quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

True Detective - Terra Noturna: Primeiro Episódio (Parte 1)


True Detective está de volta e parece que de volta aos trilhos.

Depois de uma excelente primeira temporada apontada como uma das melhores séries de todos os tempos, a série antológica experimentou altos e baixos em suas sequências. Não que a segunda e terceira temporadas tenham sido ruins, pelo contrário, foram boas, mas é inegável que não conseguiram manter o mesmo nível da original ficando abaixo. Em termos de valores de produção, elenco, direção, roteiro e resultado geral, True Detective é nada menos do que sensacional conjugando intriga, mistério e suspense na medida certa.

Não por acaso a quarta temporada estava sendo aguardada com um misto de espectativa e suspeita. Mas após a estreia nesse domingo, 14 de janeiro as dúvidas foram dirimidas. A serie que contará com seis episódios semanais está excelente. Ainda é cedo para cravar, mas a premiere dessa temporada, que tem por subtítulo Night Country (Terra Noturna), já começou à toda, contando uma história intrigante e garantindo boas doses de mistério. Com elenco afiado, onde se destaca Jodie Foster, True Detective parece estar voltando às suas origens, com uma história tão cativante quanto sinistra, remetendo diretamente ao que todos queriam ver novamente, o Rei Amarelo.    

Os padrões estão lá novamente, afinal, sabemos que o tempo é como um círculo, fadado a se repetir periodicamente. Passados dez anos, esse é o momento para revisitar esse drama. Temos uma vez mais uma dupla de detetives brilhantes que vivem em desacordo graças às suas personalidades distintas, um crime aterrorizante, indícios de coisas incompreensíveis e reviravoltas que nos deixarão de queixo caído e famintos por mais.

A 4ª temporada toma um rumo importante, pois é a primeira não escrita pelo criador Nic Pizzolatto. Quem assume o posto de roteirista e diretora com maestria é Issa López (de Tigers Are Not Afraid) que infunde em Terra Noturna elementos de investigação procedimental e misticismo em meio a noite polar. Serão semanas antes do amanhecer, e nesse meio tempo, a metáfora perfeita é que permaneceremos na escuridão, até o caso ser concluído e a verdade vir à tona.


Em linhas gerais, o episódio 1 nos apresenta a chefe de polícia da cidade de Ennis (conhecida como "o Fim do Mundo"), Liz Danvers (Jodie Foster) e sua ex-parceira, a ex-militar Evangeline Navarro (Kali Reis). As duas guardam um ressentimento entre si, mas são arrastadas para a mesma investigação quando uma instalação científica local, a Estação de Pesquisa Ártica Tsalal, é encontrada abandonada. A equipe formada pelos oito homens que lá trabalhavam simplesmente desapareceram, como se tivessem fugido para o meio do deserto congelado. O que aconteceu com esses homens é apenas o começo do mistério desta temporada. 

Navarro acredita que o caso possa estar relacionado a um outro caso marcante, que custou sua carreira como detetive e a rebaixou ao serviço de patrulha. O caso não resolvido envolve o assassinato brutal de uma ativista Iñupiaq chamada Annie K. A falta de uma solução nesse crime fez com que as duas mulheres se distanciassem e se instalasse entre elas um clima de ressentimento que deve ser mais aprofundado em breve. Danvers e Navarro conseguem estabelecer desde o início uma química invejável, nos moldes dos detetives titulares Cohle e Hart, cuja relação era um misto de admiração mútua e incompreensão. O Crime contra Annie K deve surgir no decorrer das investigações, enquanto as detetives tentam resolver o caso na estação.   

Mais interessante ainda é saber que o tema do Rei Amarelo - a força sobrenatural que discretamente parece influir nos acontecimentos, também está de volta. Junto com ele temos um retorno ao sentimento esmagador de estranheza, isolamento e pessimismo que permeou cada episódio da primeira temporada. No ambiente selvagem do Alasca, onde a natureza parece se ressentir da presença humana e desejar sua partida, o tema fica ainda mais relevante.   

Bastou o primeiro episódio para sentir que True Detective - Terra Noturna está no caminho certo para se tornar algo memorável. Vai ser difícil se equiparar ao que deu origem a tudo, mas sem dúvida, esse é o maior esforço até o momento nesse sentido.

Como não poderia deixar de ser, o Mundo Tentacular vai acompanhar, True Detective, como fez anteriormente, analisando os detalhes, levantando suspeitas e comentando as pistas à medida que elas forem surgindo. E não faltam easter eggs, acenos e sinais para quem estiver atento aos detalhes.   

Vamos falar um pouco e ver o que sabemos...

1. A citação no Início


A quarta temporada abre com uma citação atribuída a um certo Hildred Castaigne que diz:

“Pois não sabemos quais animais a noite sonha quando suas horas ficam longas demais para que até mesmo Deus esteja acordado.” 

Para quem ainda tinha alguma dúvida de que a temporada teria uma ligação com o tema "Rei Amarelo", aqui a dúvida se desfaz quase que por completo. Hildred Castaigne é o personagem principal no conto "O Reparador de Reputações", escrito por Robert W. Chambers, o criador dos mitos sobre o Rei Amarelo.

Entretanto, se você tentar pesquisar a citação, não a encontrará em lugar algum da obra de Chambers. Isso porque a citação foi inventada por Issa López. "Eu estava procurando a frase perfeita para falar sobre as coisas que se escondem no escuro e não consegui encontrar. Então a escrevi."

Atribuir a citação falsa a Castaigne foi uma maneira divertida de dar “uma piscadela” à primeira temporada e para os fãs, disse López.

“Sou particularmente fã da veia sobrenatural da primeira temporada, O Rei Amarelo e Carcosa”, disse López, referindo-se ao templo dedicado ao ser misterioso na primeira temporada. “Eu tinha lido esses livros anos atrás, mas voltei novamente e perguntei: 'Quem poderia ser o escritor dessas citações?' E eu criei a ideia de que foi Hildred Castaigne quem escreveu isso."

Mais do que uma piscadela, esse é um indício de que haverá uma conexão nas tramas, como veremos em sinais mais óbvios nesse artigo.

2 - Caribous saltando para o vazio


Logo após a citação acima, o episódio se inicia com a bela paisagem da imensidão polar. O Alasca em toda a sua glória selvagem, justamente quando o sol se esconde no horizonte em um processo no qual ele retornará apenas semanas depois, mergulhando o lugar na escuridão.

A cena acompanha então um caçador inuit se posicionando para disparar seu rifle contra uma manada de caribous reunidos. No entanto, antes dele poder pressionar o gatilho, os animais parecem pressentir algo estranho e iniciam uma disparada desesperada que termina de maneira dramática, com eles despencando em uma ravina. 

A cena é surreal e bizarra.

Sem dúvida o objetivo dela é correlacionar a sensibilidade dos animais e da natureza diante de algum incidente estranho que acabara de ocorrer. Os animais teriam uma percepção superior que lhes permitiu sentir o advento de algo inesperado que os colocou em tamanho estado de pânico que os fez saltar no vazio e abraçar o esquecimento.

Mas o que poderia ser esse evento? A maior probabilidade é que ele esteja relacionado de alguma maneira com o despertar da entidade conhecida como "Ela" (sobre a qual falaremos mais adiante). Os caribous são uma espécie de símbolo do Alasca, animais que estão profundamente relacionados ao próprio espírito da terra que habitam. Não por acaso, o totem de muitas tribos é o Caribou, que assume o papel de guia espiritual dos Inuit

Os antigos povos esquimós acompanhavam os movimentos migratórios dos caribous através do território setentrional, confiando na capacidade desses animais de perceber pequenas alterações naturais muito antes dos seres humanos. Quando uma manada de caribous se afastava de uma determinada região, era momento de levantar acampamento e também partir, já que eles teriam uma razão para fazê-lo, geralmente algo relacionado a preservação do bando. Escassez de comida, presença de predadores, mudanças climáticas acentuadas estavam entre tais fatores. Antropólogos estudam a relação entre animais e o meio em que vivem sabendo de sua intuição e como ela pode ajudar as pessoas que vivem nas proximidades. Por exemplo, sabemos que pássaros conseguem detectar tremores de terra mínimos que irão se transformar em terremotos, certos peixes somem de regiões onde tsunamis estão para se formar. Observar esses animais é uma forma de se precaver de tragédias. 

Agora, o que poderia levar os animais a enlouquecer e preferir a morte? E que simbologia tal evento poderia ter para uma tribo nativa que viesse a descobrir tal coisa? Será que teremos alguma interpretação desse incidente uma vez que houve uma testemunha do ocorrido? Vamos aguardar... 

3 - Lone Star Beer


Esse é apenas um aceno discreto para a primeira temporada. Quando temos um dos primeiras vislumbres das instalações da Estação Científica Tsalal, vemos um lanche sendo preparado e uma garrafa da cerveja Lone Star sobre a mesa. 

Não é preciso dizer que a Lone Star é a cerveja preferida de Rusty Cohle na primeira temporada e aquela usada por ele para montar o diorama das vítimas e que depois serve de alusão para o Tempo funcionar em Círculo. 

4 - Onde estão os cientistas desaparecidos?


Um dos grandes mistérios dessa temporada e o fio condutor da trama será  descobrir o que aconteceu com os cientistas da Estação Tsalal.

A polícia de Ennis é chamada até o local isolado quando um entregador chega à Estação de Pesquisa Ártica com provisões e encontra o local abandonado. O filme Curtindo a Vida Adoidado está sendo reproduzido no aparelho de DVD em looping na televisão. Ferris Buelller canta Twist and Shout sem parar, mas não há ninguém para assistir. Tudo parece ter sido deixado para traz deliberadamente, os telefones, a comida, os casacos, tudo... “É como se eles tivessem ido mijar e nunca mais voltassem”, observa Danvers enquanto examina a cena desolada.

Maionese rançosa e roupa molhada fedorenta sugerem que os cientistas sumiram há pelo menos 48 horas, talvez mais. Mas onde teriam ido? Uma das regras de qualquer estação isolada é que ao menos duas pessoas sempre devem ficar na estação para operar rádio e pedir ajuda em caso de necessidade e também para pedir socorro. NUNCA, de maneira alguma, todos os membros saem ao mesmo tempo. 

O episódio nos oferece uma breve ficha de cada um dos membros da equipe da Estação Científica Tsalal, como podemos ver na imagem abaixo. As imagens possuem detalhes a respeito do indivíduo e suas qualificações. Trata-se d euma missão conjunta de vários países com especialistas gabaritados, o tipo da coisa cara e difícil de reunir.

Abaixo reproduzi a imagem de apenas um dos membros da equipe, mas se for preciso, vou colocar outras para que possamos saber quem eram os homens na estação.


Ainda sobre a Estação e seus habitantes:

Pouco antes de alguma coisa horrível ter acontecido na Estação, o lugar parecia funcionar dentro de sua rotina, com os homens agindo de maneira calma e racional. De repente, um deles surta mencionando o retorno de algo a qual ele se refere apenas como "Ela". Isso ocorre instantes antes dos geradores elétricos desligarem em um blackout. O que poderia ter causado esse apagão e o que causou o ataque epilético num dos membros da equipe? Quer me parecer que os eventos estão conectados, mas só saberemos detalhes nos futuros episódios. Seria a causa algo físico e explicável, ou então uma circunstância sobrenatural?

No final do episódio, os cadáveres de alguns dos cientistas são encontrados no gelo, congelados. A expressão deles parece transfixada por um terror primitivo, como se a última coisa que eles tivessem visto fosse aterrorizante demais. 

5 - O que está sendo pesquisado


Qual a razão de ser dessa Estação e qual os seus objetivos?

De forma muito irritante, não conseguimos saber quem é o patrocinador dessa instituição, embora seja mencionado que ela não é custeada por uma ONG. O nome do patrocinador fica no vácuo, ignorado em face de uma prisioneira que não para de reclamar numa cela da chefatura de polícia. 

No entanto, é possível congelar a imagem e ler a página da internet que trata da missão da Estação Tsalal.


Portanto, temos que o centro de pesquisa investiga a Geologia, a Biologia e os impactos das mudanças climáticas, buscando a origem da vida. (Ou, como Danvers se refere, "Oh. Aquela coisa"). Centros de Pesquisa reais conduzem pesquisas desse tipo, preferindo as regiões polares uma vez que o gelo oferece condições para a preservação de micro-organismos que estão extintos em outros lugares do planeta. Outra razão é que o estudo das camadas de gelo fornece uma maneira mais acurada de datação das mudanças climáticas no planeta. Aparelhos especiais são capazes de encontrar alterações na formação do gelo que evidenciam alterações significativas mesmo antes da humanidade existir. É como ler uma impressão digital deixada no gelo por um acontecimento global.

Não há como extrair muitas informações com base no texto da imagem acima, ele parece convenientemente ocultar as verdadeiras missões da estação num bable-talk interminável. O importante é saber que a estação está em busca de informações sobre a origem e a extinção da vida no planeta.

6 - O que significa TSALAL?


Mas qual é o verdadeiro significado de TSALAL? O que essa estranha palavra significa e porque ela teria sido escolhida para nomear a estação de pesquisas onde ocorreu a tragédia vista no primeiro episódio? Existe um verdadeiro centro de pesquisa TSALAL no Alasca? Aqui está o que descobri:

Em hebraico, a palavra “TSALAL” foi usada no Antigo Testamento para dizer “ser, tornar-se ou escurecer”.

Na indústria literária, o primeiro escritor a ganhar notoriedade pelo uso dessa palavra foi Edgar Allan Poe. Ele usou a palavra em sua história de 1838, em seu conto clássico A Narrativa de Arthur Gordon Pym de Nantucket que não por acaso se passa no Pólo.

Na história, Tsalal era o nome da misteriosa ilha antártica habitada por um grupo de nativos violentos e canibais. Esta história foi posteriormente continuada por Júlio Verne, 50 anos depois da morte de Poe, em sua história de 1897, intitulada Um Mistério Antártico.

Outro escritor famoso que usou o nome foi Thomas Ligotti, que se inspirou no nome e o usou em seu conto chamado "O Tsalal".

De acordo com uma postagem do Reddit, o significado de TSALAL em True Detective não é apenas um Easter egg fazendo referência a Ligotti ou Poe.

Na verdade, tem algo a ver com um “ambiente sombrio de história alternativa” conhecido como Antártica Verde. Isto faz referência a um conto em que o continente um dia foi habitável. O povo Tsalal residia no continente e praticava costumes horríveis.

Embora isto possa parecer semelhante ao trabalho de Poe, o Tsalal da Antártica Verde tem um subgrupo conhecido como povo Hali. As suas raízes remontam à cidade de Carcosa, onde os habitantes adoravam o Rei Amarelo.

A Estação Tsalal obviamente não existe. Ela foi criada para o programa.

Contudo, a estação de investigação é baseada em duas estações de pesquisa reais no Ártico: a Estação de Campo Toolik e o Observatório Barrow. Essas estações de pesquisa, felizmente jamais apresentaram qualquer desaparecimento misterioso ou acontecimento estranho digno de nota.

7 - Pistas sobre os estudos em Tsalal


Logo no início do episódio vemos os cientistas trabalhando ou desfrutando de alguns momentos de lazer. Nada parece estranho ou anormal, a equipe está em perfeitas condições físicas e mentais, sem indicativo do que viria a acontecer logo em seguida.

Algo que chamou minha atenção nessa cena inicial é um cientista que está fazendo alguns cálculos que são anotados em um quadro branco. É possível perceber que estes dados estão sendo anotados pouco antes da tragédia e alguns resultados estão sendo assinalados por círculos vermelhos.

O quadro branco chama a atenção posteriormente, pois um dos cientistas escreveu com uma caligrafia tremida as palavras "Nós todos estamos mortos" abaixo de seus gráficos.

Mas o que significam esses números e será que eles são importantes para a trama?


É difícil entender o significado dessa tabela, mas ela parece se referir a análises de amostras de gelo coletadas pela Estação de Pesquisas. A coluna mais à esquerda parece nomear de onde vieram as amostras obtidas (East Grip, Neem, North Grip). Em seguida temos elevação, que se refere a altitude e a localização expressa em coordenadas de Latitude/Longitude, que devem dar as localizações precisas. A penúltima coluna é difícil de ler, mas parece se referir a temperatura. Finalmente, a última coluna é uma graduação de comprimento (???). Poderia ser a profundidade de onde veio a amostra?

Não sei exatamente qual o significado disso, mas é interessante reparar que alguns valores estão assinalados. Dentre estes, um em especial (o número 3027) possui duas exclamações, como se o resultado fosse inesperado ou surpreendente.

Eu busquei as coordenadas assinaladas no gráfico:

Latitude 75,10 N; Longitude 51,04 W

Mas infelizmente não significa nada... é uma coordenada no meio do Mar Báltico, quase na Rússia. Claro que pode ser apenas uma isca deixada e que não tenha um significado, pode ser ainda que seja algo apenas para enganar o espectador, mas a essa altura, não vamos desconsiderar nenhum elemento.

*     *     *
 
Será que já temos elementos suficientes para discutir?

Não? 

Então fiquem atentos, pois esta é apenas a primeira parte da postagem sobre pistas e indícios no primeiro episódio da quarta temporada de True Detective. Fiquem conosco pois ainda vamos discutir quem (ou o que) é "Ela", o assassinato de Anne K e é claro a identidade real do Fantasma Travis.

domingo, 14 de janeiro de 2024

Lugares Estranhos - Sítios Aterrorizantes na Espanha - Ochate: A Maldição da Bruxa

Continuando nossa jornada pelo bizarro na Espanha.

Talvez tão infame quanto O Vale Cinzento de La Mussara seja a pequena cidade fantasma de Ochate, no distrito do Condado de Treviño, na província de Burgos. Bem como sua colega fantasmagórica do Norte, Ochate foi no passado uma cidade próspera, uma das aldeias mais movimentadas de sua região. Ela servia como uma importante rota comercial entre as aldeias piscatórias ao longo do Golfo da Biscaia e os campos férteis e vinhedos de La Rioja

Contudo, em 1860, o povoado experimentaria a primeira das muitas calamidades que desceriam sobre ele como uma nuvem sinistra. Primeiro, a cidade foi atingida por um tipo de epidemia que dizimou a população. Aqueles que sobreviveram e permaneceram foram atingidos por uma sucessão de epidemias semelhantes ao longo dos anos que pareciam afetar apenas o povo de Ochate e nenhuma das aldeias vizinhas. 

Dizem as lendas que ao longo de dez anos a cidade foi devastada por três grandes surtos de doença. As pessoas contraíam a moléstia, cujo sintoma mais comum era fraqueza, sonolência e confusão mental, convalesciam por alguns dias e morriam de forma inexplicável, geralmente durante o sono. Poucos se recuperavam depois de manifestar os primeiros sintomas e estes ficavam com graves sequelas. Mesmo hoje, não existe um consenso entre pesquisadores a respeito da doença que devastou Ochate. Há suspeitas de que possa ter sido uma variação da Encefalite Letárgica, a infame Doença do Sono, mas essa teoria esbarra no fato de que ela era desconhecida até então e que os primeiros casos só foram registrados após a virada para o século XX. Seja lá o que tenha recaído sobre a população, vitimou mais de 40% dos habitantes em um espaço de uma década

Mas o círculo de tragédia não parou por ai...

Ao mesmo tempo que a doença letal se alastrava incontrolavelmente, Ochote foi atingida pelo flagelo da fome. As colheitas antes abundantes sofreram com uma praga também desconhecida que atingiu os campos e transformou a paisagem antes verdejante numa triste mancha marrom. Até os dias atuais, o solo de Ochote apresenta uma notável esterilidade, um fenômeno circunscrito aos limites do povoado visto que seus vizinhos jamais reportaram nada semelhante. Incapazes de manter as suas fazendas, as pessoas que viviam da agricultura se viram em uma dramática situação e muitos simplesmente partiram em busca de um lugar mais aprazível.

A gota d'água no entanto foi um horrível crime, ocorrido em meados de  1869 que abalou toda a região de Burgos e teve repercussão nacional. Um pai num momento de incompreensível loucura massacrou a própria família - esposa, filha e três rapazes, o mais novo de apenas 3 anos, sem motivo aparente. Isso antes de tirar a própria vida. A chacina, conhecida como o Dia Sangrento de Ochote, deu vazão a toda sorte de lendas e rumores na região. Alguns acreditavam que o criminoso havia sido possuído por um espírito maligno ou por um demônio que o forçou a agir daquela maneira ensandecida. Outros acreditam que a explicação repousava em uma antiga maldição que incidia sobre toda região e que teria sido lançada no século XVI por uma bruxa.

Os habitantes mais antigos de Ochate conhecem a história sobre uma bruxa chamada Silmarina, que teria vivido nos limites do povoado. Ela era considerada uma "mulher sábia", versada em medicina natural, no uso de ervas, chás e beberagens, além de ser chamada para auxiliar em partos complicados. Apesar de seus muitos dotes benignos, Silmarina era muito temida pelos habitantes do povoado, sobretudo pelas lendas de que ela conhecia feitiçaria. Entre o povo cristão, mencionava-se que ela tinha um pacto diabólico e que realizava o temido Aquelarre, a missa negra em que o Demônio era invocado em pessoa.

Não há registros que comprovem a existência de Silmarina, mas sabe-se que naquela época a Inquisição Espanhola ganhou grande influência na região de Burgos. De fato, o Tribunal do Santo Ofício foi muito atuante na Província, julgando e condenando alegadas bruxas. Sabe-se de pelo menos três grandes Autos de Fé, nos quais os agentes da Inquisição realizaram a purificação dos infiéis e blasfemadores pelo fogo. Embora não exista menção sobre uma mulher chamada Silmarina, processada formalmente, a história sobre ela é bastante conhecida. Ela teria sido capturada e condenada por conluio com as trevas, uma das mais graves ofensas aos olhos da Inquisição.

Silmarina foi levada até a masmorra onde lhe apresentaram os instrumentos: a mesa, as polias e a infame roda. Ela sofreu as indignidades da tortura, mas jamais revelou ao Inquisidor mor quem eram seus companheiros. Após cuspir na face do Inquisidor, ela teria proferido uma maldição sobre a cidade e sobre o povo de Ochate. Sua maldição, no entanto não atingiria aos que foram responsáveis pela sua morte, mas aos seus descendentes - estes sofreriam pelos Pecados dos Pais. 

E sua maldição seria terrível!   


Verdade ou não, Ochate começou a sofrer com tantas tragédias e revezes que é difícil não atribuir os acontecimentos a um fator aleatório - no caso, o sobrenatural. Após sofrer com a doença e com a fome, a aldeia foi sendo abandonada e deixada para apodrecer, até o ponto de ter se transformado em nada além de fundações, ruínas decrépitas e de uma torre de igreja em escombros.

A lista de fenômenos paranormais relatados nesta despretensiosa coleção de ruínas é longa e bastante conhecida. Ochate, o Povoado Amaldiçoado é um verdadeiro para-raios de atividade sobrenatural, visitada por estudiosos da parapsicologia, ocultistas, curiosos e mais recentemente autointitulados caçadores de fantasmas. Há histórias impressionantes sobre fantasmas vagando, luzes estranhas aparecendo no céu e vozes desencarnadas de mulheres e crianças sussurrando ou chamando os visitantes. Fala-se de espectros malignos que possuem o corpo de pessoas desavisadas, e que as compelem a se comportar de uma maneira bizarra.

Um popular programa de televisão espanhol apresentou um episódio especial sobre Ochate em 1987. Os especialistas conseguiram captar e gravar supostas vozes fantasmagóricas usando equipamento de sensibilidade. Mas o mais incrível foi um vídeo em que um membro da equipe gritava, cuspia e xingava após ser possuído por uma entidade incorpórea. A vítima - que posteriormente se recuperou sem lembrar de nada, usou um antigo dialeto da região que ele desconhecia.

O investigador paranormal espanhol Iker Jimenez disse sobre esse programa:

"Devo reconhecer que fiquei completamente abalado quando estivemos em Ochate e gravamos um especial sobre o povoado. O primeiro choque foram os gritos que ouvimos claramente. Lembro bem do grito de uma garotinha dizendo "kampora" que em basco significa "saia". Esta voz foi captada mais de uma vez pelos microfones. Depois ouvimos sussurros vindos de dentro da torre da igreja e apesar de não termos sido capazes de decifrar o que era dito, era claro se tratar de uma pessoa falando. Houve outra voz gravada no mesmo local e que deixou no ar diversas questões. Esta última voz era a de uma mulher que num tom lamentável e rouco perguntava: “Por que a porta ainda está aberta?”

Jimenez conta todas essas histórias, mas reconhece que não estava preparado para o que aconteceu em seguida:

"Nós já havíamos visitado vários sítios assombrados. Eu confiava muito na minha equipe e no pessoal que me acompanhava. Jamais havia visto alguém reagir daquela maneira. A pessoa em questão era um profissional muito dedicado e não posso crer que inventaria aquilo. Ela realmente falava e agia como outra pessoa. Era alguém diferente! Nós filmamos o ocorrido e mantivemos o nome da pessoa em segredo para não prejudicá-la, mas tenho para mim que sei o que houve. Por mais bizarro, não tenho como afastar a sensação de que aquilo foi uma possessão. Todos ficamos transtornados, sem saber o que fazer... talvez tenha sido um dos momentos mais assustadores da minha vida."

Existem outras histórias variadas associadas a este lugar maldito.

Reza a lenda que em 1917 a torre do sino da igreja dedicada a São Miguel foi atingida por um raio e que nesse mesmo local abriu-se uma passagem para o mundo espiritual. Na verdade, costuma-se dizer que raios atingem a torre do sino frequentemente e que quando isso acontece a atividade paranormal que permeia Ochate se torna muito mais forte.

Os locais evitam se aproximar das ruínas do povoado após tempestades pois temem o que surge após descargas elétricas fustigarem o velho campanário. Há histórias sobre desaparecimentos em grande número. Um dos primeiros supostamente aconteceu em 1890, quando um padre local chamado Antonio Villegas desapareceu sem deixar vestígios em plena luz do dia. Villegas foi o sacerdote encarregado de limpar a igreja que estava sendo transferida para outro local.

No início da década de 1950, um agricultor que passava pela área também desapareceu inexplicavelmente, e supostamente há muitos outros que sumiram nas proximidades. Também há mortes misteriosas relatadas em Ochate, como a do pesquisador paranormal Alberto Fernandez, que inexplicavelmente cometeu suicídio na cidade enquanto a investigava em agosto de 1988. Desde então, surgiram rumores de que algumas pessoas foram dominadas pelo desejo de se matar ou a outros quando visitam as ruínas.


Embora Ochate tenha se tornado um paraíso para pesquisadores paranormais, as histórias também contam com sua cota de céticos levantando questões importantes. Por exemplo, os registros médicos do período à cerca da epidemia devastadora que atingiu o povoado são escassos. Também não há registros de muitos desaparecimentos alegadamente ocorridos por ali. Ainda assim, as velhas histórias e tradições seguem colocando Ochote no rol dos lugares mais assombrados da Espanha.


Seriam apenas contos fantásticos e boatos contados ao longo de gerações ou haveria realmente a maldição de uma velha feiticeira? Quem pode saber ao certo?


Nossa jornada pelo lado mais escuro da Espanha continua na sequência, fiquem conosco.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Lugares Estranhos: Sitios aterrorizantes na Espanha - O Vale Cinzento de La Mussara


Existem certos lugares no mundo que parecem estar de alguma forma conectados aos mitos e lendas, como se envolvidos por um manto que de alguma maneira dificulta nossa capacidade de compreendê-los. Estes são sítios localizados na periferia da razão entre o que sabemos e o que não sabemos, além dos fatos concretos e imbuídos de forças bizarras.

Nesse artigo fazemos uma turnê pela Espanha, um país imbuído de uma rica história e tradição, com lugares repletos de segredos e mistérios que desafiam nossa compreensão.

Começamos pelas impressionantes Montanhas de Tarragona, na porção setentrional da Espanha, um território cercado por colinas ondulantes e paisagens pitorescas. Lá, um dia existiu o pequeno assentamento rural de La Mussara. Fundado no século XVII, ele foi um movimentado enclave rural, com uma próspera cultura de vinhedos e vinícolas. Mas em algum momento dos anos 1960, La Mussara foi abandonado depois que as plantações secaram e morreram misteriosamente. Oficialmente uma doença agrícola desconhecida atingiu os vinhedos devastando tudo em seu caminho. Em pouco mais de dois anos, a situação se tornou tão insustentável que a maioria dos habitantes que lá residiam, alguns há gerações, se viram forçados a partir deixando tudo para trás.

O êxodo foi tão repentino que embora a morte dos vinhedos tenha sido apontado como o motivo principal, muitos suspeitavam de alguma outra razão além da oficial. Algo no reino do imponderável!  Nas ruínas isoladas e cobertas de vegetação, o que restou do povoado definha em meio ao abandono completo. Muitos acreditam em velhas maldições e no envolvimento de forças sobrenaturais. 

Uma das lendas mais estranhas sobre La Mussara diz que nada cresce ou se desenvolve nos arredores e que todas plantações estão fadadas a morrer. De fato, o povoado jamais foi habitado novamente e as antes frondosas parreiras carregadas de uvas hoje não são mais do que campos estéreis cobertos de poeira onde nada cresce. 

Um rumor muito disseminado nos arredores menciona um estranho nevoeiro que surgiu repentinamente e passou a cobrir todo vale como um manto cinzento. Não se sabe de onde essa curiosa névoa surgiu, mas muitos a apontam como a causadora da devastação de La Mussara visto que seu surgimento coincidiu com o declínio.


Uma lenda muito curiosa a respeito do nevoeiro atesta que sua fonte seria uma espécie de portal ou passagem dimensional que foi inadvertidamente aberta. Quem abriu e com qual intuito constitui matéria de grande discussão- fala-se em bruxas, em experimentos do governo e em extraterrestres. As teorias conspiratórias são diversas.

O rumor também menciona que as pessoas que tentam cruzar o nevoeiro pesado correm o risco de desaparecer para sempre. São transportadas para outra realidade, outro plano ou mesmo planeta onde a vida humana não se sustenta. Além disso, há relatos sobre fantasmas, figuras sombrias e seres não humanos, alguns famintos e certamente todos perigosos, perambulando escondidas no nevoeiro, esperando agarrar quem tiver o azar de cruzar seu caminho. Há inúmeras histórias sobre indivíduos que entraram na névoa e que jamais retornaram, além de narrativas a respeito de gritos de horror e desespero ouvidos após a entrada de pessoas.

Embora as autoridades neguem tais historias fantásticas, é inegável que a região ao redor de La Mussara possui um número elevado de desaparecimentos. Os registros policiais atestam que a região tem quatro vezes mais desaparecimentos do que as áreas vizinhas o que a coloca bem acima da média espanhola. 

Um dos mais famosos desaparecimentos na área, é um que consolidou o nome de La Mussara como um local estranho ocorreu em 1991. Um homem de 37 anos de idade chamado Enrique Martínez Ortiz saiu de casa em um dia ensolarado para catar cogumelos selvagens com amigos. O grupo se separou por alguns instantes nos quais a densa névoa da região se ergueu e engoliu tudo. Enrique simplesmente sumiu: num instante estava ali, no instante seguinte não estava mais. Grupos de busca firam organizados e fizeram uma varredura das colinas, mas nenhum sinal de Martínez foi encontrado. Não haviam pegadas, rastros ou sinais de sua passagem.


Quando os jornais e a mídia tomaram conhecimento do ocorrido, imediatamente ligaram o fato às lendas locais, concedendo ao incidente um status de acontecimento nacional. O caso foi muito debatido e logo especialistas e curiosos convergiram para La Mussara com o intuito de cobrir o sumiço e apresentar a história daquele que ficou conhecido como Vale Cinzento. 

O caso obteve ainda mais repercussão depois que uma equipe de televisão alegadamente ouviu horríveis gritos vindos de uma garganta profunda coberta pelo nevoeiro. Os gritos supostamente foram identificados como sendo de Martínez que alguns supunham teria se acidentado naquele lugar insalubre. Uma equipe de resgate foi enviada ao local e realizou buscas criteriosas ali. Encontraram um sapato que supostamente pertencia ao homem, mas dele, não havia traço.

Além da estranha névoa cinzenta e dos desaparecimentos, há muitos relatos de pessoas na região falando de confusão mental, desorientação e lapso temporal. Bússolas e equipamentos eletrônicos apresentam mau funcionamento e fiações elétricas chegam a queimar. O Vale Cinzento não por acaso e um centro de atividade de OVNIs. Ufólogos de toda Espanha e Europa apontam La Mussara como um dos lugares com maior incidência de luzes misteriosas e objetos voadores cruzando os céus. 

Também são frequentes as narrativas de visitantes ouvindo estranhos sons nos prédios abandonados e construções onde antes ficava o povoado. Os ruídos são condizentes com pessoas residindo e habitando as casas e edifícios há muito abandonados. O sino da igreja medieval para alguns continua badalando, a despeito de não haver ninguém lá para operá-lo.


Um visitante que teve uma experiência estranha em Lá Mussara foi o músico Catalão Carles Ribot, que relatou a seguinte historia ocorrida em 2016:

"Fui com minha namorada uma noite. Ficamos no refúgio perto da aldeia, talvez a menos de 600 metros da cidadezinha abandonada. À meia-noite ouvimos ruídos estranhos, como cavalos relinchando, pessoas conversando aos sussurros e até o sino da igreja. Nós sabíamos que o povoado estava deserto, mas como explicar os sons que ouvimos? Nós perguntamos no abrigo e disseram que de tempos em tempos, quando o nevoeiro estava mais pesado esses ruídos eram ouvidos mais claramente. Por vezes era possível até entender o que as vozes incorpóreas falavam, embora fosse sempre um dialeto catalão. Antes de irmos até La Mussara não acreditávamos que as coisas paranormais fossem reais; mas depois daquela noite não temos tanta certeza. Há algo lá, algo que é difícil explicar."

Devido a toda a conversa sobre estranhezas que ocorrem por lá, La Mussara consolidou sua reputação como um dos lugares mais assombrados da Espanha, e é popular entre pesquisadores paranormais e curiosos que procuram um vislumbre do bizarro. O que estaria acontecendo nesse povoado maldito? Haveria algo de real nas muitas lendas e nos rumores criados ao longo das décadas? Ou seriam apenas superstições locais levadas ao extremo?

É provável que o mistério continue por muito tempo... mas uma coisa é certa, La Mussara não é o único recanto bizarro da Espanha, como veremos na continuação desse artigo. 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Necrosis revisitada - A mais terrivel doença do Mythos de Cthulhu



"Bom Deus, não!" gritou o médico ao se deparar com aquela coisa amorfa e rastejante. Era uma sensação insuportável e aquela blasfêmia precisava ser destruída. O médico ergueu o lampião acima de sua cabeça e a criatura se encolheu. Isso o deteve. Havia um brilho de inteligência e consciência nos olhos daquele ser abjeto. Algo... humano? Capaz de sentir medo, confusão e frustração. Algo que transbordava desespero. Ele compreendeu então que aquilo um dia fora uma pessoa. Alguém que apesar de reduzido àquela excrescência abominável ainda era capaz de entender, pensar e principalmente sofrer".

Nas sombras espreitam pessoas que ousaram se aventurar pelas mais negras formas de feitiçaria e as mais horrendas ciências ocultas. Buscam estes aventureiros dos caminhos escuros o poder e a imortalidade. Felizmente, a maioria desses esforços falham, resultando na própria obliteração que essas pessoas buscavam evitar. Poucos, entretanto, enveredam por um caminho de tamanha corrupção, que vai além do mais pérfido destino, e passam a existir em um estado de gradual apodrecimento.

Estudiosos do oculto rotularam tal condição Necrosis.

François Honoré-Balfour, o notório Conde D'Erlette em seu blasfemo tratado "Cultes des Goules" fala a respeito dessa horrível doença, chamando-a de "O Mal definitivo". Balfour devota um capítulo inteiro falando sobre o trágico destino de um nobre francês às vésperas da Revolução que se embrenhou pelos tortuosos caminhos da magia e contraiu a morbida condição arcana.


O mal é citado em outros tomos de conhecimento profano. O Revelações de Glaaki contém em seu primeiro volume uma grave advertência aos feiticeiros que comungam das bençãos de criaturas e entidades do Mythos. 

"Aqueles que vivem na presença de tais criaturas destituídas de humanidade, que se envolvem em sua adoração e devoção febril, que conspurcam o próprio corpo com rituais envolvendo tais seres, seja deles se alimentando ou com eles estabelecendo conjunção carnal, arriscam contrair a mais tenebrosa das doenças conhecidas pelo homem".

O próprio árabe louco, Abdul Al-Hazred menciona a tal condição arcana que ele chama alegoricamente de "Corrupção em Vida". Alguns biógrafos do funesto autor do Kitab Al-Azif chegaram a conjecturar que ele poderia sofrer desse mal degenerativo, ainda que a doença não tenha atingido os estágios mais avançados.

O notório iemita afirma que o vínculo com certas criaturas do Mythos pode ocasionar a contaminação com essa temida moléstia. Ele aponta em especial os Shoggoths e as Crias disformes de Abboth como vetores vivos, seres capazes da transmissão. Contudo muitos outros seres e entidades nefandas podem ser causadores da Necrosis. 

Dada a sua extrema raridade, não existe um estudo médico convencional a respeito da doença. Sequer é conhecida sua natureza patológica: se ela tem origem viral ou bacteriológica, cancerigena ou fúngica. O mistério é tamanho que não há qualquer consenso, o que reduz sensivelmente as chances de estabelecer um tratamento. Os poucos registros feitos por médicos a colocam numa categoria patológica desconhecida. 

Supõe-se que Necrosis esteja de alguma maneira ligada a energias místicas que são liberadas no momento que um feitiço é conjurado.  Quando um feitiço é mal executado, energias nefastas podem ocasionar o contágio, uma vez que tais energias são propensas a alterar a fisiologia do conjurador. Magias especialmente perigosas são aquelas que envolvem a trasformação corpórea e reintegração. 

Ao menos Necrosis não é transmissível de pessoa a pessoa e fica restrita ao organismo do contaminado. Nas palavras de Al-Hazred, "o fardo da magia é carregado por quem a invocou".

Pesquisadores do Mythos de Cthulhu debatem há séculos à cerca de uma cura para Necrosis, mas a grande maioria acredita que não existe nada capaz de operar esse milagre. Contudo, alguns poucos afirmam que as lendárias placas em posse da entidade Ubbo-Sathla contém uma fórmula capaz de purificar o corpo dos efeitos danosos de Necrosis. Obter esses tabletes conhecidos entre os iniciados como as "Antigas Chaves", constitui a mais perigosa das tarefas. Muitos magos de enorme poder tentaram e falharam ao longo das eras. Há rumores também de que o Culto do Deus Esfolado, sediado na Turquia possuiria o conhecimento necessário para curar a doença usando um artefato em sua posse, mas essas alegações jamais foram comprovadas.

Necrosis é uma doença degenerativa que age rapidamente. A princípio, os sintomas não são perceptíveis exceto através de uma inspeção criteriosa que revela alterações em algumas funções corporais, tais como respiração. Pequenos detalhes, como o piscar de olhos se tornam cada vez menos frequentes. A temperatura corporal acompanha a temperatura do ambiente onde o indivíduo se encontra. 

Um tênue odor é perceptível quando se está próximo da pessoa, como se o corpo exalasse um cheiro de corrupcao indisfarçável. Há uma estranha palidez doentia nos membros.  Encontrar uma pessoa neste estágio inicial de Necrosis, ocasiona a perda de 0/1 SAN, sendo perceptível apenas após o primeiro mês.

Após três meses, a condição se intensifica. Partes do corpo começam a sofrer descoloração e inchaços, embora não haja real ganho de peso. De fato, o corpo da pessoa parece, de alguma forma diminuis, mas esse pode ser o resultado do encurvamento corporal. O odor ofensivo se torna mais forte e pode ser sentido mesmo à distância. Os olhos do indivíduo se tornam amarelados,  embaçados e fundos. Os dentes começam a cair por avançada podridão, cabelos também vão rareando e a voz se torna roufenha. O indivíduo, sem dúvida, precisa cobrir partes do seu corpo a fim de não alarmar os outros. A sanidade por ver uma pessoa neste estágio é de 0/1d3.


O estágio seguinte inicia-se cinco meses apos o contágio. Luz do sol começa a incomodar a pessoa, e ela tenta de todas as formas se manter longe da claridade. Partes do corpo perdem sua forma e estrutura original, e mesmo ossos tomam um consistência esponjosa. A pele escurece, adquirindo um tom azulado, como se estivesse coberta de hematomas. A fala se torna nada mais do que um gorgolejar uma vez que a maior parte da boca e a lingua há muito se degradaram. O movimento é restrito pela atrofia nas pernas.

O odor em volta da pessoa é aviltante, como o de uma grande quantidade de carne apodrecida, e só pode ser disfarçado por enormes quantidades de água de colônia ou perfume. A face é terrível de ser contemplada como a de uma vitima de lepra. Além da descoloração e alterações nas feições, há secreções purulentas escorrendo sob a pele descamada. A não ser que extremo cuidado seja tomado, um rastro desses fluídos é deixado após a passagem da pessoa. A perda de sanidade por encontrar um indivíduo neste estágio de Necrosis aumenta para 1/1d6.

O estágio crônico da doença sobrenatural transforma a vítima e tem início nove meses após o contágio. Apenas roupas pesadas (capa, sobretudo e chapéu) podem disfarçar as evidências. O indivíduo, agora, se move rastejando, já que há poucos ossos em seu corpo. Braços e pernas atrofiaram até metade de seu tamanho original e terminam em garras alongadas. Uma trilha de limo cáustico é deixado por onde ele passa. É impossível a comunicação através da fala. A monstruosidade é aumentada e conseqüentemente a perda de sanidade por encontrar tal criatura é de 1/1d8.

O estágio final de Necrosis, que ocorre cerca de um ano após contrair o mal é deplorável. O indivíduo não pode mais ser encarado como um ser humano. Semelhante a uma criatura do Mythos, a pessoa torna-se uma pilha proto-plásmica viva, pulsando, gotejando e parecendo desmanchar. Estruturas amorfas semelhantes a braços vestigiais estendem-se da massa. Os resquícios de sua cabeça ainda podem ser discernidos, embora o reconhecimento facial se torne impossível. Qualquer fonte de luz inflige dor na taxa de 1 ponto de dano por rodada. 

A massa da criatura se decompõe, mês a mês, até que tudo o que resta é uma mancha putrida, que evita a claridade a todo custo rastejando para longe dela. Neste estágio, aqueles que o vêem sofrem uma perda de sanidade de 1d3/1d10. 

Talvez o maior dano à sanidade seja o reconhecimento de que essa coisa medonha um dia foi um ser humano. Ter conhecido a pessoa, transformada em tal "coisa" pode agravar a perda de sanidade conforme o mestre achar adequado.

A condição se encerra com a criatura se desfazendo, entre 12 e 15 meses após o contágio original. Dor e sofrimento extremos são uma constante na existência atroz desse indivíduo. Por essa razão, muitos feiticeiros simplesmente abreviar seu sofrimento provocando a própria morte antes que os efeitos se intensifiquem.

Atributos e Ajustes

FORça -1 a cada mês
CONstituição -1 a cada mês
TAManho -2 a cada três meses
INTeligencia não é afetada
PODer +1 a cada mês
DEStreza -1 a cada dois meses

O decréscimo dos atributos vai até o limite mínimo de 5. 

Pontos de vida: varia com a perda dos atributos.

Ataques: Toque 25% - dano corrosivo 1d3, nos estágios terminais o dano corrosivo aumenta para 1d6. 

Garras 40%, 1d6 +db

Armadura: 1 ponto de matéria putrefata a cada 2 pontos de TAM perdido.

Feitiços: as magias que o mago possui em vida se mantêm.

Habilidades: uma pessoa sofrendo de Necrosis retém seus conhecimentos pré-existentes à doença. Entretanto, com a deterioração tornando-se mais grave, pode ser impossível utilizar certas habilidades, principalmente as motoras e físicas.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Culto Vodu - O estranho Caso da Sacerdotisa assassina Clementine Barnabet


Certa tarde, em janeiro de 1911, a polícia foi chamada à residência de um homem chamado Walter Byers, em West Crowley, Louisiana, por vizinhos preocupados por ele não ter aparecido para trabalhar na fábrica de arroz local. Quando as autoridades entraram, a casa parecia estar toda em ordem até chegarem ao quarto onde acharam um cenário de horrores. Lá, Walter, sua esposa e seu filho de seis anos foram encontrados brutalmente assassinados e massacrados. Havia sangue espalhado por toda parte, inclusive nas paredes e no teto. Um verdadeiro pântano de pegadas manchadas e sangrentas se espalhavam pelo cômodo. 

Os corpos haviam sido cortados com um objeto afiado e pesado. Não tinham marcas de ferimentos nas mãos evidenciando defesa. O assassino havia usado a lâmina para massacrar suas vítimas deixando vários ferimentos abertos com enorme força. As cabeças foram espatifadas como melões com a lâmina da mesma arma e depois chutadas até se partirem medonhamente. Os policiais atordoados pela cena doentia investigaram a cena do crime e descobriram um balde cheio de sangue num canto. Acharam ainda um pesado machado sujo de sangue ao lado da cama. As autoridades suspeitavam que a família tivesse sido morta durante o sono e, como não havia sinal de arrombamento, teorizou-se que o assassino havia entrado por uma janela aberta aproveitando o calor que fazia. O crime seria o início de uma série sombria e elusiva de assassinatos macabros que desencadearia histórias de magia vodu, cultos nefastos e sacrifícios humanos no coração da Louisiana.

O assassinato foi particularmente chocante, resultando em manchetes sensacionalistas nos principais jornais, enquanto a polícia não conseguia descobrir por que haviam sido cometidos. Walter era um sujeito bem quisto e não tinha inimigos conhecidos, ao menos ninguém capaz daquela destruição. Ninguém conseguia encontrar um motivo para alguém querer matar ele e sua família de maneira tão horrível. 

Enquanto os investigadores tentavam encontrar pistas, no mês seguinte houve outro assassinato medonho, desta vez Alexander Andrus, sua esposa Minnie e seus dois filhos pequenos, foram encontrados igualmente mutilados e massacrados em seus quartos. A arma do crime, determinaram rapidamente era um machado semelhante ao usado no primeiro massacre. E assim como no crime anterior, havia um balde de sangue no local. Menos de um mês depois, outra família foi encontrada no mesmo estado mórbido, desta vez Alfred e Elizabeth Casaway e seus três filhos que viviam em San Antonio, Texas. A essa altura, a polícia suspeitou que os assassinatos não estavam apenas relacionados, mas também tinham motivação racial, já que as famílias Byers, Andrus e Casaway eram todas de negros pobres.


A polícia suspeitava ter um serial killer à solta, provavelmente alguém rico e branco. Isso atrapalhou a investigação desde o início, pois eles estavam buscando no lugar errado. A primeira pista realmente boa que obtiveram veio da amante de um homem negro local chamado Raymond Barnabet, que se gabou de ter matado a família Andrus depois de voltar para casa com sangue nas roupas. Barnabet foi imediatamente preso. Durante o interrogatório a própria filha do acusado, Clementine, de 17 anos, e seu filho, Zephirin, também alegaram que seu pai havia sido muito abusivo com eles e os forçou a ajudá-lo a eliminar as evidências dos assassinatos. Raymond foi formalmente acusado e depois de um rápido julgamento, considerado culpado. Contudo, enquanto aguardava a sentença na cadeia, ocorreu mais um assassinato repugnante.

Em novembro de 1911, Norbert e Asima Randall, de Lafayette, foram assassinados com seus quatro filhos, e o Modus Operandi foi o mesmo dos demais crimes. Eles eram negros, a arma do crime era um machado e os corpos foram mutilados e parcialmente drenados. Um balde foi achado contendo o sangue das vítimas. A única diferença marcante é que Norbert foi morto com um tiro em vez de um golpe de machado. Curiosamente, durante esta investigação, a polícia voltou suas suspeitas para a filha do principal suspeito, Clementine Barnabet. Eles moravam bem perto dos Randalls e sangue foi encontrado na fechadura da porta de sua casa. O mais contundente de tudo, é que, como diria um jornal, “um conjunto completo de roupas femininas foi achado no quarto de Clementine, empapado de sangue e coberto de cérebros humanos”. A descoberta era incriminadora, para dizer o mínimo.

Embora seu irmão tivesse um álibi, Clementine foi presa sob suspeita de assassinato, assim como seu pai. A suspeita é que a garota havia cometido os crimes com o intuito de criar uma dúvida excludente que liberaria seu pai da cadeia. Afinal, se ele estava preso, como poderia cometer o crime?

Contudo, o mais chocante ainda estava por vir... 


Mesmo com Raymond e Clementine presos na cadeia municipal, novos crimes continuaram a acontecer levando terror a população. De fato, as mortes violentas se intensificaram! Em janeiro de 1912, um total de três famílias foram assassinadas da mesma forma em rápida sucessão. Em uma dessas cenas de crime, um novo detalhe foi encontrado em uma mensagem escrita com sangue na parede, que dizia misteriosamente: "Quando ele faz a inquisição por sangue, ele não se esquece do clamor dos humildes", a estranha frase foi assinada como "Os Cinco Humanos." 

Quando essa notícia bombástica chegou ao noticiário, a mídia foi à loucura. Imagens assustadoras das cenas dos crimes foram estampadas na primeira página de jornais e logo os repórteres estavam atribuindo os assassinatos a um culto vodu que conduzia sacrifícios humanos. Na Louisiana cultos de matriz africana, inclusive de Voudou, eram conhecidos, mas nada semelhante havia sido visto. Não daquela maneira. 

Também havia rumores de que a gangue vodu chamava a si mesma de "Igreja do Sacrifício" e era liderada por ninguém menos que a própria Clementine Barnabet, uma espécie de sacerdotisa mambo, uma feiticeira vodu. Ela teria sido consagrada no mesmo templo em que a lendária feiticeira Marie Laveau, uma das mais poderosas e conhecidas bruxas da Louisiana.  

Essa história causou enorme repercussão e um circo da mídia, criando uma histeria coletiva. Da noite para o dia surgiram rumores à respeito de templos secretos vodu escondidos no pântano. Havia boatos de todo tipo sobre rituais de sangue sendo realizados nas florestas ao redor da cidade e em porões. O pânico deu vazão a uma verdadeira caça às bruxas na qual dezenas de pessoas, em sua maioria devotos de religiões africanas, foram perseguidas e agredidas por uma multidão apavorada. 

Em meio a esse caos, Clementine Barnabet se recusou a cooperar com as autoridades e disse que não falaria com ninguém aumentando a percepção de todos de sua culpa.


Justamente quando todo frenesi vodu estava chegando ao auge e a polícia lutava desesperadamente para descobrir quem estava cometendo os assassinatos, Clementine decidiu chamar a imprensa para fazer uma declaração que foi transmitida por rádio. Ela confessou que realmente fazia parte de um culto vodu e que seus membros acreditavam que matando inocentes poderiam alcançar a imortalidade se o sacrifício fosse direcionado a entidade correta. 

A jovem revelou que, para cometer os crimes, os assassinos usavam amuletos de vodu que ela havia criado e que os protegiam com uma série de poderes sobrenaturais. Usando os amuletos, eles ficavam invisíveis, não faziam barulho e ganhavam força sobre-humana. Em sua confissão ela acabaria confessando 35 assassinatos cometidos ao longo de uma década. 

Foi uma revelação chocante, mas haviam algumas lacunas na história. A primeira foi que Clementine alegou que seu culto estava conectado à congregação da Santa Igreja Santificada de Cristo em Lake Charles, Louisiana, mas o pastor de lá nunca tinha sequer ouvido falar dela. Ela também deu à polícia os nomes dos cúmplices, que foram considerados identidades falsas ou não puderam ser localizados. Ocorreram algumas prisões, mas nenhuma dessas pessoas estava ligada aos assassinatos, muito menos a um culto vodu de sacrifício humano. Haviam álibis e testemunhas que os eximiam de qualquer culpabilidade. Até mesmo o "Sacerdote Vodu" que ela alegou ter lhe vendido seus encantos mágicos era apenas um fito terapeuta que não tinha ideia do que a polícia estava falando quando bateu a sua porta. 

A história toda também era muito contraditória, com detalhes mudando frequentemente cada vez que ela contava, e logo ficou óbvio que a confissão de Clementine não era válida.

Sem suspeitos e sem nenhuma prova, a polícia rejeitou amplamente as alegações selvagens e duvidou que Clementine tivesse cometido tantos assassinatos quanto alegou. Ainda assim, eles a acusaram dos assassinatos de Randall devido às evidências sangrentas encontradas em sua posse. A jovem sacerdotisa Vodu da Louisiana, chamada de "a mulher mais temida de seu tempo" foi condenada à prisão perpétua na Penitenciária Estadual de Angola, perto da capital do estado da Louisiana, Baton Rouge, com a tenra idade de 19 anos. 


Clementine tentaria escapar sem sucesso em julho de 1913, antes de ser libertada da prisão em agosto de 1923 após ter demonstrado bom comportamento e aparentemente tendo passado por algum tipo de procedimento misterioso que a "curou" e "restaurou sua sanidade", o que é estranho porque em seu julgamento ela foi considerada perfeitamente sã. Depois disso a história termina, com poucos fatos adicionais. Ela desapareceu sem deixar rastros em 1924 e nunca mais se ouviu falar dela. 

Diante de tudo isso, ficamos nos perguntando que papel Clementine Barnabet teve nos crimes horrendos cometidos e se alguma de suas afirmações era realmente verdadeira. No entanto, quer ela fosse culpada ou não, ainda nos restam imputar os supostos assassinatos que aconteceram enquanto ela estava encarcerada. 

Seria ela realmente a líder de um culto que enganou as autoridades ao apontar supostos membros? Foram assassinatos cometidos por imitadores? O culto continuou agindo impunemente? A verdade, é que ninguém jamais foi detido e acusado formalmente pelos assassinatos do Culto Vodu, e o mistério permanece até hoje.