terça-feira, 11 de abril de 2023

Cthulhu Mythos - Explorando o Saber Profano e como este afeta os Investigadores


De todas as habilidades na ficha de personagem do Investigador em Chamado de Cthulhu, nenhuma é mais atraente, desejada e perigosa do que o célebre Cthulhu Mythos.

O uso da habilidade Cthulhu Mythos permite que os Investigadores reconheçam monstros, tomos, artefatos, magias e divindades do Mythos. Ele é uma espécie de conhecimento esotérico que inclui todo tipo de informação referente ao Mythos. De notas de rodapé à grandes revelações, de detalhes obscuros aos segredos mais indizíveis, impronunciáveis, inimagináveis...  

Ele se difere da habilidade Ocultismo, que se concentra em segredos mais mundanos transmitidos através da civilização humana ao longo dos milênios. Enquanto Ocultismo se refere às tradições herméticas clássicas, a mitologia convencional e às superstições rudimentares, o Cthulhu Mythos é a "coisa de verdade". Enquanto o primeiro trata de fantasmas, vampiros e porque a sexta feira 13 é uma data azarada, o outro se debruça sobre horrores cósmicos impenetráveis e milenares. Comparativamente ocultismo é menos potente, mais "pé no chão", enquanto que o Cthulhu Mythos é a própria razão de ser do termo "conhecimento perigoso".

Em ambientações lovecraftianas, via de regra, os investigadores começam o jogo sem pontos em Cthulhu Mythos, isso porque seus investigadores ainda não foram expostos a esse horror. Existe um Pacote de Experiência opcional no Manual do Investigador que sugere aumentar o nível para 1D10+5 enquanto incorre nas deduções de Sanidade apropriadas. Nem todos os Guardiões permitem essa regra opcional, e francamente eu mesmo não gosto muito dela, mas cada um sabe do seu jogo.


Desvendar os terríveis segredos do universo, não é algo simples e os investigadores tendem a sentir na pele os efeitos dessas revelações.  Muitos personagens, esperam, no entanto, colocar em prática suas habilidades arduamente conquistadas. Na maioria dos casos, porém, eles devem fazer testes heroicamente desafiadores para obter informações enigmáticas e, mesmo se forem bem-sucedidos, não terão oportunidade de aumentar sua habilidade durante a Fase de Desenvolvimento do Investigador. Diferentemente das demais habilidades expressas na ficha, Cthulhu Mythos, tem um progresso restrito. Tanto na vertente Clássica quanto na Pulp, há maneiras específicas de obter os valiosos pontos nessa habilidade. 

Os investigadores aumentam seu valor de Cthulhu Mythos de duas maneiras: 

A) Através do estudo dos lendários Tomos de Feitiçaria que contém o saber maldito destilado e vertido em suas páginas. Livros blasfemos como o Necronomicon, o Vermiis Mysteriis ou o Livro de Eibon, ocupam um lugar de destaque nas histórias lovecraftianas e eles são a maneira mais comum de acessar o Mythos. O indivíduo precisa de tempo e dedicação para perscrutar os livros e compreender o que o autor queria dizer - nem sempre uma tarefa simples, já que os escritores tendem a ser, eles próprios, instáveis e insanos. Esse processo exige um investimento de tempo substancial dos investigadores nem sempre possível em cenários. Alguns livros mais intrincados demandam semanas de estudo e dedicação para dissecar e compreender seu conteúdo blasfemo.

Se o leitor de um livro for um descrente, alguém que trata aquilo tudo como bobagem, o estudo de um tomo permite o aprimoramento da habilidade sem custo para a sanidade. O personagem absorve o conhecimento assumindo que ele não passa de uma mera mitologia ou superstição. No entanto, uma vez que o investigador entra em contato com o Mythos, ele perde os pontos correspondentes. Isso simula o princípio de "ver para acreditar" e funciona muito bem no jogo.


Os Tomos com conhecimento do Mythos, também não são fáceis de encontrar. Eles são volumes raros, fora do alcance das pessoas, restritos a bibliotecas vedadas, coleções particulares ou então repousam nos templos de Cultos apocalípticos. Resgatá-los desses lugares pode ser tão difícil quanto compreendê-los. Uma aventura inteira pode tratar da obtenção de um livro. E uma vez recuperado, o "tesouro" pode se mostrar muitíssimo perigoso.

B) O confronto direto com as forças do Mythos, seja na forma de criaturas, deuses, feitiços ou artefatos é a segunda maneira de se obter esse conhecimento. Por confronto pressupõe-se que o investigador testemunha algo, é atingido por uma magia, ativa um artefato ou então, mais comumente vê uma criatura pessoalmente.

O primeiro encontro do Mythos em geral é uma experiência traumática. É como se uma venda fosse removida dos olhos do investigador com ele em uma sala iluminada por holofotes. O choque é compreensível! A revelação de que o Universo é muito mais vasto e aterrorizante do que se poderia supor às vezes pode causar uma grave confusão mental.

Essa experiência concede cinco por cento na habilidade Cthulhu Mythos e incidentes subsequentes garantem um por cento adicional. Portanto, um investigador com uma carreira mais longa (o que nem sempre ocorre, por razões óbvias) acaba conhecendo mais sobre o Mythos à medida que o explora.

À medida que o nível da habilidade aumenta, a sanidade máxima do investigador sofre uma redução correspondente. Isso se encaixa na perspectiva Lovecraftiana de que os humanos tropeçam ignorantemente em um universo enorme e incompreensivelmente escuro. O acesso limitado à percepção mística serve tanto ao Guardião quanto aos jogadores quando se trata de capturar esse tom específico.


Campanhas épicas e de longa duração, como Máscaras de Nyarlathotep ou Horror no Expresso do Oriente, que apresentam muitos e variados encontros com o Mythos, permitem grandes oportunidades para os investigadores desenvolverem razoavelmente a habilidade. Pode chegar o momento em que personagens veteranos encontraram no curso de suas carreiras tantas coisas bizarras que eles próprios passam a ser indivíduos bizarros. O saber do Mythos molda a percepção de várias maneiras e representar isso no jogo pode ser algo bem interessante.

Mais do que um simples teste para determinar o que se sabe ou não, uma rolagem de Cthulhu Mythos deve ter um peso considerável.

Ao testar Cthulhu Mythos, tenha em mente que um resultado positivo funciona como uma REVELAÇÃO que atinge o personagem com enorme impacto. Ele não é uma simples informação e sim a uma constatação de como o mundo é um lugar assustador por aceitar a existência de tais horrores. Portanto, não trate de maneira leviana tais testes.

Aqui estão algumas sugestões de como um teste de Cthulhu Mythos bem sucedido pode ser emulado numa mesa de jogo. Essa não é uma tabela, mas uma lista que pode ser empregada pelo Guardião para aumentar a dramaticidade de uma cena de revelação. Use com moderação ou sem qualquer moderação, de acordo com o que for interessante para seu cenário. Da mesma maneira, fica aberto aos jogadores consultar essa lista e usar como parâmetro para sua interpretação.

1 - O personagem sofre uma confusão mental. Ele não sabe exatamente como lidar com o saber e fica momentaneamente perdido. A mente parece se fechar, tentando processar a informação. Essa sensação pode levar alguns segundos ou até mesmo longos minutos.

2 - O personagem tem uma explosão emocional. Ele grita, chora, gargalha de forma incoerente ou quem sabe um misto delas. A revelação às vezes cobra um preço alto e este é pago sob a forma de uma reação inesperada. Imagine entender as dimensões de uma trama cósmica! Alguém pode ser censurado por surtar momentaneamente? 

3 - A revelação faz com que o indivíduo se sinta amortecido. É como se o mundo ao seu redor parasse de girar e ele se sentisse no centro do Universo. Ele não ouve, não sente, não experimenta nada. As vozes parecem distantes. Diferente do estupor descrito anteriormente, que lhe é imposto, aqui o indivíduo escolhe se fechar para o mundo. Ele precisa de um tempo para processar o que descobriu.

4 - O personagem reage com um fascínio mórbido e um interesse renovado no assunto. Como a mariposa que se aproxima da chama mortal, ele sabe do perigo, mas este é tão encantador que ele não consegue evitar.

5 - O teste causa um transtorno de curta duração. O indivíduo se sente esmagado pela revelação e reage como se estivesse sob grave ameaça. O lugar onde ele está pode se tornar insalubre, os aliados à sua volta são passíveis de desconfiança e uma paranoia o consome de dentro para fora. Se alguém o pressionar ele pode reagir com agressividade ou até recorrer à violência. Isso dura alguns instantes até o controle retornar gradualmente.

6 - O personagem tem um choque que abala o seu auto-controle. Ele pode começar a gaguejar ou perder a fala por completo. Pode sofrer um episódio psicosomático com as pernas fraquejando ou a visão escurecendo que o deixa paralítico e cego por alguns instantes. 

7 - Uma forte crise de ansiedade o consome. O personagem sente que não está seguro, que algo ruim está na iminência de acontecer e que ele irá morrer ou então sofrer. Em casos típicos de Crise de ansiedade é possível sentir falta de ar, incômodo e até desfalecer por alguns instantes.

8 - O personagem se perde em devaneios. Ele não consegue articular de maneira coerente e balbucia nomes e termos abstratos: "O Sultão Demoníaco"... "O Caos Rastejante"... "Os shoggoths"... "Cthulhu Fhtagn", "O horror... o horror...", "Oh, a humanidade"...

9 - O indivíduo é dominado por uma onda avassaladora de náusea. O asco diante da revelação é tamanho que ele pode chegar a vomitar ruidosamente. É como se ele tentasse expelir fisicamente de seu organismo o conheciemnto. Serão necessários alguns instantes até ele se sentir apto a agir normalmente.       

10 - CHOQUE. Um frio cortante se espalha pelo seu corpo congelando as extremidades e fazendo com que o investigador se sinta paralisado. O choque é uma reação física a um desequilíbrio emocional grave. O personagem treme, bate os dentes e pode até sofrer um colapso.  
Tenha em mente que o uso bem-sucedido da habilidade Cthulhu Mythos não deve arruinar de todo o seu cenário. Para Guardiões preocupados com revelações improvisadas após o sucesso de um investigador, considere adiar a pista fornecendo-a em um sonho, visão repentina ou ilusão algum tempo depois. Não há uma regra para como um teste bem sucedido deve ser encarado. 

Se você sabe que seus jogadores gostam de testar a habilidade Cthulhu Mythos, considere preparar alguns trechos de informações tentadoras que aprofundam o sabor do cenário ou oferecem uma pequena vantagem no encontro final ou resolução do caso. Talvez eles lembrem de alguma passagem ou de algum detalhe de rodapé num livro que pode vir a ser útil. De qualquer forma, mesmo um Sucesso Extremo não permite ver estatísticas do monstro ou compreender suas motivações específicas. Considere que o teste é um vislumbre sob a cortina, mas não uma apreciação completa do que ela oculta.

sábado, 8 de abril de 2023

Crucificação - A História da mais Cruel e Terrível das execuções do mundo antigo


No Mundo Antigo, execuções eram algo trivial. Ocorriam com chocante frequência e variavam de acordo com os crimes cometidos pelo indivíduo a quem se desejava punir.

Haviam punições rápidas que visavam fazer com que o criminoso morresse de uma vez, poupando-o de humilhações e constrangimento. Esses eram geralmente resolvidos com golpes desferidos contra a cabeça que resultavam em uma "morte limpa". Justiça célere, como diziam alguns juristas medievais.

Outras mortes, no entanto, podiam ser mais elaboradas, tornando-se verdadeiros espetáculos sangrentos no qual o transgressor enfrentava horas ou mesmo dias de absoluto sofrimento. A execução nesses casos não visava apenas a morte, mas era uma lição a ser aprendida pelos demais criminosos em potencial: "Façam o que ele fez, e este será o seu fim". 

O celebrado político e filósofo romano Cícero considerava a Crucificação a punição "mais cruel e terrível" que poderia existir. "Somente a palavra 'cruz' por si só deveria estar longe não apenas do corpo de um cidadão romano, mas também de seus pensamentos, de seus olhos, de seus ouvidos." dizia ele em suas cartas.

Das três formas mais brutais de executar alguém na antiguidade, a crucificação era considerada a pior, seguida pela cremação e pela decapitação.

"Foi necessária uma combinação de absoluta crueldade e sendo de espetáculo que levou à criação da Crucificação", conta Diego Pérez Gondar, professor da Faculdade de Teologia da Universidade de Navarra.

Em muitos casos, a morte do executado ocorria dias após ser crucificado, diante do olhar dos transeuntes que passavam ou paravam para observar seu sofrimento. A crucificação geralmente ocorria em um lugar de grande destaque, onde as pessoas pudessem testemunhar o que acontecia e cada instante da penitência. O corpo passava por um misto de sufocamento, perda de sangue, desidratação, falência de diversos órgãos, entre outros problemas. O martírio era realmente indescritível.

A modalidade de execução hoje está intimamente ligada a via crucis experimentada por Jesus Cristo. É impossível falar no assunto sem invocar à mente imagens celebradas pela cristandade como  o maior dos sacrifícios. Contudo, Cristo foi apenas um dos muitos que morreram na cruz, um castigo cujas origens remontam a muitos séculos antes dele. Sim, a história da crucificação é muito mais longa e sangrenta do que podemos supor.

Ela provavelmente se inicia nos tempos do Império Assírio, que se estendia desde as costas do Golfo Pérsico até o que hoje é a Turquia e o Egito. Sua civilização foi um dia majestosa; marcada por conquistas, realizações e monumentos impressionantes que os tornaram famosos em todo mundo antigo. Em um momento de sua existência, ele constituiu o maior e mais influente Império do mundo. Isso ocorreu entre o ano 900 a. C e 600 a.C, aproximadamente, quando a grande civilização, uma superpotência tecnológica impulsionada pela riqueza de seus mercadores e à crueldade de seus exércitos atingiu seu ápice.

Um de seus mais importantes monarcas, Senaqueribe, é considerado o expoente original do que hoje é conhecido como Guerra Total. Ele levava a arte da guerra às últimas consequências, explorando cada aspecto do conflito para destruir o inimigo não apenas pela força militar, mas arrasando sua economia, sua sociedade e sua civilização. Se você vivia no mundo antigo, não iria querer enfrentar esse povo.

Os assírios tiveram o cuidado de deixar registros não apenas de suas realizações, mas também dos cruéis castigos que impuseram a seus rivais conquistados.

Embora castigos estivessem presentes nos códices legais e no discurso da realeza em todo o Oriente Médio, eles ganhavam especial destaque entre os Assírios. A Guerra e o Castigo aos inimigos era algo levado muito à sério pelos assírios. 

A historiadora Eva Miller no artigo "Crime and Testament: Enemy Direct Speech in Inscriptions of Esarhaddon and Ashurbanipal" (Crime e Testamento: discurso direto do inimigo nas inscrições de Assaradão e Assurbanípal) da revista especializada Journal of Ancient Near Eastern History revela como se davam as punições.

Os inimigos deveriam estar sempre no centro das manifestações de expressão, fossem passeatas ou celebrações de vitória. A ideia era arrastar os vencidos e conquistados para "poderem recriar sua subjugação e derrota" diante da população.

De acordo com os historiadores, o castigo da crucificação provavelmente se originou com os assírios e babilônios e foi usada sistematicamente pelos persas no século VI a.C. Eles acreditavam que a crucificação era o método de execução mais eficiente para transmitir a mensagem de seu poder. Aqueles que ousavam enfrentá-los deveriam sofrer a mais horrível das mortes. 

As informações mais antigas disponíveis sobre a Crucificação vêm de algumas decorações de palácios assírios. Nas paredes do palácio haviam relevos com desenhos que representavam algumas batalhas e conquistas e a forma como os prisioneiros capturados eram executados. Dentre estes aparece a técnica do Empalamento, contudo os desenhos mais contemporâneos remetem ao procedimento da Crucificação. Um desses relevos, relata a historiadora Rebecca Denova, mostra "prisioneiros pendurados em traves de madeira, com o poste usado para apoiar suas costelas e uma madeira perpendicular onde seus braços ficavam presos.

"O objetivo dessa punição excruciante era enfatizar a crueldade e o terror que aguardavam os prisioneiros e rebeldes", indica em um artigo da World History Encyclopedia.

O texto explica que a Civilização Persa adotou o método quando ascendeu no Oriente Médio. Eles realizavam as crucificações em árvores ou postes em vez de uma cruz formal para potencializar ainda mais o terror. Por vezes, nessas árvores haviam abelhas, vespas ou formigas que cobriam o corpo do criminoso que ali ficava preso.

Combinar a pena de morte com o escárnio do condenado e uma morte cruel era frequente e uma das técnicas era deixá-lo pendurado em um pedaço de madeira para que morresse de asfixia e cansaço. Quanto maior o martírio, melhor.

Coube a Alexandre, o Grande, levar a punição para os países do Mediterrâneo oriental em meados do século IV aC.

"Alexandre e suas tropas sitiaram a cidade de Tiro (atual Líbano), que era mais ou menos inexpugnável", relata o Professor Perez. "Diz a lenda que Alexandre questionou prisioneiros de Tiro sobre o que mais os aterrorizava e causava medo e eles quase que unanimemente respondiam: A Crucificação. Alexandre ameaçou a população da cidade que se eles não se rendessem, ao entrar na cidade promoveria um espetáculo de execução como nunca antes visto. Eles resistiram por mais alguns meses até capitular. Quando finalmente entrou na cidade, o conquistador ordenou a crucificação de cerca de 2.000 pessoas."

Os sucessores de Alexandre introduziram o castigo no Egito e na Síria, bem como em Cartago, a grande cidade norte-africana fundada pelos Fenícios. Foi nas Guerras Púnicas que os romanos tiveram o primeiro contato com o método. A princípio, eles ficaram chocados com a punição e a viam como um espetáculo nauseante e bárbaro. Ocorre entretanto que eles aparentemente acabaram se acostumando com ele... e por fim, até se afeiçoaram à sua realização, vindo a aperfeiçoá-la nos 500 anos que se seguiram. 

"Onde as legiões romanas iam, ocorriam crucificações", ou assim diziam os povos conquistados.

Em alguns lugares regidos pela Lex Romanis, o castigo foi adotado pelos locais e empregado com algumas adaptações de acordo com cada costume. Eram os romanos, entretanto que primavam pelo método consagrado de trespassar os pulsos da vítima com cravos de ferro que uniam a carne à madeira. 

Mas em pelo menos alguns momentos, os próprios romanos experimentaram de seu veneno. No ano 9 d.C, o líder germânico Arminio mandou crucificar os soldados do General romano Varo, após um confronto conhecido como a batalha da Floresta de Teutoburgo que representou uma derrota humilhante para os romanos. Dizem que foi necessário derrubar tantas árvores que a floresta ficou depauperada de madeira. Os soldados executados formaram eles próprios uma floresta de carne que gemia e se contorcia de dor. 

No ano 60 DC. C., Boudica, a rainha da tribo britânica dos Iceni, liderou uma grande revolta contra os invasores romanos e crucificou vários legionários. Também foi uma das ocasiões em que os romanos sentiram na pele o castigo que reservavam para seus inimigos.

Isso nos leva a Terra Santa, onde as orgulhosas Legiões de César adentraram. 

Em Israel, mesmo antes da chegada dos romanos, a crucificação já era conhecida e usada. "Temos fontes que falam de crucificações anteriores à dominação romana na Terra Santa, embora a morte fosse reservada apenas para os crimes mais graves e vexatórios", salienta Perez.

Um historiador da antiguidade, o político e soldado judeu Flávio Josefo, nascido em Jerusalém no século I descreve que durante o reinado de Alexandre Janeu (125 a.C-76 a.C), que governou os judeus por 27 anos, a Crucificação foi empregada no conflito entre os fariseus e os asmoneus

"Enquanto festejava com suas concubinas em um lugar visível, Janeu ordenou a crucificação de cerca de oitocentos judeus e a morte de seus filhos e esposas diante dos olhos dos infelizes que ainda estavam vivos e agonizavam", escreveu Flávio Josephus sobre um incidente ocorrido no ano 88 a.C.

Quando os romanos entraram em Jerusalem, decidiram que apenas eles poderiam realizar as crucificações, garantindo para si o monopólio sobre a mais cruel das execuções.

De acordo com historiadores modernos, os romanos também chegaram a crucificar os condenados em árvores ou postes, mas incorporaram uma variedade de cruzes, como uma cruz em forma de X (crux decussata) que foi a mais utilizada por vários anos. No entanto, na maioria dos casos, eles usavam a familiar cruz latina (crux immissa) ou tau (T) cruz (crux commissa). Essas cruzes podiam ser altas (crux sublimis), mas as baixas (crux humilis) que eram mais comuns, e consistiam em um poste vertical (stipes) e uma barra transversal (patibulum)”.

Fazia parte da tradição que o condenado carregasse a parte horizontal da cruz até o local onde ocorriam as execuções. O espetáculo visava garantir que todos na cidade soubessem o que estava para acontecer e que pudessem se referir ao criminoso e humilhá-lo mais ainda. Era tolerado no entanto, um mínimo de piedade. Tradicionalmente, as mulheres de Jerusalém, dizem os cronistas, ofereciam ao condenado uma bebida que tinha efeitos analgésicos e que mitigava sua dor. 

"Se a vítima não estava nua, sua roupa era removida quando chegava ao local determinado e ele era deitado de costas com as mãos estendidas ao longo do patíbulo."

O verdugo amarrava os braços à trave ou então cravava os pregos nos pulsos usando para isso um martelo. Diferente do que é retratado em vários quadros, os pregos não podiam ser colocados na palma das mãos porque elas não suportariam o peso do corpo, podendo se rasgar e se soltar. Os pregos de ferro podiam medir até 18 cm de comprimento e 1 cm de espessura. Eram peças maciças, que tinham a cabeça larga para não escapar da carne e escorregar com a profusão de sangue que vertia da ferida.

O procedimento mais frequentemente adotado para a Crucificação envolvia uma série de etapas.

Quando o condenado estava preso à trave horizontal, ela era erguida com cordas ou um sistema de polia e fixada na estaca vertical que já estava cravada no chão. Os pés podiam ser amarrados ou pregados no poste vertical, um de cada lado ou os dois ao mesmo tempo, um  sobre o outro. Nesse caso, explicam os autores, um único prego era cravado nos metatarsos de ambos os pés, enquanto os joelhos estavam flexionados.

A dor devia ser inimaginável, "muitos nervos eram tocados durante o procedimento", destacam os historiadores. "A vítima presa à cruz tinha que forçar as pernas naqueles pregos para poder sentar e respirar. E nisso perdia-se muito sangue, havia uma dor tremenda, mas se não fizesse dessa maneira, ocorria o sufocamento.

Em muitos casos, era uma morte lenta. Por fim, não era o ferimento nas mãos ou nos pés que provocava a morte e sim a falência de múltiplos órgãos, causada pelo esforço de manter a respiração. Médicos legistas ressaltam que a morte era decorrente de um massivo colapso circulatório devido ao choque hipovolêmico. Os condenados sofriam diminuição do volume de sangue (hipovolemia) devido à perda traumática de sangue e desidratação, mas principalmente por insuficiência respiratória.

Uma das facetas mais tenebrosas da Crucificação é que a morte podia demorar dias e dias até chegar. Há registros de indivíduos que ficavam pendurados por até sete dias sem alcançar a expiação. Quando o espetáculo se tornava excessivamente hediondo, alguns verdugos ordenavam que ele fosse abreviado com um ferimento desferido com lança ou espada. Não haviam, no entanto, regras claras.

"Como normalmente levavam dias para morrer, em alguns casos o que os soldados faziam para acelerar a morte era bater nos joelhos e quebrar as pernas. Dessa forma, o condenado não conseguia se levantar nem um pouco para respirar usando os músculos das pernas, isso fazia com que morressem em pouco tempo”, relata Perez. 

Segundo o relato bíblico, os soldados romanos implementaram essa medida com outras pessoas que haviam sido crucificadas com Jesus, mas não fizeram com ele porque já havia morrido. As escrituras dizem que Cristo havia sofrido uma tremenda tortura, tipicamente romana, a Flagelação antes de ser crucificado. Isso pode ter abreviado seu sofrimento.

Amarrado ou pregado, o castigo da crucificação buscava "expor e humilhar" o condenado ao que havia de pior e mais ultrajante. Por essa razão, era uma morte reservada aos piores inimigos para deixar claro que não queriam ver ninguém cometendo o mesmo crime. Aplicava-se também a escravos e estrangeiros, mas muito raramente a cidadãos romanos. Chegou a existir uma lei que baniu esse tipo de sofrimento do convívio dos romanos que podiam sofrer várias atrocidades, mas nunca uma similar à Crucificação. 

O método estava intimamente associado a traição, a levantes militares, terrorismo, a algum crime que teria levado a derramamento de sangue, ou seja, quando alguém era especialmente violento. Nos registros romanos que sobreviveram há casos de homicidas, de homens que mataram os pais ou a esposa, que abandonaram o campo de combate, que assassinaram seus comandantes ou de escravos que conspiraram para matar seus senhores. Os romanos viam esses comportamentos como graves ofensas.  O que impressiona no caso de Jesus, é que ele não havia cometido nenhum crime de gravidade e mesmo assim, recebeu uma punição absurdamente desproporcional.

Constantino I aboliu a punição da crucificação apenas no século IV d.C. e se tornou o primeiro Imperador Romano a professar o cristianismo. Ele acreditava que a Crucificação deveria ser um símbolo da Nova Fé e assim, o peixe (símbolo da cristandade até então) cedeu espaço para a cruz que hoje denota a fé cristã.

No entanto, esse não foi o fim da Crucificação. 

A punição continuou sendo repetida em outros lugares ao longo da história. Por exemplo, no século XVI, em pleno Japão Feudal, missionários foram crucificados pelas autoridades nipônicas. O ato é considerado como marco do início de um longo período de perseguição contra os cristãos naquele país. O mesmo ocorreu na Coréia e na China. Durante as Cruzadas, alguns soldados capturados sofreram esse tipo de execução nas mãos dos seus inimigos muçulmanos. Mesmo em tempos mais recentemente, fala-se que na Grande Guerra, soldados britânicos teriam sido crucificados no incidente conhecido como Anjos de Mons. Na Guerra do Vietnã também houve relatos nunca comprovados de soldados americanos ou civis cristãos sofrendo esse tipo de martírio. 

É irônico que apesar de sua longa e cruel história, a cruz represente hoje, para muitos cristãos e não cristãos, uma mensagem de entrega e sacrifício.

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Monumentos de Pedra e o Mythos - Usando Círculos em cenários de Horror Lovecraftiano


Círculos de Pedras parecem ter uma fácil associação com o Mythos de Cthulhu.

H.P. Lovecraft fez frequentes alusões aos seus Deuses e Divindades reputando a eles um papel central na trama cósmica. A maioria deles são oriundos das estrelas, ou vieram de recantos muito distantes na vastidão do espaço, onde reinavam supremos.

Os Deuses Lovecraftianos são nativos de lugares como Xoth, Formalhaut, as Pleiades ou Andrômeda, constelações tão distantes que sua existência só podia ser percebida como pálidas estrelas no firmamento. Um dos princípios essenciais no Mythos é que as estrelas desempenham um papel fundamental para compreender as entidades e estabelecer com elas uma comunicação.

Também é um elemento central que determinados alinhamentos celestiais desencadeiam eventos muito aguardados. Assim é, por exemplo, com o Despertar dos Grandes Antigos que ocorrerá apenas "quando as estrelas estiverem certas". Isso significa, grosso modo, que, quando os planetas e estrelas estiverem devidamente alinhadas em uma posição Cthulhu e os demais deuses finalmente se verão livres de sua prisão.

Nos contos e histórias criadas por H.P. Lovecraft, os cultos ancestrais que veneram e servem aos Antigos tem uma compreensão única destes seres. No passado remoto da humanidade, feiticeiros e xamãs teriam estabelecido um contato através de sonhos com essas poderosas entidades. Também receberiam delas as visões e portentos que indicariam não apenas como servi-las, mas o que fazer quando elas despertassem de seu sono milenar.


Lovecraft relacionou de forma harmônica o interesse de civilizações antigas com as estrelas e a Mitologia de Cthulhu. De certa forma, elas são a mesma coisa ou ao menos uma influenciou a outra.

Segundo a mitologia lovecraftiana, homens primitivos teriam recebido instruções dos Deuses não-humanos para estarem prontos quando as estrelas estivessem alinhadas. Para isso, deram a eles uma forma de seguir o movimento celestial. Nesse contexto, os grandes círculos de pedra, encontrados em várias civilizações e que são enormes observatórios primitivos, teriam sido construídos com o propósito secreto de calcular o momento em que as estrelas estarão certas.

Ao longo de sua obra, o autor cita repetidas vezes que o homem primevo, por estar mais próximo dos deuses ancestrais, possuía um entendimento que nos dias atuais havia sido esquecido. Influenciado e de certa forma, guiado pelos Deuses, ele teria observado com interesse as estrelas sabendo que nelas residia o destino final da humanidade.

Lovecraft menciona em alguns de seus contos a relação direta entre círculos de pedra e os Mythos.

Ele fala brevemente de Stonehenge e o cita como uma espécie de templo onde tribos de britânicos primitivos se reuniam para observar os céus e temer a vinda dos antigos. Ele fala mais propriamente dos anéis de pedra erguidos no alto das colinas da Nova Inglaterra, mais especificamente na área rural de Dunwich. No conto "O Horror de Dunwich", os círculos de pedra usados pela degenerada família Whateley eram utilizados não apenas para observação, mas para o contato com Yog Sothoth. De fato, é num desses lugares que supostamente ocorre a invocação feita pelo mago Noah Whatley que termina com a gravidez de sua filha Lavínia.


Não apenas Lovecraft faz menções a anéis de pedra, cobertos por símbolos astronômicos que servem de local sagrado. Robert E. Howard em "A Pedra Negra" descreve os rituais blasfemos ocorridos aos pés de uma milenar rocha escura erguida nos ermos de Stregoicavar, na Hungria. Nesse local insalubre cultistas dançavam extasiados ao redor de um monólito conectado com os Deuses. Parece razoável supor que essa pedra seria um dos calendários usados para observar as estrelas. Arthur Machen tambem faz várias alusões aos Arcos de Pedra que se espalham pela paisagem de seu soturno País de Gales. O aterrador Grande Deus Pã inclusive é contatado em um desses lugares escuros onde o passado parece mais presente do que nunca.

Mais recentemente, Stephen King usou a ideia de um tenebroso círculo de pedra nos ermos da Nova Inglaterra em seu conto N. Na história o local era tão aterrorizante que simplesmente visitar o monumento poderia ser suficiente para deixar uma marca na pessoa e dar início a uma série de alucinações. 

Estudiosos da obra de Lovecraft especulam se ele teria se baseado na então recente teoria do Stonehenge americano localizado em Mystery Hill, no estado de New Hampshire. O Stonehenge Americano fica no local de uma antiga fazenda e permaneceu intocado por milênios. Ele ocupa uma encosta arborizada e tem algo em torno de quatro mil anos, mas as dificuldades de precisar essas informações de forma científica começaram imediatamente após sua descoberta na década de 1930 e até hoje dividem os especialistas. Muitos tratam o lugar como uma farsa, mas outros o aceitam como um monumento pré-histórico autêntico. Quem o teria erguido e com qual propósito, escapa ao nosso conhecimento. Sendo Lovecraft um entusiasta da arqueologia e do mundo antigo, é provável que ele tenha acompanhado a descoberta com interesse, embora não tenha comentado nada sobre o assunto em suas cartas.

Em ambientações lovecraftianas e de terror em geral, os círculos de pedra podem ser mais do que simples observatórios. Eles podem ser verdadeiros portais gigantescos esperando apenas o momento certo para se abrir. Os Círculos oferecem um palco interessante para o final grandioso de um cenário ou mesmo de uma campanha épica. Talvez eles sejam o local de encontro de cultistas que planejam ativar as pedras e invocar seus deuses em algum ritual apocalíptico ou ainda o templo máximo de uma deidade cósmica.


É fácil imaginar um culto devotado a Shub-Niggurath ou Yog-Sothoth usando um círculo de pedras como catalizador de um ritual de invocação. Feiticeiros, sacerdotes ou xamãs poderiam receber as instruções sobre como "ativar" as pedras e concluir os ritos necessários para estreitar as paredes entre planos e realidades. Mesmo Deuses menores e mais obscuros poderiam ser contatados através do alinhamento de pedras - Tulzcha, Daoloth ou mesmo Y'Golonac poderiam ser invocados perante um círculo.

É de se imaginar que os ritos envolvam preparativos específicos que tornam sua execução algo fora do normal e um evento importante. Na tradição dos Mythos, tais experimentos envolvem sacrifícios e algum tipo de celebração orgiástica. O som de instrumentos de percussão, brados insanos (Iä! Iä!), danças que mais se assemelham a convulsões espasmódicas, evolução no entorno das pedras, o uso de máscaras e adereços sinistros, além de demonstrações inequívocas de fanática devoção aos antigos, estariam presentes entre os cultistas. Lovecraft se esmerava em tornar as celebrações voltadas para as entidades algo blasfemo. O narrador pode incorporar tortura, sadismo, animalismo, canibalismo e a quebra de todo e qualquer tabu moral a essas celebrações profanas.

Para evitar que o ritual atinja seus objetivos, caberia aos Investigadores interromper a celebração antes de ser "tarde demais". Talvez o grupo - se tiver investigado corretamente cada pista, tenha em seu poder um feitiço que expulsa a entidade chamada ou um artefato que fecha o portal para sempre. Mas isso envolveria, é claro, uma confrontação com os cultistas e talvez até ter de lidar com alguma entidade menor chamada previamente com o intuito de proteger ou abençoar o evento. Servidores dos Deuses Exteriores, os Pássaros Shantak, Horrores Caçadores e Crias Negras são seres perfeitos para essa função. 

Contudo, ter de enfrentar maníacos e um Guardião não se compara a ter de encarar o horror que esses rituais tendem a convocar dos recessos distantes. Nada pode ser mais terrível do que testemunhar um dos Grandes Antigos ou pior ainda, um deus Exterior se manifestando ainda que por poucos segundos. Quando tais seres tocam a Terra, tudo se transforma e a mera presença desses seres tende a conspurcar a natureza. Isso sem falar no custo de Sanidade!

Círculos de Pedra são perfeitos para o Horror de Chamado de Cthulhu. Não apenas são monumentos silenciosos e cheios de mistério, mas sua própria natureza ancestral causa uma sensação de estranheza em quem os visita. Acrescente a isso o fato deles serem uma conexão com um passado quase imemorial e temos elementos suficientes para fazer deles o palco para horrores indescritíveis além das esferas do tempo e do espaço.

segunda-feira, 3 de abril de 2023

Apontando as Bruxas - Métodos Bizarros usados para Identificar Feiticeiras


Ao longo dos séculos houve momentos em que as pessoas tinham certeza absoluta de que Bruxas e Feiticeiros estavam vivendo bem perto de suas casas.

Eram tempos de grande superstição e medo, quando o temor do sobrenatural contaminava as populações e as compelia a fazer coisas que hoje achamos absurdas, imorais ou simplesmente muito, muito erradas. As chamadas "Caça às Bruxas" deixaram uma marca horrível na história humana. 

A mais infame dessas caças ocorreu entre os séculos XVI e XVII, em pleno início da Era moderna, em praticamente todas as partes da Europa. Nos territórios de língua alemã do Sacro Império Romano, a perseguição às bruxas foi ainda mais acentuada. Uma verdadeira epidemia de terror com bruxas varreu essas regiões.

A maioria dessas "feiticeiras" eram esposas agressivas ou viúvas de trabalhadores agrícolas com baixo nível socioeconômico. Também as parteiras, mulheres que faziam poções, adivinhas, cartomantes e curandeiras de todos os tipos eram muito visadas por conta de suas ocupações. Mexer com os mortos, com doenças, com a sorte ou com recém nascidos, podia atrair suspeitas sobre a pessoa, mesmo quando suas intenções eram boas. Embora homens tenham sido menos frequentemente acusados de bruxaria, havia casos em que eles também podiam ser perseguidos, de fato, na Rússia e na Islândia era mais comum que homens fossem apontados como bruxos do que mulheres.

As crenças populares diziam que bruxas eram servas malévolas de Satanás que se organizaram contra a cristandade nos sábados, em encontros chamados Sabás. Elas eram praticantes de diferentes vertentes de feitiçaria que realizavam desde adivinhações até necromancia (a mais vil das artes negras). 

As leis do Sacro Império eram muito rigorosas quanto a Bruxaria e visavam um combate pleno e constante contra ela. Uma bula papal do início do século XVI tratava a bruxaria como "crimen exceptum" ou seja, passível de todos os métodos para ser extirpada. Isso servia como um tipo de permissão para usar todos os métodos necessários. Os acusados podiam, portanto, ser perseguidos, interrogados e torturados para se obter uma confissão.

Alguns métodos empregados eram especialmente cruéis e estão relacionados abaixo.

1. Privação do Sono


Alguns métodos para determinar a culpa de uma bruxa remontam aos primórdios da civilização humana. As referências mais antigas podem ser encontradas no Código de Hammurabi do século XVIII aC, que detalhava várias formas de apontar um praticante de feitiçaria. No Império de Nicéia haviam leis muito claras para a realização dos julgamentos, enquanto o sinistro Livro Malleus Maleficarum ou "Martelo das Bruxas" editado no do século XV fornecia um guia prático para  Demonologistas e Caçadores de Bruxas.

Entre os vários métodos a serem empregados pelos Caçadores e descritos em tais documentos está a Privação do Sono. Acreditava-se que a Bruxa necessitava ter um sono regular através do qual suas energias diabólicas eram restauradas por intermédio de sonhos enviados pelo demônio. Se uma bruxa fosse impedida de dormir, seus poderes reduziam drasticamente.

Esse pensamento visava não apenas apontar uma bruxa, mas reduzir suas capacidades. 

O acusado de bruxaria era tradicionalmente privado de sono por cerca de 40 horas. Durante todo o processo, seria interrogado e pressionado a admitir sua identidade como servo de Satanás e se possuía associados. A privação do sono era garantida por um guarda que observava o acusado e sempre que este cochilava era responsável por despertá-lo com água, com ruídos ou com agressão física. 

Essa tática foi muito comum na Itália e na Inglaterra, países que tinham leis expressas que exigiam períodos mínimos de 30 horas de privação antes que um acusado fosse levado à julgamento. Na maioria dos autos de julgamentos, o Juiz questionava quando o acusado havia dormido pela última vez. Se o prazo não fosse respeitado, ordenava que se aguardasse.

O método era interessante para a acusação já que um réu exausto ficava mais suscetível a aceitar sua culpa ou apontar um companheiro. Um período tão longo de privação do sono pode ainda causar delírio ou até alucinações que levam o indivíduo a se comportar de maneira atípica.

2. Imersão na Água


Um dos testes mais antigos para determinar se uma acusada era ou não uma bruxa envolvia o mergulho na água. 

A água era tida por muitas culturas como algo puro e benigno. A água corrente possuía, no entender de muitos teólogos, propriedades que poderiam ser empregadas para determinar se alguém estava ou não em conluio com as forças das trevas.

Nos tempos antigos, supostos feiticeiros e outros criminosos eram submersos em água corrente e absolvidos se sobrevivessem a repetidos mergulhos. O acusado era amarrado em uma espécie de cadeira que o impedia de se mover ou escapar. Em seguida, a cadeira presa a uma corda, era atirada em um lago ou rio, para que em seguida pudesse ser suspensa. 

Havia duas crenças populares relacionadas a esse método. A primeira envolvia a noção de que Deus ajudaria os inocentes, impedindo que eles se afogassem, enquanto os culpados simplesmente acabariam morrendo. A segunda é que o impacto repetido com a água poderia limpar a alma da pessoa de qualquer corrupção e expulsar presenças sobrenaturais que agiam sobre o indivíduo. A água corrente também era uma maneira de lavar os pecados.

Embora esta forma de teste tenha sido proibido em muitas áreas e caído em desuso, o julgamento pelo mergulho tornou-se popular novamente no final da Idade Média. Demonologistas atestavam que a água corrente e fria podia ser empregada com resultados positivos para livrar aqueles acometidos de possessão diabólica. É provável que doentes mentais, esquizofrênicos e epiléticos fossem as principais vítimas desse método. 

O Rei Jaime VI da Escócia, ele próprio um caçador de bruxas, acreditava que a água pura repelia os demônios dos corpos e deixava o indivíduo livre de qualquer presença diabólica. Apenas por curiosidade, Jaime também ficou conhecido por obrigar acusados de Feitiçaria a consumir de uma só vez litros e mais litros de água, às vezes com um funil em suas bocas. Se a pessoa suportasse esse, sem se afogar podia até ser libertada. 

Embora a imersão na água envolvesse uma corda usada para içar o acusado, acidentes eram muito comuns. O impacto com a água podia matar ou ferir gravemente a pessoa, isso sem falar dos riscos da hipotermia e do afogamento. Apenas para registrar, o último julgamento usando Imersão ocorreu na Espanha em 1785.

3. A Marca do Diabo


Outro sinal comum de culpa de uma bruxa era a chamada Marca do Diabo. 

Os caçadores de bruxas acreditavam que os feiticeiros receberiam tal marca ao completar seu pacto com Satanás e que essa podia ser descoberta mediante um exame cuidadoso. Embora pudesse mudar de cor, forma e potencialmente até de localização, a marca em si poderia ser descoberta por um demonologista experiente que sabia como buscá-la. 

A marca para alguns poderia ser um mamilo extra no corpo do acusado que supostamente era usado para amamentar assistentes demoníacos como familiares e diabretes. Poderia ser também uma verruga grande, uma mancha estranha ou uma cicatriz de nascença. Falava-se de dentes na garganta, símbolos no couro cabeludo ou uma pústula no interior da vagina. Em certas partes da Europa, mesmo tatuagens podiam ser confundidas com o sinal do diabo.

Para encontrar a Marca os examinadores sujeitavam os réus a um exame incrivelmente humilhante. Colocavam a pessoa nua e examinavam centímetro por centímetro de seu corpo, às vezes com o auxílio de lentes de aumento e velas. A ideia era apertar, apalpar e espremer qualquer sinal suspeito. A revista era extremamente invasiva e podia incluir a raspagem de cabelos, toques constrangedores e mesmo exame de cavidades. 

Os Juízes se valiam de agulhas longas e pontiagudas especialmente projetadas para procurar as marcas. Essas ferramentas eram empregadas para furar, arranhar ou penetrar a carne do acusado em busca das tais marcas ocultas sob a pele. Um ferimento que não sangrava ou então sangue de cor ou consistência curiosa podia atrair a atenção do examinador. As agulhas podiam ser enfiadas na garganta, no ouvido e no nariz, mas há relatos delas sendo inseridas na vagina, uretra e ânus dos réus.

Durante o auge da Caça às bruxas, a Inglaterra e a Escócia até apoiaram o surgimento de profissionais, os Picadores (Prickers), que realizavam esse exame criterioso embora esses homens provavelmente nem soubessem o que estavam buscando e forjassem seus resultados. Não por acaso, o termo "prick" hoje em dia é usado para determinar alguém desonesto. 

Alguns destes testes se relacionavam com conceitos antropológico de que os fluidos corporais de uma bruxa podiam conter elementos mágicos. Sangue, urina, bile e outras secreções podiam ser colhidas para análise, com especialistas dispostos até a cheirar, manusear ou mesmo experimentar essas coisas e determinar resquícios de magia (!!!). 

4. A Prensagem 


O método conhecido como Prensagem tem uma história longa e muito específica no início não relacionada à bruxaria. Ele era originalmente empregado contra criminosos, em especial ladrões de gado ou ovelhas de quem se desejava extrair uma confissão.

No entanto, um dos casos mais famosos de Prensagem ocorreu na célebre Caça às Bruxas de Salem, nos tempos coloniais dos Estados Unidos. Um octagenário chamado Giles Corey, foi acusado de ser um feiticeiro ao lado de sua esposa Martha. Depois de se recusar a declarar sua culpa, Corey foi submetido a essa forma de tortura. Durante dois dias, ele permaneceu deitado e imobilizado com uma tábua sobre seu corpo. Pedras cada vez mais pesadas eram colocadas sobre a tábua na esperança de forçar uma confissão.

Embora este tenha sido o único exemplo de prensagem na história americana, a prática foi muito usada na Europa. Ele remonta especificamente a certas tradições de direito comum, incluindo a noção francesa de "peine forte et dure" ou punição forte e dura. De acordo com esse sistema, a pressão deveria ser usada quando o réu se recusasse a uma confissão. O princípio é que o peso arrancaria a culpa do corpo do indivíduo. 

A Prensagem era um tipo de interrogatório muito temido na Era Medieval e as pessoas antes de serem submetidas a ela, eram instruídas sobre o procedimento. Muitas confessavam qualquer coisa para não se verem sujeitas a esse horror. O esmagamento lento, porém gradual do corpo era um tipo de tortura quase insuportável, agravado por outros métodos de extrair a confissão que podiam incluir desde queimar os dedos da vítima ou até fazer cócegas em seus pés com penas. Muitas pessoas sujeitas a prensagem assumiam qualquer crime.

No Sacro Império, as vítimas da prensagem podiam ser sujeitas ao tratamento desumano por até quatro dias segundo as leis vigentes. Se suportassem tal coisa, podiam ser consideradas inocentes recebendo a liberdade e um pedido de desculpas na forma de flores. Que singelo!  

5. Queimando na fogueira


Quando a maioria das pessoas hoje em dia ouve falar de bruxas sendo punidas, elas imediatamente imaginam uma pessoa sendo queimada na fogueira. No entanto, essa punição tem uma história muito mais longa e também foi usada para lidar com traição, rebelião e heresia. Em particular, queimar na fogueira está associado ao auto-de-fé e a práticas como derramar metal derretido sobre – ou dentro – de um criminoso. 

Na prática, o fogo direto raramente matava a vítima, esta morria muito antes de seu corpo arder em chamas. A fumaça produzida pela lenha e palha seca era bem mais provável de causar um sufocamento fatal. Também a morte podia ocorrer por insolação, dano a órgãos vitais ou perda de fluidos corporais ocasionados por um longo período de exposição ao calor da fogueira que literalmente cozinhava a pessoa. 

Em se tratando de feitiçaria, o julgamento pelo fogo pode ser rastreado até o célebre Código de Hammurabi, sendo este método reservado para sacerdotes que traíam seus deveres clericais. Uma mulher podia ser condenada à fogueira mais frequentemente por adultério comprovado. Mais tarde, a Inquisição Medieval decidiu usar o fogo como instrumento de purificação contra hereges. O fogo era considerado um elemento de expiação, embora o espetáculo de indivíduos queimando (sem falar no cheiro) fosse desagradável até para o mais zeloso inquisidor. O espetáculo era tão desagradável e indesejado que alguns teólogos defendiam que as bruxas fossem estranguladas antes de serem colocadas na pira. A imagem de pessoas gritando e sofrendo com o fogo, portanto, é irreal.  

Antes de condenar uma pessoa a arder na fogueira, um teste podia ser ordenado para que se verificasse se o indivíduo sentia os efeitos do calor e das chamas. Se o indivíduo recebia uma queimadura e não gritava, poderia se entender que Deus a estava protegendo e que a punição era um erro, isso poderia resultar em uma liberação ou comutação da pena em prisão. 

No entanto, é inegável o efeito que a Fogueira teve ao construir um pânico social em torno da Inquisição. A mera sugestão de um auto-de-fé podia causar um efeito devastador em uma cidade. Como resultado, regiões inteiras podiam ser rapidamente consumidas pelo pânico. Os prisioneiros ameaçados com a fogueira acabavam entregando outros nomes e estes ainda mais em um círculo vicioso interminável. Espanha, Portugal e Itália foram palcos de autos-de-fé, mas estes foram relativamente mais raros em outras partes da Europa onde embora fogueiras ardessem, não eram tratadas como um acontecimento.   

A Caça às Bruxas dos séculos XVI e XVII deixou segundo a análise de historiadores algo entre 40 a 60 mil mortos. É menos do que muitos supõem quando se fala em Inquisição Medieval e de execução de bruxas, mas ainda assim é muito quando se considera o impacto social. Sem falar dos milhares de perseguidos, humilhados e torturados.

O legado daqueles dias sombrios permanece como um lembrete do que nós, humanos, podemos racionalizar – e da importância de manter nossas instituições espirituais e legais separadas. Talvez este seja um dos capítulos mais vergonhosos da história humana, e justamente por essa razão, é importante conhecer os detalhes dessa tragédia afim de que tal coisa jamais se repita. 

quinta-feira, 30 de março de 2023

Stonehenge Alemão - A sinistra história de morte e sacrifício no Círculo de Pömmelte


Todos que gostam do assunto ou que tem interesse no mundo antigo, obviamente já ouviram falar do famoso Monumento de Stonehenge.

O enorme círculo de pedra localizado nas planícies da Inglaterra central desafia nossas noções sobre o que os antigos eram capazes de fazer. Ele nos oferece um vislumbre do conhecimento, das tradições e da engenhosidade dos homens do passado. Muitos tentaram explicar a razão para sua construção: seria ele um local de adoração e de importantes encontros dos druidas? Um avançado calendário celestial? Ou ainda, um templo para as religiões Pagãs?

Stonehenge continua tendo muitos mistérios. Não se sabe exatamente como ele foi construído, como as imensas pedras conhecidas como megálitos - algumas com dezenas de toneladas, foram levadas até aquele lugar, quando e por quem. Não se sabe o que ele simbolizava para os povos pagãos. Que tipo de cerimônias ocorriam no entorno das pedras? Que tipo de deuses eram reverenciados? Os mistérios são tantos que levaria tempo para colocar aqui todas as questões. 

Ocorre, entretanto, que Stonehenge não é o único círculo de pedra da Europa.


A maioria das pessoas não sabe que existem muitos outros espalhados principalmente pela Europa Ocidental, em lugares que no passado tiveram enorme importância para os povos do Neolítico.   

Um dos monumentos de pedra mais interessantes é Pömmelte considerado como a versão alemã de Stonehenge. Este majestoso monumento localizado na região da Saxônia, no leste da Alemanha, é muito semelhante ao seu homólogo britânico. A construção é bastante similar, com pedras alinhadas em círculo, dispostas em posições chave que poderiam ser usadas para observar as estrelas e acompanhar seu movimento. Os druidas alemães, assim como os britânicos, observavam o céu e através das estrelas calculavam alinhamentos, a passagem do tempo e a mudança das estações. A maioria das festividades ocorriam nas datas previstas pelos sacerdotes druídicos que planejavam quando deveria ocorrer o plantio, a semeadura e a colheita. A fecundidade do solo era uma questão de sobrevivência, portanto, de máxima importância.

Assim como ocorria em Stonehënge, Pömmelte era palco de importantes rituais que atraíam pessoas. Famílias viajavam grandes distâncias para conhecer o monumento e tomar parte nas festividades que ocorriam ao seu redor. Talvez eles viessem para receber bênçãos, para oferecer seu sacrifício ou ainda para ouvir as palavras de homens sábios que comungavam com os deuses e afirmavam conhecer os segredos do universo.

Descoberto em meados de 1991, Ringheiligtum Pömmelte - o Anel de Pedras de Pömmelte foi construído com uma mistura de madeira sólida e pedras em sete círculos. Trincheiras foram escavadas e bancos de areia erguidos para assentar as traves em um trabalho que deve ter exigido a participação de muitas pessoas ao longo de décadas. Tudo isso sem máquinas, sem equipamento e dependendo quase que exclusivamente da força bruta. Por tudo isso, Pömmelte é uma façanha notável.


A análise de artefatos indica que a construção começou por volta de 2300 aC por uma cultura proto-germânica conhecida como os "Taças de Sino". Esse povo da Era do Bronze ganhou esse nome graças aos copos de beber em formato de sino que usavam no seu dia a dia. Esta cultura, sobre a qual sabemos muito pouco, foi substituída pelos Unéticos, naturais de onde hoje fica a República Checa. Existe a possibilidade que a cultura dos Taças de Sino tenha sido dizimada justamente em função do anel de pedras, já que os outros povos cobiçavam o local e desejavam usá-lo. Em algum momento do ano 2250 aC, uma cultura avançou sobre a outra e a submeteu a um massacre que devastou totalmente o povo. Como resultado, eles foram praticamente extintos.

O Povo Unético passou a usar o Círculo de Pömmelte como lugar sagrado e para todo tipo de Ritual envolvendo astronomia. Eles olhavam para o céu com reverência e seus druidas usavam o monumento como um tipo de comunicação com o plano celestial. 

Esses druidas foram os responsáveis pela criação do famoso Disco Celeste de Nebra, possivelmente a mais antiga representação conhecida do cosmos, uma espécie de mapa celeste bastante que permitia seguir o balé das estrelas e prever acontecimentos cósmicos. Para os povos antigos da Era do Bronze, saber quando ocorreriam determinados alinhamentos de estrelas e conjunções planetárias era uma vantagem enorme. Significava basicamente saber quando rezar para os deuses na esperança de que eles recebessem e ouvissem as mensagens comunicadas. Era como ter uma espécie de calendário que permitia a comunicação com as esferas exteriores.

Considerando o tamanho de Pömmelte - que tem uma área maior que Stonehenge, e a importância dele para os povos da região, é de se supor que ele atraísse muitas pessoas para as celebrações. Escavações nos arredores do monumento encontraram ruínas de habitações de pedra usadas por pessoas que visitavam o local e que precisavam de um local adequado para dormir, comer e descansar. Em algum momento, um assentamento chegou a se desenvolver ali, com a existência de pequenos templos que acomodavam druidas vindos de outros cantos do continente. É possível que estes fizessem peregrinações para conhecer os segredos do observatório primitivo e estudar a Carta Celeste de Nebra.


O trabalho dos arqueólogos iniciado em 2000 prometia grandes descobertas sobre os povos que um dia habitaram aquela região: sua cultura, seus costumes e sua sabedoria finalmente poderiam vir à tona, depois de milênios. Havia muita expectativa à respeito do que um povo tão avançado poderia oferecer em termos de conhecimento. No entanto, a descoberta de um cemitério na extremidade norte do monumento revelou que Pömmelte tinha uma história bem mais sombria do que se imaginava no princípio.

Escavando esse vasto campo funerário os pesquisadores encontraram restos de cadáveres enterrados em covas rasas. A maioria destes pertenciam a jovens mulheres e crianças com idades variando entre 2 e 21 anos. A maioria deles apresentavam fraturas cranianas graves, condizentes com golpes frontais brutais provavelmente desferidos por porretes ou clavas.  

Os cientistas concluíram que essas mortes teriam ocorrido em rituais religiosos bastante elaborados, o que aponta para o fato de que em Pömmelte ter sido um centro em que ocorriam Sacrifícios Humanos. Além dos golpes frontais que produziam uma fratura devastadora bastante comum nos restos encontrados, outras vítimas apresentavam fraturas nas mãos, dedos, joelho e múltiplas fraturas nas costelas. A análise determinou que muitos desses ferimentos poderiam ser condizentes com surras brutais ou ainda com torturas.  

"Tudo indica que no final da ocupação principal, por volta de 2050 aC, a religião local sofreu uma grande mudança de procedimento. As oferendas até então eram grãos, madeira e vinho, ocasionalmente algum animal colocados em nichos nas pedras ou ainda queimados em valas. Contudo, em algum momento isso mudou e sacrifícios humanos se tornaram comuns", disse Heinrich Spatzier um dos arqueólogos envolvidos nos estudos do círculo.


"É possível que o aceso a recursos tenha diminuído consideravelmente e que as pessoas se viram diante de um cenário onde não havia muito a oferecer. Isso motivou as pessoas a buscar outro tipo de sacrifício que pudesse satisfazer suas divindades", ele conclui.

Historicamente, muitos povos da Idade do Bronze praticavam algum tipo de ritual envolvendo sacrifício, isto não era em absoluto, incomum. Os povos germânicos pagãos eram conhecidos por louvar seus deuses através de uma série de ritos que buscavam estabelecer um contato com as divindades e honrá-los com a vida dos mortais. Em Pömmelte, contudo, isso parece ter sido levado às últimas consequências.

Há indícios de que as ruínas encontradas e que se supunha serem habitações ou pensões para visitantes vindos de longe tinham outra função. Elas poderiam ser usadas como masmorras onde futuras vítimas de sacrifícios seriam mantidas como prisioneiras. Mas pior do que simples prisões esses lugares poderiam ser usados como instalações onde estupro, tortura e morte eram realizadas comumente. Muitos dos druidas germânicos podiam exercer direito de vida e morte sobre as pessoas. Eles teriam liberdade para fazer o que bem entendessem sem temer qualquer reprovação.

Os pesquisadores ainda tentam entender quais eram as práticas sociais e religiosas da cultura Unética, que construiu a maioria das instalações hoje em ruínas. O que se sabe é que eles realmente praticavam alguns rituais que para nossos padrões seriam considerados abomináveis pela barbárie e violência. Os poucos registros que se tem, sugerem que abuso sexual (mesmo de crianças) e tortura fazia parte dos ritos consagrados. As execuções eram conduzidas no ápice dos ritos, em meio a celebrações com dança, música e bebida. O uso de substâncias alucinógenas também permitia aos druidas ter visões. No final do rito um sacerdote acertava um golpe devastador na cabeça da vítima com uma clava de madeira sólida.


O antropólogo Harald Meller examinou vários crânios e concluiu que o ataque geralmente era letal com um único golpe. Este era desferido na têmpora direita, atingindo a vítima provavelmente em posição ajoelhada. Não se sabe se essas vítimas estariam conscientes do que aconteceria com elas, os rituais variavam muito de povo para povo. Muitas culturas ofereciam às vítimas uma infusão de ervas que as deixava à beira da inconsciência, o que facilitava o procedimento. 

Meller também encontrou vários crânios solitários sem esqueletos nas valas do cemitério. Para ele, o motivo é óbvio:

"As indicações são típicas de uma cultura que louvava a cabeça. Tais cultos acreditavam que a cabeça era a morada da alma e que portanto ela era a parte mais importante de uma pessoa. Por esse motivo, era comum guardar as cabeças cuidadosamente decepadas. Isso explica também porque o crânio em alguns rituais era rachado, isso permitia que o espírito saísse pela fissura".

A equipe ainda está tentando determinar a importância das cabeças para os rituais em Pömmelte, mas dada a quantidade de crânios achados tudo leva a crer que ela desempenhava papel central. Em uma única vala foram achadas mais de 30 crânios que foram cuidadosamente removidos. 

"Podemos supor que as paredes do templo eram decoradas com cabeças humanas, de pessoas ilustres, inimigos e líderes, cada qual ali disposta como uma espécie de conselheiro".


Ainda é cedo para dizer o que acontecia em Pömmelte, mas os muitos indícios colhidos até aqui sugerem que ele não apenas era um centro religioso importante, mas um local extremamente perigoso. Muitas das informações que se tem sobre os Unéticos envolvem suas práticas sanguinolentas e rituais homicidas, os druidas de Pömmelt pareciam aderir totalmente à essas práticas misturando tais rituais com a observação do firmamento.

"É preciso entender que aqueles eram outros tempos, algo muito difícil para nós hoje em dia concebermos. Os deuses desempenhavam uma função central na vida das pessoas e elas estavam dispostas a fazer o necessário para obter o favor deles. Talvez acreditassem que para agradecer a visão das estrelas fosse necessário arrebentar a cabeça de uma virgem de 16 anos, ou que apenas o sacrifício de uma criança poderia propiciar um determinado vislumbre. Não sabemos, mas tal coisa parecia ser uma algo muito comum, até corriqueiro".

Ainda é cedo para dizer que sabemos tudo sobre Pömmelte e sobre os rituais dos povos da Era do Bronze. É provável que jamais venhamos a compreender inteiramente seus costumes ou o propósito deles. De qualquer maneira, o Círculo de Pedras é uma descoberta fantástica que nos permite observar ao menos em parte como viviam nossos antepassados.