. Corri para a cozinha e voltei com um balde de água para apagar o fogo, mas quando cheguei o caos era ainda maior. O atiçador de lareira voou no ar e passou a centímetros da minha cabeça. Eu gritei e implorei para aquilo parar e de repente ouvi uma espécie de rugido e tudo caiu no chão".     

Esses incidentes pareciam cada vez mais sérios e os Howells começaram a temer que um desses ataques poderia resultar numa tragédia. De nada adiantava arrumar e limpar a casa, pouco depois tudo estava revirado e sujo novamente. O único quarto que permanecia intocado era o da avó, Glendora, embora ninguém conseguisse entender por qual motivo ela era poupada. 

À princípio, a Família decidiu não contar a ninguém o que estava acontecendo, eles temiam que as pessoas não acreditassem ou dissessem que eles estavam inventando aquelas coisas. Entretanto, à medida que a atividade paranormal se intensificou, eles sentiram que algo precisava ser feito. Quando a entidade começou a acender o fogão a gás da cozinha e a barrar as portas dos quartos com os filhos dentro, foi a gota d'água e resolveram chamar a polícia. Mas como explicar a eles o que estava acontecendo sem parecerem loucos?


Ao menos, quando as autoridades chegaram, elas também puderam testemunhar os incidentes na propriedade, conforme Marcia contou:

"Os policiais foram muito solícitos e gentis, embora até então não estivessem dispostos a acreditar no que contamos. Pelo menos até verem com os próprios olhos. Na cozinha, meu fogão a gás estava todo ligado sem que houvesse ninguém lá. Nós insistimos para que eles subissem até os quartos e as portas estavam barradas. Os dois policiais tiveram que forçar a porta do quarto para entrar. A nossa cama de casal barrava a entrada e o berço do bebê estava virado. Enquanto revistavam o quarto sem encontrar ninguém, ouvimos novo estrondo na cozinha e quando chegamos lá, a bagunça começou novamente, com coisa voando, gavetas abrindo e objetos sendo quebrados. Os policiais ficaram atordoados e confessaram que não acreditavam no que estávamos falando até testemunharem por si mesmos".

A essa altura, a história da assombração não podia mais ser contida. Os vizinhos ouviam os sons misteriosos de destruição na casa, mesmo quando não havia ninguém lá dentro. Logo vieram os repórteres e estes acamparam no quintal esperando registrar um dos ataques paranormais. Além dos jornalistas, a área ficou lotada de curiosos, adicionando ainda mais estresse à família Howells sitiada no interior da casa assombrada. Um vizinho diria mais tarde sobre aqueles dias: "Foi uma história e tanto. As pessoas estavam muito nervosas e preocupadas. Talvez todos fossem ingênuos, mas aquela movimentação causou um grande alvoroço na vizinhança."

Os vizinhos ficaram incomodados com toda a atenção e a multidão de estranhos perambulando pela área, mas também, preocupados que suas casas fossem assombradas. Os incidentes continuavam acontecendo e algumas pessoas relataram ver coisas voando e ouvir sons estranhos de destruição no interior da casa dos Howells. 

A casa foi abençoada por um padre que veio em socorro da família e que disse ter identificado uma suposta presença maligna no interior. Ela também foi visitada por um conhecido investigador paranormal chamado Harry Holmes, que passou a noite na casa, mas não testemunhou nada fora do comum e saiu de lá mantendo seu ceticismo. As pessoas se dividiam quanto ao ocorrido, mas todos concordavam que a família, composta por pessoas normais, não teria razão para inventar aquela história absurda. Ademais, eles claramente estavam incomodados com toda aquela atenção e os holofotes acesos sobre eles.  


No final, os Howells não aguentaram mais e se afastaram da propriedade, supostamente depois de um incidente envolvendo o bebê Gareth. A criança teria desaparecido de seu berço, surgindo dentro do armário que havia sido trancado. Aquilo foi demais e eles concluíram que, se continuassem lá, algo pior terminaria por acontecer. 

É um caso curioso não apenas pela violência e intensidade da atividade, mas também porque não há absolutamente nada na história da casa ou do terreno em que foi construída que explique uma assombração dessa magnitude. Investigadores paranormais concordam que casas assoladas por esse tipo de atividade em geral foram palco de algum acontecimento traumático. Contudo, as pesquisas conduzidas à respeito do endereço não revelaram nada expressivo capaz de justificar aquela comoção. Nenhuma tragédia, nenhum assassinato ou catástrofe, nada, e nenhum dos vizinhos teve problemas, então por que essas coisas estavam acontecendo nesta casa e com esta família aparentemente normal?

Ninguém foi capaz de determinar, embora tenham surgido várias suposições.

Uma explicação é que não se tratava de uma entidade sobrenatural, mas sim, do resultado de energia psicocinética projetada por uma pessoa. Em muitos casos de poltergeist, foi teorizado que a atividade é causada por habilidades psíquicas latentes criadas por um indivíduo, geralmente sem que ele próprio perceba que está fazendo isso. Os culpados usuais são crianças entre 5 e 13 anos, o que significa que isso pode estar acontecendo com os filhos de Howell. Outra hipótese é que a avó Glendora tivesse essa capacidade e que estivesse projetando inadvertidamente, o que explicava ela jamais estar presente no lugar onde havia perigo. Posteriormente, soube-se que Glendora, uma senhora de 74 anos estava passando por um quadro de depressão profunda, acentuado por episódios de demência. Seria possível que ela estivesse externando a sua frustração através dos ataques psíquicos?

Outra possível explicação paranormal é que um espírito estivesse apegado a um objeto ou pessoa na casa. Nesse cenário, a entidade poderia ter sido trazida para a casa de outro lugar enquanto pegava carona no item ou indivíduo de sua atenção. Tais casos são estudados à luz da parapsicologia e compreendidos como manifestações especialmente violentas.


Finalmente alguns defendiam que a família podia estar enfrentando um demônio ou presença diabólica que estava mirando na família por algum motivo inescrutável. É esta a teoria que Marcia abraça, dizendo: "Não poderia ter sido humano, eu sentia um grande mal na casa e só podia ser essa coisa invisível". 

A explicação para muitos, sobretudo aqueles céticos, é que tudo não passou de uma farsa inventada pela família. Mas resta então a questão do que os levaria a fazer tal coisa. Os Howells jamais se beneficiaram do ocorrido e nunca perseguiram fama pelos acontecimentos em seu lar. De fato, eles sempre se mantiveram distantes e evitaram dar entrevistas ou aparecer nos telejornais. Marcia e David contaram anos mais tarde que os incidentes quase os arruinaram e por pouco não fizeram com que eles se separassem. As crianças também sofreram horrivelmente, de modo que dizer que eles estavam causando os incidentes parece ser uma crueldade com pessoas que sofrearam demasiadamente.

Ao menos, depois de deixarem a casa, o fenômeno cessou e não os acompanhou. A casa ficou vazia por 5 anos, até ser novamente alugada por uma família que viveu tranquilamente sem experimentar qualquer incidente sobrenatural. A vizinhança foi reformada em 1988 e a casa derrubada para a construção de um condomínio de apartamentos mais modernos.   

O que quer que tenha acontecido em Swansea, continua sendo um caso curioso de forças sobrenaturais assustadoras cuja explicação continua fora de nosso alcance.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Serpente Divina - O Simbolismo do Deus Cobra ao redor do mundo


Por milhares de anos, a serpente desempenhou um papel central nas religiões, costumes populares e crenças supersticiosas ao redor do mundo.

São muitas as fontes que citam as serpentes como seres relacionados a esfera divina. A Bíblia menciona em suas páginas serpentes voadoras de fogo, há deuses com forma de cobra na mitologia da América Central, uma importante lenda dos nativos norte-americanos descreve uma luta entre os homens e um povo cobra que resultou nesses seres destruindo a humanidade com um dilúvio. Na Indochina certos povos acreditam em uma espécie de serpente sobrenatural que protege um reino subterrâneo, assim como os aborígenes australianos creem em uma enorme serpente espiritual habitando o Reino dos Sonhos, o Alcheringa

As Serpentes estão presentes em tantas histórias que podemos ficar tentados a imaginar se haveria um vínculo entre todas essas crenças dispersas em partes distintas do planeta. Seriam apenas mitos e superstições ancestrais ou há algo mais profundo na adoração das serpentes mundo afora? 

O falecido autor francês Robert Charroux oferecia uma opinião polêmica ao defender que a serpente constituía um símbolo misterioso que representava a manifestação de entidades superiores, mais especificamente Deuses, que auxiliaram em nossa evolução. Em muitas culturas, seres não-humanos muito avançados haviam sido responsáveis por ensinar aos homens primitivos a arte da agricultura, os rudimentos da ciência e a base para a construção. A figura desse Civilizador do Homem está presente em uma infinidade de mitos ancestrais e muitas vezes, esta é retratada como uma Serpente.


Na América Central, e em algumas das culturas nativas do norte, a cascavel era sagrada e frequentemente aparecia na arquitetura religiosa, na fachada das pirâmides ou prédios religiosos. Os Cherokee a chamavam de "o grande chefe da tribo", enquanto os Hopi a consideram o irmão mais velho que deu origem ao clã primordial. Serpentes eram reverenciadas pela sua astúcia e sabedoria. Os astecas nomearam seu "Civilizador do Homem", Quetzalcoatl (a Serpente Emplumada) e ele era adorado como o Deus Maior desse povo.

Embora tenham chegado tarde ao cenário mundial e sua civilização durado apenas 500 anos os astecas deixaram um grande legado. No cerne de sua sanguinária religião, na qual milhares de pessoas tiveram seus corações arrancados, havia uma versão do Civilizador do Homem. Os sacerdotes, nessa religião usavam simbolismo com animais para expressar suas crenças. O animal escolhido para retratar o sábio que ensinou aos astecas os rudimentos da agricultura era uma Serpente. Os astecas consideravam um crime matar cobras e muitas delas eram mantidas em templos e lugares sagrados. 

Segundo uma profecia asteca, Quetzalcoatl retornaria quando um cometa surgisse nos céus e, por incrível coincidência, um apareceu quando Cortez, chegou ao México com os demais conquistadores em busca de riquezas. Por que o retorno do Deus foi associado a um cometa? A resposta parece estar ligada a uma serpente, pois no México, os cometas eram chamados de "serpentes flamejantes". Além disso, o templo maior de Quetzalcoatl ficava na capital Tenochtitlan cuja disposição se assemelhava a uma cobra enrodilhada. Sua entrada se localizava na extremidade correspondente a mandíbula aberta da serpente.


Mais ao sul, a Civilização Inca que floresceu no Peru, possuía uma religião organizada ao redor de um Civilizador do Homem que também assumia a forma de réptil. Os Incas chamavam essa figura de Viracocha e uma de suas formas era a de uma Serpente Sábia. Viracocha era retratado frequentemente nas paredes dos templos segurando dois cajados na forma de serpentes. Quando Pizarro chegou ao Peru com seus companheiros, os Incas pensaram que ele era o emissário do Deus. Atahualpa, o governante inca, marcou um encontro com Pizarro no Templo da Serpente em Cassamarca. Lá cercado por efígies de répteis, ele se rendeu aos conquistadores acreditando ser essa a vontade divina.

Os índios americanos acreditam que uma enorme serpente habitava os subterrâneos da terra. No mito da Nação Chippewa essa cobra estava ligada aos terremotos e havia causado um dilúvio que exterminou os povos antigos. De acordo com outra versão, uma grande serpente tentou destruir a raça humana, com um dilúvio, mas a ajuda veio na forma de Maniboza que foi enviado à terra para ensinar a agricultura e várias artes que salvaram esse povo. Outro Civilizador!

Maniboza era o protetor dessas tribos e não por acaso, seu símbolo era uma Serpente Alada que podia ser encontrada entre os povos que habitaram o Baixo Mississippi. Uma versão do mito estabelecia que ele havia nascido do ovo da grande serpente primordial, sendo portando filho desta. Há efígies de Maniboza nas cavernas de Pony Hills e Cook's Peak, sempre tendo em suas mãos serpentes que se contorcem. Algumas das artes rupestres mais intrigantes, no entanto, estão na área ao redor de Barrier Canyon, no sudoeste da América, onde a figura do deus é vista cavalgando uma serpente gigante.


Há também o famoso Monte Artificial (mound) de 390 metros no estado de Ohio, que foi erigido na forma aproximada de um gigantesco ovo de serpente. O monte está alinhado ao pôr do sol no solstício de verão e ao nascer do sol no solstício de inverno. Montes artificiais similares pontuam todo o meio oeste americano, chegando até o Canadá. 

A tribo dos Natchez reverenciava o sol e acreditava que ele era o lar de um deus cobra que vivia em seu interior. Os sacerdotes e nobres dessa tribo eram tatuados com o símbolo de sóis e serpentes em sua testa. Além disso, no altar do templo maior dos Natchez havia uma cascavel esculpida em madeira que aterrorizou os conquistadores quando estes exploraram a região em busca de riquezas. Os espanhóis ficaram chocados com a forma reptiliana e com as danças executadas em sua homenagem. Acharam que aquilo tinha uma natureza diabólica e atearam fogo no templo.

O que os conquistadores não sabiam (ou mais provavelmente não lembravam) é que a Serpente também havia desempenhado um papel importante nas religiões do Velho Mundo. Milhares de anos antes do cristianismo algumas tradições associadas a Serpente ganharam espaço em muitas partes da Europa. 


Em Glen Feachan, Escócia, há um monte medindo 90 metros de altura onde povos primitivos realizavam seus rituais religiosos. Os marcos no alto do monte estavam alinhados com o solstício de verão, e nesse dia, as cerimônias eram realizadas em uma câmara central, com os sacerdotes vestindo peles de serpente. As cobras aliás desempenhavam papel fundamental como emissárias dos deuses reverenciadas como animais sagrados. 

Os celtas chegaram às Ilhas Britânicas há cerca de 2.500 anos e trouxeram consigo a crença de que as cobras eram animais sagrados. Entre seus muitos deuses e deusas dois tinham especial importância: o deus-sol Hu, cujo símbolo era uma serpente, e sua esposa Ceridwen, a mãe do mundo. Conforme o mito, quando visitou a Terra e interagiu com os humanos, Hu ensinou aos homens como arar o solo. Ele também, supostamente, ergueu Stonehenge e mostrou como seguir o calendário. 

Os celtas possuíam uma casta de sacerdotes devotados à natureza conhecidos como Druidas. Dentre eles, o arqui-druida era a autoridade máxima que trajava um manto branco e carregava um cajado dourado com uma serpente retorcida. Além disso, certos rituais sagrados executados por druidas galeses se iniciavam com as palavras: "Eu sou uma serpente". 


Em suas tradições e costumes os druidas veneravam a serpente e esta sempre foi popular ao longo de milhares de anos. Em sua campanha para eliminar as crenças antigas, a Igreja nos séculos XII e XIII proclamou que um santo local, São Patrício da Irlanda, havia atraído e lançado todas as serpentes ao mar, purificando assim a Ilha de sua presença. De fato, não há cobras na Irlanda e esse fato foi tratado como um verdadeiro milagre realizado pelo padroeiro da ilha esmeralda.

A Igreja tentou demonizar a Serpente, sabendo que ela havia sido longamente adorada pelos povos primitivos. Na Bíblia, a Serpente aparecia no mito da criação, como a Grande Tentadora de Eva na época do idílico Jardim do Éden. Ela, que até então, possuía pernas e braços é punida por Deus e obrigada a rastejar sobre a própria barriga pela sua transgressão. Mais tarde, a igreja medieval foi além e comparou a Serpente ao próprio Demônio, reputando a criatura uma faceta demoníaca que vigora até hoje. Não por acaso, algumas tradições cristãs consideram o ato de domar serpentes e apanhá-las com as mãos nuas uma demonstração do poder de Deus sobre o Grande adversário - Satanás em Pessoa.     

No entanto, apesar de todos os esforços da Igreja em demonizar as serpentes, muitos povos europeus se apegaram às suas tradições quanto a estes seres. Em Praga, no século XV, ainda se oferecia sacrifício a serpentes e alguns fiéis as mantinham vivas em suas casas. Na Lituânia acreditava-se que víboras eram deuses e como tais elas eram adoravam com grande devoção. Na Suécia até o século XVI, haviam aqueles que reverenciavam as serpentes como mensageiras divinas. A Serpente estava em lendas nórdicas como a Serpente de Midgard que habitava o interior da Terra e que foi enfrentada por Thor, o Deus do Trovão. A Lenda de Jormugandr, um dois filhos do deus Loki com a giganta Angrboa também envolve uma serpente gigantesca. O rebento do Deus teria nascido com a forma de uma cobra gigantesca que não parava de crescer e que foi enviada para as terras de Helhein onde se tornou íntima dos mortos. 


Os gregos também tinham grande devoção aos ofídios. Escavações realizadas na Ilha de Creta, em 1903, descobriram estatuetas de uma Deusa Serpente segurando uma cobra em cada mão. Além disso, havia danças rituais que imitavam o movimento das serpentes em toda Grécia. Uma dança similar, conhecida como Furry Dance, era popular em Cornwall na Inglaterra.

A serpente estava associada em inúmeras lendas de cura. Ainda na Grécia, as Serpentes eram vistas como animais mágicos capazes de matar ou curar com as toxinas que produziam em seus corpos. Um bastão formado por duas cobras entrelaçadas se tornou o símbolo de Asclépio, o deus grego da Medicina. O emblema foi adotado como símbolo da Ciência Médica e é usado até hoje. 

Os etruscos, que precederam os romanos na Itália, eram um povo avançado que ganhou fama pelas suas impressionantes construções. Muito do que se sabe a respeito deles veio através de seus elaborados túmulos. Observando suas necrópoles e criptas é possível perceber que eles também eram obcecados por serpentes. Existem inúmeras efígies e peças de arte religiosa devotadas a répteis adornando suas sepulturas. É possível que eles creditassem a esses animais um papel importante no além vida. 

Havia também cultos devotados a serpentes atuando no antigo Império Romano. O imperador Augusto, supostamente havia sido concebido por um Deus que assumiu a forma de cobra para fertilizar sua mãe. As serpentes eram tidas como seres astutos e resistentes, capazes de superar as maiores provações com sua sabedoria. Para proteger as casas, o povo de Pompéia costumava colocar a imagem de uma serpente sobre a lareira e vestir pele de cobra para quebrar de mau olhado a feitiços. 


Na Holanda havia a figura do "Pai das Serpentes" que tomava conta das terras baixas que enchiam nos meses de chuva. Se ele recebesse presentes que lhe agradassem, até mesmo sacrifícios humanos, a cheia seria rápida e quando o terreno secasse se tornaria bom para o plantio. Entre os povos germânicos, havia uma receita ancestral na qual cobras capturadas eram fervidas e o líquido extraído usado para criar um potente filtro curativo. Os saxões consideravam a serpente um animal traiçoeiro, mas admiravam sua esperteza. A adaga curta que usavam escondida no cinturão era chamada de "presa da serpente" e constituía um trunfo num combate corpo à corpo. Muitos guerreiros abençoavam a lâmina a escondendo no ninho de cobras.

As tradições envolvendo serpentes na África remontam às brumas esquecidas do tempo. Nos primeiros dias, a cobra era reverenciada como a encarnação dos Deuses e essas tradições parecem ter surgido espontaneamente em todo continente. A píton, o grande avô de todas as cobras, aparece em muitas histórias africanas e algumas tribos a celebravam ao som da batida dos tambores e frenéticas danças tribais. No Daomé, quinhentos ano atrás, cobras eram consideradas mensageiras divinas e aqueles picados por elas, supostamente tinham sido escolhidos para servir aos deuses no além.

Um povo serpente, cultuado pela nação Dogon da África subsaariana vivia tradicionalmente nos subterrâneos, em cavernas ou covas. Eles protegiam seu reino e seus segredos, mas de tempos em tempos auxiliavam os homens oferecendo seu vasto conhecimento, sobretudo no que dizia respeito a cura. Os xamãs da tribo vestiam peles de cobra que lhes conferiam poderes sobrenaturais. Da mesma maneira, os povos nômades do Saara reverenciavam a serpente que havia lhes ensinado a sobreviver aos rigores do deserto. A serpente mística Dambalah Yedo, foi levada da África Ocidental pelos negros escravizados e encontrou seu caminho até o Caribe onde se converteu em uma entidade poderosa na tradição do Vodu.   


Há cinco mil anos, na Suméria, Enlil, o líder Annunaki, era chamado de o senhor das Serpentes e Enki o Civilizador Sumério, segurava um cetro associado a uma cobra. A serpente tem um papel central em várias lendas e tradições do Oriente Médio, "traços do culto à serpente" permaneceram identificados nas tradições da Síria, Líbano e Pérsia, mesmo depois da introdução do islamismo.
 
A cobra era muito especial nas Terras do Nilo. No Egito Dinástico ela era um símbolo da divindade e um protetor, embora a serpente também fosse uma criatura aterrorizante que os egípcios falecidos encontravam em sua jornada pelo sombrio submundo. As cobras poderiam tanto ajudar quanto prejudicar o espírito que vagava pelo além e para garantir seu auxílio elas raramente eram mortas. Uma serpente sagrada era mantida nos templos egípcios e nos papiros era tradição estampar o desenho de uma serpente como forma de proteção - "Aquele que abrir essa carta sem autorização, irá arcar com a ira da serpente". 

O Deus Civilizador, Osíris do Egito, era a Divindade que zelava pelos espíritos dos mortos. No final do Novo Reino, ele foi mostrado sentado em um trono de costas para uma enorme cobra cujo corpo estava envolto em uma pirâmide de degraus. A pirâmide representava a Montanha do Mundo, ou Primeira Terra, que se erguia das águas circundantes na época da Criação. Essa forma de simbolismo estava presente em muitas outras pirâmides, incluindo a dos babilônios, assírios, em Tiahuanaco, na Bolívia, e em Teotihuacan, no México. A Montanha do Mundo também é representada pelo fosso profundo que cerca o complexo de Angkor Wat, no Camboja. Ele foi construído nos primeiros anos do século XII e sua entrada era guardada por serpentes lendárias conectadas com os deuses. 


A adoração da serpente era comum no sul da Ásia por milhares de anos e a cobra era amplamente usada como símbolo religioso na Tailândia e Indonésia. No Japão, as cobras, em especial as albinas eram tidas como servas dos espíritos superiores e vinham para a terra comunicar sua vontade. Na China, a presença da cobra branca também é considerada como um sinal de boa sorte. O Ano da Serpente era uma data auspiciosa, de grandes mudanças e transformações.

Efígies simbolizando serpentes foram esculpidas na fachada de templos em todo subcontinente indiano. Em algumas crenças, a imagem delas servia como proteção e impedia que os prédios sagrados fossem alvo de espíritos malignos. O Panteão hindu favorece a serpente como um animal de grande sabedoria responsável por proteger o acesso ao mundo espiritual. Elas também são importantes protetores de tesouros e antigas ruínas nas lendas hindus eram frequentemente guardados por serpentes gigantes e inteligentes. Dentre as lendas brahmanes, a que envolve as Naga, talvez seja uma das mais difundidas sobre uma raça de criaturas meio homem e meio cobra que representa morte, renascimento e renovação.

Mesmo na distante Oceania, as serpentes desempenham um importante papel religioso. Segundo uma lenda de Papua Nova Guiné, o Rei das Serpentes resgatou alguns dos sobreviventes do Dilúvio e os criou para que a humanidade não fosse extinta. Na Austrália, os aborígenes de Warrumunga afirmam que seu ancestral mais antigo era uma enorme serpente. Quando havia muito mal no mundo ele causou um dilúvio que extinguiu quase toda vida. A cobra aparece nas tradições aborígenes na forma da Serpente do Arco-Íris e há muitos desenhos dela em rochas e cavernas. A Serpente Arco-Íris está associada a um homem barbudo idoso, que carregava um cajado sagrado, e que visitou os aborígenes vindo do mundo celeste. Mais uma vez, foi esta figura lendária a responsável por ensinar a plantar, semear e arar o solo. Os aborígenes australianos orientais o chamam de Baimi e ele é tido como um deus que observa a terra do alto.


O que descobrimos com todos esses relatos é que a Serpente foi e em alguns casos, ainda é, reverenciada em todo o mundo primitivo em culturas que estão a milhares de quilômetros de distância umas das outras. Teriam estas culturas estabelecido contato entre si ou tudo não passa de uma grande coincidência?

Há elementos comuns em inúmeras civilizações e tradições. 

A Cobra está intimamente associada a um Deus Civilizador responsável por oferecer conhecimento e progresso a um povo escolhido. Muitas vezes, este povo foi afligido por uma catástrofe, mais frequentemente um dilúvio ou enchente que quase extinguiu a humanidade como um todo. A Serpente se apresenta como símbolo da Cura, da Proteção e Misticismo. Seus segredos só podem ser revelados a uma determinada classe de sacerdote, bruxo, xamã ou homens santos. A serpente é celebrada através de rituais elaborados: danças e músicas. Os povos primitivos também faziam uma associação desse animal mágico com seus deuses e deusas, ou com eles atuando como mensageiros para as divindades mais importantes.  

O que podemos concluir de tudo isso é que nenhum outro animal desempenhou papel tão importante para a religiosidade primitiva quanto a serpente. 

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Os Homens Lagarto de Ubaid - A estranha descoberta de Estatuetas Reptilianas


Alguns dos melhores mistérios são aqueles envoltos nas brumas do tempo, de culturas muito distantes e pouco compreendidas. Nos dias do antigo Iraque existiu uma Civilização Pré-Suméria conhecida como cultura Ubaidiana, que remonta entre 5.500 e 4.000 aC na antiga Mesopotâmia e que se acredita ter dado início à Civilização Suméria. 

Os sítios arqueológicos relacionados a essa cultura antiga, conhecida por suas cidadelas sem muros, pelo estilo distinto da cerâmica, ferramentas inovadoras, processamento de alimentos, habilidades arquitetônicas impressionantes, complexas casas de barro, ruas pavimentadas surpreendentemente avançadas, sistemas de irrigação e templos, bem como por seu conhecimento agrícola, tornaram-se mecas para os historiadores. estes não deixam de se surpreender a respeito de como a Cultura Ubaidiana era avançada para seu tempo, enquanto outros povos apenas engatinhavam, eles estavam em um patamar muito superior.  

A magnífica capital erigida por esse povo, chamada Tell Al'Ubaid, foi escavada pela primeira vez por Harry Reginald Hal em 1919. Hal era uma espécie de aventureiro e explorador, interessado em se autopromover inventando histórias e aventuras. A cidadela enterrada sob a areia do deserto no entanto, já era o foco de muitas lendas e histórias. Os nômades reputavam ao local terrível má fama, como se ele fosse amaldiçoado. A cidadela era povoada por espíritos, fantasmas e horrores de eras passadas. É provável que essas histórias tenham ajudado a manter as ruínas em relativa segurança, intocada pelos milênios enquanto ela era lentamente enterrada no deserto. 


Foi nesse lugar misterioso que uma série de desconcertantes descobertas foram feitas ao longo das décadas. As escavações em Tel Al-Ubaid conduzidas por Hal revelaram uma faceta pouco conhecida e ainda mais enigmática desse povo. Algo que pode também colocá-los como indivíduos que estiveram em contato com uma raça desconhecida de humanoides reptilianos.

A Expedição de Harry Hal encontrou inúmeros artefatos valiosos e peças do passado remoto, quando a cidadela servia como entreposto comercial, centro político e destino religioso. Súditos vinham de muito longe, cruzando enormes distâncias de deserto agreste apenas para adquirir mercadorias, conhecer as maravilhas da corte real e prestar homenagem aos deuses. Em meio às ruínas fustigadas pelas tempestades de areia os arqueólogos encontraram tesouros intrigantes deixados para trás. Além de objetos de arte, peças de ouro e armas, foram encontradas estatuetas decididamente únicas. Elas parecem retratar uma raça de seres reptilianos humanoides, de ambos os gêneros. Por vezes, estes seres são apresentados numa variedade de poses, segurando bastões, cetros e, no caso de figuras femininas, até amamentando bebês que guardam semelhança tão grande com lagartos quanto elas próprias. As figuras são diferentes de qualquer outra coisa descoberta na região. Elas apresentam cabeças alongadas, rostos pontudos, focinhos e olhos oblíquos amendoados. As peças não parecem se referir a humanos usando máscaras ou ornamentos para se parecerem com répteis, são claramente seres com feições reptilianas.

A questão é que, desde sua descoberta no início do século XX, ninguém foi realmente capaz de determinar o que são essas peças ou qual é seu significado. Os artefatos estavam encerrados em uma caixa de madeira laqueada, enroladas em panos de veludo e tudo indica eram tratadas como relíquias religiosas. Descobertas posteriores confirmaram que o local onde estavam havia sido a casa de um sacerdote de grande importância. Tudo então leva a crer que elas eram usadas em rituais para simbolizar algum tipo de ser ou entidade não humana. 


A princípio, essa era a hipótese mais provável: as estatuetas seriam representações estilizadas de deuses que as pessoas da época adoravam. Isso não é algo completamente incomum, pois existem muitas culturas que adoraram serpentes e divindades reptilianas, incluindo os próprios sumérios. Eles devotavam grande importância a Enqui, um Deus Maior que podia assumir a forma de cobra. Enqui era tão importante que era creditado a ele a criação de toda água doce que corria nos Rios Tigre e Eufrates, a base para a criação da Civilização Suméria. Em algumas representações, o deus surgia como uma gigantesca serpente deslizando sobre as plácidas águas da Mesopotâmia. Era ele quem abençoava as águas fluviais, os terrenos férteis e criava a chuva.

Arqueólogos e historiadores entretanto hoje duvidam que as figuras se referem a Enqui ou qualquer outro deus conhecido. A razão para isso é que as figuras não trajam adornos opulentos ou roupas particularmente grandiosas, o que seria de esperar se fossem deuses todo-poderosos. Outro elemento conflitante é que estatuário religioso geralmente possui inscrições cuneiformes que identificam os deuses, o que não está presente em nenhuma das peças de Tel Al´Ubaid.

As estatuetas meticulosamente esculpidas que compõem a coleção parecem se referir a uma raça de seres não-humanos, com os quais esse povo pré-sumério teria estabelecido contato. Embora não sejam tratados como deuses, eles sem dúvida tem grande importância, visto que as peças foram guardadas e preservadas em uma caixa que visava protegê-las.


Uma teoria controversa é que as estatuetas seriam uma espécie de lembrete de um encontro entre os sacerdotes e estes seres em algum momento do passado pelo menos 7.000 anos atrás. Alguns mitos sumérios mencionam povos estranhos, seres bizarros não inteiramente humanos que estariam viajando para o nosso mundo vindo de lugares distantes ou então, do espaço entre os espaços, algo que poderia ser compreendido como outras dimensões. Mas essa hipótese metafísica depende muito para quem você pergunta.

Curiosamente, as peças sempre causaram uma estranha reação nas pessoas, sobretudo aqueles que habitam a nação onde elas foram achadas em primeiro lugar. Quando foram apresentadas pela primeira vez em 1926, autoridades árabes presentes ao evento ficaram escandalizadas e pediram que as peças fossem destruídas ou encerradas novamente nas ruínas. De fato, na Mesopotâmia vigorava a ideia de que as ruínas ainda eram amaldiçoadas e que nada de bom poderia vir de seu interior. Até o início da década de 1920, relativamente poucas escavações foram conduzidas no sítio de Tel Al'Ubaid em parte porque era extremamente difícil conseguir operários para trabalhar no local. De fato, as escavações na região sempre estiveram cercadas por fortes superstições que afastavam trabalhadores imprescindíveis para tal empreendimento.

Em 1932, quando o Iraque conquistou oficialmente sua independência diante dos britânicos, o governo passou a negar insistentes pedidos para a realização de expedições no sítio. A maioria das negativas envolviam interesses nacionais, o temor de tesouros e relíquias fossem removidas do país, mas alguns apontavam que as autoridades não estavam à vontade com o fato daquele lugar em especial ser escavado. Mesmo em 1970, o então presidente e ditador Saddam Hussein, continuou a negar o acesso de expedições internacionais a Tel Al´Ubaid, alegando que o lugar era restrito a arqueólogos iraquianos. Apenas em 2010 as ruínas foram novamente visitadas por arqueólogos internacionais, mas mesmo assim, acompanhados por pesquisadores locais. Estariam eles escondendo alguma coisa?


Uma ideia mais conservadora é que as estatuetas seriam apenas peças decorativas ou obras de arte abstratas. A semelhança com humanoides reptilianos constituiria mera coincidência ou uma simples opção estética, mas se é realmente isso, porque as peças seriam guardadas com um sacerdote? Por que elas estariam tão protegidas? Há também a ideia de que a cultura ubaidiana possa ter praticado algum tipo de modificação corporal, como o alongamento do crânio, visto em algumas outras culturas ao redor do mundo, e que essas figuras seriam representações desses indivíduos. 

Infelizmente, ninguém sabe ao certo e qualquer teoria parece válida, mesmo a de raças reptilianas vivendo secretamente entre nós.

Poderia ter havido uma raça de seres humanoides reptilianos vagando e até mesmo interagindo com essa cultura antiga? Teriam seus artistas imortalizado essas criaturas nas estranhas figuras encontradas na cidadela? Realmente não há como saber, a Cultura Ubaid em si já é um mistério impenetrável e, no final, só podemos adivinhar o que essas figuras significam ou o que realmente significaram um dia.

domingo, 3 de abril de 2022

Vila das Vozes - Um lugar abandonado onde os sussurros do passado ainda são ouvidos


Algumas aldeias abandonadas parecem realmente atrair para si, histórias estranhas que acabam ganhando contornos dramáticos e estranhos. São lugares isolados, ermos e perdidos, onde as pessoas raramente vão e onde, os supersticiosos evitam se aventurar. Parece haver uma aura bizarra sobre tais localidades, como se algo ruim pairasse sobre elas tal qual uma presença desagradável, difícil de explicar, mas inescapável. 

Em 1778, dois colonos ingleses chamados Johnathan Randall e Obediah Higinbotham deixaram suas casas as pressas na costa de Cranston, Rhode Island, antecipando um ataque britânico durante a Batalha de Rhode Island em 1778. Decidiram deixar tudo que tinham e se estabeleceram nas cercanias de Pomfret, Connecticut, onde iniciariam uma empresa chamada Higginbotham Linen Wheels, que abastecia as áreas circundantes com fiação de linho. Isso daria início a fundação da vila bastante humilde de Bara-Hack, um termo galês traduzido livremente como "o partir do pão". Era um assentamento modesto, com apenas algumas casas e fazendas, senzalas, um cemitério comunitário, uma fábrica têxtil movida a roda d'água e pouco mais. A simples comunidade por definição não era ais do que uma aldeia, com os habitantes levando uma vida simples e tranquila. No entanto, dias sombrios estavam por vir para este lugar pacífico, que nos anos vindouros iria ganhar a reputação de ser um lugar profundamente assombrado, possivelmente até amaldiçoado.

Após a morte das famílias fundadoras, o moinho começou a cair em ruínas e a comunidade minguou, até que, em algum momento após a Guerra Civil, foi completamente abandonado para se tornar uma coleção de ruínas selvagens sufocadas por ervas daninhas, restos de construções e detritos. O fato do lugar ficar em uma área de difícil acesso, distante de rotas de comércio ou de viagem, fez com que ela se mantivesse intocada por décadas, criando a ilusão de que ela havia sido esquecida pelo tempo. 



No entanto, narrativas envolvendo ocorrências sobrenaturais em Bara-Hack estavam circulando pelos arredores muito antes do assentamento se tornar uma cidade morta. As lendas parecem datar do final do século XVIII, com rumores sussurrados entre os escravos que viviam nas fazendas de que haviam figuras sombrias à espreita na área. Essas sombras, tão escuras que se destacavam mesmo na noite, pareciam rastejar pelo chão e seguir as pessoas, usando sua natureza umbrosa para se esgueirar e se aproximar, tocando com dedos frios aqueles que desejavam aterrorizar. Tais manifestações eram tão temidas que muitos dos residentes evitavam até mesmo sair de suas casas depois do anoitecer e só o faziam amparados por lanternas ou tochas. Mas havia outras coisas que vagavam pelas matas adjacentes: falava-se sobre uma espécie de diabretes do tamanho de crianças pequenas, seres malignos dados a roubar objetos e escondê-los onde ninguém podia encontrá-los e de um bebê fantasmagórico, vítima de um aborto que condenou a mãe a peregrinar noite afora com o feto dependurado num cordão umbilical. As horríveis entidades eram conhecidas por todos os residentes e temidas universalmente, contudo, os relatos realmente se espalharam quando o povoado foi largado ao completo abandono.

Quando as pessoas se foram e a natureza invadiu as cercanias para reivindicar a terra, todo tipo de histórias assustadoras começaram a brotar entre os restos decadentes deste lugar assustador. As pessoas bisbilhotando a propriedade em busca de algo valioso voltavam de lá esbaforidas, relatando histórias de aparições sombrias, o fantasma de um homem barbudo e o espírito de uma criança muito pequena, além de orbes flutuantes e estranhos raios de luz dançando sobre o cemitério onde os ossos foram deixados para apodrecer pela eternidade. Diziam que os mortos se ressentiam desse abandono e que, sem ninguém para pranteá-los, se tornaram amargos, contaminando o solo e as próprias ruínas.

Dentre todos esses relatos medonhos, o fenômeno mais persistente e comentado entre os exploradores que vasculhavam Bara-Hack dizia respeito aos sussurros. Aquele maldito barulho nauseante que deixava homens perplexos sem saber que pensar e aterrorizados até o cerne. Testemunhas até o presente descreveram ouvir conversas desencarnadas, risos, choros, gritos, o som de rodas de carroças raspando sobre a terra, o ruído do velho moinho rangendo e girando, e de animais domésticos, bem como sons anômalos misteriosos e menos definíveis. Eram sons que brotavam do vazio, surgindo em pleno ar, como ilusões auditivas de um tempo remoto. 



Havia quem dissesse que ocasionalmente as ruínas ganhavam vida com o barulho e todos os tipos de ruídos que fazem parecer quase como se ainda fosse uma aldeia viva e próspera, os sons da vida normal ecoando sobre as ruínas mortas e ervas daninhas, deram ao lugar o soturno apelido de "Vila das Vozes". 

No ano de 1927, Odell Shepard, professor de Harvard e do Radcliffe College, um sujeito respeitado, deu seu testemunho sobre o lugar abandonado e escreveu à respeito dele:

"Era triste ver o lugar onde as pessoas um dia tiveram suas casas e vidas, reduzido a ruínas insalubres entregues aos elementos. O que restava, eram alguns tristes resquícios, com buracos escancarados de porões dos quais brotavam árvores altas e vegetação selvagem. Os arbustos de espinheiros e ervas daninhas cobriam tudo, do calcamento de pedra, até os restos de uma velha roda de moinho quebrada. Mas apesar de todo abandono e isolamento, aquele era a famosa aldeia das vozes. Eu proponho, e estou disposto a jurar, que o lugar ainda é povoado embora não haja lá vivalma. A despeito de estar deserto, há sempre um burburinho de agitação similar ao que se esperaria ouvir de uma comunidade repleta de presença humana. Eu mesmo ouvi o riso das crianças brincando, de homens trabalhando e mulheres fazendo seu serviço doméstico. Ouvi os sons cotidianos de indivíduos que há muito são pó, chamando suas famílias para casas decrépitas não mais do que buracos na terra. Ouvi ainda trechos de música cantadas por pessoas e o ranger das rodas de madeira de carroças ao longo da velha estrada. É como se os sons pudessem, neste lugar, contornar algum canto invisível para perfurar nossa realidade à prova de som que chamamos de tempo."

É claro que histórias como essa atraíram a atenção de curiosos que visitavam o lugar interessados em ouvir por si mesmos, sons que viajavam sem serem proferidos. Muitos dos que lá estiveram contaram que não ouviram nada de estranho senão o som de pássaros que se aninhavam nas ruínas, mas muitos outros relatavam experiências desconcertantes. O ruído que se repetia pela eternidade.



Em 1931, Ezra Potts, um precursor do estudo paranormal visitou Bara-Hack e ficou chocado pela coleção de ruídos desencarnados que ouviu. Ele transcreveu palavras perdidas em seus registros, atestando que o fenômeno não apenas era real, como se manifestava espontaneamente, com o u sem uma audiência presente para ouvir. Era como se os sons pudessem cruzar um túnel que conectava duas épocas distintas.  

Um grande número de caçadores de fantasmas e exploradores do paranormal também visitaram as ruínas e algumas dessas expedições obtiveram resultados particularmente estranhos. Em agosto e outubro de 1971, o pesquisador paranormal Paul Eno, realizou uma investigação da propriedade e não ficou desapontado. O livro de Eno com o título "Faces nas Janelas", contaria sobre essa investigação:

"Nós fomos até a aldeia, onde fomos imediatamente atingidos por vários fenômenos estranhos: uma sensação avassaladora de depressão cobria a área como um cobertor; ouvimos o latido constante de cães, mugidos de vacas e a ocasional voz humana; e notamos que havia uma aura de tristeza plácida. Após duas horas e quinze minutos de exploração, nosso grupo partiu e voltou às 19h15 daquela noite. Enquanto nossos equipamentos de gravação eram montados, as vozes se tornaram mais discerníveis individualmente – vozes vindas do riacho Mashomoquet, que corria pela vila. Os sons eram de riso – o riso das crianças. A equipe voltou novamente nos dias 30 e 31 de outubro com novos membros da equipe, para garantir que o que ouviram antes não era uma ilusão coletiva. 

Acabou sendo uma noite muito movimentada. Ao anoitecer, o grupo se perdeu enquanto caminhava em direção ao cemitério. Todos sabiam o caminho, mas nenhum deles conseguia encontrá-lo. Exasperados, eles se viraram para encontrar um dos novos membros de sua equipe congelado no lugar. Ele não conseguia se mover e estava suando e respirando com dificuldade. Todos os membros da equipe tentaram movê-lo, mas ele estava petrificado – o que eles mais tarde descobririam foi que estavam sobre o cemitério o tempo todo, embora não fosse possível perceber isso".


Outros investigadores paranormais desde então relataram frequentemente o mesmo tipo de fenômeno, e as ruínas de Bara-Hack alcançaram um status quase lendário na área como um lugar muito ativo com atividade paranormal. Infelizmente para aqueles dispostos a desbravar este lugar, as ruínas acabaram se tornando propriedade privada e foram fechadas ao público, pontilhadas com placas de "Proibido Invasão" para manter todos os possíveis caçadores de fantasmas e curiosos fora.

Como ninguém pode realmente ter acesso ao sítio agora, é difícil dizer se ele ainda é passível dos fenômenos que muitos relataram ao longo das décadas e ficamos imaginando qual seria a verdade sobre esse lugar que congrega tantas histórias. Seria apenas uma Lenda Urbana ou há algo mais?

Uma sugestão é que os estranhos incidentes decorrem da terra ter sido amaldiçoada pelo povo nativo Nipmuc, que originalmente detinha esse lugar antes de ser expulso pelos colonos brancos. Os Nipmuc, por sua vez, sempre falaram que a área era habitada por espíritos da terra e das profundezas, seres que confundiam e alteravam a percepção dos vivos. Outra hipótese mais moderna é que este lugar por algum motivo desconhecido seria um ponto tênue em que o tecido das realidades seria mais fino. O que estaria sendo visto e ouvido era o que acontecia numa dimensão paralela em outro tempo e lugar. Ainda outras ideias citam um lapso de tempo, ou um caso de assombração residual, em que eventos do passado são de alguma forma gravados em um lugar como imagens em filme e reproduzidas eternamente.

O que quer que esteja acontecendo aqui em Bara-Hack, é uma coisa bastante assustadora, o que concede a esse lugar perdido no tempo, destaque entre os fenômenos inexplicáveis que nos cercam.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Contos Inéditos - A descoberta de dois novos manuscritos escritos por H.P. Lovecraft


Uma notícia incrível foi divulgada no começo dessa semana com grande alarde!

Transcrevi o texto do Jornal americano Providence Enquirer. 



CONTOS PERDIDOS NO TEMPO
por Louis Friend (correspondente)

Acadêmicos de Literatura da Universidade de Harvard e especialistas da Biblioteca Tate, apresentaram dois cadernos de notas e uma coleção de manuscritos de próprio punho, pertencentes ao autor norte-americano H.P. Lovecraft, escritos entre os anos de 1930 e 1934. O material até então desconhecido foi entregue por Richard Matthew Phillips, sobrinho neto de segundo grau de Lovecraft, um dos únicos familiares que descende de um primo de segundo grau do escritor, falecido em 1937.

H.P. Lovecraft é considerado um dos mais importantes escritores de literatura fantástica, gênero notabilizado pelos contos de horror e ficção-científica publicados em revistas especializadas no começo do século XX. A descoberta dos documentos promete causar uma reviravolta e colocar em evidência o nome do obscuro escritor que vem sendo descoberto por uma legião de fãs nas últimas décadas.

Os documentos, segundo o Sr. Phillips, estavam no interior de uma antiga escrivaninha que pertenceu a Lovecraft e que foi herdada por seu avô em 1937, após a morte do escritor. Phillips contou que a escrivaninha esteve no porão da casa de seus pais na cidade de Providence, Rhode Island por pelo menos 70 anos.



Richard M. Phillips

"Eles jamais usaram o móvel e até onde sei meus avós também não, todos o achavam muito grande e antiquado, mas como foi uma herança, tampouco queriam se desfazer dele". contou o Sr. Phillips que disse conhecer apenas ligeiramente a obra de seu famoso antepassado.

"Eu sei que se tratava de um autor, mas francamente esse ramo da família sempre foi distante de nosso convívio."  

Por ocasião da morte de sua mãe, Phillips decidiu limpar o porão para colocar a casa à venda e enquanto desmontava o móvel descobriu casualmente os documentos em uma gaveta lacrada. "À princípio eu não sabia o que era, mas como parecia ser algo antigo, resolvi levar até um antiquário para que ele pudesse dizer do que se tratava e se era original".

O material estava disposto em duas pastas que ajudaram a preservar os papéis, ainda que alguns tenham sido avariados pelo tempo. Uma das pastas continha dois cadernos de anotações com capa de couro flexível, repletos de rascunhos e trechos para estórias. A outra continha cartas, rascunhos, desenhos e um copião.

Um dos cadernos contém anotações para ideias de contos e trechos soltos que chegaram a ser aproveitados em outros trabalhos em especial Montanhas da Loucura. O outro bloco é bem mais interessante para o público e fãs em geral. Trata-se de um caderno com cerca de 200 páginas, contendo rascunhos para pelo menos dois contos inéditos de Lovecraft. O primeiro intitulado "The Awake of Cthuhu" (nome provisório cuja tradução é "O Despertar de Cthulhu") se propõe a ser uma sequência para Chamado de Cthulhu ("The Call of Cthulhu") publicado em 1928, um dos mais famosos trabalhos do autor. O outro chama-se "The Book Index" um rascunho a respeito de outra importante criação de Lovecraft, o Necronomicon um tomo maligno que encerra segredos ancestrais. Além desse material há ainda poesias inéditas e algumas anotações interessantes.

Os dois contos inéditos estão sendo analisados por especialistas da Universidade e por peritos em grafologia para atestar a autenticidade da rebuscada caligrafia e se a autoria é condizente. Análises preliminares atestaram que os documentos parecem autênticos e se eles se provarem genuínos serão os primeiros contos de Lovecraft encontrados em décadas.

Os documentos foram generosamente doados pelo Sr. Richard Phillips para a Biblioteca do Congresso e após a autenticação serão divulgados na íntegra.

As páginas de um dos cadernos foram separadas para uma análise mais criteriosa por especialistas e grafologistas.

A caligrafia lembra muito a de Lovecraft


* * *

O que isso significa?

Bem que em alguns meses teremos uma continuação para um dos contos principais escritos por H.P. Lovecraft e um inédito que desde já desperta grande interesse por tratar especificamente do Necronomicon.

Em tempo, fiz uma pesquisa na internet a respeito da notícia e descobri alguns rumores sobre "The Awake of Cthulhu". O rumor mais persistente diz que a trama é dividida em três partes em que o protagonista, ninguém menos que Randolph Carter (para muitos o alter-ego de Lovecraft) investiga ramificações do culto de Cthulhu em diferentes partes do mundo. A primeira parte se passa no África do Norte, a segunda em Burma e a terceira na Selva Amazônica. Se essa informação for verdadeira, este será o primeiro trabalho de Lovecraft situado no Brasil, o que já constitui uma curiosidade e tanto.

Estudiosos e pesquisadores que tiveram acesso ao conto, com cerca de 160 páginas disseram que se trata de uma obra tipicamente lovecraftiana.

Resta agora esperar. 

A Editora Harper Collins demonstrou interesse em comprar os direitos de publicação do manuscrito e espera lançar uma edição especial em setembro.