domingo, 16 de dezembro de 2018

A Lenda de Bloody Mary - Repita seu nome diante de um espelho, se tiver coragem


Todos já ouviram a história.

Muitos, inclusive, já devem ter brincado disso quando criança ou adolescente.

Consiste em parar diante de um espelho, e repetir uma, duas, três vezes o nome de alguma entidade. Segundo as histórias, quando o nome é dito pela terceira vez, a criatura (espectro, fantasma ou sombra) se manifestaria de forma visível e poderia ser percebida no reflexo do espelho.

Parece familiar? Pois bem, variações dessa história são conhecidas em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.

A origem da lenda é difícil de ser determinada, mas acredita-se que ela tenha surgido com o nome de Bloody Mary na Inglaterra em meados de 1800.

A Lenda de Bloody Mary também é conhecida por outros nomes como Maldição de Mary Worth e Aparição de Mary Whales. Todas elas parecem se referir a mesma entidade, cuja aparência e história tem poucas variações. 


O Fantasma é descrito como uma mulher bonita e pálida, cabelos loiros e longos, vestindo um traje simples como uma camisola, igualmente imaculada. Essa forma frágil, no entanto, esconde a natureza perversa de Bloody Mary. Ao abrir os olhos, estes transbordariam de ódio e ressentimento pelos vivos. De sua boca, escorreria sangue em profusão, e seu pescoço penderia num ângulo impossível, evidenciando estar quebrado. Uma marca clara de corda poderia ser visto, onde o nó foi apertado até arrancar de seu corpo o último suspiro.

Em algumas versões, a cabeça da Bloody Mary poderia se soltar do corpo e rolar pelo chão deixando um rastro de sangue. Em outra, os pés do espectro não tocariam o chão, e ela flutuaria no ar. Finalmente um terceiro rumor diria que quando a Bloody Mary se manifesta, ocorre uma queda acentuada da temperatura, na qual o ambiente fica sombrio e frio.    

Uma das lendas mais difundidas sobre a origem da assombração diz respeito a uma mulher que teria vivido nos tempos da Inquisição. Mary seria curandeira e parteira, prestando serviços para os aldeões de um vilarejo próximo. Bonita e independente ela atraía a inveja das mulheres e o ódio dos homens, já que não se sujeitava a nenhum marido. Mary teria sido acusada de praticar malefícios contra os aldeões e de ter causado a morte de uma mulher e seu bebê durante o parto. Ela foi denunciada como bruxa e presa, acabando por ser condenada à morte. A forma escolhida de execução foi a degola, feita com uma cinta de couro que foi passada em torno de seu pescoço e apertada com uma manivela até que ela asfixiasse. 

Dizem que durante a execução, assistida por todo o vilarejo, Mary amaldiçoou seus algozes. Aqueles que repetissem seu nome, seus filhos e descendentes, seriam amaldiçoados e encontrariam seu espírito inquieto em busca de vingança.


Em 1978, a escritora Janet Langlois publicou um livro intitulado “Mary Whales: Eu acredito em você”. No ensaio ela traçou as origens da lenda e tentou encontrar a verdadeira Mary através de registros históricos e documentais. Segundo as pesquisas de Langlois, uma mulher chamada Mary Whales teria sido executada em 1662, acusada injustamente de prática de bruxaria em Devon, no sul da Inglaterra. 

Ela acredita que esse incidente tenha dado origem à lenda que posteriormente se espalhou pelo país.

O livro apresentava ainda o relato de pessoas que teriam testemunhado a aparição de Mary após repetir seu nome diante de um espelho, uma crença que aparentemente sempre fez parte da lenda.

A brincadeira, um típico jogo de desafio e coragem, incorporava um método consagrado de invocação espiritual que envolve o nome e um espelho. A brincadeira é, portanto, embasada em princípios consagrados do ocultismo ritualístico. Nomes sempre foram parte importante de rituais. Tradições ancestrais ditam que o "nome verdadeiro" é uma maneira de se invocar entidades, desde espíritos, até gênios, passando por anjos e demônios. Conhecer o nome verdadeiro é a maneira correta de realizar uma invocação e sujeitar a entidade à vontade do realizador. O espelho também é uma parte importante, uma vez que constituiria uma conexão com o mundo sobrenatural. Seria através de espelhos que portas e portais poderiam ser abertos. A superfície cristalina seria uma espécie de janela para outra realidade, pela qual seria possível ver e ser visto, falar e ouvir.

Em algumas variantes da lenda, seria possível usar a invocação de Bloody Mary para ter um vislumbre do futuro. Se a pessoa em questão demonstrasse respeito, na superfície do espelho apareceria uma visão clara de seu futuro, que poderia ser bom ou ruim. Segundo a lenda, algumas vezes, via-se um futuro desejado com riquezas, amor e sucesso, em outros a profecia de acidentes, morte e tristeza. Segundo consta, a tal visão se concretizaria, independente da vontade da pessoa. 


As histórias mais populares, contudo, atestam que invocar Bloody Mary poderia resultar em grande perigo.

Se o espectro ouvisse seu nome sendo repetido três vezes com grande concentração e propósito, ele surgiria no espelho atrás da pessoa que realizou o chamamento. Em algumas versões, o espectro surge vingativo, disposto a matar e desfigurar o rosto da pessoa que ousou chamá-la. Alguns no entanto, afirmam que ao surgir, o choque causado pela assombração, é tão apavorante que pode matar de medo, provocando um ataque cardíaco fulminante. Os sobreviventes da experiência poderiam ficar com sequelas: gagueira, loucura ou teriam os cabelos totalmente embranquecidos.

Como evolução da lenda, mais recentemente, Bloody Mary se tornou um nome invocado para obter vingança. A assombração poderia ser invocada por pessoas interessadas em pedir que ela realizasse uma vingança contra um inimigo, em especial alguém que foi injusto ou cruel. Mary saberia reconhecer uma alma atormentada, assim como a dela, e aceitaria ajudar. Para isso, o nome da pessoa contra a qual se desejava extrair vingança deveria ser escrito na superfície do espelho, ao contrário para ser lido pela assombração do outro lado. Esta então apareceria para a pessoa em questão, saindo de um espelho para puni-la pelos seus maus feitos.


No Brasil, a história foi traduzida como a Lenda da Maria Sangrenta ou então da Bruxa do Espelho, Maria Degolada e mais tarde daria ensejo à famosa Loira do Banheiro que assombra os banheiros de colégios de todo país. 

Ela teria sido introduzida no país através de alunos de escolas britânicas que carregaram a história de Bloody Mary para outros países. Registra-se que no Brasil, ela foi citada pela primeira vez em meados de 1910 como uma "brincadeira" de crianças na famosa Escola Inglesa no Rio de Janeiro.  

Outra lenda, igualmente difundida no Brasil, e possivelmente uma adaptação à história original, diz que Mary era uma mulher muito bonita, mas um tanto superficial quanto a sua aparência. Ela teria sofrido um acidente automobilístico no qual seu rosto ficou horrivelmente marcado por cicatrizes. Para esconder as deformidades ela passou a andar por aí com um véu preto cobrindo-lhe o rosto. Certa vez, o tal véu teria caído em um evento social e as pessoas ficaram horrorizadas pela aparência dela. Mary então correu para casa e destruiu o espelho de seu banheiro. Com um estilhaço de vidro, cortou a própria garganta. Enquanto o sangue se esvaia, sua alma teria ficado aprisionada no espelho.

Enlouquecida e sem descanso, ela passou a habitar todos os espelhos, enxergando as mulheres se arrumando e maquiando com uma inveja mortal. Quando seu nome era repetido três vezes, por alguma pessoa diante de um espelho, ela poderia sair dele, espalhando morte e loucura.

E você?

Você teria coragem de repetir esse nome diante de um espelho depois de conhecer esses detalhes da lenda?


sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Imagens Sinistras #4 - "Espirais no Quadro Negro"


As regras são simples:

1) Leia o texto, deixe-se levar pelo que está escrito;
2) Imagine o ocorrido;
3) Olhe a foto;
4) E se sentir um arrepio... de nada!

A História


Lydia Sullivan tinha 9 anos em 1961, quando essa fotografia foi tirada no colégio em que ela estudava em Benton, Missouri.

Ela era uma menina esperta e comunicativa, uma aluna que jamais havia tido qualquer problema de disciplina, que gostava do colégio e que se dava bem com os demais alunos e professores.

Certo dia, ela foi chamada para a frente da turma para escrever a resposta de uma questão no quadro negro. Lydia vinha se queixando de dores de cabeça incômodas a manhã inteira e que sentia uma pressão muito forte nos ouvidos. Mesmo assim ela atendeu ao pedido de sua professora.

Enquanto escrevia na lousa, de costas para seus colegas, a menina subitamente parou e ficou em silêncio. De repente ela começou a desenhar espirais concêntricas com o pedaço de giz. Ao mesmo tempo, repetia palavras em algum idioma desconhecido que não faziam o menor sentido. Quase que imediatamente as crianças que estavam presentes foram acometidas de uma sensação de terror absoluto, muitas começaram a chorar desesperadas, outras desmaiaram e algumas começaram a bater a cabeça na parede ou no chão. 

A situação persistiu por quase dois minutos, quando a professora conseguiu quebrar uma espécie de transe, que a impedia de se mover ou interromper o que acontecia. A essa altura, algumas crianças apresentavam hemorragia nasal, muitas haviam perdido o controle sobre a bexiga e outras sofriam de violentos espasmos epilépticos. 

A professora conseguiu chegar até Lydia e a sacudiu violentamente fazendo com que ela parasse de recitar as palavras. Ela desmaiou em seus braços e quando despertou, cerca de seis horas mais tarde, não tinha qualquer lembrança do que havia transcorrido.

As crianças foram examinadas e os médicos constataram que elas haviam sido submetidas a uma severa exposição sensorial, semelhante ao que uma pessoa experimenta ao receber um coquetel de drogas psicotrópicas. 

Lydia faleceu aos 14 anos, vítima de um súbito aneurisma cerebral.

Dentre as 18 crianças e mais a professora, que estavam presentes na sala de aula, 70% delas desenvolveram algum tipo de complicação neurológica nos 20 anos seguintes.

A foto foi tirada dois dias depois do incidente, quando uma professora instruiu a menina a repetir os padrões de desenhos feitos anteriormente. Lydia continuou afirmando não lembrar o que havia desenhado e o significado das palavras que havia dito.
     

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Cinema Tentacular: Mandy - Vingança sanguinária, surreal e Psicodélica


É difícil falar de Mandy (Mandy/2018), ainda mais, logo depois de terminar de assisti-lo.

Não por falta de assunto, mas porque ao terminar o filme, e subirem os créditos finais, você ainda está sujeito aquela sensação de ter levado um soco na boca do estômago.

Fazia tempo que eu não era acometido dessa sensação transcendental de não saber por onde começar uma resenha sobre um filme, e mesmo assim estar ansioso para escrevê-la. Mas acho que faz sentido... Mandy não é um filme convencional. Ponto!

Para começar, não espere nada fácil desse filme. Embora o roteiro seja simples e conte uma história direta ao ponto, você vai se pegar muitas vezes pensando a respeito do que acabou de assistir e das implicações da história. Isso porque Mandy parece uma mistura de filmes estranhos, uma espécie de filho bastardo de Hellraiser e do primeiro Mad Max, com um roteiro onírico de David Lynch. O resultado é algo arrebatador, incômodo e impressionante.


Pra começar a estética da filmagem. 

Mandy é todo filmado de uma maneira incomum com filtros de cores vibrantes que salientam o vermelho nas cenas de violência extrema e o azul nas de suspense e introspecção. Entre uma e outra, as imagens são granuladas ou absurdamente escuras, um tanto desfocadas, como se para reforçar que tudo aquilo que está acontecendo é um tipo de pesadelo psicodélico do qual não se consegue despertar ou uma bad trip muito louca.

Como Grindhouse, Mandy é um achado.

Não falta violência, gore e brutalidade. Um corte ou um ferimento sangram em profusão, os personagens, sempre envolvidos em brigas furiosas, batem com vontade e diferente de filmes de ação, cada golpe, cada corte ou soco parecem realmente doer. As lutas não são coreografadas, tudo é sujo e improvisado, como uma luta entre pessoas que se odeiam tende a ser. O banho de sangue chega a ser revigorante. 

Como terror, o filme também funciona bem, embora ele não seja uma produção de horror.


Há cenas viscerais e assustadoras. Temos uma gangue de motoqueiros infernais, uma gangue de verdadeiros demônios que cavalgam motos possantes pelas estradas e cometem as mais horrendas atrocidades. Parecem cenobitas saídos de um filme de Clive Barker. Convocados por um misterioso artefato, o "Chifre de Abraxas", eles vem para coletar sangue e deixam um rastro de cadáveres mutilados e violados. Atenção nos detalhes medonhos na cena no esconderijo deles.

A quadrilha/culto de maníacos lembra demais uma Família Manson abastecida de LSD até a tampa, com figuras detestáveis que disputam centímetro a centímetro uma corrida pelo pódio como coadjuvante mais aterrorizante. Sem falar no líder da turba, um sociopata megalomaníaco que acredita ser o próprio filho de Deus encarnado e que domina os demais com um carisma absolutamente maligno.

Mandy tem referências pop em todo canto, remetendo a quadrinhos, filmes e séries, rendendo cenas com homenagem rasgadas a revista Heavy Metal e produções meia boca dos anos 80. O roteiro parece se espelhar nos filmes de violência e vingança cega no qual o herói que sofre uma indignidade assume uma missão implacável na qual nada pode ficar em seu caminho (e ai de quem ousa ficar!)


O filme conta a história de um casal apaixonado, Red Miller (Nicholas "Fucking" Cage) e Mandy Bloom (Andrea Riseborough). Os dois vivem em uma área isolada nos limites de uma floresta no ano de 1983. Red é lenhador e Mandy uma artista que trabalha numa lojinha de conveniência num fim de mundo qualquer da Califórnia. A vida simples e idílica dos pombinhos, no entanto está com os dias contados. Mandy acaba atraindo a atenção de Jeremiah Sands (Linus Roache) líder de um culto religioso apocalíptico, um sujeito meio hippie que se acha um messias e que controla seus seguidores com mão de ferro. Ele convoca uma gangue de motoqueiros infernais para sequestrar Mandy e eliminar Red, mas as coisas não saem como esperado e tudo descamba para um inferno alucinante de morte, sangue e horror.

Esse é o prelúdio para que Red vista o manto da vingança encarnada e parta em uma jornada alucinante para caçar o bando e matá-los de maneiras dolorosas, usando o que estiver ao alcance de suas mãos, desde machados e facas, até bestas e serras elétricas.

Que tal tirar o elefante da sala e falar de Nicholas Cage?

Muita gente imediatamente torce o nariz quando descobre que Nic Cage está nesse filme, pois nos últimos tempos, ele virou sinônimo de produções ruins e filmes dos quais a gente se arrepende de ter perdido tempo assistindo. O ex-astro e ganhador de Oscar da Academia, não é de hoje, topa qualquer papel em troca de um cachê e parece ter adotado as filosofias "se paga bem, que mal tem"? ou "Foda-se, cadê meu dinheiro"!


Mas aqui, em Mandy ele está tão à vontade e natural que a gente chega a imaginar se ele não está totalmente alucinado como o personagem. Tem uma cena, logo depois do ataque dos cultistas em que Red entra no quarto e entorna uma garrafa de vodka no gargalo, enquanto grita colocando para fora toda a dor e frustração do mundo. A coisa chega a assustar! Ela marca o início dos preparativos do herói para o inferno e carnificina que estão por vir. Red se encontra com um tipo de mentor/sensei/cosultor de vinganças (Bill Duke) que dá a ele as coordenadas para iniciar sua tarefa! A partir daí, sai da frente que a chapa é quente! 

O papel é mais do que perfeito para Nic Cage! O personagem dele é exagerado, monossilábico e perturbador na medida certa. Sem medo de errar, eu acho que essa foi uma das melhores interpretações da carreira dele. E venhamos e convenhamos, Nicholas Cage quando motivado a encarnar um maluco perigosamente emputecido, não faz feio!

É preciso citar a atuação de Linus Roach como o maluco nada beleza Jeremiah Sands, o líder do culto apocalíptico. Embora nenhuma filosofia ou mensagem possa ser detectada em seus devaneios pseudo religiosos, ele se sai bem demais como o pastor de um rebanho de maníacos desvairados. O personagem parece calcado em cima de Charles Manson, também é um músico frustrado, egomaníaco, perigoso e abusivo. Em determinado momento ele demonstra seu poder de sedução, convencendo um de seus seguidores a brincar de roleta russa. O tom estéril de sua voz e a expressão plácida, com olhos que nunca piscam, são suficientes para nos convencer do grau de loucura e perigo que ele representa. Se Cage não estivesse sobrenatural na sua atuação, Roach roubaria o filme fácil.


Esse é apenas o segundo filme do diretor Panos Cosmatos (filho do também diretor George Pan Cosmatos, que nos anos 80 dirigiu filmes violentos e imbecis como Rambo e Cobra). Ele definitivamente parece à vontade explorando o gênero no qual seu pai ganhou fama e certo grau de infâmia (afinal, Cobra é um dos maiores lixos dos anos 80). Mandy, no entanto, é um filme que surpreende por não ser apenas aquilo que se espera e por ousar colocar estilo sobre substância. 

Trata-se de um filme absurdamente estiloso e que rende cenas memoráveis - o duelo de serras elétricas é algo de cair o queixo. Nas mãos de um diretor menos ousado, Mandy seria uma bobagem para ser esquecida, nas mãos de Cosmatos o resultado é realmente memorável.

A minha cara depois de ver esse filme!
Mandy é glorioso, sujo, difícil, bizarro, perturbador, louco, violento e surreal. E quando ele termina, além de sentir como se tivesse levado um soco na boca do estômago, você quer mais, mais, mais!

Vá assistir, deixe ele fluir através de você e aproveite a viagem.

Trailer:



terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Olhos Negros - Uma Lenda Urbana sobre Crianças Malditas


Elas podem bater na porta da sua casa no meio da madrugada. Podem também se aproximar de seu carro em uma estrada escura. Podem ainda o cercar em uma rua deserta.

Elas parecem perfeitamente inofensivas e muitas vezes alegam precisar de ajuda, não representam perigo, pois são meras crianças. Mas não se deixe enganar pelas aparências! Apesar de parecerem crianças de 8 a 14 anos, elas não o são... seriam algo muito mais estranho e perigoso. Seus olhos são completamente negros, refletindo a escuridão de suas almas.

Essas são as Crianças de Olhos Negros.

Rumores a respeito dessas crianças sinistras tem se multiplicado nos últimos anos. Em geral, elas são compartilhadas em páginas da internet e grupos de discussão que tratam de fenômenos inexplicáveis ou Lendas Urbanas. Não se sabe exatamente onde ou quando a lenda urbana surgiu, quem a inventou e por qual motivo, mas é fato que ela continua se espalhando. Não há qualquer comprovação da existência de fato dessas crianças amaldiçoadas, não existem vídeos, fotografias ou registro da captura de uma delas. Contudo, não faltam testemunhas e relatos a respeito de pessoas que tiveram um contato muito próximo (e apavorante) com elas.

Reais ou não, histórias a respeito delas tem sido compartilhadas na internet, como essa escrita por uma pessoa de Denver, Colorado:

"Eu estava em casa assistindo um filme, quando de repente ouvi o barulho de alguém batendo na porta. Eu levantei e fui devagar até a porta para abrir, mas então imaginei que já era tarde e como não estava esperando ninguém, resolvi perguntar quem era. Ninguém respondeu. Voltei para a sala e então, ouvi a batida novamente. Fui até lá e perguntei mais uma vez, e dessa vez ouvi uma voz abafada de criança. Não consegui entender o que ela dizia, mas como parecia se tratar de uma criança abri uma fresta pequena o bastante apenas para poder ver quem estava ali. Haviam três crianças paradas ali. Uma delas disse que elas estavam perdidas e que precisavam de ajuda para encontrar sua mãe. Elas pediram para usar o telefone, e esse foi o maior erro da minha vida, pois fiquei com pena e abri a porta. Eu as deixei entrar, uma de cada vez e foi então que percebi. Elas tinham os olhos escuros, muito assustadores. Eu fiquei paralisado por um instante, apenas o tempo suficiente para uma delas se aproximar. Felizmente eu tive um estalo e consegui correr para fora de casa. Olhei para trás e vi as três paradas na entrada da minha casa como se estivessem lamentando que eu havia escapado. Voltei apenas duas horas mais tarde, acompanhado de dois amigos. Não havia ninguém na casa, mas o lugar havia sido todo revirado - portas e gavetas abertas, armário revirado, roupas e objetos atirados no chão. As crianças no entanto, haviam sumido".


Outro relato feito pela internet vem de uma pessoa de Chicago, Illinois:

"Eu olhei pelo olho mágico... lá fora haviam duas crianças... eu tive uma sensação desagradável, pois embora fossem apenas crianças, havia algo nelas que me encheu de apreensão e medo. Eu pensei em fazer de conta que não havia ninguém em casa, mas então uma delas bateu a porta e eu acabei me assustando e perguntando "Quem está aí"? Uma das crianças, um menino perguntou então se poderia entrar para usar o telefone. A voz, embora fosse de uma criança me pareceu esquisita, soou oca. Eu disse que o telefone não estava funcionando e ela bateu a porta novamente e fez a mesma pergunta, no mesmo tom. "Posso usar seu telefone?" Ela então levantou a cabeça e pude ver que os olhos eram grandes e muito escuros, negros como tinta preta. Eu fiquei sem ação. Ela olhou na direção do olho mágico e bateu na porta mais uma vez. "Nossa mãe está preocupada", ele disse e continuou batendo. Eles ficaram lá batendo por pelo menos mais dez minutos até irem embora. Eu nunca soube o que era aquilo, mas fiquei apavorado".

As histórias a respeito de crianças de olhos negros abordando pessoas não se restringe a casas, mas inclui também automóveis:

"Eu vi algumas crianças andando de um lado para  outro da calçada em frente ao meu carro. Eu estava estacionado e elas se aproximaram, com a cabeça baixa... um dos meninos se aproximou da janela e espiou para dentro. Seus olhos eram enormes, e negros. Eu consegui dar uma boa olhada neles e fiquei apavorado. Se você jamais viu uma criança com os olhos daquele jeito, é difícil de explicar o que senti. As pupilas eram pretas como a noite. O menino sussurrou através da janela: "Me deixa entrar", e eu tranquei a porta instintivamente e passei para o assento do carona. Ele ficou na porta batendo e arranhando a janela, eu não conseguia me mover de tanto medo. Quando meu amigo, quem eu estava esperando, enfim chegou, me encontrou caído no banco de trás. Ele teve que gritar até eu perceber que era ele e abrir a porta. As crianças haviam desaparecido".

É curioso, mas histórias como essas tem se multiplicado mundo afora graças à internet. De modo geral, não há como provar essas narrativas, contudo a maioria das pessoas que afirmam ter tido uma experiência com crianças de olhos negros relatam um detalhe similar: o profundo medo!


Sempre que uma criança de olhos negros aparece e a pessoa tem a chance de olhá-las cara a cara, parece haver uma sensação sobrenatural de pavor. Há muitos relatos de pessoas afirmando que ficam paralisadas, como se os membros ficassem enrijecidos ou incapazes de reagir. A reação típica é querer fugir e correr. A maioria dos relatos é confuso nesse pormenor, mas todos afirmam categoricamente que o medo os deixa sem reação, virtualmente à mercê das crianças.

Uma testemunha tentou explicar a situação pela qual passou, afirmando que seus músculos ficaram sem força e que ele se viu de um momento para o outro incapaz de dar um passo sem cair. Isso também explicaria porque algumas pessoas afirmam não serem capazes de gritar ou pedir ajuda. Elas ficam totalmente sem ação!

Não há como dizer, mas tal coisa poderia acontecer em decorrência da natureza sobrenatural dessas crianças. Algo nelas seria tão estranho e perturbador, que causaria uma reação física, não apenas psicológica. Seria o que alguns psicólogos chamam de "pavor congelante", uma reação similar ao que descrevem aqueles que experimentam a paralisia do sono.  

À primeira vista, as crianças de olhos negros não parecem diferentes de crianças comuns e suas características bizarras podem passar desapercebidas. Apenas quando se está perto o bastante é possível perceber a estranheza delas - leia-se seus olhos negros. Segundo algumas descrições, as crianças parecem se mover de maneira incomum, quase como sonâmbulas. Também teriam a pele muito clara, em um tom de palidez quase mortiço. Suas vozes soam distantes e monótonas, pouco naturais. Em geral, as crianças vestem roupas simples, em várias narrativas elas usam casacos com capuz que ajudam a disfarçar seus olhos anormais. Para alguns seriam fantasmas, assombrações, ou até mesmo alienígenas. A interpretação de sua origem varia muito de pessoa para pessoa.

Outro ponto curioso é que ninguém sabe dizer ao certo o que querem essas crianças. Embora muitos comentem que elas desejam entrar em casas e automóveis, para se aproximar das pessoas, ninguém sabe explicar qual o seu objetivo e o que fariam se conseguissem se aproximar o bastante. Elas usam como pretexto estarem perdidas ou separadas de seus pais, assim buscam comover aqueles que abordam. Dada a reação aterrorizada das testemunhas, é de se supor que aqueles que não conseguem reagir à tempo acabam se tornando vítimas delas. Estes morreriam em decorrência do extremo terror causado.

Investigadores amadores e pesquisadores do sobrenatural tentaram desvendar esse mistério e oferecer explicações razoáveis para o fenômeno das Crianças de Olhos Negros. Uma explicação comum é que poderia ser uma condição chamada midríase (mydriasis), uma dilatação acentuada da pupila ocasionada por diferentes fatores que incluem uso de drogas ou trauma. Alguns sugerem que o comportamento das crianças, com movimentos erráticos e quase mecanizados, poderiam apontar na direção de drogas que produzem midríase. É difícil entretanto, acreditar que pudesse ser algo tão corriqueiro. A hipótese parece pouco provável, pois as testemunhas afirmam que os olhos são completamente negros, o que inclui a esclerótica e a iris. Pupilas dilatas não parecem nada com olhos completamente obscurecidos.


Buscando no folclore, é difícil encontrar menções a histórias sobre crianças de olhos escuros.

Pesquisadores tentaram achar alguma menção nesse sentido, mas retornaram de mãos vazias. Histórias sobre crianças de olhos negros estão presentes na internet e em livros sobre o mundo sobrenatural, mas apenas de 1998 em diante. Não há nada no folclore ou em tradições antigas, para todos os efeitos, parece ser algo bastante recente.

Tentar traçar as origens de uma Lenda Urbana é algo complicado, mas alguns apontam para uma antiga publicação do ano de 1997, escrita por Brian Bethel, um morador de Abilene, Texas. Ele escreveu a respeito de um encontro apavorante com o que ele descreveu serem crianças pálidas que tinham os olhos totalmente negros.

Bethel relatou o ocorrido em um fórum de troca de histórias aterrorizantes:

"Eu estava apanhando meu carro na garagem do prédio em que trabalho. O lugar estava deserto e normalmente é bem escuro, iluminado por lâmpadas esparsas. De repente, ouvi um barulho e quando olhei para trás percebi que uma criança, um menino de uns 12-13 anos estava ali comigo apoiado em um carro. Ele perguntou se eu sabia da sua mãe e se podia ajudá-lo, pois estava perdido. Eu me aproximei para ajudar, mas foi aí que percebi que os olhos dele eram pretos. Pretos como carvão. Eu levei um susto e corri o mais rápido que pude para meu automóvel que estava estacionado a uns 10 metros de distância. Abri a porta, entrei e fechei o mais rápido possível. O menino ficou na janela, diante da porta batendo no vidro, pedindo que eu abrisse. Eu não conseguia me mover de tanto medo. Ele ficou ali por um tempo até que sumiu, e só então eu consegui voltar para o banco do motorista e ir embora".

Bethel manteve a sua história, relatando cada detalhe de sua experiência aterrorizante. Entrevistado alguns anos depois, quando a lenda urbana já havia se espalhado, ele sustentou o que havia acontecido:

"Eu não sei o que era, eu não sei explicar... sei apenas que aconteceu e que fiquei realmente apavorado. Até hoje, quando entro em um lugar fechado e escuro, fico nervoso. Tenho medo de ver uma dessas crianças novamente e não sei como iria reagir se tal coisa acontecesse".


Alguns estudiosos de Lendas Urbanas cogitam que a história das crianças de olhos negros possa ser uma expressão espontânea de Alucinação Coletiva. O fenômeno à luz da parapsicologia envolve uma manifestação do inconsciente coletivo que se forma graças a uma forte sugestão, basicamente as pessoas passam a acreditar que algo existe e essa coisa acaba se manifestando fisicamente no mundo real. Seria algo similar ao tulpa do folclore tibetano, entidades que se materializam mediante um pensamento coletivo que lhes dá corpo.

Contudo, seriam as narrativas sobre crianças de olhos negros, suficientemente populares para manifestar uma criatura no mundo real?

Em um estudo realizado pelo Centro de Psicologia da Flórida em 2014, relatos sobre Crianças de Olhos Negros se converteram uma das Lendas Urbanas mais frequentemente lembradas e populares, ultrapassando avistamentos do Pé Grande e tomando o lugar até do famoso Slenderman. O número de pessoas relatando encontros com tais "criaturas" teve um aumento acentuado entre 2014 e 2015.

A "febre" das crianças de olhos negros atingiu seu ápice na internet em 2013, quando um vídeo de dois minutos foi ao ar no "Weekly Strange", um web site da MSN. Não é de se estranhar entretanto que o vídeo tenha sido lançado na mesma época de um filme de horror baseado na lenda urbana.

O jornal britânico Daily Star também fez um levantamento a respeito do avistamento de criaturas sobrenaturais ocorridos na Inglaterra e o resultado foi surpreendente. Crianças de Olhos Negros ficaram entre as cinco manifestações mais comuns no país, entre vampiros e extraterrestres. Segundo o escritor científico Sharon A.Hill, relatos sobre "Crianças de Olhos Negros" lembra as típicas histórias assustadoras do folclore, no mesmo nível dos cães negros, fantasmas, aparições e monstros misteriosos. "Não são sobrenaturais, é provável que nem sequer tenha havido algum encontro. Mas isso não impede as pessoas de continuarem a imaginar e temer sua existência. Alguns até acreditando ter experimentado tal coisa".


A Lenda Urbana parece ter gerado sua própria mitologia, disseminando-se em diferentes lugares com uma velocidade impressionante. Há relatos a respeito de Crianças de Olhos Negros na Europa, América do Norte e no extremo Oriente. Ao que tudo indica, é uma história moderna de "Bicho Papão" que acabou caindo nas graças das pessoas, como a "Loira do Banheiro" ou o "Maníaco com o Gancho".

Seja como for, quando você junta narrativas a respeito de crianças estranhas se comportando de forma sinistra, não é difícil que a coisa acabe crescendo, quase por conta própria. Nosso medo diante do desconhecido, do bizarro e do inexplicável se traduz na matéria prima para construir uma enorme e aterrorizante tapeçaria.

domingo, 9 de dezembro de 2018

Sans-Detour Gate - Chaosium rompe contrato com Editora francesa de Chamado de Cthulhu





Essa notícia foi divulgada ontem pela Chaosium, na página oficial e pegou muita gente de surpresa.

A Chaosium é famosa por licenciar seus produtos em muitas partes do mundo. Chamado de Cthulhu (Call of Cthulhu) é com certeza seu produto mais conhecido e bem sucedido sendo publicado em vários idiomas.

Na França, o detentor dos direitos sobre o livro é a Éditions Sans-Détour (ESD), uma das maiores das editoras de RPG do país, que tem vários títulos em seu acervo. A ESD é cohecida por publicar material de excelente qualidade e alguns dos livros mais luxuosos. Não é exagero dizer que os franceses da ESD foram os responsáveis por estabelecer um padrão de qualidade muito superior que sempre foi idealizado pelos fãs para os livros oficiais da Chaosium. Apenas com a sétima edição, a Chaosium melhorou sua produção para tentar acompanhar a tendência, mas os franceses não ficaram muito atrás e levantaram o nível uma vez mais, com o lançamento de uma edição especial da sétima edição que é simplesmente deslumbrante (e que você pode conferir AQUI e AQUI TAMBÉM).

É por essa razão, que a notícia veiculada pela Chaosium ontem causou tanta surpresa e caiu como uma bomba.

Essa é a tradução do comunicado, na íntegra:   

Éditions Sans-Détour (ESD) por muito tempo foi a editora licenciada dos produtos da Chaosium, lançando e produzindo belíssimo material de Call of Cthulhu no idioma francês. 

A licença da ESD expirou no mês de Setembro desse ano. É com grande tristeza que anunciamos que a Chaosium não irá renovar a licença da ESD para nenhum produto. A permissão para que a ESD utilize nossas marcas registradas, logomarca e qualquer propriedade intelectual foi removida.

Como fãs de Call of Cthulhu, vocês merecem saber as razões pelas quais, nós não podemos prosseguir nessa relação.
Indo direto ao assunto: A ESD deixou de pagar à Chaosium os royalties sob as suas vendas desde 2016.

A Chaosium pacientemente tentou trabalhar uma solução com a ESD, entretanto, até o momento, nós não recebemos informações a respeito das vendas nos dois últimos anos, nenhum pagamento ou explicação para o ocorrido. Nem mesmo os Financiamentos Coletivos de projetos como Les Masques de Nyarlahotep e Le Jour de la Béte, que foram bem sucedidos e que são baseados em trabalhos publicados pela Chaosium. 
Mês passado, a Chaosium deixou claro para a ESD que sua licença havia expirado e poderia não ser renovada. A ESD foi avisada de que estava incorrendo em uma grande violação de sua licença prévia - e que, isso poderia ocasionar o termo final de sua licença, na iminência de sua expiração. 

A Chaosium não deseja que a ESD deixe de cumprir seus deveres contratuais com aqueles que participaram de Financiamentos Coletivos e que já pagaram por produtos.
Nós estamos dispostos a trabalhar com a ESD para cumprir as obrigações devidas. Entretanto, a ESD precisa, no mínimo, acertar a questão dos royalties devidos à Chaosium. Infelizmente, até essa data, nós não recebemos nenhum sinal - nem mesmo os valores devidos dos Financiamentos completos de 2017.  
A falha da ESD em cumprir os termos de nossa licença não deixa outra opção à Chaosium, senão tomar medidas legais para receber os valores devidos. Como a Éditions Sans-Détour foi por muito tempo uma parte valiosa da Família Call of Cthulhu, nós ficamos muito tristes que não tenhamos sido capazes de resolver essa questão de uma maneira construtiva. 

Seguindo em frente, a Chaosium já tem um novo licenciado para Call of Cthulhu na França. Um anúncio formal a respeito serrá feito em breve.

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Sem dúvida, essa é uma situação inesperada, sobretudo se considerarmos o tamanho da Sans-Détour e a importância dela como uma das grandes editoras de RPG da Europa (a ESD é responsável pela publicação de Paranoia, Achtung! Cthulhu, Mutant Year Zero, e outros jogos no país).
Por muito tempo, a ESD foi considerada como a editora que melhor tratou Call of Cthulhu e que deu a ele uma identidade e personalidade reconhecidas mundialmente. Eu tive a chance de comprar alguns livros da Sans-Détour e posso atestar que o material é simplesmente impressionante.
Será realmente uma pena se tudo nesse comunicado for verdade e a ESD perder sua licença, infelizmente, tudo caminha nesse sentido.
Estranho é que até agora a ESD não se manifestou a respeito dessa situação.
Chama a atenção ainda a notícia de que a Chaosium já tem um novo licenciado para o jogo na França. Quem será? Será que eles vão dar continuidade ao alto padrão de qualidade estabelecido? Saberemos disso em breve...
Por enquanto, resta dizer au revoir, Sans-Détour...

Para quem quer conhecer mais a respeito do material publicado pela Sans-Detour, dê uma olhada nesses links:

Montanhas da Loucura
Atlas dos Mythos

Máscaras de Nyarlathotep (Parte 1)

Máscaras de Nyarlathotep (Parte 2)