quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Gênios Imperfeitos - Crowley e Tesla separados por um amigo em comum


Dois personagens do mundo real que sempre estão em evidência aqui no Mundo Tentacular são o ocultista Aleister Crowley e o brilhante inventor Nikola Tesla.

A vida dessas incríveis indivíduos é tão notável que eles parecem personagens da ficção. É difícil até separar o que é real daquilo que soa fantástico, e coisas fantásticas não faltam na história dos dois... Quando li esse artigo, imediatamente achei interessante a proposta de correlacionar esses dois e imaginar como poderia ser um encontro entre eles já que eles viveram na mesma época e inclusive na mesma cidade. 

Então, baseado no artigo "Tesla and Crowley - Two Degrees of Separation" de Artur O'Keefe aqui está a história.

O influente poeta/ocultista Aleister Crowley e o inventor Nikola Tesla viajaram em círculos semelhantes, mas nunca se encontraram. O que poderia ter acontecido se eles tivessem?

O Ocultista, o Inventor e o Poeta


Aleister Crowley (1875-1947) foi um icônico ocultista inglês cuja influência na cultura popular se estende a mídias tão variadas quanto quadrinhos, filmes e capas de álbuns. Ele é visto por alguns como um grande inovador e uma espécie de revolucionário espiritual; um profeta se preferir. Para outros, ele é um notório bruxo e até satanista, que tomou para si o apelido de “o homem mais perverso do mundo” que usou om distinção. 

Nikola Tesla (1856-1943) é igualmente icônico em seu campo, ele foi um inventor sérvio-americano, imensamente celebrado pela cultura popular. Ele se tornou conhecido pelos conceitos inovadores que ajudaram a moldar o mundo moderno, como a corrente alternada, hidroeletricidade e veículos de controle remoto. Como Crowley, o legado de Tesla não é isento de controvérsias. Louvado por muitos como um gênio muito à frente de seu tempo, outros veem suas realizações como grosseiramente exageradas, e a retórica às vezes pode parecer totalmente partidária.

Se você conhecesse esses dois caras, não tentaria reuni-los?

No início do século XX, o poeta, jornalista e editor da Revista New Yorker, George Sylvester Viereck (1884-1962) conhecia tanto Crowley, quanto Tesla. Na verdade, Viereck conhecia tão bem os dois homens a ponto de visitá-los, ter com eles jantares sociais e confraternizações frequentes. Contudo, não há nenhum registro de que ele os tenha apresentado, mesmo por correspondência.


Foi no período entre guerras que Viereck e Tesla se tornaram especialmente próximos. O biógrafo de Tesla, Marc J. Seifer, observa em seu livro "Wizard: The Life and Times of Nikola Tesla" que o jornalista e o inventor estavam conectados por meio de Robert Underwood Johnson, editor da "Century Magazine", que começou a publicar “poemas provocativos de Viereck como 'The Haunted House'” em 1906. Johnson também era amigo próximo de Tesla no início da década de 1890. Seifer coloca o início da amizade entre Tesla e Viereck em meados do início da Primeira Guerra Mundial.

Foi também durante a Primeira Guerra Mundial que Viereck e Crowley começaram uma relação de trabalho. Crowley estava morando em Nova York e escreveu para a revista de Viereck e mais tarde para outras publicações que ele supervisionava. Crowley foi tão bem que acabou sendo convidado para atuar como editor. Ele contribuiu com muitos poemas, ensaios e contos assinados com seu nome, bem como outros sob pseudônimos.

A essa altura, vocês deve se perguntar "Quem diabos foi George Sylvester Viereck?"


O homem que tinha ligação com Crowley e Tesla nasceu em Munique em 1884. Supostamente era neto do Kaiser Wilhelm I através do nascimento fora do casamento de seu pai, George Sylvester Viereck que emigrou para os EUA em 1897. Desde jovem ele exibiu aspirações literárias e por volta dos 20 anos estava publicando poesia. Ele logo alcançou fama literária e, em 1909, era, nas palavras de Seifer, "a mais brilhante estrela em ascensão no mundo da poesia".

Presumivelmente influenciado por sua herança germânica, depois que a Grande Guerra estourou, Viereck ficou alarmado com o possível envolvimento dos EUA no conflito. A entrada do páis e o rompimento da neutralidade era no seu entender algo que o afetaria enormemente. 

Tendo voltado de Berlim em meio à guerra, Viereck cortejou o importante político Teddy Roosevelt e emissários do presidente [Woodrow] Wilson. Ele tentou convencê-los a manter a neutralidade americana. Simultaneamente, começou uma nova publicação com outros importantes alemães que residiam no país. Inicialmente bem recebida, a publicação logo alcançou 100.000 assinaturas. Para a época era um sucesso editorial considerável.

Viereck, convencido de que a Alemanha estava certa, não esperava nenhuma intervenção americana contra as Potências Centrais. Explorar seu estrelato literário para fazer petições a líderes políticos demonstra o quão intenso era esse desejo e o tamanho de sua influência. Nessa época ele conheceu Aleister Crowley.


Crowley chegou a Nova York, no Halloween de 1914. Um escritor prolífico de poesia, ficção e ensaios, seu trabalho começou a aparecer na Revista Vanity Fair, bem como na Fatherland editada por Viereck. Crowley assumiu a função de editor com uma linha amplamente favorável a causa da Alemanha. Sendo inglês, Crowley foi denunciado como traidor de seu país; ainda que anos mais tarde ele tenha assegurado que suas opiniões visavam minar secretamente os esforços de propaganda alemã na América. 

Crowley afirmava que seguia ordens do Ministério das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, agindo na qualidade de agente secreto para espionar alemães instalados nos Estados Unidos. Se isso é verdade ou não, é difícil dizer, uma vez que Crowley inventava muito à respeito de sua própria vida. Crowley escreveu repetidos artigos nos quais defendia a guerra submarina irrestrita da Alemanha que acabou levando ao naufrágio do navio de passageiros britânico Lusitania em 1915, bem como ataques a navios transatlânticos dos EUA. Tal coisa atraiu os EUA para a guerra em 1917. Segundo biógrafos de Crowley, manifestar esse sentimento pró-germânico não passava de um truque para ganhar a confiança dos alemães. Com isso, ele obtinha livre acesso e transitava entre empresários, artistas e pensadores alemães que viviam nos EUA. Ouvia o teor de suas reuniões sociais e de suas opiniões sobre a Grande Guerra, e tudo aquilo que parecia importante ou interessante era reunido em dossiês enviados para a Embaixada Britânica.

Em 1919, com a Grande Guerra finalmente terminada, Crowley voltou para a Inglaterra onde foi bem recebido. Ele afirmava ter recebido uma soma considerável como recompensa pelo seu trabalho de espionagem em Nova York.

Ele se encontraria com Viereck novamente, em Londres no ano de 1936. Os dois almoçaram algumas vezes e Crowley contou ao amigo qual era a sua função em tempos de Guerra. Aparentemente Viereck não se importou com a função de agente duplo. Pouco depois, Crowley escreveu a Viereck pedindo-lhe que recomendasse ao chanceler alemão Adolph Hitler seu "O Livro da Lei" (texto central de Thelema) como uma possível fonte de princípios filosóficos para o nazismo.


Viereck conheceu Hitler e esteve com ele várias vezes. Era uma pessoa influente que concordava com os ideias nazistas para reerguer a Alemanha destruída após a Grande Guerra. Há boatos de que Viereck atuava como consultor dos nazistas sobre a América. Não se sabe se ele entregou ao Chanceler Hitler o livro presenteado por Crowley e se o fez, o que o Führer achou dele.
 
Crowley esperava que a doutrina da Thelema, uma vez adotada pelos nazistas poderia evitar uma guerra, ou ao menos foi o que ele escreveu em suas memórias. Quando ficou claro que a Europa seria arrastada para um novo Conflito militar, Viereck se separou de Crowley e os dois deixaram de trocar correspondências, sobretudo depois que o ocultista se manifestou contra os Nazistas. 

Quando Crowley chegou a Nova York em 1914, Tesla já estava lá. De etnia sérvia, nascido em 1884, ele emigrou do Império Austro-Húngaro e passou praticamente o resto da vida morando em Manhattan. Depois que Crowley partiu em 1919, Tesla continuou na cidade e sua amizade com Viereck se intensificou.

Mesmo com Viereck adotando uma postura mais radical pró-Alemanha, depois de 1933 quando Hitler subiu ao poder, isso não se tornou um problema para a amizade com Tesla. De fato, Tesla detestava política e se mantinha neutro na maioria das questões. 

Pode ser chocante para alguns saber que um dos amigos mais próximos de Tesla era um ferrenho nazista, ou pelo menos simpatizava enormemente com a agenda Nacional Socialista. Tesla foi de alguma forma capaz de se conectar com Viereck de uma forma distinta da ideologia. O mais perto que o inventor chegou de expressar quaisquer pontos de vista político pode ter sido em uma entrevista de 1937 conduzida pelo próprio Viereck. Tesla é citado como tendo dito que avanços na tecnologia poderiam ser um meio de abolir a guerra e que os alemães haviam feito progressos louváveis em vários campos da ciência.

O que quer que Tesla pensasse sobre a política de Viereck, passada ou presente, ele gostava dele pessoalmente. Tesla chegou a escrever uma carta em abril de 1934 na qual chamava o amigo de "o maior poeta da América" e de "um dos maiores artistas de seu tempo".

X

Depois que os Estados Unidos entrou na Segunda Guerra Mundial, Tesla pode presumivelmente ter adotado uma visão mais sombria das crenças de Viereck. Seu estado de saúde estava deteriorando, em face de sua condições financeira cada vez mais desesperadora. Tesla vivia em um quartinho de hotel, comendo biscoitos e ganhando a vida consertando rádios e motores de automóveis. 

Durante a Segunda Guerra Mundial Viereck teve sérios problemas. Marcado por suas atividades pró-alemãs durante a guerra anterior, em 1942, ele foi observado pelas autoridades Norte-Americanas por suspeita de espionagem. Acabou preso e condenado por não notificar ao governo dos EUA que estava realizando encontros e reuniões com outros alemães. 

Ele foi libertado apenas em 1947, no mesmo ano em que Aleister Crowley morreu de doença cardíaca e bronquite. Tesla já havia falecido, sozinho e na pobreza, sucumbindo a um ataque cardíaco em seu quarto barato de hotel em janeiro de 1943. Viereck morreu de hemorragia cerebral em 1962.

Diante disso, podemos nos questionar por que Viereck não apresentou duas figuras que eram tão próximas a ele?

Especula-se que Crowley e Tesla podem ter sido conectados através da Wardenclyffe Tower, a estação experimental de transmissão sem fio de Tesla perto de Shoreham, Long Island. Crowley era conhecido por acampar nas proximidades da estação onde raios e descargas elétricas assustavam os moradores. É bem possível que ele tenha testemunhado esses testes ou ao menos ouvido falar deles uma vez que eram bastante comentados.

Parece perfeitamente razoável assumir também que Crowley e Tesla estivessem cientes da existência um do outro, afinal eram pessoas notáveis de sua época. Jornais e revistas costumavam estampar manchetes sobre seus feitos frequentemente. Mas será que eles sabiam que Viereck era amigo comum de ambos?

Viereck pode ter pensado que Crowley e Tesla juntos seriam a combinação final de óleo e água. Qualquer que fosse a profundidade de seu compromisso com o estudo da magia (ou magick, como soletrava), Crowley era, à sua maneira, um libertino. Sua promiscuidade sexual e uso de drogas, particularmente seu vício em cocaína e heroína, são lendários. (“Sex magick”, ou rituais esotéricos nos quais a atividade sexual desempenhava papel central, era sua busca comum.) Tesla, em comparação, era notoriamente germofóbico, um bebedor moderado e aparentemente celibatário (ele nunca se casou). Ele também evitou cafeína e tabaco, enquanto Crowley escreveu uma oração elogiando o café e fumava cachimbo diariamente. 

Com tão pouco em comum e muito diametralmente oposto, talvez Viereck pensasse que Crowley e Tesla se odiariam e não queria arriscar o antagonismo de um, ou, ambos.

Ainda assim, um encontro de Crowley e Tesla certamente teria sido fascinante de testemunhar, qualquer que fosse o risco de os dois não se darem bem (ou talvez por causa disso). Quem sabe? Talvez algum dia alguém prove que eles realmente se conheceram.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Ilha Cemitério - Adaptando uma ilha aterrorizante para Chamado de Cthulhu

"O que mais poderia ser aquele lugar esquecido por Deus, além de um cemitério? Olhei para a ilha como se, só agora a reconhecesse pelo que ela era. Agora eu tinha razão para desprezar aquelas costas curvas, a praia sórdida, o cheiro de pêssegos podres. (...) Os pobres rostos esverdeados, picados pelos peixes, os uniformes podres, as medalhas de identificação cobertas de algas. Que morte, e pior ainda, que viagem depois da morte, esquadrões de companheiros levados pelas correntes do Golfo até aquele porto horrível. Eu imaginava, os corpos daqueles soldados, sujeitos aos caprichos das marés, levados para trás e para frente no dorso das ondas, até uma perna ou um braço enganchar-se em uma rocha, deixando de ser possessão do mar. Apodrecendo pouco a pouco nas praias até serem descarnados pelas gaivotas."

Clive Barker
Bodes Expiatórios 
Livros de Sangue - Volume 3

O conto Bodes-Expiatórios (Scape-Goats) faz parte do volume 3 da antologia de terror "Livros de Sangue", escrita por Clive Barker. Essa é uma história que sempre achei interessante, pela simplicidade e pela aura de estranheza desagradável que ela consegue passar para o leitor.

A história não se preocupa de explicar o que está acontecendo ou como se formou o lugar medonho no meio do Mar do Norte, onde um grupo de pessoas viajando à lazer num veleiro acaba naufragando. O lugar, uma ilha medonha para onde as correntes levam cadáveres afogados é um lugar de pesadelo, o típico recôndito aterrorizante que Barker cria para seus contos de horror.

Após ter escrito o artigo anterior sobre o Mar de Sargaços, li novamente Bodes Expiatórios e surgiu a ideia de adaptar na forma de um terror lovecraftiano. Ok, concordo que a pegada de Barker é outra... seus horrores são mais viscerais e "down to earth", mas nem por isso menos assustadores. Como a Ilha Cemitério poderia ser trazida para o universo de Chamado de Cthulhu

Aqui está o resultado.

*     *     *


A ILHA CEMITÉRIO

Ao norte das Ilhas Britânicas, próximo do Arquipélago das Hébridas, existe um pequeno monte de terra, praticamente um torreão quase inacessível que afortunadamente se mantém oculto a maior parte do tempo. É difícil localizar essa rocha perdida em meio das águas frias e cinzentas, mas os que a avistaram ao longe a descreveram como uma ilhota triste e perdida.

Aqueles que sabem das histórias sobre ela, a evitam. Os que ignoram seus segredos macabros estão em grave risco de eles próprios se tornarem vítimas desse lugar maldito.

A Ilha não tem nome e não aparece em nenhuma carta náutica de que se tem conhecimento, mas ela está lá e ao que tudo indica, sempre esteve e sempre estará. A relação dela com os homens do mar é antiga. Os saqueadores nórdicos falavam dela, assim como os marinheiros da Era das Navegações que olhavam o horizonte temerosos de avistar essa ínsula. Eles sabem que é para lá que as correntes do Golfo carregam despojos humanos lançados no Mar do Norte. 

Por alguma razão sobrenatural, os restos de marinheiros são atraídos para esse lugar remoto, carregados pela maré e lançados contra as praias de areia cinzenta recobertas de alga. A Ilha parece reivindicar para si essa carne putrefata e dela se alimenta para crescer. 

Algumas embarcações que se perdem de sua rota acabam sendo atraídas para esse nexo medonho. As correntes agarram as embarcações escolhidas e as faz cruzar o denso nevoeiro que oculta a ilha. Não há como enxergar um palmo diante do nariz, o fedor nauseante parece enfiar uma mão podre pela garganta dos recém-chegados. Em tempo, os barcos acabam encalhando em algum banco de areia que os impede de prosseguir.

Suspenso o nevoeiro, a visão que se tem é de total desesperança. Algas verdes-castanhas, entrelaçadas como um denso tapete se estendem até onde a vista alcança. Algumas embarcações igualmente encalhadas nos bancos despontam aqui e ali: velhas e apodrecidas, cobertas de sal, espuma e alga. Mais adiante, se avista o litoral entrecortado, com uma praia isolada, nada mais que uma faixa estreita de sedimento granuloso. Não há vegetação nativa, exceto as algas onipresentes que a tudo cobrem e reclamam para si. O centro da ilha é um rochedo nu de pedra negra que se sobressai tal qual um totem primitivo na crista de um penhasco.

A ilha inteira tem uma aura maligna e ela não passa de um recife de cadáveres ocultos. 


Na sua orla exterior mais rasa, os corpos inchados de afogados se acumulam sob as algas, oculto pela a linha d´água. Eles cercam a beira-mar com seus olhos baços e cabelos molhados, pele úmida e gelada, dentes arreganhados e ossos à mostra. A maioria veste os andrajos de seus uniformes militares da Primeira Guerra, da Segunda Guerra e de todas guerras. São aqueles mortos em navios abalroados, torpedeados e afundados em meio a dor, horror e fúria. Seus corpos desaparecidos para sempre vem dar aqui, onde a morte reina suprema. 

Difícil não tropeçar neles enquanto se faz o caminho dos bancos de areia até a praia ignota tendo água até as canelas. Não há sons perceptíveis, exceto o grasnar rabugento de alguma gaivota que se refastela com a ceia fácil de carne macilenta. Os enormes caranguejos de casca manchada da cor das algas disputam alguma cartilagem solta, puxando e devorando os restos.  

Na fímbria, a areia está coalhada de ossos quebradiços como giz que se desfazem sob os pés dos recém chegados. Quando sobe a maré, a água lava a costa com uma espuma suja, oferecendo mais e mais despojos carcomidos. 

É justamente à noite que o perigo se revela na forma de espectros presos em seus simulacros de carne decomposta. Os mortos se erguem vagando cambaleantes, guiados por um macabro ressentimento contra os vivos. Há centenas, talvez milhares deles, afinal quantas vidas os mares clamaram? Não disse o poeta que nas profundezas oceânicas há mais ossos que conchas? 

Os cadáveres podem ser especialmente perversos com os forasteiros. Aqueles que tem sorte são simplesmente agarrados pelos dedos ossudos, arrastados para as águas rasas e ali afogados. Seu fim ao menos é rápido. Contudo, os mortos podem torturar mentalmente os náufragos por dias à fio até finalmente se revelarem. Sem água, sem comida e sem esperança, é questão de tempo até a sanidade desmoronar nesse cenário niilista.  


Aqueles que perecem na ilha ou nos seus arredores acabam se tornando matéria prima para ela. Os poucos que conseguem dela escapar carregam para sempre a lembrança de ter conhecido esse desterro apartado.

Nas ilhas vizinhas, há pessoas que conhecem a lenda sobre esse lugar; são habitantes das comunidades de pescadores mais afastadas. Eles alimentam a lenda da Ilha Cemitério através de histórias contadas nas tavernas quando há terra seca sob os seus pés. Tais histórias sabiamente jamais são contadas em alto mar. Alguns ilhéus mantém a tradição de oferecer sacrifícios para os residentes da Ilha Cemitério, antes de partir para águas abertas, como se essa oferta lhes desse salvo conduto dos perigos provenientes do mar.

Ideias para Usar a Ilha Cemitério em sua Mesa de Jogo:

- Esse ambiente parece perfeito para aventuras no estilo One-Shot, com os dois pés cravados no niilismo. Os personagens desembarcam nessa ilha medonha e não tem como voltar para a civilização. Cada lugar a ser explorado conduz a revelações bizarras, cenas grotescas e horrores desconcertantes. Não há fuga, não há esperança e sobreviver noite após noite, nesse ambiente insalubre é um desafio. Num ambiente como esse, dificilmente os personagens sairão vivos e sinceramente, a graça desse tipo de cenário é dar a eles uma visão do pesadelo, drenar sua sanidade e deixá-los lá para sempre: vivos, mortos ou pior...

- Os principais antagonistas e perigos no conto de Barker não eram os cadáveres mortos-vivos que se levantavam à noite, mas a perda da razão. A situação dos personagens deve se espelhar na perda maciça de sanidade em face do horror testemunhado. Os mortos-vivos (zumbis, esqueletos, horrores cobertos de alga ou gosma) estão lá, são um horror a ser explorado pelo Guardião, mas o principal horror é como lidar com uma situação limítrofe. A medida que a desesperança cresce, como irão reagir os personagens? A civilidade irá perder espaço a cada dia? Eles lutarão entre si pelos parcos recursos restantes? Eles disputarão a liderança das decisões? Eles irão formular algum plano de fuga e discutir quando ele falhar? 


- Apesar de adaptar a Ilha Cemitério para Chamado de Cthulhu, prefiro resistir à tentação de transformá-la num Grande Antigo ou num Deus Ancestral. Me parece que a identidade dessa coisa, ou sua natureza fica melhor oculta e ignorada. Ninguém sabe o que ela é, de onde veio, como surgiu... pode ser que a colina rochosa, um fragmento de uma cidade submarina dedicada a Cthulhu, pode ser um farol usado pelos Abissais ou um templo medonho devotado a Dagon. Mas saber exatamente o que ela é, não é importante para a história. Trata-se de um lugar abominável e isso basta para o cenário.

- Talvez a ilha seja uma "Entidade Única", uma espécie de ser que desenvolveu consciência graças aos mortos atraídos por ela ao longo de séculos. A Ilha poderia ser o resultado de toda a energia negativa, ressentimento, terror e desesperança das pessoas que morreram em alto mar. Talvez a ilha possa se comunicar com quem veio de fora através de emanações psíquicas: oferecendo visões, fomentando paranoia e até sonhos repletos de profecias. A Ilha consciente usaria os cadáveres que a compõem como um tipo de mecanismo de defesa, vendo, ouvindo e sentindo o ambiente através deles, tudo aquilo que acontece em seus limites ela sabe.

- Eu gosto da ideia de haver ao menos um sobrevivente humano na ilha. Alguém para transmitir aos jogadores a sua experiência e mostrar o que os aguarda. Um sobrevivente insano, instável e incrivelmente perigoso parece algo bom demais para não ser usado. Talvez o sujeito tenha encontrado uma maneira de satisfazer a Ilha Cemitério e assim foi poupado. Talvez ele seja um escravo da Ilha e nessa qualidade se converteu em um fanático serviçal de seus caprichos. Posso imaginar um cara de barba comprida, olhar selvagem e comportamento homicida vivendo no porão de um barco tentando roubar suprimentos e matar quem invadir seus domínios.

- Da mesma maneira, o conto de Barker cita pequenas comunidades de pescadores que vivem isolados e que criaram seus próprios costumes. Poderiam esses homens rudes se tornar cultista da Ilha? O medo que eles sentem pode se converter em devoção? Nessa hipótese como eles fariam para louvar a Ilha Cemitério? Fariam sacrifícios para a entidade? O que receberiam em troca? E qual seria a reação deles se o seu culto fosse exposto por forasteiros?

- A ideia original é usar essa inspiração para Chamado de Cthulhu, mas é claro, nada impede que a ideia seja adaptada para outras ambientações. Eu posso imaginar perfeitamente esse cenário sendo usado em Dungeons and Dragons, para uma aventura especialmente aterrorizante na qual os heróis precisam enfrentar hordas de mortos vivos para sobreviver, até encontrar algo que habita o coração da Ilha e que apenas sua destruição permitirá sua escapatória. Para a ideia funcionar é só fazer as devidas alterações: navios à vela, mortos vivos de todos os tipos, espectros e outros terrores se encaixam perfeitamente numa história de sobrevivência em alto mar.

Bem é isso...

sábado, 7 de janeiro de 2023

Prisioneiros das Algas - Os Mistérios do lendário Mar de Sargaços


O Mar de Sargaços é uma estranha e única criação da natureza. Por muitos anos esse lugar inóspito tem assustado e fascinado as pessoas. Ele é composto por uma vastidão marítima medindo aproximadamente 1130 quilômetros de largura por 3200 quilômetros de comprimento, localizado no Atlântico Norte, próximo do Mar do Caribe. O mar não possui nenhum litoral expressivo mas é limitado por correntes marinhas em todos os seus lados. A Ilha de Bermuda fica em sua fronteira ocidental e constitui sua única massa expressiva de terra.

Com diferentes correntes submarinas, esta área se diferencia das correntes frias que predominam no Atlântico Norte, possuindo trechos quentes e estáveis. Além disso, a área é submetida a temperaturas atmosféricas elevadas, longos períodos de sol e ventos amenos. Essas condições específicas fazem com que o trecho seja único por uma característica notável: a enorme concentração de algas marinhas. A vegetação forma um espesso tapete na superfície e recobre tudo. Esta vegetação de coloração castanha-esverdeada é conhecida como Sargassum e é ela que dá nome ao mar.

Embora o Mar de Sargaços seja incrivelmente calmo, um giro subtropical, uma espécie de sistema de rotação de correntezas se forma abaixo dele. Como resultado o mar inteiro formado pelo tapete de algas realiza um movimento contínuo de rotação em sentido horário. Entretanto, ele é tão lento que parece estático visto da superfície. 

O primeiro navegador a  registrar a existência do Mar dos Sargaços provavelmente foi Cristóvão Colombo em 1492, em sua viagem que resultou na descoberta do Novo Mundo. Ele anotou em seus diários a dificuldade de atravessar a área mergulhada em calmaria e densa vegetação marinha.


Coube aos portugueses o pioneirismo de explorar o Mar de Sargaços em meados do século XV. Ao se deparar com o local, os marinheiros acharam que haviam atingido os limites da borda do mundo e se perguntaram se ele não seria realmente chato. Temiam navegar através daquela superfície verde limosa que poderia ser o esconderijo de monstros, criaturas desconhecidas e outros terrores ocultos. As âncoras de sondagem revelaram que o mar era bastante profundo, diferente dos locais onde proliferam as algas, geralmente bem rasos. Eles temiam também que não houvesse saída e que ficassem eternamente presos naquele lugar. Superar a falta de vento sempre foi um desafio no Mar de Sargaços e em tempos no qual se dependia quase que exclusivamente do vento para impulsionar as embarcações, a calmaria do local constituía um problema considerável. Muitas tripulações precisavam remar através dele, um exercício ingrato em meio às algas que pesavam nos remos.

Os supersticiosos homens do mar acreditavam que o Sargassum era responsável por conter os navios, agarrando-se às embarcações e não permitindo que elas se movimentassem livremente. Eram como mãos invisíveis nas profundezas, agarrando e retendo os barcos. Muitos acreditavam que ficar preso no Mar de Sargaços constituía um risco mortal não apenas no sentido de se verem presos indefinidamente, mas por que alguns juravam que o lugar fazia mal para os sentidos e a própria razão. Havia algo no ambiente insalubre e coberto de algas que afetava o discernimento dos marinheiros (ou assim pensavam). Aqueles que permaneciam estagnados por mais de uma semana arriscavam sua sanidade.

Talvez não estivessem totalmente errados! O Mar de Sargaços é acometido de temperaturas altíssimas, de uma secura absoluta e de um cheiro salobro característico bastante desagradável. A decomposição das algas produz um fedor hediondo, sobretudo quando o sol está à pino. As algas também dificultam a pescaria e os animais que vivem nessas águas não são próprios para o consumo. Em resumo, você não quer estar em um lugar como esse por mais tempo que o necessário. 

Não faltam lendas sobre o Mar de Sargaços e entre os marinheiros ele é fonte quase inesgotável de histórias perturbadoras. É claro, uma das lendas mais fantásticas menciona os monstros que habitam as profundezas desse lugar ermo. São descritos como seres humanos cobertos de algas e musgos, nadando sob o tapete de Sargassum, vindo à superfície apenas para espiar por um momento ou então puxar os vivos para o fundo. Presume-se que eles sejam os espíritos de marinheiros que morreram afogados ou que enlouqueceram nesse trecho ermo do Atlântico. Também há a teoria de que eles seriam homens que enlouqueceram após beber dessas águas impuras e que cometeram suicídio. Além dos Homens de Algas, há histórias sobre serpentes marinhas, gigantescos cefalópodes e caranguejos de dimensões titânicas que devoram a carne dos homens do mar. 


Uma história supostamente real envolve o local conhecido como Horse Latitudes (Latitudes Equinas) uma área que fica entre os meridianos 30 e 35 exatamente dentro do mar. Ela recebeu esse nome  por conta de um lendário incidente envolvendo uma expedição espanhola que transportava cavalos para o Novo Mundo. Uma vez que as embarcações ficaram presas no Mar de Sargaço, a tripulação decidiu lançar os cavalos ao mar por não ter como alimentá-los. Mais de 100 animais teriam sido atirados na água e afundaram como pedras. Dizem as lendas que embarcações passando por esse trecho por vezes ouvem o som de cavalos relinchando e de animais em desespero.

Na tradição náutica, o Mar de Sargaços é o proverbial "Cemitério de Navios Perdidos” e tem sido discutido e evitado por marinheiros desde os tempos antigos.

Na ficção, a região se tornou pano de fundo de histórias sobre mistérios e horror a partir do final do século XIX com o conto In Sargasso (1896) de Julius Chambers e In the Sargasso Sea (1898) de Thomas A. Janvier. Algumas ideias sobre o Mar de Sargaços se sedimentaram em 1896 graças a Janvier que escreveu um romance dramático sobre a região, no qual descreve o mar como um emaranhado impenetrável de ervas daninhas agarradas firmemente aos restos de navios de todas as idades, de galeões espanhóis a embarcações modernas.

O tal "Emaranhado impenetrável" se tornaria uma “fronteira” sobrenatural por intermédio de William Hope Hodgson, que publicou uma coleção de contos fantásticos entre 1906 e 1920. Em “From the Tideless Sea” (1906), o narrador de Hodgson descreve os horrores de estar preso no coração do terrível Mar de Sargaços - o "Oceano Sem Marés do Atlântico Norte". O protagonista, um náufrago preso a um mastro, vê-se atordoado diante de um horizonte interminável de ervas daninhas - uma vastidão silenciosa e traiçoeira de limo hediondo!


No mundo real as coisas não são exatamente como na ficção. Não espere encontrar um cemitério de velhas embarcações agarradas às algas e cobertas por elas - essa é meramente uma invenção que para muitos se tornou um fato. Contudo, é inegável que o Mar de Sargaços constitui uma estranheza difícil de explicar e enervante de navegar. 

O local foi integrado à ficção científica no início dos anos 1930.

A identificação explícita do Mar dos Sargaços com o Continente de Atlântida começou com os trabalhos "Lendárias Ilhas do Atlântico de Babcock" (1922) e "Atlântida na America" (1925) de Lewis Spence. O autor atribui a descrição do Filósofo Platão à respeito de águas atlantes pós-cataclismo como "inavegáveis" as "águas mortas de um Mar de Algas". O vasto corpo de água abrange toda a área da ilha de Antillia de Spence, bem como a parte sul de sua Atlântida.

A conexão entre o Continente perdido e o Mar de Sargaços foi presumida pelo famoso escritor, folclorista, teórico e profeta Edgar Cayce, que mencionava em seus textos que a mítica Atlântida estaria próxima do Mar de Sargaços e que este se formou quando ela foi para as profundezas. Segundo ele, o Mar era uma prova da existência de Atlântida. 

Em palestras realizadas na década de 1930, Cayce descrevia as causas e os efeitos da destruição da Atlântida e o surgimento do Mar de Sargaços:

"Os augustos habitantes de Atlântida trouxeram à mente do homem as forças que se manifestavam pela associação mais próxima do mental e do espiritual. Eram forças científicas que lhes garantiam amplos poderes sobre o mundo que os cercava. Eles desenvolveram o uso de tecnologias notáveis: o uso dos gases, da transformação de elementos, e a elevação dos poderes do próprio sol, também empregaram a desintegração do átomo. Mas em algum momento, a tecnologia deles provocou a destruição naquela porção de terra onde viviam. E disso resultou um desastre de grandes proporções cuja evidência hoje é representada pelo Mar dos Sargaços."


Nas controversas teorias de Cayce, que encontraram enorme aceitação na década de 1930, a Civilização da Atlântida era incrivelmente avançada, com uma tecnologia superior à dos homens em seu tempo. Ele defendia que a destruição do Continente teria ocorrido em função do uso de uma tecnologia desconhecida que se mostrou perigosa. Os sobreviventes da destruição de Atlântida teriam deixado sua Ilha Submersa e se dispersado pelo mundo originando as grandes civilizações do passado - babilônios, gregos, egípcios, astecas e outras seriam seus descendentes.

Mas não foi apenas Cayce quem usou o Mar de Sargaços como base para provar teorias polêmicas. Charles Fort, o controverso criador da Investigação Paranormal Moderna (chamado por seus seguidores de "Pai do Inexplicável"), defendia a existência de um “Super-Mar de Sargaço” em seu primeiro livro, The Book of the Damned (1919). Parte reportagem, parte estudo e parte literatura especulativa, o texto de Fort era um ataque contra o que ele via como arrogância das ciências tradicionais que excluíam tudo aquilo que não podiam comprovar. Fort defendia que o "Paranormal", se colocava além da Natureza, era atuante e poderoso desde o início dos tempos e que essa força era preterida pelos cientistas apenas porque eles não podiam comprová-la.

Fort usou o Mar de Sargaços como metáfora para suas teorias. Fort acreditava na existência de um Mar Invisível que seria como um tanque de retenção extradimensional, no qual as coisas apareciam inexplicavelmente (peixes caindo do céu) e no qual coisas desapareciam inexplicavelmente (como a tripulação do Mary Celeste). 

"Objetos abandonados, lixo, cargas velhas de destroços; coisas lançadas na atmosfera, objetos dos tempos dos Alexandres, Césares e Napoleões, de Marte e Júpiter; coisas levantadas pelos ciclones desta terra: cavalos e celeiros, de elefantes a insetos; folhas de árvores atuais e folhas da era carbonífera – todas essas coisas poderiam ser tragadas pelo Super-Mar de Sargaço e despejadas de tempos em tempos em nosso mundo sem que possamos compreender como e porque tal fenômeno acontece", postulava Fort.


Quanto ao Mar de Sargaço real e físico, Fort defendia que ele era a única manifestação visível desse Super-Mar de Sargaço dimensional, muito maior e muito mais misterioso. Fort realizou palestras sobre suas teorias e obteve grande fama como pesquisador devotado e também charlatão em busca de atenção. Ele pretendia realizar uma expedição ao Mar de Sargaço que tentaria provar as suas estranhas teorias, mas esta jamais aconteceu. 

Em tempos mais recentes os desaparecimentos no Mar de Sargaços e os estranhos incidentes transcorrendo em seus limites se tornaram parte das lendas sobre OVNIs. 

Muitos ufólogos de renome descrevem o Mar de Sargaços como uma zona de grande atividade ufológica. De 1968 em diante, teóricos como Charles Berlitz passaram a designar o local como área de atividade de OVNIs e OSNIs (Objetos Submarinos Não-Identificados). Os OSNIs, aliás, se tornaram os principais avistamentos no Mar de Sargaços e fonte quase inesgotável de narrativas fantásticas. Berlitz também reintroduziu a conexão original entre o Mito de Atlântida e o Mar de Sargassos lançada por Babcock em seu primeiro livro "The Mystery of Atlantis" (1969) no qual o Mar de Algas servia como referencial para comprovar certos pontos da lenda de Atlântida. Em muitas fontes é possível encontrar uma relação direta entre o Mar de Sargaço, o Mito de Atlântida e avistamentos de OVNIs e OSNIs na região. 

O Mar de Sargaços foi quase completamente desmistificado em meados do século XX, sendo objeto de repetidos estudos científicos. Expedições conseguiram explicar o porque da formação de suas algas, as razões para as correntes se comportarem da maneira como o fazem e outras questões que deixaram os primeiros marinheiros intrigados. Além disso, o apelido de "Cemitério de Navios Perdidos” há muito foi transferido para o Triângulo das Bermudas, cujas supostas propriedades sobrenaturais continuam desafiando explicações.

Hoje, ela está longe de ser um enigma, mas ainda assim, navegar por essas águas cobertas de algas ainda causa considerável estranheza. 

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

A Trilha do Sr. Crowley - Os lugares soturnos que a Grande Besta visitou


Nascido no ano de 1875, é provável que não haja nenhuma figura na história que possa ser considerado tão sinônimo de esoterismo e magia quanto Aleister Crowley. O ocultista, feiticeiro cerimonial, poeta, pintor, romancista, montanhista e autoproclamado profeta inglês, encarregado de levar a humanidade a uma era de consciência cósmica e auto-realização chamada de Eón de Horus, iria ao longo de sua vida também ser conhecido como "A Grande Besta" e o "Homem mais Perverso do Mundo", uma reputação que ele conquistou por méritos próprios. 

Originalmente um membro da prestigiada Ordem Hermética Esotérica da Golden Dawn, que se dedicava à magia antiga e filosofia mística, Crowley deixaria ao longo de sua vida uma marca indelével no ocultismo. Ele foi fundamental para o desenvolvimento de vários movimentos religiosos e esotéricos alternativos, como a Ordo Templi Orientis, uma Sociedade chamada A∴A∴, e um culto de magia cerimonial chamado Ordem de Thelema, que Crowley acreditava ter sido ordenado a formar por uma entidade sobrenatural chamada Aiwass

Ao longo de sua vida muito (muito, muito) estranha, ele seria uma figura altamente influente no esoterismo ocidental, viajaria pelo mundo e entraria em todos os tipos de aventuras estranhas, e aqui veremos alguns desses lugares misteriosos ligados ao legado sombrio do soturno Senhor Crowley.

Um lugar em que a aura de Crowley ainda paira remonta aos seus dias quando ele era membro da Ordem Hermética da Golden Dawn. Essa Ordem mística nasceu na Era Victoriana e foi co-fundada pelo influente Samuel Liddell MacGregor Mathers. Crowley prosperou nessa sociedade fazendo amizade com Mathers e subindo rapidamente na hierarquia interna como um tipo de virtuose do cenário místico. Todos queriam conhecer o jovem Crowley e ouvir suas teorias peculiares, ainda que também tenha colecionado desafetos na Sede londrina. Seus críticos detestavam seus modos excêntricos, bissexualismo aberto , e seu estilo de vida hedonista e libertino. 

Usando de genialidade, brilhantismo acadêmico e trapaça, Crowley tentou ingressar no segundo posto mais alto da ordem que lhe foi negado apesar de Mathers apoiá-lo. A presença de Crowley causou uma grande divisão dentro da organização - uma disputa mística que envolveu acusações e dizem, encantos de morte. Mathers desafiaria o veredicto de seus pares na Sede de Londres e não apenas promoveria Crowley ao posto de "Adeptus Exemptus", um dos mais altos , mas também declararia que o capítulo de Londres não era uma parte verdadeira e oficial da Golden Dawn. No fim, os membros da Ordem acabariam por destituir o próprio Mathers. 

A ferrenha disputa interna causou uma grande fratura dentro da ordem. Crowley, o pivô da Crise chegou à conclusão de que a única maneira de remendar o problema era lançar um ataque mágico total ao templo da Ordem Hermética de Londres, localizado na época em 36 Blythe Road.


A sede londrina da Ordem Hermética da Golden Dawn era na época chefiada pelo famoso poeta irlandês, dramaturgo, escritor, ganhador do Prêmio Nobel e luminar da literatura William Butler Yeats, outra estrela em ascensão da Ordem e do ocultismo victoriano. Crowley e Yeats se tornaram inimigos mortais e escandalizaram a sociedade inglesa com uma rivalidade bizarra. Em 1900, a Grande Besta se vestiu com um traje completo das Highlands escocesas, com direito a kilt e uma máscara de Osíris, armou-se com uma adaga dourada e lançou o que ele chamaria de "um cerco astral" ao Templo da Ordem. Sua tática era lançar feitiços ritualísticos contra os rivais. 

O plano era conquistar o Templo e convertê-lo em seu, mas não saiu conforme o planejado, pois quaisquer feitiços que Crowley estivesse lançando acabaram irritando a sisuda sociedade londrina e atraindo a polícia local. As autoridades o prenderam, Crowley foi detido por agitação e a Sede de Londres moveu contra ele um processo judicial. 

Nos dias atuais, o local abriga um café chamado George's Café, e não há nada que indique que ali ocorreu a "Batalha da Rua Blythe". Contudo, foi lá, naquele endereço hoje comum que há mais de um século atrás os maiores magos ingleses se enfrentaram num campo de batalha místico - com feitiços sendo lançados e rituais conjurados por todos envolvidos.

O local mais conhecido associado às peripécias mágicas de Aleister Crowley foi a Boleskine House, uma mansão imponente no lado sudeste do Lago Ness, nas Terras Altas da Escócia. Construída na década de 1760 pelo coronel Archibald Fraser como um pavilhão de caça, a Boleskine House tinha uma aura sinistra desde o início, tendo sido supostamente erguida sobre as ruínas de uma igreja do século X que se incendiou. Foi também o esconderijo de um pérfido necromante que segundo as lendas locais andava reanimando cadáveres em um cemitério próximo. Em outras palavras, a mansão era perfeita para alguém como Crowley, que adquiriu o terreno da família Fraser em 1899.


Desde o início, o objetivo de Crowley era usá-lo para realizar uma série de rituais sombrios retirados de um grimório chamado "O Livro de Abramelin". As magias ritualísticas eram a paixão do Bruxo e seu maior fascínio. Ele acreditava ser capaz de realizar uma série de milagres: desde matar com a força do pensamento até ficar invisível, de invocar demônios a ganhar habilidades místicas. Contudo, nessa época, Crowley estava devotado a algo maior: Convocar seu Anjo da Guarda.

O ritual completo descrito no livro era um processo longo, tedioso e desgastante que demandava pelo menos seis meses e envolvia não apenas abstinência de prazeres mundanos, mas também a invocação dos doze Reis e Duques do Inferno. Estes deveriam ser compelidos a remover as influências negativas que exerciam sobre o mago. O grande risco do ritual é que se não fosse executado corretamente nos mínimos detalhes, poderia causar a loucura ou até a morte de seu realizador. 

Era essencial, segundo Crowley, dissipar as energias demoníacas que seriam invocadas no ritual. E essa acabou sendo sua maior falha: os demônios invocados acabaram ficando presos na casa o que causou todo tipo de infortúnio dentro e ao redor da Boleskine House nos anos seguintes. Um conhecido de Crowley, um escriturário chamado Hugh Gillies, sofreu uma série de tragédias pessoais, incluindo a perda de dois filhos. Outro indivíduo tentou assassinar toda a sua família antes de cometer suicídio. E houve inúmeros relatos de aparições fantasmagóricas e espíritos à espreita na área. 

Crowley admitiria que seus feitiços na casa haviam sido um fracasso e ele havia perdido o controle sobre os demônios. Os proprietários subsequentes da Boleskine também experimentariam assombrações, infortúnios e tragédias, incluindo loucura, suicídios e incêndios inexplicáveis. A Boleskine House manteve sua reputação sinistra até os dias atuais, e continua sendo um lugar com uma aura assustadora. 


Outro lugar que Crowley conseguiu imbuir de histórias estranhas é uma pequena ilha desabitada no rio Hudson em Nova York chamada Esopus Island. O lugar não era mais do que uma rocha nua pouco interessante, mas por alguma razão, Crowley pensou que era o local perfeito para traduzir o texto chinês filosófico taoísta  chamado Tao Te Ching

Em 1918, Crowley pegou uma canoa e viajou para a ilha com nada além de tinta, pincéis e corda para rapel, levando consigo 0pouca comida já que declarou que seria alimentado por corvos. Ele então passou os 40 dias e noites meditando, conduzindo rituais, pintando símbolos e mensagens com tinta vermelha nas rochas da ilha e basicamente assustando todo mundo que via seu comportamento bizarro. Crowley se manteve em uma espécie de transe influenciado por potentes drogas e psicotrópicos. 

Em meio ao seu estado psíquico, ele afirmaria que, enquanto esteve na ilha, recebeu inúmeras visões de suas vidas passadas, incluindo o taoísta Ge Xuan, o papa renascentista Alexandre VI, o alquimista Alessandro Cagliostro e o mágico Eliphas Levi, entre outros. Crowley teve sucesso na sua ambiciosa empreitada e o livro foi traduzido. 

Outra estranha façanha realizada por Crowley ocorreu em um local pitoresco chamado Boca do Inferno, ou "A Boca do Inferno", localizado nas falésias à beira-mar ao longo da costa oeste de Cascais, em Portugal. A Boca do Inferno é um abismo que conduz a um sistema de cavernas e recebe esse nome pelas ondas violentas que batem em seu paredão, criando um turbilhão de água e respingos marinhos. O lugar é notório, temido por muitas pessoas supersticiosas que acreditam ser ele um tipo de portão para os reinos inferiores. De fato, as histórias sobre bruxas, demônios marinhos e coisas estranhas encontram ali um cenário perfeito para se multiplicar. 

Em 1930, Crowley chegou ao local com a intenção de fingir sua própria morte por razões não totalmente compreendidas. O mago fez parecer que havia se lançado naquele abismo espumante e agitado e deixou uma nota de suicídio com o poeta Fernando Pessoa. A nota rabiscada, quase ilegível, escrita em um português terrível e adornada com inúmeros símbolos misteriosos que ninguém conseguia entender, foi amplamente divulgada nos jornais portugueses da época e dizia: "Não posso viver sem você. A outra boca do inferno que vai me engolir não será tão prazerosa quanto a sua."


Embora se pensasse que ele havia se matado por causa de uma amante, Crowley reapareceu três semanas depois em uma expedição artística à Berlim, e tudo indica que a tentativa de suicídio foi apenas uma brincadeira ou um belo golpe publicitário.

Juntando-se à lista de lugares estranhos associados a Crowley está uma pequena e despretensiosa villa de um andar de frente para o Mar Mediterrâneo em Cefalù, na pitoresca costa siciliana da Itália. Crowley e sua amante, Leah Hirsig, alugaram esse local em 1920 com o propósito de usá-lo como um templo e centro espiritual para os seguidores de sua nova sociedade de misticismo, um grupo que ele batizou "Collegium ad Spiritum Sanctum". O proposito era simples, estabelecer uma comunidade onde eles poderiam viver através da Lei de Thelema

Concebido como uma utopia idealista que serviria como escola de magia, templo, centro para rituais e local de cura espiritual, Crowley gostava de se referir a ele como um “antimosteiro” e seu edito para todos que chegassem lá era “ Faça o que tu queres há de ser tudo da Lei”. Não é de se surpreender, obviamente que a cada se tornou um lugar de hedonismo, orgia desregrada, uso de drogas psicoativas, rituais de magia sexual e todo tipo de devassidão. 

Adornado com numerosos murais e obras de arte pornográficas, além de várias pinturas e afrescos de demônios e monstros, Crowley esperava que este lugar se tornasse um destino global para seus seguidores. Lá, pessoas de todo o mundo, poderiam praticar magia e liderar um estilo de vida libertino. Era a utopia da Grande Besta elevada a décima potência, um lugar sem julgamento e sem regras além das idealizadas por cada um.

No entanto, em 1923, os habitantes locais já estavam fartos de todos os rituais e festas sexuais acontecendo aos olhos de todos. Houve uma queixa formal e várias testemunhas corroboraram que o comportamento dos estrangeiros era absurdo, passando do ponto do tolerado.


Após uma festa e ritual escandaloso que custou a vida de um dos protegidos de Crowley em meio a drogas e sexo as autoridades resolveram agir. O grupo foi formalmente expulso da Itália pelo regime de Benito Mussolini. A maior parte das obras de arte foi confiscada ou destruída pelos agentes fascistas que visitaram Cefalù e se depararam com coisas bizarras e inexplicáveis.

As ruínas daquilo que veio a ser conhecido como a Abadia de Thelema ainda estão lá, mas são uma sombra degradada de sua antiga grandeza hedonista. Dizem que a abadia ainda irradia uma aura potente de magia, deixada nas próprias paredes pelos rituais executados, no entanto, atualmente resta muito pouco para mostrar que Crowley e seus seguidores estiveram lá. 

Finalmente, chegamos a um lugar visitado por Crowley no fim de sua vida, uma comunidade inteira que ele supostamente amaldiçoou magicamente por despeito. 

Era o ano de 1944 e o ocultista já velho e fragilizado por uma vida de excessos, mudou-se para uma pequena pensão chamada Netherwood House, em uma cidade litorânea em East Sussex, na costa sul da Inglaterra. Sendo quem era, nao demoraria para o comportamento excêntrico chamar a atenção dos demais hóspedes. Embora Crowley tenha sido relatado a principio como charmoso e gentil, ele frequentemente se apresentava como "666" ou "A Besta". Ele pagava sua secretária com ensinamentos mágicos em vez de dinheiro, seu quarto era, como um jornal disse "repleto de pinturas misteriosas e opressivas como 'totens', cuja finalidade não podia ser compreendida”, e ele recebia a visita de uma procissão de feiticeiros, ilusionistas, alquimistas e outros ocultistas. 

Fora isso, segundo todos os relatos, Crowley levou uma vida relativamente normal (para ele) durante sua estada lá até sua morte em 1947. Contudo, sua reputação o precedia e ele era visto como um usuário de drogas degenerado e adorador de demônios. A cidade de Hastings recusou-se a permitir que ele fosse cremado lá e seu funeral foi chamado de Missa Negra.


  

Apesar do fato de que Crowley parecia estar feliz em Hastings, havia o boato persistente de que ele secretamente detestava o lugar, talvez porque ele foi condenado ao ostracismo por seus atos passados. Seja qual for o motivo, a história popular diz que ele canalizou uma enorme quantidade de energia mágica para amaldiçoar a cidade e aqueles que viviam ali. Pela sua maldição aqueles que nasciam na cidade nao teriam sucesso tentando sair e seriam sempre compelidos a voltar, não importa o quanto tentassem partir. Com efeito, seriam escravos deste lugar que eles nunca poderiam deixar. Diz-se que a única maneira de quebrar os efeitos da maldição é carregar uma pedrinha da praia de Hastings no bolso o tempo todo. 

A própria Netherwood House deixou de ser uma pensão por volta de 1970, e o prédio abandonado rapidamente ganhou a reputação de um lugar assombrado pelo fantasma de Crowley. Houve rumores de que Crowley havia deixado para trás móveis feitos de pele humana, grimórios de magia negra, artefatos egipcios e todo tipo de objetos oculto assustador. Um relato de um jornal da época diz:

"Um jovem saqueador lembrou-se de ter entrado na ruína vitoriana e rastejado até o porão, onde uma visão surpreendente o esperava. Espalhados pela escuridão estavam o que poderia ser chamado de “esculturas de papelão”, recortes, em forma de homem, fortemente crayonados e mantidos juntos por barbante. Eram "relíquias" que Crowley havia usado para fins rituais. Era assustador vê-los pendurados em pregos enferrujados e nas costas de cadeiras quebradas naquele silêncio estático e cheio de poeira. O mago havia falecido há muito tempo, mas seus dispositivos estranhos e ligeiramente infantis permaneciam como vestígios de um propósito misterioso além da mortalidade."

Crowley foi certamente uma figura importante no mundo do ocultismo, e definitivamente deixou sua marca em todas as coisas relacionadas à magia. Sua vida foi tão bizarra e tem sido tão comentada e especulada que às vezes é difícil separar o fato da ficção, mas ele certamente gostaria que fosse assim. 

Aqui vimos alguns dos lugares mais famosos, ou talvez infames associados a ele, e eles dão um vislumbre da estranha história desse indivíduo enigmático, lembranças de um pedaço muito estranho da história que será para sempre entrelaçado com o universo esotérico e o reino do paranormal.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

O Rei Vampiro - Loucura, tragédia e morte num Culto de Familia


Atenção: O texto à seguir contém descrições gráficas e conteúdo perturbador, recomenda-se discrição.

Fresno é um nome comum em cidades do sul da Califórnia, já que o termo se refere a uma árvores muito comum na região, o freixo. As chamadas Cidades de Freixo, ou em inglês "Ash Tree Cities", são famosas por sua composição multiétnica; verdadeiro caldeirão cultural formado por diferentes povos, nacionalidades, línguas e costumes.

A maior das Ash Cities, a cidade de Fresno experimentou um acelerado crescimento na segunda metade do século XX, tornando-se um centro populacional na área. Ainda assim, ela ainda mantinha uma aura de cidade do interior que encantava os visitantes e atraia mais e mais pessoas.

Contudo, nas décadas seguintes algo mudou... Fresno perdeu sua aura de inocência e o crescimento desordenado do perímetro urbano, sem falar da densidade populacional trouxe crime e desordem ao que um dia foi considerada uma das melhores cidades da Costa Oeste.

Em 2004, Fresno ganharia a atenção da grande mídia por conta de um crime brutal que deixou o país inteiro em estado de choque.

Era 12 de março, um dia abafado no qual a neblina sufocante da poluição, o smog, estava mais forte que nunca. Policiais foram mandados até um endereço na West Hammond Avenue, bem no coração de Fresno. Vizinhos diziam que estava acontecendo uma acalorada discussão a respeito da custódia legal de crianças e os lados da querela pareciam prestes a partir para as vias de fato. Uma viatura foi despachada imediatamente e chegando ao endereço, que ficava em uma casa grande, porém em péssimo estado, encontraram Ruby Ortiz e Sofina Solorio. As duas estavam acompanhadas de outros membros da família, mas sem dúvida eram elas que pareciam se destacar, sobretudo por estarem muito exaltadas.
 
As mulheres disseram temer pela segurança de suas crianças, mantidas no interior da casa contra a vontade delas. Elas alegavam, quase em pânico, que o homem que residia naquele lugar, identificado como tio das crianças, se negava a devolvê-las. O nome do sujeito era Marcus Wesson, e elas temiam que ele pudesse machucá-las. 

Os policiais ouviram a parte delas e queriam escutar o que o sujeito tinha a dizer, por isso bateram a porta. Parecia ser apenas mais uma disputa sobre guarda de menores, algo muito comum na vizinhança onde casamentos e uniões estáveis duradouras eram algo incomum. Após bater insistentemente, os oficiais finalmente obtiveram resposta vindo de dentro - uma voz de barítono respondeu e logo em seguida um homem negro apareceu na fresta da porta. Ele tinha cabelos longos e grisalhos presos em dreadlocks que desciam até a cintura. Vestia uma roupa preta larga, botas tipo coturno e óculos escuros. O sujeito era grande, mas ao contrário das mulheres ele estava calmo e se mostrou cooperativo. Ele se apresentou como Marcus Wesson e disse ser o proprietário daquele casarão alquebrado. 


Depois de conversar com os policiais por cinco minutos ele acabou concordando em devolver as crianças, desde que pudesse se despedir delas primeiro. Os policiais acharam que o homem estava disposto a cooperar e embora os pais tenham se mostrado preocupados, disseram que ele tinha 10 minutos. Wesson agradeceu, fechou a porta e voltou para o interior.   

Vizinhos mais tarde contariam ter ouvido o som de choro e gritos no interior da casa, mas os policiais negaram ter escutado qualquer coisa suspeita. Sem um mandato de busca ou indício de que havia risco de segurança, eles não tinham a permissão para entrar na casa de Wesson.

Sendo assim, decidiram esperar.

O tempo se arrastava e as mulheres estavam cada vez mais impacientes. Uma delas resolveu bater para apressar as coisas mas um dos oficiais a afastou e ameaçou dar voz de prisão se ela interferisse novamente. Ruby parecia cada vez mais nervosa e após ofender um policial foi advertida de que poderia ser presa por desacato se mantivesse aquela atitude.

Quase meia hora se passou e finalmente um dos policiais compreendendo que aquilo já estava se arrastando por muito tempo ordenou que ela fosse aberta imediatamente. Ele não precisou esperar muito tempo já que Marcus Wesson surgiu com a mesma calma e serenidade de antes. A única diferença é que dessa vez ele estava coberto de sangue. 

A medida que se rendia sem apresentar qualquer reação e era algemado, dois outros policiais que haviam chegado como reforço correram para o interior da casa. Tinham as armas preparadas para qualquer eventualidade. A despeito do dia quente e ensolarado, o interior do prédio estava tão escuro que eles tiveram de usar lanternas para se guiar lá dentro. Estava tudo abarrotado de lixo, papel e caixas. As janelas cobertas por fita isolante deixavam entrar apenas uma nesga de luz. O fedor de comida estragada, urina e corpos mal lavados era quase insuportável. 

Ao cruzar a sala, os dois policiais buscavam algum sinal de violência. Entraram por um corredor comprido com tábuas mofadas no chão e paredes pintadas de preto que aumentavam ainda mais a sensação de claustrofobia. Ao acender as luzes elas piscaram em vermelho. Na sala seguinte não haviam móveis, mas outra coisa sinistra e que deixou os policiais embasbacados. Contra a parede escura estavam dispostos vários caixões com cruzes prateadas desenhadas nas tampas.     


Eles não se detiveram por muito tempo, a sensação de ameaça iminente era tamanha que os oficiais contaram mais tarde que se sentiam num filme de terror. Em uma sala contígua a esse aposento repleto de caixões os policiais sentiram o fedor de pólvora recentemente deflagrada e deram ordem para quem estivesse ali, se render imediatamente. Descartado na passagem havia uma pistola calibre 38, dentro da sala imperava o caos.

O sangue estava em toda parte: Nas paredes em respingos escuros projetados em alta velocidade até o teto. No chão, corria em profusão, formando poças, com rastros e pegadas salpicadas de vermelho. Seguindo os sinais inequívocos de um massacre, os policiais encontraram uma inevitável pilha de corpos. Cada um tinha um disparo à queima roupa na cabeça, a maioria através do olho esquerdo.

Diante de uma cena tão inconcebivelmente medonha, demorou algum tempo até a polícia determinar quantas eram as vítimas e mais alguns dias até que elas fossem identificadas positivamente. Eram elas por ordem de idade: Sebhrenah, 25, Elizabeth 17, Illabelle 8, Aviv 7, Johnathon 7, Ethen 4, Sedonia 2, Marshey 2 e Jeva, ainda por completar um ano de vida.
 
Ao tentar determinar os parentes mais próximos e comunicá-los da tragédia, o legista realizou testes de DNA em cada uma das vítimas. Quando os resultados vieram à tona, a verdadeira extensão da depravação obscena de Marcus Wesson foi finalmente revelada.

O horror estava apenas começando.

Marcus Wesson, ao que parece, sempre quis ser uma espécie de líder espiritual. Ele nasceu em 1946, o mais velho de 4 filhos, no que só poderia ser chamado de uma família disfuncional. Seu pai, Benjamin, era um alcoólatra abusivo que jamais teve um emprego estável.

Alega-se que o pai de Wesson o molestou sexualmente e a seus irmãos. No banco das testemunhas, a irmã de Wesson confirmou isso, mas afirmou que, quando o pai bebia, ele ficava muito mais inclinado a abraçá-los e beijá-los. As crianças sabiam que a melhor maneira de evitar afeto físico indesejado, quando seu pai Benjamin estava bêbado, era se esconder até ele ficar sóbrio. De fato, um amigo de infância de Wesson testemunhou que Benjamin uma vez ofereceu pagar a ele US$ 50 em troca de sexo oral.


O pai de Wesson acabaria fugindo com um primo, com quem estava tendo um caso homossexual. Esse caso incestuoso parece ter durado uma década antes que o pai de Wesson reaparecesse para assumir seus deveres paternos mais uma vez, como se nada tivesse acontecido. Talvez tenha sido aí que Wesson teve a ideia de que, de alguma forma, era normal manter relações sexuais dentro de sua própria família e que os pais tinham maneiras especiais de "amar" seus filhos.

Não se sabe o quanto a mãe de Wesson, Carrie, sabia sobre essa rotina de abuso e incesto que o marido cometia contra seus filhos. Ela era uma adventista do sétimo dia que liderava a família em estudos bíblicos diários e chicoteava as crianças com um fio elétrico quando se comportavam mal. Ela era dura, inflexível e raramente amorosa. De fato, sua função na família era de disciplinadora - e nada mais. 

Apesar de tudo isso, quando criança, Wesson era lembrado pelos parentes como uma criança gentil e que cantava no coral da igreja. Seu jogo favorito era "brincar de pregador", criando belos discursos religiosos, embora alguns fossem manchados pelo zelo fanático de sua mãe.

Wesson abandonou o ensino médio aos 17 anos e ingressou no exército, onde era médico ou motorista de ambulância (as fontes divergem). Supostamente ele esteva no Vietnã, embora os registros também não mencionem seu nome como veterano de guerra. Weston pode ter trabalhado em um campo médico como ajudante de enfermaria. Ele foi dispensado do Exército em 1968 e rapidamente se envolveu com uma mulher casada chamada Rosemary Maytorena. Quase uma década e meia mais velha, Rosemary já tinha vários filhos. Não demorou muito, porém, para que ela tivesse um filho com Wesson, a quem chamou de Adair. Wesson pode ter ficado feliz com o novo papel de papai orgulhoso, mas, em vez disso, ficou ainda mais feliz em passar tempo com a filha de oito anos de Rosemary, Elizabeth.

O interesse de Wesson por Elizabeth não demorou muito, tornou-se físico. Ele alegou que Deus havia lhe dito que Elizabeth deveria ser a sua esposa, e ele realizou uma "cerimônia de casamento" secreta com a criança. Ele então a tirou da escola com o pretexto de educá-la conforme ditames religiosos por ele professados. Quando Elizabeth tinha 12 anos, ele começou a agredi-la.

Aos 14 anos, Elizabeth ficou grávida do bebê de Wesson, e os dois se casaram assim que ela atingiu a idade legal para se casar. Wesson teria mais 10 filhos com ela antes dela atingir os 26 anos.


Wesson não parou de aumentar sua família. Ele acreditava que o matrimônio era a forma através da qual seu tabernáculo religioso cresceria. Ele viria a "casar" e ter filhos com três de suas sobrinhas: Ruby Ortiz, Rosa e Sofina, às vezes chamada de Sofia (sim as mulheres que estiveram na porta de sua casa no dia da tragédia, mas chegaremos a isso no devido tempo). Os tais casamentos fraudulentos com meninas de 10, 12 ou no máximo 14 anos continuaram com sobrinhas.

Parece impossível que essas mulheres estivessem de acordo com o relacionamento incestuoso que mantinham com Wesson. Entretanto é preciso entender que, como a maioria dos abusadores, ele aprendeu a cultivar um medo profundo nas suas vítimas, Mais que isso, ele realizava uma espécie de lavagem cerebral desde a infância das suas "noivas" para conseguir o que queria.

Wesson ficou fascinado e sentiu uma afinidade imediata pelo líder de culto David Koresh líder da Seita de Davidianos. Durante o cerco de 1993 ao complexo em Waco, Wesson ficou grudado na TV assistindo sem parar. Ele disse à família: “Este homem é como eu. Ele está fazendo filhos para o senhor”. E como Koresh, Wesson tinha um profundo ódio pelas leis. Ele até ordenou um pacto de suicídio: se algum dia alguém tentasse separar sua família, mães deveriam matar os filhos e depois a si mesmas. Ele realizava reuniões para discutir os detalhes desse plano.

É difícil expressar o quão profundamente Wesson controlava cada aspecto da vida de sua família. As mulheres e meninas eram especialmente subjugadas e mantidas sob seu domínio. Em determinado momento Wesson escreveu um conjunto de regras que deveriam ser seguidas à risca pela família, uma vez que eram "mandamentos enviados por Deus." As mulheres tinham de vestir saias longas e lenços na cabeça, andar atrás dele e permanecer em silêncio em público. Elas foram proibidas de conversar com qualquer pessoa, sob pena de espancamento. Até mesmo seus próprios irmãos e primos foram separados delas, para que não "desenvolvessem sentimentos sexuais" por outros homens.

As suas vidas eram preenchidas por trabalho interminável: eram responsáveis por cuidar dos filhos, limpar e cozinhar — mesmo quando não havia água encanada nem eletricidade. Esperava-se que eles também servissem Wesson lavando seus enormes dreadlocks, massageando seu corpo rotundo e até mesmo coçando suas axilas. Ao que parece ele tinha grande prazer em humilhar mulheres e ordenar a elas as tarefas mais absurdas.

Wesson era um abusador brutal, espancando as mulheres e crianças com fios elétricos, bastões de beisebol e os punhos como punição pelas menores transgressões. Um de seus filhos, Serafino, contou que foi espancado por 30 dias seguidos pelo crime de roubar uma colher de pasta de amendoim. Sofina lembrou que Wesson espancou seu bebê de um mês, Johnathon, até suas pernas sangrarem porque ele não parava de chorar.

Assim que as meninas de sua família - incluindo suas sobrinhas e filhas - atingiam a idade de 8 anos, Wesson iniciava o processo do que chamava "criar noivas". Ao que parece esse "treinamento" visava criar um elo de vergonha e terror com as meninas. Quando elas estavam suficientemente aterrorizadas ele iniciava a agressão sexual com o intuito de "ensiná-las a serem mulheres melhores".


Wesson nunca permitiu que seus filhos ou sobrinhas estudassem em escolas. Em vez disso, ele educava as crianças em casa, complementando os estudos do curso geral com horas de pregação de suas próprias crenças bizarras. No entanto, a verdade é que as crianças recebiam pouca ou nenhuma educação domiciliar. Às vezes, as meninas mais velhas brincavam de “professoras” para as crianças mais novas; o ensino parecia consistir em desenhar e colorir.

Quanto a Wesson, ele se recusou a trabalhar e, em vez disso, recebeu benefícios sociais. Embora considerado bastante inteligente e sem qualquer deficiência física que o impedisse de trabalhar, Wesson aderiu à crença de que o chefe da família não trabalhava, pois "cuidar da família" era sua obrigação. As crianças disseram que muitas vezes passavam fome. Havia apenas arroz para comer, o que as obrigava a vasculhar lixeiras em busca de comida. Enquanto isso, Wesson jantava fast food o suficiente para que, quando foi preso, pesasse quase 180 quilos e fosse tão gordo que precisava de três pares de algemas para ser preso.

A vida na Família era árdua e difícil. Eles mudavam de habitação quando eram descobertos e então seguiam para outro lugar abandonado onde pudessem ficar por algumas semanas ou meses. Em geral, as crianças cresciam sem o menor conforto, água limpa ou eletricidade era um luxo. A família chegou a viver em um campo de treinamento abandonado do exército e num velho rebocador desativado.

Claramente, a Família chamava a atenção, mas até onde se sabe nunca foram investigados por assistentes sociais preocupados com o ambiente em que as crianças viviam. Elas não frequentavam escola pública, onde um professor preocupado poderia notar os sinais de abuso, foram intencionalmente mantidas separadas do mundo exterior pelo pai. Wesson sabia que o mundo não aceitaria suas filosofias e ensinamentos bizarros. Somente após as mortes em 2004, o teste de DNA forneceria a prova de que ele era o pai de crianças que ele sabia que seriam levadas embora, se a verdade viesse à tona.

Para a maioria dos membros da família Wesson, aquele estilo de vida era tudo o que conheciam. Mas duas de suas sobrinhas, Ruby e Sofina, queriam escapar do grupo. Wesson acabou concordando que eles poderiam ir, mas apenas se deixassem seus filhos, Johnathon e Aviv, para trás. Desesperados para escapar, as duas concordaram. Contudo, conforme se ajustavam ao mundo exterior, elas começaram a entender o que o que ele fazia com o resto da família. Finalmente, em 12 de março de 2004, reuniram vários parentes para dar apoio e voltaram para a casa dos Wesson para resgatar seus filhos, ambos com 7 anos de idade. Foi quando a tragédia aconteceu.


O caso foi considerado o pior assassinato em massa da história de Fresno.

Antes mesmo do julgamento começar, Wesson ainda lutava pelo controle da Família. Ele atrasou sua acusação duas vezes insistindo que não queria um defensor público, mas queria contratar seus próprios advogados. Não estava claro se Wesson poderia pagar seus próprios advogados e, finalmente, foram designados defensores públicos. Em 3 de março de 2005, o julgamento de Wesson finalmente teve início com a mídia montando um verdadeiro circo ao redor do caso.

Ele foi acusado de nove assassinatos em primeiro grau e 14 acusações de abuso sexual e estupro. Os membros de sua família testemunharam - ao lado da acusação e da defesa - o júri soube dos horrores que Wesson infligiu à sua família. O julgamento também foi a oportunidade de entender a perversidade de suas doutrinas tresloucadas.

Wesson recebeu um estranho apelido quando o julgamento começou a revelar sua confusa crença. Ele passou a ser chamado de Rei Vampiro, isso porque realmente acreditava ser um morto vivo. Sua crença era que Jesus não apenas era um vampiro, mas que o havia escolhido e transformado para que ele vivesse para sempre e fosse seu herdeiro. 

Uma vez que Jesus bebeu sangue para se tornar imortal, ele deveria fazer o mesmo. Wesson realizava estranhos rituais nos quais cortava seus seguidores com um estilete e coletava o sangue deles num "cálice sagrado" para beber. Ele também consumia sangue que lhe era ofertado em outras celebrações. O uso de sangue como item religioso não é exatamente uma novidade, contudo, Wesson definiu alguns parâmetros perturbadores. Por exemplo: ele forçava os membros de sua seita a beber o sangue dele para criar um elo duradouro - dessa forma ele afirmava poder ver e ouvir tudo que eles viam. Outra forma de controlá-los pelo medo. Wesson também teria dito que mantendo uma gota do sangue de cada membro podia matá-los à distância usando seus poderes sobrenaturais.   


O Culto Vampiresco também explicava os caixões achados na casa. Eles foram encontrados pela Família quando invadiram uma funerária. Passaram a ser usados pelos membros da seita como camas. Segundo o Rei Vampiro, uma criança que dormisse num caixão começava a se transformar em vampiro, uma espécie de transformação sagrada. Os métodos de controle de Wesson envolviam fazer seus seguidores acreditarem que ele realmente tinha poderes místicos. Seus advogados tentaram provar que ele sofria de esquizofrenia, contudo os psiquiatras contratados disseram que ele não possuía a doença - ele simplesmente era perverso e usava a ignorância dos outros em benefício próprio. 

Durante o julgamento a defesa de Wesson alegou que ele não havia matado ninguém - que a responsabilidade seria de Sebhrena que havia puxado o gatilho da pistola matando as crianças e depois a si mesma. A evidência foi inconclusiva pois não havia impressões digitais na arma do crime. O ferimento de bala na cabeça da mulher embora consistente com um ferimento auto infligido também poderia ter sido causado por outra pessoa. 

Os testemunhos de Ruby e Sofina terminaram sendo essenciais para provar que Wesson tinha controle total sobre a família e que havia ordenado a eles matar caso a Família fosse separada. Se Sebhrenah matou as crianças e depois a si mesma, isso se encaixaria no padrão de controle exercido por Wesson. Ela portanto agiu como uma ferramenta da vontade do "Vampiro".

No final, não importava para o júri quem realmente havia puxado o gatilho. Marcus Wesson foi considerado culpado de todas as acusações e, em 27 de junho de 2005, foi condenado a 102 anos pelas acusações de estupro e abuso sexual. Pelo assassinato de filhos e netos, ela recebeu a pena de morte. Ele foi enviado para a prisão de San Quentin, o maior corredor da morte do país. Lá ele estaria na companhia de assassinos infames como Rodney Alcala, Charles Ng, Richard Davis e Scott Peterson. Em março de 2019, a Califórnia, aprovou uma moratória sobre as execuções no estado, poupando a vida de Wesson. 

Marcus Wesson ainda é considerado extremamente perigoso graças à sua capacidade de controle, propensão à violência e poder de persuasão. Um estudo psiquiátrico que analisou o Rei Vampiro demonstrou que ele mantém seus delírios intactos e que ainda acredita estar predestinado a retomar o controle de sua família quando ganhar a liberdade. Felizmente ele continua preso e provavelmente assim ficará para sempre uma vez que sua sentença não é elegível para liberdade condicional.