sexta-feira, 8 de julho de 2022

Nobre Imortal - A suposta vida eterna do Conde de Saint-Germain


Enquanto os registros históricos provam que o homem conhecido como Conde de Saint-Germain realmente existiu, sua vida parece desafiar o senso comum sendo material digno de lendas. Ele foi um gênio, um alquimista, um místico, uma alma iluminada ou simplesmente um charlatão?

Embora a data exata do nascimento de Saint-Germain permaneça desconhecida, ele mesmo afirmou ser filho de Franz-Leopold, Príncipe da Transilvânia, e da princesa Charlotte Amalia de Hesse-Wahnfried, que se casaram em 1694. Depois que seus irmãos foram feitos prisioneiros pelos austríacos e seus pais morreram, ele foi criado pelos executores do testamento de seu pai - o duque de Bourbon, o duque de Maine e o conde de Charlerie e Toulouse - e através deles foi apresentado às cortes da Europa como alguém de sangue principesco e descendência quase real.

De acordo com a obra histórica Illustri Italiani de Caesare Cantu, bibliotecário da grande biblioteca de Milão, quando Saint-Germain atingiu a maioridade recebeu educação esmerada na Universidade de Siena, viajou muito pela Itália e Espanha, foi muito protegido pelo Grão-Duque da Toscana e, eventualmente, herdou o considerável legado de seu pai, o que pode ser o motivo pelo qual ele nunca pareceu precisar de dinheiro.

Pouco se sabia sobre ele até 1740, quando Saint Germain começou a aparecer em vários registros históricos como um homem de aparentes trinta e poucos anos que se movia em círculos vienenses da moda e era conhecido por suas roupas incomumente sombrias, predileção paradoxal por diamantes espetaculares e propensão a contar histórias extraordinárias sobre sua vida passada. Discursava sobre ter participado de momentos históricos importantes, por vezes como ator e noutras como testemunha. Afirmava ter conhecido a Sagrada Família (Jesus, Maria e José) intimamente; que esteve presente nas Bodas de Canaã; que foi um bom amigo de Santa Ana, mãe da Virgem Maria e que pessoalmente propôs sua canonização no Concílio de Nicéia em 325 CE, além de ter testemunhado os dias finais do Império Romano.

O Saint-Germain daqueles dias era amplamente falado como uma figura enigmática e notável que praticava a alquimia, era um joalheiro experiente, havia viajado pela Europa, África, Índia, China e Pérsia, era conhecido por falar fluentemente muitas línguas, incluindo chinês , hindu e persa, compunha música e tocava violino. (Peças de música, datadas de 1745 e 1760, supostamente compostas e certamente assinadas por Saint-Germain, podem ser encontradas no Museu Britânico em Londres). Ele estava ainda profundamente envolvido com numerosas ordens esotéricas, incluindo os Rosacruzes e os Templários, e havia rumores de ser capaz de transformar metais básicos em ouro. Ele frequentemente descrevia máquinas que tinham semelhanças notáveis ​​com locomotivas e navios a vapor (que não haviam sido inventados na época) e havia sugestões de que possuía a Pedra do Alquimista, havia bebido da Fonte da Eterna Juventude e tinha aproximadamente 4.000 anos.


Tudo isso pode parecer uma invenção absurda, contudo, o mais curioso é que muitas pessoas na época realmente acreditavam nesses boatos e defendiam que as façanhas de Saint Germain podiam ser ainda maiores. Saint-Germain segundo rumores produzia milagres de cura, falava com autoridade sobre ciência e teologia, manipulava poderes mágicos, podia invocar anjos e demônios, lia pensamentos, conjurava tempestades e gerava descargas de raios da ponta de seus dedos. Alguns diziam que ele era o Judeu Errante da lenda, fadado a viver eternamente ou que ele era Longinnus, o legionário que perfurou o corpo de Cristo na Crucificação. Esses boatos ajudaram a alimentar o mito sobre sua real identidade.

No que diz respeito à frequente fala sobre objetos futuristas de Saint-Germain, a biblioteca de Troyes, na França, possui um documento assinado por ele, no qual descrevia inúmeras máquinas estranhas como o fonógrafo, o computador e o avião. Ele também relatava uma experiência que parecia notavelmente semelhante às viagens espaciais modernas:

"Nos movemos pelo espaço em uma bala de prata a uma velocidade que não pode ser comparada a nada que exista atualmente... Em uma fração de segundo, as planícies abaixo de nós estavam fora de vista, e a Terra se tornou uma nebulosa tênue. Fui carregado e viajei pelo empíreo por um tempo incalculável a uma altura imensurável. Corpos celestes giraram e mundos desapareceram sob mim... foi uma jornada além das esferas do tempo e espaço".

Muitos acreditavam que Saint-Germain era um trapaceiro, mas muitos também o levavam a sério – inclusive os governos dos principais países europeus, pois o Conde, além de ser considerado um homem notável, também tinha a reputação de estar envolvido na política. Por um lado, foi acusado pela polícia francesa de ser um espião prussiano, por outro, era suspeito pelos prussianos de ser um agente russo. Para complicar ainda mais, em novembro de 1745, em uma Londres obcecada por conspiradores jacobinos e seus simpatizantes franceses, ele foi preso pelas autoridades, acusado de ter cartas pró-Stuart em sua posse. Ele alegou indignado que as cartas haviam sido plantadas nele e acabou sendo liberado.


Comentando o caso em uma carta datada de 9 de dezembro de 1745, Horace Walpole, o famoso historiador britânico e estimado homem de letras, escreveu a seguinte descrição: “Ele [Saint-Germain] esteve aqui esses dois anos , e não sou capaz de dizer quem ele é ou de onde, mas uma coisa é certa, trata-se de um homem com inúmeras qualidades". Ele também escreveu que Saint-Germain "cantava e tocava violino maravilhosamente", mas acrescentou que no fundo ele era "louco e pouco sensato".

Outro aspecto desconcertante sobre Saint-Germain tornou-se popular depois que o Conde, segundo o Marechal de Belle Isle, o curou de uma doença grave e foi recompensado sendo levado a Paris. Lá o agradecido marechal colocou a sua disposição um laboratório para seus experimentos alquímicos. Segundo o historiador Touchard la Fosse, pouco depois da chegada de Saint-Germain a Paris, ele participou de uma soirée organizada pela idosa condessa von Georgy, viúva do embaixador francês em Veneza. A senhora lembrava de ter conhecido alguém com o mesmo nome e aparência de Saint-Germain em Veneza na década de 1670. Quando o surpreendentemente jovem Saint-Germain confirmou à condessa envelhecida que o homem que ela conhecera há tantos anos era ele mesmo, ela mal pôde acreditar, pois se fosse verdade, ele deveria ter quase cem anos de idade. No entanto, Saint-Germain insistiu que ele era o mesmo homem e que era de fato muito velho. Quando a condessa atônita afirmou que ele devia ser "um demônio", Saint-Germain, disse-lhe para não usar tais termos e deixou a sala incomodado.

Uma possível comprovação para a afirmação de Saint-Germain de que ele era o homem conhecido da condessa von Georgy em 1670 foi registrada pelo barão Charles Henry de Gleichen, um diplomata dinamarquês. Em suas memórias publicadas, o Barão Gleichen afirmou que o compositor Philippe Rameau e um parente do embaixador francês em Veneza lhe garantiram que conheceram Monsieur de Saint-Germain no início de 1700, quando, segundo eles, ele parecia ser um homem. de cerca de trinta anos.

Em certa ocasião, Saint-Germain teria confidenciado a convidados de uma festa que vivia há séculos e que tal milagre se devia ao fato dele ter dominado habilidades mágicas que lhe permitiam tal coisa. "A vida eterna está ao meu alcance! De fato, acredito que não posso ser capaz de morrer", teria dito.


Os amigos de Saint-Germain também diziam que ele era muito afeito de diamantes. O Barão Gleichen contou que o Conde mostrou algumas pedras notáveis ​​– um grande número de brilhantes coloridos e outras pedras de tamanho e perfeição incomuns. "Pensei estar diante de tesouros lendários e ele confirmou que se tratavam de pedras obtidas do tesouro do próprio Rei Salomão".

Muitos assumiam que esses diamantes também podiam ser produto de experimentos alquímicos. Certamente acreditava-se na época que Saint-Germain era um alquimista capaz de transformar metais comuns em ouro, vidro em diamante e ovos em gemas coloridas. Sua obsessão pela alquimia era notória, sendo em determinado momento considerado o místico mais famoso da Europa. Ganhou fama como bruxo e só escapou de inquéritos movidos pela Santa Inquisição por ter amigos influentes, inclusive no clero.

Suas habilidades alquímicas também teriam permitido a ele produzir o Elixir da Vida Eterna. Essa seria uma explicação para os rumores de que Saint-Germain era lembrado por anciãos que o haviam encontrado décadas antes e por que ele sempre parecer jovem. Um último aspecto de sua personalidade foi intensificado pelas repetidas afirmações de que ele nunca comia – e certamente nunca foi visto comendo ou bebendo em público.

Em 1758, ainda em Paris, Saint-Germain foi apresentado a Luís XV pelo marechal de Belle Isle no salão da amante de Luís, Madame de Pompadour. Parece ter encantado os dois, pois dois anos depois, em 1760, ele foi enviado por Luís XV a Haia como seu representante pessoal. Sua missão era firmar o tratado de paz entre a Prússia e a Áustria. Enquanto estava na Holanda, ele se desentendeu com seu ex-amigo, o notório namorador Casanova. Isso pode ter incentivado a inimizade do ministro das Relações Exteriores de Luís, o duque de Choiseul, que convenceu o Rei de que Saint-Germain o havia traído e deveria ser jogado na Bastilha. Para salvar o pescoço, Saint-Germain fugiu para a Inglaterra onde se estabeleceu graças a amigos.


Posteriormente, um artigo do London Chronicle de 3 de janeiro de 1760, mencionava a então amplamente divulgada "juventude eterna" do Conde de Saint-Germain, declarando: "Ninguém duvida agora, embora a princípio tenha sido pensado ser pura fantasia. Na verdade, todos acreditam que, entre outras coisas, o Conde conhece uma fórmula para todas as doenças e que é capaz de viver eternamente."

O que se sabe é que Saint-Germain definitivamente existiu, e que era realmente um sujeito muito estranho – um músico e compositor, um linguista surpreendente, uma autoridade em história mundial, um mago e alquimista com 4.000 anos de idade – e que, ao pelo menos de acordo com os registros históricos, viveu um tempo notavelmente longo.

No entanto, a partir deste ponto, os fatos registrados tornam sua vida muito mais concreta.

Em 1762, o Conde participou da deposição de Pedro III da Rússia o que levou Catarina, a Grande, ao trono. Um ano depois, ele ficou famoso por realizar experimentos alquímicos em seu laboratório no castelo renascentista em Chambord, a sudoeste de Orléans. Lá, além de realizar a transmutação de metais, também criava tempestades, prendia demônios em garrafas e confabulava com anjos. O Castelo era frequentemente visitado por nobres que vinham de longe para testemunhar seus milagres. Ele recebeu uma propriedade na Holanda onde estabeleceu outro laboratório no qual fazia tintas e corantes, além de forjar anéis e amuletos mágicos que protegiam aqueles que os usavam. Depois de desaparecer da Holanda com cerca de 100.000 florins, materializou-se na Bélgica, desta vez autodenominando-se Marquês de Monferret – e lá, em Tournai, montou outro laboratório alquímico.

Em 1768, Saint-Germain apareceu na Rússia na corte de Catarina, a Grande, a quem havia ajudado a subir ao trono. De acordo com o conde Alexei Orlov, então chefe das Forças Imperiais Russas, ele foi um diplomata inestimável e conselheiro do palácio durante a guerra russo-turca de 1768-70. Como recompensa, foi nomeado oficial de alto escalão do Exército russo – posição que assumiu sob o irônico pseudônimo de General Welldone. Mas, ao invés de colher os benefícios de sua posição de prestígio no final da guerra, ele escolheu deixar a Rússia e ir para a Alemanha, onde, com seu amigo e aluno, o príncipe Charles de Hesse-Cassel, realizou mais experimentos alquímicos, além de estudar a Maçonaria e o Rosacrucianismo.


Uma década antes disso, em 15 de abril de 1758, Voltaire, o famoso filósofo francês, em uma de suas muitas cartas a Frederico, o Grande, descreveu Saint-Germain como "um homem que sabe de todos os temas e que nunca morre". Ele então acrescentou: "Acho bastante provável que este homem o visite nos próximos cinquenta anos". Embora essa visita nunca tenha acontecido, em 1779, a princesa Amalie da Prússia, irmã de Frederico, o Grande, conheceu Saint-Germain e se interessou por ele, tratando-o como "um homem fascinante e misterioso".

Os registros paroquiais na Igreja Católica de Eckernforde, na Alemanha, dizem que o Conde Saint-Germain morreu em 27 de fevereiro de 1784 e foi enterrado no cemitério local. Se isso for verdade – e supondo que Saint-Germain tivesse cerca de trinta anos em 1701 – isso o colocaria no momento da morte com pelo menos 110 anos de idade, embora não aparentasse mais de 40.

Embora o enterro de Saint-Germain esteja registrado na paroquia de Eckernforde, muito mistério envolve sua morte. Para começar, ele teria morrido quando seu bom amigo e discípulo, o príncipe Charles de Hesse-Cassel, estava ausente, e com apenas duas mulheres sem nome como testemunhas de seu falecimento. Para aprofundar o mistério, o príncipe Charles ordenou a destruição de todos os papéis supostamente inestimáveis ​que pertenciam a Saint-Germain – em suas próprias palavras, "para que não fossem mal interpretados".

Quase imediatamente, rumores de que Saint-Germain ainda estava vivo se espalharam como fogo. O motivo para simular a própria morte é que ele havia ganho muita fama pela Europa e as pessoas se perguntavam como era possível ele continuar vivo.

Em 1785, um importante congresso de Maçons foi realizado em Paris e contou com a presença de Rosacruzes, Cabalistas, Illuminati e membros de outras Sociedades Secretas. De acordo com os arquivos maçônicos, os convidados incluíam o famoso mago, místico e alquimista, Conde Cagliostro, o filósofo Louis Claude de St. Martin, o renomado médico e hipnotizador Franz Mesmer e o Conde de Saint-Germain. Alguns disseram que ele realizou um discurso na reunião e foi muito aplaudido.

Esta não foi a única aparição de Saint-Germain após sua suposta morte. Foi registrado que Mademoiselle d'Adhemar o encontrou ao menos cinco vezes durante um período de muitos anos, começando em 1789, quando também visitou o Rei Gustavo III da Suécia para avisá-lo do perigo de inimigos, e até em 1820, na noite anterior ao infame assassinato do Duque de Berri. Ainda mais estranho é que em seus próprios diários, Maria Antonieta lamentou não ter dado crédito aos avisos de Saint-Germain sobre a próxima eclosão da Revolução Francesa. Alegadamente, Saint-Germain também apareceu diante de Maria Antonieta na prisão, para avisá-la da data e hora de sua execução.


Mas não termina aí... Vinte e oito anos depois, em 1821, a notável educadora, Madame de Genlis, mencionou em suas memórias uma conversa que teve com Saint-Germain durante as negociações de paz de Viena; e no mesmo ano o embaixador francês, o Conde de Chalon, afirmou ter falado com ele na Praça de São Marcos, em Veneza. Em 1842, o nome de Saint-Germain estava sendo mencionado em conexão com Lord Lytton, a quem ele teria ajudado a desenvolver poderes sobrenaturais. Em 1867, uma reunião da Grande Loja dos Maçons em Milão, contou com a presença de Saint-Germain; e em 1896, quando, segundo as evidências, ele teria aproximadamente 245 anos, a famosa teosofista Annie Besant escreveu que o conhecera pessoalmente.

Os céticos argumentam que a lenda sobre a longevidade de Saint-Germain são algum tipo de farsa elaborada, mas seria possível para um indivíduo estender tal farsa por um período tão longo de tempo? Como poderia manter viva em tantos países e culturas diferentes esse rumor? Napoleão III ficou tão intrigado com as histórias sobre Saint-Germain que criou um conselho especial para investigá-lo. No entanto, as descobertas da comissão foram destruídas em um incêndio que consumiu o Hotel de Ville em Paris em 1871 – e muitos estavam dispostos a atribuir esse desastre a algo mais além de coincidência. Boatos afirmavam que a Rainha Victoria da Inglaterra, em 1890 teria enviado agentes de sua confiança para buscar o famoso alquimista e trazê-lo diante dela. Seu objetivo seria garantir a vida eterna. Também há rumores de que o Czar Nicolau II também encomendou um dossiê sobre Saint-Germain, depois que rumores circularam pela corte russa de que ele estaria vivendo em São Petersburgo.

No século XX, as lendas à respeito de Saint-Germain parecem ter gradualmente diminuído, embora em certos círculos místicos seu nome continuasse a ser pronunciado. Com todas essas lendas à respeito de Saint-Germain, o que poderíamos levar em consideração dessa figura misteriosa? Teria sido ele uma alma iluminada e um mago de respeito ou seu maior truque foi construir uma aura lendária ao seu redor? Quem seria ele? Um alquimista imortal? Um vampiro? Uma figura amaldiçoada? Ou um Viajante do Tempo?

Em se tratando do Conde de Saint-Germain, provavelmente jamais saberemos. 

segunda-feira, 4 de julho de 2022

A Santa e os Demônios - Possessão nas Florestas do Canadá


No início do século XVII, a área então conhecida como Nova França, hoje Quebec, no Canadá, era um lugar isolado, exasperante e difícil de viver. Aquela era uma terra cheia de lugares perigosos, nativos iroqueses hostis e epidemias mortais que assolavam os colonos. Não era um lugar que alguém escolheria viver, mas em 1639 uma freira francesa da ordem das Ursulinas chamada Marie de L'Incarnation lá se estabeleceu com a intenção de espalhar sua fé entre os povos indígenas da região. Seu plano era construir uma Igreja na Nova França, convencida de que aquela era a vontade de Deus e que ele assim a ordenava. 

Também conhecida como a Hospitaleira de Quebec, Marie fundou um convento e a primeira escola para meninas, e foi crucial na disseminação do catolicismo na Nova França. Ela dedicou sua vida a espalhar sua fé entre as jovens nativas, e de fato as tribos nativas a adoravam, chamando-a de Iakonikonriiostha, que significa "aquela que embeleza a alma e torna o coração mais quente". Ela também foi o foco de algumas histórias paranormais bastante estranhas, uma delas envolvendo uma jovem atormentada por Demônios.

Antes de vir para o Novo Mundo, Marie de L'Incarnation havia tido seu quinhão de visões e experiências sobrenaturais. Desde muito jovem ela afirmava ter visões com Jesus Cristo. No Canadá as coisas não foram diferentes. Ela alegou ter experimentado a visão de um terremoto que de fato aconteceu, bem como ter outros presságios, como ataques iroqueses e desastres inesperados. Marie também mencionava ouvir vozes vindas do céu e de ver canoas em chamas voando. Ela escreveu em seu diário certa vez:

"As vozes de lamento que eu ouvi em Trois-Rivières poderiam ser o eco dos pobres cativos levados pelos iroqueses; já as canoas que pareciam estar voando no ar, todas em chamas, ao redor de Quebec, eram o presságio das canoas dos inimigos vindo para nos enfrentar. Deus enviava essas visões para avisar quais desafios teríamos de transpor".

Ela escreveu extensivamente em diários, cartas e manuscritos, de fato, seus textos constituem uma das maiores coleções de documentos pessoais dos primeiros anos da colonização francesa. Intercalados entre seus escritos vem à tona pensamentos religiosos, observações sobre o crescimento da Nova França, reflexões sobre a espiritualidade e a vida cotidiana mundana da colônia e do convento, bem como menções a inúmeros fenômenos paranormais. Ela descobriu que a feitiçaria existia na Nova França, escrevendo "há bruxaria e magos neste lugar, homens e mulheres que usam poderes obscuros para perverter o que está à sua volta. Nem todos são malignos, mas alguns parecem ser tocados por forças diabólicas como nunca imaginei ser possível". 


Um conto em particular que se destaca em seus escritos gira em torno de uma jovem de 17 anos, chamada Barbe Hallay, também conhecida como Halé. A moça chegou ao porto de Quebec com sua família em 1660 a bordo de um navio cheio de colonos franceses. Na época, ela era apenas uma garota normal em meio ao fluxo de imigrantes, mas logo, algo inesperado aconteceria com ela.

Ao chegar, Hallay foi trabalhar como empregada na mansão do rico comerciante John Maheu e na cidade de Quebec, então um pequeno assentamento com menos de 3.000 habitantes. Não demorou até que fenômenos estranhos tivessem início. Ela afirmava ouvir músicas estranhas, como flautas e tambores que pareciam vir do nada, e objetos se moviam quando Hallay estava por perto. A princípio eram itens pequenos, mas rapidamente coisas mais pesadas, como móveis também se moviam espontaneamente. Tais fenômenos se intensificaram, com objetos voando das prateleiras, quadros caindo das paredes e itens sendo arremessados de um lado para o outro. Tornou-se uma ocorrência frequente que pedras voassem como se tivessem sido arremessadas. Essas pedras colidiriam com as paredes e quebravam objetos. Um missionário jesuíta chamado Paul Ragueneau diria sobre os estranhos incidentes:

"A casa da menina estava tão infestada que pedras voavam de todos os lados, atiradas por mãos invisíveis. Era como se elas tivessem sido arremessadas propositalmente para quebrar e destruir o que estava ao redor. Algumas pessoas se assustavam, outras se feriam, atingidos pelas pedras que voavam velozmente causando horror e estranheza nos que testemunham tal fenômeno". 

Depois disso, as coisas ficariam ainda piores quando Hallay começou a ver aparições à espreita. Estes podiam assumir muitas formas, incluindo figuras sombrias, fantasmas e até monstros horríveis. Eles apareciam em todas as horas do dia e da noite. Apenas ela era capaz de vê-los, e esses seres a atormentavam constantemente. Em algum momento, foi relatado que essas entidades começaram a falar através dela, com a voz da menina ou às vezes mudando de tom e timbre, até mesmo para um homem ou um rosnado bestial. 

Ragueneau também escreveu à respeito disso: 

"Apenas a garota via aqueles demônios e estes apareciam para ela sob várias formas: de homens, mulheres, crianças, bestas e espectros infernais. O horror dela era real, impossível de ser fingido. Finalmente, os demônios falaram através de sua boca... usando uma voz desconhecida, gutural, horrível!"


A atividade paranormal se tornou tão grave que Hallay foi forçada a sair da mansão, mas os ataque a seguiram até sua nova casa. Não parecia haver maneira dela escapar de sua influência maligna. A essa altura, a situação era bem conhecida entre os colonos, que sussurravam todo tipo de coisa a respeito. Para alguns ela era uma bruxa, para outros possuída por demônios ou afligida por algum feitiço maligno, e ainda outros pensavam que ela estava em aliança com o próprio Diabo. Um exorcismo foi ordenado pelo Bispo da Nova França, mas ele não teve sucesso e, de fato, tornou os fenômenos ainda mais intensos. Foi nessa época que ela foi levada ao hospital do convento de Marie de L'Incarnation, que estava sob a liderança da Madre Catherine de Saint-Augustin. Foi Madre Catherine que imediatamente reconheceu o que a menina enfrentava como uma poderosa possessão demoníaca. Se aquilo não fosse combatido, os espíritos acabariam por matar a menina.

Os demônios, ou o que quer que fossem, não gostaram nada de se ver no convento, tornando-se mais e mais ferozes, vomitando obscenidades através da boca de Barbe, aparecendo como aparições, às vezes como anjos para enganar as freiras, e até atacando-as com tanta ferocidade. Algumas ficaram com cortes e hematomas pelo corpo. Marie de l'Incarnation chegou à conclusão de que essa aflição demoníaca havia sido provocada por um bruxo chamado Daniel Vuil, que havia feito a viagem ao Novo Mundo com Barbe e até a pediu em casamento sem sucesso. Marie supôs que Vuil menosprezado, tinha então usado sua magia negra para conjurar os demônios que estavam atormentando Barbe. Ela ficou ainda mais convencida disso quando a garota afligida alegou estar vendo uma aparição de Vuil também.

As autoridades ficaram muito felizes em prender Vuil por suspeita de bruxaria, porque ele estava causando muitos problemas na colônia e cometendo atos de blasfêmia. Vuil havia enfrentado acusações semelhantes na França, mas havia conseguido escapar das autoridades eclesiásticas mudando de nome e se juntando aos colonos que iriam para o Novo Mundo. O homem era tido como um bruxo poderoso, que realizava façanhas de necromancia: conjurava maldições, invocava espíritos e até mesmo conseguia erguer mortos vivos para proteger seu antro.  

Ele foi levado sob custódia e, aparentemente, seus vários crimes foram suficientes para obter a sentença de morte. O bruxo tentou escapar do lugar onde havia sido aprisionado, mas na fuga foi ferido por um disparo. Mortalmente ferido, foi conduzido diante de um grupo de soldados que o fuzilaram em 7 de outubro de 1661. Desafiando seus algozes, ele gargalhou dizendo que retornaria mais poderoso ainda se fosse morto.


Após sua morte, os ataques demoníacos realmente se intensificaram, forçando as freiras a realizar outras ações. Uma série de exorcismos foram realizados, mas Barbe parecia cada vez pior. Finalmente, Marie de l'Incarnation assumiu para si mesma a tarefa de exorcizar de uma vez por todas os espíritos malignos que a afligiam, inclusive o do próprio bruxo Daniel Vuil que se uniu a eles cumprindo sua ameaça. A luta contra os espíritos foi nada menos do que épica e o exorcismo consumiu boa parte das forças de Barbe e de Marie. Após dias de embate no campo espiritual e psicológico, Marie conseguiu expulsar os demônios que haviam se instalado na garota um a um, restando apenas o fantasma de Vuil. Para extirpar essa presneça nefasta, Marie ordenou que o corpo de Vuil fosse exumado e colocado diante dela, para que ela pudesse arrancar o espírito que atormentava a menina e devolvê-lo ao corpo apodrecido do bruxo. Quando ela conseguiu realizar tal coisa, o cadáver foi queimado até virar cinzas.  Com efeito, os fenômenos demoníacos cessaram e Barbe passou a viver uma vida normal até sua morte em 1696, aos 52 anos.

Marie de l'Incarnation ganharia enorme reconhecimento por ter vencido a batalha contra o bruxo. Ela viria a ser reconhecida como "Venerável" por Roma em 1874, e em séculos posteriores oficialmente beatificada pelo Papa João Paulo II em 1980, e finalmente canonizada como Santa em 2014 tornando-se a primeira santa franco-canadense. 

Ela desempenhou um papel marcante na história do Canadá e hoje é reconhecida como uma das padroeiras do país, em especial na região de Quebec que a tem como uma santa protetora. Mas o que podemos assumir à respeito das alegações misteriosas e poderes de Marie lÌncarnation? Ela realmente tinha visões paranormais ou esse é um caso de fervor religioso levado às últimas consequências? O que estava atormentando Barbe Hallay se é que havia uma presença que se apossou dela? 

Seja qual for a explicação, esse continua sendo um relato histórico bastante interessante de um incidente sobrenatural que moldou a história de um país.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Numenera: Descoberta e Destino - O que muda e o que é novo no Nono Mundo


Alguns anos atrás, eu escrevi uma resenha enorme em três partes sobre Numenera, um RPG que me deixou realmente impressionado pela qualidade do material, funcionalidade do sistema e abrangência da ambientação. 

Numenera era tudo aquilo que eu esperava fazia tempo em um RPG de exploração, aventura e mistério. Eu convido os leitores do Mundo Tentacular a revisitar aquelas três postagens originais para se inteirarem à respeito do assunto. Eu não pretendo repetir desnecessariamente tudo aquilo que disse anteriormente, sobretudo, porque muito do que valia sobre Numenera em 2014, ainda vale para Numenera: Destiny and Discovery, hoje em 2022.

Os links seguem logo aqui abaixo e depois de ler ou relembrar deles, convido vocês a continuarem a leitura desse artigo que se dedica a explorar as diferenças nessa nova edição de Numenera. Então vão lá, deem uma olhada e voltem. 1, 2, 3... vão!




Pronto? De volta conosco?

Então vamos continuar de onde paramos.


Pelo que vocês leram (ou não), deu para notar que eu sou um grande fã de Numenera. Eu realmente gostei da proposta do jogo, de se passar em um mundo que é a soma de todos os mundos anteriores, cada qual tendo deixado um pouco de sua história, segredos e mistérios para os povos que vieram depois. As possibilidades de aventuras em um ambiente assim tão vasto e com essa diversidade de culturas é quase inesgotável. Outro ponto que eu acho incrível na ambientação é a proposta de mesclar alta tecnologia incompreensível com magia. A noção de que tecnologia aos olhos de quem não consegue compreender seus fundamentos básicos nada mais é do que magia ou uma força sobrenatural, é algo incrível.

Não surpreenderá ninguém que meu interesse em Numenera continua o mesmo. Nesses últimos anos investi pesado na ambientação: adquiri vários suplementos, livros de aventuras, campanhas e tudo mais. A Monte Cook Games ofereceu uma quantidade considerável de suporte para seu título mais popular e Numenera viu muita mesa no meu grupo regular de jogo. Escrevi muita coisa, produzi material e joguei bastante a ambientação. Sinceramente, gostaria até de ter jogado mais, se tivesse tempo. Tudo isso para dizer que Numenera não é o tipo de livro que vai ficaria pegando pó na prateleira, ele é um RPG que praticamente pede para ser narrado e jogado.

Sendo um fã hardcore da ambientação e tendo me dedicado enormemente ao lore, foi com certa surpresa que acompanhei o anúncio de que a Monte Cook Games estava planejando um novo Numenera.


Talvez surpresa não seja a melhor palavra... eu fiquei realmente irritado com a perspectiva de que o jogo receberia uma nova edição que mudaria o que eu já conhecia sobre ele. Meu descontentamento não era apenas por conta de ter que mudar o sistema ou assimilar novas regras, mas principalmente por saber que o sistema de Numenera não precisava de mudanças. No que diz respeito a ambientação, vale o mesmo. Eu não queria que a ambientação sofresse qualquer atualização desnecessária, ela estava perfeita da maneira que foi feita.

Com isso em mente, disse a mim mesmo que uma nova edição de um livro quase perfeito era desnecessária e que eu não embarcaria nela. Tratei o Numenera: Destino e Descoberta como uma manobra da Monte Cook Games para lucrar com um novo livro básico e nada além disso. Quando ele foi oficialmente anunciado eu já estava decidido a não comprar e me manter fiel ao meu Numenera original.

MAS ESPERE!

Eis que surgiram então as primeiras avaliações e detalhes sobre o projeto e o que ele pretendia.

Para começo de conversa, Numenera não seria atualizado no que diz respeito às regras. Não haveriam mudanças drásticas e significativas naquilo que já conhecemos e no que nos habituamos a usar. O Sistema base de Numenera o Cypher sofreu ao longo dos últimos anos algumas alterações menores para adequar e facilitar a experiência e a jogabilidade. Nada além disso! 


O Cypher sempre foi um jogo que "roda macio" na mesa. As regras dele são suficientemente simples para serem ensinadas e compreendidas em uma única sessão. O Narrador consegue assimilar rápido a essência do sistema em que se usa um D20 para determinar sucesso ou fracasso contra um número alvo. Tudo é tratado em termos de níveis (seres, monstros, objetos inanimados etc.) que fornecem a dificuldade para interagir eles. Uma vez compreendido esse fundamento, tudo flui lindamente. Uma das minhas grandes preocupações era justamente se uma nova edição alteraria isso.

A resposta é NÃO!

Vamos começar falando do Tomo que tem o título Descoberta.

O novo Numenera preserva toda essência do jogo original. Em termos de regras, poucas coisas mudam, o que temos é mais uma clarificação do que alteração. Alguns aspectos que deixavam dúvida foram melhor explicados e mais exemplos foram adicionados. Uma vez que a mecânica do Cypher System para Numenera é praticamente a mesma, os suplementos já lançados continuam sendo válidos e podem ser usados sem medo de terem ficado desatualizados.

Um importante elemento é a adição dos Wrights e dos Delvers, duas "classes" adicionais que se somam às já conhecidas Glaive, Nano e Jack. Enquanto estas três são correlatas diretas aos guerreiros, magos e ladinos, as duas novas permitem que personagens tenham inclinação para construção de Numenera (como Artífices) e para explorar o mundo (uma espécie de ranger). Os dois novos tipos são muito bem vindos, e aumentam o leque de opções dos jogadores. Há algumas atualizações menores nos poderes e habilidades do Glaive e do Nano principalmente, algumas delas no sentido de fornecer mais versatilidade aos tipos. De uma forma geral, eu gostei das adições.


Algo semelhante acontece com os Descritores e Focos nesse livro. Os descritores do livro original de Numenera estão aqui em Descoberta e não foram alterados até onde vi. Isso inclui as tabelas de poderes e habilidades de Visitantes e Mutantes, a propósito.
 
As listas de Artefatos, Cifras e Esquisitices também estão de volta, sendo que alguns itens receberam updates para facilitar o entendimento sobre seu funcionamento. Há também sugestões bem vindas para cifras que se adequam a cada tipo de personagem, ou seja Cifras para Glaives, Cifras para Nanos, Cifras para Delvers e assim por diante. Essa sem dúvida é uma boa sacada para quem não gosta do sistema aleatório em que qualquer coisa pode cair com qualquer um. Nada impede você de rolar aleatoriamente os objetos, mas essa nova opção permite obter itens mais condizentes para cada tipo de personagem. No que diz respeito às cifras, temos também uma regra alternativa sobre o esgotamento de itens, se você não quiser que os poderes se desfaçam o tempo todo. Eu particularmente gosto da regra das cifras se exaurirem após cada uso, o que dá um elemento caótico ao jogo, que me agrada, mas é bom ter algumas ideias novas rolando aqui e ali.

No que diz respeito às criaturas, velhos conhecidos podem ser encontrados reunidos no Tomo Descoberta, incluindo oponentes NPCs e Inimigos Icônicos. Temos a adição de algumas novas e empolgantes criaturas, o acréscimo de monstros que apareceram em suplementos, aventuras ou campanhas e algumas boas surpresas. Além disso, as ilustrações de criaturas continuam a ser um dos pontos altos, com monstros bizarros, estranhos e intrigantes como de costume.

Uma novidade interessante é a adição das Intrusões de Jogadores. Temos um punhado de sugestões para que os jogadores entendam quando podem acrescentar algo à história e costurar elementos na trama. Estas Intrusões comandadas pelos jogadores são uma ótima ideia que se encaixa perfeitamente no espírito de Numenera. As intrusões do GM continuam usando a mesma regras, com a adição de algumas sugestões bem vindas. A opção dos jogadores sugerirem eventos positivos no jogo e pagarem um ponto de experiência para que isso aconteça. É algo que aprofunda a experiência do jogo.

O consenso que tenho é que Numenera Descoberta não é muito diferente do livro original de Numenera, contendo no entanto, atualizações bem vindas com base na experiência extraída em mesas de jogo. 


Algumas pessoas podem tentar lhe dizer que esse livro é um Advanced Numenera (como já ouvi alguém dizendo). Mas ignore isso! As mudanças presentes não alteram o jogo que você já conhece, apenas acrescentam elementos e opções à ele.

Depois de ler isso, alguns devem estar se perguntando, se poucas coisas mudaram, então qual a razão de ser para um Numenera: Descoberta e Destino?

A explicação é simples e vem através do segundo livro que tem por título Destino.

Primeiro, vamos direto ao ponto e dizer o que Numenera Destino realmente é. Trata-se de um livro totalmente novo, do início ao fim, que fornece uma série de empolgantes novidades para o universo de Numenera. De certa forma ele é realmente um passo adiante na ambientação e uma forma diferente de encarar o jogo.

Como o próprio título implica, este segundo livro permite levar a campanha numa outra direção e desenvolver o conceito do Nono Mundo de uma forma inovadora. Enquanto o material em Descoberta se concentra em enfrentar desafios, conquistar riqueza e viver aventuras, Destino é bem mais profundo. O jogo encara uma vertente onde o foco é construir um futuro melhor.

Você ainda vai precisar do Numenera Descoberta para jogar suas aventuras, mas com Numenera Destino, a proposta será outra. Os personagens deixam de ser simples aventureiros e se tornam ferramentas de transformação, indivíduos capazes de moldar o mundo à sua volta. A ambientação prevê duas maneiras de atingir esse nobre objetivo: Estabelecendo Comunidades ou Criando Numenera. 


Essas mudanças estão ligadas a um novo "Tipo" de personagem, o Arkus, cujas habilidades estão voltadas para construir uma Comunidade. Onde outros tipos (classes) concentram suas especializações em combate ou conhecimento, o Arkus age diretamente na sociedade à sua volta e ajuda a criar povoados, desenvolvendo esses pequenos grupos de vilarejos para cidadezinhas, de cidades maiores para Metrópoles. O Arkus é um motivador, um sonhador e um visionário. A ideia é que ele seja o idealizador de uma comunidade que vai surgir ao seu redor e que está fadada a se tornar algo maior que ele próprio.

Essa proposta do livro Destino é realmente inovadora e muito interessante. Onde antes tínhamos aventuras cujo objetivo era explorar, conquistar e derrotar monstros para obter tesouros, fama e ganho pessoal, agora temos cenários visando o bem estar de um grupo de pessoas. As histórias ganham uma nova dimensão, com os heróis de Numenera se dedicando a prover os meios para uma comunidade sobreviver, garantindo seu sustento, proteção e evolução. Destino fornece uma quantidade notável de ideias para uma campanha onde os personagens serão mais do que simples heróis, eles serão construtores de um novo mundo.

O conceito de Comunidade como um organismo vivo numa campanha é nada menos que sensacional. Os jogadores terão de criar uma ficha da Comunidade com estatísticas, vantagens, desvantagens e características básicas. A Comunidade se torna praticamente um personagem na história, construído com sugestões de cada um dos jogadores. Elas possuem sete estatísticas em um perfil que se assemelha ao de uma entidade viva, são eles: Governo (liderança e organização), Saúde (o número de pessoas fisicamente aptas), Infraestrutura (os materiais e edifícios ao redor), Dano Infligido (para resolver combate em massa), Armadura (os muros, fortes e defesas) e Combate (as milícias, exércitos e tropas).

Uma típica aventura de Comunidade pode envolver defender um povoado do ataque de selvagens abhumanos, afugentar um monstro ameaçador ou ainda obter recursos para que a população sobreviva a um inverno rigoroso. Como defensores de um assentamento, também cabe aos heróis incentivar o comércio com outros povoados, criar relações diplomáticas, lidar com agressões, descobrir fontes confiáveis de energia, estipular leis e regras de convivência para diferentes pessoas, povos e culturas.

 

Outra questão fundamental diz respeito a Numenera: Como usar a tecnologia dos antigos e se valer de máquinas miraculosas para ajudar a comunidade e incentivar seu progresso? Em uma ambientação tão rica e vasta quanto o Nono Mundo, não vão faltar desafios e problemas a serem solucionados. Talvez o grupo tenha que explorar uma antiga ruína em busca de uma máquina que faça chover, ou encontrar uma relíquia capaz de purificar a água de um rio ou ainda evitar que uma máquina cause terremotos e erupções vulcânicas desastrosas.    

Há cinco exemplos de Comunidades no livro, cada um desses assentamentos é descrito em cerca de sete páginas de material. Elas podem ser usadas como base para o grupo se assim ele desejar. Temos o povoado de Umdera que muda regularmente de lugar; Enthait uma cidade maior com 25.000 habitantes e construída sobre as ruínas de um complexo mais antigo; Rachid que tem tamanho médio e que lida com questões de visitantes alienígenas, Taracal uma ilha flutuando no Mar de Segredos; e Delend uma cidade montanhosa erguida sobre um artefato de grande poder e mistério.

No entanto, o grupo pode construir sua própria comunidade focando naquilo que desejam numa campanha dessa natureza. O lugar pode ser fundado do zero e ir crescendo aos poucos. Há opções de quais edifícios e monumentos podem ser erguidos, do que pode ser construído e de melhorias necessárias. Gerenciar população, recursos e vantagens será essencial para impulsionar a sua Comunidade.

Numenera Destino permite ao seu grupo deixar sua própria marca na história como pessoas que levaram o Nono Mundo em direção ao futuro.

No que diz respeito a regras e mecânica, não faltam novidades para seus personagens. 

O livro oferece um leque de novas opções para construção de personagens com nada menos do que trinta e cinco novos descritores, o que é quase três vezes mais do que a dúzia encontrada no livro original. Os Focos também foram ampliados, muitos deles vieram de material publicado nos excelentes Characters Options 1 e 2, mas há uma boa quantidade de novos focos.  


Alguns desses novos focos estão voltados para a proposta de personagens imprescindíveis para a construção e manutenção das Comunidades. Temos, os seguintes Focos, por exemplo: "Age sem consequências" (um foco de manipulação de combate para defender as pessoas), "Comanda o Leviatã" (que permite assumir o controle de criaturas gigantes que ameaçam sua comunidade), "Constrói o Amanhã" (que permite modificar os recursos da sua comunidade), "Defende os Portões" (um protetor da comunidade), "Descende da Nobreza" (um foco de liderança e carisma), "Lidera uma Horda" (um líder guerreiro que comanda soldados), "Transmite Sabedoria" (uma liderança filosófica), "Radia Vitalidade" (um curandeiro comunitário), "Conduz as Pessoas" (um campeão ou ícone admirado por todos) e "Comanda Palavras como Armas" (que mantém a comunidade unida e o inimigo desorganizado).

Com tudo isso, é fácil compreender Numenera Destino quase como uma ambientação à parte. 

O Mestre encontrará à sua disposição uma infinidade de opções narrativas e sugestões de como desenvolver o Background ao redor da Comunidade e como construir aventuras empolgantes centradas nela. Uma campanha pode transcorrer ao longo de anos, décadas, séculos ou mesmo milênios no qual, uma pequena comunidade pode se tornar a base para uma vasta nação num futuro distante, tendo os personagens dos jogadores e seus descendentes como catalizadores de toda essa transformação.

O conjunto Numenera: Descoberta e Destino, com dois livros foi lançado pela Monte Cook Games originalmente em 2018, e agora está sendo oferecido para jogadores novos e veteranos no Brasil. O Financiamento Coletivo está em curso através da plataforma Catarse e capitaneado pela Editora New Order. A New Order, aliás, foi responsável por ter lançado o Livro Original em 2014, recebendo elogios do criador do sistema Monte Cook. 

Se você tem dúvidas à respeito do cenário ou da ambientação, na página do Catarse encontrará vários vídeos e comentários que reforçam o que eu escrevi nessa pequena resenha. Os livros terão a mesma produção gráfica da versão americana, uma verdadeira obra prima em matéria de acabamento e arte.  

Numenera: Descoberta e Destino está recheado com tantas ideias incríveis, tanto mecânicas quanto em termos de ambientação que é até difícil colocar em perspectiva. Se você já conhece e gosta de Numenera e quer fazer a melhor campanha possível nesse mundo, esse material é mais do que obrigatório. Se você não conhece Numenera, eu não poderia indicar outro jogo tão inteligente quanto esse. Não deixe passar essa chance de entrar no Nono Mundo da melhor maneira possível.

O Nono Mundo aguarda!



quarta-feira, 29 de junho de 2022

Reescrevendo a História - Os misteriosos Manuscritos de Shapira


Sempre existiram manuscritos estranhos que surgem praticamente do nada para desafiar tudo aquilo que que pensamos saber. Ao longo da história, muitos textos, pergaminhos e manuscritos perdidos foram descobertos em lugares remotos do mundo, colidindo com nossas noções preconcebidas da história e abalando nossas certezas. Um destes documentos é um suposto texto bíblico antigo que teria sido descoberto em uma caverna. O achado causou enorme controvérsia e suas ondas seguem reverberando nos campos da arqueologia e dos estudos bíblicos causando um acalorado debate até os dias de hoje.

A história é curiosa e começa da seguinte maneira.

Em 1883, um negociante de antiguidades de Jerusalém chamado Moses Wilhelm Shapira veio à público alegando ter em sua posse algo que ele afirmava ser um pergaminho bíblico até então desconhecido. O manuscrito teria sido encontrado em uma caverna ao longo do rio Wadi Mujib. O riacho é citado por textos bíblicos e sua localização próxima do Mar Morto, onde hoje é a Jordânia, corresponde a muitas das histórias que ele relata. O tal manuscrito em si tinha a forma de quinze tiras de couro velhas e um tanto enegrecidas, sobre as quais foram inscritas caracteres paleo-hebraicos. Ele seria uma versão inicial do Livro de Deuteronômio

Segundo seu descobridor, a obra era possivelmente uma cópia que chegou a pertencer ao próprio Patriarca Moisés. O material era tão importante que chegava a trazer um décimo primeiro mandamento que dizia: "Você não deve odiar seu irmão em seu coração: pois Deus está nele, seu Deus.


Segundo Shapira, os pergaminhos pertenciam ao período do Primeiro Templo, anteriores, portanto, ao exílio babilônico, o que os tornaria por uma longa margem de tempo, o texto bíblico mais antigo jamais encontrado. Uma descoberta crucial para entender a história do Povo Prometido de Deus.

Exatamente como Moses Shapira tomou posse do que viria a ser chamado de Manuscritos de Shapira, também constituía um mistério. Ele próprio afirmava que um dia ouviu de um xeque beduíno que o misterioso manuscrito havia sido encontrado na parte mais profunda de uma caverna considerada sagrada. O item estaria dentro de um vaso de cerâmica, enterrado em um nicho e protegido por peles de carneiro. Ele contaria sobre como conseguiu o pergaminho em uma carta ao estudioso bíblico, Christian David Ginsburg:

"Em julho de 1878, o xeque Machmud Arakat, um conhecido chefe de guias de Jerusalém no Vale do Rio Jordão, me fez uma visita. Como o xeque tinha beduínos do Oriente em sua casa, ele os trouxe todos com ele. Ouvi no dia seguinte que alguns homens de sua confiança haviam se escondido numa caverna para escapar de inimigos que os perseguiam. Isso aconteceu na época em que a Dinastia dos Wali de Damasco lutava contra os árabes, travando uma guerra sangrenta. Eles sabiam que aquela caverna em particular era sagrada e que a entrada nela era proibida, mas temendo pelas suas vidas, os homens não viram outra opção. A caverna possuía várias câmaras que pareciam escavadas na própria rocha, perto do Modjib. Enquanto esperavam o perigo passar, vasculharam o interior usando tochas e encontraram alguns fardos de linho velho. Eles descobriram que o linho marcava o lugar em que algo havia sido enterrado. Escavaram cuidadosamente o nicho e descobriram o vaso contendo as tiras de couro com inscrições. À princípio, acharam que não era nada demais e já pensavam em abandonar o achado, mas um dos homens que conhecia algo de caracteres antigos achou que poderia ser algo importante. Ele salvou as tiras em seu alforje e as protegeu, trazendo até o xeque para que ele as avaliasse.

Quando o xeque me contou essa história, pedi que enviasse o homem e sua descoberta ara que eu conversasse com ele. Meu objetivo era examinar as peças e determinar sua idade e importância. Nos dias que se seguiram analisei febrilmente o conteúdo das tiras, maravilhado pelo significado daquilo tudo, não apenas como homem de fé, mas como historiador.

Enquanto ainda tinha as tiras em seu poder, Shapira recebeu a notícia de que seu amigo, o Xeque, havia ficado doente e que morrera. Mas não sem antes dar ordens expressas para que os artefatos fossem legados ao historiador que segundo ele "melhor do que qualquer outra pessoa poderia determinar sua serventia".


Shapira de posse do material passou alguns anos estudando-o antes de finalmente apresentar suas descobertas à comunidade histórica. Os manuscritos se tornaram uma sensação imediata, e sua descoberta foi publicada nos principais jornais da Europa. Ainda assim, embora o público tenha reagido com interesse pelo assunto, os especialistas mais respeitados se mostravam céticos sobre sua autenticidade. Shapira enviou cópias dos pergaminhos para vários estudiosos e especialistas alemães em um esforço para autenticar a descoberta, mas os pergaminhos foram quase unanimemente tratados como falsificações. Em particular, Shapira abordou o teólogo e orientalista alemão Hermann Leberecht Strack, que era a principal autoridade cristã na Alemanha em literatura talmúdica e rabínica, mas Strack descartou a obra como uma fraude grosseira. A Biblioteca Real de Berlim até se ofereceu para comprar os pergaminhos de Shapira, não porque eles pensassem que eram reais, mas para que os alunos pudessem estudar como a falsificação havia sido feita.

Era compreensível que os pergaminhos recebessem uma reação acadêmica tão negativa, pois Shapira já havia conquistado reputação de falsificador. Certa vez ele tentou vender um falso caixão que supostamente encerrava os ossos do herói bíblico Sansão. Ele também foi pego vendendo 1.700 estatuetas falsas para um museu de Berlim, o que justificava a desconfiança dos museólogos. Contudo, Shapira insistia que neste caso, tudo era autêntico e de máxima relevância histórica. Ele levou os pergaminhos até Londres e ofereceu o tesouro ao Museu Britânico por um milhão de libras. Dois dos  fragmentos foram postos em exposições, visitados e apreciados por multidões de pessoas, inclusive o primeiro-ministro inglês, William Gladstone. No entanto, mais uma vez, os estudiosos foram amplamente céticos sobre sua veracidade. Mesmo o estudioso da Bíblia, Christian David Ginsburg com que Shapira mantinha correspondência examinou os pergaminhos e os descartou como falsificações. 

Toda a experiência fez Shapira cair em desgraça diante dos especialistas. E ele escreveria a Ginsburg:

"Você me fez de tolo publicando e exibindo coisas que acredita serem falsas. Acho que não vou conseguir sobreviver a essa vergonha. Embora eu ainda esteja convencido de que o manuscrito é autêntico e algo incrivelmente precioso". 

Shapira deixou Londres e se refugiou em Amsterdã, e durante os anos restantes de sua vida afirmando que os pergaminhos eram reais, implorando a Edward Augustus Bond, principal bibliotecário do Museu Britânico, assim como Ginsburg, que reconsiderassem sua posição, mas eles mantiveram seus veredictos. Desonrado e muito envergonhado, tendo sua maior descoberta denunciada como fraude por quase todos estudiosos que a examinaram, Shapira cederia ao desespero. Ele cometeu suicídio em 1884. 


Depois disso, o Museu Britânico vendeu os fragmentos que ainda estavam em seu poder por uma ninharia e eles foram vistos pela última vez em 1889. Os demais pergaminhos que se encontravam em poder de Shapira antes de sua morte também desapareceram, supostamente foram parar nas mãos de negociantes e vendidos para colecionadores particulares. Seu paradeiro é desconhecido e possivelmente jamais irão ressurgir novamente. Sem o material original para ser estudado, o pergaminho de Shapira permanece como um mistério, com algum debate nos anos mais recentes que reacenderam a discussão sobre se o pergaminho era real ou não. Incrivelmente, hoje em dia, a resposta para a questão não é tão simples quanto se imagina. 

O respeitado especialista israelita-americano Idan Dershowitz, da Universidade de Potsdam publicou artigos em que afirma acreditar que o pergaminho de Shapira precisaria ser reavaliado. Ele crê não apenas que o pergaminho poderia ser real, mas que seriam os mais importantes artefatos bíblicos já descobertos. Dershowitz examinou evidências nos arquivos que sobreviveram. Ele comparou fontes linguísticas e literárias usando técnicas modernas de estudo bíblico e reconstruiu o texto das transcrições e desenhos originais para pintar uma imagem que ele afirma, indica que o pergaminho seria autêntico. 

Ele também teve acesso aos papéis de Shapira na Biblioteca Estadual de Berlim e afirma ter encontrado três folhas manuscritas que parecem mostrar que Shapira estava tentando traduzir o texto por conta própria, com muitas notas, cálculos e informações. Para Dershowitz, tudo o que ele encontrou aponta para que a descoberta poderia ser real. A maneira como eles foram inicialmente descartados como falsos é uma “tragédia tanto para Shapira quanto para toda a existência da disciplina de estudos bíblicos”. 

Sua opinião contundente atesta o seguinte:

"Os documentos são incríveis, pois abrem uma janela para a mente de Shapira. Se ele os forjou, ou fez parte de uma conspiração, não faria sentido que ele estivesse sentado tentando adivinhar qual é o texto e cometendo erros enquanto o fazia. É incompreensível que, durante quase toda a existência da disciplina de estudos bíblicos, esse texto que nos diz mais do que qualquer outro manuscrito descoberto antes ou depois, não tenha sido levado em consideração. Como alguém que passa o dia todo reconstruindo textos originais, muitas vezes sonhei em encontrar algo assim. Mas jamais imaginei que pudesse ser algo que se tornaria realidade."


Dershowitz, que escreveu um artigo sobre suas descobertas na revista Zeitschrift für die Wissenschaft, chamado "A Validação de Moses Shapira: Um Livro Proto-Biblico", também acredita que o pergaminho ainda existe em algum lugar e que, se encontrado, poderia responder às perguntas feitas por todos. 

Outros estudiosos continuam a sustentar que os Manuscritos não passam de uma farsa muito bem fabricada, seja pelo próprio Shapira ou como parte de alguma conspiração maior. Dois dos críticos mais ferinos ao manuscrito são os estudiosos bíblicos Ronald Hendel da Universidade da Califórnia, e Matthieu Richelle da Université Catholique de Louvain, na Bélgica. No final, sem os pergaminhos para serem estudados, sua veracidade permanece no reino da especulação. Os analistas são forçados a trabalhar apenas com fotografias do século XIX, gráficos de roteiro, notas e desenhos dos pergaminhos.

A história de Shapira parece levar a um redemoinho tentador de hipóteses. Se o seu descobridor fosse alguém com uma reputação menos duvidosa o que aconteceria? E se Shapira não tivesse cometido suicídio? E se os manuscritos não tivessem sido vendidos? Será que nesse caso os estudiosos veriam o caso de maneira diferente? 

Embora os pergaminhos de Shapira tenham sido amplamente esquecidos e considerados por muitos como meras falsificações, eles ainda persistem levantando discussão. Nunca foi realmente provado se eles são reais ou não, e eles continuam sendo uma estranha nota de rodapé para os estudos bíblicos e a arqueologia.

domingo, 26 de junho de 2022

Trazidos de Volta - Galvanismo e Ressurreição dos mortos através da Eletricidade


Os séculos XVIII e XIX trouxeram consigo uma explosão de interesse pelas ciências e pela forma como o mundo e o corpo humano funcionavam. Esta foi uma época de conhecimento, com uma enxurrada de novas descobertas no campo da biologia, física, química e medicina. A humanidade começava a compreender o seu papel na natureza e desvendava segredos muito bem guardados desde a criação. Segredos estes que mudariam para sempre a maneira como víamos o mundo no qual estávamos inseridos. 

Um dos maiores avanços foi quanto ao funcionamento do corpo humano, dos organismos vivos como um todo e do mundo natural que está à nossa volta. Os pesquisadores estavam apenas começando a entender o conceito de como as doenças se espalhavam, como a eletricidade funcionava e como os elementos químicos interagiam. Isso deu origem a uma área que estava começando a ser examinada pelos cientistas: O Reino da Morte

Um dos maiores temores do homem sempre foi a morte. O que haveria quando a vida se encerrava? O que a pessoa experimenta? Há uma alma imortal que se solta do corpo quando esse morre? Um dos sonhos do homem sempre foi se perpetuar eternamente, mas para isso, ele teria de ir contra a única certeza que se tem ao longo da vida: morrer. 

Vencer a morte constitui o maior dos desafios e houve um tempo em que os cientistas que se debruçavam sobre o assunto acreditavam piamente que o segredo para a ressurreição residia nas inconstantes forças da Eletricidade.

O pós-morte era uma questão há muito ponderadas pela humanidade, um debate teológico e filosófico que já vinha de séculos. Contudo, foi apenas no século XVIII que as pessoas começaram a tentar encarar essa pergunta de forma científica. Na época, surgiram novas teorias sobre a natureza da morte, e uma delas era a noção de que, na verdade havia duas classificações de morte chamadas de "incompleta" e "absoluta". 


Pensava-se que, desde que o corpo não estivesse putrefato ou decomposto demais, a morte seria "incompleta" e que a pessoa poderia ser ressuscitada. Uma morte "absoluta" significava simplesmente que o corpo físico havia decaído a tal ponto que não seria mais funcional e, portanto, incapaz de ser trazido de volta à vida. Foi essa ideia generalizada de que os organismos vivos poderiam ser trazidos de volta que levou os cientistas da época a tentar descobrir como fazê-lo.

Uma das primeiras tentativas de buscar a ressuscitação dos mortos coube à Sociedade para a Recuperação de Pessoas Aparentemente Afogadas de Londres na década de 1770, que mais tarde se tornaria a Royal Humane Society. Estabelecido por dois médicos chamados William Hawes e Thomas Cogan, a sociedade buscava criar métodos para trazer vítimas de afogamento de volta dos mortos. Para tanto, empregava uma variedade de metodologias e dispositivos, alguns bastante peculiares. A sociedade reivindicou muitas histórias de sucesso, que deixaram o público fascinado. Alguns destes métodos envolviam entre outras coisas banhos quentes para ressuscitação, inserir uma mangueira na boca do indivíduo para drenar água ou ainda remover seus pulmões e trocá-los por balões de ar.  

Essas tentativas inspiraram outros cientistas da época a tentarem suas próprias maneiras de trazer os mortos de volta, o que nos leva a um dos movimentos mais estranhos e macabros de que se tem notícia, envolvendo descargas maciças de eletricidade que supostamente teriam o poder de ressuscitar os falecidos.

Na época, a natureza da eletricidade ainda era pouco compreendida e, em muitos aspectos, era vista quase como uma espécie de força mágica e mística. Em 1780, o médico, físico, biólogo e filósofo italiano Luigi Galvani observou como as pernas de um sapo morto se contorceriam quando atingidas por uma faísca elétrica acidentalmente durante um experimento não relacionado, e isso despertou nele um fascínio pela ideia de que a eletricidade poderia ser usada para efetivamente reanimar o tecido morto. Galvani teorizou que havia algo que ele chamou de "eletricidade animal", que ele postulou ser a Força Vital que animava toda matéria orgânica. O princípio era que, se a quantidade de energia correta fosse ministrada os mortos poderiam ser reanimados. 


Galvani começou uma série de experimentos nos quais encostava eletrodos de metal de latão conectados à medula espinhal do sapo e a uma placa de ferro para fazer os músculos do animal morto convulsionarem e se moverem como se estivessem vivos. Ele perseguiu obsessivamente ao longo de onze anos de pesquisa e experimentação o assunto, que culminou em seu livro sobre "eletricidade animal" de 1791. Suas pesquisas conduziriam ao termo "Galvanismo" que em sua homenagem passou a designar a corrente elétrica gerada pelos organismos biológicos e a contração ou convulsão dos tecidos em contato com uma corrente elétrica.

Quando Galvani morreu em 1798, seu sobrinho Giovanni Aldini continuaria seu trabalho e também se graduaria para novos níveis de morbidez empregando suas descobertas em cadáveres humanos em vez de animais. Ele faria uma demonstração pública de eletroestimulação no cadáver de um criminoso executado chamado George Foster, sobre o qual um observador chocado escreveria:

"Na primeira aplicação do processo no rosto, as mandíbulas do criminoso falecido começaram a tremer, e os músculos adjacentes foram terrivelmente contorcidos, e um olho se abriu piscando nervosamente. Na parte subsequente do processo, a mão direita se levantou e fechou, enquanto as pernas e coxa se moveram."


Embora hoje possa parecer antiético fazer isso, na época, a Inglaterra havia aprovado o Murder Act, que basicamente permitia que os cadáveres de assassinos condenados fossem usados ​​para experimentos científicos. Com as descobertas de Galvani, esses cadáveres foram cada vez mais procurados à medida que outros cientistas precisavam de cobaias. Um dos mais notórios experimentos com galvanismo foi realizado pelo químico escocês Andrew Ure em 1818. Em novembro daquele ano, ele reuniu uma plateia de estudantes, anatomistas e médicos da Universidade de Glasgow, que se sentaram para ver Ure apresentar o cadáver de um assassino que acabara de ser enforcado. Em suas mãos, o cientista segurava duas hastes de metal ligadas a uma bateria voltaica, que ele então começou a tocar em diferentes nervos expostos no cadáver, cada vez induzindo o assassino a convulsionar, estremecer e sacudir, para grande fascínio, repulsa e horror do público. 

Ure descreveria o que aconteceu com o cadáver nos seguintes termos:

"Quando uma única haste foi aplicada à leve incisão na ponta do dedo indicador, este se estendeu instantaneamente; e pela agitação convulsiva do braço foi possível apontar para os diferentes espectadores, alguns dos quais pensavam que ele havia ressuscitado. Os dedos moviam-se com agilidade, como os de um violinista. Cada músculo em seu semblante foi simultaneamente lançado em ação temerosa; raiva, horror, desespero, angústia e sorrisos medonhos uniram sua expressão hedionda no rosto do assassino, superando em muito as representações mais selvagens de um Fuseli ou um Kean. Nesse período, vários espectadores foram forçados a deixar o local por terror ou náusea, e um cavalheiro presente desmaiou."

Embora o corpo não tenha sido reanimado, Ure atribuiria essa falha ao fato de o homem ter morrido de lesão corporal grave durante a execução. Ele insistiria que o método em si teria funcionado com um cadáver que não estivesse tão danificado. Na verdade, Ure passou a dar palestras extensas sobre suas ideias e publicar um panfleto sobre o assunto, embora a maioria da comunidade científica dominante o visse como um charlatão. No entanto, a ideia de usar a eletricidade para trazer os mortos de volta era tão atraente que as pessoas não paravam de falar sobre isso. 


Outros experimentos se seguiram , por vezes resultando em espetáculos macabros nos quais os cadáveres se incendiavam, desmanchavam ou derretiam mediante um choque poderoso. Há relatos de experimentos públicos nos quais a descarga elétrica se espalhou atingindo curiosos que estavam mais próximos que foram fulminados. Em outro experimento, em Devon, um incêndio causou pânico e deixou feridos. Isso levou as autoridades sanitárias a restringir a presença de pessoas aos "espetáculos de ressurreição", como ficaram conhecidos esses experimentos. 

À despeito das falhas sucessivas, alguns cientistas respeitados como Sir Humphry Davy, um químico da Cornualha, acreditava que era questão de tempo obter o sucesso. Ele diria sobre esse misterioso e novo reino:

"A composição da atmosfera e as propriedades dos gases foram determinadas; os fenômenos da eletricidade foram desenvolvidos; os relâmpagos foram tirados das nuvens; e, finalmente, uma nova influência foi descoberta, que permitiu ao homem produzir a partir de combinações de matéria morta efeitos que antes eram ocasionados apenas por órgãos animais. A reanimação não será apenas conquistada, é questão de tempo até ela ficar à nossa mercê". 


Curiosamente, no mesmo ano em que Ure realizou seu experimento macabro, Mary Shelley publicou seu clássico de terror gótico Frankenstein, que foi profundamente influenciado pelo galvanismo e tem alguns paralelos assustadores com esses experimentos. 

Shelley escreveria no seu imortal clássico de reanimação:

"Talvez um cadáver pudesse ser reanimado; o galvanismo havia dado sinal de tais coisas: talvez as partes componentes de uma criatura então pudessem ser fabricadas, reunidas e dotadas de calor vital."

A essa altura, havia muita discussão ética sobre a eletricidade, uma percepção de que ela talvez fosse uma espécie de "faísca da vida", não apenas útil para trazer os mortos de volta, mas também capaz de criar vida do nada; processo conhecido como abiogênese. Os defensores dessa teoria acreditavam que a eletricidade era o componente vital para iniciar a vida o que gerou ainda maior debate, com cientistas sendo acusados (ou afirmando categoricamente) ter ao seu alcance uma faculdade única, até então exclusiva de Deus.

O uso da eletricidade estava se ramificando em outras maneiras de afetar o corpo humano, como o uso de choque elétrico para curar a insanidade, agora conhecido como terapia eletroconvulsiva, e uma vasta gama de outras condições médicas. A eletricidade se consolidava cada vez mais como um meio através do qual tudo era alcançável. 


Embora ninguém tenha sido trazido de volta dos mortos com galvanismo, o uso da eletricidade abriu o caminho para a aplicação moderna de eletricidade ao corpo humano para fins médicos e o estudo das propriedades elétricas de células e tecidos biológicos, chamados eletro fisiologia. Ao mesmo tempo, ampliou nosso conhecimento das vias neurais e ao monitoramento da atividade elétrica do coração, dos músculos e até do cérebro. Os teóricos afinal não estavam inteiramente errados, a eletricidade era partícula essencial para a vida. 

Ainda que a eletricidade nunca tenha reanimado um cadáver, o trabalho de Galvani e até de Ure estabeleceu um legado duradouro na medicina e no campo da neurociência moderna. E tudo teve início de forma muito estranha na história da ciência médica, um olhar sombrio sobre o desejo da humanidade de mergulhar em reinos que não entendemos, e talvez não sejamos feitos para entender.