terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

A Dama Desaparecida - O dia em que Agatha Christie sumiu sem deixar vestígio


Por anos seu nome foi sinônimo de suspense, mistério e assassinato. Por décadas ela foi a Rainha inquestionável dos romances policiais. Seus personagens, detetives e investigadores dedicados a provar a verdade e desvendar os mais intrincados casos, ganharam fama mundial.

Na Idade de Ouro das histórias de mistério, não havia nome mais conhecido do que o de Agatha Christie.

Contudo, nenhum mistério da ficção é tão intrigante quanto o desaparecimento da própria autora ocorrido em 1926. Um caso que permanece sem solução, mas que foi tratado com seriedade e como um acontecimento chocante em todo mundo.

Tudo teve início em uma fria manhã de dezembro quando a celebrada autora, então com 36 anos de idade desapareceu de sua propriedade em Sunningdale, condado de Berkshire. Christie sumiu repentinamente e embora tenha deixado um bilhete avisando que se aumentaria para desfrutar de férias, todos se surpreenderam com a atitude intempestiva. Uma espécie de workaholic, a criadora de Hércules Poirot, Miss Marple e outros personagens eternos, raramente abandonava sua rotina, ainda mais na véspera de concluir um de seus romances.

Se a sua estranha ausência já era uma surpresa, a descoberta de seu automóvel encontrado abandonado numa estrada, tornou tudo aquilo ainda mais complexo. O carro não havia sido simplesmente deixado de lado: a porta aberta, as luzes acesas e a capota baixada, mesmo em um dia chuvoso davam a ideia de que ela havia descartado o veículo.

Para tornar tudo ainda mais dramático, o carro estava numa estrada que levava até uma pedreira abandonada. O local já havia servido como palco para o suicídio de duas mulheres num espaço de seis meses. As duas se lançaram no vazio, vindo à despencar no fundo de um abismo com mais de 40 metros de altura. A preocupação era evidente.

As autoridades revistaram o interior do veiculo e lá estava um casaco de pele que pertencia a autora, sua licença de motorista e uma bolsa arrumada as pressas contendo roupas amassadas. Circulou o boato de que haveria ainda uma pistola de um único tiro, uma Lady Derringer, embalada em uma echarpe, mas tal informação não foi comprovada.


As manchetes na manhã seguinte estampavam a notícia de que Agatha Christie a escritora mais popular do mundo havia desaparecido.

Muitos suspeitaram imediatamente de crime.

As autoridades acreditavam que ela tivesse sido atraída por um criminoso sob falsas alegações, e uma vez levada até um lugar deserto teria sido sequestrada. Uma autora responsável por vários best sellers, sua fortuna pessoal era considerável, e isso poderia justificar o crime. Outros suspeitavam de assassinato, já que não havia sinal dos seus passos.

A maioria, no entanto, temia que a Sra. Christie pudesse ter cometido suicídio. Não era exatamente um segredo que seu casamento com o Coronel Archie Christie não ia bem e que ela dava sinais de depressão. Amigos próximos diziam que ela estava emocionalmente vulnerável considerando o divórcio.

Notícias sobre o desaparecimento de Christie se espalharam rapidamente e uma imensa caçada humana teve início. Mais de 1000 oficiais de polícia e 15 mil voluntários varreram a região enquanto equipes de mergulhadores e escaladores vasculhavam lagos e a pedreira. Até mesmo dois biplanos foram alugados para vasculhar os bosques do ar, a primeira vez que tal recurso foi empregado.

Até mesmo colegas de profissão se envolveram na busca. A autora Dorothy L. Sayers visitou a cena do crime e ofereceu seu auxilio e observações. Sir Arthur Conan Doyle foi outro que se manifestou pedindo um par de luvas que pertenciam a Christie e as entregando a uma médium na esperança de que o mundo espiritual pudesse auxiliar na resolução do mistério.


A medida que os dias passavam sem uma solução, o caso se transformou em uma Obsessão nacional.

Os ingleses estavam profundamente envolvidos em cada aspecto da investigação. O tema chegou a ser discutido no Parlamento e foi objeto de análise da Coroa britânica que chegou a cogitar oferecer uma recompensa por informações sobre sua ilustre súdita.

Alguns acreditavam que a Rainha do Crime estivesse morta. Mas se tal coisa havia acontecido, quem seria o responsável? 

Muitos suspeitavam do marido, o Coronel Archie Christie. O velho militar havia se envolvido em um caso amoroso com uma jovem chamada Nancy Neele, e nao havia feito qualquer tentativa de esconder a relacao de sua esposa. No dia do desaparecimento, o casal havia discutido asperamente e Archie teria dito que passaria o final de semana com sua amante.

Agatha Christie ficaria desaparecida por 11 longos dias. Entao, em 14 de dezembro ela finalmente foi encontrada - nao em uma cova rasa, mas em uma estância hidroterápica em Harrogate. Um músico que também era hóspede a viu e reconheceu seu rosto. Estranhamente, Agatha havia se registrado no spa com o nome Theresa Neele e dado como referência a Cidade do Cabo, na África do Sul. Ela havia tomado emprestado o sobrenome da amante do marido.


A reviravolta terminou chocando o público. Alguns furiosamente creditaram o ocorrido a um golpe de publicidade, sobretudo por conta do romance "O Assassinato de Roger Ackroyd" que estava sendo lançado. Outros resumiam o incidente a uma tentativa bizarra de ensinar ao marido uma lição. 

Mas alguns sugeriam algo mais sinistro - depressão suicida, golpe de seguro ou um esperto esquema para incriminar Archie e sua amante.

A própria Christie falou muito pouco sobre o desaparecimento. Ela se negava a discutir o assunto em entrevistas e o bizarro episódio não aparece em sua autobiografia. 

Para alguns amigos íntimos o episódio seria ainda mais estranho, em especial para uma misteriosa fonte anônima que ofereceu uma história incomum para os tabloides da época. Segundo a sua versão do ocorrido, Agatha Christie não teria apenas se registrado em um Hotel para terapia, mas sim, desaparecido em uma outra realidade - um tipo de dimensão paralela.

A autora teria revelado para essa confidente uma história incrível e surpreendente. Seu interesse ao deixar a casa intempestivamente era realmente se afastar do marido infiel e se esconder do mundo. Ela teria contemplado cometer suicídio, o que a levou a pegar a estrada que levava até a famosa pedreira abandonada. No caminho, segundo ela teria narrado para a confidente, algo estranho aconteceu e ela sentiu uma forte vertigem acompanhada de uma sensação de confusão mental.

Nessas condições, ela teria deixado o automóvel e vagado pelo bosque sem rumo, sendo encontrada por um casal, Leslie e Albert Bunnian que a levaram para casa e prestaram socorros. Após dormir e descansar por quase 48 horas, ela agradeceu ao casal que gentilmente disse que a levaria até Sunningdale onde ela residia. Estranhamente os Bunnian não conheciam a famosa autora, mas o mais estranho viria a seguir. Albert começou a comentar sobre estranhos acontecimentos que não eram inteiramente incomuns, mas que demonstravam pequenas discrepâncias - por exemplo, ele assegurava que a Grande Guerra tinha durado até 1921 e não 1918. Afirmava que o Primeiro Ministro Britânico era outro, que o Império estava enfrentando uma questão delicada na sua colônia da Índia com um sangrenta revolta e que uma nova Guerra, contra a Alemanha, era vista como certa.


Apesar de estranho, o que aconteceu a seguir é que realmente deixou a Sra. Christie em choque: Ao chegar em Sunningdale ela descobriu que a casa onde afirmava residir pertencia a outra pessoa, e que segundo o morador, a propriedade estivera em nome de sua família nos últimos 40 anos. Depois disso, ela ficou hospedada mais alguns dias na Casa dos Bunnian, vindo a encontrar uma série de outras pequenas incongruências no mundo que parecia estranhamente deslocado. O Canadá estava em um processo de separação do Reino Unido, a Itália havia lançado uma ofensiva bem sucedida contra o norte da África e a Liga das Nações havia criado uma delegação para tratar de conflitos em larga escala. Além disso, uma linha de aviões fazia o transporte ligando Europa e América (algo que não aconteceria até 1935), um explorador do qual ela jamais ouvira falar conquistava a Antártida e estranhas descobertas arqueológicas eram realizadas no Egito (algo que só começaria em 1930).

De forma muito curiosa, o mundo que surgia diante dos olhos de Agatha Christie não era exatamente o mundo que ela conhecia. Era como se ele fosse muito parecido, mas alguns pequenos detalhes tornavam tudo diferente, sobretudo no que dizia respeito a datas e figuras históricas. Nesse mundo alternativo, Agatha Christie jamais havia escrito um livro sequer e seu marido não vivia na Inglaterra, e sim numa colônia do Oriente Médio.

Agatha ficou na companhia dos Bunnian por alguns dias, lendo jornais, livros e enciclopédias que traziam notícias e informações estranhas que não se encaixavam na história que ela conhecia. Finalmente, certa manhã ela se recorda de ter despertado no Hotel Hidroterápico, como hóspede registrada lá sob nome falso.

A estranha narrativa, publicada em um jornal em maio de 1926 recebeu pouca importância. O público que havia passado dias grudados em boletins de rádio e jornais, à espera de notícias sobre o paradeiro de Agatha Christie perdeu momentaneamente o interesse por ela. Demorou até ela reconquistar seu prestígio como grande escritora que era. Algumas pessoas se perguntaram quem seria o estranho casal que deu a ela guarida por alguns dias, mas ninguém jamais soube ao certo quem eram e mesmo se eles existiam.


Curiosamente, Agatha Christie apenas aceitou falar sobre seu curioso desparecimento em uma entrevista prestada em 1959. Ela mencionou um misterioso estado de sonho consciente, ou transe, do qual se recordava muito pouco. Posteriormente ela assumiu uma identidade totalmente nova: "Durante 48 horas eu vaguei em um estado de sonho, e então me encontrei em Harrogate como uma mulher feliz que acreditava ter acabado de chegar da África do Sul."

Sobre os boatos envolvendo sua experiência dimensional, ela não quis tecer comentários, e apenas reconheceu que lembrava bem pouco do que havia ocorrido nos onze dias nos quais esteve desaparecida.

O que podemos tirar dessa confusa história? O que teria acontecido com uma das mulheres mais famosas de seu tempo? Ela teria cogitado suicídio? Seu estado de confusão mental teriam criado um tipo de lapso de memória? E o que dizer de sua alegada história confidenciada para uma amiga que permaneceu anônima? Haveria algum fundo de verdade na teoria sobre sua viagem para outra realidade? Ou tudo não passou de um colapso?

O Caso do Desaparecimento da Dama do Mistério permanece como uma curiosidade de outra época e uma estranha narrativa da qual, a verdade provavelmente jamais saberemos.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Policiais Ocultistas - O trabalho de investigadores devotados a combater crimes de cultos


Pergunte a qualquer policial, detetive ou autoridade da lei e ele dirá que não há nenhum caso igual ao outro. 

Na aplicação da lei, em meio a inúmeros crimes convencionais, por vezes surge um que se destaca seja por uma peculiaridade, por uma estranheza ou ainda por alguma bizarrice. Certos casos particularmente estranhos marcam a vida dos investigadores designados para desvendá-los. Pessoas desaparecidas, mortes inexplicáveis, crimes não resolvidos com pistas estranhas, tudo isso faz parte de um tipo inusitado de caso policial que espreita na periferia das investigações. 

Uma área especialmente estranha envolve os crimes onde existe motivação ou componentes de ocultismo. Não é raro que nesses crimes surjam pistas incomuns, rituais estranhos, sacrifícios e coisas para as quais a aplicação da lei tradicional não parece se adequar. São casos que frequentemente marcam a carreira dos investigadores e suas vidas dali em diante. 

No entanto, existem investigadores que mergulharam de cabeça neste reino sombrio, sabendo o que irão encontrar e dispostos emergir com a verdade, custe o que custar.

Um especialista em crimes envolvendo o oculto é o falecido Detetive Marcos Quinones, considerado o maior especialista do Departamento de Polícia de Nova York em cultos religiosos, satanismo e ocultismo. Quinones ingressou na polícia em janeiro de 1982 e, a princípio, era apenas um policial comum fazendo o trabalho policial normal, sem nenhuma conexão particular com crimes envolvendo o oculto. Apenas quando teve contato direto com uma série de crimes macabros que apontavam para rituais de sacrifício que ele começou a se dedicar a investigar tais crimes. Nas três décadas seguintes, ele se tornou uma espécie de especialista em ocultismo, investigando casos onde as evidências apontavam para rituais, feitiçaria ou magia negra.

Seu conhecimento do assunto era tamanho que ele se tornou Consultor do FBI, sendo procurado por agentes sempre que alguma cena do crime apresentava sinais de ocultismo, fosse a presença de parafernália satânica ou animais sacrificados. Quinones estudou à fundo o assunto, formou-se em Antropologia, com PhD em Religião Comparada, mas foram as experiências no dia a dia, investigando tais casos, que lhe forneceram as credenciais de "Especialista no Oculto". Com um olho clínico para casos dessa natureza, ele era chamado para examinar cenas de crime e determinar que tipo de pessoas estavam envolvidos, o que pretendiam e se realmente estavam comprometidas com essas práticas ocultas.  


Quinones conhecia à fundo vários tipos de ocultismo e práticas de magia negra, em particular o Satanismo clássico, Santeria, que é uma mistura de tradições da África Ocidental, caribenha e católica e Palo Mayombe, uma fusão de magia negra e tradições do nativas do Congo. 

Uma das áreas em que Quinones ganhou fama envolvia elucidar roubos de túmulos, um tipo de crime que se tornou muito comum em certas comunidades de Nova York. Sepulturas eram violadas e restos humanos subtraídos para servir de ingredientes em feitiços e rituais. Em 1987, Quinones expôs um mercado negro que negociava crânios, ossos e órgãos humanos que eram usados por feiticeiros em rituais de magia negra. Entre os envolvidos estavam todos os tipos de pessoas: de estrangeiros recém chegados aos EUA a especuladores da Bolsa de Wall Street. Em comum o fato de que eles contratavam alegados feiticeiros para lhes trazer benefícios financeiros. 

Quinones também chefiou uma unidade especial dedicada a investigar mutilações de animais. Entre 1990 e 1992, uma força tarefa comandada por ele investigou o surgimento de carcaças de animais - cabras, bodes e gatos, encontrados sem cabeça na região de Yorktown. Vários animais haviam sido degolados, enforcados ou deixados pendurados em árvores em Yonkers. A polícia tratava o caso como o trabalho de algum demente, mas Quinones usou seu conhecimento de religião e ocultismo para coletar informações. Por fim, ele descobriu uma rede de tráfico de animais que abastecia vários templos dedicados a realizar sacrifícios de animais em rituais de base africana. 

À respeito de seu trabalho, o Detetive Quinones dizia:

"Ao ser chamado eu elimino tudo aquilo que é normal. Se restarem aspectos estranhos, eu me pergunto: isso é algum tipo de ritual? Em última análise, é preciso dissecar os elementos presentes em uma cena de crime com componente oculto. Os símbolos dentro de um ritual constituem um roteiro para identificar qual entidade os envolvidos desejavam satisfazer. Esses símbolos dizem o que eles queriam com a entidade e o que estavam dispostos a dar em troca. Sacrifícios de animais são o tipo mais comum de interação, acontecem em todos os estados e são mais frequentes do que se pode imaginar. Práticas religiosas clandestinas e de magia negra lidam com esses aspectos.

Ele continua em sua explanação:

"Os sacrifícios geralmente são realizados em algum lugar diferente de onde os restos são encontrados posteriormente. Assim, por exemplo, no caso dos animais encontrados perto do reservatório em Yorktown, a oferenda era para uma Entidade da Água e por isso foi deixada próxima a um local onde havia água em abundância. Um pássaro envolto em panos pretos que achei em Mont Vernon era claramente uma oferenda de Palo Mayombe. Continha um símbolo revelador: dois círculos interceptados por flechas costurados no tecido. Sacos contendo gatos pretos degolados indicavam satanismo clássico, uma forma de comunicação com os espíritos. Cada modalidade tinha um modus operandi e um significado que podia ser interpretado".


Quinones treinou policiais na cidade em todo o país, mostrando a eles como reconhecer atividades de ocultismo e a presença de cultos. Ele foi convidado a realizar palestras para agências de segurança na América do Norte, América Latina, Europa e África. Seus cursos formaram mais de 2000 profissionais na aplicação da lei voltada para o reconhecimento do ocultismo em cenas de crime. Ele também escreveu vários livros sobre o tema e até participou de exorcismos.

O caso mais emblemático do Detetive envolveu uma série de crimes realizados por membros de um Cartel de Drogas Mexicano que usavam rituais devotados a La Santa Muerte para aterrorizar seus rivais. As execuções realizadas pelos criminosos continham diversos elementos ritualísticos legítimos. A unidade de Marcos descobriu que um dos membros do Cartel era um ex-adepto de Santeria e que transferiu esse seu conhecimento da crença para o mundo do crime. A descoberta mais macabra feita por Marcos foi uma cena de múltiplos assassinatos nos quais as vítimas (membros de um cartel rival) haviam sido torturadas e cortadas. Por fim, o coração deles foi arrancado e incinerado como uma forma de escravizar a alma dos homens. 

Em disputas de gangues, esse tipo de intimidação era bastante empregada, como forma de aterrorizar os inimigos:

"O caso dos assassinatos ritualísticos em um depósito talvez tenham sido os mais marcantes de minha carreira. Não apenas por ser algo medonho - uma cena de crime simplesmente aterrorizante, mas pela forma como as crenças foram pervertidas e usadas para causar terror nas pessoas. Nada o prepara para a descoberta de quatro corpos mutilados, amarrados e com o coração ausente. O horror daquela cena é algo que me causou pesadelos por muito tempo".   

Graças a ajuda da Unidade de Quinones, os responsáveis por essas mortes foram descobertos, processados e presos. 

Infelizmente, o Detetive Marcos Quinones faleceu em 2021 vítima de câncer passando seu posto para a Doutora Dawn Perlmutter, professora adjunta do Programa Forense do Colégio de Medicina da Filadélfia. É ela quem hoje coordena o Grupo de Inteligência de reconhecimento simbológico e forma profissionais em metodologia criminal, homicídios atípicos e crimes ritualísticos. 


Ela se recorda de seu valioso trabalho na companhia de seu antecessor:

"Marcos Quinones era mais que um colega, era um amigo. Nós nos conhecemos em 1996, quando eu era professora prestando consultoria à respeito de violência ritual, e ele especialista do NYPD em crimes ritualísticos e ocultos. Como não há muitas pessoas com quem você possa conversar sobre assassinatos satânicos, mutilações de animais, cultos violentos destrutivos e roubos de túmulos, nos tornamos amigos imediatamente. Ele conhecia todos os lugares, pessoas e grupos associados à violência oculta na cidade de Nova York. Ele fazia visitas regulares a lojas, cenas e lugares ocultos em Nova York. Fomos a uma Loja que vendia objetos de feitiçaria no Bronx e ele apontou o que cada item significava. Foi uma educação incrível. Acabamos trabalhando em vários casos juntos. Sempre que eu tinha dificuldade em decifrar um símbolo ou ritual particularmente difícil, Marcos sabia o que era. Pouquíssimas pessoas se especializam em crimes ritualísticos e todos nós acabamos nos conhecendo nesse meio. Marcos foi o mais gentil, atencioso e conhecedor de todos nós. Os crimes ritualísticos iam desde mutilações de animais até grandes redes de tráfico de drogas que usavam restos humanos, até os piores casos de homicídio envolvendo tortura e abuso de crianças."

Entre as muitas histórias à respeito de investigações nesse campo macabro, Dawn cita alguns acontecimentos marcantes e bizarros: 

"Nos casos típicos, os criminosos vão amaldiçoar os policiais por prendê-los, mas com crimes ritualísticos ocultos eles podem lançar maldições de verdade. Eles colocam feitiços em você, deixam animais mortos em seu carro e cabeças de cabras na sua porta. Marcos me disse que uma pessoa certa vez gravou o número de seu distintivo em um boneco vodu. Ele recebeu todo tipo de ameaça, algumas absurdas, outras realmente preocupantes. Um assassino certa vez enviou cartas escritas com sangue ameaçando matá-lo. Ele era um homem muito religioso e me dizia que você tinha que estar espiritualmente fundamentado para fazer esse tipo de trabalho. Para ele não era apenas um trabalho, era uma vocação. Ele respeitava outras religiões, dizia que seu papel era combater o abuso da liberdade de culto e separar aquilo que se tornava perverso do que era legítimo". 

Em casos envolvendo o Oculto, é preciso traçar uma linha que separa a ameaça e intimidação do real potencial de perigo. Segundo a Dra. Permutter a maioria dos envolvidos nesse tipo de crime se vale de intimidação para tentar afastar os investigadores.


"Eles sabem manipular as crenças das pessoas e criar o terror. Essas pessoas estabelecem a sua fama como bruxos, feiticeiros e assassinos... criam um personagem apavorante e estão habituadas a serem temidas pelas pessoas que compartilham das mesmas crenças. Elas não admitem que alguém não tenha medo delas e quando encontram uma pessoa treinada que enxerga através de seus artifícios, geralmente elas se sentem desprezadas. Recorrem então à violência e ameaça. Já houve casos de agressão sofrida por detetives designados para investigações do oculto, mas em geral são as ameaças o que mais chama a atenção. Um detetive de Chicago contava que tinha de remover carcaças de animais mortos toda semana da porta de sua casa - galinhas, pombos, gatos. Mas ele se assustou realmente quando encontrou uma cabeça de bode no quarto de sua filha."

A própria Doutora Permutter sofreu com esse tipo de ameaça covarde:

"Não é sempre que acontece, mas quando ocorre é que você realmente percebe como esse tipo de coisa pode ser assustadora. Certa vez estava auxiliando a polícia de Willmington a investigar uma sequência de roubos de cemitério em que restos estavam sendo profanados. De alguma forma os envolvidos descobriram que eu estava envolvida na investigação e decidiram tentar me intimidar. Recebi uma caixa no endereço da minha casa contendo um coração humano mumificado cheio de pregos. Aquilo foi bastante perturbador, mas passado o susto, não me deixei levar pelo medo. No fim, descobrimos o responsável por aquilo e ele foi preso".

Mas o Detetive Quinones e a Dra Permutter não são os únicos policiais que estudam o oculto e buscam conhecer os criminosos que se escondem nas superstições ou que realmente professam esse tipo de crença. Na continuação do artigo conheceremos outros desses policiais ocultistas. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Entidade Ringcroft - O Exorcismo de uma presença aterrorizante


Assombrações surgem em todas as formas e tamanhos. A parapsicologia, o ramo pseudocientífico que se ocupa em estudar essas manifestações definiu inúmeras categorias para essas entidades, incluindo fantasmas, poltergeists, aparições e outras classes que escapam a uma classificação mais simples. Por vezes essas manifestações assumem formas verdadeiramente estranhas, abrangendo uma ampla gama de fenômenos que  parecem desafiar qualquer categoria. Um desses casos emblemáticos de assombração especialmente maliciosa e sinistra ocorreu na Escócia. Essa assombração aterrorizante era identificada como uma força malévola capaz de dominar uma pequena comunidade rural e fazer refém do medo, todos os seus moradores. Até hoje esse incidente permanece inexplicável, um chocante exemplo da força do sobrenatural.

Nossa história de horror começa no distante ano de 1695 na tranquila zona rural de Ring-Croft of Stocking, paróquia de Rerrick, na Escócia. Lá vivia um homem chamado Andrew Mackie em uma fazenda pitoresca e rural, levando uma vida simples e pacífica. Ele nunca teve nenhum problema em suas terras, nem criou nenhum com seus vizinhos. No entanto, num dia como qualquer outro num frio fevereiro, sua vida deu uma guinada na direção da estranheza. Tudo começou de forma bastante inócua, com ele encontrando as amarras de seu gado misteriosamente rompidas e soltas, o que a princípio, ele imaginou, poderia ser apenas culpa dos animais. Ele usou amarras mais fortes, mas estas logo arrebentaram também e ele não conseguiu achar uma explicar. Pensando que talvez fosse trabalho de algum brincalhão, ele mudou o gado para outro galpão, apenas para, no dia seguinte, encontrar uma das vacas amarrada com uma corda e levantada do chão, o pobre animal  chutando o ar. Era tudo muito intrigante, mas a estranheza só aumentaria de intensidade a partir desse ponto.

Logo após o incidente com o gado, Mackie e sua família começaram a ser frequentemente atingidos por pedras e rochas que pareciam vir do nada. Como se atiradas por mãos invisíveis cujo proposito era ferir. Essas pedras vinham em uma variedade de tamanhos, de meros seixos a rochas pesadas que poderiam causar ferimentos graves, e eram arremessadas com grande força. O mais estranho de tudo é que muitas vezes essas pedras eram atiradas até dentro de casa, quebrando objetos e móveis, e o arremesso por vezes era tão violento que causava sustos. Curiosamente, esse fenômeno tinha lugar mais frequentemente quando a família estava em oração. Supostamente, houve muitas testemunhas desses incidentes de pedras voando, e chegou ao ponto em que ele se tornou quase constante. Somando-se a essa estranheza, haviam casos em que objetos inanimados, em especial um cajado, flutuavam pela casa para atingir as pessoas e bater nas paredes ou nos móveis. O alvo principal quase sempre era o próprio Mackie que foi atingido repetidas vezes. 

Um ministro local chamado Alexander Telfair testemunhou esses fenômenos por si mesmo e relatou sobre o caso:

" Os ataques eram frequentes, especialmente na hora da oração, acima de todas as outras vezes. Haviam pedras sendo arremessadas, quando alguém tomava a palavra no momento de rezar. Pedras e várias outras coisas eram atiradas e eu mesmo fui atingido várias vezes. Recebi também o ataque de um grande bastão que me foi golpeado nas costas. Naquela noite, o objeto voou da cabeceira da cama e flutuou pelo quarto até se checar violentamente em um armário provocando grande estrondo."


O sacerdote relatou que os proprietários anteriores da casa, uma família chamada McNaught, fora atormentada por todo tipo de má sorte e doenças quando residiu na fazenda, a ponto de considerarem a si mesmos amaldiçoados. De fato, o pai havia morrido em circunstâncias misteriosas, além de um bebe recém nascido que foi achado no berço sufocado. Um médium chamado para visitar o local disse a eles que a maldição emanava de um objeto enterrado sob uma enorme laje de pedra na propriedade. O médium explicou que o tal objeto havia sido amaldiçoados e plantado na casa por alguém que usava magia negra com o propósito de atormentar aqueles que ali escolhessem viver.

Os McNaught viveram ali por alguns anos, mas se disseram tão chocados com os acontecimentos na casa que não suportaram essa rotina de terror. Quando a família se foi, não houve mais nenhum incidente e eles apenas recomeçaram quando novos moradores se estabeleceram.

Essas forças das trevas começaram a orbitar mais uma vez a propriedade, rancorosos de que as pessoas estivessem morando lá novamente. O Reverendo Telfair decidiu ficar mais alguns dias e ver o que poderia fazer para afastar as forças, mas cada vez que rezava os fenômenos ficavam piores e mais intensos. De fato, a presença de Telfair parecia ter enfurecido as assombrações residentes e as agitado a um ponto em que viver ali se tornava impossível. Os ataques com pedras e paus foram ficando mais e mais violentos a ponto de várias pessoas ficarem feridas. Houve novos incidentes também, com incêndios começando repentinamente ao redor da propriedade, incluindo um incêndio que começou espontaneamente, bem no meio de uma sala. Outros fenômenos estranhos testemunhados por muitos envolvia uma mão branca sem corpo, que cutucava, empurrava e batia nas pessoas, bem como a aparição de uma criança de aspecto diabólico que espreitava pelos cantos. O próprio Telfair teria contato com essas duas manifestações quando passou a noite na casa principal. Seu relato era incrível:

"Eu senti em mais de uma ocasião, como se uma mão tocasse minhas costas, apertava e empurrava. Era forte, como a mão de um homem adulto e estava sempre flexionando os dedos para cravar na minha carne com força desmedida. Era possível sentir aquela presença."


Já sobre a outra manifestação ele escreveu:

"Já a outra presença se manifestava como uma criança de seis ou sete anos, mas com um olhar tão maligno e perverso que causava repulsa. Ela observava dos cantos, escondida atrás de móveis, cortinas e frestas. Sorria quando percebia meu desconforto e parecia se divertir quando eu me assustava. Eu sentia uma grande apreensão quando via esse espectro e ele desaparecia bem diante de meus olhos como se feito de névoa. Eu não acho que ela era uma criança ou mesmo o fantasma de uma criança... na minha opinião ele era outra coisa, algo maligno que simplesmente escolhia se parecer com uma criança inocente".

Várias pessoas descreveram essas duas manifestações e reforçaram que embora pequenas e aparentemente frágeis, elas eram fortes e extremamente malignas em suas intenções. Em certa ocasião a mão apertou a garganta da esposa do Senhor Mackie deixando impressos em sua pele a marca dos dedos.

Já a criança fantasmagorica parecia preferir assustar e desaparecer. Isso até o dia em que ela empurrou Mackie do alto de uma escada fazendo com que ele sofresse ferimentos leves. Enquanto o homem levantava atordoado ainda tentando entender o que havia lhe acontecido, percebeu no alto da escadaria aquela entidade sorrindo maldosamente.

Os incidentes continuaram acontecendo, cada vez mais violentos. Havia casos em que a força fantasmagorica empurrava, tocava, arranhava e até mordia suas vítimas. A família teve roupas rasgadas, lençóis de cama incendiados e em mais de uma ocasião foram acordados por potentes solavancos na cama que os atirava no chão. Pior que qualquer dano material, no entanto, eram os ferimentos sofridos, cada vez mais intensos.


Quando um crucifixo abençoado por Telfair pegou fogo e foi destruído, ele assumiu que a família estava lidando com uma força demoníaca, nao um mero fantasma. O Reverendo concluiu que não conseguiria lidar com essa entidade sozinho e que precisava de ajuda. Toda vez que ele tentava interceder, o resultado era uma onda de violência que irrompia na casa e a reação era tão forte que ele temia tentar novamente e trazer mais dano do que resultado.

A família estava nos limites de sua resistência, temendo pela própria vida, acreditando que nada poderia resolver aquela situação.

O Reverendo Telfair escreveu uma carta desesperada aos seus superiores explicando detalhadamente o que estava se passando com a família. Sua carta felizmente caiu mas mãos de dois ministros com experiência em exorcismos e casos de assombração: Andrew Ewart e John Murdo. Os dois eram competentes homens do clero, indivíduos que haviam lidado com casos impressionantes e fartamente documentados.

Os dois partiram para local tão logo tomaram ciência dos fatos com o objetivo de confrontar essas forças sobrenaturais. Isso daria início a um dos mais notáveis embates entre exorcistas e manifestações de que se tem notícia. 

Assim que os dois ministros chegaram à fazenda uma tempestade interminável de violência paranormal teve início, muito da qual dirigida a eles. Desta vez, as pedras arremessadas eram maiores do que nunca, lançadas com força sobre-humana, e as mãos invisíveis começaram a agredir com uma fúria que superava tudo até então. O demônio ou o que quer que fosse também inventou novos truques, lançando bolas de fogo pelas salas para incendiar as coisas. Telfair diria sobre a animosidade dirigida aos colegas:

"Foi especialmente cruel contra eles; jogando grandes pedras, algumas delas pesando quase um quilo. Uma delas feriu o Sr. Andrew Ewart duas vezes na cabeça, tirando dele sangue, arrancou sua peruca na hora da oração, e quando ele estava segurando o crucifixo entre as mãos, atirou nele uma pedra. O Sr. John Murdo também recebeu vários golpes doloridos nas pernas e nas costas. Naquela noite, ninguém na casa escapou da fúria sobrenatural. E também, ao amanhecer, quando se levantaram da oração pedras caíam sobre o telhado fazendo nas telhas buracos enormes. Ninguém escapou dos fortes golpes e das agressões motivadas por mãos invisíveis."


Outros ministros também foram trazidos, com eles também se deparando com a ira da entidade inescrutável. Um pastor que visitou a fazenda para tentar se unir aos esforço foi surpreendido por um pedregulho que lhe acertou bem entre os olhos o colocando inconsciente tão logo entrou na casa.

Enquanto tudo isso acontecia, a família se refugiou no porão da casa que parecia ser o único lugar ainda seguro. Ali eles fizeram uma tétrica descoberta: uma tábua solta no chão ocultava os ossos de uma criança embrulhados em papel. Os Mackie levaram a descoberta imediatamente para que Telfair verificasse. A descoberta dos restos fez as forças fantasmagóricas se tornarem ainda mais furiosas, com um fogo repentino irrompendo num dos quartos e quase destruindo a casa inteira. 

Havia agora uma séria suspeita do que poderia ter acontecido naquela residência e desencadeado toda aquela tragédia. Os pastores suspeitavam que em algum momento, uma criança havia sido sacrificada em algum tipo de ritual diabólico no porão e que, como resultado, uma coisa infernal foi trazida para nosso mundo. Era essa entidade que estava tornando a vida das pessoas um inferno, o mesmo ser que usava a aparência do menino morto. 

A primeira medida foi abençoar os restos mortais encontrados e realizar uma cerimônia na qual os ossos foram sepultados em terreno santo. À seguir, os ministros decidiram recorrer à comunidade e reunir o máximo de voluntários que pudessem ajudar. Eles conduziram o grupo numa oração ao redor da casa e durante mais de uma hora, os presentes foram atacados por pedras e mãos invisíveis. Mas logo os ataques começaram a perder a força e uma massa negra de sombras se formou diante da porta. A coisa foi descrita como uma massa viva de sombras que se movia, soltava gritos e murmurava ameaçadoramente. Finalmente quando os sacerdotes começaram a esconjurar e expulsá-la, ela se desfazer até sumir por completo deixando um rastro de enxofre. 

Só depois disso os fenômenos na fazenda Ringcroft cessaram.


Telfair escreveria um relato completo dos fantásticos acontecimentos reunidos em um livro que tinha como título: "A VERDADEIRA LUTA CONTRA UMA ASSOMBRAÇÃO DEMONÍACA - Expressões e Atuações da entidade que Infestou a Casa de Andrew Mackie em Ring-Croft". O livro foi um sucesso de vendas e se tornou muito popular entre exorcistas e ocultistas no século XVII e XVIII que o usaram como uma espécie de manual para o combate das trevas.

Com a provação terminada, os Mackies se mudariam alguns anos depois, incapazes de continuar residindo em um lugar onde coisas tão horríveis haviam transcorrido. A casa existiu até meados do século XIX, tendo sido colocada abaixo depois de ficar vazia por mais de um século. Durante todo esse tempo que permaneceu deserta, não houve qualquer sinal da assombração, embora os rumores sobre o acontecimento Ringcroft ainda fossem lembrados. Hoje, a única coisa que marca o lugar onde toda tragédia ocorreu, é uma árvore que dizem foi plantada pelos Mackies. 

O que teria acontecido nesse lugar? Teria sido um caso fantástico de atividade paranormal, fantasmas, assombrações, poltergeist, demônio ou outra coisa? Ou tudo não passou de farsa bem executada comandada pelo Reverendo Telfair para motivar a venda de seu best seller? É provável que jamais venhamos a saber, já que os fatos foram apagados e incorporados às lendas. 

Qualquer que seja a resposta real, essa continua sendo uma das assombrações mais intensas e bem documentadas da história da Escócia, destinada ao que tudo indica a permanecer para sempre sem solução.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

RPG do Mês: Nights Black Agents - Espionagem, Conspirações e... Vampiros


Imagine que você é um Espião, um Oficial de Inteligência ou ainda um Analista de dados sigilosos e descobre uma verdade fundamental sobre o mundo. Uma verdade que poucos conhecem e que, aqueles que conhecem, não sabem como encarar. Em suas peregrinações pelos bastidores da espionagem moderna e pelo submundo das informações secretas mais escusas, algo surgiu diante de seus olhos incrédulos. Algo mantido em segredo e cuja revelação é capaz de mudar tudo aquilo em que você acreditava até hoje.

O mundo se revela então como um lugar muito mais escuro e terrível do que se poderia supor... E ele é governado por indivíduos cujo poder e influência se estendem por séculos de nossa história. Mas não para por aqui! Não estamos falando de Sociedades Secretas como os Illuminati, o Priorado de Sião ou a Nova Ordem Mundial. É algo muito mais insidioso, perigoso e assustador.

Não são meros humanos os arquitetos desse Mundo Oculto, e sim, Vampiros

Ok, a primeira coisa que você pode pensar ao ler essa breve sinopse sobre o RPG Knights Black Agents é que ele parece estranhamente familiar. Afinal, Vampire - The Masquerade já tratou de algo bastante semelhante décadas atrás. 


Mas não! Não pense em Vampiro, a Máscara como base de comparação para com esse RPG de Conspiração e Espionagem pós-Moderna. Aqui temos a boa e velha humanidade tendo que lidar com seres das trevas que são tão poderosos que sequer precisam aparecer para serem temidos. Os Vampiros nesse jogo controlam tudo à sua volta, de suas câmaras profundas, de seus porões escuros e de seus covis protegidos eles colocam tudo em movimento (e nada se move sem sua aprovação). 

Vampiros são o que há de pior e nesse jogo, você não é um deles! Com sorte, você jamais irá encontrar um deles cara a cara, mas os seus servos, seus escravos e criaturas fiéis estarão em toda parte, dispostos a fazer com que você desapareça e que as coisas continuem como sempre foram.

Bem vindo à Grande Conspiração! Vampiros são reais e eles são o Inimigo.

Este é o cenário base de Night's Black Agents, um RPG escrito por Kenneth Hite usando o sistema GUMSHOE - o mesmo de Rastro de Cthulhu, como mecânica base. Nesse RPG temos uma inusitada mistura de "Identidade Bourne" e "Missão Impossível" com Drácula, gerando um incomum cenário batizado pelo seu autor de "Thriller de Espionagem Vampiresco".

Mas isso funciona? Vale a pena apostar nesse samba do Vampiro Doido? Ou a proposta é insólita demais para ser levada adiante?


Nesse artigo/resenha, fazemos uma análise desse jogo e discutimos sua proposta tendo em vista sobretudo de que ele está chegando a terras brasileiras, através da Editora New Order.

Então, vamos conhecer um pouco mais sobre Night's Black Agents (que doravante chamaremos de NBA)?

Publicado pela Pelgrane Press em 2013, Night's Black Agents, é uma mistura de gêneros tão diversos quanto espionagem moderna e horror, se passando em um período pós-Guerra Fria bem contemporâneo. Não é um mashup que se vê com frequência, pelo contrário, é algo bem singular. Há no entanto um casamento interessante de elementos, no qual o Mestre do Jogo, chamado de Diretor, criará missões perigosas e operações secretas nas quais seus jogadores irão transitar.

Em outras palavras, Night's Black Agents é essencialmente um jogo moderno de espionagem onde o horror desempenha papel central. Saem as células terroristas, os governos escusos e os ditadores perigosos e entram situações que testam os limites da coragem e sangue frio dos agentes. Nas sombras, os personagens, fazendo as vezes de espiões astutos e mercenários durões que terão de se desdobrar para sobreviver a essas missões arriscadas. Usando poder de fogo, equipamento tecnológico, conhecimento adquirido e habilidades variadas suas capacidades serão testadas ao máximo.


Uma típica missão em NBA pode envolver interceptar um mensageiro que sabe detalhes da conspiração, derrotar um grupo de assalto que age como esquadrão de extermínio ou ainda assassinar um agente duplo com informações vitais. Tudo isso envolvendo a conspiração central na qual invariavelmente se encontra um Vampiro.    

Uma das propostas mais interessantes em NBA é que o livro básico oferece algo chamado de Caixa de Ferramentas. Com ela o Diretor pode modelar a sua própria campanha da forma que bem entender e criar quatro Tipos distintos de Vampiro: Amaldiçoado, Sobrenatural, Mutante ou Alienígena. Isso significa que nenhuma campanha de NBA será exatamente igual às outras, já que o Diretor poderá escolher o estilo que mais lhe interessa (e aos seus jogadores).

Se o Diretor quiser focar em algo Clássico, como o já citado Vlad Tepes, ele poderá trabalhar os elementos góticos da conspiração tendo o famoso Conde da Transilvânia como personagem central da sua trama. Nesse ambiente, a história de Drácula conforme o romance é verídica e o Conde morto-vivo amaldiçoado pelo divino, continua atuando no mundo através de inúmeros agentes. Ele no entanto se adaptou aos novos tempos e usa métodos modernos em sua empreitada para dominar o mundo.

Contudo, se você, como Narrador, quiser outra abordagem, os Vampiros podem ser aberrações criadas por Sociedades Místicas, adoradores do demônio, satanistas e bruxos de enorme poder que descobriram como viver para sempre usando para isso o sangue dos mortais. Nesse ambiente em que o sobrenatural está no centro da trama, há espaço para seitas, sociedades secretas, magia negra e grupos envolvidos num controle perpétuo do mundo à nossa volta.


Mas se isso não te agrada, que tal trazer o foco para algo ainda mais sinistro e apavorante. Os Vampiros podem ser coisas não humanas, basicamente horrores vindos de outra realidade não-euclidiana em que loucura e morte proliferam. Vampiros seriam os arautos de seres incrivelmente poderosos e desconhecidos cuja mera existência deflagraria o fim da humanidade como conhecemos. Pense nos Grandes Antigos sendo servidos por Vampiros e você entenderá a proposta Mutante.   

Não? Não é para você? Então que tal imaginar os Vampiros como criaturas que vieram das estrelas e do espaço profundo. Eles são basicamente Alienígenas que desceram na Terra milênios atrás, com a missão de nos controlar por razões desconhecidas e vem cumprindo essa diretriz à risca. Eles não são seres sobrenaturais, e sim, extraterrestres dispostos a invadir e conquistar nosso planeta: nos usar como alimento ou em experimentos.

Não importa qual o Tipo de Vampiro escolhido para sua campanha, como Narrador, todos estão certos se atendem à sua ideia de campanha.

Night's Black Agentes oferece opções tão diversas quanto surpreendentes de como estabelecer as bases da sua Conspiração. E o melhor de tudo, talvez os Jogadores jamais descubram o que são os Vampiros, de onde vieram, o que querem e quais são os seus planos. Tudo é tão secreto e protegido que qualquer revelação por menor que seja constitui uma vitória. Rumores, boatos e mitos estão em toda parte, mas como em toda grande Conspiração, os personagens verão apenas a Ponta do Iceberg, sem jamais imaginar o quão distantes estão de sua base.


Além destes diferentes cenários, NBA oferece quatro diferentes Estilos de jogo chamados Cinzas, Terra, Espelho e Prêmio. Basicamente, cada ESTILO apresenta regras específicas que funcionam ou não naquela campanha.

Por exemplo, em um jogo no Estilo Espelho, existe a possibilidade de um Contato por sessão ser um agente duplo ou traidor; os jogadores podem optar por manter os objetivos de seus agentes em segredo uns dos outros; o Diretor pode implementar a mecânica de Confiança entre os agentes na qual a paranoia rola solta e o financiamento de equipamento de um agente provavelmente virá de fontes clandestinas. Nesse estilo de jogo as coisas serão bem mais complicadas e nunca se sabe em quem se pode confiar - nem mesmo em seus colegas. No estilo Cinzas, a coisa é ainda pior, você é um Rogue Agent obrigado a agir sozinho, tendo que se virar sem o apoio de uma agência, sem equipamento e contando apenas com seus colegas como apoio para as missões. Você não precisa reportar a uma autoridade superior, mas por outro lado não terá nenhum aliado de peso. Já num jogo no Estilo Terra, os jogadores terão menos habilidades gerais; menos capacidade combativa, serão mais calcados no mundo real e dependerão muito mais de sua astúcia e equipamento para sobreviver. Esse é o tipo de jogo que mais se assemelha aos livros de espionagem de John Le Carré. Finalmente temos o Estilo Prêmio que permite aos jogadores encarnarem agentes quase indestrutíveis, no melhor estilo Jason Bourne, Ethan Hunt ou mesmo James Bond. Para quem quer jogar algo com adrenalina bombando, com direito a  ação eletrizante, explosões, tiroteios e perseguições, esse é o estilo mais indicado pois os personagens serão uma espécie de "exército de um homem só". 

Cada Estilo de jogo oferece diferentes opções de regras e propostas distintas bastante interessantes  que abrem o leque de opções narrativas. Para aqueles que conhecem Rastro de Cthulhu, os Estilos são algo semelhante às opções PULP e PURISTA, cada qual com suas particularidades.

A criação de personagens segue as regras básicas do Sistema GUMSHOE, com os jogadores atribuindo pontos para dois tipos distintos de Habilidades. O menor número de pontos é distribuído nas Habilidades Investigativas do agente, que são usadas para coletar, processar e entender as pistas; o maior número irá para as Habilidades Gerais, que representam suas aptidões físicas e combativas. As habilidades dos agentes incluem façanhas notáveis que podem ser adquiridas durante a criação ou obtidas a medida que eles ganham experiência. 


Um agente, dependendo do Modo escolhido, poderá ser capaz de conduzir um carro por ruas estreitas em alta velocidade, criar explosivos e dispositivos de sabotagem ou ainda dominar artes marciais em altíssimo nível. Os personagens serão bastante capazes e terão um repertório de habilidades notável se assim desejar o Diretor. 

Além de atribuir uma quantidade de pontos às Habilidades de seu personagem e escolher suas capacidades, o jogador precisará definir seus Antecedentes, sua Fontes de Estabilidade (que ajuda a lidar com o stress das missões) e qual o seu papel dentro da equipe formada pelos seus colegas.

Há um grande número de ocupações disponíveis para os personagens dos jogadores. Pense nos estereótipos de filmes de espionagem e você poderá construir com relativa facilidade qualquer um deles. Os arquétipos básicos concedem linhas gerais para montar o personagem que mais lhe agrada, que pode ser qualquer coisa desde um analista de computadores, até um soldado implacável ou mesmo um sedutor que usa de lábia e sex appeal para conseguir o que deseja. 

Mecanicamente, NBA se vale de um hack do sistema GUMSHOE que portanto se difere em alguns pontos dos demais jogos lançados pela Pelgrane Press - Rastro de Cthulhu, Esoterrorists, Fear Itself e assim por diante. As diferenças são pontuais e estão lá para criar uma mecânica que se encaixa melhor na proposta original de "Thriller de Espionagem Vampiresco". A essência do jogo, no entanto, é preservada e aqueles que gostam do GUNSHOE terão facilidade de entender as mudanças e se ajustar ao sistema. 

Uma regra nova e exclusiva para NBA envolve as Cerejas que são uma forma de realçar as habilidades de seu personagem e tornar os efeitos obtidos muito mais impressionantes e significativos. Essa mecânica se encaixa muito bem na ambientação, sobretudo no estilo de jogo mais cinematográfico. 


De modo geral, o GUNSHOE é uma espécie de "ame ou odeie" dos sistemas investigativos, conheço muitos jogadores que adoram o sistema e que o usam com incrível facilidade, outros demonstram certo grau de resistência. Francamente, vai depender muito do grupo se ajustar ou não a ele. Uma coisa, no entanto, precisa ser dita, ele é funcional e fácil de entender.

O foco principal de Night's Black Agents é reconhecer, entender, enfrentar e quem sabe até derrubar a conspiração que os Vampiros construíram em torno de si próprios. Para ajudar o Diretor a criar os parâmetros dessa conspiração, o livro oferece uma estrutura chamada "Pirâmide Conspiratória". Nela caberá ao Diretor definir quem são os Vampiros que chefiam a conspiração, quem são seus comandados, como eles operam, qual o alcance de sua influência e como eles agem das sombras. Imagine a Conspiração como uma imensa máquina, toda conectada por engrenagens cada qual ligada a um enorme mecanismo central. Os Vampiros líderes ocupam o centro dessa máquina, mas eles controlam cada peça dela e nada funciona sem a sua ação.

O Diretor constrói as conexões e dispõe pistas no processo de construção da campanha. É como criar um mapa aberto o suficiente para que o Diretor possa improvisar e revisar cada elemento a medida que os agentes buscam quebrar a máquina e expor o sistema. Se eles conseguirão ou não, se terão êxito ou não, só depende de suas ações.

Sendo o jogo focado no mundo da espionagem pós-Guerra Fria, o cenário principal é essencialmente urbano com a ação transcorrendo nas principais capitais da Europa ou Oriente Médio. Isso dará a oportunidade de centrar cada missão em um diferente ambiente exótico e inesperado. Se em uma sessão os agentes estarão vagando pelas areias do Cairo, em outra poderão estar na gélida Moscou ou na soturna Berlim. O Livro básico descreve o cenário de três cidades Londres, Bucareste e Marselha oferecendo opções do que aguarda os agentes nessas metrópoles.


Além de um apêndice de termos úteis para cenários de espionagem, temos também um pequeno bestiário de criaturas e horrores criados pelos Vampiros e que podem constituir o pesadelo dos personagens. O livro conta ainda com um cenário pronto para dar o pontapé inicial em sua campanha e alguns excelentes conselhos de como construir histórias a partir desse ponto. O cenário pronto é interessante e fácil de ser adaptado como parte inicial de uma campanha muito mais longa.

Fisicamente, Night's Black Agents é um livro muito bem realizado. Capa dura, papel glossy de alta gramatura e diagramação primorosa que dão um ar luxuoso ao material. Os conteúdos não são apenas bem organizados em caixas e organogramas, mas também codificados por cores, predominando o Verde oliva, Vermelho e Preto, para dar a cada tópico sua própria identidade há uma simbologia própria. A arte é evocativa e sempre muito atmosférica. Agentes explodindo coisas, fugindo, lutando ou investigando cenas de crimes cobrem as 244 páginas do livro básico. A escrita é tensa, informativa e com uma narrativa que remete aos relatórios feitos por agentes de campo e analistas. 

Há tantas boas ideias em Night's Black Agents que muitas delas podem ser aproveitadas em outras ambientações. A estrutura da Pirâmide Conspiratória pode ser facilmente adaptada para qualquer RPG que envolva algum tipo de conspiração; tanto para mapear essa conspiração quanto, para construir seu background: sua história; suas diretrizes de funcionamento, principais atores etc...

Night´s Black Agents é um material incrível assinado pelo genial Kenneth Hite, um dos game designers mais badalados dos últimos tempos. Inventivo, criativo e repleto de opções, a ambientação deve agradar a jogadores e narradores interessados em algo diferente e intrigante para sua mesa de jogo. Então, prepare o pente de munição com balas de prata, instale uma lâmpada UV na lanterna e fique de olho no reflexo dos espelhos...

Reze para haver alguma verdade nessas histórias de Vampiro.

Conforme dito, a Editora New Order está trazendo esse fantástico material que já se encontra em pré-venda na página oficial e que pode ser adquirido com um preço especial. O PDF será liberado imediatamente, já o livro deve seguir para entrega a partir de março. Vale a pena dar uma boa olhada e conhecer esse RPG. No link abaixo, você encontra as informações pertinentes:


quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Senhor da Caça - Tsul 'Kalu o sangrento Grande espírito do Povo Cherokee


De todas as lendas registradas nas crenças tradicionais do sudeste dos Estados Unidos, uma das mais interessantes envolve Tsul 'Kalu, o lendário Senhor da Caça entre os nativos Cherokee.

De modo geral, os nativos americanos não veneram Deuses, mas sim, espíritos que incorporam grandes realizações e que passam a ser intimamente associados a estas façanhas. Alguns destes espíritos em vida foram grandes guerreiros, caçadores ou feiticeiros, cuja importância se manteve mesmo após a morte. Na forma de espíritos a lembrança deles foi mantida e eles ganharam influência como personagens lembrados e celebrados.

Tsul 'Kalu, no entanto é algo diferente. 

Embora respeitado e invocado para garantir uma caçada proveitosa, esse espírito era igualmente temido pelos nativos. Considerado quase que uma ameaça a ser respeitada e satisfeita com sacrifícios e devoção. 

Tsul 'Kalu era frequentemente invocado antes do início das caçadas por conta de sua associação com búfalos, gamos, veados e outros animais que eram presas dos antigos Cherokee que dependiam deles para seu sustento. A maioria dos relatos descreve o espírito como um homem grande, essencialmente um gigante, embora algumas tradições o tenham retratado como uma espécie de "entidade" insubstancial. O nome do gigante se traduz como "ele cuja visão tudo controla", título que se refere ao poder magnético de seus olhos, capazes de paralisar e controlar aqueles que o encaram.


Relatos colhidos por exploradores europeus remontam às primeiras décadas do século XIX. Entre as lendas mais populares estava a versão registrada pelo antropólogo James Mooney, que conta como Tsul ‘Kalu se aproximou de uma aldeia e passou a  vigiá-la. O gigante gostou de uma garota e por ela se afeiçoou a ponto de sequestrá-la. Na lenda ele a levou para uma caverna no alto das montanhas a oeste onde pretendia mantê-la.

Após o rapto, o irmão da garota, um bravo guerreiro chamado It'ruil partiu ao resgate e acabou encontrando a morada do gigante. Tsul 'Kalu sentiu a aproximação do rapaz e armou uma emboscada nas montanhas. Quando ele passava por um despenhadeiro, o gigante gritou como um trovão e provocou um desmoronamento. Preso sob as rochas, It'ruil pediu ajuda a outros espíritos e esses responderam mostrando onde ele deveria cavar para se ver livre. O jovem foi então instruído a viajar até a cidade perdida de Kanuga, que ficava no coração da montanha e lá jejuar por sete dias. Nesse período ele experimentou visões que mostraram como vencer Tsul 'Kanlu.

Munido de uma lança especialmente forjada para a tarefa, It'ruil conseguiu entrar nos domínios do Deus da Caça e com uma estocada certeira o feriu em seu ponto fraco. A lenda se encerra dizendo que o ferimento provocado não foi fatal. Se o espírito tivesse sido destruído, o povo Cherokee seria afetado para sempre e não teria quem intercedesse em suas caçadas. Mesmo assim, a tribo amargou vinte anos de caça esparsa, período em que tiveram de aprender a plantar. Eventualmente o espírito se recuperou do ferimento e voltou a abençoar os caçadores. 

O domínio terreno de Tsul ‘Kalu tinha o nome Tsunegun’yi e era um lugar sagrado que supostamente se encontra nas montanhas que dividem a Carolina do Norte e o Tennessee. O território cujo nome se traduz como "Terra de caça do controlador" é uma espécie de intercessão entre o mundo real e o espiritual. Aqueles que viajam até esse lugar místico recebem visões, são abençoados ou amaldiçoados pelos espíritos e passam a ser tratados como indivíduos tocados pelo além. 


As lendas associam o Tsunegun'vi a regiões que só podem ser acessadas mediante o oferecimento de sacrifícios. No passado, havia rituais nos quais o pleiteante precisava caçar e matar um animal de grande porte, um búfalo ou cervo, comer seu coração arrancado do peito ainda quente. Uma vez realizando essa tarefa e clamando pelo Grande Espírito seu acesso era garantido.  

Em Deep Creek, no condado de Swain, Carolina do Norte há uma vale isolado que os antigos Cherokee relacionam com essa lenda. O local, cujo nome nativo pode ser traduzido como "onde está a pegada", se refere aos petróglifos que adornam as pedras ancestrais. Apenas os xamãs da tribo além de alguns bravos guerreiros e caçadores tinham permissão de entrar nesse vale e ver as pedras sagradas. Os escolhidos ouviam as histórias sobre Tsul 'Kalu, realizavam ritos de passagem e recebiam as bênçãos. Imersos em danças e cânticos sagrados, inebriados por peyote (uma bebida alucinatória), os caçadores jejuavam e ouviam as palavras dos espíritos. Saiam de lá com um pacto firmado, sentindo uma conexão com o mundo sobrenatural que os tornava caçadores completos.   

Indiscutivelmente, o local mais famoso associado ao mito de Tsul ‘Kalu chama-se Judaculla Rock, uma grande pedra de esteatita próxima de Cullowhee, Carolina do Norte. Coberto de petróglifos de proveniência desconhecida, as lendas dizem que os espíritos possuíram os xamãs e fizeram com que eles cobrissem as pedras com aqueles símbolos. O nome, Judaculla, representa uma corrupção da palavra Cherokee para Tsul 'Kalu e segundo a lenda foi do alto da montanha que o gigante saltou, caindo sobre essa pedra. Ao fazê-lo, diz-se que Tsul ‘Kalu deixou uma grande marca de seus pés e de sua mão direita na rocha. 

Lendas sobre gigantes entre os mitos Cherokee são relativamente comuns. Mooney coletou histórias relevantes envolvendo Tsul 'Kalu. Algumas delas foram obtidas com um tal James Wafford, que viveu entre os Cherokee em meados de 1806. De acordo com Wafford:

“…os velhos Cherokee conheciam os gigantes que viviam no mundo espiritual. Estes cruzaram o portão para o mundo dos homens usando cavernas muito profundas que chegavam ao coração da montanha. Os gigantes eram quase duas vezes mais altos que os homens e tinham olhos estranhos, grandes e brilhantes. O maior dentre eles era conhecido como Tsul'kalu e ele era seu líder. Ele escolheu habitar a fronteira entre seu reino e o mundo dos homens, e se tornou um caçador de todas as bestas”.


Mooney acreditava que os Cherokee compartilhavam dessa mesmas lendas passadas oralmente de pai para filho por gerações.

Os mitos sobre Tsul 'Kalu fazem menção clara à sua estatura gigantesca. Para todos os padrões ele era um gigante de corpo musculoso com mais de três metros de altura. Seus braços e pernas eram longos e cabeludos, adornados com manchas escuras que formavam padrões geométricos muito usados pelos xamãs. Apesar de sua estatura avantajada, Tsul 'Kalu se movia com a graça de um puma e com a desenvoltura de um gamo, sem fazer som e sem deixar pegadas por onde passava. 

Uma das suas características principais dizia respeito aos seus olhos. Eles seriam grandes e escuros, ainda assim, brilhantes à noite, como olhos dos felinos da montanha. Seu brilho podia ser visto, refletido na luz das tochas. Mesmo quando escolhia ficar invisível, os olhos podiam ser vistos fulgurando como duas brasas. Aqueles que encaravam esses grandes olhos ficavam paralisados e estupefatos. Não conseguiam se mover uma vez que sentiam estar na presença de um poderoso espírito. Os covardes se colocavam de joelhos aos seus pés em desespero, mas os valentes eram aceitos. 

A entidade sempre carregava uma lança em sua mão direita. O mito afirmava que essa arma legendária havia matado pelo menos um espécime de cada animal da criação e que por isso sempre era representada escorrendo sangue escuro de sua ponta afiada. Aqueles que se portavam de maneira indigna diante de Tsul 'Kalu e que despertavam sua ira eram lançados do alto da montanha para a morte certa nas profundezas de uma ravina. Seus ossos jamais seriam encontrados e seus espíritos vagariam eternamente em vergonha.

Tsul 'Kalu era um deus colérico e furioso, que bebia sangue e se deliciava com o massacre. Ele sempre era descrito acompanhado da carcaça de dezenas, senão centenas de animais trucidados pela sua lança, suas garras e presas. Os homens admiravam sua força, sua determinação e seu poder, não por acaso ele era considerado uma entidade de vigor masculino, um símbolo de agressividade e potência sexual. 


Quando os homens iam sair em uma caçada, especialmente se essa fosse por um lugar perigoso, era tradicional oferecer a Tsul 'Kalu um sacrifício. Em geral, a primeira caça abatida era consagrada para a entidade que então, caso ficasse satisfeita atrairia outras presas para os caçadores. Os caçadores por vezes bebiam o sangue dos animais e o usavam para pintar símbolos nos corpos.

É provável que o favor de Tsul 'Kalu tenha sido invocado para favorecer também guerreiros que estivessem caçando fugitivos. Os Cherokee acreditavam em diversos rituais, sendo que um deles envolvia libertar prisioneiros para que estes fossem perseguidos implacavelmente pelas pradarias. Os caçadores dedicavam a perseguição a Tsul 'Kalu. Há relatos desse ritual de caça ter sido realizado com prisioneiros de tribos rivais e também com colonos brancos capturados. Quando o fugitivo era apanhado, ele era morto e estripado com uma faca afiada ritualística de silex. Seu coração era então arrancado do peito e o sangue quente ainda gotejando sorvido como um símbolo da caçada.

No final do século XIX, as tribos Cherokee foram empurradas cada vez mais para o interior. Os nativos também perderam boa parte de seus costumes ancestrais. Aos poucos a crença em Tsul 'Kalu começou a perder força até desaparecer praticamente por inteiro no século seguinte. Ainda assim, o Grande Espírito Cherokee da caça permanece como um item de fascínio até os tempos modernos.